quarta-feira, junho 29, 2016

Antes de tudo o mais

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Bala na câmara e uma vida nova. Um lugar para ir que não seja de inmomentos. Que não repita enganos para a consciência não cortar como lâmina romba e cega e a vergonha.
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Há muitos anos, décadas. Longe e frio, corpo e mente, sangue escuro e para nada, no erro. Não aprendi nada e tudo dói. Não só por esse tempo, tanto por estes dias.
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Pudesse voltar ao ventre, daí para cedo, vida após vida, num vórtice onde leve chegasse ao instante primeiro. A Deus que não.

sábado, junho 25, 2016

Irlanda unida – Ireland united

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Irlanda
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Connaught
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Leinster
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Munster
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Ulster
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Escócia livre – Scotland free

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E outras lembranças do meu coração

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Por que me pedem diferença se escolhem igual? Podia enraivecer-me mas sou manso. Poderia puerilmente rir, sentidamente choro.
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Na frustração desistente ainda em incoragem ainda em lembrança ainda consciente. Bala remédio comboio lâmina rio.
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Que bem faço, quando olho há uma derrota. Desisto porque sou manso. Estendo a mão e afogo-me. Rio, bala remédio comboio lâmina.
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Escuridão sem sombra. Sangue sem derrame. Cabeça inválida. Lâmina rio bala remédio comboio.
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Não vou nem regresso. Fico aqui esperando Godot, esperando Deus. Uma luz passasse e saltando a segurasse indo. Comboio lâmina rio bala remédio.
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Nervo raiva silêncio. Traído desgraçado manso. Cego surdo ou nada para ver nem ouvir. Seja tanto-faz. Se não for por doença será sem vida. Remédio comboio lâmina rio bala.
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Podia uma corda se existisse árvore forte para a tristeza.
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Quando era pequenino queria ser calceteiro ou bombeiro ou soldado ou mendigo. Sou manso. Palhaço agradando – o rico, o patético.
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Nesta luz

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Deveria existir um lugar onde se não existisse.
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Não aqui nem Olimpo nem Valhalla nem Paraíso nem Inferno nem Limbo nem Puragtório.
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Ou onde não houvesse memórias e por isso sem consciência.
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Ou fosse um sítio em que se não soubesse do amor, porque seria lugar de apenas amor e ainda riso sem moléstia.
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Aqui morrendo-me em aborrecimento em tédio em angústia em ansiedade em tristeza em negrume em fogo.
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Horas perdidas e dias infinitos nesta luz que cansa.

As memórias todas

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Alto! Pára o mundo! Respiro, pauso, expiro, penso, inspiro, reflelicto, solto o ar lentamente… vagarosamente inalo, medito, solto, a cabeça tão-cheia-vazia. Tento morrer, porque o mundo.

Sandes de pepino e jardim de rosas

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Assim sou

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Chamam mas esquecem-me. Lembro mas não têm. Chamam e esquecem-me. Lembro mas não têm. Amargurado de cristal. Partido e colado. Caído na dor. Invisível e irrelevante. Mentido, perdido, traído, esquecido, falado, recusado, quiçá gozado com desprezo. Numa afoiteza de fantasias, numa ilusão. Sem coragem de partir ou falta de amor-próprio e patético. Falta de amor-próprio e órfão de coragem.

sexta-feira, junho 24, 2016

Brexit! Breshit!

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As lições moralistas da Alemanha e o amor canino de França. A Itália perdida.  A frieza a Norte e o desgoverno a Sul. A Leste uma ameaça. A Ocidente na loucura.
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Ir

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Agora já sem olhar, os amantes desavindos cansados nas certezas. Apolo traiu-se e a Eurídice e ela o mesmo. Sem se olharem no caminho de subir que afinal é de descer até Hades e Perséfone calados incomovíveis. Sem nada para dizerem por tudo sabido. Nem beijo nem um número de telefone para ligar, sem nada por dizer por tudo sabido, até na memória se sustém a respiração. Sem olharem e as vistas baças, encharcadas e vermelhas de soluços. Foi-se o amor, ficaram lembranças assassinas para matar.
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Para memória futura: Realizou-se ontem, 23 de Junho de 2016, o referendo no Reino Unido que decidiu a saída do país da União Europeia – Brexit.

