digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Frio ou sopas

Não gosto de artistas e não tenho paciência para poetas. Os distraídos irritam-me e enfurecem-me opiniões divergentes. Gosto do sossego do-que-nada-muda. Gosto da arrumação e da autoridade.
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Posso tolerar tudo e abdicar que quase tudo. Mas não perdoo a atrasados.
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Quanto ao resto… tenho pouca paciência para mim.

Dias que são noites

A minha fé é egoísta e a minha dúvida não se acalma com uma igreja. A alma espera a luz, mas o ânimo cede ao peso do granito do templo, o corpo confunde-se indeciso. Nos dias tristes, a luz não passa nos vitrais e Deus está ocupado. Não há acalmação da melancolia, pasta pegajosa de indolência, lentidão e desânimo.
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Há dias em que se é cigarro que a vida fuma; pior: cinza que a chuva leva. Dias de natureza morta e quartos de sombra. Dias de passado. Dias de lonjura.
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Não quero ser peixe, mas também não quero isto. Deus não quer saber das minhas birras e eu perdi a confiança. Nem canário. As gaiolas são tristes, tiram luz aos olhos.
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Há um sufoco que entontece e derruba. O sangue aquece-se na frieza da vida e transborda das veias, em fúria. O corpo cede ao seu peso e a alma perde-se nos escombros.
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O azul não paga portagem e o negrume é luz que não se apaga. A sombra não tem burburinho, esse está no lusco-fusco. Mas as auroras e os entardeceres estão encostados à noite, onde o silêncio assassina. Os dias… se tivessem luz, eu acreditaria em Deus.

É tão verdade


Tristeza e melancolia


Rua

A rua é onde as intimidades se ocultam e as personalidades se misturam. A rua é castanha e tem barulho. Até na calada há eco de passos e se nada se passa, então a rua não existe. A rua não é uma praça, onde as vozes se unem e se fazem multidões. As praças são os olhos das cidades, mas as ruas são as mãos. Há ruas tristes, dos bairros sossegados. Há ruas luminosas, que têm vistas. Há ruas feias, de gente feia. Há ruas lindas, de lojas lindas. Há ruas falsas, de gente perigosa. Há ruas de e para tudo. E gente de toda a espécie em todas as ruas, como nas praças. Agora que deixo a minha fica-me um amargor por amar e a incerteza dos amores novos. Como em pequenino, tenho medo do escuro.

Calor





















O Sol que chapeia a minha fachada só me aquece o corpo. Sou um burburinho de cascalho rolante, rio sem água.
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Quem olha a monotonia do chão não vê a transcendência do manto e desconhece que o fresco do enterramento dá, mais abaixo, lugar a um calor de suor.
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A memória da água é mais longínqua que a boa vontade da minha imaginação. Onde distraidamente se passa em diante houve um rio, antes um glaciar e antes princípios de mundo.
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O Sol seca e a chuva ilumina dos seixos. Pedras que apedrejam por dentro quando o Sol apenas bate sem pensar.
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Sei que se me deitar e me esquecer só a terra me saberá. Um dia, uns palmos frescos, dormirá o corpo. A alma vagueará à procura de calor.

quinta-feira, outubro 18, 2012

Apocalipse















Não falta muito para o Apocalipse e falta-me descobrir quem são as cavaleiras das tragédias. Conto três, a que traz a Balança, a vestida de Lacrau e a Centaura… quem mais? A ausência dá-me a fé de o mundo não acabar a 21 de Dezembro. Mas o mistério intranquiliza-me. Não paro de pensar nisso.

O fim do mundo está quase

Faltam dois meses e três dias para o fim do mundo e ainda não pensei no que vou servir no jantar desse dia.

