digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, junho 29, 2015

O resto é água

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Olhar de cão. Ouvido de gato. Estômago de pecado. Fígado de batalha. Pulmões entediados. Coração de cristal. Olhos de janela. Cérebro de galinha, Cabeça de basalto.

Queres mesmo que te responda?

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– Há tantas palavras para preto, mas a densidade é tal que conhecemos poucas. Mesmo os olhos são incapazes de abarcar toda a dimensão. Penso que as guardo todas num pantone íntimo.
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–  E o branco?
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– O branco é a mesma coisa, mas não interessa nada. O branco não interessa nada!
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– Por que não?
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– Porque não o vejo nem sinto nem pressinto, é uma coisa, uma coisa plana sem nada, que pode tudo e não tem nada.
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– É como a esperança?
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– A esperança tem uma semente e o branco não tem nada.
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– E as outras cores?
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– Só o azul importa, porque é o belo. Fora do azul há o escarlate e o caminho do lilás ao roxo.
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– As outras cores?...
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– Importam o mesmo que o branco. Ou lhe são úteis dando algo de si ou misturam-se como cães rafeiros em cópula, numa propagação irrevogável.
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– Irrevogável?
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– Sim! O que mais há?... Amarelo, e amarelo é só amarelo. O carmesim tem dois filhos felizes, o escarlate, feito com o azul, e o laranja, arranjado com o amarelo. Ao verde, nem a beleza do azul o salva. Amarelo é amarelo, e tanto faz. Carmesim é carmesim, e tanto faz. Laranja é laranja, e tanto faz. Verde é verde, e tanto faz.
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– Então, e o castanho?!
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– Queres mesmo que te responda?

E até

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Queres mais do que não te dei e sei que nisso pensaste e até te tocaste. O que fizemos não sei, mas sei o que fizemos – o que não é a mesma coisa. Enquanto pensas, fechas os olhos derretendo o enigma como um rebuçado e.
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Confesso-te que gostei e gostando gostaste que tivesse gostado e eu a mesma coisa.
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Veste-te para que te dispa novamente e te dê o que me pedes, sem que digas e ou nos vejamos.
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Sei que pensas nisso e logo, quando a casa estiver calada, vais abafar os risinhos e sons rebeldes porque os demónios dos dedos fazem o que desejas te faça.

Que números têm as palavras palhaço e palhacito no pantone de negros?

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Chamaram-me palhaço. Era a brincar, disseram, e que era com ternura. Chamaram-me palhacito. Era a brincar, disseram, e que era com ternura. Não é por odiar palhaços e arlequins que. É pela verdade das palavras, espelhos que me impõem. Palhaço, sim – triste pela condição. Mais cruel é palhacito – triste pela condição de nem chegar a ser adulto.
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Não conto piadas porque sou palhaço. Conto piadas para poder ser amigo.
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– O que sou? .
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– Palhaço. Não há volta a dar. Pelas piadas e pela triste infância em que vivo.
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Pergunto e respondo, porque ninguém dialoga com os palhaços quando não estão pintados.

A vontade da água

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A água do mar vai onde quer e a doce às vezes.

O inenarrável é contável e a tristeza é tóxica – como se fosse o texto derradeiro

