digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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sábado, agosto 11, 2018

Esperar ser seu

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Esperar ser seu, da carne à emoção, é um ardor razoável.
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Se o seu desejado quiser ser seu, será seu.
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Se o seu-desejado não cumprir tal ensejo, teimar será cobiça.
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A cobiça é inveja adulta, qualquer inveja discursa a derrota.
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O postigo não é porta nem o buraco faz de túnel.
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Parar é inteligência, insistir é arrombo.
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Enraizando-se numa birra – do melindre e do ciúme – a porta é só de saída e o orifício estreita-se do desalentar ao ferir.
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Implorando crescentemente, como nova-chegada, resta-se como súplica de soluçar.
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Escangalhado-cego-e-surdo, o amor-próprio é um nado-morto e a sua lágrima do desgosto afoga-se patética.
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Não havendo ânsia das outras alma e corpo, talqualmente tudo, quando não é, não é.
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As indevidas querenças, de eternidade e luxúria, são peçonha incessante e maníaca – uma doença crónica voluntária.
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Porque já chega, diga-se:
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Um envenena e outro empesta.
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Se existisse, que escolhesse – o Diabo.
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Por cá, escolhemos e certezantes amamo-nos.

sábado, março 21, 2015

Caetano Veloso é o Rei Midas – oiça-se a música «Sozinho» em diferentes versões

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A fronteira é uma linha imaginária que por vezes é óbvia. Uma canção pode ser cançonetismo farsola, soul de casa de passe, cólica ou ouro.
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À versão de Tim Maia faltam as bolas de espelhos, as luzes coloridas do lusco-fusco, o chão de acrílico colorido que se acende a espaços, meninas de tranca rechonchuda a transbordar da saia micro e travada de pergamóide, perfume rasca e sapatos altos com plataformas, fingindo cristal ou de escarlate envernizado; putas!
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Sandra de Sá é mais sóbria e sobra-lhe a falta de talento – como é possível sobrar o nada?! Voz feia e potente e ausência de talento interpretativo. Sem julgar orientação sexual – assunto que não arrelia – esta versão aviva-me as lembranças dos bares de camionistas sem pila mas com mais testosterona que uma equipa de rugby, onde fui levado por amigas curiosas ou um pouco mais do que curiosas. O melaço transformado em calhau, um assassínio do espírito da composição.
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Quando Caetano Veloso a ouviu enamorou-se. Descobriu que era Sandra de Sá quem a cantava e encheu-se de desejo. Ao saber que o autor é Peninha decidiu-se a gravá-la e pô-la no seu chou. Teve medo ao descobrir que Tim Maia a adoptara – não percebo o que lhe intimida e agrada no músico carioca…
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A versão de Peninha… dá pena!
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Caetano jogou as mãos à música e como Midas fez ouro. A intoxicação de açúcar e banha de presunto – muito além de qualquer pudim – torna-se em alta cozinha.
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domingo, novembro 02, 2014

Quero Brasil

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Tenho receio de que quando for ao Brasil a fotografia que levarei para reconhecer o anfitrião seja dum rosto inventado. Nem todos os portugueses se chamam José, Manuel e António e usam bigode. Nem todo o Brasil de Ary Barroso é o Brasil todo.

sexta-feira, agosto 09, 2013

Eu

Se me lembrasse de tudo o que escrevi, lembrar-me ia do que sou.
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Se escrevesse quem sou, não diria quem sou.
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Escrevo e não me lembro, mais me lembrasse mais esqueceria.
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Por que sendo o que fui e sou, não quero o quem tenho sido.
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Nota 1: Não diria como a música. Diria como mistério e se o mistério não tem fim, o mistério é lindo. E eu, não o sendo, sou tão denso como qualquer alguém.
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Nota 2: Sim, esta música e este vídeo já cá cantavam.

quarta-feira, novembro 22, 2006

A pomba


Lembro-me duma manhã, ainda quase madrugada, e dum caminho feito em quase silêncio. Havia nós nos estômagos e apertos nas gargantas, os olhos estavam cheios de água com muita vontade de transbordar e as vozes abafaram-se antes que se exaltassem. Não havia frio nem calor, mas cólicas de alma. Uma vontade de liberdade, de desafogo. Um medo de morte.
O caminho fez-se de olhos postos no cimo, muito acima dos altares, e os lábios a dizer juras de paixões vermelhas e roxas.
A chegada de espera de todas as horas, num tempo sem significado. Um significado maior que o tempo. Um gesto maior do que os homens.
Em silêncio largou-se uma pomba ao céu para que voasse tão alto quanto pudesse e voltou-se ao dia anterior à antevéspera, quando ainda não te conhecia. Desde essa antevéspera que uma pomba voa.
Já não tenho nada, voou tudo nessa manhã. Desse dia não resta nem o passado, tudo me foi levado. Hoje não tenho nada, tudo me é negado. Hoje não tenho nada.