domingo, agosto 21, 2016

O milímetro

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Estou tanta coisa que me prometi não ser. Desconheço onde termina um verbo e começa o outro.
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A felicidade resume-se a uma pastilha-elástica de morango sintético e a tristeza à perda do sabor, indiferente ao balão ainda fazível.

Madrugada

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Fiz-te amor sonhando enquanto dormindo, distante sonhavas.
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Tombando peça por beijo de mergulho e aflição.
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Molhados nos desejos, longe levitando no vazio infinito do cosmos.
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No sono somos livres e tocamos além do silenciado na vida.
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Muito vagarosamente, como se o mundo acabasse amanhã e a noite fosse eterna.

Quase nada te digo do que te poderia dizer

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Há palavras que dizem mesmo o que são ainda não as conhecêssemos até à revelação.
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Escaganifobético, nada se define tão bem.
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Assim como esdrúxula é esdrúxula.
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E borburinho é ruído.
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Zingarelho, em que silaba após sílaba se teme que se abata desajeitada.
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Parlapatão é quem tem uma boca de mentiras e fanfarronice, diria falando cheia de favas por nada interessar.
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Cochinchina fica longe, como mãe é perto.
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Pouca de chica-maroca resume, onde se canta falando, o que se quer dizer quando não convém que se diga frente a uma criança, só lhe faltando feder.
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Estas palavras usam-se? E outras! Quando apetece.
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A quem não acredita afirmo mais:
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– Quem diz que os gatos não falam é porque nunca os ouviu a falar.

sábado, agosto 20, 2016

No metropolitano

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Na carruagem do metropolitano oiço qual a próxima estação e penso e concluo demasiadamente rápido que sei para onde quero ir mas não onde sair.
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Que seja, reparo nos rostos. Escolho a miúda para pensar e instantaneamente lembro-me do que seria se fosse quem fui, talvez me correspondesse o olhar acrescentado de sorriso, para sentar-me diante e lhe perguntar:
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– (…)
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Na verdade, quando é assim, quase tanto faz.
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Não me vê e desisto antes que a incomode, na vergonha do que não fiz mas pensei.
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Que me apeie sem susto e chegue onde quero.
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Se fosse simples e eu quem fui.
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Como uma fotografia sépia. 

quarta-feira, agosto 17, 2016

Movimento

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Quando sinto que vou desmaiar desmaio e no momento duma queda ou do beijo apenas volto de sair.

Eu

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Não fui eu. Nem sou. O meu modo de ser é nenhum e vêem-me ninguém. Do quarto à Lua quase um estorvo, irrelevância que não o permite.

