digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quinta-feira, setembro 17, 2015

Prisão-santuário

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O tal jardim que começa na casa muda e tem sombras de árvores espalhadas, donde uma vez por ano pendem frutos, de comer ou só de ver.
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Quando chove e o tempo é perfeito sob as copas molhando-se admirado com os pingos estatelando-se no chão curvando-se imperceptivelmente. Penso nos insectos, nos bichos de penas e nos bichos peludos. O cabelo quase todo molhado e não fosse querer e estaria desesperado.
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O muro é alto e cravado de vidros, vedado por densa floresta de cipreste alinhados como sebe. É a minha prisão e onde a cabeça não tem vergonha dos medos.
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O cinzento e o verde dos dias da melancolia e na agitação da luz, gatos e cães.
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Estiraço-me, desespero e solidão-me numa hora indiferente. À noite há pirilampos e grilos.
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Pela noite vêm frescos e húmidos, quase invisíveis e assim nas horas. A Terra roda.

sábado, julho 04, 2015

Zona de exclusão aérea

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Depois de mim a paz e a guerra, como antes de mim, como depois de mim. Pago a irrelevância por ser indiferente. Os meus dias são normais, tão banais pelo que absurdos.
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Houve o tempo do drama, amores e desamores, consequências e coincidências – argumento para telenovelas venezuelanas. Os dias eram absurdos.
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Agorafobia enclausurado. Claustrofobia no mundo. Nem ruas cheias nem casas vazias nem inversos.
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Não sirvo para isto e só disto tenho. Como procurar a paz se não conheço. Basta-me uma floresta para me perderem ou um ribeiro afluente do mar, cortando o mundo em veredas de muros de arbustos e árvores.
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Komorebi dá alegria desde que não se oiça além da floresta infinita… e permita pelo menos waldeinsamkeit, nem que por conforto de ilusão. Podia.
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Podia ser um jardim nas traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fechassem para azinhagas esquecidas e desautomobilizadas. A luz só no pino e a meio, em redor sombras magníficas.
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Num canto um pomar só de limoeiros e laranjeiras-da-baía. Os figos chamam moscas e as macieiras dão fruta aborrecida. Talvez uma romanzeira, duas para terem companhia.
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O jardim não seria secreto. Seria invisível. Os ciprestes dão pouca sombra, mas tapam muito. Que outras árvores? Oliveiras centenárias, azinheiras tortas e sobreiros cabeçudos.
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A que distância dos ciprestes se podem plantar estás árvores? Talvez heras ou videiras se não estrangularem troncos e cones.
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Assaltado por inquietação, pergunto:
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– E a mãe?!
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 Não seria mais fácil sem mãe? Nem morta nem perdida. Sem mãe e o seu colo.
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A mãe não traz a paz ao mundo. Talvez não traga a guerra. Não a evita.
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Sem colo não há saudades. Neste jardim grande das traseiras não há a mãe. É uma dimensão sem mãe.
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A mãe dói. Os dias fazem-na doer e um dia. No jardim das traseiras não há mãe, e não é uma quinta dimensão onde é a quinta-essência. Só a mãe não é. Nem pai.
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O mundo é guardado lá fora, depois dos ciprestes e dos muros altos, muralhas nas azinhagas esquecidas. Só voando se sai e não voo. Nem voando se entra.
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Há gatos, mas não palmeiras. As palmeiras são ervas estranhas. Os gatos podem ser estranhos.
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No jardim há poço? Não há a árvore-espelho, subindo-se de tronco os anos e ramificando tristezas, saudades, lugares sem destino. Nem tampouco alegria, que é como figo chamando as moscas.
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Árvores dessas não se abatem. Não é a do Conhecimento do Bem e do Mal. Só de sombra e poleiro para aves.
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Não é árvore do esquecimento. Para isso tenho o jardim:
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– Se não me esqueço ou não esquecem, ao menos não me encontram.
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Nem se alimenta do ridículo. Para isso tenho o jardim:
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– Se não me esqueço ou não esquecem, ao menos não me encontram.
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Queria ter valor ou se o tendo mo vissem e mo vissem por mim dissessem aos outros que quisessem.
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O jardim nas traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fecham para azinhagas esquecidas. Sombras magníficas.
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Queria ser bom, e sigo no caminho do parvo. Perdido, em círculos, teimoso na vontade e chegada.
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Ridículo! Nenhuma mãe merece ver o filho em tal tristeza. No jardim a mãe não é.
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Dor de corno por saber que não se tem valor, doutra forma alguém. Mais corno se tendo valor e ninguém.
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Ridículo! Nenhuma mãe merece ver o filho em tal tristeza. Pior sabendo que aqueles e nada. No jardim a mãe não é.
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Nenhum filho merece ver a mãe a vê-lo em tal tristeza.
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Agora a mãe não é e amizades não são. Tenho o jardim das traseiras.
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O jardim das traseiras é melhor do que o suicídio. Não precisa despedida nem lágrima nem conversa. No jardim fica-se e o esquecimento floresce nos lugares todos do mundo. Se alguma memória vier, depressa se irá no pensamento:
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– O que será feito?! A ver se lhe ligo.
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Ligará? Não ligará? O telefone não existe e não há campa nem urna para as cinzas. Sem morte não há fantasma. Esquecido fica esquecido, não se fala mais nisso.
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Não preciso que leiam a mão direita. Não preciso que me leiam a mão esquerda. Qualquer adivinhação é certeira e falha. Dizem as estrelas:
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– Sol e Lua em Capricórnio, ascendente em Capricórnio e Saturno na Casa Três. O Sol na Casa Um, em conjugação com o ascendente. A Lua na Casa Um, tal como Vénus, que se conjuga com o ascendente. Saturno na Casa Três.
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Mas há treze signos e têm vidas de tamanhos diferentes e todos se vêem num planisfério inexistente… gosto tanto!
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Assim se explicam os dias absurdos. À noite amena de lua-nova, os brilhares são os vizinhos da frente. Por nada me mudaria.
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No céu não acontecem Komorebi.
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Nem há palavra waldeinsamkeit que troque árvores por estrelas.
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Diferentemente do jardim das traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fecham para azinhagas esquecidas. Sombras magníficas.
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Dele não se voa nem para ele se chega voando. Zona de exclusão aérea.

