digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sábado, dezembro 16, 2017

Época festiva

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Passo o Natal em Ílhavo, a passagem-do-ano numa indiferença e o aniversário em fogo-de-artifício inverso.

Morfina

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Sossega-me as veias e larga-me como se fosses a morte. O reflexo perfeito na água quieta onde flores claras se detiveram. Peço-me pagão para que.
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Esta dor de ser só dor, escarlate-negro das palavras indizíveis.
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Esta dor dos lábios azuis, mordidos até onde chega em carne, da frieza do entardecer invernal.
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Sossega-me as veias como imagino a morfina.
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Ou leva-me para onde me podia levar.

Como em menino

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Encalhei num verbo reflexivo, confundo interrogações com afirmações quando e esqueço-me que as palavras existem no fim das frases.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Redução de carbono

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A ciência é humana, garanto.
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O desânimo sem ânimo adormece-me. Há pudor e agonia agarrando-se à memória. A aversão à derrota é vaga de Inverno.
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As inquietudes – ansiedade, vergonha e medo – não me acalmam plenamente nos açúcares.
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Aparo as unhas, barbeio-me e vou cortar o cabelo.
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Exorcismos para os dias cínicos

Estive a pensar

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Há uma lua de sábado. Estive a pensar.
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A índole não se apazigua no quatro mágico. Há outro quarto, invisível e sentível.
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O sábado é naturalmente ungido.
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O sábado é naturalmente perverso.
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O outro quarto, sem nitidez – nem permissão – a quem não se deixa acreditar.
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Quase terra, para quem se tolera – o labirinto prolífico das palavras na cabeça.
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Nem lua nova nem lua cheia. É outra lua, aquela do avoar das bruxas e do entusiasmo dos bichos recusados.
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Lua sem papel.
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A lua sentível ao pagão e ao sacerdote.
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A lua da extravagância dos gatos.
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A lua de quem baptiza de lua o gato.

domingo, dezembro 10, 2017

A alma das

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Finalmente, é Outono. Inócuo como o Inverno, a Primavera e o Verão. Se houvesse outra estação – como o escondido décimo terceiro signo do zodíaco – haveria outra conversa, entre quem passeia os cães ou se sublima com a lua dos gatos.

Vento

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Como expulsar-se no vento – com garantia de não haver ressurreição nem reencarnação – do desarrumo da casa?
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Agora, do centro para fora. O invés desiludiu-me no sucesso e foi-me insucesso do insucesso.

Colesterol

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A vida­ vida é uma sucessão de vírgulas e de erros de gramática. Nem a rasura nem o apagamento disfarçam ou remedeiam os enganos.
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Quando as orações se confundem entre as vírgulas e a história não faz sentido usa-se o ponto final.
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Vivo a desordem, contenho as vírgulas talqualmente as comidas gordas por sapiência inversa.
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Porque a vida é complicada, irrompa o caos e a desordem da invenção que nos chegaram com a vida.
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A liberdade do ponto-final-parágrafo.