Árvore


No jardim de degredo, a árvore do silêncio, única companhia de homem de palavras. Juntos escrevem. Ele em voz alta e ela emprestando seiva e concedendo sombra.
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Sem muros. Só a parede da distância e a solidão, concedida pela desvontade de andar. Ficar, na preguiça de mudar a vida num nanossegundo. Nem uma brisa que despenteie.
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Sol ou chuva, tanto faz; a vida lenta, entre a indolência e o tédio. Relva de se deitar e vontade de fumar.
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À sombra da grande árvore, de tronco quente e cúmplice, deixar dormir e sonhar, sem que o sonho fuja do jardim de solidão, por medo de perder a casa da alma.
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Não há amores, só a pasmaceira da deslembrança das paixões. Pálpebras pesadas, de desistência, e nenhuma coragem nas mãos.
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Um dia haverá silêncio sem palavras, só a sombra viúva da árvore.

segunda-feira, setembro 24, 2012

A Terra Prometida

Diz-me que és e estarás. Diz-me com essa boca de beijo que me amas e jamais me abandonarás. Diz-me com uma mão no meu cabelo que estarás a meu lado quando acordar. Diz-me que terás os braços ao meu redor quando acordar. Diz-me com os olhos excitados para te despir e meter na cama. Diz-me de manhã com os olhos ensonados que te dê o abraço que falta para o banho. Diz-me com os dentes muito brancos para te levar o pequeno-almoço à cama. Diz-me que não gostas de rosas para que te possa oferecer malmequeres. Diz-me que queres todos os meus instantes e que me dás os teus. Diz-me que os meus beijos só se parecem com os meus beijos. Diz-me…
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Não haverá cigarros na contemplação do tecto depois do amor. Nuvem de palavras com certeza, silêncios e sonhos. As vozes vão interromper-se e haverá preguiça de ter preguiça, para que tudo se componha até a preguiça poder voltar.
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Sei que haverá pés descalços na madeira do soalho e cheiro a detergente na cozinha. Haverá frango assado e batatas fritas de pacote, Coca Cola e cervejas, guardanapos de papel, nódoas de qualquer coisa e pingos de tinta.
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Haverá noites de angústia na esperança, uma sensação de salto e temor de queda. Haverá dias de Sol e água na vidraça. Morrer e reencarnar. Viver e tentar não voltar a roer as unhas. Cigarros? Antes uma Sagres fresquinha.
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Diz-me que é tudo verdade.

sábado, setembro 22, 2012

quarta-feira, setembro 19, 2012

quinta-feira, setembro 13, 2012

terça-feira, setembro 11, 2012

sábado, setembro 08, 2012

Ainda és? E já não estando...


Sentado num plano com o pôr-do-sol à frente e a noite compacta de estrelas atrás. Deus num lado e a facilidade do outro. Com o olhar não meço horizontes e a incerteza dos passos não me move os pés. Por vezes enterro os pés neste tédio de incertezas. Outras nado na felicidade de tudo.
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Costumavas estar aqui, mas foste. Conversas levaram-te. Ou afinal nunca aqui estiveste. Sei que estiveste. Disseram-me, explicaram-me e julgo ter percebido. Foi o teu corpo, ficaste tu. Só cheguei agora. Invisível? Invisíveis.
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Dizem que me culpabilizo. Não me perdoei, reconheço. Mas não tem nada a ver, não é por isso que te perdoo. Não tem mesmo. O teu engano não magoa. Se magoasse? Perdoar-te-ia como me perdoaste. Sem remorso e sem comércio.
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Talvez, se passar na rua, só te conheça o retracto. Além dos sonhos sei da tua bondade. Nos dias que passam mudaste. Desvias-te dos compromissos com Deus, talvez por amor a um homem.
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Essa é a tua vida. Se estás num cruzamento? Estou num plano de infinitos e aqui não passam estradas. Se estás em qualquer outro sítio? Não saio daqui. Se queres o que não dizes? Não te oiço e não te vejo.
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Explicaram-me e acreditei. Tenho todo o mundo para ir, mas nele não te encontrarei. Estou e só te sei depois do pôr-do-sol.
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Lavo os olhos no presente, colho flores e fico. Tenho todas as incertezas, menos uma: não estás aqui.
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Tudo à volta. Agora volto-me para dentro e regresso ao dia normal.

