terça-feira, maio 24, 2016

Espera

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Diante do vazio, não importa se gente ou dores. Nem o tempo, saltam-se os minutos.
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A vida encurta-se quando se engana o tédio e mingua ainda plo desinteresse de a viver.
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As nove horas da espera no ruído do hospital são um conto infantil. O receio que nenhuma criança reconhece e menos antevê.
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A mãe desamparada é uma menina medrosa.
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Eu, como se fosse anjo

quinta-feira, maio 19, 2016

Se uma brisa

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A inércia e a gravidade equilibram-me. Se tivesse uma vontade, .
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Tenho quarenta e seis anos e não sei o que faço aqui.
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Amei as mulheres que tive de amar. Amei demais e amei demasiadas. Talvez seja a mesma coisa ou causa e consequência.
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Gastei o dinheiro que tive. Desta vida não levarei nada e não terei.
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Soube da bondade e estraguei. Podia ter sido bondoso e não fui. Podia ter sido inconsciente e não fui.
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Envergonho-me de muita coisa e pediria perdão se conseguisse encontrar as pessoas. Tanto me faz das vergonhas que passei por desamor de outros, façam as suas contas, faço as minhas. Amor-próprio não tenha. O orgulho brilhou, mas resta lama. A soberba alimentou-me, tenho fome.
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Fui sempre quem sou. É da minha natureza ser outro, que valha a pena ou tenha o meu verdadeiro préstimo.
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Não minto e nunca roubei. Enfrentei por outros e fiquei só, mas que façam as suas contas, faço as minhas.
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Nada me prende, nem mesmo uma corda que sustente o que me resta. Se tivesse uma corda, . E soubesse fazer nós, tivesse um tronco robusto duma árvore.
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Se tivesse nitroglicerina trataria da cabeça e não do coração.
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Tivesse uma brisa de vontade, enfunaria a vela da barca de Caronte.
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Um lençol, uma vela, uma corda para a fuga.
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Tenho quarenta e seis anos e resto.

A espera

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À noite vou à janela e chove. Em frente, despes-te diante da rua.
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Fico na penumbra para que te tenha.
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Vais deitar-te e fazes amor.
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Fico à espera dum milagre e as horas passam.
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No outro dia, de noite, vou à janela e pode estar sol. Em frente, despes-te diante da rua.
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Fico à espera do tempo infinito e sem data em que faremos amor.

Alcatrão

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A vida cola-se-me como alcatrão quente. Tão negra. Tão fria.

quarta-feira, maio 11, 2016

Telecomando

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– Boa noite querido. Dorme bem. Até amanhã.
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– Humm…
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– Estás a dormir?...
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– Humm…
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– Au! O que é isto?
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– Humm… isto o quê?
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– …
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– É o comando da televisão…
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– E por que está aqui na minha almofada?
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– Está aí para poderes mudar de sonho.

quinta-feira, maio 05, 2016

A janela sineira

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Tenho morrido, por coisas pequenas, notícias irrelevantes, situações da vida, é a verdade. Insignificâncias sem lágrimas, pungências desarrumadas, desilusões de embate mudo e carências esquecidas.
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Morre-se desde o natal e sobrevive-se além-túmulo. Na dúvida vive-se dizendo valer a pena o tempo-vácuo. Para manter as aparências.
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Escreveria sem vírgulas, a vida. Sem elas para-se-me em lavra de pontos finais ou resvala nos desvarios impontuados e segue em enganos gramaticais.
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A banalidade da vida faz-me tristeza banal. O ouro que me encandeou é escondido e negado. A luz do dia não é nas minhas horas tardias. Se quase sempre aconteço antes, quando tardo não espera.
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Os sinos tão solenes não cantarão a partida. Irei como vivo e desisto, gritado e mudo.

terça-feira, abril 26, 2016

Luz nocturna no jardim

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Como uma noite num jardim-de-inverno, onde a luz exterior chega acanhada por não pertencer. Como o receio de se ser amado. Como a ternura devida à criança. Como a alegria do reencontro.
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Assim é Paraquedas, o bicho meigo e louco, que apanha mariposas invisíveis e ronrona em murmúrio.
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Nota: A Paraquedas faz onze anos.

quinta-feira, abril 21, 2016

Hora certa

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Também choro com luz acesa e em silêncios frágeis.
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Quero vida e não precisar do que se quer da vida.
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Quero atirar-me ao mar e, se não desexistir, pelo menos morrer.
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Troco a eternidade por minutos de beleza e de tudo branco e azul.
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Quaisquer dias aleatórios, certos como relógio astronómico como muito religiosos.
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A indiferença de mim e para mim, a enfadonha crueldade do meio.
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Quanto valem os dias? Não dão e nem tenho como pagar.
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Para isso há o mar. Na incerteza da desexistência, fico gordo e triste e ainda pior feio.

quarta-feira, abril 06, 2016

Mariposas

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Então foi aí e ela disse enfim o esperado há tanto faz de dias.
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– Anda, vem.
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Depois disse mais:
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– Junto a mim. Chega-te e toca-me.
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Como se fosse uma ovelha, docilmente me cheguei e tímido e discreto como um gato. Ela era macia e seus pêlos suaves e de maçã.
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Não falou mais e sussurrei-lhe ao ouvido sílabas aleatórias como se fizessem poema.
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No final sem fôlego falámos do estado do tempo e do anticiclone dos Açores e inevitabilidades.
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Reincidimos a espaços cronometrados involuntariamente, tal os sismos e vulcões da Terra.
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As mariposas vivem horas e despenham-se na luz.