Valha-nos Santo Humor

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Que uma réstia de inteligência na tragédia estúpida. Abriram a janela e voaram os papéis. Depois abriram a porta e quase tudo se perdeu. Se lenços houvesse para este choro, da incansável de morte, secando os olhos em amparo. Se as palavras retornassem em gestos de mudar os dias. É tudo se nesta incerteza de certezas. Trágica e fatal morte. Haja riso, porque há loucuras tristes.
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Para memória futura: Realizou-se ontem, 23 de Junho de 2016, o referendo no Reino Unido que decidiu a saída do país da União Europeia – Brexit.

Feliz ano novo

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Entretanto são quase seis horas da tarde. Seria feliz que à meia-noite houvesse espumante e a bebedeira para a coragem. É Junho e os demónios estão à solta. O Verão arde sempre e a luz não é mais do que fogo. Como fugir e porquê ficar se o ano pode começar?

Rebentaria pólvora

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Tivesse pólvora e bala e pistola deixaria a tristeza. Em mim, fogo-de-artifício de festejo. Quanto ar se respira numa grande queda? Quais os venenos que curam? Tantas perguntas para uma dúvida. Se soubesse que a morte existe.

Fogo-de-artifício

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Fechar os olhos e respirar devagar até ao momento. Apagar o fogo. Cair porque o caminho é de descer. Ser terra.

segunda-feira, junho 20, 2016

Solstício

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Solstício de lua-cheia. Triste na escassa escuridão. Verão, minha melancolia.
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Os passos mudos numa época antiga. Silêncio por remorsos antigos.
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Lobisomem na curta noite espojado para esquecimento da dor.
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O triste na escassa escuridão. Remorsos antigos.
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Se luz que ilumina matasse a fera.

Flor de mar

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Se os beijos fossem flores quais seriam os que daria?
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A rosa tem rubor, seria de engano.
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Margaridas, malmequerem. Açucenas, ciúme.
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Tulipas como os lábios beijando-se.
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Se a cama fosse mar? Em vidência digo:
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Nós dois revoltos amando como se encrespado.
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Salgados e náufragos, por fim saciados.

De amor dorido

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O mar bate.
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A pedra morrendo de gasta por falso amor.
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Nota: Não consegui identificar o autor desta fotografia. Quem souber que me diga.

terça-feira, junho 14, 2016

Encadeados

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Telepaticamente, diante de mim. Está calor e vestes uma camisolita de algodão e mostras pele. Sonhando, Deus ordena à gravidade que te desça uma alça, vislumbro a curva do seio e sustenho o ar: talvez veja o mamilo.
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Custo a engolir e duvido de mim. Não sei se só desejo ou se pressinto. Não sei se sonho ou perante uma visão. Oiço-te em eco como estando num meio caminho. Acho que suo das mãos e levito.
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A pele tem o tom da tremura, do desejo impossível, da tarde infinita, do suor e dos beijos. Se nos perdêssemos até exauridos e nos reencontrássemos lado a lado e famintos pelo outro.
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Prometi mas transgrido, deitarei as cartas de tarot: a grande roda. Alguma magia tem de ser possível. Uma força terá de te acordar para que te deites comigo.
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Sonhando, um pavilhão aberto com cortinas brancas voando, a conversa de água, os aromas das frutas do Verão, sem horas, sem mundo. À noite, a abóbada é plena de estrelas – o maior espectáculo do mundo!
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Os olhos encadeados pelos estrelares, por vezes olhando-se. Neles vemos o que fizemos e as promessas. Ao amanhecer, as bocas voltarão ao sexo e antes do dia sentenciar completamente a noite morreremos nos braços.

