digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O escravo da odalisca





















Já te abracei e aqueci os pés. Fiz-te cócegas e rir. Em troca essa mocidade, pueril e inteligente, que invejo e quero perpétua.
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Sonho acordado que sou tuaregue e tu odalisca. Sonho acordado em que a roupa da cama é a nossa tenda no deserto.
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És o meu harém, grupo de desejo de uma só pessoa para uma só pessoa.
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Às escuras. Nunca vi a tatuagem que tens escondida num local discreto. Nem às claras. Só tenho olhos para os teus olhos e boca para te beijar. Mãos para te tocar. Vontade de tocar em tudo. Para que quero eu ver marca superficial cutânea?
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Acordo todas as noites contigo. Só os dois na tenda armada. Eu de tenda armada.
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Quero-te. Não faço parte do teu mundo. Estarás sempre na casa ao lado. Estarei na outra rua.
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Uma vontade muito grande de fusão. Nos meus braços. Nos teus braços. Sem falar. Tu de cabeça para trás em deleite. Eu furioso atleta. Tu por cima, eu por cima. Todos de lado. Até à apoteose.
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Deixasse de sonhar e não seria mais feliz. Se não te posso ter em corpo. Se as almas não se encontram. Sonho-te para que tudo entre nós possa ser diferente do que é.

A casa da chuva

Que a casa seja casa. A água da chuva fica no vidro. O frio entra mas amansa-se no calor eléctrico. Os gatos descansam do seu descanso, descansando sobre a cama ou num assento.
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A casa é casa. Quando fico sozinho deixo que as coisas sejam além do material. As gavetas guardam memórias. Os pratos evocam. Os objectos dizem-me do amor que já passou.
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Velas acesas e música. A viola da gamba. A sétima corda. A comida com levantamento de aromas e vapor. O vinho. No copo quase às escuras.
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Lembro-me do jantar que não se teve nesta mesa. Do amor que nunca mais se fez. Da última tarde de sexo. Em desengano. Fazia calor e, como sempre, estava bela e muito amante, amada.
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Depois foi-se o Verão. O Natal e o novo ano, entrou. A Primavera levou. Tudo se foi. O tinha e não tinha de ir. Desabrochou uma flor de diferença. Saudade sobre a saudade. Vieram males ao mundo.
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A casa é a casa. Em tantos anos, tem ficado a mesma. Como um mostruário de museu. As dores e os silêncios.
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Na cabeça, todas as conversas. Até as que se desejaram um dia vir a ter. Os sonhos em reconciliação, das visitas nocturnas. As visitas nocturnas a meio dos sonhos. Metassonho.
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Que a casa seja casa. Que seja como quiser, desde que a chuva fique do lado de fora. Já basta a chuva que tenho em mim.
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No frio, na noite, no céu azul os silêncios que chegaram com a partida. A casa ainda é a casa do tempo em que foi casa.
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O calor agora é eléctrico. O dantes era de lábios. Pudesse eu, ia buscar-te ao pôr-do-sol.

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sexta-feira, dezembro 24, 2010

Hoje é Natal





















Preciso-te. Com a boca toda. Preciso-te como se no amanhã pudesse não caber. Como se em toda a tristeza não tivesse onde chorar. Se o Natal não fosse também brilhar de olhos de tristeza…
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Lembro-me naquele dia todo negro me cantares flores, com as tuas mãos ausentes e o teu corpo também. É-me igual que não me ames, o teu amor existe no espaço onde o tempo não passa ou nem existe. Lugar de matemática pura e de física intangível. Tenha ou não luz.
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Possa ter um amor novo. E que os lençóis lavados e imaculados possam ser outro sudário de Turim. Iluminado por afectos e desejo. Um corpo nu e belo de mulher amada em marca-de-água. As noites todas, e uma a uma todas, de ansiedade da promessa.
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Possa ter um amor novo e o teu também. No universo infinito há-de haver um universo, ainda que infinitamente mais pequeno, só para te ter ainda. Não num planeta pequeno, nem numa anã branca. Mas fazendo amor como o pulsar dum quasar.
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Possa ter um amor novo. Digo-o lamentando porque já não tenho o teu. Às vezes nem sei das suas memórias. Arrumadas, lembro-me só que as tenho. E sei o que dizem, por isso quero-as escondidas.
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Quendera não estar ainda e agora a escrever-te saudades de amor. Quendera fosse já um rapagão de amores feitos. Quendera pairar como uma ave sobre o mal e a doença do amor. Quendera, quendera.
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Felizmente a tua ausência e memória fazem-me companhia. Assim tenho com quem passar o Natal, esquecendo-me que não tenho ninguém com quem o passar.

domingo, outubro 24, 2010

A nudez da morta

Cada pedaço de nudez é um mergulho para dentro do corpo que se vê.
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Ainda hoje não me lembrei de ti. Mas deixei-te um bocadinho de cor nos olhos a preto e branco. Que te lembres tu de mim.
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Imaginei-te perdida em marasmo. Só num nevoeiro. A cor será a luz que me afasta.
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Alguma coisa que não existe deve existir noutro lugar. Por isso tranquilizo-me por não ser amado. Ou engano-me. Num outro lugar terei as mãos apertadas da dor do prazer que se tem quando se tem dor. Dos corpos suados.
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Juntos, no escuro, despenhamos os lábios uns nos outros. Num momento só há beijo e nada mais, e as mãos entrelaçadas ora curiosas do corpo.
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Podiam os lábios ser flor se não fossem planta carnívora, desejada, para me comer. Sorriso pé-de-flor, encadeando-me para o abismo do amor para fazer.
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Ilusões. Não existes, em corpo, perto de mim.
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O silêncio da casa estorva-me o sono. Não estás. Estarás num Jardim celeste, quiçá morta esperando o momento em que me junte. Talvez enganando-me para que mergulhando num vórtice ascendente desapareça. Amas-me? Ainda?
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Escreve-me uma carta para que o amor não morra sozinho. Morra esvaindo-se, escorregando e esparramando-se no tempo.
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Queria morrer. Morrer de morrer. Morrer na morte. Morrer não de corpo, mas de alma. Para que as cinzas não tivessem de existir e a memória se esquecesse. Podia ser imortal ou descomprometido.
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Pior do que morrer é parar a ver o seu próprio funeral. Espectral e frio. Triste como um dia de chuva à tarde.
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A minha vida faz-se de impasses. Doutra forma já voaria sobre ti, voltando a poisar em febril êxtase. Se te amo? Como te posso amar se me sinto morto, alimentado apenas por memórias ou recordações imaginárias.
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Sentado frente à cama onde te deitaste nua, quero fumar olhando-te o corpo e vendo todo o tempo em que estivemos sem o outro.
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Sentado frente à cama onde te deitaste nua sofro e falta-me o ar. Sou capaz de chorar. Estou capaz de chorar. Fecho os olhos para que as lágrimas não vertam.
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Fecho os olhos para que verta e a água me emocione. Como antes me emocionara só de ver o corpo nu vagueando nas considerações acerca do tempo em que estivemos longe.
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Tenho uma tontura. Tenho tremor nas mãos. Como se fosse fazer amor pela primeira vez. Empedrenido e virginal.
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Tudo se pode resumir a um cigarro. Se fumasse deixaria cair a cinza. Enquanto olho para o teu corpo nu deitado.
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É um mergulho no tempo em que transitoriamente não nos conhecemos.
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Ficas a faltar quando dormes.
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Sonhando na penumbra do quarto vejo-me outra vez contigo. Gostaria que me tivesses escrito uma carta. Uma carta qualquer, para que o amor não tivesse morrido sozinho.
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Acordo lavado em lágrimas. Não estás e o silêncio da casa incomoda-me. Não estarás. Continuas morta.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Tempos do verbo amar





















Amaste-me imperfeito. Desejámos mais que perfeito. Amei-te perfeita. Não amo. Amarei? Talvez, mas nunca condicional.

