digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

terça-feira, abril 18, 2017

O infotocopiável acaba aqui

Incompreendi que não gostavam do que escrevo. Criei falsas expectativas.
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Elogiaram-me muito o romance. Apesar de quatro escritores de renome me terem elogiado e recomendado, o «Sei quem tu és» não foi publicado.
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Publiquei-o, como e-book, no final de 2015 e vendi, até agora, 21 exemplares. O valor máximo é de 3,99 euros.
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Não é possível separar esse livro dos textos escritos no infotocopiável, sou o mesmo autor. Bem sei que a escrita evolui, penso que evoluí... provavelmente engano-me novamente... evolui, mas vejo maturidade no meu primeiro e último romance.
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Divulguei-o no blogue e no Facebook, o que se traduziu em, repito, 21 exemplares em dois anos, três meses e dezoito dias. 
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Este número é claro quanto à avaliação do que escrevo. Não vale a pena insistir. Não presta!
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Para as mães, os filhos são sempre os mais lindos. Não diria os melhores, mas pensei que os textos tivessem algum préstimo. Enganei-me, pelo vício da paralaxe. Levei tempo a perceber, talvez me tenha recusado a ver o óbvio, mas não sou completamente estúpido nem narcisista.
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Não é possível separar o «Sei quem tu és» de outros textos criativos, que andam espalhados por aí, quase todos no infotocopiável.
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Os textos que estão estacionados no infotocopiável ficam, as palavras que se dizem não tornam nem podem ser anuladas e deixam de ser de quem as escreve, mas é o momento de o terminar e deixar de teimar que sei escrever.

segunda-feira, abril 17, 2017

Goela

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Fugi-me, ainda me tenho num pouco. Não correr para quem se escapa é mais difícil do que não amar imparmente. Procurar quem se nos esconde dói da perda e do não achar, é granito contra ar. Sou os dois e rodando não apanho as costas.
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A solidão é uma mão de areia, grãos húmidos colados à pele, o mar a pouco e tão pouco para nele lavar as mãos e o motivo para ser em terra.
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Ter valentia é mais difícil do que tragar o mar. Se me conseguir intrépido será breve. Estranho por que me falta desassombro. É o arrependimento antecipado do desmancho do infeito e remorsos por não cometer.

quinta-feira, abril 13, 2017

Armadilha

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Não chegar a ter também é perder. Temo-nos não em sonhos, mas na meiga lembrança-futura onde se mergulha suspenso e em tremuras adolescentes.
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És toda lábios, a flor de me enganar, se fosse abelha. A ladra que anseio me roube algumas horas da vida fazendo o princípio do mundo.

sábado, abril 08, 2017

Cartas do destino

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Não revelarei as cartas, que só escrevi. Nem direi disso por fazer. Nem de te perder sem te ter. Nem falarei do silêncio. Nem que incompreendo a vida.
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Os dias têm as mesmas horas e porém somos diferentes. Hoje sou e amanhã desconheço e doutros menos. Se o mundo tivesse acabado, se nascer não fosse regresso e depois voltar.
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Não sei de cartas que não deitei numa roda de doze vezes três. Deixei o futuro correr, a fortuna ao destino e a decisão à imprudência. Incapaz de suportar a fraqueza largo-me numa desobediência, seja a que for, serei triste e arrependido.

Lisbôa

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Rasguei papéis até os acabar e já me doíam as mãos, isso é sem espessura, pois é mágoa breve.
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Se não somos os únicos donos das palavras que dizemos, talvez só das pronunciadas secretamente, se fantasma as não ouvir, a sua razão é a quem respeitam. As palavras dos mortos a quem pertencem?
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Herdei uns papéis, foram meus até os despejar no silo da reciclagem. Neles houve do que aconteceu. Se Deus não precisa de arquivo, não serei eu a construir nem quero vidas além da minha.
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Não li nada, fui rasgando desinteressado, enfastiado. Claro que houve palavras emergentes, que eram só letras. Vi lágrimas nos papéis várias vezes reconstruídos. Das vistas, só uma me fixou:
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– Lisbôa.

segunda-feira, abril 03, 2017

Letra S

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Nota: São curvas harmónicas e não faço a mínima ideia do que significa, apenas sei que é som.

domingo, abril 02, 2017

Letra G

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Nota: Não consegui identificar o autor da fotografia. Se alguém souber da autoria, por favor informe-me, de modo a poder atribuir o crédito autoral.