quinta-feira, março 12, 2015

Novo mantra

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Ôoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooom… Ôoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooom… Ôoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooom…
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Não resulta e a posição aleija-me, o que consigo da posição – o tempo em que era de borracha…
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Não sei outro mantra. Vou tentar com um em português.
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Paciêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeencia… Paciêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeencia… Paciêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeencia…
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Fiquei pior!
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Booooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolas...

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Às vezes verdes ou quase verdes

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Quando eu era pequenino não tinha raivas. Chorava nas vezes de chorar e ria muito. Doce de olhos vagamente tristes. Não sabia e sentia que precisava fugir, levando mãe e mimo.
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Quando eu era um pouco menos pequenino era gordo e não me importava. Continuava sensível e de olhos vagamente tristes e sorria. Não sabia e sentia que um dia partiria, certo do amor eterno da mãe.
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Mais crescido, chorava e desejava o que pedia desde miúdo, sem conseguir associar o sentimento à fonte. Fugia sem perseguição, aprendi a rir na tristeza. Indiferente, inconsciente, inconsequente semeei tristezas, com garras e caninos de vampiro.
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Nesse tempo tinha muita raiva e não sabia. Escrevia as raivas e li-as ou dava-as a ler. Escrevia aos amores, a mulheres abstractas, a mulheres de revista e às ninfas adolescentes do dia-a-dia. Escrevia-as e dava-as a ler e elas gostavam.
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Fogo eruptivo de sexualidade, infantil e tonto. Escondia a raiva nas letras e nas linhas, sofria na injustiça das disciplinas desnecessárias e sofria por tanta coisa. Tinha razão, mas força não. Ria e tinha os olhos quase tristes, que por vezes choravam por nada.
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Quando era jovem adulto não mudei muito, mas tinha dinheiro, o meu. Sentia-me grande por escrever num jornal. Era tão infantil, sorridente e com olhos grandes vagamente tristes.
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Da arrogância, soberba e cinismo, recolhi indiferença, castigo e traições. Acabei por acreditar em Deus, sem perceber o significado nem ganho grande fé.
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Um dia uma montanha atropelou-me e fui arrastado. Começava a cair. Caí de tudo e caí na doença, se não bastasse, caí ainda mais no negro. Viúvo sem cadáver e a sorrir como os palhaços. Nos dias depois das muitas noites, caí ainda tão mais fundo, mais do que o castanho-negro dos meus olhos quase tristes. Tristes e cansados pela traição impossível.
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Caído de tudo, numa vala colhendo a terra de enterrar que atiravam. Fiquei sem querer. Houve também água, mais difícil de conter nos meus olhos tristes. Afogando-me, vim por vezes à tona. Sugado pelo vórtice, na violência das coisas invisíveis, inalando água, engolindo água, escorregando na água, fenecendo na água.
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Até a uma enseada de luz. O local de repouso dos falhados, onde não há escadas nem fendas para trepar. Se me habituei? Não, não me habituei e os dias lembram-mo todos os dias e o espelho reflecte a derrota nos meus olhos tristes e que sorriem.
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Ainda assim, adio. Adiamento em adiamento. Sou uma casa sinistra de escura, de longos corredores em que as portas se abrem para quartos escuros e se fecham impossíveis. Nesses quartos escuros onde só entra escuro fica-se encolhido de medo e miséria nos cantos mais negros.
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Há os outros dias, alguns de fingimento. Embora as seis alegrias. Tão doces e não apagam a dor da alma, nem devolvem a Primavera perdida.
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Adio. Adio e adio e adio o adiós.