Foram tardes

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Tarde de calor e só nós. Os pais a trabalhar e o Verão sem fim. A nudez que quase vi na praia pode ser tocada, não sei se perfumas a pele, se os mamilos beijam ou onde fica o limite e a hora de ir embora.

segunda-feira, junho 13, 2016

Carta

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Estou a morrer. Não o digo apenas porque um dia nasci, cada momento que passa é um a menos para o do passamento. Não digo para alarmar e muito menos para enganar. Estou a morrer, estou mesmo a morrer.
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A morte é banal. Não há nada mais natural do que esse dia. Podemos usar máquinas para substituírem o coração, os pulmões, o fígado, os rins e o cérebro, haverá sempre o momento em que o corpo se esgota.
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Mesmo inteligindo a morte ou só a percebendo, a dor da partida é uma possibilidade. Seja-se crente, agnóstico, ateu, descomprometido, distraído ou preguiçoso, a partida guarda sempre, pelo menos, uma dúvida. Se pensar já aleija frequentemente, saber da existência, da passagem ou das duas combinadas de forma diversa, chega a ser pungente.
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Há gente a quem a morte não assusta. Seja por leviandade, por certeza em algo maior, por certeza apenas que isto é só mesmo isto, algumas pessoas não tremem se pensarem que um dia irão para. Há, nestas situações, as que têm esperança, serão as felizes.
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Mas há as que não têm esperança. Há aquelas para quem a esperança é a esperança de não haver mais nada depois do corpo parar.
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Acredita-se em Deus de muitas maneiras e por variadas razões e as relações constroem-se individualmente – essas pessoas têm as suas conversas com ele, se as tiverem. Desacredita-se porque não se acredita ou porque a literatura é inconvincente ou o clero não se comporta convenientemente.
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Não sei bem em que sou igual ou diferente. Não sinto Deus, mas acredito porque me faz lógica. Como tantos que lhe impõem negócios ou ultimatos também apresento exigências. Serei surdo? Será surdo, não está para me aturar, não sabe que existo. Não tenho resposta sua, nem crítica, aplauso ou consolo.
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Em contrapartida, oiço-me e sinto-me, aturo-me vinte e quatro horas por dia. Nem mesmo dormindo tenho pousio. Se optar pela esquerda irei criticar-me se falhar, assim como se escolher a outra mão. Se acertar? Não poupo reprimendas ao lado que me poderia conduzir ao falhanço.
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O problema não é o debate, mas a dor. O desgaste vem de mim porque há dor, razão primeira do desacerto de quereres e responsabilizações íntimas. Respirar magoa quando a vontade é não existir.
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Repito que estou a morrer. O ar chega pesado. A luz e a escuridão são medonhas. O tempo é pastoso. Tudo é tédio e escravatura. A vida é incompreensão, insatisfação e castigo.
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Uma dor maior do que eu. É antes e depois de mim.
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É a dor de morrer existindo. É dela que vou morrendo.
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Por que não cessa? Por que não a travo? Tivesse a certeza que depois do corpo finar também eu me finarei, fazia já. Matava a morte para que não me matasse nesta lentidão amarga.
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Pedir a Deus? Peço. Peço-lhe para desexistir. Alguma coisa que não seja morrer.

domingo, junho 05, 2016

Desviar do túnel

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Hoje, a morte cumprimentou-me, encarnada de automóvel azul acelerando quando deveria abrandar. Eu, estupidamente, fiz que não a reconheci e desviei-me.

sexta-feira, junho 03, 2016

Marçagão

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Feio. Sou feio. Sou mesmo feio. Mesmo muito feio. Mesmo muito. Mesmo. Mesmo feio.
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Março, marçagão, de manhã gente e à tarde cão.
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Olha os olhos. Os olhos de mergulhar, areia movediça dos enganos. À volta está o medo, a rudeza, as rugas, o passado que não se esconde, as lembranças odiosas, as vergonhas de carácter, as canalhices adolescentes, as senvergonhices adultas, as filhadaputices sem perdão, aquela noite em que cheirei e vi que era verdade o que dizia sobre a negritude da branca.
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Não importa se fora zetário se a consciência era adulta e apenas ensurdeci por facilidade. Porque não importa quando a dor. Não, não foi sem querer nem sem saber. Não importa, sou culpado.
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Perdoaste? Fizeste mal! Porque sou feio. Bem te disseram, bem lhe disseram que eu – mentirosos, videntes e verdadeiros.
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A imundice, asquerosidade, vampirismo, vómito e insónias não se escondem nem Basil Hallward me pintou.
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Antes fosse amoral. Antes inconsciente. Antes amnésico.
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Mas o mal que não fiz, não fiz! Desse não me posso arrepender nem acusar.
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Como marçagão, cara de cão.