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Nado-morto nasceu, e morto viveu. Deixou de mamar, de arrotar e bolsar. Foi o bebé mais bonito que viram. Havia colos e a avó era outra mãe e a outra mãe era a outra mãe. Ria-se e fez birras, e como sempre essas lembranças apagam-se do pensamento da mãe – de todas as mães.
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Usou calças-à-boca-de-sino e foi fotografado a preto-e-branco e a cores na praia, no campo na cidade e no Carnaval. Acreditou no Pai Natal até tarde, até depois dos colegas lhe terem assassinado o amigo das barbas. Tinha um olhar doce e a doçura não o defendeu dos pontapés dos colegas de turma, as canelas estavam sempre negras e não se queixava à professora nem à mãe, mas a mãe via e contava à professora que não via nada nem fazia nada para ver.
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Gostava da praia e teve de engordar por causa do mar, porque uma bactéria dizimara milhões. Era o campeão dos carrinhos-de-rolamentos e jogou mal futebol, mas com os nabos da turma fez uma equipa vencedora e por fim perdeu. Um dia disse mal do melhor amigo e o venerando mais pequeno assinou a declaração com palavras de assentimento, e reconciliado espancou o pobre-diabo, e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida. Depois odiou a escola preparatória, um lugar de vómito, e ingressou na secundária, onde continuava gordo e foleiro, embora ténis de marca e roupa com etiqueta, e cresceu em altura, ficou esbelto, bonito e dandy.
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Namorava e não namorava ninguém e à noite os demónios desengaiolavam a líbido e acontecia sempre qualquer coisa que se poderia chamar de namoro, que durava umas horas, talvez três dias ou até um mês, mas aconchegado em mais afectos e desejos. Na escola decidiu trair a vocação e encontrar passagem noutra coisa, noutras coisas que até gostava. Adeus às artes, veio a história e ainda antes as notícias. Tão imaturo, o jovem adulto dos mais palermas. Tão infantil que mimetizou nos cigarros e whisky.
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Sempre os demónios à solta, desprendendo a líbido, fazendo dele um crocodilo manso, que magoou sem perceber nada, chame-se-lhe egoísmo ou imaturidade, e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida. Tão infantil que um dia acreditou no amor eterno vivido na carne.
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Tão infantil que acreditou na subida permanente e na satisfação no trabalho. Um dia caiu e houve poucas mãos. Respirou e um dia perdeu quase tudo e o amor, e uns dias mais um grande amigo matou-o sem explicação, e matou-se depois e sobreviveu para continuar a morrer, suicidando-se por teimosia, e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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Felicidades breves e pela líbido conquistou relampejante um amor, dois amores, três amores, quatro amores, cinco amores, seis amores, todos desamores e ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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Dinheiro. Uma risada de tristeza e de lágrimas rasas nos olhos, mas em repuxo na intimidade. Trabalho? Incontratável, imprestável, evitável – quando um patrão perguntou, a amiga disse que era complicado. A outra empresa e contratar e o amigo calou-se, não se sujaria recomendando, pois o afecto para uns é cunha e para outros cruz e nem vale a pena falar de competências. Podia ter sido e ter sido depois ainda, mas o amigo calou-se e ele culpando-se ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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Sentido remorsos do que não fez nem deixaram fazer. Inviável sentou-se em tédio e insónia, e em insónia prolongada viu e viu que pouca coisa valera a pena. Incomodado no tédio morreu constantemente nos intervalos em que se não tentou matar ou esteve dormindo. O sono – é antecâmara da morte – o melhor remédio para presente, passado e desejo, e culpando-se ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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O sono quando não aleijou foi aliviando e os minutos tornaram-se balas à queima-roupa, e foram anos e anos e anos e anos e outros virão. Depois um amor e de tanto imerecimento acordou com vontade de adormecer, mas queria apanhar o navio-fantasma. Ficou com dores de arrependimento para o resto da vida, com dores alheias, desejando a morte, mas preferia inexistir, porque inconseguiu muito.
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Dos pontapés na escola, à traição inexplicável, às quedas e às poucas mãos da ajuda, e outras poderiam ter estado, mas ele era complicado e o melhor foi não recomendar, e outras poderiam ter estado se o silêncio não lhe tivesse sido mais útil do que o afogamento em pestilências do náufrago, que ficou com dores de arrependimento para o resto da vida.
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E dos seus defeitos, erros e falhanços, que foram tantos, ficou ainda com mais dores de arrependimento para o resto da vida.
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Quarenta e cinco anos e meio escrevem-se com as oito letras do falhanço. É o que acontece quando nasce um nado-morto que ficou para viver. As coisas boas são poucas, talvez dez e por pudor não conta para que não tenha mais dores de arrependimento para o resto da vida.
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Para repousar dorme e às vezes tem descanso e outras calvário, é melhor do que. Pergunta-se se a vida existe e se está vivo. Distrai-se inventando-se actor num teatro vazio, onde as cortinas de flanela negra têm buracos das traças e fantasmas de corvos observam e fantasmas de gente observam, dizem e gritam. É de arame, o veludo. A sala negra é de negrum, porque negrume é mais claro. Aí se esconde e lambe as feridas das dores de arrependimento, que viverá para o resto da vida.
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A Terra é redonda e dentro só há negro e fora também.

