digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
terça-feira, outubro 31, 2006
Duro
Sou duro de olhos quentes, arrebatador. Seco! Hoje já não há crime assim. Só eu sei segurar numa pistola com classe e beijar como um patife.Guardo o tempo num armário relicário e não tenho medo. Não escondo o medo, não o tenho. Talvez haja uma sombra no amor, o que me dá força e me torna duro. Sou aditivo com as mulheres. Sou implacável. Sou ambicioso e cru. Só não digo que sou feliz.
NOTA: O NOVO BLOGGER A APAGOU O VÍDEO E AINDA NÃO PERMITE COLOCAR VÍDEOS. A ANIMAÇÃO VOLTARÁ ASSIM QUE POSSÍVEL.
segunda-feira, outubro 30, 2006
Desamor
Não me ames. Não quero o teu amor. Quero o teu corpo e nada mais. Serás um estorvo na manhã seguinte. Já não estarei para te ver, terei partido. Abomino acordar e ver a minha paixão momentânea. Amo-te por instantes. Bebo-te com vinho tinto e quero-te. Quero-te a carne. Depois parto. Deixo-te no leito. Gosto de saber da tua infedelidade, da tua traição a quem amas de verdade. Gosto do meu poder. O meu sexo não é grande, é mágico. Emana encanto como um isco. Não o sei definir. Por isso encanto-me e não preciso de espelhos, basta-me a sombra. Por favor, larga-me e não te apaixones por mim.
Nota: Por o Blogger me ter apagado (?!) o vídeo e o texto vi-me forçado a colocar uma segunda versão. Para não perder os comentários, está abaixo o antigo artigo, embora vazio, e os respectivos comentários.
sábado, outubro 28, 2006
Cyborg
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Se vejo fosquices é porque tenho uma visão digital encalacrada. Só um cyborg tem uma visão digital. Nunca desconfiei de mim. Não sei se me devo abater. Não sei se é possível abater-me. Não sei se me posso abater.
É estranho ver com quadradinhos à frente. Se não fôr um cybor devo ter ingerido veneno ou álcool ou é a mesma coisa ou gostava que fosse a mesma coisa. Porém, não bebi. Estas visões digital e afectada provam que existem e que existo, sendo eu um deles. Não sei, por isso, se sou mortal ou perecível. Vou-me quando me acabarem as baterias, sendo que, com elas, vão todas as minhas histórias de infância e canções de embalar.
Se eu fôr um cyborg tenho tudo a perder, menos a vida, é claro! Não sei bem se me importo, só não queria ter a distorção digital tenho agora. Nisto tudo, não sei onde pôr a memória nem o amor. Onde me posso arrumar?
sexta-feira, outubro 27, 2006
Luxúria
Ando febril contigo. Sonho-te acordado e a dormir, desde que te vi, embora nem te conheça. Embora não te conheça sei do teu corpo, vi-o muitas vezes, menos do que o desejei. És pecado e tenho o pecado todo. Não me importa se te gastas em noites e eu se vivo os dias, quero atirar-me para o teu fundo e ir contigo até onde fôr o fim. És vício e sem ti não passo, ainda que seja eu um desconhecido. Vi-te nua e nem espreitei. Estás nua quase sempre, e eu sempre sedento de te ver mais nua, como se fosse possível estar-se mais nua. Não te amo, mas quero-te. Preciso-te. Não vivo bem sem ti. Desgastas-me e gosto de me gastar em ti.
O carniceiro e a minha carne num talho
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Não sei se gosto de estar vivo ou se a vida vai por mim e estou habituado a estar e respiro, porque os meus órgãos assim mo orbrigam. Contudo, tenho um corpo e ele vibra com os prazeres dos corpos. Gosta de comida, de sexo e do toque.
O meu corpo aprecia tanto o toque que, se pudesse, até poderia doá-lo à ciência ainda em vida, para que fosse dissecado, mexido e analisado, mesmo que retalhado.
Sei que muito provavelmente sou mortal e um dia farei um trato com um notário, um padre exorcista e um carniceiro. Ao primeiro entregarei o meu testamento e aos outros tarefas: Porque ando cansado da vida e tenho incerteza da morte, tentarei ir. Pedirei ao talhante que me retanche e conserve. Saberá o prior, nos seus exorcismos, quando do meu regresso, porque não acredito na morte e teimo na vida. Quando estiverem certos da minha volta, sentem-me a uma mesa e sirvam-me a minha carne da vida anterior. Sei que não demorarei em voltar e, no frio, tudo se conserva por muito tempo. Que sabor terei? Não me comerei todo, e todo eu estarei à venda para gáudio dos curiosos e lucro do carniceiro, padre e notário. É um trato que um dia hei-de fazer.