segunda-feira, agosto 15, 2016

Livro que não escreverei

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A vida ensinou-me mas não aprendi.
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Se tempo valesse dinheiro, onde guardaria a fortuna? Dos dias que não uso.
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Não há maior tristeza do que a tristeza nem engano mais escuro do que não sentir ao sentir, na dormência das verdades e equívocos.
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Porque se corre para onde se corre e se fica sem caminho nem vontade.
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Olho as minhas palavras e nelas vivo os erros, não de letras desencontradas ou pontuação enganada – pois que também. Leio e percebo que pouco aprendi além de dúvidas.
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Na verdade penso por que escrevo se não o faço para desabafo – ainda assim também. Perdido mas respirando.
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Não estou nu à janela. Estou muito em toda a parte, da luta de dizer do escuro, recebendo as derrotas obrigatórias – ninguém confia depois da verdade.
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As respostas às grandes e primeiras questões não me interessam, pois sou certeza como qualquer ignorante.
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Escrevi:
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– Pouco aprendi além de dúvidas.
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– Sou certeza como qualquer ignorante.
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Duas verdades incompatíveis, equação impensável. O resultado é incolhível, bastam-me os alimentos do negrum, sem o «E» iluminando, do esforço prefiro inconseguir – incompetente.
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Pensar dá-me dores de alma e não pensar também, jogo xadrez com amigos imaginários na sala dos jogos do meu palácio, sítio ladrilhado igual ao tabuleiro, onde Alice passou procurando e fugindo da Rainha. Um espelho muito grande além das paredes para fugir.
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Para que preciso da realidade se a fantasia basta? Jogando no computador posso ser quem quero onde quero, inutilizando as verdades onde sou impotente. Tanto faz, deixei de brincar.
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Há silêncio na noite chuvosa e gatos cruzando as ruas. Não gosto sapatos salpicados nem da gabardina seca sobre a roupa encharcada, por causa do corpo, não da que vem.
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Essa estrada não é mais triste do que na luz num dia quente. Silêncio sem música, apenas passos talvez um miado nem luz sem a Lua nem também.
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Olho as minhas palavras e pergunto-me acerca do que seria se lhes tirasse as vogais ou as consoantes ou todas. Para quê, se poucos lêem e nenhum diz.
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Ah! Há o passado. Engano-me dizendo ter sido feliz. Dois «A» não fazem uma gargalhada e sei rir entristecido. Mas não finjo orgasmos nem escondo as impotências, porque conto as tristezas e – caso tenha entendido mal – calo-me das intimidades da cama.
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A minha vida é de ouro. Os dias antigos têm a agradável patina e estes são horríveis tal o é no brilho novo.
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A verdade é o engano. Não foram do ouro nem da prata nem do xisto selvagem ou do mármore polido. O granito tem dois pólos do agrado, ainda menos.
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Sinto e vejo ervas de comer crescidas na beira das águas que vão ou estagnam. Tanta fome se passou hoje se desprezam sabores. Não as distingo. Esse é outra coisa, ainda seja diversão contra a dor e a dormência.
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Há quem carregue cruz e outros de nada se arrependem. Acreditei em tantos amigos, infantil queria tudo amor, todos amor, falharam, falhei, também nós, perdi sempre que perdi algum, ainda os que não o eram e não fui ou simplesmente traí e traíram – é diferente. Assim as mulheres. Tal aquele filho, onde cúmplice contrariado.
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É possível amar (momentos) quem foi, bolha de ar que rebenta sem som ou consequência – ponho de parte dores passadas e, num instante controlado, as dores, rancor nunca tive.
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Ganhei amores – um ainda puro e incondicional. Virá longe o fim da inocência, sei que o seu sabor longo dura menos do que o do caramelo.
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As tristezas não pagam dívidas. As alegrias são iguais. O dinheiro não traz a felicidade e a falta dele é clara.
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Não se resume tudo a dinheiro. Deseja-se o que se não tem. Afinal, tenho um palácio incrível com jardim diverso e inesperado em expansão igual à do universo. De todas as árvores digo das laranjeiras e dos ciprestes. Na fachada, na vez das heras, há videiras – refrescando o Verão, sem sufocar o Inverno.
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Posso ser quem quiser e tenho um Adenauer preto e um Corniche de azul-prussiano. Tantos, gosto mais do DS2, obrigatoriamente negro, como fantasia de filme infeliz fora da época.
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Só vejo a Relíquia Macabra.
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Nosferatu e o Couraçado Potemkine. Anjo Azul E do Céu Caiu uma Estrela.
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Als das Kind Kind war – da imagem ao poema de Peter Handke. Sonho ofegante a estrada de ferro para o inferno do Ano Zero. Afinal fui alemão e morri numa roupa negra, tenho os remorsos doutra vida, dívida da consciência.
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Cito ou tiro não roubo. Talvez às vezes sem querer e outras por sabendo, tão óbvio que nem engano. Gatuno-me deveras, pois se está como quero há que usar – é mais fácil.
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Na casa há uma estação com duas linhas e um pequeno comboio tão feio que me apaixonei, não sei do combustível nem conheço o seu tratador. Nele vou pelo domínio.
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Tenho um pavilhão aberto com cortinas brancas que avoam, é árabe, passa o ribeiro encanado em tijoleira rústica e próximas estão as laranjeiras, os ciprestes quase invisibilizam o lugar – ainda ninguém sabe nem virá, só mulheres desejadas na insaciedade.
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Escarlate-negro-azuis barrocos-góticos-pedras-madeiras-tapeçarias ferro-vidro-plantas-comboio cozinha-grande.
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Talvez não tenha contado dos cheiros. Podem todos menos os do leite e dos peixes – a realidade invade o sonho, há que a matar andes de chegar.
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Pus tanto e a vida é mais curta, a pedra é fria e a madeira quente, no Inverno há calor e no Verão está o jardim, ainda o ano todo, nas ruas está o silêncio da noite chuvosa onde só gatos e Lua – nem sempre, quero-os.
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Confesso-me vampiro, fui lobisomem – na tal outra vida. Tenho consciência, não sou zumbi.
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No jardim não poisam naves de planetas estrangeiros e no lago há dois Nessies. O Monstro da Lagoa Negra nunca existiu.
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É quase tudo de mim. Se não conto é roçar as inlembranças e a preguiça, pudor pouco e muito nu em toda a parte.
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Quantas vezes quis andar e impotente, indiferente noutros olhos, arrastando-me contrariado-aflito pelo chão da chuva do maremoto do movimento das margens, noites impossíveis e eternas. Mais poderia, chega.
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Sei que não disse do jardim onde waldeinsamkeit.
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O resto não me importa. Nem importa a ninguém.
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Nota: Devido às limitações do espaço para etiquetas, deixo aqui os créditos dos trabalhos artísticos utilizados. Infelizmente, não consegui apurar todos autores. Assim, peço o favor, a quem souber, que me informe, de modo a poder citar a autoria.
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Fotografia da biblioteca: Marcel Breuer.
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Fotografia da floresta (verde): Piotr Szewczyk.
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Pintura da rua chuvosa: John Atkinson Grimshaw.
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Fotografia do Mercedes: autor não encontrado, atribuído a www.autoevolution.com.
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Vídeo: excerto do filme Europa, de Lars von Trier.
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Fotografia do eléctrico: autor não encontrado.
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Pintura de casal fazendo amor: Costa Dvorezky.
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Fotografia da floresta (preta): Husvik.


