digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, agosto 31, 2014

Blá, blá, blá...

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Muito melhor do que um cocktail de Alka Seltzer e Eno. Assim sou eu, tantas vezes. Alegre. Incompreendido. Alegre e incompreendido. Às vezes gosto. 

Dicionário – Solidão

s. f. Lençol que sufoca. Corpo perfurado pela dúvida em existir sobrevivendo ou desistir para viver. Desejo de desexistir. Canto de sala para onde se está virado sem recurso. Ter a cabeça mais pesada do que ânimo aguenta. Cortar relações. Ser-se culpado. Reconhecer-se culpado sem que queiram ouvir o pedido de perdão. Perder Deus na adversidade. Perder as horas deambulando na ruas ou no campo. Medo da perda. Medo da não aceitação. Solidão. Saudade. Medo. Ansiedade. Desamor.

Desestar

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Sinto que o coração não me pertence e que o corpo não pertence à alma. Nem o coração à cabeça, nem a cabeça ao espírito, nem o espírito ao fígado nem o fígado ao coração. Sou montado de tanta coisa, tralha que sobrepõe e contradiz, que tanto sobra como falta. Da estupidez à arrogância e a estupidez da arrogância, luz breve e acção fraca e incerta. Da fidelidade canina e da estupidez de ser fiel como os cães. Locomotiva desabrida, chocolate ao Sol do Verão. Contradigo, mas quero amor. Dou saltos para a periferia e desejo ser anónimo na multidão. Ora frio, ora temperamental. Alegre, mas taciturno. Feliz? Acredito que fui, provavelmente é memória inventada. Ou até isso não tive ou até isso perdi. Esqueci-me de muita coisa, o que não pedi. Não se me foram outros pensamentos que dispensava. Sem um amigo escureço. No escuro aguento todo o desconcerto que sou.

Nudez invisível

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Apresento-me brutalista e não acreditam na minha nudez. Pratico o desconstrutivismo e não me levam a sério. Pratico o surrealismo e gozam, e eu que queria dadaísmo. Tenho de rir como os palhaços – fingindo que têm razão e que não sou como pareço.

Acreditando que

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Chuva de adormecer e fora há sol.
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Não tenho quem, não desmaio.
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Falta-me um Danoninho para a maioridade que dará liberdade à vontade.
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Não consigo heroinómano, nem mesmo alcoólico.
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Chuva de adormecer. Há amanhecer e acordar por teimosia.
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Arrependo-me de tudo. Por tudo o mais e por isso, numa vergonha que só compreendo.
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Tantos mortos, uns vivos e outros mortos. E eu para outros, o que mata e deixa vivo.
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Teimo e vivo, acreditando que não faltarão muitas léguas para uma luz que.

Carta de despedida duma partida que não acontece

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Nasci há dezasseis mil e trezentos e sete dias, talvez metade de agonia e morte que me secou as lágrimas de água, que dentro correm rios.
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Ninguém me roubou anos nem meses nem dias. Fui despejando sem semear. Matando, ferindo e fenecendo, terra queimada por culpas minhas. Os dias partidos sem demérito foram poucos.
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Procurei baraços fortes e ásperos, um tronco longitudinal e um banco que lhe chegasse. Cheguei atrasado e perdi comboios. Tentei curar-me duma só vez e de todas as vezes continuei doente. Quis ver de perto o chão aproximar-se a velocidade uniformemente acelerada.
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Falhanços por mim somados aos dias falhados que a vida me guardou.
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Sem coragem para ir. Sem coragem para ficar. Tantas as cartas escritas. Amareleceram e rasgaram-se moídas de esperar dentro da carteira.
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A minha mãe não tem força para me segurar a mão escorregadia sobre o abismo. As gatas que quis sempre juntas, sem mo pedirem, não permitiram. Os olhos doces de menino acalmaram-me. Cedo volta a derrota.
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Perdido na estrada que me indicaram, sem vontade de dela sair. Perdido na estrada que escolhi, sem vontade de dela sair. Perdido na estrada para onde me enxotaram, donde saí esfolado.
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O destino é como Roma. Se o fazemos, quando o tomo nas mãos deixo-o cair e parto-o. Se me sento para pensar, penso em desistir. Exangue, queimo a cabeça ao Sol, encharco o corpo na chuva, suo e tirito.
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Decida o que decidir, irei sempre a cair e a esfolar-me. Nem a gadanha me ceifa nem um anjo me abraça.
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Se tivesse coragem para ter amor-próprio não haveria dezasseis mil trezentos e oito dias, que encorpam tantos anos mortos*.
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E.
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Nota: *a expressão «anos mortos» foi roubada a Boris Vian, no poema da música «Le deserteur».

sábado, agosto 30, 2014

Ficar

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Não posso mudar o passado nem posso mudar o futuro, mas posso mudar o presente e quero não ter futuro.

Ainda hoje e como sempre

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Não consigo matar ninguém. Até a quem atirei à queima-roupa. Sobre mim disparam e morro sempre um bocadinho. Não abandono a adolescência e sou crédulo como um menino.
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Não digam nada contra mim, que quero lamentar-me, como a pessoa mais infeliz do mundo.
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Digo-o eu como se fosse outro a falar:
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– Foste mau. Foste cruel. Foste sádico. Foste irreflectido. Foste abusador. Foste egoísta. Foste arrogante. Foste cínico. Foste hipócrita. Foste imbecil.
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Ainda sou?
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– ...
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Isso que me digo sobre mim como se fosse outra pessoa mata-me de vergonha e arrependimento.
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Merdifico tudo.
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Não consigo matar ninguém. Pelo menos, partissem os demónios da memória e quem me dá apertos de tristeza.
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Quando me ignoram ou preterem, grifos bicam-me o coração, a cabeça e a alma, manjado vivo.