Como Bettie Davis e J. P. Morgan

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Outro dia num escuro vi-os brilhando. Densos como o amor de mãe, ternamente escuros como canção de ninar. Ah! E têm a força e a velocidade como as do comboio abrupto. Quem os vê sabe sem que a boca diga. Tanto faz ter defeitos como todos, olhos daqueles são balas de canhão e ninguém segura uma bala de canhão.
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Nota: Presente de aniversário para a amiga Sónia Teias, que outro dia partilhou uma fotografia em que os seus olhos são mesmo os seus olhos. 

sábado, março 26, 2016

Data

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Lembrar uma data é prova de vida ou certeza de morte.
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Se evoco é porque morto.
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Mas se vivo, é a ingratidão.
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Quando dói a memória, é vivo ou defunto? A saudade é um remorso.
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Se lembra, vivo. Não telefono a mortos nem amo mais só porque.

quinta-feira, março 24, 2016

O escritório de Terezín

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Tenho um problema com a memória. Por isso, tenho um problema com a culpa.
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Tenho um problema porque inactivo e até mesmo tendo deixado, quase por completo, de ser cínico – adjectivo ou substantivo que infantilmente desejei e cultivei. Porém, centrando o assunto, o dilema é a memória.
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Ser-se culpado é menos chato do que se reconhecer culpado. A memória existe também para isso, e se castiga também por ela se pede o perdão.
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Lembro-me mais vezes de mil novecentos e quarenta e três dos que de dois mil e quinze.
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Em mil novecentos e quarenta e três, eu era um anónimo ariano, conveniente Obersturmführer da Schutzstaffel sem perguntas, poucas respostas para dizer e sem falar à consciência. Dois anos depois a culpa não era minha, eu não era nada, não tinha feito nada, cumprira ordens, só isso e até morrera.
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Se era anónimo, por que me lembro mais de mil novecentos e quarenta e três do que de qualquer outro ano recente? Porque sou verdadeiramente nulo, os meus actos inalcançam.
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Lembro-me agora. Dói-me de vergonha, queixo-me de mim, dos silêncios, da cobardia e do desamor. Conto agora porque vi a metáfora de vidas. Na distância entre a carne e o sítio não há cheiro, apesar do pó dos anos a pesarem nos arquivos.
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Em cada compartimento ficava uma pessoa – os papéis que a tornavam coisa, justificando a sentença.
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O arquivo está em Terezín, na Boémia. Uma fantasia macabra, a cidade encenada, com lojas, dinheiro e posto dos correios. A cidadela fechou-se num forte, uma judiaria exemplar.
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Como se a fome e as doenças fossem incompetentes, havia transportes para os campos de Auschwitz, onde morrer era menos prosaico.
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É sabido que nos prendemos às coisas tal como as memórias se agarram a nós. Quantos não renasceram e estão numa espera de dor – de remorso, de rancor ou de incapacidades. Quantos não regressaram e pelas mesmas razões? E os que sempre estiveram.
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Posso ter estado ali. Em mil novecentos e quarenta e três ou antes ou depois, não sei precisar a data da minha morte.
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Posso ter estado ali. Pelo menos alguém esteve, confortavelmente anónimo e inculpável, como eu, servindo como amanuense. Que disse e diz à consciência e à memória?
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Dirk Reinartz fixou a hora e a função, logo depois de esvaziado o teatro. Os olhos de W. G. Sebald escreveram Austerlitz e Daniel Blaufuks foi ver e trouxe a cor, um modo de mostrar o cheiro, deixou o relógio.
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Duas fotografias da mesma coisa mostram, da mesma forma, a mesma coisa, de modo diferente. A verdade é uma e muito grande para uma só boca – só há uma.
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Nota: Decidi escrever este texto porque me fiz tropeçar no passado ao pensar no drama dos refugiados. Caí na fotografia de Daniel Blaufuks e subi o rio. No sítio da RTP, uma hora de entrevista com Ana Sousa Dias esclareceu ainda mais do que informou. Não as contei, mas desta vez o cliché, de que uma imagem vale como mil palavras, é retrato de corpo inteiro e sobra. Não há uma palavra a mais nem nada a menos nas fotos, na de Reinartz e na de Blaufuks.

Quando te despi e fotografei e não o fiz

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Agarrei numas fotografias que estavam num daqueles sacos de papel e vieram-me memórias. Ou foi o oposto, uma lembrança inútil que puxou outra e finalmente acudi àqueles papéis.
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Não fiz de propósito e os acasos inexistem. No topo estavam as ampliações dos nus. De que serve a nudez com vinte anos de atraso? Nem para socorrer aflições. Sei do tempo, vários afectos e, além do mais, és tu – que te despiste sabendo que seria arte e só foi, ainda segredo.
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Esses nus ainda não estão documentos – se o fossem estariam mortos. Continuam arte e pudor. Nem me lembro quanto aqueci ao ver-te entrar pela câmara.
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De tudo o que quis, quase tudo deixei. Dispensava as dores dos afectos, suas cicatrizes, memórias e Narciso em queda.
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Mas sem erros e sem memória não se aprende, não é?!
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Não é! A mesma tendência para o coração partido, fractura exposta, e alma amarfanhada em bafio – noites de insónias em dormências, tanta vergonha e arrependimento. Despojando-me à miséria e tão tarde, sempre tardiamente consciente.
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Por que te deixaste fotografar nua? Tinhas-me. Por que te deixaste fotografar nua? Querias-me. Por que te deixaste fotografar nua? Queria-te. Por que nos fotografamos nus? Por que não te despiste?
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Já reparaste que te escrevo não só. Aliás, esta fotografia nem é tua. Por que te despiste? Por que não te despiste?
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Por que fizemos amor? Por que fizemos sexo? Por que fizemos amizade? Por que fizemos engano? Por que não fizemos nada?
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Cada nu é um espelho onde estamos separados mais pelo tempo do que pela dimensão ou situação.
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Hoje talvez apares a púbis… não penso nisso. Pensei agora. Sim, pensei. Pensei, porque nesses nus és bosque.
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E tu, que te nunca te fotografei nem vi nua, como tinhas, jardim ou natureza?
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Ia perguntar-te como tens, mas… não quero inventar fantasmas nem criar feitiço.
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Por que fizemos amor? Por que não nos saboreámos?
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Sem inventar feitiços nem criar fantasmas, penso cientificamente, na pureza da chatice do pensamento vácuo, no que aconteceria se fosse hoje, agora, neste instante, com todas as pessoas e dias do meio entre nós deixadas à porta.
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Como então, a roupa descendo e o espelho subindo e repousando.
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Tirarias a roupa? Fotografava-te? Faríamos cama?
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Repara, não és tu quem está na foto.