sábado, abril 01, 2017

Efeitos colaterais do consumo de heroína

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Dar o Nobel ao Bob Dylan é o mesmo que dar uma Estrela Michelin ao MacDonald’s.
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Dizendo só daqui, deste sítio da língua, Camões não ganhou o Nobel. O Pessoa não ganhou o Nobel. O Herberto não ganhou o Nobel. O Saramago ainda bem.
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Não é o Lobo Antunes que não merece o Nobel, é o Nobel que não merece o Lobo Antunes.
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O português não precisa de dinamite!
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Um dia começo a fumar e com bandeirinhas de militância com pombas e denúncias piegas.
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Vou pela estrada, que é a felicidade, sou o carteiro que leva as músicas. E como uma pedra que rola tocarei os sinos da liberdade. Quando se não tem nada, não há nada a perder.
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Depois vomito a pirosada – uma poesia parola fica sempre bem em inglês e vice-versa.
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Nota 1: Sim, sei que os autores falecidos não podem ganhar o Nobel. Aquilo do Camões e do Pessoa é retórico.
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Nota 2: O texto não é peta de 1 de Abril, o Dylan é mesmo mau.

sexta-feira, março 31, 2017

Como o lacrau

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Tenho horror ao vazio de retornos. Há pessoas estranhas e sou uma delas, soberba e acanhamento. Isso dói, não é problema, uma doença sem cura que tem de ser, um determinismo voluntário como o perverso lacrau.

A tragédia é invisível

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Escrevo ousadia tímida de descuido e arrogância, desenho no silêncio do gato, só sou tudo, morreria de infância se visse antes de ter, sem da precipitação à foz. Nunca se desafie um suicida, desenfadam-se ainda que escolhendo o ridículo e uma mão encarnada de instantes-eternos duma pintura pré-histórica, rosto-máscara de ânimo – é trivial e neutral. Quem consegue saltar tem dois lados para o fazer, uma adoração de beijos e dramas.
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Letra P


Letra S


quinta-feira, março 30, 2017

Acerca da Primavera

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A Primavera é uma chatice. Em nome das alterações climáticas, suprimam-na, que o ano seja Verão, Outono e Inverno.

quarta-feira, março 29, 2017

Horizonte

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Passou julgando ser eu correndo. Vi acontecer pensando que viajava. Perdi, a vida parou e a ida está longe, panamá, el dorado, boreal, fundo do mar. Nem voando nem no tempo da luz nem imaginando até lá, sequer volta ou o tempo se inverte. Digo ânimo para intuírem para iludir e medito.

sábado, março 25, 2017

Corredor

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Se não morrer antes será depois e devia ter sido. A vida do lado tem mais futuro. Sei onde pus as chaves e o lugar da passagem.
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Tenho na cabeça uma casa com jardim em crescimento perpétuo, número incerto de gatos e de corvos, só um cão, preto e mudo.
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Aí é tudo de mim. Há gente, quase só fantasmas. É ter o querer quando fora não existe.
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A angústia é só, percorro corredores que só eu vejo, só vejo de luz-néon intervalando o invisível visível.
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Tantas vezes morri de amor e reencarnei e isso passa, por pudor os resguardo – todos sabem. Não é por isso agora. Qualquer coisa, tanto faz, é assim a morte-viva da minha vida.

sexta-feira, março 24, 2017

Granita, Lioz e infotocopiável

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Há onze anos foi sexta-feira e comecei o infotocopiável. Não pensei no dia de hoje nem nos milhares de palavras. Há treze nasceram a Granita e a Lioz, duas pessoas de quatro patas, tiradas prematuramente da mãe e a quem amamentei a biberão, obrigando-me a todos os cuidados. 