domingo, dezembro 03, 2017

Olhava para algum lado

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A professora da primária quase me chumbou na segunda classe, porque olhava para algum lado.
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A professora da primária quase me chumbou na quarta classe, porque olhava para algum lado.
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A professora de Português escreveu que não tenho imaginação e cumpria os mínimos e olhava para algum lado
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A professora de Educação Visual escreveu que não tenho imaginação e cumpria os mínimos e olhava para algum lado.
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Depois, tão longe, a professora de Educação Visual só não me dava a nota máxima, porque estava marimbando-me para a disciplina e porque olhava para algum lado.
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Depois, tão longe, a professora de Geometria Descritiva deixava-me fazer tudo à mão, qualquer mina, lápis sem ponta afiada, sem compasso, sem régua e sem esquadro, desde que definisse o correcto, porque estava marimbando-me para a disciplina. Não me chumbou, porque estava a olhar para algum lado.
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Depois, tão longe, a professora de Português só não me dava nota a máxima, porque olhava para algum lado.
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Depois, tão longe, o professor de Português só não me dava a nota máxima, porque olhava para algum lado.
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Depois mudei-me, a professora de Português só não me dava nota a máxima, porque olhava para algum lado.
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Escrevi poemas inocentes, medíocres e parcialmente plagiados, da adolescência fazendo-se culta, e estava a olhar para algum lado.
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Desenhei alguma coisa, inocente, medíocre e parcialmente plagiada, da adolescência fazendo-se culta, e estava a olhar para algum lado.
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Depois fotografei, porque estava a olhar para algum lado.
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O tempo tem sido-me de tédio e de olhar para algum lado.
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O tempo é-me quase indiferente, esperando quem se atrasa e quem não vem.
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Frequentemente, esqueço-me do amor-próprio, porque quero olhar para o lado e estou a olhar para algum lado.
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Escrevi um romance de cavalaria.
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Escrevi um romance.
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Escrevi um livro de coisas-estórias.
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Escrevi um romance de cavalaria para crianças.
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Não sei respirar sem desenhar.
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Não sei respirar sem escrever.
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Não consigo parar a cabeça, porque está a olhar para algum lado.
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Perco as chaves, quando estão fora do sítio, porque estou a olhar para algum lado.
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Alguém está errado. Possivelmente eu, porque estou sempre a olhar para algum lado. A minoria tem sempre razão, está nos livros de História.
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Esqueci-me que olhava para algum lado quando disseram que não tenho imaginação.
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Quando olhava para algum lado, li as palavras no ciclo preparatório. Confesso que doeu e não consigo olhar para algum lado.
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Magoaram-me, já invisíveis na lembrança. Bastas de ali ter sido. Esquecidas, porque olhei para algum lado.
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Na verdade, vejo-me em dois caminhos – permanente reais e fantasmas – coisas desconhecidas, negações duma imprecisa certeza e inesperada lei, menos da intuição selvagem.
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Olhei para algum lado, não e sim pela janela do palpite.
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Alguém se enganou e isso doeu-me na memória.
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Uma dessorte de olhar para algum lado que não o para onde ou talvez.
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Nota: Tão boquiaberto e triste que o texto vai infantilmente chegado à direita.

sábado, dezembro 02, 2017

Os nados-mortos

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Tantas vezes parti os dentes em lábios que os posso desperdiçar. A derrota não me mete medo, sou eu na minha vida.

Belém

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Há Lisboa, também a cidade onde só vai a luz e o rio se esquece e ainda a espraiada assim-assim como noutros lugares. Tão longe, Belém e sua cama na Ajuda, outra vida.

Belenenses

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O Belenenses não é um clube. É azul. Nada fica acima do azul.

Oração

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Depois de ditas, as palavras deixam-nos, não voltam e, se houver juízo, resta-nos uma oração para a loucura encalhar e afundar-se sem se ouvir nos remorsos e vergonha.
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Se soubesse, dizia o dobro e calaria a metade igual.
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Beberia em glória, em segredo morreria na miséria do bagaço.
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Se soubesse, ficaria de boca na tua boca e além fosse de medo e regressasse com louros.
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Se soubesse, hoje não seria náufrago.
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Seria imaculado, sem arrependimento, e apenas tédio. Sem jardins nem escadarias.
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O que te diria.
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Sem ditas, a palavras nascem mortas.

Estremecimento

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Não seriam traição os minutos sobreviventes ao beijo que desperdicei na nuca, onde me-te sentimos um estremecer. A humidade que te perdi, a minha força naufragada e a loucura, como as noites de longe.
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Antes, um antigamente de amanhecer e a certeza de que a luz chega com a bonança dos lençóis suados.
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De agora imagino todos os teus lábios. De amanhã não sei que lágrimas.
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Cartas e poemas que te entrego e nunca escreverei.
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Dizem os signos. A verdade é o tempo. Dizem os signos.

Memória

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Halguma circunstância foi deixada de herdade que não de Picasso e Duchamp? Perguntho de voz respondida. Todo houtro mérito é hartifício da luz e hafecto. Dito assim não phaz sentido, como cualquer verdade ou ezagero. Poreim é a virgindade de existir sem a crueldade da verdade.

Passando à frente

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O cão é generoso quanto o gato é fabuloso. Se entro vêm atrás da minha vontade ou porque as pessoas livres fazem o que querem.
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Não há arbustos nem árvores. Têm-se as dádivas e os ruídos da indisciplina, dos ribeiros e das folhas.
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A música fica, nada pode, das casacas aos pregos, é da humanidade, coisa que Deus consente e culpará.
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Do carinho de quem ama e se deixa ir mais como se fora a alma, emprestada ou de boa-fé.
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Os pêlos, condecoração maior, nas camisolas furadas, as gotas tornadas beijos, e seu o cheiro de magia mágica, simples e eterna.
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Bendito o tempo.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