Cacilheiro da areia

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O comboio é pequenino como um menino, não será como uma mãe, mas sentiria falta se fosse embora, ainda mais a areia e o Verão, quase se Tejo perdesse o cacilheiro.
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Vê-lo passar traz-me as bolas de Berlim e as bolas Nivea. Sabe-me aos Epá e à pastilha-elástica estranha no fim do cone.
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Visto aqueles calções hoje tão feios e lagarto até ao carvão, levantando discretamente a cabeça para ver as miúdas mostrando as maminhas, virando-me na toalha para esconder o óbvio.
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Um dia, quando a praia era só areia e mar, ela despiu o fato de banho lilás para a fotografar, como se tudo fosse permitido ou fossemos invisíveis. O Transpraia chegou-se e apitou.
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Vê-lo passar, ver passar o tempo. O percurso foi maior, viajar é de longe mais do que ir da Costa da Caparica à Fonte da Telha e voltar.

sábado, agosto 13, 2016

Sempre à volta

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O horizonte é mais ou menos verdadeiro. Intangível num mundo redondo como a fotografia. Olhando ou cego para onde, tudo à volta, do descansar a vista até à ansiedade.
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Nota: a pintura do topo é de José María Yturralde e a do fundo de Casper Brindle.

Da vista

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Não sei se é maior palácio, casa grande ou jardim, da angústia à melancolia, redondo como o mundo.

sexta-feira, julho 29, 2016

Arte e ciência – tirado do incrivel.club

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Roubo ao Mário de Cesariny e ao povo:
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 – Afinal o que importa.
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O défice, as sanções da União Europeia, a pré-época dos clubes de futebol e o terrorismo serão esquecidos e virão outras coisas iguais. Mas há que não perde tempo e por isso valor.
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Afinal o que importa é a arte e dentro de quinhentos anos ou mil anos, se ainda houver humanidade, ou até haver humanidade, só a arte resta.
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Porque sei que, mais tarde ou cedo, há sumiços na internet, recrio o trabalho do incrível.club, mas deixo ligação para visitas ao original.
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Vincent van Gogh pintou «A noite estrelada» em junho de 1889, um ano antes de sua morte. Este quadro é conhecido não apenas como um dos melhores trabalhos do artista, mas como uma das obras mais importantes de toda a história da pintura.
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Em 2004, com a ajuda do telescópio espacial ’Hubble’, os cientistas observaram o vórtice de nuvens de pó e gás que rodeava uma estrela distante. Imediatamente, lembraram do quadro de Van Gogh.
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Eles começaram a estudar com detalhe a luz na pintura do artista e encontraram um padrão diferente das estruturas líquidas e turbulentas.
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Acontece que, quando o famoso pintor estava no hospital, na França, ele registrou um dos conceitos mais complexos e difíceis de alcançar na ciência: a turbulência.
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A turbulência é um conceito na mecânica dos fluidos em que as partículas se misturam de forma não linear, isto é, de forma caótica e com o aparecimento de redemoinhos. Por exemplo, as nuvens se formam em função da turbulência. Visualmente, é assim que se vê:
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Há mais de 100 anos, Van Gogh, sofrendo, foi capaz de perceber e expressar uma das mais difíceis noções extremas da natureza, e conectou em sua imaginação os maiores mistérios da circulação e da luz.
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Após analisar os quadros com a luz ’pulsante’ de outros impressionistas, onde também é possível ver a inquietação, os pesquisadores chegaram à conclusão de que suas obras não são tão matematicamente precisas como as criações de Van Gogh. Até mesmo ’O Grito’, de Edvard Munch, está longe de conseguir mostrar a turbulência.
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Nos tempos mais escuros de sua vida, Van Gogh conseguiu, de maneira brilhante, capturar um dos conceitos mais complexos da física e da matemática.
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Este vídeo vai te mostrar mais sobre a turbulência e a pintura de Van Gogh:
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Dioneia