Fantasmas vermelhos
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Sei que gosto muito de Guilbert & George. Sei que ando a escrever sobre as relações humanas e a pairar na arte. Dou por mim a olhar para várias imagens desta dupla sem saber qual escolher... sem saber o que dizer... sem saber, tampouco, o que sentir. Não sei se é superficial, se é apenas uma película, um brilho ou se é um espelho, um cubo de gelatina, uma ferida com espessura.
A amizade, o trabalho a dois, a arte e a homossexualidade que papel têm? Como se conjugam? Que triangulações fazem, que tintas mesclam? Que preconceitos accionam nos homens tolerantes? Acabo por escolher uma imagem polida. Polida? Nâo! Inofensiva. Escolho uma imagem pudica. Uma imagem sem nus, sem pénis, sem intimidades, com poucos desafios à minha integridade e heterossexualidade. É uma imagem vermelha, como uma anedota, com dois diabretes felizes, nada mais. O desafio está contextualizado dentro de mim.
O ciclo do pobre monge
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A minha castidade é voluntária, mas só acontece porque ma impuseram. Por mim continuaria originalmente a pecar. A minha fé é feita de claras em castelo, que no descuido do pasteleiro e volta a perder a armação e a alvura. Assim são os meus votos e promessas. Sou um fraco monge.
Os meus amores são absolutos e quasi incondicionais. Depois morrem-se nas mãos, à minha vista, comigo à cabeceira do seu leito de morte e sem perceber o fenómeno do seu finado. Os amores em mim não medram. Por isso torno-me monge.
Mas nem o amor do Divino me prende por completo e completa é só a minha leviandade, que me leva a trocá-lo pela paixão das carnes das mulheres. Enamoro-me e logo se vai a castidade e volatiliza-se a poeira de santidade que, por ventura, poderia ter-se depositado em mim.
Dispo o hábito e meto-me na cama com a desejada, até o amor ser totalmente consumido. Na cinza não renasce uma Fénix e sobrevém apenas tristeza, incompreensão, lágrimas e partidas. Visto novamente o hábito e, envergonhado, cubro a cabeça com o capuz para que nem o espelho veja o meu rosto. Quando me refaço das dores mostro a cara, é quando volto a encantar e a enamorar. Não há emenda nem penitência.
quinta-feira, outubro 26, 2006
Olhos nos olhos em casa
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Vejo-te na pureza de olhos para ter a severidade da crítica e a doçura toda. Neles vejo os filhos que fizemos e os que perdemos nas vicissitudes. Neles sei se tremes e se tens frio ou se me queres. Neles estou reflectido e sei se estou bem, porque a tua boca diz o que vêem. Não me mentem e de frente dizes-me tudo.
Esta é a nossa casa e daqui está o todo nosso até o ser só por estar ao alcance da vista. Daqui até adiante há o conforto do recanto e o incómodo de algumas lembranças. Sei e sabes o significado de tudo, sabemos o que é, e o que significa para cada um. Tudo isto é o nosso casamento. Cumplicidade feita de olhos nos olhos. Gosto de de ver de frente.
quarta-feira, outubro 25, 2006
Namoro
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Não sei se é fluída a relação que tenho contigo ou se é densa. Não sei se somos parecidos e, por isso, estamos bem, ou se somos tão diferentes e nisso reside a a razão da harmonia.
O beijo vive da contradição e da concórdia e as mãos dão-se por vontade própria e os corpos precipitam-se porque nada mais podem fazer. O teu cheiro e texturas, os olhares e melodias e a presença são tudo quanto preciso para viver. Não sei se poderia viver sem ti. Sei que viveria, mas com que sentido? E tu sem mim? Não me canso e tenho em ti um espelho na vontade, modos e gestos.
terça-feira, outubro 24, 2006
Por que fumo
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Um charuto não é um cigarro nem um Vintage é um vinho qualquer. Fiquei a desejar aquele momento. Fico muitas vezes a lembrá-lo, no prazer e na meditação. Repito-o quando posso, quando me deixam, quando vale a pena. Só quando a batalha justifica. Não há refeição digna sem uma grande amizade ao lado, e até a mais simples pode ser um monumento. Em tudo têm de estar afectos. Só na grandeza acendo um charuto.
segunda-feira, outubro 23, 2006
Um país bipolar
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Este país maníaco-depressivo tanto dança frenético um vira ou uma chula como se comove nos fados ou no cante. Deve ser porque durante gerações comemos côdegas com água, dividimos uma sardinha por família numerosa e festejámos fartos em carnes e tudo o mais que vinha da horta.