Se passando passasses

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Se uma menina como tu assim passasse igual e diferente fosse nua, haveria de me baixar os olhos na vergonha infantil por confundir o desafio com um convite.
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Mas não. Passas assim, vestida acertadinha, muito bem arrumada e composta. Os meus olhos preocupados seguem-te ao quarto onde nua, para então.
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(…)
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Passaram-se duas horas e a tarde ainda desabitada. Nem dei por aquecer a pedra onde sentado fiz amor distraído.

Oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros

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Na incerteza da vida, se vivo ou se vivo, sobrevivo desistente e incansavelmente fatigado, por causa do tédio, a prova da minha incerteza.
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Se o digo é porque duvido, pois as certezas não precisam de pontos de exclamação e a realidade é mais do que o sentido.
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Quanto vale o um e o dois, se são primeiros não são longe. Distante paga bem e recompensa o valor da ilusão. Quatro anos-luz é aqui ao lado e quatro mil milhões de anos é menos de um terço do tempo todo que a ciência admite.
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Os números são cruéis ou apenas. Apenas, pois vou nos quarenta e seis e sei-me infantil e dez é esperança curta ao nascer. Aonde chegarei dista a paciência para o tédio e as alegrias que escondem a sombra.
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Se pudesse voltar só faria igual se soubesse do fim. A arrogância, o orgulho e a negação ditam palavras gordas e tudo o gordo é estúpido:
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– Faria tudo igual!
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As certezas não precisam de pontos de exclamação nem Deus que seja vingado. Se me doeram as pernas e o desânimo assou a pele, para que faria igual se pudesse voltar?
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Mais ou penos o sentido depois de nadar oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros e quarenta e cinco minutos quando se tem trinta e quatro anos, este amor a quatro. As gatas são, ainda que a Lioz não esteja.
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Mais ou penos o sentido depois de nadar oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros e quarenta e cinco minutos quando se tem trinta e quatro anos, o amor a dois, o desamor a mim e tanta gente devassadora, raptada ou nunca-expulsa.
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Lembrar uma data é prova de vida ou certeza de morte.
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Se evoco é porque morto.
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Mas se vivo, é a ingratidão.
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Quando dói a memória, é vivo ou defunto? A saudade é um remorso.
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Se lembra, vivo. Não telefono a mortos nem amo mais só porque.
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Nota: O infotocopiável faz dez anos e a Granita doze, a Lioz é no sítio dos espíritos.

sábado, março 19, 2016

Poema da minha vida

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Escrevia poemas bonitos, davam-me beijinhos e palavras.
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Um dia uma miúda e outra e outra davam-me aperto e em silêncio vivia. Escrevia e não mostrava.
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Sem perceber uma raiva e escrevia, batiam-me palmas.
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Embarquei e em cada porto um poema, aleijava, às vezes doía-me e davam-me beijinhos e palavras.
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Um dia mostraram-me que se pode morrer, escrevi com lágrimas.
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Um dia apresentaram-me a morte e quase tudo são violetas fechadas numa casa de mármore.
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Se for amor, tenho beijinhos e palavras. Se for escuridão, tenho silêncios.

segunda-feira, março 14, 2016

Senhor doutor, tenho uma dor

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O médico perguntou-me:
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– O que o traz cá?
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– Estou muito doente!
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– E do que se queixa?
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– De hipocondria.

O chá

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O céu é azul.
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Mais bonito não há.
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No lume está um bule.
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Fervendo água para o chá.

Uma conversa muita antiga

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Aquela vez que agarrei o beijo porque as palavras eram densas e escuras, sem lanterna muito mais para se ver. A cada vogal, cada consoante, cada sílaba até ao parágrafo e contraposição. Quanto mais os teus diziam, mais os meus sentiam o beijo na beira – mas a cabeça muito mais junta e o relógio afastado. Se olho para trás, se penso no beijo que ficou no tambor do revólver, é da conversa inacabada que me lembro.

Corações Irritáveis – João Paulo Guerra – edição Clube do Autor

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Fujam! Ele anda aí e traz um livro! Malandro, rapina de patetas e com sentido de humor inteligente capaz de pôr a sorrir um alemão da Prússia Oriental. João Paulo Guerra deu-nos à luz um novo livro.
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Brincadeira à parte, trata-se dum livro que não é nem brincadeira nem para brincar. É um romance acerca da Guerra Colonial, tema ainda carente de produção, seja ficcionada ou histórica.
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Não o li, mas assino a recomendação – aqui não há risco como no caso do Grupo Espírito Santo.
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O homenzinho do microfone, como se definiu a si mesmo com palavras duma entrevistada, escreve bem como poucos, sabe do mundo e de o dizer. E ficar à conversa é pouco – pelo menos para mim.
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Termino como comecei, a meter-me com ele: Ainda não li o livro, vou ler e dizer mal.