As gatas

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Tenho pesadelos – todos diferentes, todos iguais – de perder as gatas, numa praça que leva a praças, em que escadarias, em lusco-fusco, levam e trazem, de garagens metálicas-de-vidros-sujos de centros comerciais e rodogares, e em escadas-rolantes dos grandes aeroportos. Só tenho medo desse outro mundo, só receio outra lua. Tenho o susto desses cinzentos.
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Tenho pesadelos – todos diferentes, todos iguais – da crueldade, de as perder e de as encontrar sem que me reconheçam e sem que as saiba.
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Tenho pesadelos – todos diferentes, todos iguais – do sangue, do odor calado do sangue, do olhar baço, como o do Chuqui no quatro de Outubro, sabendo-o perdido e jurando o delírio de o ver ainda vivo.
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Tenho pesadelos – todos diferentes – todos iguais – que a Lioz não retorne do vinte e um de Novembro e se ausente como as outras, perdida nas praças que levam a praças e de a encontrar sem que me reconheça e sem que a saiba.
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Tenho pesadelos – todos diferentes, todos iguais – das gaiolas de gradeados tristes dos gatis e dos miados-barulho do pavor. Da luz amarela das lâmpadas no Inverno, do óbito pressentido de as encontrar sem que me reconheçam e sem que as saiba.
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Tenho pesadelos – todos diferentes, todos iguais – de ser crucificado na agonia visceral e da severa tortura da música blues. Por essa antecipação, só tenho a voz de me perder e sem que me reconheçam e sem que as saiba.
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Não quero saber da morte, não acredito. Sofro por pesadelar nas praças-multidões sem nos reconhecermos e dos desencontros.
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Não me lembro se há árvores.
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Nota: Só a despedida do filho faria chorar além.

A sombra do tempo – Escrever quem sou dizendo a verdade sem que o seja

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Há a sombra do tempo, os espectros no espelho, quase tantos, mais óbvios e sem mudez nos olhos.
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Não são os retratos das pessoas antigas e a sua formalidade austera. Nem as naturezas-mortas, recordações das dádivas, no caminho para a copa.
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É esta casa, em permanente desmedição, o jardim-floresta, longínquo como uma fronteira, sem porta e de quase vidro, e sou eu.
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Sou tudo eu, acompanhamento e ausência, dor empática e mentira.
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Tenho a fantasia exaustiva do poder e do fascínio. A derrota vem e fica, como uma religiosa doença perpétua, e nego-a e enjeito-a, porque vivo a traição de Deus e confio no final, do fulgor, da verdade e do ciúme.
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Nada, só a casa e o todo que se lhe agarra. O linho delicado, a sopa quase fria, a água e a carne. O aroma da prata cortando a conversa quando se bebe o vinho.
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Após sou em qualquer esfera, só na solidão, sem frio nem luar que importe.
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As floreiras de jasmim e violeta, o musgo, nos caminhos dos cisnes e dos gansos, e tanta gente que não veio. Digo um credo, vento estreito que os levou, falo de feitiço e pela verdade choro.
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A resposta está nos livros, se houvesse sabedoria e nela se acreditasse, fiável como o cotão.
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Creio no descomedimento e na deferência, presunção imodesta de quem se sentencia a Lua.
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Sem fé e acreditando na justiça que Deus me deve. Confio no papel irrasgável e no cristal impartível.
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Contudo, existo e desapareço sem óbito.
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Se nem a morte existe, por que não consentir viver.

Lisboa

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Mais tarde escreverei o cacilheiro, barco que vê quem não entende a luz de Lisboa.
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Um dia voltarei aos telhados e às colinas.
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Um dia voltarão os seus céu-azul e cinzento-chuva.
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Creio na Lisboa-nossa vencendo as margens.
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Porém, a voz não volta.
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Se este coração chega para todos, algum restará para nós.