quarta-feira, junho 01, 2016

Florbela resolveu

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A imperfeição da perfeição é ser perfeita, mas porque do homem, sempre frágil e mutável, porque a verdade só a divina. A nós resta a contemplação perante o supremo e a inveja diante do que outros.
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Pensei e prometi refazer. Não melhor, mas mudado. Contudo, diante do cubo não se quer o paralelepípedo e a esfera só a Deus. Olhei e li depressa e vagarosamente, displicente e medroso, e animado e derrotado.
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Não serei assim nem diferente, porque Florbela e João. Roubou-me antes de eu ter. Não acrescento e não retiro, os dedos estão sujos e as letras são flor da laranjeira.
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Escreveu Florbela Espanca:
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SER POETA
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Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos os esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Assunto infindável

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Hoje só a terra seria leve ao corpo. Se o sono fosse compacto ou se não dormisse nem estivesse acordado. Se Deus deixasse que a vida acabasse e nunca desse a eternidade.
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Morrer faria a vida tão simples e haveria um sorriso no final.

Sabor de incerteza

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A morte não é a morte. A que falo é um bocado de coisa densa, compacta donde não se escapa.  Nem a luz invade, nem a luz se evade. Tenho essa morte dentro e tenho-a em redor, como se fosse a caixa que me guardará o corpo. Nem a tristeza é triste, só desesperança. Que alívio se houvesse um fim, mas desexistir não se pode. O vento compõe a paisagem, despenteia e seca as lágrimas, mas não leva a morte, que me corrompe vorazamente. Qual a dor de bater com a testa na calçada ou como será pendular com o sopro ou a que saberá o vómito infrutífero e incompetente contra o veneno? Matava-me já se soubesse que a morte existe. Mas morte só a que me consome.

segunda-feira, maio 30, 2016

Espelho

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Os corpos renovam-se em sete anos. Nenhum velho morre velho. Mas o espelho e as fotografias dizem do tempo. A mana não me reconhece como o bebé que se aliviou na saia nova da adolescente vaidosa.
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Isso importa. Importa-me a paciência que substituiu a impaciência. Importa-me a impaciência que substituiu a paciência.
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– Ser jovem é ter espírito jovem!
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Quem diz de mente, mente. Porque ser-se bonito por dentro só encanta os feios.
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Agora quero a calma que sinto lentidão. Os brancos e as rugas são-me indiferentes, mas não o rosto e o encarar.
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Hoje sou mais velho do que alguns já vistos. Passaram-se os vinte cinco, quando entristeci pelo simbolismo. Passaram-se os vinte e oito, passados numa euforia cortada porque um adolescente me tratou por senhor. Passaram-se os trinta da leveza e dos terrores. Passam-se os quarenta.
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Olho para as fotografias e não reconheço o espelho.

terça-feira, maio 24, 2016

Espera

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Diante do vazio, não importa se gente ou dores. Nem o tempo, saltam-se os minutos.
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A vida encurta-se quando se engana o tédio e mingua ainda plo desinteresse de a viver.
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As nove horas da espera no ruído do hospital são um conto infantil. O receio que nenhuma criança reconhece e menos antevê.
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A mãe desamparada é uma menina medrosa.
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Eu, como se fosse anjo

quinta-feira, maio 19, 2016

Se uma brisa

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A inércia e a gravidade equilibram-me. Se tivesse uma vontade, .
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Tenho quarenta e seis anos e não sei o que faço aqui.
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Amei as mulheres que tive de amar. Amei demais e amei demasiadas. Talvez seja a mesma coisa ou causa e consequência.
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Gastei o dinheiro que tive. Desta vida não levarei nada e não terei.
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Soube da bondade e estraguei. Podia ter sido bondoso e não fui. Podia ter sido inconsciente e não fui.
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Envergonho-me de muita coisa e pediria perdão se conseguisse encontrar as pessoas. Tanto me faz das vergonhas que passei por desamor de outros, façam as suas contas, faço as minhas. Amor-próprio não tenha. O orgulho brilhou, mas resta lama. A soberba alimentou-me, tenho fome.
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Fui sempre quem sou. É da minha natureza ser outro, que valha a pena ou tenha o meu verdadeiro préstimo.
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Não minto e nunca roubei. Enfrentei por outros e fiquei só, mas que façam as suas contas, faço as minhas.
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Nada me prende, nem mesmo uma corda que sustente o que me resta. Se tivesse uma corda, . E soubesse fazer nós, tivesse um tronco robusto duma árvore.
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Se tivesse nitroglicerina trataria da cabeça e não do coração.
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Tivesse uma brisa de vontade, enfunaria a vela da barca de Caronte.
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Um lençol, uma vela, uma corda para a fuga.
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Tenho quarenta e seis anos e resto.