sexta-feira, setembro 07, 2012

quinta-feira, setembro 06, 2012

Meu Deus, o que fazer com estes vinhos? - ou Anima L8 e Cavalo Maluco 2009





















Arte e vinho são duas palavras que se casam. Tantas vezes se dizem que a verdade se esconde, tingindo a banalidade. Existe, e quando é salta aos sentidos e deixa na alma o inconfundível toque de Deus.
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Deus criou o homem, que criou o vinho. Deus tornou o vinho sagrado. Já o era, antes de Deus ser só um e se nomear apenas com o artigo definido no singular. O vinho celebra e evoca, atenua a dor e aviva a vitória, aquece a esperança, espelha a alma, a essência e o carácter.
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Perfeito é Deus, tudo o mais é procura e conquista. Estes dois vinhos são perfeitos; na dimensão do homem, dos seus momentos e suas contingências. São momentaneamente perfeitos, porque o vinho é uma arte do efémero. Como qualquer criação, são eternas as suas memórias escrita e falada.
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Gosto da tradição e da transgressão. Gosto que o sempre exista para sempre e que haja sempre quem queira inventar além do sempre, para sempre. Gosto dos artistas e dos oficiantes, gosto dos sábios e dos puros. Gosto dos académicos e dos iconoclastas. De todos, mas só dos verdadeiros.
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José Mota Capitão, enquanto produtor, pode ser isso e o seu oposto. Não privo, mas sei da verdade que transmite pelo olhar e palavras quando fala de vinho e dos seus vinhos. Como um criador, das artes ortodoxas, o vinho, a sua arte, é feito para si e não para o público. Percebe-se que faz os vinhos que quer e quer o que gosta.
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Repito e acrescento: Gosto dos académicos e dos iconoclastas. Mas só dos verdadeiros. A verdade dos vinhos de José Mota Capitão é o seu maior elogio e trunfo. A honestidade é um tesouro, mérito na vida e na arte.
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Mota Capitão não faz petit verdot porque está na moda, porque dá sainete, porque vende bem… pode isso tudo, mas faz petit verdot porque gosta de petit verdot. Cabernet sauvignon é outro gosto deste vigneron.
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Há umas semanas, a propósito duma reportagem para a revista Vida Rural sobre o cultivo de arroz, que também produz, provei as novas edições das suas mais procuradas criações: Anima e Cavalo Maluco, o L8 (2008) e o 2009, respectivamente. Face a colheitas anteriores, em alta, os dois vinhos.
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Dizia-me Mota Capitão que está a aproximar-se dos italianos, a deslindar cada vez mais tarde os seus sangiovese. O mais novo tem quatro anos e o vigneron já fala na hipótese de cinco anos para uma colheita próxima.
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A tesouraria empurra muitos vinhos para a rua ainda em criança, em vez de debutarem na mocidade. Ao ver as vinhas a evoluir com os anos, fica maior a vontade de fazer bem. Pois que os enófilos aguardem a revelação para a maioridade dum vinho.
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O Anima L8 está de se babar. Qualquer momento serve, é perfeito. O Cavalo Maluco é «um vinho muito bêbado», como definiu um amigo de Mota Capitão.
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O Anima L8 revela-se no nariz com café, especiarias (cravinho suave, pimenta branca ligeira), notas herbáceas, palha, terra, fumo ténue. Na boca é denso, tem uns taninos rugosos que enchem a boca, mas não a brutalizam, vê-se que será um senhor à mesa de quem o souber e conseguir guardar, tem potência e frescura, e um final levado da breca.
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É mais do que sabido que Mota Capitão queria ser índio quando era miúdo e brincava ao velho Oeste. Queria ser fora do todo, para ser diferente no todo e ser feliz, podendo livremente escolher o que queria e quem queria. Cavalo Maluco, o chefe sioux do povo Lacota… ilustre e magnífico. Que nome melhor para se transmitir numa obra?
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O Cavalo Maluco 2009… este é, esta edição, mais um que me deixa doido. O seu lote é composto por 60% de touriga franca, 30% de touriga nacional e 10% de petit verdot e é maravilhoso. Num primeiro embate um apetitoso e rústico azeite suave… deixado restabelecer-se do despejo no copo, o vinho assinala chocolate preto e fumo ligeiro. Adiante vêm aromas de amoras maduras, alguns tons herbáceos. O correr dos minutos confere-lhe anis, caramelo e azeitona. E já no fim, chocolate de leite e finura de café. Na boca tem potência e acidez, uns taninos de seda, e se tal se diz tantas vezes que, para se distinguir das outras, digo que esta veio pela Rota desde a China meridional. O final é longuíssimo.
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Nunca fiz sexo tântrico, mas consta que concede orgasmos longuíssimos. Este dá.
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Anima L8
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Origem: Vinho de Mesa
Produtor: Herdade do Portocarro
Nota: 9/10
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Cavalo Maluco 2009
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Origem: Regional Terras do Sado
Produtor: Herdade do Portocarro
Nota: 9,5/10
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Vinho, mesa, touriga-franca, arte, uma amiga, Vale Meão e Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria… interesses partilhados já descobertos. Um abraço JMC.