Perdoa se a alegria e salta para a felicidade

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Os olhos parecem tristes, sei que sorri. Vejo-lhe mar chão, mas atrás das vistas pode doer um coração e o horizonte é longe. Se o mar dos olhos, não haja nem brisa arrefecendo-a ou tumultoando-a, mas o Sol secando-os.
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Nota: Para a MR que publicamente pediu um poema ao mundo.

sexta-feira, março 11, 2016

A realidade é o rio paralelo

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Nem caído nem descaído, e não anjo – por isso. Sem a tocha da manhã, mas com pedra de subir como banco.
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Nem desobedeci nem adolesci. Sentei-me com um escuro embrulhando olhos, pensamento e alma. Perguntei e sem resposta desisti quieto, e nem tédio ou angústia – ainda antes.
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Profano ou pagão ou confuso por uma questão impossível:
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– As sereias cantam. As sereias são mulheres?
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Na tepidez do tempo infinito fiquei na pedra de subir e pensando fui sereio – não cantei. Até um salpico me acordar.
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Nem tocha de alvorada e sem pedras de subir ou descer, só o aborrecimento.

Gomas-lábios

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Lábios de fino traço de carmesim, seguro e de aguarela, tão larga força de prisão dos meus olhos. Eternamente aí, não fossem resgatados por tuas duas gemas de castanho e brilho. Sem libertação, um novo cativeiro.

Azeite Tapada da Tojeira

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O design, como a arquitectura e a enologia, é uma disciplina técnica. Porém tem portas abertas para a estética. Gosto muito da simplicidade funcional do rótulo do Azeite da Tojeira. O bom e o bonito. Dentro da garrafa também.

segunda-feira, março 07, 2016

Que depois seja antes de antes

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O sono é uma porta de engano. O sonho está do outro lado e tenebroso e pior. Meta-carne não sacia e menos sobeja. Simples desistências. Só a desexistência basta, a Deus a peço por graça ou mercê. Não construo nem desisto e nem fumo ligeiro perdure.

Kafka

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Tenho a certeza de que não estou na minha vida.

Febre

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Estou febril e isso esgota-me, ainda o dia do lado de fora da janela, de dentro da vidraça, em mim e expiração.
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Foi um pesadelo de estar acordado, muito pior do que dormindo. Foi uma saga, antes morto. Morrendo-me e matando tudo.
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Um vampiro suicidário e insaciável, dolorosamente consciente.
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Sou o pijama meio do avesso espalhado por onde se não dorme e no vazio de gente.
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Não, não estou com nervos em franja. Um longo cabelo despenteado e emaranhado, simultaneamente oleoso e casposo.
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Não existe este sítio em mim. Contudo sim. Não existe porque não quero nem o quero nem.
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Assim invisível, involuntário e invisível.
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É um bom dia para um suicídio silencioso.
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Todas as lágrimas estão fechadas e o mundo dorme sem dar por mim.

quinta-feira, março 03, 2016

Óbvio

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Quando digo não, pode ser sim. Tal como o oposto. Ou talvez até talvez. Talvez sim ou talvez não.

Escarlate e púrpura

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Das tuas uvas, a bebida sagrada da festa. Como se fosses romã, despindo-te beijando gomo a bago. O sol do Alentejo na boca e o luar cheio nos olhos.

quarta-feira, março 02, 2016

O destino é uma Lei de Newton

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Há passado sem ida e futuro de ficar. Não fales de destino nem de promessas, ambos de cumprir e transgredir. Respondo-te com ciência e sua certeza, a Lei da Gravidade: nenhuma da nossa roupa ficará por cair. Digo-te do magnetismo do ferro, tintura do sangue – o calor do desejo e da nudez. Não fujas, a Terra é redonda, fico parado. Não te escondas, buscarás luz, meus olhos como estrelas. Promete-me o que queres, igual a quero.

Até uma conversa acabar

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Quero-te por todos os sentidos, de panorâmica a próxima, do sussurro e ao respirar acelerado, da pele resguardada ao deslumbre inebriante, da saliva e à flor, do crespo ao veludo.
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Ter o tino de embarcar na loucura, esquecer que o mundo é uma bola e confundir o sítio onde se está com o mesmo sítio onde se está – como se está.
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O mundo não acaba amanhã. Acabou e sobrevivemos. Antes que acabe novamente, façamos como se com ele partíssemos.
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Meiguice até à dor e ficar até uma conversa acabar.

Temperaturas de serviço

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Ao contrário da vingança, a paciência serve-se quente.