Rosa-lírio

Rosa lírio. Flor azul de céu. Flor rara na sua quietude e espírito vivo, mais que as de mais. Numa seara cortada é azul sobre ouro e nas rochas é alegria grande em caule frágil.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Digo-te redondo e cheio

Quero-me em ti. Quero-te em mim. Quero-nos. Um. Dois. Um. Sabor de pele. Odor de corpo. Beijo de beijo. De mão em mão. De mão na pele. De mão na carne. De mão na boca e de boca em boca. Amor de luz na escuridão. Amor de olhos fechados à luz do dia. Tempo claro, de chuva na vidraça, de Sol nas telhas apontadas ao Tejo. Em qualquer lugar, tu e eu, nós em uníssono chamando um pelo outro. No gemido, na súplica, no desejo de desejar e no desejo de imaginar, no desejo de corresponder. A cor da tua pele só não é encarnada, porque encarnada é a carne que não vejo debaixo da tua pele. O sabor do odor do teu beijo. O odor da tua respiração. A ânsia do meu beijo. O desejo de te querer sempre mais. Para sempre. Para a eternidade. Sempre. Sempre tu. Sempre eu à tua espera ou contigo. Contigo sempre à espera que um dia seja o dia da eternidade. Sonhando a dormir, de sentidos bem abertos acordado, afirmo-te um amo-te, com todas as letras e sonoras sílabas. Amo-te, redondo e cheio. Amo-te suave e afiado, cortando em sangue. Amo-te, porque não podemos outra coisa. Amo-te.

domingo, outubro 10, 2010

Até logo à noite

O corpo está emprestado à alma e a alma encostada ao corpo. Quando saio de mim entro em ti ou encontro-me contigo no outro mundo. O meu desejo tem a tua voz e o pensamento não vai muito além de ti. És alma siamesa deslocada. Mar, continuação de rio com sal. Abraço fora do corpo, distância aquém da alma. Na memória o beijo do mundo e os corpos por momentos siameses, em água, desejo e êxtase. Nas bocas as palavras, de tanta coisa que se quis. Os lençóis ainda quentes da noite passada… há tantos anos. Não há beijo que não me venha nem frio que não me tragas. Sabendo eu que não há beijo que não te chegue nem meu calor que não desejes. Fim. Até logo à noite.

Os poetas e as musas

Os poetas são de vidro e as musas de aço. Em nudez sonham-nas despidas.

terça-feira, outubro 05, 2010

Ir, chegar, como se não estivesse

A meio caminho e já estou. Cheguei porque imaginei o salto de baixo até muito acima. Na distracção fiz a pé o que não quis, sem notar o tempo e o esforço. Voar sem levantar voo. Enquanto uns amam as viagens, outros apreciam os locais. Prefiro dormir, só dormir, para não ter de ir a lado nenhum nem estar noutro local que não a minha cama.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Quase ilha

A minha quase ilha de quase névoa. Onde as gaivotas também pousam e o vento traz cinzentos do mar.
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Quase fora do contorno, como se fosse a lápis a paisagem. Quase fora do contorno, com os pés em descanso para que o corpo não caia para lá da quase ilha.
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Está frio, o cinzento. Esta quase ilha de quase sempre Inverno. Quase sempre o mesmo.
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As quase ilhas têm água a toda a volta, como as ilhas.
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São quase, porque delas não se sai. Está-se na quase ilha e pode ser-se num lugar qualquer.
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As quase ilhas são ingovernáveis, por não haver nada para governar. Não são selvagens nem humanizadas. Nem assim-assim.
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São lugares de estar. Estar sempre, ainda que se possa ser em qualquer lugar. Não se explicam. Não há do que se possa explicar.
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A quase ilha tem água fria e pedras de limos e alfaces-do-mar. Tem pedras molhadas e areia salgada.
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No Natal é outro dia. Dia de solidão mais só. Se não há ninguém nas ruas das cidades... Ninguém para avistar no céu. Ninguém à frente até ao horizonte.
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O Natal é outra solidão. Mas há os caranguejos, os mexilhões e tudo. No Natal, tudo fica a preto-e-branco, em contraste suave, no cinzento de quase nada.
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No Natal não há navios a apitar como no Ano Novo. Tirando o dia de Natal é quase sempre Natal na minha quase ilha.
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Lugar de solidão para amarrar os braços às pernas e enfiar a cabeça no buraco do seu conjunto. Cabeça encaixada e ombros encolhidos.
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Tanto faz se a brisa faz voar a melena. Não há ninguém para secar as lágrimas. Nem ninguém para saber se as feridas se lambem.
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Quase névoa e só o mar a bichanar. Como se fosse um chamamento de Deus, que não me quer só.
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Quase não conheço a quase ilha. Na verdade, não consigo sair deste sítio em que a areia se cola aos pés e as pedras os fazem escorregar.
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Não sei o que é a toda a volta. Instintivamente, com o sexto sentido, sei que se cerca de água. Com esse sexto sentido sei que nela não se entra e dela não se sai.
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Mas pode ser-se noutro lugar.
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Habitante único. Pode ser-se outro na minha quase ilha.

domingo, outubro 03, 2010

Mulher-gato

Os gatos não miam assim, são mais subtis. Tal como quando ela não olha para mim. Imagino o calor da boca e do odor da respiração, tão fresco e higiénico. Com patinhas de lã os gatos saltam para cima de quem gostam, como imagino que ela fizesse comigo quando, semi-adormecido, esperasse por ela na cama. Quase sei a temperatura de pele e a forma como se deita. Miau. Sou rato dum gato que não sabe se vai ser caçado, mas que gostaria muito. Gato de cidade não caça, mas gosta de brincar. Basta-me.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Diz-me o que dizes aos amores