Tem ânimo

Não esmoreças, haverá sempre alguém para dizer mal de ti.

Juro que era isso!





















– Se um mago te concedesse um desejo, que lhe pedirias?
– Uma casa nova.
– Um palácio, não?...
– Não.
– Deixa ver, uma vivenda num local idílico.
– Não necessariamente…
– Hummm… com espaço para uma boa garrafeira?!
– Não, bastava que lá coubesse uma máquina de lavar loiça… é que odeio ter de a lavar.

sábado, setembro 01, 2012

Da Dinamarca















Princesa da Dinamarca? Nem esturro! Os olhos que me encantam parecem-se com os de Ana, que não sei como se escreve, nem nome nem apelido.

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Princesa? Sim, loira e doce. Ah! Sábia e picante.

Nos casamentos o rei é bobo e o amante desgraçado.
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Aquela dinamarquesa, a de Lisboa, da Baixa e do sexo… tantos anos depois e ainda é pombo no Rossio, ainda que cá não volte.
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Princesa por dias e não estará na história e a minha princesa era loira de pentelheira, garanto.. e mamava como uma princesa.
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Nota: Contei-lhe e ela, como se nada fosse, perguntou-me onde íamos. A dinamarquesa foi outra.

Amar amar


Devido a tantas desfeitas, conclui: há várias formas de ser amado; uma delas é desprezar.

Cristina nua, vestida diante de meus olhos





















Hoje, esta noite, estive quase a ser feliz. Basbaque, quando reconhece na rua a cara que vê na tê-vê.
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Linda como imaginou. Mais linda e viva. Olhos mais vivos e sorriso sem preço, nem incerto e, muito menos, certo.
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Ali, frente dos olhos; mais baixa do que imaginada, mas mais doce também, com sorriso de além. Olhos cor de olhos de paixão… e a boca fina. Mais baixa e muito mais magra, muito mais baixa.
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Mas o peito… ah! O peito… grande e fixo, maior do que visto, nas intimidades consentidas. Linda!
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Eu a derreter-me e ela desfazendo-se em charme, colada a homem de pouco jeito, fixava-se no amigo, mais novo uns quilos, que a desconhecia…
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E eu, basbaque e sedento, via-a e pensava nas fotografias, antes que o meu olhar a despisse mais do que a roupa deixava.
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O sorriso, mais leve e suave do que aquele que o dinheiro comprava num concurso oleoso.
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Tudo! Via-a, existe, além da televisão e mais bela do que nua na internet. Mas não olhou para mim.
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Nota: Confesso a minha paixão por Cristina Martins… nunca mais vi o Preço Certo.

Minha querida Dominika, escrevo-te...

A puta da internet é mesmo fixe!... Só é pena não estar a comer as gajas que nela vejo…
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Nota: Quem me dera os lábios de Dominika A.

sábado, agosto 25, 2012

Neil Armstrong

Ainda eu não tinha nascido e já existia o Neil Armstrong. Cresci e mal falava e já se falava no Neil Armstrong. Desconhecia a corrida ao espaço mas ouvira falar no Neil Armstrong. Sem perceber porquê, sabia dizer o nome de Neil Armstrong. Quando descobri o nome do primeiro homem na Lua já ouvira falar no Neil Armstrong. Constou-me que ficara louco, que não compreendia nada do que fez, que, na melhor das hipóteses, veio diferente da Lua, creditando que havia um outro mundo… mas sempre Neil Armstrong. Neil Armstrong… Neil Armstrong… Neil Armstrong… Vasco da Gama. Neil Armstrong.
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Nota: 5 de Agosto de 1930 a 25 de Agosto de 2012... e o homem meteu um carro em Marte.