Caparica

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O grande abraço que tão apertado e tão longo... vinte anos. Tão apertado e tão longo que quase morri.
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Nota: Dedicado a LM.

Quase na hora da Escócia

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Ficarei feliz se a 18 de Setembro os escoceses puserem fim ao Tratado da União, estabelecido a 26 de Março de 1707.

sexta-feira, agosto 29, 2014

quinta-feira, agosto 28, 2014

José de Sousa Tinto Velho 1940 e o seu tempo

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Provei, aliás bebi o José de Sousa 1940. É um vinho mítico! Por alguma razão, umas dezenas de garrafas jaziam sob uma pilha de carvão. Foi em 1986 que se descobriram, quando a empresa José Maria da Fonseca comprou e tomou a posse da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, situada em Reguengos de Monsaraz.
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Rendido a agradecido a Deus e a quem mo deu a beber!
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Provei, aliás bebi o Moscatel de Setúbal Trilogia, um lote de vinhos das colheitas de 1900, 1934 e 1965. Embora lançado há 15 anos, não deixou de ser um vinho raro e especial.
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Rendido e agradecido a Deus e a quem mo deu a beber.
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O primeiro vinho marcou-me pela estória e o outro mostrou-me história. Gosto é de contar estórias e para tal recorro muitas vezes à ciência em que me formei, História. Que se dê um mergulho ao tempo do Tinto Velho. Vinho e história e estórias casam-se bem.
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O Tinto Velho fazia-se na tradição alentejana, em grandes ânforas de barro – as talhas. Hoje completamente em desuso, restam poucos produtores que a usem. A empresa José Maria da Fonseca utiliza as que tem, contribuindo para o lote do herdeiro Tinto Velho, o José de Sousa. O sistema foi introduzido pelos romanos e até à década de 50 do século XX ainda se faziam, há documentação fotográfica que o atesta (não consegui encontrar). Porém, o ofício perdeu os seus oficiais e ninguém hoje sabe fabricar uma talha. A funcionar há potes do século XVII.
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Sem história e/ou sem estórias o vinho não é tão grande – penso. O mote é a colheita de 1940 do José de Sousa Tinto Velho, mas porque as sociedades não se mudam num dia, nem num só ano, a realidade de Portugal e do seu vinho vai do antes ao depois desse ano de começo de década, e bissexto de formato. O conflito armado na Europa não permitiu que fossem atribuídos Prémios Nobel – a Suécia sobressaltou-se com a invasão da Finlândia pelos soviéticos e a Noruega foi ocupada pelas tropas do III Reich .
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Distamos 74 anos em tempo, mas anos-luz nos dias que correm. O mundo, sobretudo a Europa, conhecia ditaduras ferozes e de sinal contrário. Ditaduras em nome do operariado de esquerda e âmbito internacionalista – as comunistas – e ditaduras em nome do operariado de direita e nacionalistas – fascistas. Em Portugal vivia-se numa ditadura compósita, formada por militares conservadores que combateram na Primeira Grande Guerra, juntava militaristas, monárquicos conservadores, activistas católicos e fascistas – obviamente houve gente que se encaixou em mais do que uma destas gavetas.
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A Guerra Civil Espanhola (17 de Julho de 1936 a 1 de Abril de 1939) foi o ensaio geral da Segunda Guerra Mundial – há historiadores que defendem, mesmo, que terá sido em Espanha o começo do mais violento conflito da História da Humanidade.
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Em 1938, a Alemanha entra sem resistência na Áustria – esta anexação fica na história com o termo alemão de anschluss – invade a Checoslováquia para resgatar os alemães dos Sudetas (Silésia) e, um ano mais tarde, toma conta do país.
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As potências vencedoras da guerra de 1914-1918 assistiam impávidas, ladrando sem arreganhar os dentes, ao passeio militar da Alemanha. A 23 de Agosto de 1939 acontece o inesperado, os ditadores Adolf Hitler e Josef Stalin, por via dos seus chefes de diplomacias – Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov – assinam um pacto de não agressão... estenderam um mapa na mesa e negociaram que países iriam engolir, sendo que a Polónia se serviu toda no repasto.
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A 1 de Setembro de 1939 a Alemanha invade a Polónia. A 17 de Setembro a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas invade a Polónia. O acordo entre vermelhos e castanhos deixou esquecidos, por Stalin, muitos combatentes da Guerra Civil Espanhola (espanhóis e elementos das Brigadas Internacionais, republicanos, comunistas, socialistas e anarquistas) em campos de refugiados em França e que acabaram em campos de concentração nazis.
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Saltando para 1940... A 17 de Maio, Portugal assina a Concordata com a Santa Sé, que reforçou o poder da Igreja Católica e sua ascendência política.
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A 20 de Maio começou a funcionar o Campo de Concentração de Auschwitz 1, na Polónia.
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A 24 de Maio, tropas britânicas e francesas livres conhecem um desaire, ficando encurraladas, à espera de transporte, na praia de Dunquerque, na Flandres francesa.
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A 13 de Junho, Paris declara-se cidade aberta. No dia seguinte as tropas vencedoras marcham pela capital francesa e é hasteada a bandeira da suástica.
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A 17 de Junho, o general Pétain assume-se como presidente de França e capitula perante o invasor.