A espera

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À noite vou à janela e chove. Em frente, despes-te diante da rua.
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Fico na penumbra para que te tenha.
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Vais deitar-te e fazes amor.
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Fico à espera dum milagre e as horas passam.
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No outro dia, de noite, vou à janela e pode estar sol. Em frente, despes-te diante da rua.
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Fico à espera do tempo infinito e sem data em que faremos amor.

Alcatrão

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A vida cola-se-me como alcatrão quente. Tão negra. Tão fria.

quarta-feira, maio 11, 2016

Telecomando

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– Boa noite querido. Dorme bem. Até amanhã.
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– Humm…
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– Estás a dormir?...
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– Humm…
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– Au! O que é isto?
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– Humm… isto o quê?
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– …
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– É o comando da televisão…
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– E por que está aqui na minha almofada?
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– Está aí para poderes mudar de sonho.

quinta-feira, maio 05, 2016

A janela sineira

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Tenho morrido, por coisas pequenas, notícias irrelevantes, situações da vida, é a verdade. Insignificâncias sem lágrimas, pungências desarrumadas, desilusões de embate mudo e carências esquecidas.
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Morre-se desde o natal e sobrevive-se além-túmulo. Na dúvida vive-se dizendo valer a pena o tempo-vácuo. Para manter as aparências.
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Escreveria sem vírgulas, a vida. Sem elas para-se-me em lavra de pontos finais ou resvala nos desvarios impontuados e segue em enganos gramaticais.
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A banalidade da vida faz-me tristeza banal. O ouro que me encandeou é escondido e negado. A luz do dia não é nas minhas horas tardias. Se quase sempre aconteço antes, quando tardo não espera.
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Os sinos tão solenes não cantarão a partida. Irei como vivo e desisto, gritado e mudo.

terça-feira, abril 26, 2016

Luz nocturna no jardim

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Como uma noite num jardim-de-inverno, onde a luz exterior chega acanhada por não pertencer. Como o receio de se ser amado. Como a ternura devida à criança. Como a alegria do reencontro.
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Assim é Paraquedas, o bicho meigo e louco, que apanha mariposas invisíveis e ronrona em murmúrio.
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Nota: A Paraquedas faz onze anos.

quinta-feira, abril 21, 2016

Hora certa

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Também choro com luz acesa e em silêncios frágeis.
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Quero vida e não precisar do que se quer da vida.
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Quero atirar-me ao mar e, se não desexistir, pelo menos morrer.
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Troco a eternidade por minutos de beleza e de tudo branco e azul.
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Quaisquer dias aleatórios, certos como relógio astronómico como muito religiosos.
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A indiferença de mim e para mim, a enfadonha crueldade do meio.
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Quanto valem os dias? Não dão e nem tenho como pagar.
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Para isso há o mar. Na incerteza da desexistência, fico gordo e triste e ainda pior feio.

quarta-feira, abril 06, 2016

Mariposas

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Então foi aí e ela disse enfim o esperado há tanto faz de dias.
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– Anda, vem.
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Depois disse mais:
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– Junto a mim. Chega-te e toca-me.
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Como se fosse uma ovelha, docilmente me cheguei e tímido e discreto como um gato. Ela era macia e seus pêlos suaves e de maçã.
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Não falou mais e sussurrei-lhe ao ouvido sílabas aleatórias como se fizessem poema.
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No final sem fôlego falámos do estado do tempo e do anticiclone dos Açores e inevitabilidades.
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Reincidimos a espaços cronometrados involuntariamente, tal os sismos e vulcões da Terra.
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As mariposas vivem horas e despenham-se na luz.