quarta-feira, novembro 29, 2017

O Wanli irá para ali – e mais não digo ainda

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Há pessoas com várias vidas numa só e assim os seus lugares. Carlos Fagulha, uma dessas pessoas com existência plural, arrastou-me para a criação do Wanli, na Calçada do Marquês de Abrantes, 82, em Lisboa. As portas abriram-se a 10 de Setembro de 2010.
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Para os transeuntes e clientes de passagem, o local é uma exposição, de caos ordenado, de objectos antigos. Para quem conhece o meu amigo, ali é um repositório das suas existências. Deve o nome Wanli – expoente da porcelana da Dinastia Ming – a um pratinho discreto e parecido – e à proximidade da fabulosa colecção no Palácio do Marquês de Abrantes, hoje Embaixada de França.
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O meu grande amigo Carlos Fagulha sempre resguardou a sua casa, onde só entrou um número muito restrito de pessoas. (Muitíssimo) falador, expansivo, educado e simpático, tornou o Wanli na sua sala de estar.
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Fui breve no Wanli, um sítio de difícil caracterização: não é bar e ainda menos restaurante nem sala de chá ou pastelaria. Todavia, consegui definir o sítio. O Wanli é uma sala de estar com a porta aberta para a rua.
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O Wanli são duas salas e um poço com nascente. A loja esteve vazia durante anos. Quando o Carlos Fagulha e eu passeávamos pela cidade, procurando um lugar para nos estabelecermos, e vimos o espaço fomos concordantes e peremptórios:
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– Vai ser aqui!
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Começámos devagarinho – nem me quero lembrar. O Carlos tinha toda a sua vida, mais uma vez, nas mãos e investiu tudo e todo: coração, cabeça e alma.
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O meu amigo fez do vazio um canto habitável. Muito cedo, o Wanli notou-se e gerou curiosidade. Poucos dias depois de estar aberto, um comerciante, com um restaurante encalhado na mesma rua, começou a imitar a pequena – mas boa – carta da casa. Tempos depois uma outra tentativa de apropriação foi (praticamente) um plágio, que passou pelo roubo duma ementa.
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Só que as imitações não resistem. A falta de autenticidade mata-morre diante do verdadeiro.
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Muito ingénua, mas verdadeira e atrevida, foi a abordagem dum pequeno restaurante, onde tudo é oleoso – até o azeite para temperar é óleo duma coisa qualquer. Perguntou como a casa sobrevivia, pois não via assim tanta clientela.
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O Carlos tem sempre uma resposta pronta, muitas vezes desconcertante.
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–Ah! Não sabe?! O café é só uma fachada para o negócio de tráfico de droga.
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Assunto arrumado.
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O Carlos fez amigos e teve decepções – naturalmente. As tristes arrumam-se num buraco escondido e as de amizade demoram-se sempre.
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Sabendo quem é o Carlos e a sua sentida gratidão, deixo os nomes de quem o apoiou no Wanli. Porque nada se faz sozinho. Por ordem alfabética:
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Andrea Fischer, Andreia Tocha, Catarina Aidos Joana Mello Cabral, Filipa Rodrigues, Francisca, Ina Kooln, Ivone Fernandes, Maria Inês Roque, Maria Servente, Nicole Amaral, Patrícia Maciel, Sara Chéu, Sara Morais e Victor Rosário.
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O Wanli é património que Lisboa vai perder, mas que outra cidade vai ganhar. A sala de estar estará aberta até ao próximo dia 20 de Janeiro. Irá voltar, em Fevereiro, numa rua doutra cidade. Renascerá como o Carlos o fez muitas vezes.
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O Wanli é um património que mudará de sítio e Carlos Fagulha tem agora outra batalha para lutar e, mais uma vez, ganhará.
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Deixo estar sem dizer, não por causa da alma dum negócio, mas porque as surpresas desembrulham-se quando se ordenam as datas.

Seguram as flores

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O dia tem vinte e quatro horas, demoradas em sessenta minutos e aguentados durante sessenta segundos.
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Escusam os optimistas de outra coisa dizerem saber, porque os pessimistas têm razão por natureza, ou não fosse a humanidade um ajuntamento de erros.
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Talvez se soubessem, os confiantes – surdos aos sábios – poderiam ganhar conserto, os anos bissextos são acertos dos minutos curtos do girar da Terra.
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Os optimistas não voam – diferentemente dos artistas, na sua perfeição e virtuosidade, nem esvoaçam ou levitam, porque são, por índole e temperamento, pessimistas.
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Contudo caem. Condenados amam – na gravidade e no seu vazio – deixando-se inclinar.
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Por decência exacta, a Lei da Gravitação Universal vale quanto o dinheiro sem ouro.
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E, por ironia, na Lei da Relatividade Geral fica por dizer o préstimo do tempo, do espaço e da velocidade – não fossem os atrasados de relógio e a quantidade de optimistas.
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Não há ciência para explicar o amor – naufrágio e glória. Tampouco estado de confiança.
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Os optimistas amam no amor. Os sempre-noivos seguram as flores para.

terça-feira, novembro 28, 2017

O Natal anuncia-se

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Há dias do cão e outros da toupeira, quando os gatos não aquecem nem a chuva do outro lado tem o ruído duma quietude.
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Não é frio ou chuva ou os comprimidos por tomar. As frases surgem feitas, guiadas por uma qualquer mão, sem fotografias ou voz ou nozes ou avelãs.
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Para mais, a meteorologia não constrói o tempo.
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O fígado-estômago-pulmões-coração-cabeça-espírito é o túnel. O ser-estar é a luz sem claridade nem tampouco da fosforescência do néon solitário dos reclames das cidades.
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Nem meia-idade chegou.
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Sou quase dias-percorridos antes do retrato solene ou do fantasma preso às coisas ou antes da refeição fastidiosa. Como a gramática encadernada em cabedal ou o pó do relógio-pendular.
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Escrevo-me todos os dias e risco-me. Esperanço-me na teimosia dos cegos presunçosos. Porque há dias parecidos com o fulgor.
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A solidão só chega para uma pessoa e a ela se termina.
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Amanhã será novo atraso.