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Est vita coitus interruptus
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Nota: Se o latim estiver incorrecto, avisem-me.

Letra I


domingo, junho 28, 2015

Água

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Se digo, é uma maré de ondas grandes que me transpõe. Se não digo, fico em represa a transbordar. Afogo-me no rebentar irado da partida ou no cansaço de inalcançar uma margem.
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Quando era pequenino tinha colo e festas na cabeça. Agitavam-me devagarinho para que me acalmasse e fechasse os olhos em sonhos de miminhos.
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A vida corria magra entre seixos, fresca, transparente e limpa. Afluentes, os anos e as suas lágrimas encheram o leito, onde à noite me deito e desejo dexistir ou adormecer até chegar o sopro.
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Sinto muito e peço-me desculpa e perdão aos outros. Se uma luz viesse iluminando-me, para que lavasse, levasse em graça e esquecimento.
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Um copo de água fresca amolecendo pela noite do dormir e pela manhã ainda lá estar com pequenas esferas de ar aprisionado e eu longe.

sábado, junho 27, 2015

A máquina-incrível

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Em cada copo de vinho tento esquecer-me de me lembrar dos jantares felizes com gente infeliz ou que infelizmente.
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A memória mata.
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Em cada copo de vinho esqueço-me de me lembrar dos jantares felizes com gente feliz.
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A memória mata.
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Em cada refeição esqueço-me de orar agradecido por ter comida na mesa.
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A memória mata-se quando o desamor. A mesa apaga-se, porque a gula é segregada no cérebro e não no estômago.
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Quando compro roupa percebo que o Diabo conspira contra mim.
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Quando compro roupa esqueço-me de saber que o Diabo não existe.
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Quando compro roupa e tenho o discernimento de lembrar que o Diabo não existe enfado-me e irrito-me por não haver quem para me carregar com as culpas da gula.
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Prestem atenção:
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– O sumo de limão é doce.
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O doce também amarga e para isso basta alinhar, por ordem cronológica, as minhas camisas e calças.
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Canso-me de contar anedotas a mim mesmo.
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enfado-me por as saber todas.
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Desespero quando tento dormir e o Diabo – que se soltou na mente – matraqueia-me com:
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– Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
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Irrito-me por tropeçar sempre que pronuncio, ainda que mentalmente:
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– EBITDA.
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Tenho pesadelos por estar acordado. Ressono, tenho apneia e tesão. O pior são os pesadelos eróticos.
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Gostava de vomitar pela cabeça e de ser a Bela Adormecida rodeada pelas minhas gatas e o cão ao lado e quieto.
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Dormisse por cem anos ou duzentos ou trezentos ou que me encontrassem o corpo mumificado.
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Gostava de ter uma máquina-incrível. Uma máquina para qualquer coisa e que continuasse anónimo.
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Gostava de ser invisível e conhecer a nudez duma data de miúdas.
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Gostava de flutuar e ascender por degraus invisíveis.
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Gostava de ter poderes telepáticos ou uma máquina-incrível para conhecer a nudez duma data de miúdas – caso não conseguisse ser invisível – e que essa máquina me apagasse das câmaras de vigilância e sossegasse os alarmes e distraísse os seguranças.
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Gostava de ser rico. Gostava de ser rico e sem ser pelo trabalho. Ser rico porque sim. Ser rico e sem mérito, pois uma virtude chega-me e fico com a primeira para que outros tenham a segunda.
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Gostava de sair.

quarta-feira, junho 24, 2015

O que beber com Astor Piazzolla

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Um gin tónico para Piazzolla. Piazzolla para um gin tónico.

Diva balzaquiana

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As semideusas não deveriam ser balzaquianas.
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Nota 1: O autor da fotografia declarou que a imagem foi-lhe roubada e que amachucaram o corpo da antiga modelo Cindy Crawford. Assim, terão feito o exercício ao contrário do habitual. Independentemente de ser verdade, esta fotografia justifica a minha sentença.
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Nota 2: Visto John Russo não reconhecer a paternidade da foto tal como ela está, não coloco a indicação da sua autoria na caixa das etiquetas.