Tudo o que fazemos é o melhor do mundo... pelo menos para nós... pelo menos até ser comparado com o tudo mais feito lá fora. Depois vai-se o amor próprio e a firmeza, e entra tudo sem filtro: abandalhamos tudo, esquecemo-nos de quem somos e aldrabamos o passado e a memória.
A nossa memória está cheia de mentiras. O nosso vinho não é o melhor do mundo e o azeite também não. Nem sequer a nossa gastronomia... não é mais rica e variada do que outras, nem tampouco muito original. Entre a ilusão eufórica e a desilusão taciturna há espaço para um país... e cabemos lá todos.
domingo, outubro 22, 2006
Eps! Pra cima!
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Quando estou aflito olho para cima e busco nas estrelas uma frase que me guie. Quando era mais pequeno olhava para cima e pedia colo. Olhava para cima para pedir consentimento. Olhava para cima para o pai e para a mãe.
Por que haveria de olhar para os pés quando me perco? Eles nada me dizem e apenas obedecem ao que lhes ordeno.
O que gosto na espécie humana não é o o a distingue dos animais, mas o que a aproxima das outras espécies. Revejo-me muito nas minhas gatas e lembro-me de muita gente quando lhes presto atenção. O mesmo acontece com os cães. Admiro a curiosidade dos cavalos e a ternura dos burros. Fascinou-me a inteligência escassa e o reconhecimento dos peixinhos de aquário. Uma vizinha tem um pato afável. Um dia destes adopto um porco.
Olho para cima e devia olhar mais vezes. Não sei quanto vale a minha vida, mas sei que não vale mais do que a dum porco ou que a dum pato.
sexta-feira, outubro 20, 2006
Coisa nenhuma
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Outono
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Uma casa sem janelas
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Tenho as gavetas fechadas apenas por estética, porque podem ficar abertas. Não escondo nada. Nem mesmo a pele. O tapete limita-me o espaço e faz fronteira também aos outros, mas não às coisas naturais, porque essas não conhecem as linhas dos homens.
Sento-me a ler como se estivesse em casa. Estou em casa, só que estou na rua. Falo alto, falo como quero, como se fala em casa, como se fala na rua. Não é grande nem pequena, a minha casa feita sem tecto nem paredes. Não lamento não poder dizer que a minha casa tem vista para ali ou para acoli, porque, como é na rua, ela está onde estou e ponho-a onde quero no tempo que me apetece. A minha casa não tem lado de fora nem lado de dentro, é um disco, é plana. Só tenho pena de não ter o parapeito duma janela para me debruçar.
O Diabo é meu amigo
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Tenho-o em mim à solta em diabruras infantis e perdições ridículas. Corre atrás de quimeras e outros animais fantásticos, atira-lhes pedras e abraça as felicidades e sufoca-as. O meu Diabo estraga tudo onde põe as mãos e suja tudo por onde passa com os seus pés de cabra. Quando está feliz ou inquieto dá ao rabo como um canídeo, e usa a cauda como um chicote quando se zanga. O Diabo é um animal de estimação. Não acredito que exista e tenho-o dentro de mim. Nunca o vi sem ser em ilustrações.
É um sedutor, o Diabo, mas acaba sempre sozinho, juntado namoradas e casos inofensivos de seduções sem saída. É um cómico. É o riso solto, o Diabo. É um filho de Deus, que não sabe ou não quer acreditar que o é. É uma criança grande, esfomeada por diversão.
terça-feira, outubro 17, 2006
Que hei-de fazer?
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O meu coração bate por teimosia, longe e escondido, num segredo, numa caixinha em Edimburgo. Quem sabe se lá está? Não digo! Não digo para que não o possam ir buscar. A minha boca pode prometer amor e paixão e o meu corpo indicar tesão, mas o coração ninguém terá.
Poderei mentir nas juras e, se com uma arma apontada, entregar os códigos dos cartões bancários, mas não revelarei o lugar onde está o meu coração nem o darei a ninguém. Quem pensar que o leva terá apenas um músculo de imitação.
