digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

terça-feira, maio 30, 2017

domingo, maio 28, 2017

Não mentimos

.
Não te dispas até que te encalore, deixando o segredo amadurecer e cair. Beija como se contasses o princípio do tempo. Bem sabes que nus não mentimos.

sexta-feira, maio 26, 2017

Nudez

.
A água é uma janela, donde nos debruçamos esperando quem vem, fugiu ou morreu, é o espelho do crer em mentira. Asseados ascendemos nus de espírito, matamos a morte ainda nela podendo falecer.
.
A boca diz de tudo, carinho e entusiasmo, com ela se faz amor. A boca beija. Os lábios são nudez sem pudor.
.
Os lábios são nudez sem pudor e a água é o sopro excelso, são mitos e verdades.
.
Da água herdamos a história e colhemos o sangue e a saliva. Do esperma à espera para se libertar na luz.
.
Sem boca a água não serve. Sem sede não se beija. Sem essa graça não se ama. Sem amor não se vive nem se faz nascer.

quinta-feira, maio 25, 2017

Cubo

.
O Cubo manifestando-se aqui inconseguiria ser o laço que desaperta na vez de punir. A sua matéria indestrutível seria desistência. O negrume da cidade e o negrum da casa só se unem quando os carros pretos comprimem tempo do caminho. Nem poderia o azul de fora tocar a colecção de tristezas encerradas.
.
Se os carros andassem sozinhos… se não a escuridão envidraçada não fosse e viesse de dentro e da rua… se o portão abrisse para fora a fronteira… se o príncipe não.
.
Na cidade há cores e a progressão geométrica é saber que não me interessa, não acontece.
.
.
.
Nota: fui buscar o Cubo a Benoit Peeters e François Schuiten, onde é o motivo da acção de «A febre de Urbicanda».
.

Sólidos inúteis

.
O cubo é perfeito como a esfera. Qualquer deles não é remédio e possivelmente inúteis só quando conceito.

Luz

.
Nem a casa o é sem o jardim nem essa imensidão revelada existe sem retribuir. Ambas, o sentimento, substância íntima sem mentira, que é preso e me detém, seja quando Edimburgo ou Lisboa, que mentem, sendo inversas e opostas, imaginárias e densas, em verdades de enganam. Enegrecidamente existo, esteja sob céu ou luz suspensa, todos os dias, esperando uma apoteose ou a foz de estuário preguiçoso.

Vénus

.
Não é por isso estúpida nem insensível no ofício da cama.

quarta-feira, maio 24, 2017

Parte do jardim

.
Se nada é possível, se só apenas possível, se impossível, tem o tempo inutilidade e os dias a melancolia. Olhando, esquecido de saber, o que é tanto faz, esperando o regresso duma viagem sem início. Essa é uma parte do jardim.

Quedas

.
Lembro-me de cair e da cor da fotografia do movimento. Via passar velozmente os pisos, descendo sem parar pelo saguão e nunca batendo no betão. Mais tarde aprendi a amortecer nas cordas dos varais. Depois de adulto, obrigado e sem regresso, tenho esbarrado, seja caindo ou apenas perdendo, e latejando caminho ajoelhado e avançado como que na envergonhada nudez da fragilidade. Sempre numa noite, escura e negra e de vultos e de destroços. Sem poder reescrever, tombo por inconseguir outra vontade.

Inquerendo

.
Uma brisa levava o ar calmo, serena, breve e levemente marinha. Continuava a pensar na cor do céu nocturno. Não preocupava, só a captura porque nada… nada. A célebre futilidade do ócio, a semente do tédio e a raiz da melancolia.
.
Toda a voz vive em exílio, ninguém face ao jardim formal, um privilégio singular, outras vezes punição.
.
Repentemente um mínimo burburinho, da dimensão do murmúrio escondido, remexendo o chão. Nem susto nem zanga, mas o deslumbramento pela aceitação dum camundongo atrevido – dele e minha.
.
Pensar na cor do céu nocturno não causa um sobressalto, certamente o meu olhar e o resto inspirou-o.
.
Meditava afimente sobre um ramal da filosofia contemplativa e o ratinho, do olhar esperto e meigo, chamou-me como a paternidade resgata um homem. Exagerando, bem sei.
.
O que se faz aos olhos, aos gestos e aos sons?
.
Talvez me ouvisse a cabeça e respondeu-me cirandando até se desinteressar. Subtilmente saiu sem que cão ou gato soubessem.
.
Deixei-me a sorrir, apreciando o sopro veraneante, com as ideias enleadas de cor do céu nocturno e do bicho a passear-se nele.
.
Inquerendo ganhei horas de vigília e aquele olhar bondoso.