O dilema

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Há momentos que não se querem.
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O dilema da mudança de vida ou o remorso dum acto.
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O que terá sentido Henry Tandey?
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Entre o desacontecido disparo certeiro, quase a frio, quase à queima-roupa, numa vida ou.
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O ou deve ter sido uma tonelada de um pentalião de quilogramas. Quanto pesaria essa bala se tivesse corrido o cano estriado.
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Não há coisa certa que se diga nem moral para julgar.
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Quanto pesa mudar o mundo?

Chewing gum

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O passado é uma chatice, que não largo por arrependimentos e somo aos tédios de hoje. Não posso esperar por mim, ora chego cedo ou sou incapaz.
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É assim e é piroso:
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– A ansiedade é macia, uma pomba assustada batendo asas nas entranhas do corpo, mente e alma.
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O meu sono é escarlate. O meu sono é negro. No alto, o britango aguarda o desfalecimento e a pomba inquieta-se. Paro de respirar, respiro antes que o espírito se vá embora.
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É uma chatice, o passado. Somo-lhe os tédios e prometo-me os dias felizes que sei impossíveis.
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Digo com a cabeça:
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– Diz a Juno que quero soalheiro suave e uma brisa decidida, que com jeito leve o que a ventania é incapaz, a agonia entediada.
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Nem tudo o que se faz e pode ser feito. Na racionalidade o digo.
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Digo e não sei da racionalidade, se ficar ou de ir.
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O tédio indeciso é pastilha-elástica agarrada.
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Nota: O mundo está para acabar! Escrevi um título em inglês…

terça-feira, junho 23, 2015

Letra D


Letra D


Cabernet sauvignon

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Nada é tão belo quanto o dinheiro!
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Não quero ser banqueiro nem anarquista nem banqueiro anarquista. Quero ser rico, muito rico, rico até. Quero ser rico sem esforço e sem mérito.
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Inútil?!
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Inútil é nadar sem sair do sítio.
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Inútil?!
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Enquanto isso, ir de avião privado beber um vermute ao Mónaco ou entardecer em Beirute deixando-me ir na maré dum cabernet sauvignon.
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Nota: Vista de Beirute, no século XIX, de autor desconhecido.

Xabregas

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Cheguei ao quarto do hotel onde um candeeiro mostrava.
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Não via essa luz desde 1991, nas noites de Xabregas.
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Era dentro e fora, da entrada à saída e no caminho para as raves.
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Esquecera-me e dei pela falta no reencontro. Clandestina e secreta como as festas.
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Ainda num armazém de tijolo, ferro e vidro, entre Xabregas e o Poço do Bispo. Naquela beleza de indústria morta, bebia vodkas com laranja e beijava-a quando deixava – na festa do Frágil – e era sempre: cruzávamo-nos, vindos e indo sei lá, sorriamos e beijávamo-nos, e os pés continuavam.
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Essa luz conta-me o que sei mas não responde a perguntas.
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Como o carrinho amarelo da Corgi Toys – o favorito aos cinco anos e sugado por um ovni – que descobri na gaveta do móvel da sala de costura, essa luz.
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Toda a infância tão perto.
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A adolescência na luz dum candeeiro de hotel e órfã de nostalgias.
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Ainda assim, escreve-se com três letras.
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Nota 1: Olá ASC.
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Nota 2: Tenho ainda o Batmobile, mas perdi o Robin.
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O que fazer com um abacate

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Fazer guacamole é fácil, difícil é fazer rijo.

Mau

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Por vezes sou tão genuinamente mau que me pergunto para que tenho consciência.

Vudu

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Acho que fiz vudu contra mim.

A diferença entre negrum e negrume

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Acusaram-me:
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– Escreveste negrum em vez de negrume.
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Disse que por mim podia ser qualquer coisa, mas assinalei:
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– Negrum e negrume são coisas diferentes.
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– Como assim?!
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– Negrume é escuridão, mas admite a penumbra e a sombra.
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– E o negrum?
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– O negrum é o negro absoluto da alma ou do ânimo ou do espírito dum local ou duma consciência ou de índole.
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– É o preto?! Como o preto… ausência total de luz…
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– Não. O preto é quase impossibilidade e o negrum é verdade. Porém, pode dizer-se meta-preto.