Você é real - mil novecentos e oitenta e seis ou assim

Desejei, amei, cantei, curti, suspirei, desejei, amei, cantei, curti, chorei. Eu, ela e a outra. Os entardeceres de Verão, as cores subtis na distância de São Vicente de Fora. Um bocado de cidade de distância, como se fosse a cidade toda. Duma casa a outra uma imensidão de passos e incertezas. Nunca a beijei, mas cantei a pensar. Suspirei e chorei. Fugi e cantei. Ainda hoje. Ela, a miúda mais gira da escola. Ela e a outra. Esta! A dos olhos verdes e cabelo loiro. Hoje nas fotografias pirosa. Mas suspiros e taquicardias. A distância de passos e de bafo, e nunca olhou para mim com desejo de estar mais próxima. Um bafo e um beijo. Ela era irreal.

Siripipi de Benguela, um acampamento

Acreditei em amanhãs que cantam e gostei de canções ao amanhecer. Acreditei que músicas eram o Brasil e conheci um continentes mestiços. Acreditei, menino, nesses ritmos de África que foram ao Brasil e vieram aqui. Hoje é tudo dourado e quase nada brilha por si. Siripipi de Benguela é encosto doce na cabeça das memórias; dias felizes da ilusão. Que fossem sempre assim os dias.

sexta-feira, agosto 24, 2012

À outra banda

Tenho de te levar à outra banda. Parto contigo, da amurada beijo-te como se estivesses no cais. Pingos de sal saltinham como golfinhos. O sulco de espuma ata as margens de Lisboa e nós agarrados como se tivéssemos frio olhamos o alinhavar, de olhos atados um no outro. Saltam os corações como os golfinhos. Os cabelos fazem cócegas ao vento e o sal cola-nos os lábios à boca. Todo o azul-branco de Lisboa riscado pelo laranja pequenino. Nós sarfando distraídos esquecemo-nos de acenar à cidade. O Sol põe-se e a muralha conta o passado, na nostalgia da história encontram-se as mãos, perdemo-nos de amor em beijos. Já noite regressaremos, cansados da viagem breve. Lisboa chegará em poucos minutos, tempo bastante para nos apaixonarmos. Chegados iremos para casa fazer amor.

Martini


Tomo um Martini Extra Dry com sumo de maçã, um terço para dois.
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Não tomo conta de mim e deito-me a pensar na ausência, até que os olhos desistam de estar fechados e acordados.
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As gatas estão, duas, aos pés da cama e outra por aí, numa cadeira ou no sofá. Deram-me cabo do forro das cadeiras.
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No outro dia joguei às cartas. Esta noite sonhei que jogava, mas atrapalhava-me e o meu pai zangava-se. Mais ninguém sabe jogar canasta.
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Está calor. Todas as manhãs acordo suado e a fronha molhada tem um cheiro enjoativo. Tomo um banho e mudo-as.
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Acordo depois de desistir de dormir. Não como e tomo os comprimidos que me tornam invulnerável. Bebo sumo de laranja ou de maçã. Vou à rua e tomo o único café que o doutor deixa. Tomarei mais três ou quatro, não me chateiem.
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A manhã tem tédios. A tarde tem tédios. Tenho mãe e por vezes paciência.  A noite tem tédios e sono ou rebeldia. No computador há pornografia e ternura, mas quase todo o dia só tem tédio.
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Como o que há. O que não há faz-me mal ao colesterol. Consigo na ausência.
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Tomo um Martini Rosso com sumo de laranja, um terço para dois.
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Não sei tomar conta de mim, disse a doutora. Sei lá se sei… tenho de fazer dieta, disse a outra doutora. Tenho de fazer dieta, diz a mãe. Tenho, digo na ausência. Não faço.
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Não faço a amor, suo tédio. Abraço as almofadas enganando a ausência, como fazem todos os tristes. Sonho com cidades.
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As gatas deixam tudo. A Granita só não gosta que a festeje com os pés. À vez derretem-se, em miados e torrinhas. Há sempre uma. Há sempre quem me salve a vida.
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O tédio e a ausência, o esquecimento e o escuro. Não tenho medo, tenho dor. Mais um dia. Não tarda, o fim do ano e um novo para alimentar o tédio duma vida vazia.
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Tomo um Martini Bianco com sumo de limão, um terço para dois.
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Não tomo conta de mim, mas gosto de tomar de ti. Sem ausência, o amor é mágico.

terça-feira, agosto 21, 2012

Fazer o bem sem ostentação


Uma enorme vontade de abraçar. Há homens que são anjos, ainda que não tenham asas e não sejam perfeitos. Nem que salvasse uma só vida. Não consegui conter as lágrimas.