Dito

.
Se não conheceste a fúria nem viveste a paz nunca entenderás o cor-de-rosa.

terça-feira, maio 23, 2017

Azulmente

.
Quem não viu Lisboa pode desconfiar da sua luz. O céu é do azul puro e o seu branco é a espuma do mar. Ir tem voltar e só consigo permanecer. A saudade, sentimento que usurpamos ao mundo, é verdade e sou azulmente lisboeta.

segunda-feira, maio 22, 2017

Adultar

.
Nasci querendo, como as crianças sonhei e cri, como jovem disparatei e fiquei adulto sem saber. Subiu-me a barriga e minguou-me o cabelo, assim ainda será. Sem brincar não vivo e sem respeito não se pode ser. Espera-se tudo das crianças e depois exige-se mais, mesmo que me imprestem. Chore ou cale, sou indiferente. Não para o mundo, mas do mundo para mim. Estar e fazer às vezes é demasia e sonambulismo.

Noites

.
Quando acordo bêbado, ainda de noite na cama de quem não quero, a cor é tempo sem sentido e embriagada a cabeça tem a lucidez que as pernas inconseguem.

domingo, maio 21, 2017

Escadaria

.
Sentado num degrau da imponente escadaria de mármore pensava na tristeza do fim do mundo. Se não se lhe sobreviver, a perda não tem preço nem desgosto.
.
O mármore é mais rijo do que as minhas mãos, a acidez do coração-cabeça não o corrompem e escorregando caindo há a dor latejante-analgésico.
.
Se não se pode morrer, viver não vale e o passamento é enfadonho como o autocarro para a escola.
.
Partir tudo será a alegria e a ressaca de perder.
.
Todavia o mármore é pedra e eu sou carne.

«A» de criança

.
Por desgostos, o coração ama os mais frágeis. Mesmo que seja de pedra, pano ou papel, a ternura da criança e do animal é uma comoção que esconde as feridas.

sábado, maio 20, 2017

Varsóvia

.
Muitas vezes estou nu na praça e as pessoas vão e a minha voz sem se ouvir nem mesmo quando levada pelo vento. Porque os outros têm problemas e horas e os seus olhos são também iguais aos meus, vazios na cabeça enleada de ausências e equívocos.

O coelho

.
O coelho é solene e estúpido, mas está a mentir.

sexta-feira, maio 19, 2017

Tempo

.
O tempo é quando tal como a luz. A natureza não se engana, mas os olhos é que vêem poesia.
.
.
.
Nota: Não consegui identificar o autor desta imagem. Se alguém conhecer, por favor indique-me, para que possa atribuir os créditos.

Letra A

.
Os Açores conseguem tanta coisa e contudo são feitos apenas de terra, mar e céu.

quinta-feira, maio 18, 2017

O tempo mede-se com cordas

.
Quando não tens uma resposta, seja por bem ou por fim, encontras na corda o fio da meada.
.
.
.
Nota: Não consegui identificar a autoria desta animação. Quem souber, por favor indique-me, de modo a atribuir os créditos.

quarta-feira, maio 17, 2017

Lustro

.
Bem vestido é-se grave e se calado ilumina-se de sabedoria. Abandonado no trajo, o Doutor em muitas artes é negligência e mudez. Quando a morte lhe levar a roupa, esquece-se o desarranjo e talvez se lhes oiçam a inteligência.

terça-feira, maio 16, 2017

Não estive

.
O tempo e a luz não voltam, nem mesmo se reinventarem os seus átomos, se os tiverem. A ciência está para Deus como a religião está para a dúvida.