Porém, doem-me os olhos de chorar e a alma quase sangra. Um dia arranco-os e guardo-os num relicário que esconderei num nicho onde possam admirar o Tejo. E a alma, vendo-a ao Diabo, para que o corpo não a encomode.
Canto de solidão
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Quando o vazio satisfaz, a vastidão duma sala serve de horizonte largo. Uma casa basta-se como mundo ou até mais. A cabeça é grande como o universo, mas as pernas não querem ir mais longe do que aquele lugar perto do canto.
Nem música nem silêncio nem coisa nenhuma, só as palavras da pequena cabeça a doerem e a passarem sonoras em círculo. Não há como não estar perto do canto.
A solidão é um vazio cheio, saturado, ensopado de pequenas coisas agigantadas, um interior maior do que a pele e um léxico impotente face à repetição. É um canto monótono, uma canção triste.
Mona
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Não vi a Gioconda e nunca a verei, porque haverá sempre pressa, correria, barulho e confusão. Não a terei em frente com calma. Não a terei e não será de ninguém. A Monalisa não é de ninguém, porque é de todos.
Não vi a Gioconda e nunca a verei, porque haverá sempre vidros à frente, e, antes que a veja, verei as superfícies lisas, transparentes, mas não invisíveis.
De que me valeria vê-la se não a posso ter para a ver sempre que queira? A memória é atroiçoável e não há cor, traço ou composição que resista a um minuto de lembrança, e a minha fantasia é vasta... talvez tão imensa quanto a de qualquer outra pessoa. A Gioconda não perdura na memória, tal como qualquer outro quadro. Por que haveria de a querer ver se não a posso lembrar nem a ver sempre que queira?
Já a vi em gravuras, em estampados, em selos, em reproduções várias que valem tanto quanto a própria Monalisa, porque retratam a mesma mulher ou homem ou enigma, porque se reportam ao mesmo. Uma frase vale por si e importa quem a cria e não quem cita. Pois faço o mesmo com a Gioconda: importo-mo com Leonardo e não quero saber se a minha preciosidade é a verdadeira ou uma reprodução, pois ela vale como citação.
Não vi a Gioconda e não tenciono vê-la, a menos que queira gozar com as exclações de pasmo dos tolos que a vêem.
segunda-feira, outubro 16, 2006
Bizarro lagarto
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Entre astróides
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domingo, outubro 15, 2006
Estranhezas
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sexta-feira, outubro 13, 2006
Desesperação
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quinta-feira, outubro 12, 2006
O largo das arcadas
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quarta-feira, outubro 11, 2006
Saudades
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Lembro-me duma fonte, um geiser, e de rugidos murmurados. Lembro-me da festa da vida. Por mais que se pareça consigo, a água nunca é a mesma nem se imita como um espelho, cai e flui, esvai-se num rio, faz-se vida, espalha alegria e frescura, solta brilhos e mata a sede. Quando represada, apenas espera para sair. A vida. A água. Ninguém mata a água.
Tenho saudades do meu menino ainda antes do ver. Ainda antes do lavar com a água mais limpa. No mundo em que está, sorri e chora na espera duma nuvem que o traga. Fico-me com as bicadas dos corvos e ele com os abraços dos anjos.
Fui
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segunda-feira, outubro 09, 2006
Empalamento
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Tento ser ordeiro e bom, mas quando me lembro de algumas situações apetece-me empalar certas pessoas ou castigá-las com requintes de crueldade. Gostaria de lhes fazer o que tentaram fazer-me e só não aconteceu porque esguirei-me, ferido, doente e humilhado. Por isso, tenho o direito à vingança. O nojo limpa-se com sangue e paga-se com a morte; um sacrifício.
É mentira, mas tenho de justificar as imagens e dar azo a que víboras possam alimentar-se e gerar peçonha para de mim dizerem mal. O que importa a mentira se só vemos o que queremos ver e amamos sempre sem condições?
Dor nas costas
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Deixo-me ficar e permito que a mim se encostem para receber calor e conforto. Será isso carinho? Em mim há aguezas e momentos ásperos que aleijam. Serei um selvagem?
