digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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segunda-feira, março 17, 2008

Desalinhos

Espero sempre no Camões, como o país esperou Dom Sebastião. Se lhe leu, não terá sentido todas as dores que o Rei deu. Tinha as suas. A quem mais dedicar um livro. Por mim, espero. Espero sempre no Camões. Espero também no Camões. E quem me dera ter por que esperar.

quinta-feira, maio 03, 2007

Tejo

Cada vez que olho a linha do horizonte antevejo uma cor diferente e um novo dia. Não sei se é dos meus olhos ou se há uma esperança em mim.
Nas minhas costas está Lisboa, à direita avisto Cascais e à esquerda a pressinto a linha da Caparica. O meu Ocidente ultrapassa supersónico o Bugio e sonho com espadartes a saltarem da água a acompanharem-me o vôo.
As tágides recostam-se nas margens comendo cachos de uvas moscatel e enfeitam-se com algas trazidas pelas marés invasoras pelo mar tão próximo. O sal que invade a foz e sobe acima de Vila Franca tempera o estuário e a pele destes seres sedutores e esquivos. Mergulho abraçado e volto à tona saciado de beijos de água toda. O Mar da Palha não é vasto, mas nele cabem todas as fantasias e os quatro pontos cardeais.

segunda-feira, julho 17, 2006

Safio

Trouxe um safio para comermos numa tarde de pachorra na companhia dum vinho branco muito seco e bem fresco.
Trouxe este jovem congro para alegrar umas horas de longas conversas e loucura ébria. Uma festa de aromas marinhos casados com vinhos e amizade. Estamos todos e todos tratamos do assunto. Primeira tarefa, a escolha da ementa:
- Ensopado à moda de Bragança!
Grita o mais alto. Alguns acenam que sim com a cabeça, mas há quem desminta com a preferência pelo guisado. Opção recusada sem amuos. A alegria estabelece-se em convénio e quase uníssona:
- Em escabeche!
O safio é amanhado como deve de ser e cortado em postas de um centímetro de comprimento. Chega-se-lhe o sal e espera-se quatro horas. Venha o branco para entreter.
Passada a espera tira-se o sal e as postas são divididas em pequenas partes, livres de espinha, que se enfarinham. A seguir, vão as partes do peixe a fritar em azeite. Ao óleo da oliva da fritura junta-se vinagre, dentes d'alho, cebolinha cortada, folhas de louro e pimenta preta em grão para se fazer o molho que se deita a cobrir os bocados do safio.
Está feito e resta abrir mais uma garrafa do mesmo fresco e citrino branco seco. Para o repasto, uma mesa posta com singeleza: toalha branca de linho, guardanapos do mesmo pano, apenas as alfaias necessárias para a desmancha e trinchamento de tão belo animal, os copos justos para o vinho e pratos e travessa de boa loiça.
Sem pressa nem prazos, a conversa continua caudalosa como um rio rumo à foz. Há-de vir outro dia e ainda estaremos à volta desta mesa de madeira com aquela janela de vidrinhos a deixar entrar luz bonita. Quando acabar a patuscada haveremos de pensar numa outra, sem prometer o petisco a seguir. Será surpresa.