Diz-me o que dizes aos amores para que saiba se quero que mo digas.
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Dá-me beijos e não palavras, as mãos, a boca e a pele. Dá-me o abraço que se dá quando se quer abraçar. E o olhar de quem não sabe o que vê.
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Toma-me e descansa-me. Afaga-me a cabeça e adormece-me com conversas que não interessam. A sonhar escutar-te-ei poemando o amor que nunca se chega a fazer.
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Não prometo acordar a tempo de ainda ser dia. Nem noite. Não prometo pérolas nem uma vida sobre o mundo. Não prometo a miséria e o amor eterno e infinito. Juro que serei amante e que te prometerei tudo o que queiras, tudo o que se quiser e até mesmo o que prometi não te prometer.
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Uma guerra de almofadas, um sumo de laranja. A cama entornada de suores. A janela aberta e a porta fechada por engano. Podemos inalar a tarde, onde acordamos, o que acordamos fazer. Quando acordarmos.
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Inspirar e soltar um vendaval.
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Jogar o corpo um contra a pele. Teremos a pele viciada. A boca marcada na barriga, nos seios, nas costas, nas pernas, na boca.
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Quando me dou às cartas de amor por ti, quando sonho que te tenho, quando finjo ser correspondido, juro que te amo e sou amado. Não é ilusão. Amo-te e com todas as juras de amor. As juras duram o tempo duma loucura. Nada de falsidade, apenas o pulsar dum quasar.
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Declaro-me assim. Tenho as mãos trémulas e a voz indecisa na força e no tom. O coração bate angustiado e a cabeça pensa muita coisa só tendo uma coisa em mente:
- Diz-me o que dizes aos amores para que saiba se quero que mo digas.

sábado, setembro 11, 2010

Rever o coração





















Em Edimburgo, há dias, revi o meu coração, mas não o trouxe. Deixei-o estar onde é anónimo e onde não tem olhos para poder amar nem boca para poetar. Que viva feliz para sempre.

Na ponte

A miúda intangível está sentada numa ponte com os pés a levitarem no ar. A brisa desenha-lhe os lábios em posição de sorrir. A paisagem ilumina-lhe os olhos e o rio reflecte-se-lhe no nariz e maçãs. Os cabelos como sempre são indisciplinados, mas não insolentes.
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Não passa duma miúda. Tem na cabeça todo o espaço preciso para uma vida. Por enquanto só guarda felicidades simples e descobertas dos primeiros amores.
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Como um rio, já saiu do leito, mas ainda sem as angústias de dilúvio que um só lenço não chega para saciar. Dores talvez, mas não as tem como quem herda afluentes de tristezas.
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Ainda tem o curso tão curto e sóbrio, que um velho navio não o pode navegar. É rio de cascata. Rio de cama. Rio de desejo, semente dispersa em pele e lençóis.
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A vê-la, cá de baixo como quem venera uma deusa, imagino-me tocando-lhe os pés suspensos no ar. A minha boca voa até onde a roupa já não tapa, percorre-lhe pernas e seios e fonte. A sua boca em êxtase que espere pelos beijos e gema pedindo que a tome.
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Não me vê. Não me sente. Não me quer. E eu, contudo, tão perto imaginando-a minha. Tenho inveja do Sol, do vento, da água e de tudo o que lhe toca. Ela voando e eu aterrado.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Verbo ter, conjugando sem ter

Tenho na pele e nos lábios a sensação de ter tido por uma noite. Uma só noite. Uma só bastou para que saciasse a curiosidade e me enganasse os afectos. Uma festa de carne pode transformar-se numa ilusão.
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Já noutra noite sonhei-te. Completamente nu perante uma rua de gente anónima. Declamava amor em poemas e tu ainda vestida ouvias-me sem corar. Estava envergonhado e contudo indiferente aos terceiros.
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Aflito percorri caminhos-de-ferro a pé, fugi de hordas que me assaltavam. Fugi para chegar ao pé de ti. Embarquei em comboios por terras estrangeiras, contornando curvas de rio e de nível, vi declives com vinhas. Cheguei a ti numa gare escura, de noite, numa cidade desconhecida. Mas cheguei a ti.
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De tanto te querer… desencarnei por minutos e entrei em ti. Tão profundamente em ti que trago nos cabelos o teu cheiro. Nas costas as marcas das tuas mãos suadas. Amei-te corpo e conheci-te íntima.
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O meu peito não tem coração, mas memória. Marcados a ferro, os monogramas de quem amei. Há arranhões de esgrima dos afectos. As cicatrizes ainda doem. Quero-te em desesperança.
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Como pude ter-te por uma noite se não sei amar? Só faço amor amando. Não me fazem sem mo dar. Não o faço de coração cerrado. Tive-te, porém, denso e quente. Pesado e húmido. Animal em ternura.
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Como pude?

sábado, setembro 04, 2010

A nova musa

















Tenho uma musa nova. É pequenina, porque é pequenina. Tenho um amorzinho pequenino como um bonsai. Um dia a árvore será centenária, mas não sei se será ainda bonsai.
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Quando estou só com ela dou-lhe banho. Embrulho-a numa toalha seca e macia e deito-a confortável na cama. Depois, como antes, envolvo-a num desejo cordato no gesto e infernal na alma.
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Toda a força da minha abstinência está concentrada na fogueira do meu novo amor. Os incêndios nascem das chispas. Os meus do luzir inapropriado e inoportuno, do desassossego. Toda a minha abstinência faz amor com a nova musa.
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Sou feiticeiro aprisionado num corpo que não me deixa voar. Como um vampiro preciso de força vital para viver. Esta minha nova musa, tão tenrinha e feliz, é água doce na torreira do desejo. Mas também gasolina em incêndio.
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Não são suspiros que me traz, mas a fantasia dum namoro e cama. Quero-a como cordeiro sacrificial. Sempre que escrevo tenho-a nua querendo-me, de corpo quente e boca húmida.
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É um amor pequenino. Um prado com mimosas. Nele me estico e adormeço, acordo saciado e penso morrer. Queira um dia o consiga, partilhando os mesmos lençóis.

As musas





















Alimento-me de mulheres. Da pele e da carne. Da voz e do olhar. Das mãos que me amam e do meu desejo. Não escrevo se não tiver uma musa que me entre e me abra ou feche janelas. Sem musa não tenho nem luz nem penumbra nem escuridão. Apenas um vazio, espaço onde o nada consegue existir.
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A musa é alimento. Martiriza-me com desgostos. Anima-me com esperanças. Nada precisa ou pode fazer, basta-lhe estar onde penso que está.
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As musas chegam e também partem. Voltam quando não as espero. Acordam-me de noite. Seduzem-me e desarrumam-me. Doem-me e saciam-me.
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Apaixono-me pelas musas e posso amar mais do que uma. Posso não amar nenhuma. Só querendo as tenho. Não aprisiono, vivem secretamente em mim, mesmo desconhecendo.
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Faço amor com as musas. Desejo-as. E depois de abandonado, pela mulher de carne verdadeira, continuo alimentado por ela. Faço amor com as musas ainda que possa nunca o ter feito com a mulher que traz a inspiração.
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As musas são pessoas importantes. Sem elas não escrevo ou escrevo desinteressadamente. Sem escrever e sem orgasmo não vivo. As musas dão-me tesão. Na escrita e no corpo. São fadas e são fodas. Amo as minhas musas.