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O romance dos dois mais sanguinários ditadores da história durou pouco, a 22 de Junho de 1941, Adolf Hitler dá ordem para a realização da Operação Barbarossa – que estava em preparação desde 1940.
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O terror nazi, nomeadamente contra os judeus, começara alguns anos antes, e em 1940 estavam imparáveis.
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Portugal participou na Guerra Civil Espanhola, de modo pouco discreto por parte do regime, ao lado dos falangistas de Francisco Franco, e mais escondido por partisãs apoiantes da causa republicana. Já quanto à Grande Guerra, Portugal declarou-se neutral, embora fosse evidente a simpatia para com o III Reich. Uma neutralidade que, apesar de tudo, era diferente de não beligerância, posição em que Espanha se colocou.
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Há quem diga que a ditadura do Estado Novo não era fascista. Tal e qual como se estabelece o limite do que é e não é, não se pode ignorar que se fazia a saudação romana. Ao mesmo tempo, existia uma organização de juventude lúdica e política  primeiramente não obrigatória – a Mocidade Portuguesa, inspirada em congéneres de Itália e Alemanha. No primeiro evento em que participou não havia ainda fardamento, os alemães deram as suas calças castanhas e os italianos as suas camisas verdes. Assim se criou a fardamenta.
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Todo o cuidado era pouco e o ditador português sabia que Franco e Hitler não eram de se fiar. Por isso, a chancelaria de Lisboa estremeceu de medo com o cônsul de Bordéus, que se empenhava e desunhava a assinar vistos a refugiados políticos, e religiosos – se preferirem também étnicos. Aristides de Sousa Mendes caiu em desgraça e António de Oliveira Salazar tomou muita atenção aos castigos aplicados ao diplomata. Não se sabem números, constam que terão sido mais de 34.000 vistos, dos quais cerca de 10.000 a judeus – tem por isso uma árvore dedicada no «Jardim dos Justos entre as Nações», em Jerusalém Contudo, não foi o único diplomata português a desrespeitar as ordens de Lisboa, Carlos Sampaio Garrido, embaixador na Hungria, salvou o mais que conseguiu, tendo também uma árvore no «Jardim dos Justos entre as Nações».
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O embaixador português em Madrid, Pedro Teotónio Pereira, visitou o Consulado de Bordéus e afligiu-se com a apresentação e modos, enlouquecidos – dirá – de Sousa Mendes. Não dormia, ou quase, para realizar o que designava por acto de consciência. Nos últimos tempos, Sousa Mendes passava vistos em qualquer papel que tivesse espaço em branco e falsificou documentos, com a ajuda dos familiares e do rabino de Antuérpia.
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A 17 de Junho de 1940, Aristides de Sousa Mendes afirmou-se inspirado por Deus na sua missão:
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– A partir de agora darei vistos a toda a gente, já não há nacionalidades, raça ou religião.
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De Lisboa somavam-se telegramas. Sousa Mendes ignorava-os.
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– Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus.
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Salazar sabia que Franco e Hitler sabiam. Portugal ia do Minho a Timor, com as ricas colónias de Angola e Moçambique. O ditador sabia que o país seria incapaz de se defrontar com Espanha ou Alemanha.
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Apenas cinco dias depois de Sousa Mendes revelar a inspiração divina, França e Alemanha assinam um armistício e, por vontade de Hitler, na mesma carruagem em que, a 11 de Novembro de 1918, se assinara a capitulação germânica. Com o aproximar do fim da Segunda Guerra Mundial e queda do nazismo, o carro ferroviário foi mandado destruir, para que outro contrato ali não pudesse ser assinado.
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Salazar foi conveniente com os dois lados do conflito, lucrando com a desgraça. Portugal era um país rural, pobre, miserável em alguns aspectos, e a abundância de volfrâmio permitiu que muito povo da Beira ganhasse a vida. Os alemães pagavam bem e os ingleses, muitas vezes, cobriam a parada. De Londres vinham telegramas de protesto, mas Salazar na casa de São Bento, em Lisboa, não lhes dava importância.
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Não se pense que por haver paz se vivia à larga. Havia racionamento alimentar e um temor que a guerra cá chegasse. A minha mãe, hoje com 85 anos, contou-me que nas janelas se colavam fitas adesivas para evitar o lançamento de estilhaços de vidro, caso acontecesse um bombardeamento aéreo.
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Faltava comida por várias razões, desde a venda por parte do Estado ao açambarcamento, que servia para negócio de exportação para os territórios em guerra. Não importava o comprador, desde que pagasse. Em Lisboa, com o seu porto de mar, estivadores e fornecedores tratavam do contrabando, que antes de embarcarem se armazenavam nas casas destes comerciantes de oportunismo. A minha avó paterna  que não conheci – que um senhor conhecido morrera de ataque cardíaco quando o informaram do fim do conflito – a árvore das patacas secara.
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O meu pai, com 90 anos, mentiu na idade e nos estudos para fugir de casa... à mãe-galinha e castradora – diz o meu progenitor. Alistou-se na Armada e foi conhecer o mundo. Diz-me que havia um genuíno receio de entrada na guerra.
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A sociedade portuguesa dividia-se entre germanófilos e anglófilos. Era transversal, não conhecia estatuto social ou económico. Na Marinha sabia-se que radiotelegrafistas informavam, ambas as facções, do movimento de navios e vasos de guerra nos portos portugueses.