terça-feira, março 01, 2016

Há muitas maneiras de fazer pão

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Cartas de poker – escrevo-as de amor e gratidão aos amigos sábios, de mundo de horizonte com caminho, onde me sacio e compreendo a escuridão – só de ganhar. Ases há poucos e reis também. Faltou sempre alguém para o meu pai me ensinar bridge. Tenho cabeça pequenina e certamente ficaria pelo king, jogo tão maçador. Prefiro a canasta e música de câmara, o tango e sangria sem gasosa, o granito românico e a fotografia parecida com a pressa. Escolho arte contemporânea porque a moderna me aborrece, o impressionismo é piroso e concluo das excepções – sem as mãos, sintetizo o caminho do pai, da vanguarda possível do país ao pincel de academia. Os sábios dizem poesia ou sabem-na, outros coleccionam perfumes, dizem dos fumos, dos vinhos e das mesas – uma receita é uma lei, fora dela pode ser qualquer coisa, mas nunca o mesmo. Entendem a estética, que não é bem o bom-gosto, a moda e o bonito, vai do a propósito ao horrível. Sabem do nu descendo as escadas e da Nossa Senhora com o Menino, dum anónimo português do século XV. A superioridade é-lhes pela naturalidade e educação por onde vertem e onde maravilho as novidades, reparos e ângulos, além da perspectiva cavaleira, sabedores do uso das orelhas. A beleza da sem arrogância nem sobranceria, a educação galante do respeito – quando se respeita, o espelho favorece e Narciso vai comprar cigarros. Porque não há cultura sem pão nem homem sem cultura – só animal. Sabem ler e ouvir, histórias, estórias, fantasia, enganos, imprecisões de tempero e a singularidade de assumir quando não se sabe – diferença entre o ouro baço e o brilho da fancaria. Horas com uns e minutos com outros. Ter estas cartas é poder ir a jogo, depois com todos os feijões cozinhar uma coisa saborosa à pressa, elogiando os defeitos.
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Por respeito e decoro, deixo as iniciais… sabem ler siglas: AS, CF, DS, FC, FM, MJ, SGC… e por aí. 

Dingue-dongue

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Com um beijo toco à tua campainha, conversamos e convidas-me a entrar.
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Se há destino, que se cumpra. Se não há, que se invente.
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Não se recusa o leito a um rio.
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Não há rio que não molhe.
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Não há rio sem foz.
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Não há água que não volte.
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Podemos falar disto toda a noite.
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Inconclusindo, concordando ou divergindo, voltarei a tocar-te à porta para conversarmos.

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Tenho na cabeça

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Desistente, desistentável, sofredor e sofredável. Expulso-me e empurro-me, expulsam-me e empurram-me. Pago a sinceridade e a crueza, não sou frio. Antes fosse assentimental e assentimentado, tivesse o fio da lâmina do aço e não me alimentasse de ternura.
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Se a morte existisse e com ela pudesse jogar aos dados. Se o Diabo vivesse e a ele vender a alma. Se não tivesse assinado o contrato ou lido as cláusulas.
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Se pudesse desexistir, se Deus me desse a bênção de me descriado. Como seria feliz no instante em que.
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Não sei o que faço nem quero fazer parte. O corpo gosta da casa, mas a cabeça deseja partir. A cara gosta do vento e a alma soltar-se e nele se abandonar.
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Tanto faz quase tudo, quando tudo é nada e nada pode ser muito. Tanto faz, tanto faz, tanto faz e tanto faz aos milhares, mesma escuridão em onde.
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Melancolia num embrulho de lençóis amarrotados. Nem que fossem a mortalha, a morte não me interessa.

Assim as cousas

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Despiu-me e fizemos amor. Depois despi-me e apaixonou-se por mim. De tão densamente despido, fartou-se de mim.

sábado, fevereiro 27, 2016

Quem não aguenta desaguenta

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Meditei:
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– Lembrei-me de ti.
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Meditei:
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– Fartei-me de ti. Não aguento: ingratidão, manipulação e acusações falsas, insultos e egoísmo. Não me afogarás nem carregarei o mundo a quem me vai somando chumbos.

O Natal de Victória

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É porque que preciso duma fada, dum génio lamparino ou dum meteorito. Ou tubos e retortas, um relógio de pesos inglês, gatos e cristaleira num sismo. Se cão, sua trovoada. Frio e lâmpada eléctrica incandescente, de feixes amarelos – como quando nino, franzindo os olhos para os ver chegarem quasi perpétuos.
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Os fantasmas natalícios de Dickens, agiotas e ratazanas, cascatas de tudo para chão de pedras escorregadias ou de lama e bosta, fontanários envenenados e crianças sob teares, nos bairros de fumo e suor e batatas, prostitutas, cerveja e gin.
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Jack, o Estripador, o Monstro de Frankenstein, o Conde Drácula, o Lobo do Capuchinho Vermelho, Fausto, Dorian Gray, Doutor Jekyll and Mister Hyde, Narciso e Orfeu. O retrato do bisavô que era duque e gastou tudo e perdeu até a mulher, no Egipto.
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A casa range de imensa, chove-lhe e correm patinhas no escuro. Na cozinha de ladrilhos de xadrez há bolo-inglês, chá verdadeiro, açúcar e pinga de leite, pode ser Natal.
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Nem Godot bate à porta nem o Batman. O chá quente e ninguém, cama de lençóis de meses e almofadas de anos. Se gatos, seus demónios. Se cão, seu medo de coragem generosa.
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À meia-noite, o relógio de pesos inglês sentencia e o chá vai à pressa e eu para esperança – amanhã talvez seja Natal.
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Nota: Por limitação da caixa das etiquetas, coloco aqui os créditos artísticos. Música «Fairy on the Clock», Letra de Erell Reaves, Música de Sherman Myers, Orquestração de Patrício da Silva, Interpretação de Ian Whitcomb, Música por «What’s Next Ensemble».

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Só isso

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Se pudesse voltar atrás faria tudo diferente, menos sair para beber e dançar e.