Preciso de esticar as costas e deitar-me. Não aguento a dor que me curva as costas e tende a humilhar-me. Gosto das correntes de água, mas não das de ar. Gosto de vento na cara e ter o cabelo a voar. Não onde está o limite e se souber não sei se o respeito. Sou capaz de dar um passo além da falésia.
domingo, outubro 08, 2006
Apesar do Outono
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Apesar do adeus, tenho o coração no mesmo sítio e de lá não o tiro. Os meus olhos cruzam o céu e também choram. A traquinice do olhar tempero-a com os bastantes cabelos brancos que me vão pela cabeça e barba.
Apesar da traquinice do meu olhar noto-te uma infância nessa fuga... nessas tuas fugidas. Andas sempre a correr e passaste a vida fugir. Em dia algum encontrarás as tuas costas e jamais te conseguirás verdadeiramente abraçar. Apesar da traquinice no meus olhos, vejo com cansaço a repetição das tuas fugas.
Apesar do calor, este é o tempo do frio a chegar. É um tempo de despedidas, mas não é fugas. Estou aqui a abrir os braços e com os beijos contados. É Outono e, apesar disso, há calor.
sexta-feira, outubro 06, 2006
«Postal da estranja» ou «Não há pachorra para esta conversa»
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A comida também não se compara àquela que temos por aí, quando fôr pelas férias espero umas belas bacalhauzadas, uns cozidos à portuguesa e o belo do bife. O mesmo acontece com a cerveja; não há como a Super Bock e até da Sagres sinto a falta. Já do vinho nem se fala! Estes tipos sabem lá o que é vinho...
O tempo é uma porcaria, está sempre a chover... não é como Portugal, onde faz sempre Sol. Por mim aguento aqui uns tempos e depois volto. O nível de vida é muito bom e não se compara ao português, mas tudoi o resto é uma seca. Pela televisão vou seguindo o futebol e vejo que vai tudo na mesma, e a política é a mesma desgraça de sempre. Esse nosso país não passa do mesmo. Enfim!
Bem, despeço-me aqui. Está tudo bem e espero que me mandem notícias depressa e me façam uma visita. Beijinhos e abraços para todos.
Vertigem
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quarta-feira, outubro 04, 2006
A noite feliz
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Para mim chega a luz que me dá, e tanto se me dá que chova, porque o importante é a noite. Se houver um frio a estalar os ossos tenho uma vida mais forte, porque sei que ainda posso morrer ou partir-me.
O bruá das ondas, o troar dos trovões não me amedrontam mais do que o uivo ou um silvo. A noite é uma solidão companheira e um golpe de esvaziar a vida. Não me importo desde que a sinta e tenha alguma dor.
Electrizante
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Engano
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Nota: Acho que ainda não gosto de Rousseau
As horas em frente
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Passo horas em frente dos teus olhos e escuto-te, enquanto tragamos vinhos. Fazemos festas que ninguém mais sabe. Tu fumas cigarros e eu charutos e os fumos penduram-se nos óleos e nas paredes. As peredes vazias têm os meus tédios quando não estás.
As horas passam escorridas e suaves, entre beijos que não se dão. Vão garrafas. Há festas com amigos, alguns presentes e outros evocados. Os fantasmas estão sempre. Nunca vamos sozinhos para a cama.
terça-feira, outubro 03, 2006
O que gosto no meu amor
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O que gosto no meu amor é ser parecido comigo.
O que gosto no meu amor é não ser igual a mim.
Admiro-lhe a coragem e o desalento, torna-a forte e torna-me necessário.
Admiro-lhe o riso e a seriedade, e não vale a pena explicar a importância duma e doutra coisa.
Importa, sim, exclamar que amo o meu amor e que ele é tal e qual o idealizei: imperfeito. É assim que gosto e o quero!
Gordosinho
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Sou o boneco que fizeram divertido e reino no quarto da menina. Tenho vida e pulgas. Ela tem um gato e, certamente, foi o bichano quem mas passou. Não consigo coçar-me nem sei se posso ou devo passá-las a quem comigo brinca.
As pulgas tiram-me o sorriso que gosto de ter... mas ninguém repara. Nem mesmo elas nem o bichano. Saltico e não consigo coçar-me com as minhas mãos redondas e fofas... e se alguém tentar coçar-me só me fará cócegas...
Iluminação
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Não sobrevivo a mim nos dias mais felizes. Sobrevivo apenas aos dias tristes. Recupero dos meus escombros quando me deito e ao acordar. Renasço e morro diariamente. Quem me dera morrer... morrer em definitivo.