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A bordo, no alto-mar, receava-se que a actividade bífida dos radiotelegrafistas e do regime transformasse os navios em alvos das bombas dos dois lados da guerra. Para mais, havia a bizarria de não esconder os vasos de guerra, mas assinala-los, com letras garrafais a formarem a palavra «PORTUGAL» a tinta branca sobre o cinzento dos costados. Há noite «PORTUGAL» era em letreiro luminoso.
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– Se nos atacassem era quase como tiro aos patos, diz Manuel Jorge Barbosa.
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Contudo... Portugal era um país calmo e sereno. Pelo menos na imprensa. Sussurravam-se ideias e ouvia-se, baixinho, Fernando Peça na BBC, dando conta duma versão da guerra diferente da filtrada pelo regime de Salazar.
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Não sei, porque não li jornais desses dias, mas o incidente certamente foi ocultado pelo serviço de censura: o ataque terrorista ao paquete Pátria, fundeado junto ao porto de Haifa, na Palestina – hoje parte integrante do Estado de Israel.
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O Pátria ia seguir para a colónia britânica da Maurícia levando cerca de 1.800 judeus europeus, fugidos ao terror nazi. O atentado foi perpetrado pela Irgun Zvai Leumi, um organização terrorista judaica de direita, que estava em oposição à Haganah – que pretendia que todos ficassem na Palestina. Os relatos dão conta da morte de 267 pessoas, ficando feridas 172.
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A este rectângulo de paz acorreram muitos refugiados e exilados, desde crianças entregues a famílias anónimas, comuns cidadãos privados de rendimento que lhes permitisse embarcar para os Estados Unidos da América e ricos e famosos.
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O Estoril deu guarida a escritores, artista, actores, intelectuais, governantes, espiões, aventureiros. Naquela estância balnear hospedaram-se, em 1940, o milionário e amante das artes Charles Guggenheim, Indira Nehru, que viria a governar a Índia, Thomas Mann, Jean Renoir e Antoine de Saint-Exupéry...
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Mas o que tornou célebre esta povoação suburbana de Lisboa foi a concentração de cabeças coroadas ali exiladas... o Rei Humberto II de Itália, o Arquiduque Otão de Habsburgo (herdeiro da Áustria), João Carlos de Bourbon y Battemberg (herdeiro de Espanha), o Rei Semião II da Bulgária, Henrique de Orleães (conde de Paris e herdeiro de França), o Rei Carol da Roménia, Helena Karageorgevitch da Sérvia (irmã do Rei da Jugoslávia) e irmãos, a princesa Margarida da Dinamarca e a Grã-Duquesa Carlota do Luxemburgo.
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Em 1942, o milionário arménio Calouste Gulbenkian, conhecido pela alcunha de «senhor 5%», devido à participação no capital da Turkish Petroleum. Eram 5% que valiam muito mais, pois os quatro restantes accionistas (franceses, holandeses, britânicos e norte-americanos) detinham 23,75% cada. Gulbenkian desempatava e amealhava. Gostou de Lisboa e não embarcou para os Estados Unidos – a cidade deve-lhe dois magníficos museus, um de arte antiga e artes decorativas, e o Centro de Arte Moderna, e o planetário. A Fundação Calouste Gulbenkian fomenta trabalho de investigação científica, apoio a artistas, acções culturais, educativas e humanitárias, em Portugal e em todo o mundo, sobretudo nas antigas colónias africanas e Timor-Leste. Hospedou-se no Hotel Aviz e aí viveu até à sua morte, foi muitos anos o único hóspede e o último.
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No Estoril estava a elite exilada. Nas ruas de Lisboa, sobretudo, refugiados faziam pela vida. Judeus e não judeus, nacionalidades várias... eram vendedores de camisas e de gravatas, batendo de porta em porta.
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Na pacata Lisboa surgiu, por via de refugiadas judias alemãs, um bolo que está hoje presente em qualquer pastelaria, em todo o país. Os portugueses apaixonaram-se pelas bolas de Berlim – e que bem que sabem na praia. As berliner pfannkuchen foram adaptadas, com o tempo, ao gosto português. As originais são recheadas com doces de morango ou de amoras ou framboesas, mas aportuguesadas enchem-se com creme de pasteleiro.
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Por Portugal entraram pessoas com a cabeça mais desempoeirada, mulheres mais livres e de hábitos cosmopolitas. Arranjavam-se bem e algumas até fumavam.
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A propaganda do regime não se cansou, posteriormente, de enaltecer o génio de Salazar, que conseguira manter o país fora da desgraça da guerra. Todavia, foi por um triz!... Lembrando aqueles minorcas galifões armados em grandes campeões de luta, Salazar quis enviar para Timor uma força expedicionária. A colónia fora ocupada por tropas australianas e holandesas (livres), antecipando-se à entrada de forças japonesas. Franklin Roosevelt conseguiu demover António Oliveira Salazar...
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O ano de 1940 – a década de 30 e até pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial – teve as suas encenações e por isso evoco acontecimentos passados antes e depois do Tinto Velho de 1940. A 28 de Abril de 1940, a União Nacional – partido único – organizou uma grande manifestação no Terreiro do Paço, em Lisboa, para comemorar os 52 anos do ditador.
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Porque Portugal era pacato e se estendia do Minho a Timor. Porque tivera sob o seu direito metade do mundo. Porque são grandes os seus heróis...
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Porque 40 é um número mágico:
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– Em 1140 Dom Afonso Henrique proclama-se Rei e ele próprio se investe coroando-se.
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– Em 1640 o duque de Bragança liderou a sublevação que pôs fim a 60 anos de domínio de Espanha, tornando o primeiro Rei da quarta dinastia, empossado com o nome de João IV.