Eu como palhaço morto

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Quando me deram o riso impuseram-me a tristeza. Pagam-me o aplauso com palmadinhas de compaixão e mentiras silenciosas. Como todos os rejeitados acredito na injustiça, no mundo enganado e mamo na derradeira esperança de ter um passado no futuro.
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Unto-me nas músicas gordurosas e poemas sinistros de raiva mordida para dentro – não hidratam nem curam. Alguns sinceros dão-me o desconto para os tolos e, com um espelho em que não me identifico, vejo o sorriso da esperança – o meu de ilusão.
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Dão-me rosas, sabendo-as nuas. Os cínicos são compreensivos e entregam-me a promessa de roupa – a do Rei nu. Pendurado no estendal, espero a aberta que seque a roupa por estender e que me vestirá – fico no Inverno.
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Como todos os palhaços, tenho um sorriso. Digo que me mato, não conto. Nem ouvem, deitam-se e até amanhã ou qualquer dia.
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Pior é não ter inveja e suportar vergado a vida que juro não merecer. Sonho em ter um passado no futuro, seja em cinza ou húmus.
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Nota: O título do texto é o mesmo do da fotografia.

Máquina-de-palavras

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Nunca fico sem palavras, invento outras – às vezes guardo-as.

A chuva não é azul

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Vinte vezes outro, não porque chove. À janela está o gato melancólico, tira-me palavras e ocupa-me. Se estivesse lá fora, molhado e patético como um gato molhado, a lentidão da indiferença seria a da escuridão cavada, desta masmorra de porta aberta, sem outro silêncio .
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A vida é câmara-lenta, da indolência da derrota e do frio desistente e consentido, de mim oferecido a rapaces e ao chão.
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A mãe não dá colo, vá quando for e vá também – cordão ata-nos, falho abraços, mau filho.
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Os remorsos que dizem secos apontam-me castigando. A cabeça não sai nem dela saio.
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Vinte vezes outro ou ir para não ficar.

Incapaz

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Vai-te embora, que me mandaste ir. Não posso, porque peso não-aguentadamente e se vou deixo de mim o que não quero que fiques.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

A culpa e a inocência e in dubio pro reo

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Sem dúvidas, condeno-me por culpa e inocência – temor do desamor da perda. Não sei latim.

Flores, Frutas, Urticantes e Calhaus

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Olhem todas:
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– Namoramos ou adolescentámo-nos. Quis-te e quiseste-me. Quis-te e nada. Quiseste-me e nada. Nunca soube. Nunca soubeste.
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Tenho saudades, pedidos de perdão e algumas justificações.
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Se for o caso, ouvirei e aceitarei o que me disseres ou condenares.
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Diz-me qual é o teu endereço de correio electrónico. Diz-me o teu número de telefone.
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Garanto-te que não escreverei nem telefonarei. Quero saber-te para que possa apontar a confissão de culpa.

Milagre pascal

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Loura com uma melena branca sobre a testa, o cabelo era comprido.
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Descia a Rua da Verónica. Descia a Rua da Verónica. Virava na Rua Leite de Vasconcelos. Virava na Rua Leite de Vasconcelos.
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Ficava na paragem do autocarro 12. Descia e lamentava a incoragem de ficar e seguir no mesmo carro. Fantasiava uma conversa, um local e um beijo.
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Vestia-se de preto e branco, às vezes de castanho-claro. Vestia-me de preto e branco, às vezes de castanho-claro
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Desejava que me olhavasse discretamente. Procurava-lhe os olhos, sabia que não seria capaz de os fixar nela.
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Pensava que me olhava discretamente, com desejo parecido com o meu. Não o fazia.
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Veio a Páscoa e na luz-escuridão da discoteca para adolescentes encontrámo-nos. Olhei-a e desejei que me encarasse e tivesse um desejo parecido com o meu.
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Falou-me e eu. Nem um beijo, tanto que lhos desejava. Ingénuos e tímidos dançámos, sem lábios. Quase manhã, apanhámos o 42 – e o 12 era o que me servia.
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Olhava-me discretamente e desejava idêntica – que surpresa.
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Segurou-me na mão e despiu-se, ficou a camisa por pudor, aberta para que a sentisse. A minha primeira.
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Dias e acontecemos tão insaciáveis.
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A Páscoa foi a 19 de Abril. O milagre não sei.
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Passou a Páscoa e tudo.

Invoando na gaiola

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Quero ser o Herberto Hélder e o António Lobo Antunes, denso como mercúrio e negro como os buracos, por consumido pela infelicidade de Espanca e a incompreensão de Camões, mas sou um só, diferente do Pessoa.
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Quero morrer quando quiser e alguém que me leia e diga que valho a pena.
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O meu signo é Saturno e tenho ascendente em Mercúrio. Vivo na fase negra da Lua no seu lado escondido.
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Uma casa sem janelas nem fósforos, três gatas para abraçar e uma manta para me esconder do negrum, deitado no chão morno.
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Nota: Já tinha referido antes, escrevo «negrum», porque o «E» dá luz a «negrume».

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Querido Diário (Económico)