A primeira musa

Por ti, densidade, já me apaixonei, amei e desamei tantas vezes que desisti de deixar de te querer. Serás minha para todo o sempre, como em tempos prometemos. Ainda que não me olhes nos olhos, abraças-me todas as noites durante o sono.
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Densidade no olhar e na fala, amor profundo numa fonte. Coração aberto, muito grande, e tantas intimidades. Tantas que se as contasse todas estariam tão secretas como antes.
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Noite a dentro, em vigília, peço a quem pode que nos una. Porque colados andamos nós sem o querermos saber.
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Invento, de vez em quando, artifícios e amores de substituição. Nenhum medra. Morrem de desgosto, morrem de desilusão, morrem de distância, morrem por quase nada.
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O amor vai e vem como as ondas. Mas por ti sinto o mar.

As papoilas

Espero que tenhas gostado destas flores que não te enviei, por saber que a língua das flores fala duas línguas, a de quem manda e a de quem recebe.
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Mandei-as por a paixão inviável mo determinar. Mandei-as sem ter mandado pela certeza de nunca as desembrulhares com o mesmo sentimento de quem as envia.
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As flores não são um espelho da alma, mas o sussurro dum amante que não sabe o que dizer. Se soubesse não mandaria flores, mas escreveria um bilhete.
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Depois há os dândis, que, à falta de cultura, banalizam qualquer coisa e, por não saberem escrever, mandam rosas. Quem diz dândis, diz outra coisa qualquer que signifique o mesmo acerca de quem é embrulho de qualquer coisa sem relevância.
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As flores que não te mandei não têm grande aroma, porque são de estufa. Se ainda o não fossem talvez tas mandasse.
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Prefiro ir um dia contigo mostrar-te as papoilas e, no meio da vegetação, experimentar a origem do mundo.
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Antes e depois um piquenique que retire a animalidade aos animais que se querem. Um arrebatamento de civilização que se pode fazer com um só copo de vinho. Partida e chegada de compostura. Origem de sorrisos e rubores.
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Se me prometeres vir comigo experimentar a suavidade das ervas e os cantares naturais, prometo oferecer-te flores das verdadeiras, das que cheiram bem e mal, apanhadas à beira da cama onde se faz amor.
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Prometo não contar a ninguém que não sabes o que são papoilas. Só direi que conheces rosas.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Estrelas





















Se me acreditasses quando te digo o que penso das estrelas olharias o céu com outros olhos. Não te prometo a abóbada celeste, mas apenas uma nesga de luz distante. Há dias em que o azul-negro do céu tem mais luz do que um dia de Sol. Basta acreditar numa revelação. A palavra certa levanta um véu invisível e toda a luz possível ilumina o que há para dizer. Tudo mais selo com a certeza de que as estrelas não caem do céu.

A namorada





















Preciso duma namorada com quem não tenha de namorar.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Alma de Sol e chuva





















Alma de Sol e chuva. No ribeiro. As pedras também dormem, mas ao olhar fingem. Entre as ervas verdes e o frio. São seixos, dizem. Às vezes aprisionados em casas sem campo, às vezes secas. São como as águias e as lebres, as pedras. Penso, não juro, que as flores não se chegam perto. Pelo menos as papoilas, não me lembro. Sob as árvores descansa-se bem. Dos pés doridos do andar sobre os seixos, no caminho do banho bravio. No Inverno, com certeza também no Outono, até na Primavera e em alguns dias do Verão, as águas, que lhe vêm, vêm também do céu. Por isso, alma de Sol e chuva. As pedras não mentem; quando estão molhadas, estão mesmo molhadas. Os seixos não choram, mesmo quando aprisionados em casas sem campo, quase sempre secas.

terça-feira, agosto 31, 2010

Sou da carne

Duvido da existência de Deus mesmo quando oro com empenho e verdade. Se há fé que não é cega é a minha. E tantas provas e iluminações depois. Nasci rebelde de espírito, mas facilmente amansável. Teimoso na descrença, estúpido na compreensão. Senti Deus quando o percebi pela lógica. Porém ainda não o sei amar. Deus é uma espécie de parente afastado.
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Não tenho altares sacrificiais. Apesar, sacrifico-me ainda que querendo queimar outrem. Sacerdote empenhado e descrente. Sacerdote comprometido, mas ignorante.
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Sou mais da carne. Tanto que insisto em comê-la, memo sabendo que toda vem dum animal. Não sei de para Deus um animal vale menos do que o homem. Não mato. Mas não condeno quem mata. Infantilmente, chego a desejar uma morte vingadora, mesmo sabendo que a morte não existe. Não mato, mas mato baratas, moscas, formigas e rastejantes de toda a ordem. Será que Deus os ama menos?
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Sou mais da carne. O meu coração ama mulheres. Amo os amigos. Chego até a comover-me com as pessoas. Amo as minhas gatas e os cães, cavalos, texugos… uma data deles, quase todos. Não agrado a Deus quando não os amo a todos. Mas perdoa-me.
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Sou mais da carne. E dos olhos. Mesmo sabendo que há coisas que não se vêem e outras que se vêem e não são verdade. Concordam, crentes, agnósticos e ateus. Porque vi a luz, acredito em Deus. Acredito em Deus porque vi a luz. Duvido porque em mim há negrume.
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A dúvida não abate Deus. A resposta confirma-o. Digo isto porque vi a luz. Mesmo tendo-a visto, duvido. Ainda que ore com muito empenho. Ele perdoa-me.
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Se amo, acredito em Deus. Ainda que se não acredite em Deus, amar é um luzir divino. Pode amar-se sem acreditar em Deus, mas sem amar não se pode acreditar.
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Deus tem a vantagem de ser o criador. De amar todas as suas criaturas. De ninguém o ver. De muita gente o sentir ou acreditar. De ser justo e bom.
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Duvido de Deus não por duvidar da sua bondade ou obra. Porque cada um tem um caminho. Porque muitas são as vidas que nos tornam iguais. Porque diz quem sabe mais. Maravilhosamente mais. Escuto com atenção. Mas sou mais da carne.
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Sou barro a moldar-se. Obra imperfeita porque incompleta. Quando estiver pronto terei fé. Por enquanto, vou orando a Deus, empenhado e duvidante.
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Sou mais da carne. Acredito em belas mulheres deitadas nuas numa praia. Na febre da sedução. Na cegueira do desejo. Sou da carne. Mas sou de Deus.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Tímida declaração de amor a uma miúda morena