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Fazer o bem e não dizer, sem procurar aplauso ou honrarias. Na glória de Deus, a máxima cristã: «Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita».
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A sabedoria escrita no Evangelho Segundo o Espiritismo (capítulo XIII) levada à prática. «Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita». Deus sabe do bem e do silêncio.
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Nota: Através do blogue «O planeta que temos». 

Um belo jantar perto do Pinhão

Às vezes sou mesmo tosco. Não me costumo perder, mas dessa vez andei à nora à procura duma quinta. Foi na quarta-feira passada, no Douro, junto ao Pinhão, primeira etapa duma viagem de cinco dias… miniférias, coisa que não tinha há… dez anos!
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Em Tabuaço há placas a indicar a aldeia de Barcos. Não custa nada, basta ter os olhos abertos. Pois, mas num cruzamento em vez de seguir em frente, como indicado na tabuleta, fui para a esquerda. Fiquei a conhecer um miradouro e uma bela estrada de serrania. Ainda bem que há telemóveis.
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Mim (achei que fica giro um «mim») e A chegámos a bom porto, bem a tempo da jantarada e de boa conversa. A J já conhecia, sempre feliz e sorridente e fixe, o J é muito simpático, educado e charmoso e «Quem aí vem» já se mostra. Depois veio outro J, só para confundir as interpelações.
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Além de «Quem aí vem» vem também aí um branco e um tinto. O branco ainda rabuja um bocadinho na garrafa e o tinto ainda não está propriamente pronto. O primeiro é uma certeza e o segundo vai ser outra.
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Gostei muito do toque a cabeça de fósforo do branco. J, o enólogo, diz que é capaz de entrar na moda, que os neozelandeses procuram lá chegar, apontando à Borgonha. Chamou-lhe funky… gostei da expressão e não me sai da cabeça. É isso mesmo, funky.
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Para a mesa veio a especialidade da casa: frango de caril, que foi bem com o branco funky, com o tinto da quinta e com o outro encarnado que levou o J enólogo. Teve-se muito bem, nem o «fresquinho» do Douro constipou ninguém… quem estava, já estava.

Três dias no Douro

Tenho ido muitas vezes ao Douro, mas esta foi a primeira apenas em lazer. Primeiro foi uma bela jantarada em casa da J, do J e de «Quem aí vem». Duas noites no Pinhão, numa residencial limpa e simpática. A típica casa com quartos e restaurante: doses enormes, mesa bem farta, para engordar quem já é gordo e guloso. Foi a Ponte Grande e gostei muito.

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Depois do Pinhão foi Foz Côa, onde me vi obrigado a pedir o livro de reclamações do Hotel Vale do Côa. Nesta casa promete-se o que não se tem, mas cobra-se como se tivesse. Televisão por cabo? RTP1, SIC, TVI, TV 5 Monde, CNN e Sport TV… todas com péssima sintonia.
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«Então? Não tem Sport TV? E a imagem vem por cabo, não vem?» – engraçadinho, o dono do estabelecimento. A banheira não tem tampa para o ralo?... que pena e vá de demorar em fazer o favor de arranjar o objecto. A internet wireless é paga… bonito! Ora, se soubesse disto teria ficado numa residencial, sem wireless, sem tv por cabo só com um cubículo para o duche e por menos 15 euros.
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Como o dono é espertalhão, pensa que os outros são parvos e que está a fazer um grande favor em alugar quartos, levou com a reclamação. Aliás, o dito senhor parece ser conhecido pela fanfarronice e arrogância. Tadinho, paciência, levou com o protesto no livro e pode ser que se trame (apetecia meter aqui um palavrão).
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Voltando ao que interessa e a quem interessa: Pinhão, localidade muito feia, mas com uma vista linda, com gente simpática e muito ócio para quem a visita. Do outro lado da ponte fica a Quinta das Carvalhas, pertencente à Real Companhia Velha.
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A Quinta das Carvalhas é para alpinistas, vai desde o rio até ao cimo dum monte íngreme. É óbvio que subi em minibus. No topo, a «casa redonda», miradouro sem limite para a vista, que não a moldura de montanhas e rio.