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Declaração inicial temendo uns chapadões na cara que serão bem dados se me incompreenderem. Vou escrever o que vou escrever sem que escreva estupidez e menos petulância e de modo que me entendam – especialmente que entendam.
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Sei de trocar os vês por éfes e os dês por tês e bês por pês, sei de serem aparentadas pelo normalidade e leve dislexia. Peço compreensão para gralhas e outros corvídeos pois na pressa tingir a folha deixo frequentemente inconseguimentos – animais de estimação por vezes guardados para memória.
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Tenho diante dos olhos dormindo e desperto – atenção para o começo – costas mais belas do que as da fotomontagem Man Ray e das vertidas por Ingres. Não pela arte mas toda ela, do ruivo ao fim.
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O belo é belo e dizê-lo não pode ser sujo em juízos ou ideologias. Só a fotografia é objecto e ela é ela, antes e depois, apoquentando-me vivo ou sonhando.
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Não sei onde a vi, não se cruzou nem procurei, chegou despida e ainda assim sensível e imperial. Sem inocência e muito lume. Dizem olhos e boca, não é de surpresa – nem por não a estar beijando porque sabe da distância – mas de ordenança.
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Um só seio derramado e grande – aprecio-os pequenos e subidos – e de mamilo invisível provocadoramente fingindo esconder-se pelo braço, as pernas chegadas dizendo de toda a proximidade de tudo e os pés trocados de lado mostrando abraço como o da dioneia.
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Treme-me a voz e as mãos. Indigo, se som saísse seria ruído ou desacerto ou desnexado ou tudo isso. Como estivesse diante, em casa vaga num dia infinito.
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É beleza, a prisão e eu patético. A beleza é beleza e daí não digo mais.
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A pornografia é visível e o erotismo pressentido e o amor, o amor é muito complicado. Não a quero amar. Ser o insecto da dioneia até à acalmação.
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Dizer o quê além de beleza e já explicado? Se não entenderem, pois venham os chapadões.
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Nota: a modelo é Ameliya Noita.

quinta-feira, julho 28, 2016

É a vida

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Sou adulto quando percebi que hoje é reflexo de ontem e sem me reconfortar nas injustiças. Porque dói-me a consciência, fui mau e mais fundamente na insistência depois de saber da maldade. Deixei de ser jovem quando me tornei cínico, pois perdi. A minha vida é a derrota, é sua matéria e espírito. Cassafodam as razões e os outros. Se não tivesse falhado não precisaria de socorro.

Pimenta na língua

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Não quero ser erudito!
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Uma porra, é que não quero ser erudito!
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Mas.
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Não sei latim, desisti do alemão, custa-me a mexer a boca para falar francês, tropeço na gramática inglesa, italiano nem pensar e o castelhano é tão medievalmente chique que temo estragá-lo se o disser.
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Nota: Achei deliciosa esta paródia com o retrato de Agnolo Doni, de Rafael. Porém, não conseguir encontrar o nome do autor da gracinha. Se alguém souber, por favor informe-me, de modo a poder atribuir a autoria.