Para falar verdade, ainda tremo como um adolescente, apesar de morto para a vida que um adolescente deseja. Tremo quando um brilho mínimo alumia meio grão de nada. Tremo por pensar que ainda posso viver qualquer coisa que quis deixar. Sou viciado numa vida que renego. Como um monge, tenho a perversão da abstinência.
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Há dias que os trinta e nove graus à sombra e a luz ao Sol abanam as certezas dum homem. Na indolência própria dos dias de tamanha calma, uma loucura assalta as vontades. Como um incêndio antes de se descontrolar. Há qualquer coisa de cinematográfico num dia assim.
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Não há água de mangueira que acuda, porque o calor está mais dentro do que fora. Não é o coração e talvez nem seja a cabeça. Mas os pulmões e a sua vontade insaciável de respirar. Inalar tudo e sentir o aroma da carne subjacente à pele que se quer tocar.
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Nos dias de estio bruto não são precisas bebidas que escalam cabeças para que a boca diga disparates ou que as mãos os escrevam. Só há tempo para verter segredos, mal escondidos, perante aquela que se quer resguardo.
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Aconteceu-me hoje. Não fossem tão mundanas e terrestres as palavras e teria dito poesia. Não fossem tão cautelosas e tímidas e teria grunhido sexo. Nem uma coisa nem outra nem meio caminho. Apenas uma infantilidade.
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A provar que os mortos estão mortos, mas os que se querem mortos não estão. Sem cilícios, penitencio-me renegando tudo o que lhe disse. Cobarde, sim. Mas com palavras de fora já se não é tão inconsequente. Ainda que este amor não corra como um rio, mas que fique quieto como um lago.
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Afinal também tem a sua beleza. Um amor não correspondido nem accionado. Telepaticamente falhado. Sexualmente imaginado. Nudez de fantasia. Mas nado morto. Havia de ser bonita outra coisa.
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Por estar voluntariamente morto não me choro nem me doou. Não me ardem as feridas que não tenho. Tremo, sim, porque em alguns minutos senti viver. Em loucura de um salto quis novamente voltar a morrer, antes que ela me matasse de amor ou desgosto.

sábado, agosto 28, 2010

Vou sair logo à noite

Não me deixo de recordar dos amanheceres de Junho. Não me deixo de recordar dos amanheceres de Janeiro. A luz clarividente e a púrpura. Alguém me dá as manhãs e eu, agradecido, acordo nelas. Mas prefiro deitar-me, depois de esperar o raiar, brindando a vida, mas recebendo depois em troca a sensação de dia perdido, de luz desperdiçada.
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Hoje acordei num momento ambíguo, nem cedo nem tarde. A aquela que já foi miúda acordou-me e desvaneceu-se ao abrir dos olhos. Logo a mim, que tenho uma cama deprimida e solitária.
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A outra rapariga, a que conheci há dias, não me desperta muito, apesar da sua beleza e escultura. Prova de que olhos de negro profundo e sorriso aberto não são sinónimo de fantasia. Não a quero como mulher nem como objecto.
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Neste tempo em que se percebe a despedida do Verão não há já as esperanças do começo do estio. Tudo é já certeza e a juventude dos dias deu lugar à maturidade das horas. Quendera os amanheceres de Junho.
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Ainda não é amanhã que vou à praia. Custa-me ir tão longe para ter prazer ou tão perto para ter cadinhos. O Sol esgota-se desde que nasce e desde que começam os dias. Nasce, morre e renasce antes de voltar a morrer. Lá para Dezembro é fugidiu, em Junho é magnânimo.
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Tenho uma certa inveja da sua vida. Eu que tenho uma plana e deprimida. O Sol quando tem de se queixar desaparece. Eu tenho que aguentar toda a fraqueza à frente do mundo. Ele resplandece e ninguém repara na minha alegria.
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Espero hoje ter a largueza de ver o luar. O Tejo, sempre o Tejo, à vista ou adivinhação. Que a luz da noite prometa tanto quanto as dos amanheceres de Junho e Janeiro. Logo mais saberei.

terça-feira, agosto 24, 2010

Os novos amores





















Dias de viuvez e chuva
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O odor da cera e do mogno numa casa fechada
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A luz morta das janelas quase cerradas e o pó dos reposteiros
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O silêncio da casa e o espaço todo que fora de gatos
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Na cozinha ainda entra a luz, branca como os azulejos, em alguns dias escura como os dias feios
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Que Deus permita aceitação da quietude
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Que nunca a revolta ou a indignação estorvem a morte da casa
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Nem a naftalina dos armários, para matar as traças dos vestidos negros
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O soalho corrido ainda tapado pelos pesados tapetes
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Os candeeiros apagados e as paredes de encardido solene
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Nem os tímidos ratos surgem furtivos
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O vazio e a memória dos gatos
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Viuvez austera. Morte amorosa
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Fantasma vivo
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Não deixo que o amor maior me permita amores novos.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Meu amor, meu amor

Meu amor, meu amor, estou apaixonado por ti. Um dia vou sorrir das tuas tiradas infelizes e sentir saudades dos teus ciúmes disfarçados.
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Os dias de pensamentos e as noites de acção. Meu amor, como és bela na escuridão e sob o Sol mais luzente, na penumbra e no crepúsculo, ao lusco-fusco, das velas e do entardecer, das manhãs violáceas. Do frio que cortas as manhãs, da chuva que empapa as tardes e de todo o Sol do Verão.
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Sonha comigo, meu amor. Que nos sonhos nunca entardece a vida. Nos sonhos não se dorme nem se desperta. E os beijos vão da pele ao átomo.
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Meu amor, meu amor, que saudades já tenho e ainda não me afastei de ti. Abraçar-te até o meu corpo te absorver e o teu me diluir. Tenho o olhar encadeado e a boca sorrindo pedindo-te mais um beijo. Diga-se o que se disser é como não dizer. Não há palavras certas, só desejos.
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Agora deito-me e junto a mim a tua presença em ausência. O teu corpo sinto-o e abraço-o no ar que sobrevoa a cama. Sonho contigo, porque nos sonhos não se envelhece. Toda uma eternidade para amar. Do princípio até ao acordar.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Alma

Fotografia de alma inteira. Uma espécie de ramalhete nas mãos. Tem tudo, corpo espectral de luminescência variável. Não ter medo de se ser só alma, não ter medo de ter perdido o corpo que a ela estava agarrado. Saber correr com o pensamento. Não ser uma pessoa só, ser muitas. Muitos corpos para uma só alma. Não ter medo de dizer, a quem souber ouvir, o que vai na alma. Não ter medo de surgir nas fotografias. Aparecer de corpo inteiro, com o corpo que as almas têm.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Antes de deitar

Deus é aquém de alfa e além de ómega, imagino eu. Mas duvido, porque é mais do que uma viagem de circunavegação infinita num alfabeto e mais depois. Duvido, porque Deus é todas as coisas pequenas. E todas as grandes. E as partes pequenas das pequenas. E as grandes das grandes. Duvido, não sei se é tudo, porque tudo é o universo. Sei que não é nada, porque há tudo. Não sei o que é Deus. Sou pequeno para saber, mas sei que é grande para nela caber. Os meus olhos não o vêem, o coração pressente-o e a alma sente-o.