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Na loja das Carvalhas manda Conceição Nogueira, senhora simpática e atenciosa. E lá gastei um dinheirão em vinho e azeite.


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A quinta foi de manhã, à tarde deliciei-me na esplanada do Vintage House e num sereno passeio no Douro numa espécie de rabelo a motor, sem remos nem vela. Só lamento que o Vintage House, desde que mudou de dono, tenha abandonado a política de abertura diária duma garrafa de vintage para serviço a copo. Foram bons tempos, de boa iniciativa de divulgação do topo da família ruby.
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Depois veio Vila Nova de Foz Côa e a Quinta do Vale Meão, onde Franciscos de Olazabal, pai e filho, espalham simpatia e generosidade, sabendo receber como pouca gente, com educação e sem afectação.

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Viva o Douro!

terça-feira, agosto 14, 2012

Céu vermelho





















Tenho sangue no céu e os pés no mundo. Juro que só viverei, mas sei que estarei até me mandarem regressar. Tremo ao pensar na dor, nervoso miudinho. Nervoso largo de sonho na fantasia da partida. E o túnel, a luz alva da tranquilidade e o esplendor, como uma ejaculação, no desprendimento final? Ah! Para lá também há vida. Se o meu mundo é este? Julgo que não, mas não sou diferente de ninguém. A minha essência está no céu, mas o corpo está na Terra.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Verbo comer













Constrói-se o amor, mas não a paixão. Constrói-se o corpo, que se devora na construção do sexo. A vida a dois desenha-se e apaga-se, em constante correcção do erro e do acerto. Consomem-se dias a construir a vida da soma de dois. Seremos sempre dois, até quando formos um, quando cada um comer o outro, como a serpente de duas cabeças-caudas. Boca com boca e órgão no órgão. Consumidos, fartos da refeição, despojados da vontade comemos as horas, reconstruindo as vidas, para que sejam de novo comidas. É eterna a episódica loucura do sexo e a paixão nunca será amor.

Circo











A vida é um circo. Prefiro ser palhaço a besta fera. Mas em todo o-pode-ser não quero mandar nem domar. Antes palhaço. Mas o que gostava mesmo era ser ilusionista, e por magia desaparecer do chapitô.
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Nota: Odeio circo! 

A intimidade do artista














Os artistas inventam a intimidade e mostram-na como se fosse invenção sua. Até um artista falso tem de inventar o seu currículo. Há quem goste e quem não acredite. Há quem garanta que se criou e quem acredite não morrer. A intimidade dum artista é e os mortais serão esquecidos. Só se incomoda com a arte quem não sabe dar. 

Baile















O teu arder doce reluz na dança, mesmo quando não danças. Há fruta e vinho e movimento ébrio. O cheiro do suor como o do sexo, mas sem o odor do sexo, do mesmo prazer. Já reposta, os pés ainda dançam depois do fim do baile. O baile é um sítio como um teatro, mas sem cortina de veludo pesado e carmim. Vermelho no rosto e água no corpo, nos olhos uma flâmula; esses olhos de morrer por tanta vida. Há quem dance e quem só descanse, quem conheça o sabor da fruta e quem também a coma. Na vida somos actores, alguns também bailarinos. E em ti, até esses olhos de chama dançam.

Dia chato















Nostalgia do óleo na água salobra, da luz parda e baça dos fins de tarde sem estação. Melancolia da luz frouxa da tristeza, da dolência desmaiada das cores fortes perdidas nas madeiras dos barcos. Uma opressão e tudo belo.

Penha de França














Lisboa íntima, da infância anterior à vida, do tempo das horas lentas.

Silêncio de vento












O mar chão é triste quando o céu está monótono. A terra não tem a força do vento da água, só as montanhas. O verde é frágil e a minha nostalgia forte. Mas nada detém o vento da água.

Um ufo sobre




















Uma janela para o céu, uma chaminé para a alma. No alto um ufo e nele gente doutra. A dormir também se morre, renasce-se quotidianamente. Os dias agora estão quentes, apetece morrer, quando o calor não dá vida. Um outro dia, mais fresco e triste, em que haja um ufo curioso, será feliz para partir.
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Nota: Acho ufo uma palavra divertida, tal como ovni, mas uvo tem sonoridade de desenho animado…

quinta-feira, agosto 09, 2012

Última ceia





Que a minha última ceia tenha gente que não veja; anjos e mortos, e os vivos esquecidos da minha solidão. Vinho tinto, mais escuro que o sangue e sagrado como o pão. Mesa com toalha de linho branco, pano puro que se tingirá no descuido distraído da refeição. Arruído solene da ceia de pompa do funeral. Que na minha última ceia se embebedem e se esqueçam de mim; anjos e mortos me abraçarão, e os vivos esquecidos não se lembrarão.