terça-feira, julho 26, 2016

Quando lá não estou

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O mar está cheio de tubarões, peixes-aranha, alforrecas, caravelas-portuguesas, orcas, olharapos, extraterrestres sanguinários, viscosidades nojentas, coliformes fecais, lâminas infectadas, algas carnívoras, piranhas transgénicas, crocodilos voadores, hipopótamos de mau-humor, tigres de bengala, galifões de crista, remoinhos, correntes traiçoeiras, vagalhões de trinta metros, maremotos insistentes, desabamento de arribas, salteadores aquáticos, onças confusas, jaguares perdidos, cavalos-marinhos gigantescos, enguias assassinas, tremelgas, cobras de água, jibóias, boas, anacondas, formigas irritadas, térmitas, filoxera, varejeiras verdes, pulgas, chatos e carraças, sacos de plástico, vidros errantes, pregos em mergulho invertido, ladrões oportunistas, miúdos a jogar à bola em cima das toalhas e sem cuidado, idiotas nos olhares e a mergulhar-bomba, miúdas feias em topless, gordos com escaldões, agentes da autoridade prepotentes, bandeira vermelha, vento ciclónico, calmaria de queimar, areia incomodativa a entrar nos olhos e orelhas, raios ultravioleta, buraco de oxono, alto nível de oxono no ar, águas radioactivas – tudo isto e mais algumas coisas se podem encontrar na praia quando lá não estou.
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E no campo? Há ursos acordados da hibernação, alcateias, matilhas desamadas, tigres, chitas, leões, leopardos, jaguares, linces e gatos assanhados, incêndios florestais, sismos, desabamentos, avalanchas, ribeiros com fundões, descargas de fábricas de curtumes, ventos de Almaraz, assassinos foragidos, limpa-chaminés amnésicos, bruxas voando a cavalo em vassouras, políticos psicopatas, gordas apaixonadas, pançudos embriagados, crianças afrancesadas, velhas de bigode, festas de aldeias, foguetes, cerveja marada, intoxicações por tremoços, amendoins bafientos, salazaristas de calções, republicanos de gola-alta, palermas com motas, patos-bravos com piscinas em declives,  pernas partidas, geninhos corruptos, formigas de ponta vermelha, vespas traiçoeiras, abelhas daltónicas, poetas populares apaixonados, concertos de músicos pimba, vendedores de farturas, romarias, feiras toda a noite, gárgulas falantes, sinos matinais tocando mais do que finados, coscuvilheiras de aldeia, padres moralistas, industriais pedófilos, tarados de gabardina – é como a praia.

De mais para mais, é demais

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Primeiro mosca e após imperador. Vê-las todas e decidir com quais dormir. Tão pueril e leviano e prepotente – tão derrotado.

Desejo e dúvida

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Um dia hei-de escrever um texto perfeito, ao invés poemar encadeado por mulheres imperfeitas. Não sei como será nem começo de caminho ou ideia de paisagem. Pode ficar longe ou diante. Imaginária, intangível, serena ou desprezada, que não a veja antes de arrumar as palavras – e que tenha a certeza que são certas.

segunda-feira, julho 25, 2016

A chatice dos livros

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Ler é-me penoso, não sei se o é para ti. Mas adoro livros, senti-los com os dedos, usar o nariz e pousar os olhos – não é como uma mulher-objecto ou fotografia de nu. O problema é a leitura, sabes? A cada par de palavras somo outras, tiro algumas, mudo-as de lugar, substituo-as. Quantas mais, maiores os arranjos. Depois há as vírgulas, os pontos finais, a pontuação, no geral e particulares. Claro que a ortografia conta, a gramática, a irritações secretas e as públicas, aquelas em que estou só e noutras na multidão. De tudo, o pior é a estória. Há com cada cretino a desviar-se do trilho, gente que escreve bem e falha porque não sabe escrever. Depois há aqueles que não sabem escrever e que por isso nunca o saberão. É difícil encontrar um livro que não tenha de rescrever – esses são os que leio até à ponta. É desgastante para os olhos, cabeça e fígado, até talvez para o coração. Martirizo-me porque gostava de saber ler. Não é arrogância nem qualquer forma de superioridade, é um impulso nativo, animalesco, sôfrego e maníaco de refazer.
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Ou quase tudo. Quando, apaixono-me e não perco letras. Ainda que por vezes me deixe levar pela mania submeto-me à luz e escuridão. Rendo-me e digo que gostaria de ter escrito aquilo. Acredita que não é sobranceria, é impulso como respirar.

Rainha de Espadas e Rei de Copas

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Lembrava-me sempre à segunda-feira, também mas sempre à segunda. Como se me fosses soprada para te intuir.
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Se me lembro e tantos dias, a memória do sorriso estranhamente menino.
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Daquela vez que adolescemos, arrependo-me de não te estremecer os olhos.
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Vi como deixar de ver tal a água que dá sede. Mais imagino o calor da seda dentro e fora da pele.
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Nunca quis pressa, só que te abandonasses, flor e eu beija-flor.
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Mais depressa vejo nave alienígena do que me esquecerei de ti.