Como o céu no cenário dum teatro





















Beijo, nas águas claras do amor. Dias de poucas horas. O céu, nos dias e noites de beijos, tem aura de encanto. O descobrimento das bocas, o desejo dos corpos e a ternura dos olhos.
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São cidades que se descobrem, os medos e as alegrias.
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Beijo como porta de sala sem paredes. Quadrado mágico, árvores de sombra e céu denso e escuro, como o cenário dum teatro.
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As águas claras do amor são de chegar e ficar. Vidro pausado em descanso, mesmo com vento de outras coisas.
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Sobre as águas claras do amor levito quando penso em amores antigos, no amor maior e na nostalgia do futuro. beijos que dei e esperança nos que darei. Só posso sonhar e desejar.
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Como se chovesse, afundo-me na tristeza dos dias sós. Angústias de quem não ama e diz já não saber voar.
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Porque o coração sem dono tem sempre alguém que ama.

Rio de angústia

É como um rio que nasce e corre, cada vez mais caudaloso. Rio de Inverno, ganhando corpo e força. Perigo de transbordo e afogamento.
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Angústia ao acordar. Às horas úteis do dia. Ao deitar. Até amanhã. Acordar numa vida que não se quer. Ver a chegar a vida que não se quer. Ser quem não se quer. Angústia nas horas mortas, nas horas de sono e em todas as outras horas.
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O corpo sempre em tremor. Um lugar de esconder que não esconde. Um sono que não é eterno. Por que teimam em passar todas as horas em que se dorme? Por que pastam lentas as horas de olhos abertos?
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Rio que corre e traz sedimentos de qualquer coisa que se desconhece. Rio que traz angústias para a esperança. Rio de lágrimas. Rio dos que se querem mortos. Angústia em todas as horas.

terça-feira, agosto 10, 2010

Campo no Verão, e outras coisas que não te disse e não vivemos e que gostaria

Se chovesse. A água que limpa e seca as lágrimas. A terra abraça depois da chuva. Aroma de pertença a uma família.
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No Verão há refresco na água. À sombra das árvores descansam carne e ossos. Os pensamentos aliviam-se no vento e a alma levita com os cantares avoantes.
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Um avião passa lá no alto, e fica o rasto do seu voo. Mudo em todo o tempo em que traçou a linha feita de nuvens. Cá, imagino as conversas de lá. Sentimentos e ânsias. Imagino pessoas e destinos.
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Sou da cidade. Nos caminhos velhos doutra Lisboa há província e azinhagas. Memórias toponímicas. Sou da cidade e cabem em mim jardins bucólicos. Nostalgia do tempo em que não era vivo.
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Agora neste prado com árvores e ribeiro não tenho tempo. Existo porque vivo. Vivo sem que me doam os dias. Só dores de gente crescida. Dias sem fim. Noites de confissão.
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Noites de confissões, sentados à porta da casa, sob uma árvore, vê-se o céu, contempla-se a vida. Pensa-se em Deus e no infinito. Todas as questões sem resposta. Vêem-se estrelas. Será alguma a nossa? Ouvem-se grilos ou cigarras. Sou da cidade.
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Noites. Conversas intermináveis. Conversas justas. De Amor. De vida. No Verão, à noite, pode estar-se abraçado lado a lado e sem tocar. No calor. No frio o enlace é no lume. Agora é Verão.
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Gosto de árvores: das oliveiras velhas, porque belas. Azinheiras, sombra. Laranjeiras, fruta. Figueiras, aroma. Ciprestes, alma. Em algumas há formigas, comichão.
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Sob a árvore grande estou estiraçado ouvindo o ribeiro, cigarras, pássaros e outros irmãos. Sob a árvore grande olho o céu sem nuvens nem pressa. O avião foi e o trilho dissipa-se até à inexistência. Só as minhas palavras lhe dão memória.
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A tarde passa-se. A tarde esvaiu-se à sombra, regada pela música ribeirinha. Alguma sede. Preguiça de beber. Sou da cidade: deambulando pelas azinhagas do prazer bucólico.
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Que bem me ficaria a imensidão das charnecas frente ao mar. Ainda seria da cidade? Não vivemos.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Nada por tudo

Invejo os filósofos e os físicos teóricos, não têm de provar nada... e também os escritores que não querem provar nada... e os gastrónomos que querem provar tudo.
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Nota: Como não é nada óbvio, eu explico... mas só uma vez... o quadro chama-se «A lição de filosofia». Ficou giro, não ficou?

O melhor bolo de chocolate do mundo





















Farto-me de rir (irritado q.b.) quando me vêm dizer que a coisa é a melhor do mundo. Perdoo nas conversas informais, mais ou menos sérias. Aprovo na paixão ingénua. No deslumbre da coisa nova. Não tolero no auto-elogio.
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Registar um bolo de chocolate como o melhor do mundo pode ser um bom número de marketing. Mas maior é a parolada de tal afirmação. Só acredita o patego, o crédulo estúpido, o ignorante distraído.
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O «melhor bolo de chocolate do mundo» é banalíssimo, desinteressante, desimaginativo. É uma fraude. É ridículo. É parolo. É estúpido. Nem para saciar a fome de açúcar é competente.
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Podem afirmar ser o melhor bolo de chocolate do mundo, mas não deixará de ser uma acusação injusta e infundada. Prefiro o bolo de chocolate do Pingo Doce.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Nostalgia pungente, persistente. Um texto infeliz, no género, no modo, no conteúdo, no objectivo, no resultado final.

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Sou nostálgico. Nos sentimentos sou nostálgico. Consigo amar, amo todas as que amei, e ao mesmo tempo, nas evocações do tempo. Sofro com todos os sofrimentos passados, como se nunca tivessem passado. Sinto vergonhas antigas e arrependimentos longínquos.
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Sempre nostálgico, sinto diferentes nostalgias. Não duma época, mas de vários momentos, ao mesmo tempo. De várias pessoas. Da tristeza à felicidade. Riso tenho tido pouco desde há uns anos. A felicidade não me bate à porta, apesar das gargalhadas.
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Vivo entre o vermelho escuro de Bordéus e o lilás, no ameaço de negro, na promessa, nunca cumprida, de laranja. Nos desertos, do branco e do negro. Dez anos tem muitos dias. Alguns de alegria, de tonalidades felizes, antecedendo o firmamento nocturno, boreal.
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Não sei se trocando beijos. Não sei se por engano. Não sei se por engano de ilusão. Não sei se de boca fechada. Não sei se de propósito. Não sei se por desgosto. Quase sempre em solidão. Quase de certeza em solidão. Nostalgia.
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Quando me perdi de ti ou te perdeste de mim. Dias de pungência, da dúvida, da injustiça, da incompreensão, de desaire, de fim, de tudo, de nada. Toda a música posta no lixo, amarrotada. Tanta música sem préstimo, contaminada por ti. Música ensopada em nostalgia.
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A agulha grossa de croché escarafunchou. O sangue procurou vida nova. Na surpresa, esta música. Na nostalgia dos dias antigos, mas purgada de ti. Nova música, como uma sala onde nunca estiveste. A mesa onde nunca comeste, que virginal se guardou até à desistência. Não por amor primeiro. Não por amor maior. Mas por amor de desistência.
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Desisto de nostalgias. Desisto de ti. Mas a nostalgia não vai e tu também não. Voltas nos sonhos quase diários. Regressas aos espaços e às coisas. Invades as memórias de outras. Deitas-te na cama, esteja eu só ou acompanhado.
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Nostalgias. Amo-as a todas, mas mais a ti, amor maior. Amo-te nos dias vagos, nos dias úteis. Nas horas mortas e nas de sonho. A música que não é tua, os lugares que não são teus, têm-te, porque neles noto a tua ausência. Nostalgias.
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Amo-as a todas e ao mesmo tempo. Viúvo de todas, mas só beijando um fantasma.