Urgência





















A arte é uma urgência. Que se saltem os muros da incultura!
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Nota: Acerca desta notícia de ignorantes, anões culturais, bimbos, deseducados, excluídos do mundo civilizado... http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO055657.html?page=0

quarta-feira, agosto 08, 2012

Metro




















Há muitos caminhos para te chegar, mas nenhum é tão profundo como o do metro.

Como são lindos os teus olhos









– Meu amor, como luzem os teus olhos.
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– São apenas espelhos da tua luz.
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– A minha luz?... fogo do meu amor por ti.
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– Amas-me?
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– Amo!
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– De verdade?
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– Sim!
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– Então faz o jantar, lava a loiça e dá-me umas massagens aos pés.

terça-feira, agosto 07, 2012

Caetanear


Caetano: surfar à vela, dias só de Sol feitos, beijo de língua na língua e petazetas na alma. Mar profundo de azul, céu alto, amor e swing. A beleza irresistível e única das coisas comuns. Setenta anos de dádiva do deus da música. Caetanear.
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Nota: Parabéns Caetano Veloso pelos teus 70 anos.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Sal-te

Saber o teu sal é demasiado sonho para o meu sonho. Tocar-te nos seios, vendo-te na fotografia. Subir-te pelas pernas já de olhos fechados. Alegria estúpida do acordar, triste sem ter sabido o teu sal.

quarta-feira, agosto 01, 2012

Tágide















O Tejo une Lisboa e Santarém. E o nosso amor também.

Rio quase mar















Nunca vi o Amazonas, nem me purifiquei no Ganges. Não soube da civilização entre o Tigre e o Eufrates. Não morri no Nilo na boca dum crocodilo. Mas sei da vista do Tejo toda em azul, toda em cinzento, qualquer que seja a cor, e a luz de Lisboa que o rio e o Sol inventam.

Na morte ou na vida

Acende uma luz, uma vela, o que quer que seja. Meu amor não me morras, porque se morreres mato-te e mato-me, para que a morte junte o que a vida separou.

terça-feira, julho 31, 2012

A palavra que falta

























Amo-te até inventarem melhor palavra. Desenho dias à janela, aguarelo alguns e outras vezes apenas olho debruçado a rua.
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Às vezes estás em casa e ficamos fechados um no outro. Tenho a janela aberta quando não estás. Com os olhos esticados na luz de Lisboa e a esperança no parapeito. O canto mudo do telefone angustia-me.
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Não gosto de falar ao telefone. Deito-me à tarde, desejoso que as horas tenham Sol e a nostalgia chuva. Não oiço música, mas deixo aberta a porta da varanda para ver a cortina mexer-se e para deixar que o mundo da rua pense que sou normal, que uso t-shirts e calças claras. Na verdade ando descalço.
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O Verão não chega a ser silencioso. O Sol pede azul da água e o vento algum sal. Não consigo que as aguarelas tenham o azul português. Mas consigo olvidar a nostalgia.
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Ainda não consegui inventar uma palavra só tua. Durmo com a ideia do dia novo e sinto o passar das horas planas e pálido ruído na rua.
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Na falta de férias, o Verão de Lisboa e seu azul celeste, que é denso e forte. Na falta de férias, a solidão morna e o lamento de ainda não te ter inventado uma palavra. Se ao menos te soubesse desenhar.
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Em azul, as três gatas são três luzes. O telefone não toca. Felizmente há quase ruído. Passam mornas, as horas, até que seja Outono.
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Vou deitar-me com a porta da varanda aberta, como um feliz solitário. Na boca a doce vontade de te saber desenhar, vestido e com os pés nus. Não cheira a flores.
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A janela de Deus

























Será que Deus tem Sol? Uma casa com janela e uma paisagem? Ou vive só com sua omnipotência na imensidão infinita e angustiante do universo?