Letra T

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Aos onze anos, o infotocopiável muda novamente a obra que lhe serve de fundo. Sai uma pintura de Tenesh Webber e entra outra.

quarta-feira, março 22, 2017

Chovendo luz

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Sou sala de velório em noite de vigília, fogo que não se apaga e fogo sem começar, odor grave das flores e as fitas roxas com letras de ouro.
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Na solidão de ser-se só, recluso e melancólico, traído e sem vingança, na vida desmoronada, nem o sono é mãe.
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Vejo um piano que toca, sem ninguém, mãos de me apertar sem segurar, a angústia. Na casa de negrum espesso não há portadas para rasgar nem gatos.
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O tocar de valsa lenta, esmorecida de texto viúvo declamado em tino insensato, esse pairar dos olhos fechados, inebria como o vinho em jejum.
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Indiferente é mentira. Seria saciado, desencarnado por desejo, se obedecesse à transgressão, não me faltasse o instante e já o tempo é demorado.
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Disseram-me da tepidez do céu azul e do frio que enrijece o carácter. Uns silabaram e outros mansamente, se fosse vontade a melancolia e a angústia, o pulsar para o fim, se cobiçasse açoitar com a aflição.
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Se eu fosse mentira e não isto. Em felicidade leviana disseram-me que chove luz. O coração-cérebro-fígado é um calabouço.

Túnel

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Acordei um metro no centro da Terra, fiz um túnel, sem respirar ou aleijar os dedos, dei por mim a um metro no centro da Terra.

segunda-feira, março 20, 2017

Guerra

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Vi na tevê coisas feias, longe e sem ninguém, bonecos sem cheiro a quem não ouvirei a dor. Dizem que é a guerra, mas não sei como saber, adormeço na cama e acordo na minha dor.

domingo, março 19, 2017

Estação central

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A solidão não muda por silêncio de alvoroço nem por tumultuo de quietude, sejam horas, espera ou futuro sem horizonte. Dito, é tudo, desde sempre ao fim do mundo. Calado, é tudo, do fantasma ao cadáver.

Aqui

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Segurado aqui por noutro não conseguir. Não agora nem prazo, sou deste lugar e sou aqui.
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Nas horas cinzentas e nas azuis, nos dias de chuva e nos azuis, no tempo da melancolia e no do azul, na fome e no enfartamento, entre a lucidez e a luz do vinho, sou aqui.
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Desde a infância e não pressinto. A praça é a mesma, Lisboa desta luz, a fala e o vigor, do rijo e do brando.
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Não invejo viajante, o meu verbo ir é o voltar.

sábado, março 18, 2017

Campo de Ourique, Tunísia

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Pela rua quando jasmim e memórias dum sítio onde talvez não regresse, certamente não desejo. Hoje das lembranças quero pouco mais do que o jasmim. Digo deste cheiro não ser igual como se soubesse tudo do jasmim. De tão súbito passou, no voltar estava e tão súbito passou.

Letra H e Letra M

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Nota: Homenagem a Man Ray.

sexta-feira, março 17, 2017

Há muros mas escadas

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Do nada chegou com um fósforo. Sem lhe ter pedido lume, acendeu-o com a palavra sincera como a sopa quente quando somos um rio. Grato e envergonhado, quando me secar dou-lhe uma fruta de Verão.
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Nota: Há amigos que se revelam nos nadas. Surpresas como as do Natal de antigamente. 

Cidade de ser e voltar

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Lisboa tem ánima de Greco e de Liechtenstein. O Tejo é os céus de Matisse e Rubens. Desejoso de partir, não vejo o segundo de retornar.

Rio de sossego

video
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Conformado em mar revolto, um rio de sossego de corrente inversa me afogou e reencarnei no jardim das flores de olhos, de flores de luz, e se fez o Reino de Sete Amores, sem súbditos nem prisões.

Génio de lâmpada

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Nem todos os dias há a claridade duma alma guardada. Tê-lo e saber-lhe o sabor de subtileza e vigor. Fantasma, vai deambulando na igreja, é aparição de videntes e assombração dos coitados.
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Grandjó 1925.

Fotografias

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Não é vício nem sina, nem teimosia, escrever-te é a obrigação ao ver-te a provocação do corpo e a sensualidade-maior dos lábios.
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O alvoroço da praça cheia em dia de mercado e a curiosa melancolia das tardes vagas de domingo, sua preguiça e frenesim de campo de batalha.
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Cativo da predadora dos olhos lentos, aspirando sacrifício ou glória, searo branco e surdo.
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Da adivinhação sei, lido na bola e na grande-roda, de nunca ter. Nenhum curandeiro conhece achamento de remédio para o meu incêndio.
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Esta tristura sem piedade de mim. Deste desconsolo, contenta-me saber do doce do limão.
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video

quarta-feira, março 15, 2017

Nem complicado nem denso

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Não contemplo o horizonte esperando regresso. Sem lágrimas lembro-me e será sempre assim até ao dia do reencontro. São dias da singeleza das determinações da vida. 