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– Em 1940 para dar uma sensação de normalidade, que transmitia serenidade e certeza de que a guerra não chegaria a território português, realizou-se uma grande festa patriótica.
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Quanto à normalidade pacata de 1940... o regime exaltou as glórias na Exposição do Mundo Português (23 de Junho a 2 de Dezembro). Ainda hoje permanecem algumas peças... zonas ajardinadas – que um vereador do ambiente quer destruir, por não compreender o contexto dos momentos históricos – o Padrão dos Descobrimentos, inicialmente construído em gesso e posteriormente reerguido em pedra, e o tristemente abandonado Museu de Arte Popular, que é uma fotografia da época e do conceito que o regime tinha do povo – um amigo antropólogo defende que este museu se devia preservar num museu. Os pressupostos e princípios dos conceitos são tão datados e comprometidos que tornam o conjunto numa peça de museológica. Até sugere que se guarde numa (enorme) vitrina, semelhante a tantas que há nos museus, e com uma legenda de enquadramento à porta. Depois entra-se e vê-se o que há para ver. Gosto!
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Mas é o Padrão dos Descobrimentos a melhor herança. Serviu a propaganda imperialista e serve hoje como retrato de conjunto da família dos exploradores portugueses e é cenário fotográfico dos turistas. O edifício tem a assinatura do arquitecto Cottinelli Telmo, que foi também cineasta, e as esculturas são de Leopoldo de Almeida.
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Outro ponto de grande significado, nessa glorificação da pátria, foi a nau Portugal, construída na Gafanha da Nazaré e lançada na ria de Aveiro. Um vento causou um acidente, adornou de quilha, quase se deu a nave como perdida para o festival.
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António Oliveira Salazar desejava um povo humilde, trabalhador e honrado. Sob o lema:
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– Deus, Pátria e Família.
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Portugal devia ser auto-suficiente em alimentos, nomeadamente em cereais e lançou uma campanha de produção de trigo – irracional em vários aspectos.
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O vinho era também glorificado:
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– Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses.
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O cinema servia os propósitos do regime: popular, fácil, com mensagens políticas óbvias. Hoje são clássicos, com um humor ingénuo que lhes prolonga a vida. O vinho fazia parte do elenco.
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No filme «O Pátio das cantigas», de 1942, recriou-se a vida num bairro popular lisboeta. Realizado por Francisco Ribeiro (conhecido por Ribeirinho), que entra como actor, há uma parede que jorra vinho.
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Para final uma leveza. Os campeonatos de futebol são como os anos agrícolas, não começam em Janeiro e terminam em Dezembro. Assim, tenho o dilema acerca de qual o campeonato que devo citar na evocação.
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Deve ser o de 1939-1940 – findo antes das vindimas – ou o 1940-1941, começado no tempo de vindimar? Não sei, decida o leitor.
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O campeonato de 1939-1940 foi disputado por dez clubes. O campeão foi o Futebol Clube do Porto, seguido pelo Sporting Clube de Portugal, Clube de Futebol «Os Belenenses», Sport Lisboa e Benfica (que levou 8 a 3 do Belém), Futebol Clube Barreirense, Associação Académica de Coimbra, Carcavelinhos Football Club (em 1942 juntou-se ao União Foot-Ball Lisboa, dando origem ao Atlético Clube de Portugal), Académico Futebol Clube (Académico do Porto), Leixões Sport Club e Vitória Futebol Clube (Vitória de Setúbal).
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Nessa prova houve dois jogadores a liderar a tabela de goleadores, com 29 tentos; o português Fernando Peyroteo, do Sporting Clube de Portugal, e jugoslavo (croata) Slavko Kodrnja, do Futebol Clube do Porto.
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A Taça de Portugal foi disputada entre o Sporting Clube de Portugal e o Clube de Futebol «Os Belenenses»... os azuis (os meus) perderam por 4 a 1. Não gosto do Sportém!
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Na Taça de Portugal de 1940-1941 o meu Belenenses voltou a chegar à final, mas perdeu por 3 a 1 contra o Sport Lisboa e Benfica. Não gosto do Benfas!
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O campeonato nacional foi disputado por oito clubes. O campeão foi o Sporting Clube de Portugal, seguido pelo Futebol Clube do Porto, Clube de Futebol «Os Belenenses», Sport Lisboa e Benfica, Associação Académica de Coimbra, Futebol Clube Barreirense, Unidos de Lisboa e Boavista Futebol Clube.
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O melhor artilheiro foi Fernando Peyroteo, com 29 golos.
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Pronto, assim bebi novamente (mentalmente) o José de Sousa Tinto Velho 1940 – que grande vinho.
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Nota 1: A fotografia de entrada mostra a sala das talhas da adega de Reguengos de Monsaraz, onde se fez o Tinto Velho de 1940.
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Nota 2: Infelizmente não consegui identificar os autores das fotografias, sendo que a maior parte faz parte do espólio da Fundação Calouste Gulbenkian.
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Nota 3: Notícia publicana no «Diário de Lisboa», a 7 de Junho de 1944.
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Nota 4: «A Nau Portugal», realizado por Leitão de Barros.
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Nota 5: «O Pátio das Cantigas», realizado por Francisco Ribeiro.
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Nota 6: António Oliveira Salazar servindo um copo de vinho a um camponês.