Nos dias iluminados sei onde ponhos os pés e vejo a estrada um pouco mais à frente. Nunca alcanço aquele marco na estrada onde ponho o objectivo de estar. Confundo muitos verbos. Treino gramática. Confundo muito os verbos. Não distingo o ser e o estar. Não distingo o ser e o ter. Não sei se distingo o estar e o ter. Tenho de treinar mais gramática. Odeio estudar gramática. Odeio viver.
Gostava de escrever com luz, mas ainda não sei usar os dedos nem pensar pela própria cabeça. Tenho muitas dores. Os senhores das palavras são felizes na imensa sabedoria. Não sei das dores que tiveram a pari-la.
A verdade
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Estou aflito num prazer inexplicável, que só compreende quem ama. Não entendo o começo nem a razão. Não há lógica para o debruçar das cabeças ao luar nem para o prazer em contemplar a pele de pétalas ou os lábios de fantasia.
O meu amor faz-me doer com a sua crueldade e frieza. Corta-me a carne com um gume afiado e salga-me... por prazer. Mostro-me, confiante, em carne viva e o meu amor vê-me... por vezes puxa-me os tendões, os músculos e os nervos. O meu amor já me fez sangrar por brincar com os meus nervos e brutalizar as minhas feridas.
O meu amor não pede perdão... nem perde tempo. No dia em que partir não terá saudades do passado nem irá contemplar o prazer pretérito, nada fará olhar para trás. O meu amor não pede perdão, seria perder a alma e perder o prazer ganho em ferir. Ajoelho-me e humilho-me para não o perder eu a ele, porque gosto e sei que no amor o orgulho é uma estupidez. Não me importo que o meu amor não me corresponda. Finjo que não me importo. Fico à espera do dia de ser abandonado e rezo para não o ser. Até lá amo absolutamente. Só se ama o que se tem.
Tejo
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Não sei como se rasga a água, de que é feita a espuma salobra do Tejo. Não me deixei ser marinheiro. O Tejo não tem águas brandas e os ventos são aflitos. Queria um rio ainda mais largo para o alcançar com pontes mais vastas.
Não vi golfinhos nem fragatas nem varinos a encantarem as águas azuis do Tejo. Mas são tão azuis hoje como os encantos de então. Tenho saudades de Lisboa quando passo a noite fora. Não há frio que me amedronte quando perco os passos nos cais... E o rio vai para o Atlântico como quem faz um filho ao mar. Não me entedio de ver.
O menino gordo
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Estou além de mim e sempre estou aquém de todo o vento. Não chego a correr, porque não se corre sentado. Vivo sentado no medo para que o medo não se possa erguer. Esmago o medo com o meu peso de menino-monstro. Sou um monstro sentado. Serei sempre monstro, porque estarei sempre sentado. Tenho medo de me levantar.
Se o mundo olhar para mim fixamente, disfarço-me de mulher e dissolvo-me na banalidade. Deixo a minha imaginação disfarçar-se de coisa qualquer. Sobre mim voa toda a fantasia e deixo todo o mundo existir à minha volta. Deixo. Concedo à realidade o direito de existir.
segunda-feira, outubro 02, 2006
Nu descoberto
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Ilumino o palco da loucura onde a vejo e onde se esconde o nu da minha perversão, que me erecta e faz florir.
Sei que se revela, porque violado. Sei que se esconde, porque obrigado. Sei que se apaixona, porque aprisionado. Sou o carcereiro do nu. A luz é a porta e a escuridão as paredes. Este é o meu cio. Canso-me sempre na satisfação e nunca me satisfaço. Não sou completo sem o nu que aprisiono nem livre enquanto ele existir.
O rapaz das cartas
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Gosto de baralhos e brinco com as cartas todas ou só com as figuras. Brinco com o destino. Atribuo significados a cada uma, às suas posições, sequências e triangulações. Sou um mago. Espreito o futuro às claras ou na luz escura das velas.
Mudei e guardo os baralhos numa gaveta. Brico às paciências. Brinco ao que já não tenho, ao que desconheço, ao que não me lembro, às minhas fúrias, à minha solidão, à minha paixão... Por vezes choro por me encontrar desencontrado.
Guardo as emoções e não jogo. Jogo-as para trás das costas. Esqueço-as. Escrevo-as em cadernos fechados. Solto-as em lençóis de camas vazias. Abraço-as em almofadas com recordações. Molho-as com choros. Brinco com cartas.
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