De cantar

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Lamento, não sei escrever versos bonitos, nem versos, só poemas de tormento para o silêncio de todos, da impotência ao sofrimento.
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Lamento, dificilmente consigo rimas e frequentemente esqueço-me da métrica.
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Lamento, mas não sei como me cantarem nem invejo.
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Lamento, nem quero, digam arrogância – aquela do fracasso.
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Lamento os meus poemas de amor, fracos para a cama.
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Lamento, o que me interessa não simpatiza a ninguém.

A cama

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Diz-me se esse beijo pertence-me. Que a justiça de Deus recaia em nós, estamos obrigados sem contestação.
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Diz-me se o pão nos dará o ânimo para a forças nos guiar até de manhã. Que a justiça de Deus seja clara na sua ordenança, obrigação da força que a gravidade nos empurra para um leito.
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Diz-se se a madrugada não tem hora. Que a justiça de Deus abata no nosso feitiço tardio e paguemos ao outro a dívida do suplício do prazer.
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Diz-me que sim, que tudo isto é verdade.
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Diz-me que não, que tudo o resto é um sonho terminado.
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Diz-me qualquer coisa na cama onde acordaremos da insónia.

quarta-feira, novembro 08, 2017

É hoje

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Há dias em que o meu futuro é um passado intido. Um sonho dormente e circular como a insónia.
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As horas vão e o meu tempo sem se assomar. Ignorando-as de olhos, alastram-se silenciosas por mim todo até desmaiar.
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Há dias que não valho o baraço para me erguer ou pendurar.
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A imensa claridade é de nitidez para lá da clarividência, mas não vi e. Se soubesse, o optimismo crédulo cegar-me-ia.
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E ainda todos me juram ombro e amparo. Nas minhas costas leio as minhas costas, pois os dias e os dias-depois-dos-dias cansaram-me o amor-próprio e morreram-me a esperança.
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Sim, cego teimoso.
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Sou calado meses de desilusão sem saber de culpado. Sou quieto meses na vez de atrevido para cantar protestos.
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Sou alegria de falsa resignação. Sou soturno de natureza, de cobardia e fé. Os olhos ardem de sal
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Há dias em que a mãe não me compra vida e a porta não tem casa nem vista para viagem, igual a cubo de reclusão.
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Há dias para pedir que me falem descansa em paz.
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E eu descansasse. 

segunda-feira, novembro 06, 2017

Estou certo dessa incerteza

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Nunca te desquererei a carne, dos lábios aos lábios e dos cabelos aos dedos dos pés.
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Se não nos tivermos desobedeceremos a uma profecia.
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Se a vida não for a que nos prometemos, mintamos até à verdade.
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A poesia faz uma eternidade frágil, a demora de dois corpos na cama.

Musa

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Nunca a mulher se apaixonou por um poeta. Só pelo homem quando deixa de a versejar.

Planisfério

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Exercício I (1,5 valores)
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Indique a consequência da seguinte formulação: Se o universo fosse da imprecisa matéria e espessura do quadrado e vermelho na vez do azul e as estrelas brilhassem negras:
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– Não haveria verde.
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– Não haveria amarelo.
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– Não haveria nem verde nem amarelo.
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– Há tanta coisa que não faz sentido.
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Exercício II (1,5 valores)
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Explique a utilidade de saber que o universo resulta duma explosão de matéria há cerca de mil e trezentos mil milhões de anos.
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Exercício III (3 valores)
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Relacione a enxertia da laranjeira com a romaneira com a luz das estrelas.
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Exercício IV (5 valores)
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Explique qual a vantagem traz para a Humanidade saber a razão das coisas se nada podemos saber nem alterar.
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Exercício V (10 valores)
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Explique uma das seguintes considerações.
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a)      A utilidade de negar a existência de Deus.
b)      A utilidade de negar factos científicos.
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Por que não pode a escala de 20 valores terminar no 21?
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Porque ciência prova a impossibilidade e só Deus sabe do mistério.