Amor, do zero ao infinito ou o seu oposto
















Quero desapaixonar-me. Abdico destes tremores e gelatina no abdómen e pensamentos obcecados. Comigo não são borboletas no estômago, são aves brincando no ar.
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Amo ninguém, mas amo. Derramo amor pelos lençóis em que durmo. Sem fazer amor, suo noite fora, desejando uma pessoa inexistente.
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Não amo uma ausente. Amo a infinidade do zero. Sonho com arranjos florais sem destino. Enlevo-me com todos os olhares de doçura. Os toques suaves de pele, os silêncios de encantamento.
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Deitar fora todo este temor. Abandonar todo este tremor. Estou capaz de cortar os pulsos por desassossego. Não aguento os suores, as esperas, as efabulações, os receios, os desejos, as angústias, as horas, os sonos, os sonhos, os momentos felizes passados, os momentos felizes por vir, a primeira noite, a outra a seguir, e a outra, e a outra e a outra.
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Há quem ame e não seja correspondido. Há quem deseje. Há quem seja correspondido no amor. E na paixão. Há os que amam viúvos. Há os que amam fantasmas de pessoas vivas. Amo ninguém. Desejo ninguém. Mas, mesmo assim, amo.
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Amo de loucura como todos os apaixonados. Fervilha-me o sangue e sinto ansiedade pelo momento em que, por fim, estaremos juntos. Não tenho paixão física. Nem tão pouco espiritual. Não tenho enlevo intelectual. Paixão: infinito ama zero. Zero não pode amar infinito.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Derrame

Derramado, luto para que as próximas horas não sejam a dormir. Preguiçoso ou cansado, demoro-me pendente de alguma coisa que quero que aconteça, mas que não tenho coragem para fazer acontecer. Como se estivesse muito bêbedo.
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Muito bêbedo, deitado, abraçado pelo colchão. Os sapatos tirados a sopapo com os pés. As calças abertas para saírem, mas ainda a meio-rabo, pesado como um hipopótamo. A camisa aberta, sem sair, esmagada pelo torso. Os óculos esquecidos algures, ao alcance duma das mãos, que não se sabe qual. Duas mãos, duas pernas, quatro membros, nenhum se move com o outro. Movimentos independentes. A cabeça desencaixada.
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Como se estivesse muito bêbedo, debruçado sobre uma almofada quente, quase a escaldar, mas donde não se sai. Esforço. O esforço de não fazer esforço de sair de tamanha letargia.
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Há esperança num objectivo. Algo que convença a cumprir a vontade de cortar a dormência e anular horas de sono de tédio e ócio. Que objectivo? Vontade de dormir sobre o assunto. Decisão sempre adiada.
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Não pensar mais. Um longo suspiro e um gesto brusco, como um salto suicida. Levantar. Upa! Já está. Já não há corpo debruçado no parapeito da preguiça.
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Momento indeciso. Pendente. Balanceado. Cai, não cai. Para a frente não cai. Ânimo. Vitória. Orgulho. Descanso. Cair para trás.
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Derramado, caído por terra num leito. Desejo que as próximas horas de ócio não sejam de dormir nem de tédio. Como se estivesse muito bêbedo. Duas mãos, duas pernas, quatro membros, nenhum se move com o outro. Movimentos independentes. A cabeça desencaixada.

terça-feira, agosto 03, 2010

A ilha





















Só mais além. Acabou-se. O destino só não tem fim, porque sempre se pode voltar para trás. Ter coragem para ficar, ter coragem para retroceder. Se ficar não tem futuro, voltar só tem passado. Para além, nada mais.
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Precipício e eu sem asas. Um monte alto, escarpado, ilha agreste. Tanto faz silêncio, tanto faz vento. À volta, o mesmo céu mais que negro ou o Sol matador. O mar revolto, armadilha para corajosos. De lá não se volta.
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Nem frio nem calor, mas solidão. Dias de diálogos de mim para comigo. Noites agitadas de ansiedade. Pequeno demais para ser um reino, de um homem só. Agulha de vento rodeada de nostalgia a toda a volta. Ilha dos medos e das certezas.
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Além desta circunferência tosca não há nada. A esperança é o sonho, a realidade é de vento, granito e salpicos de sal. Voltar, só para o centro deste reino de um homem só. Para além, nada mais.

domingo, agosto 01, 2010

Cama

Quando conheço uma cama estranha lembro-me de ti. Nos hotéis, nos lençóis imaculados. Na minha cama. Na cama de outras. Em qualquer cama. Lembro-me em toda a ausência. Lembro-me além de ti.

sexta-feira, julho 30, 2010

Tempo de calor. Calor de tempo.

Nem este calor detém o tempo. As chamas invisíveis do Verão não vão além da pele, mas quendera me consumissem a alma até à existência.
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Os amores antigos já foram verdes e maduros, já caíram no chão, apodreceram e foram hoje seiva nova. Em árvore velha não nascem frutos.
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Queria que o tempo parasse até que fosse tempo de tempo novo. Vida em suspensão, na ânsia de um beijo volátil, com toda a beleza do que é efémero.
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E se só eu parasse, expectante e curioso, suspenso também no ar, a ver a vida em trezentos e sessenta graus, com seus degraus, correrias, arrelias e sorrisos, noites de tudo e dias de nada?
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E se eu parasse, por um instante, inquieto com a não paragem do tempo? Que doces frutos poderia então trincar. Entre o maduro e o verde, vivos de água. Sem culpa, respiraria.

sexta-feira, julho 23, 2010

O arbusto





















Se não sou de ferro é porque suo. Mas suando tanto não chegarei a ser, um dia, de ferro. Serei erva alta que se dobra com o vento, que espero não se vergue, mas apenas dobre. Não serei árvore, que é dura como um castelo, mas se quebra. Não quero ser arbusto, forma mínima de ser árvore, que se verga e quebra. Quero ser cabelo que voa pendurado ou nada dançando. Ou nada. Nada disto. Não ser nada, não existir: sem vergar nem balançar nem ir nem ficar. Pairar no éter como uma medusa, coisa entre o vivo e o não vivo. Entre o fantasma e o médium. Ser de plasma e alma de sentimentos e sem perdas. Entre o vivo e o não vivo.