Poças Júnior e Luís Mendonça

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A firma Poças Júnior é quase centenária (2018), familiar e portuguesa, conhecida pelos Vinhos do Porto da família tawny, mas que hoje faz também vintage e Douro. É o Poças Colheita 2001, filho de Ervedosa do Douro (Cima Corgo) e Numão (Douro Superior), com as uvas tinta barroca, tinta roriz, tinto cão, touriga franca e touriga nacional. Guarda a razão por que o Vinho do Porto tem o carisma que tem. Muito rico de aroma e extraordinário na boca.
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Luís Mendonça criou sete esculturas alusivas ao vinho. Fugiu do óbvio e agarrou-se a sentimentos, disposições e intuições que nos transmite a segunda melhor bebida do mundo – a primeira é a água.
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Quem quiser ler a crónica sobre os vinhos basta clicar nesta linha.
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domingo, julho 24, 2016

É

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É possível noite e chuva como dia e luz tanto quanto certas e impossíveis. Depende dos negros luzidios e brancos baços e da forma como se vêem os cinzentos e modo de os pronunciar.
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A acalmação desponta no pé-de-paz, quando o solo perfurado se permite a ervas e depois árvores. O troar dos canhões num limbo, passado e perene, numa bolha que se colhe para encostar às orelhas, os ouvidos dormentes e a nostalgia do Inferno.
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Chove atrás da vidraça. A luz cinzenta da rua deserta. A quietude da noite alta.
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Na rua, só e mal coberto, sapatos salpicados e a melancolia como confidente, cabelos e ossos.
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Nem cão, só gato friorento num resguardo e infeliz, carente de colo e precisado de fuga.
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A noite é dos gatos e da Lua. É minha nas insónias tristes que permito e se impõem, a preto e branco de luz cinzenta, atrás e fora do vidro.
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A melancolia é minha predadora e me alimenta.
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Vivo por aqui, aí nesse sítio, quando e sempre.
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Nota: Gostaria de ter escrito «A realidade é um lugar estranho», mas tantos lugares estranhos foram escritos.
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Nota: Não foi possível identificar a autoria desta fotografia. Se alguém souber o nome do fotografo agradeço que me informe, de modo a atribuir-lhe os créditos.

sábado, julho 23, 2016

Na direcção

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Por vezes é preciso fugir antes que chegue a coragem, na direcção do arrependimento, que o será sempre.

Quarto

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Há o quarto negro, paredes almofadadas de negro, do chão ao tecto todo negro. Refúgio nas pungências sem luz, chega-se caído num túnel quântico – digo sem saber o que é isso. Vertigem brusca. Depois acorda-se do lado de fora ou num lugar se saltar para esperança se houver coragem para ver a porta.

Voz

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Se não te ouvem, fala mais baixo. Quem não te ouve nunca te ouvirá.

quinta-feira, julho 21, 2016

Sítio

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Dias dormentes no jardim onde não há cidade e campo. É lugar onde tudo pode, letárgico e demorado.
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É calor e vem água do Inverno. No frio, mantas e almofadas até ao chão onde se nada e brinca ao amor às escondidas não fossem risinhos.
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O que importa é aquém do muro e depois dos ciprestes, Éden sem veneno nem pecado. Umas vezes músicas dolentes do amor ou vento, sempre aves, e silêncio. A árvore para o País das Maravilhas.

Alamedas, azinhagas e horizonte, linha férrea sobre pedra, água e mar, apeadeiros de ausência, sombra de pomares e florestas. O céu, maior espectáculo.
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O dia não começa sem acabar nem nascer, Inverno, Primavera, Verão e Outono nos tempos perfeitos, não exigindo mais do que seus carácteres.
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Vinhos surgem sem chegarem, sortilégio que permito e gosto.
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Noite de lobisomem, luar tanto faz, castigo do mar na rocha da gruta, porta sob a casa.
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Na vez de heras, videiras, segredos e fantasmas, tapeçarias de pastrana. A casa de barroco de Greenaway, o espelho espelha-me em Rembrandt, lá fora o céu de Rubens e a luz de Vermeer, da sua janela se vê de Magritte e a noite de Burton.
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Os retratos dos antepassados seguindo, mistério de qualquer coisaO cheiro do pó-de-arroz e talco, baunilha e canela, bebendo chá. Café, tabaco e batota. Alguém viu aberta uma porta fechada há duzentos anos.
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A capela de gótico puro, junto de rococó de impuridade, pedra e soalho, a biblioteca de escada longa, de dormir de abóbada celeste sem cadentes igualmente silêncio na estufa de ferro, vidro e verdes. No corredor veludo e seda, escarlate, lazúli e negro indo ou fiáveis.
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No salão houve bailes, debruçando-se para fogos-de-artifício e, se proíbe se permite, amantes fugindo no labirinto de bucho, dando rosas, roubando beijos, transgredindo nas grutas e secretos, lagos de cisnes sonâmbulos, velas nos caminhos, gargalhadas, choros e desflorares.
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Sítios sempre noite, outros de revelação. Abandonos de granito para a chuva surpreendente.
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Gatos fogem, gatos vêm, gatos ficam, gatos sentam-se no colo. Cães sendo cães sem pressa. Ninguém, sortilégio que me permito e gosto.
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Claro a tristeza, melancolia da solidão, memória que espero criada. Tédio de remorsos e vergonha.
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Sem horas, os dias ligam-se às noites e as estações nos seus tempos perfeitos e carácteres.
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Fazer amor e comer uvas, no refresco do pavilhão dos linhos voando e ribeiro azulejado. Ninguém ouve os risinhos.
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Só para dizer longe.
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quarta-feira, julho 20, 2016