quarta-feira, agosto 27, 2014

Simplesmente belo!

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Por que é que em Portugal é tudo devagar, devagarinho e parado?! Nos outros países é a mesma coisa.
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Nota: Esta frase não é da minha autoria. Tudo o que sai no blogue é obra minha, podendo um texto doutro autor estar publicado enquadrado numa situação ou ser da autoria dum convidado. Todavia, a beleza do pensamento faz com que a blogue. Não conhecendo a autora da tirada, arquivo como sendo de autor convidado. Obra poética improvisada na sala de espera duma Loja do Cidadão, 

terça-feira, agosto 26, 2014

Uma estória de maminhas e bolhinhas

Consta que Luís XIV, Rei de França, terá dito que o Champanhe era «o Rei dos Vinhos e o Vinho dos Reis». Li isto tantas vezes que acreditei... Não fosse a lenda, com o mesmo monarca, repetida e relativa ao Vinho do Porto e pelos produtores húngaros e eslovacos de Tokay (agora adoptou-se a grafia húngara Tokji – na Eslováquia escrevem Tokaj – mas prefiro a forma antiga).
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O Rei Henrique IV de França (Henrique III de Navarra) era apreciador dos néctares desta região setentrional do hexágono, sendo servida na Real Mesa. O seu filho Luís XIII (Luís II de Navarra) também só provou como vinho tranquilo.
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O Rei Sol terá sido o primeiro monarca a saborear o vinho de Champanhe na forma como hoje o conhecemos. Já agora refira-se que Luís XIV se marimbou para Navarra e passou a usar apenas como brasão as armas de França.
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Ao certo não se sabe quando foi produzido o primeiro vinho de Champanhe «moderno», sabe-se que Dom Pérignon andava a fazer avarias nas caves, da Abadia beneditina de Hautvilliers, em 1670. Jean Godinot, escreveu, em 1718, que há vinte anos que os franceses podiam apreciar este vinho espumante – em francês é mais bonito... mousseux.
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Já que se fala neste religioso há que dizer quem foi: nasceu em Reims, onde foi cónego da Catedral. Foi chamado para Paris, onde foi grande vigário da Santa Capela (Sainte-Chapelle du Palais), onde está a suposta coroa de espinhos do martírio de Jesus Cristo. Regressou a Champanhe para ser vigário geral da Abadia de São Nicásio.
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Dom Pérignon não trabalhou sozinho, teve como colaborador Dom Thierry Ruinart, cujo sobrinho Nicolas Irénée fundou, em 1729 em Épernay, a primeira casa vitivinícola de vinho espumante de Champanhe. Nascia uma das mais carismáticas marcas da região, a Ruinart.
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Bem, casa Gosset, com sede em Aÿ, reivindica para si o estatuto de marca mais antiga de vinho espumante de Champanhe. O facto de ter sido criada em 1584 não prova nada, sendo que as relações entre o monge beneditino Ruinart e o seu sobrinho me parecem melhor fundamento. A favor desta empresa há a afirmação britânica que já antes da Ruinart se bebia do espumante em Londres.
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É mais do que normal as dinastias extinguirem-se. Pelo que apurei, a última Ruinart foi Marie Cécile Cordélia Pauline Antoinette de Brimont, falecida em 1938. Ao tempo da fundação da empresa, os Ruinart eram uma família burguesa, mas com importância local. O tempo encarregou-se de os fazer ascender socialmente, quer em funções, quer em honrarias. Pelo que se percebeu, os Ruinart subiram na vida. O bisneto de Nicolas, Jean Irénée Ruinart foi o primeiro visconde de Brimont – título usado por mais oito pessoas.
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Não descobri o que se passou a seguir; ou um Ruinart vendeu a empresa ou um parente o fez. Hoje a Ruinart pertence ao grupo de marcas de luxo LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton).
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Quem lê o blogue joaoamesa.blogspot.com sabe – julgo – que se pode fazer vinho branco a partir de uvas tintas. Como este texto vai sair no infotocopiável eu explico. A cor do vinho é dada pelo pigmento das cascas das uvas. Se a fruta tinta for espremida e não estiver em contacto com as peles o suco é branco. Em Champanhe baptizaram esses vinhos como «blanc de noirs».
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Um contacto pouco prolongado oferece os tons rosados. Não se sabe bem por que alguém decidiu fazer um vinho rosado em Champanhe ou se a criação foi acidental. A lenda conta que foi Barbe-Nicole Clicquot-Ponsardin quem «inventou».
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Tinha 27 anos quando o seu marido morreu de febre, em 1805. O estabelecimento tinha apenas 33 anos de existência e já produzia anualmente mais de cem mil garrafas. A viúva tomou a seu cargo a gestão da empresa e com tanta garra e sucesso que a alcunharam de «la Grande Damme» – «a Grande Senhora». Nascia assim a mítica marca Veuve Clicquot.
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No filme «O Leão da Estrela», realizado em 1947 por Arthur Duarte, o anfitrião burguês e abastado do Porto, o senhor Barata (Erico Braga), leva Anastácio (António Silva), o pelintra armado em ricaço lisboeta, a uma casa (de homens). Com inconfundível sotaque portuense pede ao criado: «Uma biuba Clicote».