segunda-feira, maio 15, 2017

Antes que seja amanhã

.
Pela noite no palácio deserto andava ao comprimento da casa como a missão do comboio. Infeliz como um pinguim engripado.
.
De um lado a luz que basta, projectando-se nas paredes e dando ao príncipe uma sombra teatralmente simples, do outro as coisas dormentes de impréstimo momentâneo.
.
Na vigília, incompetente para dormir, dizia-se:
.
– Só tenho vergonha quando penso no que pensarão de mim. Há tanto para pensar, tantos humores e caracteres, penso e não os tenho a todos. Dói-me o que penso que pensam.
.
A sombra respondia-lhe:
.
– …
.
Prosseguia:
.
– Não sou o centro do universo nem desta casa, sou-o de mim, canso-me.
.
Quando me vejo disforme, quando já não bebem do meu vinho e regressam para onde quiserem, fico rei e pateta.
.
É vergonha! De saber o que sou, de pensar saber do que pensam e do que penso disso. É vergonha.
.
Não, não é isso.
.
Vergonha tenho do Greco. Ter um Greco não é uma vergonha comum. Poucos a têm. Até há que aprecie, há gente para tudo. Vergonha e vergonha, de Greco, são homógrafas e homófonas… deve ser isso.
.
Um quadro de Greco é um quasimodo. O Quasimodo verdadeiro, sem réstia de amável. Não consegue ser negro, é um fastidioso cinzento, Greco tem postulas verdes. Grotesco que nem para atracção de feira, por pudor.
.
Para que o tenho?
.
Tenho-o prisioneiro, numa masmorra de tortura, para que um suicida não tenha coragem diante do castigo.
.
Digo asneiras. Sei lá por que o tenho. Possivelmente faz parte da casa, como eu e o ar.
.
Quando se tem a perfeição, deseja-se a imperfeição. A fealdade…
.
Não. Não é a fealdade. Imperfeição e fealdade não são sinónimos. Grego é perfeito na medida que pode alguém.
.
A fealdade é Greco.
.
A fealdade é uma tristeza de ordem diferente da tristeza. A feiura talvez possa ser divina, não o horrível. O Diabo é infame, mas recebe a caridade, não Greco. Não o homem, nem a sua cabeça mortificada, mas aquelas coisas. Greco não é indecoroso nem vil nem malfeito. É medonho.
.
Será?
.
Nada há que não me desminta. Nada de que não me arrependa. Nada que não contrarie. Não há nada que não adie. Sou um fantoche de nãos. Escravo do tempo.
.
Quantas horas terá esta noite? Deus queira que ninguém acorde, espero estar só.
.
Não sei se tenho destino ou fado.
.
Oiço uma voz, do universo ou oiço-me autoritário e julgo ser o universo.
.
O que é?
.
É onde a luz mundana não chega, o céu é puro e se descoberto de nuvens há noite magnífica.
.
Não é, aí é donde se vê e para onde se olha.
.
O universo é até ali ou dali para diante?
.
Penso no céu e se a voz que oiço… é complicado. Está frio, preciso de um gato.
.
O preto e branco é mais difícil a cores. Esse é o drama do escarlate.
.
O que quererei dizer com isto?
.
Preciso da cama e dum gato. Que não tenham ido fazer o que fazem os gatos à noite, quando não nos aquecem.
.
Às vezes perco-me nesta casa, basta-me pensar ou pensar que penso ou que a dor é uma coisa concreta. Nunca vi a dor. Como nunca vi Deus.
.
Antes que seja manhã.

domingo, maio 14, 2017

Havia a fronteira

.
Sabia-se que se estava em Espanha quando cheirava a Ducados. Não fosse artifício de vento, um café clareava, acre e esturricado, a dúvida, pingado com leite.

sábado, maio 13, 2017

sexta-feira, maio 12, 2017

A água seria água se não fosse a luz

.
Sabes o que acontece na natureza quando se faz luz? A luz da carne a latejar, fazendo ir e regressar a água do prazer, e a água que abre o caminho para a luz.
.
Estou nesta conversa surda porque, se aqui estivesses, não para me ouvires, mas para seres comigo, um dilúvio nos afogaria no tempo parado e no final ser cedo e tarde para nos devermos.

quinta-feira, maio 11, 2017

Branco

.
A melancolia branca não é menos escura. Saboreia-se quando ficam os ausentes.
.
No jardim de Inverno, com portadas abertas para o vento, às quatro da tarde, o chá das cinco. O alto relógio-de-pesos, especado na sala próxima, tocou um minuto adiantado. O mais pequeno e rústico, o daquele lugar, ditou o momento, outrora de conversa.
.
A mesa coberta por uma toalha de linho de primeira com suaves relevos, guardanapos da mesma família, que bordados a ouro desenham o monograma da pessoa triste; conjunto da Companhia das Índias, bule, chávenas, pires, açucareiro e jarrinho para o leite e colheres de prata com o seu cheiro; jarro alto com água, tapado com naperon rendado, com as mesmas letras, para que não haja além de escassas bolhas de ar, e copos de cristal, riscados com metal de riqueza; bolachas sortidas, brioches, aquela espécie de bolo que os ingleses comem com manteiga ou doce, e compotas e a gordura branca que alguns dizem combinar com o paladar do chá preto; e um solitário com flor.
.
Às quatro horas e um minuto serviu-se primeiro, como ordena a gentileza do chá, e sorrindo perguntou aos ausentes e fez sinal para lhe passarem o açúcar.
.
A folhagem das árvores do jardim não tapava a luz solar. Os odores da vegetação, de fora e de dentro, sem se confundirem na infusão de camélia chinesa, e o cantar dos passarinhos estavam invisíveis. O tiquetaque foi a sua companhia, seguindo a conversa mudo e solene como o mordomo.
.
Uma casa cheia às vezes é vazia. Não vem ninguém, se não é a data, como se as pessoas obedecessem às estações da natureza, que ordenam os bandos e os amores donde nascem as vidas.
.
Todavia eram quatro da tarde, mais um minuto, mais meia hora e às cinco fechou-se o encontro. Veio quem tinha de vir, sinalizando para que se arrecadasse o espólio.
.
Fecharam-se as portadas para o jardim e libertaram-se as cortinas da fronteira da casa de chão de pedra e da sala de soalho encerado.
.
Entardecendo, chegariam – pensou. Ao jantar e à ceia servem-se vinhos.
.
Se a solidão viria, sabia ela do seu tempo e vontade – disso tinha a certeza. Indiferente, pois ainda não saíra para poder regressar.