Passo

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Ir em frente. Se surgir um precipício, levá-lo também para a frente.

Quatro-mil-quatrocentos-e-oitenta-e-quatro dias de infotocopiável e quatro-mil publicações

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A vinte e quatro de Março completou dez anos e a dezanove de Julho chegou à publicação quatro mil. Disseram-me:
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– Também tu tens um blogue?
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Aqui há flores orvalhadas e outras na luz. Declarações de amor e nunca ódio e ainda tristeza e negrum, que é fundo do que negrume.
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Vinham para ler amor e foram-se outros para ver no espelho as feridas e mais, muito mais, sexo, por causa de imagens e palavras.
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Quatro-mil-quatrocentos-e-oitenta-e-quatro dias de infotocopiável.
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Tanto quanto quatro mil anos. Para a frente, de hoje talvez só a roda. De antes, lembrei-me:
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O Egipto do Império Médio e a Suméria a desfazer-se, rapidamente em traço tosco.
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Misturando os dias como se mergulhasse e quase na areia um golpe de tronco e pernas para a subir e entre o ir e o voltar de olhos abertos ver agricultura e a casa e o inventário para depois poesia e antes ou depois a pecuária, já o lobo era cão e o gato atrevia-se.
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Quatro mil anos são como quatro mil dias são e quatro mil publicações.

terça-feira, julho 19, 2016

De olhos verdes de luz

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Não fosse a felicidade teria sempre um prego. Este amor que me cura e bela. Todas as frases pirosas e os risos. Fizemos sete, o número de maior estrela, dizem e sei que temos.