Universo

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O universo não devia existir, dizem cientistas da ciência exacta. Nem cientista nem exacto, sinto-o duplamente. Tanto me penso ser sem o todo, só mente imaginativa, quanto não pertencer à ordem, por isso inútil.
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O cientista sabe como o crente da precisão do tangível e da largura da crença. Céptico da pedra e do inalcançável, tudo me faz lógica e irracionalidade.
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É sítio de perguntar da utilidade do universo, seja cosmos ou desordem. Sem essa solução – se fosse exequível – não se saberá do homem. Conhecendo-a, nasce questão igual, mais fina de especificação e tão antiga:
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– O que se faz aqui?
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É bem de ver, não há fala luminosa. Sem necessidade de perguntar, fazê-lo é tempo de prazer de espreguiçar.
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Há tão poucas coisas saborosas quanto o espreguiçar.

sexta-feira, novembro 03, 2017

Elixir que não existe

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O ar passa como um rio, sobre o rio e sobre a casa e à sua frente. Desagua na praia de rochas furadas – suas barbacãs, torres e albarrã.
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Na casa entram julgando terem entrado. É fechada na sua abertura, girada por campo encerrado.
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Sem convite nem sem proibição – é-se, não importando como. Há demoras indesejadas e partidas de desfeitar, usualmente mudas.
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Em Dezembro penso no Janeiro passado. O tempo irá passar e alguma coisa ficará para memória.
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Resta pouco do restar dos anos. Arrogantemente penso que o meu caminho breve e aleatoriamente se cruza com o da normalidade.
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A vida não é ciência, sou éter. A racionalidade é enfadonha e a sabedoria não me interessa, porque os dias são todos iguais.

quarta-feira, novembro 01, 2017

Wasabi

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Tenho-te a luz e perco-me de sofrimento no regresso duma música. Uma coisa esquisita. Sou dois momentos e uma biblioteca. A gaveta, ninguém sabe o que tenho teu e tu.

Por volta das quatro e três quartos

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O rádio, no tempo da melancolia e da angústia, fala músicas castanhas-cinzentas, de fronteira indistinguível. A tarde é eterna e os pássaros deitam-se mais cedo. As torradas com manteiga arrefecem e esquece-se do chá. Os gatos e os fantasmas dormitam. Os ladrilhos bicolores do chão da cozinha estão limpos. Talvez chova e faça frio. A noite não tarda, mas não vem.

Lisboa há bocado

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Não era o céu de Rubens. Olhei-o e vi, nem despido nem vestido de nuvens, um azul claro tão limpo, além daquele de enrolar bebés.
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Sem perceber, senti-me em Paris. O pré-anoitecer e o fumo dos assadores de castanhas, acabo de chegar, lembrou-me. Certamente, não tem nada a ver. Aliás, conheço mal a cidade.
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Não sei por que o pensei. Um devaneio sem infidelidade. Certamente uma distracção que o divã não concluirá conhecimento.
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Sou tão lisboeta. Sinto-me na luz clara reflectida no Mar da Palha e no empedrado desconfortável de calcário branco.
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Ainda no Outono, ainda no Inverno, já na Primavera e claramente no Verão, há luzes todas irmãs, quase fantásticas quanto a da angelitude.
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Na noite fria, preferencialmente chuvosa, a viagem num cacilheiro aberto tem o seu som e a cidade a sua cor. Um lisboeta sabe que o é se entende isto.

quinta-feira, outubro 26, 2017

Teste de palavra-leitura-ânimo sem fronteira

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Se no universo, caindo pelo tubo negro-néon e das cores-néon, riscos de vertigem, como sonhos de inquietude, porventura sentindo a aragem da viagem, estaria todo-tudo, matéria e espírito, afogando-me numa ideologia utópica.
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É difícil, claro. Se compreendo o frenesim que vos assusta, mesmo descrendo, nas orações continuadas, não sei o que digo, se solicitação, se desdém de vida, se o labirinto de negrum sem portas, como se no universo caindo esperando o chão e sabendo-dúvida da vida e da morte, não sei mais, do condicional ao imperfeito.
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Contado isto o que espero, avisando das minhas interrogações serem afirmações, deixo-vos por mim adivinhar o que sou incapaz de definir. Se indizei-vos, dirão-me.
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A árvore de Alice.
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A nuvem.
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A flor do cardo.
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A cidade fechada.
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O caminho para um outro lado do mundo de outro mundo.
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A cadeira de chorar.
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Calado receberei tudo, fechando indignação e disfarçando. Até no instante se sente um hálito e cabe uma memória. A resignação não é em mim e não mo perdoo.