terça-feira, março 14, 2017

Clareira

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Sobre mim qualquer clareira, qualquer nuvem. O jardim é mudando os dias e sem medo.
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É azul e só se vê dos meus olhos, levito como banhando-me sob a cascata do lago, donde começa o rio, como quando a Eva se desocultou da vigia.
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A nudez fogo-de-artificiou, esgotando-se ao esgotar-se, renascendo-nos na água, fósforos extinguindo-se sem fim, acolhidos da árvore-do-conhecimento-do-bem-e-do-mal, ingénuo e nu perdi a candura e ganhei talento e malícia.
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Neste jardim de mundo fechado qualquer nuvem passa sobre clareira. Sem hora, esconde-se o Sol e os mitos das florestas perdem a acanhação e se assomam.
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Onde começa e acaba, sem instante se desencarna e reencarna, partindo por qualquer coisa, a mesma lucidez de se chegar.

segunda-feira, março 13, 2017

A caixa de claridade

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Tenho elixir que faz do esquecimento uma fotografia e do retrato uma lembrança dum tempo sem ter existido. Quando me calam e não oiço, sei de estar e feito, um consolo tão longe, como aos dezasseis anos o primeiro sentir dum peito de menina. O que fizeste e dei é como esse dia, não fosse a memória uma utopia. Soprando levantam-se as pétalas, o tremor da paixão ardida no escuro sem ter tido a luz. Um dia, no engano involuntário do carma, abre-se a caixa das surpresas e nasce a claridade.

Rio de duas correntes

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Há o sonho e os sonhos, às vezes o mesmo. Assim a mentira e a verdade quando desejar e não querer são do medo e da coragem temerária.
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Se soubesses, conheço-te o corpo todo, por mãos e boca, e de mim tens tudo. Há o espelho mágico por onde vens e vou, à noite, para fazermos amor e dizermos.
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Antes do Sol nascer, antecipando o desadormecer, fugimos. Fica um país entre nós, a linha de montanhas, a floresta cobrindo a luz e um rio de duas correntes, da água espelhada, por onde nos chegamos.

Nem nos poetas nem na Fada dos Dentes

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Se não te tivesse escrito poemas todos os dias, ou se tos tivesse escrito, não me querias mais do que agora, não te despiria tanto e, por todo o corpo, em espírito te tomando.
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Imagino-nos no resto duma noite, num jardim florestal e exótico, no frio orvalhado tremendo, de olhos vermelhos incapazes de ver o amanhecer, ficando o abraço e os lábios, conclusão da transgressão e das palavras.
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Acordo antes de saber e sinto vergonha por te dizer. Por isso escrevo-te poemas, ninguém acredita em poetas.

domingo, março 12, 2017

Do entardecer à luz da manhã

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A música e o vinho vieram de noite, até ao primeiro beijo de transgressão entre os ébrios.
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Uns caíram sem loucura e outros como os salmões nos ribeiros. Nem todos adormeceram, descalços na pedra dos degraus ficaram esperando alguma coisa.
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Ainda sem luz e o já perdido o escuro. A fruteira dá fruta todo o ano e a videira trepa pela parede. Vêem-se as montanhas para lá da floresta e o jardim demora-se a acordar.
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Descalços na pedra dos degraus quietaram-se hipnotizados, em esforço de ficar ou dormir.
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Do vinho e do amor à ressaca e ao arrependimento. O frio subtil anuncia a hora. Logo mais tarde.

Dias de depois

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A solidão do amor que resta, sem dono nem liberdade, não passa nem depois dos lençóis se lavarem e a janela ter soprado o suor. Os passos finais não deixam pegadas, mas as paredes guardam segredo e silêncio. O fantasma sem cadáver assombra além do medo de se perder o perdido. Quantas palavras ficam por dizer e tantas mais se inventam. Não há noite nem dia.

sábado, março 11, 2017

Saudade da casa

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Ah! O cão… chegar a casa, donde se esteve longe por um dia ou um minuto, é tê-lo feliz, doido de alegria, genuíno de amor e entrega, o mimo generoso que espera correspondido por um simples afecto. Louco de amor, corre para contar da chegada e segura numa lembrança e brinca, como se fosse fogo-de-artifício.
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Melhor do que a recepção do cão só há a do gato.
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