domingo, julho 18, 2010

Esperança de estar quase a brindar





















Não há como. Seja Verão ou quaisquer outros dias, não vejo o momento em que possa voltar a beijar as águas tranquilas de sono e vida. Se agora algum Sol entra pela minha janela, não esqueço que o céu está ainda escuro e que são precisos muitos dias soalheiros para que me sequem as lágrimas. Ainda assim, tudo é ainda uma esperança, que espero não seja mais uma que se vai numa chuvada súbita. Muitas luas de tristeza, de sonhos acordados e outros desejos. Muitas horas numa sauna a pensar nos dias que se querem de abundância e na felicidade que o dinheiro pode comprar. Espero que este Sol fique como o Verão e perdure por longos dias longos. Que venham mais dias e dias e dias de felizes horas, em que possa ter mais do que pão.

sábado, julho 17, 2010

Mãozinhas

Deviam de me dar umas mãozinhas de madeira, para pôr nas outras mãos, para que não escrevesse nada que não devesse ser escrito, ou que, se escrevesse, não escrevesse, ou que, se escrevesse, não tivesse escrito.

sexta-feira, julho 09, 2010

domingo, julho 04, 2010

Sexo oral

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Parece-me que não há palavra bonita para uma coisa tão boa. Mesmo quando mal feita, essa «coisa» é prazenteira, como o sexo oral… aquele em que uma boca abocanha, cabeça e corpo da piça... não sei se se escreve piça ou pissa, mas a coisinha é a mesma e, neste termo, refere-se normalmente ao seu estado erecto.
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Mas o que chamar? Broche é barrasco, tipo cuspir no chão. Mamada não é menos, é alarvidade leitosa. Chupada, acho que nem ouvi, mas padece de falta de gentileza.
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Felácio é uma intelectualização, uma evocação do termo latim – duvido que um professor de latim o diga ou uma académica o faça usando tal palavra. Mesmo querendo ler um livro enquanto o fazem, o alegre beneficiário não conseguirá concentrar-se nas letras ou na boca que lhe torna a piça em chupa-chupa. Não passará de pesporrência intelectualóide:
- Querida faz-me um felácio…
Ou melhor:
- Faça-me um felácio.
Mal se pronunciasse o vocábulo, a parceira perderia toda a tesão para fazer, caso não rebentasse a rir ou a chorar.
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Tomás Taveira, no seu impagável vídeo de final da década de oitenta ou início de noventa do século passado, falava ao telefone enquanto lhe faziam a pregadeira. A avaliar pelas imagens e pelo tom de voz, ou não estava a gostar do que lhe estavam a fazer ou não estava a ligar grande coisa ao brochedo e à chamada.
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A propósito de chamada, no caso a propósito da chamada de Tomás Taveira, há quem lhe chame chamada para Tóquio. A expressão não evoca nada de oriental, mas lembra um título de filme… imaginem um filme negro, com Humphrey Bogart, chamado «Chamada para Tóquio». Parece-me plausível.
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Mesmo pensando num idioma que não é o meu, a coisa não é fácil… blowjob… blowjob? Trabalhinho de soprar? Trabalho de operário vidreiro. Pipe em francês, cachimbo?
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Voltando à língua de Luís de Camões, de Fernando Pessoa e de Herberto Hélder… Quanto a bico… bico? Fruto do aguçar da glande? Coisa piramidal? Angulosa e fria? Bico, não. Não pode. Além de não ter, à primeira vista, grande lógica.
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O tanas, é que não tem grande lógica. Os linguistas que o dizem nunca pensaram na arte da mamada, do broche, da chupada, da chamada para Tóquio, da pregadeira e do bico. Pensemos um pouco: Em galego, nossa língua ou nossa língua-avó, conforme preferirem, bico quer dizer beijo. Ora, o que é uma mamada do que um valente, guloso, sensual e prolongado beijo? Para mim, bico ainda é a melhor solução.
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Mesmo assim, não há palavra ou expressão que diga tão bem o bom prazer. Há falta de melhor, uso as palavras todas em forma de pedido. Já ia um!

quinta-feira, julho 01, 2010

Gata, gatinha, canalha, que não voltas




















Tive uma namorada, nos dias mais fáceis, que era uma gata. Por causa dos olhos verdes, pela expressão serena e inteligente, pelo maneirar gato, em imitação perfeita dos seus banhos, pelo desapego sentimental aparente. Um dia abri-lhe a janela e saiu com a natural leveza das patinhas. Não lhe perguntei onde ia nem se voltava. Como gato livre, foi-se pelos telhados. À Lua viverá, sem dúvida, enquanto eu fico no beiral frente ao vento na esperança de ver o seu salto delgado e ágil. Como gato que abandona o dono, a minha gata já nem olha para mim.

terça-feira, junho 22, 2010

Vento-jasmim

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Tenho a cabeça cheia de vento e deles vem o aroma de árvores-jasmim. Serão umas quatro da tarde e há quietude nas ruas orientais da cidade. O Tejo espreita atrás das casas seguintes e os comboios de Santa Apolónia sossegaram-se por momentos. Lembro-me de alguma coisa que não sei definir. É uma sensação de qualquer coisa que não sei dizer. Não é aperto nem absolvição. Serão palavras, certamente serão palavras. Palavras que me querem dizer coisas, mas que não oiço ou não entendo. O vento que tenho na cabeça leva-as e traz-me o cheiro do jasmim.

Alemanha





















As luzes da Alemanha a chegar à velocidade possível dum bus. A Alemanha presente do ataque de fúria e auto-comiseração num apartamento de Essen. A Alemanha quase toda na torre mineira de Bochum. A Alemanha toda vista sob a catedral de Colónia. As saudades que tenho tuas são maiores do que todos os ciúmes que tivemos um do outro.

Ir desta

Deve-se morrer devagarinho, não se vá tropeçar e tombar, batendo com a cabeça e chegar morto ao outro lado.
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Nota: Esta pintura chama-se «Nunca viajo, só sonho».

sexta-feira, junho 11, 2010

Factos e certezas

Aos dez anos sonhava. Não em ser astronauta, mas ser qualquer coisa feliz. Aos vinte tinha traçado o destino e estava feliz. Aos trinta já não tinha ânimo para mudar de vida e ainda acreditava na felicidade, já ausente. Aos quarenta tornei-me cínico, desacreditando que a minha vida possa um dia ser feliz. Aos cinquenta estarei bêbado. Aos sessenta ficarei amargo, confirmando as certezas dos quarenta. Aos setenta continuo a pensar na morte e na inglória. Aos oitenta estarei resignado ao falanço da vida. Aos cem espero já cá não andar, sob pena de maior catástrofe.

quarta-feira, junho 02, 2010

Peso

Sob a bebedeira, abro os braços e deixo cair todo o peso e sensualidade. Na cama, sobre mim. Se isto se prolongasse ligar-te-ia amanhã pela manhã. Como é loucura passageira, desgraço tudo com prematuras juras e promessas.