sábado, julho 16, 2016

Sangue e fala

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Morreram quase todos, menos os filhos da Eva.
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Do regaço, todo o espaço.
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Que voltas deu o mundo.
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Aqui se misturaram e pêlos no corpo, cabelos louros e ruivos, pele clara e narizes grandes.
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Que voltas deu o mundo que falando não nos entendemos.
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Na família à noite notg nui notte nuòch notti notte noche noite nit gnot noapte nit – nogte, diziam os avós – é tempo de cantar chantar chanter cantare chantar cantari cantà cantar cantar cantar cjantâ cânta cante – cantare, diziam os avós – e até ao alvorecer ficamos de pé pe pied piede pè peri pe pié pé péu pît picior piet – pedem, diziam os avós.
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Quase nos entendemos. Mas também fazemos amor.
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Dançar e beijar é o mesmo, em bailes diferentes tal as bocas – fazemos igual.
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Nem sempre azeite, porém pão e vinho.
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Esquece a cor e a voz, que viemos da Eva. Sabe-se lá como dizia ela, mas os avós contavam do mesmo sanguinem – e a language que fique na ostium.
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A Teoria de Eva ou de Eva Mitocondrial assenta no resultado de pesquisa de ADN Mitocondrial, que encontrou o mais recente antepassado comum. Uma vez que reporta a uma fêmea, foi-lhe atribuído simbolicamente o nome de Eva.
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Esta Eva não é o nosso antepassado mais antigo, apenas aquele que mais recentemente surge nos testes genéticos realizados em todo o mundo. Acresce que a variedade genética humana é menor do que quaisquer (ou a grande maioria) outras espécies animais.
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A razão por que tal acontece não é consensual, mas uma corrente defende que a humanidade esteve à beira da extinção, salvando-se um pequeno grupo de hominídeos. O número também é divergente, com cientistas a referirem não ter sido superior 10.000 indivíduos e não inferior a 1.000.
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A causa dessa extinção pode ter sido a erupção do supervulcão do Lago Toba, na Ilha de Sumatra, na actual Indonésia. Esse momento terá ocorrido entre há 70.000 e 80.000 anos. Os efeitos fizeram-se sentir em todo o planeta, reduzindo os alimentos disponíveis necessários à sobrevivência.
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O estudo do ADN Mitocondrial e achados arqueológicos colocam o aparecimento do Homo sapiens na região montanhosa de Kibish, no vale do Rio Omo, na actual Etiópia.
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O chamado Homem de Kibish é um Homo sapiens arcaico, uma subespécie. O Homo sapiens sapiens, o homem moderno, é o único hominídeo e única subespécie que vive actualmente.
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A Eva Mitocondrial terá vivido há 160.000 anos, segundo a pesquisa do Instituto Max Plank de Antrolologia Evolutiva (Max-Plank-Institut für Evolutionäre Anthropologie). A Universidade de Medicina de Stanford (Stanford University School of Medicine) calcula entre há 99.000 e 160.000 anos.
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A migração do Homo sapiens para fora de África poderá ter acontecido há 70.000 anos. O momento de chegada à Europa ocorre entre há 40.000 e 52.000 anos. Esta referência é relevante, pois marca o encontro com outro hominídeo, que desempenhou um papel relevante.
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Não existe consenso quanto à data do encontro entre o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis, até porque a área em que este último viveu também não colhe unanimidade. Alguns estudiosos situam há 35.000 anos. Porém, os neanderthais viveram seguramente no Próximo Oriente, à porta de África, e por isso cedo se terá dado o encontro.
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O Homo neanderthalensis viveu principalmente na Europa e num momento de climatologia bastante fria, mesmo glaciar. Este facto determinou que fosse mais robusto, mais hirsuto, com cabelo mais claro, com nariz grande e pele mais clara.
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Este hominídeo terá surgido há 350.000 anos e extinguiu-se há 27.000 anos. Várias teorias surgiram: dizimados pelo Homo sapiens, perda de fonte alimentar por via da concorrência com a outra espécie humana e as duas razões concertadas.
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Possivelmente verificaram-se essas duas situações, mas ainda o cruzamento entre as espécies. Teoria inicialmente rejeitada e hoje é dada como certa. A primeira prova consistiu no achamento do esqueleto duma criança, aparentando ter quatro anos, com características ósseas mistas e que viveu há 24.500 anos.
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Os detractores da teoria dos híbridos consideravam que se tratavam de anomalias genéticas. Esse primeiro achamento, em 1998, em Lapedo, perto de Leiria, seria depois confirmado por novos vestígios encontrados noutras localizações na Europa.
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O ADN dos caucasianos brancos – note-se que a Oriente, por exemplo na Índia, a população é caucasiana, embora de pele seja mais escura – apresenta variações genéticas face a populações não europeias. Alguns cientistas referem que o ADN neanderthal está presente entre os 4% e os 7%. Há quem especule que o ADN neanderthal pode ser totalmente reconstruído através do que existe nas populações actuais caucasianas.
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Homo sapiens sapiens, o homem moderno, significa que tem conhecimento, que é sábio. Estabelece-se que surgiu há 10.000 com os primeiros assentamentos sedentários e a prática da agricultura.
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A linguagem falada é extremamente antiga, comprovada nomeadamente pelos indicadores da formação óssea – não é exclusiva do Homo sapiens. Aqui importa apenas a relativa à nossa subespécie, que é muitíssimo variada, desde as línguas actuais às mortas.
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Há académicos que se têm debruçado na procura da raiz, da fala primordial dos hominídeos, portanto daquela donde derivam todos os idiomas. Nem certezas nem consensos, resultado das numerosas famílias linguísticas.
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Neste texto refiro o falar dos avós, ilustração do latim. A dos pais serão as derivações em que cabem diferentes línguas, como o galaico-português. Diria bisavós às que radicam na matriz indo-europeia. Seguindo sempre uma lógica metafórica com a genealogia.
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Não gosto de imagens que sejam ilustração e textos que sirvam de legenda – embora assumidamente crie situações em que tal ocorre. Assim, simbolicamente escolhi uma imagem de Adão e Eva, presente na Igreja de Adão e Eva, que terá sido construída entre 700 Depois de Cristo e 1000 Depois de Cristo. O templo situa-se em Wukro, na Etiópia.