«Os caprichos de Goya» nas Caves Calém

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Umas vezes estou contente e outras triste e para baralhar, ora voo em felicidade ou navego em sentido oposto. Francisco Goya é um daqueles artistas que me dividem. Não tenho uma verdade.
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Tenho certezas: abomino El Greco e Renoir, adoro… adoro? Adiante. Sou um chato!
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Goya é um pintor exposto no meu museu mental desde cedo, por via do apreço do meu pai. Na adolescência efervescia-me com a visão dos quadros «Maja vestida» e «Maja nua». Lembro-me de Manuel Jorge e duma professora na Escola Secundária de Gil Vicente, em Lisboa, enaltecerem-lhe a coragem da pintura.
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Coragem?!
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A coragem de denunciar os abusos do poder, do castigo da morte… Ou mais difícil, o carácter para não retratar, bem pintadinho e embelezando, quem lhe pagava o trabalho. Fazer isso em paz talvez fosse tão arriscado como em guerra.
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Se Francisco Goya retratou os Bourbon, que reinavam em Espanha, com toda a fealdade verdadeira, não deixa de ser notável o modo como a família coroada lidou com isso.
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Tal como Amnófis IV, ou Akenaton, e família se deixaram imortalizar com as suas deficiências corporais. A hidrocefalia, as barrigas desleixadas…
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Gostando deste artista, da transição entre os séculos XVIII e XIX, ou franzindo o nariz permito-me recomendar a exposição «Os caprichos de Goya», patente até 1 de Novembro, nas Caves da Calém, no Cais de Gaia. Pois bem, não fui, mas sei o que lá há. É como nos concertos: não se conhecem o alinhamento das músicas nem os efeitos de luz, mas sabe-se o reportório e o modo de estar em palco.
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Como se diz na promoção do «Rock in Rio»:
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– Eu vou!
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Nota: Para quem não conheça e duvide da pintura vernácula de Goya, fica o retrato da família de Carlos IV de Espanha.
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Zetário... a inutilidade duma palavra útil

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Zetário. Zetário serve para substituir o anglicismo teenager. Segue a mesma lógica: o «Z» vai do dez ao dezanove. Depois junta-se-lhe, como sufixo, «etário».
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É a palavra mais útil que criei… é tão complicada e de difícil percepção que, cada vez que a usei, tive de a explicar.
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Zetário…
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Esta palavra é um carro de Fórmula 1 com rodas quadradas e em marcha à ré.
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Nota: Se alguém souber de quem é a autoria desta fotografia, por favor, informe-me, de modo a indicar os créditos.

Na Terra redonda

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Quem me dera um país onde não houvesse memórias nem o lodo.
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Onde sopa fosse sopa e o sono de dormir.
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Sem precisão de sonhos nem de almofadas para abraçar.
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Sem Rei nem política, mas uma montanha de verde ao azul, por vezes de nudez coberta, e estrelas como coroa.
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Dói-me muito nos órgãos que pensam.
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A agonia pela vesícula esfarrapada, cuja serventia desconheço.
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Dói-me muito nos órgãos que amam.
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A agonia contida no apêndice.
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Quem me dera se esvaziasse, quem me dera se amputasse.
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Já fiz amor no restolho duma seara e fotografei o peito da namorada.
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Tão pequeninos.
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Fiz amor de janela recatada por cortina.
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Adolescente fugi pela janela na madrugada adolescente.
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Fiz sexo pensando que era amor.
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Fiz amor que era amor.
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Amei profundo e denso e morri no final.
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Enganei-me e fiz amor pensando que era amor.
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Amores de vai-e-vem, de ida à esperança e volta.
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Roubaram o ar que tinha para respirar.
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Fiz amor que era amor.
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Quase iluminámos os dias.
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Perdi ao perde-lo.
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Perdendo-o, perdi-a.
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Perdendo-a, perdi.
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Além disso tudo. Além e longe. Na Terra redonda.
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Na minha vida paralela, às vezes perpendicular, irrespirei.
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Desisti e matei-me.
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Teimosamente sobrevivi.
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Encontrei.
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Ainda assim.
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Não puseram a pedra da campa rasa.
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Eu esperando.