Contemplando

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Chovendo-te rubis e sobrevoar-te para roubar os bagos da granada.
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Pela pele de clara macieza, esperar vinho e mel.
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Que em ti fosse o luzir da vela na insónia e a chama te acendesse inteira, incendiando.
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Atrevido como os ribeiros, mas frágil como as margens, desço, na vergonha da derrota e da ousadia, até ao mar sem em ti permanecer.

quarta-feira, outubro 25, 2017

Don

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O negro tem mistério, esconde perseguidos, predadores e heróis. No escuro não há música, somente os ruídos incapazes de se recatarem. A revelação arranca o medo, à luz não há monstros e o sono tarda em cumprir-se.
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A noite é como outro mundo, quando as flores cheiram diferentemente.
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Como o sal tempera, um fino feixe acorda os arrepios e o engolir da saliva atrapalha-se na garganta dilatada. Não há medo como esse.
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Nas horas do dever ser-se acordado, a silhueta negra é uma vertigem de vontade de alcançar e receio de tocar. Como se a derrota importasse elevadamente e a vitória se indesejasse.
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O Don foge pelos corredores das ameias e encurralado deixa ao perseguidor o sombrero andaluz, a capa coimbrã e uma garrafa de Vinho do Porto.
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É esta uma glória do mistério sobre o esclarecimento, como o êxito do placebo sobre a doença.
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O Don revelou-se, em 1928, pelo traço e pintura de Georges Massiot. Perfeito, eterno e infinito como o paralelogramo losangular e impossível de Victor Vasarely.
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Gerou-se nos porões húmidos dos navios que, desde 1790, traziam lanifícios e carvão e levavam Vinho do Porto. Pernoitou secretamente antes de se erguer no negrume. Onde vive quando não sequestra a respiração e o olhar do espanto fantasmagórico? Nas caves de luz infiltrada, de carácter do ouro quase velho.
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Sempre de negro, com a elegância superior do Rei de Portugal embuçado, vestido para vencer. Isso consolava-me a fantasia.
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O Batman é maior desde que lhe tiraram o azul e o cinza. Hoje, o Don permite vislumbrá-lo, mas não é menos solene nem soberbo. Que bem, mas prefiro-o de fisionomia calada, como foi a Maçonaria antes de ser discreta. Ainda assim, a visagem é feliz, obra da Volta Branding & Digital Studio.
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O Don não se deixará capturar, desaparecerá na sua torre sem caminho, deixando uma garrafa de Vinho do Porto para o perseguidor se felicitar e ter desafio e alma na sua obsessão impertinente.
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Georges Massaiot
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Logótipo precedente ao actual.
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Dani Morell
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Nota: Gosto tanto do Don que anteriormente já o tinha convidado a estar no infotocopiável.
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segunda-feira, outubro 23, 2017

As que importam

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Nem o azul é triste nem o roxo é luto e o escarlate é da mania e raiva.

Cama

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À noite fazem-se meninos e de dia soltam-se demónios.

Assim desesperantemente mulher

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Nunca a mulher se enamorou quando se apaixonou pela palavra de quem lha segredou. É assim determinante e desafio para se desmentir.

Desejo de mariposa

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Quando estiveste nua, diante da janela de ver, acendi uma vela, iluminando-te a indiscrição e eu pedindo para promessa.
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Sonho-te de amor no pesadelo do desencontro eterno. Como fosses a flor e suas pétalas, de bem-me-quer-mal-me-quer, desfolhassem os meus dedos.
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No teu calor, desejo a queimadura da mariposa. Como a morte rápida e da saciação louca de razão. Revisito em sonhos o não-acontecido e bebo a agonia do falhanço.
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Peço-te – não dizendo e digo e desminto em modo e medida atabalhoada em ordem e número – que me queimes, porque me incendeias.

terça-feira, outubro 17, 2017

Ela

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Olhei-a nos olhos, nos instantes que demoram os segundos e as horas, e vi-a.
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Não sei se em verdade, mas vi-a.
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Naqueles olhos estava a sua nudez.
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Nessa brevitura caiu-lhe a roupa. Sorrindo, do envergonhado ao desdém e da provocação à cobardia, subiu-a.
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Assim purinha de perfídia absoluta, como a do gato predando.
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Um homem não vale nada. O espreitar da pele mata fulminantemente.
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As horas passam-se, o tempo é invisível e o inacontecido é eterno.
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Não sei se em verdade, mas via-a. Nua como o lume.