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O Champanhe é um vinho tão fantástico que foi imitado por todo o mundo. Ainda hoje comummente se apelida de Champanhe vinhos que não têm essa proveniência francesa. Acontece o mesmo com o Vinho do Porto. A força da diplomacia francesa e a dimensão do negócio garantem uma defesa muito mais eficaz da região francesa.
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A aura do Champanhe não se ilustra apenas com a afirmação atribuída a Luís XIV. Reza a lenda que as taças de Champanhe foram moldadas no seio duma senhora de alta linhagem.
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Consorte de Luís XVI, a rainha Maria Antonieta, até pelo seu trágico destino, tem várias historietas. A rainha decapitada pouco antes de completar trinta e nove anos de vida é a mais citada. Mas teria uma rainha descido do seu trono e dado a mama esquerda para molde?
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Maria Antónia Josefa Joana de Habsburgo-Lorena não era apenas rainha de França e de Navarra. Era filha do poderoso Francisco I, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico – um país que em 1806, quando foi extinto por força de Napoleão Bonaparte, era formado por mais de quatrocentos Estados – que abrangia a actual Alemanha, Áustria, Liechtenstein, República Checa (Boémia e Morávia), partes de França, Itália e Polónia, tendo em tempos mais recuado abrangido os Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo e partes da Suíça... além de que ser-se monarca na Áustria implicava ser Rei da Hungria e seus territórios... Eslováquia, Eslovénia, Croácia, partes da Ucrânia (Bucovina) e Roménia (Transilvânia e Banato).
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Tenho ternura pela trágica Maria Antonieta, que não sei se vivia, de facto, num mundo à parte ou se foi a má-língua da corte de Paris e a paródia tradicional do povo contra os ricos e poderosos que lhe traçaram o retrato.
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As senhoras da corte parodiavam-na usando o seu país de nascimento, a Áustria. Era «autrichienne», austríaca, mas pronunciavam «L'Autre-chienne», «a outra cadela». Diz-se que ao subir ao cadafalso, em 1793, para ser guilhotinada, terá pisado o carrasco. A sua educação não se desfez pela gravidade solene do momento:
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– Perdoe-me, senhor. Foi sem querer.
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A mais célebre anedota que se conta desta Rainha de França é a que terá ouvido tumultos e perguntado o que se passava na rua.
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– Majestade é o povo que protesta por não ter pão para comer.
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– Então, por que não come brioche?
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Brioche e Champanhe... gosto!
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Outra suspeita de ter dado o peito ao gesso que seria o molde para a taça de Champanhe é Maria Josefa Rosa Tascher de La Pagerie, primeira mulher do Imperador Napoleão Bonaparte. Fala-se de mau génio e alguma depravação – provavelmente parte o preço a pagar pelo poder – mas o forte e tormentoso relacionamento com o general nascido corso, homem perigoso e ciumento... hummmm... hummmm.
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A terceira suspeita é a que mais me agrada. Era a mulher do Rei e não era Rainha – para quem não sabe, casamento e amor é coisa recente, talvez com pouco mais de cento e cinquenta anos – era invejada pela influência e por ser a amante; era conselheira do monarca, despachava assuntos do Estado e manteve uma longa relação amorosa com Luís XV. Muito bonita, o que cria muitas invejas. Já era rica quando entrou na Corte. Era culta e gostava da vida e dos seus prazeres e da arte, e na política diz-se que era fria e implacável.
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Joana Antonieta Poisson, pelo estatuto de amante do Rei, precisava dum título de nobreza – o pai e a família frequentavam o palácio real, mas eram burgueses ricos, de banca e comércio vário – aliás o próprio apelido indica a origem plebeia, «Peixe». Luís XV coroou-a marquesa de Pompadour.
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O escândalo era a sua vida. Tinha tudo para dar o peito esquerdo para molde, até a impunidade. Ser-se cortesã não é ser-se Rainha.
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Portanto, a taça de Champanhe tem entre 250 e 200 anos. Renasce!
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Com a Monarquia francesa terminada em 1870 – Segundo Império, da dinastia Bonaparte – França conhece, desde 1946, a Quarta República. O Champanhe mantém-se no trono e a corte republicana também tem as suas rainhas e celebridades.
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Enganam-se se pensam que França e os franceses são republicanos. Além de muitas dinastias, burguesas ou de nobres de pouca monta, que tomaram a administração do país, em diferentes patamares, o regime presidencialista é herdeiro dos modos de governar dos Reis. A pompa e a circunstância, o fausto e solenidade mostram que se hoje reinasse Henrique de Orleães (nascido em 1933 – conde Paris), João d’Orleães (nascido em 1965 – delfim de França) ou João Cristóvão Napoleão (nascido em 1986 – príncipe Napoleão) a Casa Real Inglesa pareceria um bocado provinciana.
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A modelo londrina Kate Moss é uma rainha da moda, das passarelas, do mundo do brilho. «Morta» por diversas vezes, é a manequim que mais tempo tem reinado. Passou por escândalos e toxicodependência e sempre renasceu. É a supermodelo que resta.