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Querido diário,
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hoje escrevo porque acordei triste, emocionalmente cansado e com o sentimento da derrota que sentiria um cavaleiro andante derrubado do cavalo. Por isso, sinto-me também envergonhado.
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O meu coração é – hoje é e não está – papel de jornal amarrotado, que o roçar do maltrato fez esborratar a tinta. Nem tento endireitá-lo, porque hoje é, e não está, tristíssimo.
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Um jornal faz-se de notícias, de cachas, de bombas, mas também de imprecisões, gralhas, crises internas, loucura, festas de Natal e muitas emoções. Um encerramento é sempre doloroso e trágico, emocional, de frases poderosas, lamentos em surdina, lágrimas, risos, euforia ansiosa, perdição – isto é válido para qualquer empresa, hoje e aqui é o Diário Económico.
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O título está legível e nele leio os nomes de quem o tem feito desde Outubro de 1989. Encontro o meu… os de amigos, conhecidos, de quem gosto e até dos potencialmente desagradáveis. Este enunciado é total, do estafeta até ao director de produção, da telefonista ao colunista, do director ao estagiário, de quem tem a responsabilidade do economato até ao centro de documentação.
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Comecei no Diário Económico em Janeiro de 1990 – onde guardo boa recordação do mestre Goulart Machado. É injusto só citar um nome e se mais juntasse continuaria curto. Voltei em 1995, com Nicolau Santos – conheci mais dois mestres, Luís de Barros e João Paulo Guerra.
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Quase 16 anos depois de sair definitivamente, ainda hoje sonho, a dormir, que faço uma chamada e digo que sou jornalista do Diário Económico.
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Estive na Rua de Santa Marta e na Almirante Reis. Frequentei, pelos amigos, as instalações no Carmo. Não sei quem teve a péssima ideia de sentar o jornal em Alcântara.
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Tanto se pode escrever e dizer acerca de tudo o que correu mal e que lançou para a insolvência o Diário Económico. Contudo, não vale a pena. É passado, sem retórica.
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Presente é o meu abraço – com a certeza de que tantos outros camaradas o fazem, como os seus imensos leitores, a todos os que actualmente ali trabalham – acompanhado pelo desejo da esperança e de solução sem dor ou com poucas lágrimas.
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Não é um obituário!
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Ao escrever esta minha crónica, Carlos do Carmo cantou-me mentalmente o «Cacilheiro», com música de Paulo de Carvalho e poema de José Carlos Ary dos Santos. Peço ao leitor que entenda o barco. Escrevo a pungência:
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«Se um dia o cacilheiro for embora,
Fica mais triste o coração da água,
E o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa».
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Nota: referi os meus mestres no Diário Económico, mas quero deixar o nome de outros dois, que não citei por não visarem o caso. Trata-se de Mário Rosendo (O Jornal) e Maurício de Carvalho, que me explicou o que é fazer televisão.