Faisão e vinho da Borgonha

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– Sentiu-lhe os lábios?
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– Isso importa-lhe?
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– …
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– Esta a ser controlador. A querer controlar-me e a ela.
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Não sei se a manipulação vem do controlo ou nisso se transforma.
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– …
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– Está apenas curioso?
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Até só isso pode sufocar.
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– …
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– Está. Sei que sim.
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Não. Não lhe senti os lábios. Nem sequer a beijei.
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Satisfeito?
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– Fantasio. Todas as noites. Cada vez que a vejo passar ou a pressinto ou julgo saber onde está. .
– É adolescência.
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– Depois há… não sei se consigo explicar… Por causa do meu desejo e da minha aflição… receio e angústia de ser por ela enganado. Contudo, não a tive… quanto mais tê-la.
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– A isso chama-se controlo. Não é o único modo, mas também é.
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– …
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– Tem algum compromisso com ela? Que esperança lhe deu?
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– Agora é sua vez de ser curioso, de ser controlador e manipulador.
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– Não seja cínico. Sabe perfeitamente…
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As minhas perguntas eram retóricas.
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Hesito… está transtornado pelo ciúme ou a ser impertinente. Não vale a pena continuarmos esta conversa, que não vale nada.
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– Desculpe.
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– Não tenho de desculpar o indesculpável.
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– Exagera!
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– Não exagero. Mas refiro-me a outra coisa, uma outra forma de perdoar.
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– Como assim?
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– Não o posso perdoar e por várias razões. A mais óbvia é que não fez nada que verdadeiramente valesse a pena pedir desculpa, mas a regra da gentileza assim o impõe.
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O mais importante, ao que me refiro, é a impossibilidade de negar o que se disse. As palavras não recuam. Está dito, seja grave ou indiferente. E o que não tem remédio, remediado está.
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– Não sei se não lhe…
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– Esqueça isso, homem.
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Conte-me lá, o que vos liga.
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– Quase tudo. Porém, fica de fora o que não depende de mim.
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– …
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– Fantasio. Já nos beijámos e já nos tivemos. Porém, não sobrou nada para a realidade.
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– Quando me perguntou se – ou tentou perguntar – se a beijara, respondi-lhe com verdade e sombra. Não lhe contei tudo.
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– …
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Então… explique-se, estou impaciente.
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– Não lhe beijei os lábios. Não lhe toquei nos lábios da boca. Contudo, tive os outros, longamente, do nascer do silêncio após todos se deitarem até ao sono de cansaço no amanhecer.
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– …
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Sinto-me corno!
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– Aquele sentimento que escarafuncha. O medo disso acontecer, mas quase desejando que aconteça. Para ter um motivo para chorar e se escravizar no ciúme.
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– Como foi capaz?!
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– Lembra-se do que me perguntou inicialmente? Disse-lhe que estava a ser intrusivo, com vista a controlar e manipular.
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Acabou de me responder.
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– Estou envergonhado!...
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– Não esteja. Foi sincero.
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As respostas é que acabam por ter importância. Se não lhe disser nada, não tem nada. Seja a pergunta relevante, impertinente, desnecessário ou abissal.
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Digo-lhe mais. Tive-a sem a ter
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Como vê, estamos encadeados pelo desejo e equivocados quanto à sua vontade.
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Só nos diferenciamos quanto ao modo como gerimos esses sentimentos. O senhor é controlador e eu desafogado.
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– Não creio. Serei, mas o senhor também o é.
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Não há posse na fantasia?... Até ao ciúme.
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– …
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Reconheço. Enfim, reconheço. Confesso-me apenas calado.
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Que este segredo fique entre nós.
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– …
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Aceito um Porto branco com água tónica. Fresco.
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– Falta tempo para o jantar. Dá tempo para pedir alguma coisa extraordinária. Jantamos?
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– E o Porto tónico?...
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– Sirva-se.
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Jantamos? Só nós.
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– E se ela…
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– Se ela aparecer convidamo-la para se sentar connosco.
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Muito provavelmente, isso não acontecerá.
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Apetece-lhe alguma coisa em especial?
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– Faisão. Será possível?
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– Provavelmente não… Leva tempo.
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– Poderemos beber um Borgonha?
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– Claro que sim.
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O faisão… Quer fantasiar.
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Beberemos o Borgonha como se tivéssemos o faisão na mesa.
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Vou mandar abrir uma garrafa.
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Em que ano nasceu?
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Acompanho-o no Porto tónico.
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– O jantar será?...
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– Esqueça o faisão. Concentre-se no Borgonha.
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Olhe, esqueça lá isso da idade, do ano do seu nascimento.