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Para celebrar o seu quadragésimo aniversário e vigésimo quinto no mundo da moda , o restaurante londrino Mayfair 34 e a Dom Pérignon pediram à escultora britânica Jane McFadden que tirasse um molde dum seio da modelo, para com ele se criar uma nova taça de Champanhe.
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Parece que a Dom Pérignon e o Mayfair 34 apontam para o seio de Josefina, pois a sua morte aconteceu há duzentos anos. Talvez não. Certos são os quarenta de Kate Moss.
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Kate Moss é uma mulher bonita e se singrou na selva durante tantos anos é porque tem talento e inteligência. É bonita, mas acho-a com cara de osga e corpo de louva-a-deus... a apresentação négligée soigné dá-lhe o ar altivo que se permite à grande nobreza – Kate Moss aparenta ser uma menina má duma família bem.
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A Dom Pérignon – que pertence à Möet & Chandon – alia-se com o vinho P2 ou «Dom Pérignon Second Plenitude 1998»... Numa busca pouco rigorosa, até porque os preços variam de país para país, o vinho irá custar cerca de duzentos e noventa euros. Já a taça... dois mil e setecentos euros.
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Nota 1: Não me falem de funcionalidade, é muito melhor beber Champanhe numa taça do que numa «flauta», por melhor que possa ser na manutenção dos fios de bolhinhas. À «flauta» prefiro um bom copo para vinho branco. Pode dizer-se que as bolhinhas duram mais, mas quem numa festa sedutora está preocupado com a borbulhagem e quanto tempo dura o néctar no copo ?
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Nota 2: Não sei se em Champanhe fazem espumante tinto. Nem em França nem noutro lugar. Em Portugal faz-se e tradicionalmente na Bairrada, com a casta baga. Devo dizer que taninos e bolhinhas é coisa que não me agrada.
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Nota 3: Há um ritual, injustamente acusado de ser romântico, em que o homem bebe Champanhe pelo sapato da mulher que quer conquistar. É nojento, primeiro estádio para sexo escatológico, cuja hierarquia vou poupar os leitores. Nojento, mesmo que o pé estivesse lavado e o sapato imaculado. Quem terá sido o tarado que inventou este feitiço.
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Nota 4: Todas as culturas têm formas próprias de representação pessoal, colectiva e nacional, nomeadamente guerreiras. Na Europa, a heráldica – um proto-design medieval – ainda hoje é usada. Os japoneses têm a sua própria heráldica, muito limpa, sintética, com a grandeza da simplicidade. No período de Napoleão I a heráldica conheceu transformações, com licenças e proibições próprias. A mais significativa é a aceitação de objectos em pose naturalista, no caso a águia.
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Nota 5: O vinho tem quase vinte anos... ainda hoje gozo com a parolada dum produtor, a querer endrominar-me...
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– Quando pensa que poderá ser o apogeu deste vinho? – perguntei.
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Responderam-me com uma arrogante e displicente sentença:
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– Como qualquer vinho espumante deve ser bebido nos dois primeiros anos.
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Mais coisa, menos coisa... o produtor faz excelentes vinhos, mas não gostei que me tentassem fazer passar por parvo. «Qualquer» vinho espumante... «qualquer»... Na Dom Pérignon não sabem nada de espumantes.
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Nota 6: Se fosse legal... em vez de Champanhe alguma marca de prestígio criaria um kit cocaína Kate Moss.
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Nota 7: Devido ao limite de caracteres disponível para os rodapés, faço a atribuição e explicação das imagens na continuação do texto.
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Nota 8: Por manifesta falta de espaço entre parágrafos e de assunto que justifique, no final estão quatro fotografias do fotógrafo James Bort.
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1 – Rei de França Luís XIV pintado por Hyacinthe Rigaud.
2 – Armas de Henrique IV de França e Henrique III de Navarra.
3 – Armas de Luís XIV de França
4 – Dom Pérignon retratado por artista não identificado.
5 – Cartaz da casa Gasset – autoria não apurada.
6 – Cartaz da casa Veuve Clicquot da autoria de Florence Deygas.
7 – Veuve Clicquot por Pascal Garnier, a partir do retrato pintado por Léon Cogniet.
8 – Imperador Germânico Francisco I por Jan Mytens (atribuído).
9 – Armas do Imperador Germânico Francisco I.
10 – Maria Antonieta por Martin van Meytens.
11 – Josefina por Andrea Appiani.
12 – Madame de Pompadour pintada por Jean-Marc_Nattier.
13 - Armas do Imperador de França.
14 – Armas do Delfim de França.
15 – Sala do restaurante Mayfair 34 – fotografia sem autor identificado e retirado do blogue da revista Vogue.
16 – Taça da escultora Jane McFadden a partir dum seio de Kate Moss – fotografia promocional da Dom Pérignon e sem menção ao seu autor.
17 – Kate Moss fotografada por Glenn O’brien.
18 – Kate Moss fotografado por Mert Alas e Marcus Piggott.
19 – Fotografias de James Bort (em baixo).

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