sábado, fevereiro 20, 2016

Manuel Jorge, ano I

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Escrevo este texto a seis de Fevereiro, para que tenha a liberdade de o poder emendar secretamente, para sair hoje «perfeito». Um ano vale tanto como um dia ou uma semana. Assim as vidas.
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Há anjos que passam sem rasto, assim como demónios. Há quem faça estardalhaço. Há quem vinque grupos pequenos. Há quem tenha muitas vidas numa só. O meu pai teve várias vidas, ou talvez tenha tido vida.
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O que gosto do meu pai é difícil de definir, como será para a generalidade das gentes. Amo-o muito e estou zangado – aprendi e compreendi isso com o tempo. Ainda antes de ter deixado o corpo, porque a psicóloga que há muitos anos me acompanha me deu uma lanterna para vislumbrar.
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Sonhando quase lutei com ele, num dolor pungente e incompreensível. Sei que me perceberá se ler este texto, onde quer que esteja – sei que vivo, pois a morte é só de corpo. Uma guerra de espada e abraço, de ameaça e de lágrimas, de justiça sem vingança, da minha raiva – para mim perfeita e justificada – contra a maldade de quem se ama.
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O meu pai deixou o corpo precisamente há um ano. Não minto se disser que não verti uma lágrima. Não por raiva, zanga, vingança, mesquinhez, insensibilidade… não choro mortos. Chorei a minha avó materna porque tinha onze anos e achei que o devia fazer, que era o correcto. E se amava a minha avó… por ela chamei inconsolável e doente, ao colo da mãe num hospital ou clínica ou gabinete médico. Não pela mãe, mas pela mãe da mãe, que cuidava, por o pai ser ausente e a mãe estar ausente.
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Induzi esse choro e as raríssimas vezes que lacrimejei num funeral foi pelos que continuaram na carne, por condolência pura – mas não pela partida.
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Defeito ou virtude… assim era o meu pai e julgo – não perguntei nem vou perguntar – a minha irmã. O meu mano é diferente.
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Se senti a morte do meu pai? Em que sentido? O meu pai foi morrendo e morreu quando desistiu, foram uns anos. A doença e a progressiva dependência e fragilidade foram-no matando diante dos meus olhos. Nunca deixei de o beijar nem acariciar a cabeça – ele não gostava, mas nestes últimos anos sabia que isso o confortava.
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Dei-lhe a última alegria no corpo, com a franqueza e generosidade que ele gostava. Os olhos verdes e baços voltaram a ser verdes, embora escurecidos, e brilhantes e sorriu-me como um miúdo que ganhou um balão. Essa imagem será certamente uma felicidade para os dias que terei até o retornar a ver.
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 – O pai não foi um bom pai. Mas o pai foi um excelente amigo. Um grande amigo!
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Mais coisa menos coisa. Não valeria a pena mentir, nem era de se derreter. Sabia que só lhe diria verdade e que essa verdade era a que realmente o confortava. Não menti nem fui misericordioso. Tratei-o com a dignidade que merecemos todos. Se não compreendem, não posso fazer, mas funciono, tal como ele, assim.
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O autoritarismo só baixou comigo. Até ao dia em que o espírito deixou a carne, deu ordens e exigiu. O mais novo, mais mimado e talvez mais sofrido filho – algo tão complicado e egocêntrico de se afirmar – o enfrentava.
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– O Rei foi deposto. Agora o Rei sou eu!
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Entre o riso e o sorriso e ainda um ligeiro encolher de ombros. Verdade!
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Quando colocou o pacemaker e teve de mudar de lugar na cama foi uma tormenta para a mãe e funcionárias do apoio domiciliário. Calhou ir a sua casa quando o estavam a convencer – irredutível, ríspido e autoritário.
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– O pai colocou um pacemaker. Os médicos disseram que tem de se apoiar para este lado e tem de mudar de lado na cama. É assim, não tem escolha.
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Assim foi. Algumas vezes, ao telefone, a mãe lhe passou o auscultador, para que eu o fizesse aceitar a evidente necessidade de qualquer coisa.
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Sei que não fui déspota, não me vinguei nem me ocorreu aproveitar a imensa fragilidade dum homem que fora uma força da natureza e chegou aos noventa anos com o peso dum atleta. Quando tive de o alimentar e de ir a casa prestar-lhe apoio não o forcei a comer, não o torturei com uma colher. Se não queria comer, tinha de aceitar um iogurte. Se eu achava que as portadas deviam ficar fechadas e ela as queria abertas, fazia-lhe a vontade.
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Tentei que fosse feliz ou vivesse confortável – no possível.
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A verdade é que não verti uma lágrima… um ano inteiro. Porque não sou de chorar mortes. Sinto saudades, porque o cito muitas vezes, nas graçolas, nas sabedorias, nos ensinamentos de pintura…
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Perguntaram-me tantas vezes:
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– O teu pai não te ensinou a pintar?
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– Foi o teu pai quem te ensinou a desenhar e a pintar?
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Não. O meu pai não me ensinou nada disso. O meu pai falou-me com naturalidade acerca de erros, de situações evitáveis.
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Percebi isso este ano, há um mês ou dois. Liguei ao mano e contei-lhe e concordou. O pai não nos agarrou na mão, nem corrigiu o traço, só dava opinião no final se o pedíssemos e a meio se pedíssemos muito – não sentenciava nesse momento. Se achava que tinha ficado uma merda dizia:
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– Está uma merda!
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Explicava porquê, ainda que o pedido fosse feito apenas com um imperceptível olhar.
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Um ano vertiginoso, consumido como a mortalha de papel de arroz no lume. Saudades? As mesmas de quando estava na carne – dirão que quando estava vivo. Digo, porque sei, que a morte não existe, fenece o corpo, pois somos espírito e como tal, imortais. Em aprendizagem contínua em encarnações e passamentos sucessivos até a estádios superiores, que nem imagino densidade ou felicidade.
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Falarei do corpo, sintetizando no argumento conveniente da morte. O pai morreu lentamente, decaindo e consciente, sofreu – a força da natureza vergava-se e assim deprimido e desalentado. Desalentado de forma tão absoluta que juro saber o seu verdadeiro significado.
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Para conforto de quem fica e a quem basta parar o coração, foi sem dor e no momento certo – se existe situação incerta… existe, dependendo do nosso livre-arbítrio, o destino não é uma obrigatoriedade, usamos o que nos dão e essa liberdade traz responsabilidade.
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Voltando, parou-se-lhe o coração quando o pacemaker percebeu que não fazia milagres e a biologia ditou o momento. Depois do almoço, depois da primeira colher da sobremesa. Sem um ai nem suspiro.
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Foi quando terminou o contrato que assinou antes de ter reencarnado. Nem que fosse por esta minha certeza, não chorei. Todavia, não chorei porque não sou de chorar mortes.
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Choro, aflijo-me, aleijo-me, morro com o incompreensível. Por duro que me seja uma sentença, ainda que injusta, se a entender, aceito-a. A morte faz parte da vida – mesmo para quem vê a vida como biologia, sem dimensão espiritual ou além duma só vivência.
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Dirão:
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– Só se vive uma vez!
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– Uma de cada vez.
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Esta, o Manuel Jorge viveu intensamente. Foi injusto, foi magnânimo, foi amigo, foi tirano… foi o que foi, espelho do seu patamar de evolução espiritual.
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Não sou católico, mas sou cristão. Sei que deixara o convívio da Igreja Católica Apostólica Romana por divergências pessoais e políticas. Penso que o continuou a ser e que, no final desta encarnação, se apercebeu do logro do comunismo. Não partiu comunista e sei que cristão, provavelmente católico, embora revoltado.
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Por ele e pelos familiares católicos romanos, quis que tivesse serviço religioso – que me abstive de participar, permanecendo sossegado e em observante respeito. O sacerdote, julgo que italiano, já idoso, foi duma humanidade imensa.
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No final, estava ele aflito de tempo, já atrasado para outro acto de obrigação sacerdotal, disse-lhe:
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– Sabe, não sou católico, mas sou cristão e…
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Interrompeu-me com um doce sorriso, dizendo que ser-se cristão é o importante.
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Aqui faço o meu parêntesis: ser-se cristão não é seguir uma religião ou credo, mas tentar ser-se justo para com o semelhante, não exigindo aos outros mais do que a nós mesmos, e tentar progredir… diga-se o que se quiser: moralmente, espiritualmente, em consciência, civilizadamente, solidariamente.
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Depois, escrevi ao senhor agradecendo a breve homilia. Agradeci-lhe por não ter feito do meu pai um santo – tantas vezes os mortos são pessoas fantásticas e fabulosas, imensamente recomendáveis… Agradeci-lhe por o ter descrito como um homem e esperando ter feito mais para o bem, embora sabendo haver quem dele não gostasse.
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E é isto! Um ano após. Não falo com ele, nem o chamo, pois o lugar dele agora é outro e a sua tarefa diferente. Lembro-o e guardo-lhe amor e gratidão, pois apesar de tudo deu sempre mais e melhor do que tirou.
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Nota: Escolhi uma pintura de William Turner pois era grande apreciador da obra.