digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quinta-feira, dezembro 31, 2009

Natalidade

Neste pequeno silêncio, neste espaço em que as palavras são apenas pensamento, neste compasso de in-movimento do olhar e serenitude da respiração, nesta vontade de não vontade, há uma mágoa de saudade.
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A saudade é uma ferida da memória. Na saudade cabem os mimos da mãe, a paciência das avós, os passeios com o pai, o jardim das pirâmides de Faro, o odor do mar na linha do Estoril.
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É outra vez Natal. Mais um feito de pouca coisa. Não de coisas, mas de qualquer coisa. É nova caminhada no silêncio de ruas vagas, entre caixotes do lixo por vagar os papéis bonitos, os laços e os plásticos.
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Na manhã de Natal não há ninguém, felizmente. Tenho uma cidade só minha. As minhas dores têm mais espaço para se largarem e algumas, tenho esperança, voem e não voltem, como se fossem rolas.
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Sempre que se acaba o Natal digo:
- Daqui a nada estamos outra vez no Natal.
E assim é. O Natal não é como o ano novo. O Natal é um tempo velho. O ano novo é um caderno de folhas para escrever. Entre uma e outra data há dias seis dias sem qualquer sentido nem utilidade.
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Fossem sempre assim os dias: sem sentido nem utilidade. Seriamos todos mais livres.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Olhos nos olhos em casa

Gosto de te ver de frente, porque não me mentes. Não te sei enganar. Tenho uma ribeira brava a correr em mim onde podes molhar o rosto e disfarçar as lágrimas, se as tiveres. O que vivemos juntos é um segredo e não é mistério para ninguém o amor que temos, embora ninguém saiba definir o sentimento e o diga de forma tão diferente, que o torna todo igual.
Vejo-te na pureza de olhos para ter a severidade da crítica e a doçura toda. Neles vejo os filhos que fizemos e os que perdemos nas vicissitudes. Neles sei se tremes e se tens frio ou se me queres. Neles estou reflectido e sei se estou bem, porque a tua boca diz o que vêem. Não me mentem e de frente dizes-me tudo.
Esta é a nossa casa e daqui está o todo nosso até o ser só por estar ao alcance da vista. Daqui até adiante há o conforto do recanto e o incómodo de algumas lembranças. Sei e sabes o significado de tudo, sabemos o que é, e o que significa para cada um. Tudo isto é o nosso casamento. Cumplicidade feita de olhos nos olhos. Gosto de de ver de frente.