Como Bettie Davis e J. P. Morgan

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Outro dia num escuro vi-os brilhando. Densos como o amor de mãe, ternamente escuros como canção de ninar. Ah! E têm a força e a velocidade como as do comboio abrupto. Quem os vê sabe sem que a boca diga. Tanto faz ter defeitos como todos, olhos daqueles são balas de canhão e ninguém segura uma bala de canhão.
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Nota: Presente de aniversário para a amiga Sónia Teias, que outro dia partilhou uma fotografia em que os seus olhos são mesmo os seus olhos. 

sábado, março 26, 2016

Data

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Lembrar uma data é prova de vida ou certeza de morte.
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Se evoco é porque morto.
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Mas se vivo, é a ingratidão.
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Quando dói a memória, é vivo ou defunto? A saudade é um remorso.
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Se lembra, vivo. Não telefono a mortos nem amo mais só porque.

quinta-feira, março 24, 2016

O escritório de Terezín

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Tenho um problema com a memória. Por isso, tenho um problema com a culpa.
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Tenho um problema porque inactivo e até mesmo tendo deixado, quase por completo, de ser cínico – adjectivo ou substantivo que infantilmente desejei e cultivei. Porém, centrando o assunto, o dilema é a memória.
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Ser-se culpado é menos chato do que se reconhecer culpado. A memória existe também para isso, e se castiga também por ela se pede o perdão.
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Lembro-me mais vezes de mil novecentos e quarenta e três dos que de dois mil e quinze.
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Em mil novecentos e quarenta e três, eu era um anónimo ariano, conveniente Obersturmführer da Schutzstaffel sem perguntas, poucas respostas para dizer e sem falar à consciência. Dois anos depois a culpa não era minha, eu não era nada, não tinha feito nada, cumprira ordens, só isso e até morrera.
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Se era anónimo, por que me lembro mais de mil novecentos e quarenta e três do que de qualquer outro ano recente? Porque sou verdadeiramente nulo, os meus actos inalcançam.
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Lembro-me agora. Dói-me de vergonha, queixo-me de mim, dos silêncios, da cobardia e do desamor. Conto agora porque vi a metáfora de vidas. Na distância entre a carne e o sítio não há cheiro, apesar do pó dos anos a pesarem nos arquivos.
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Em cada compartimento ficava uma pessoa – os papéis que a tornavam coisa, justificando a sentença.
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O arquivo está em Terezín, na Boémia. Uma fantasia macabra, a cidade encenada, com lojas, dinheiro e posto dos correios. A cidadela fechou-se num forte, uma judiaria exemplar.
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Como se a fome e as doenças fossem incompetentes, havia transportes para os campos de Auschwitz, onde morrer era menos prosaico.
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É sabido que nos prendemos às coisas tal como as memórias se agarram a nós. Quantos não renasceram e estão numa espera de dor – de remorso, de rancor ou de incapacidades. Quantos não regressaram e pelas mesmas razões? E os que sempre estiveram.
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Posso ter estado ali. Em mil novecentos e quarenta e três ou antes ou depois, não sei precisar a data da minha morte.
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Posso ter estado ali. Pelo menos alguém esteve, confortavelmente anónimo e inculpável, como eu, servindo como amanuense. Que disse e diz à consciência e à memória?
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Dirk Reinartz fixou a hora e a função, logo depois de esvaziado o teatro. Os olhos de W. G. Sebald escreveram Austerlitz e Daniel Blaufuks foi ver e trouxe a cor, um modo de mostrar o cheiro, deixou o relógio.
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Duas fotografias da mesma coisa mostram, da mesma forma, a mesma coisa, de modo diferente. A verdade é uma e muito grande para uma só boca – só há uma.
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Nota: Decidi escrever este texto porque me fiz tropeçar no passado ao pensar no drama dos refugiados. Caí na fotografia de Daniel Blaufuks e subi o rio. No sítio da RTP, uma hora de entrevista com Ana Sousa Dias esclareceu ainda mais do que informou. Não as contei, mas desta vez o cliché, de que uma imagem vale como mil palavras, é retrato de corpo inteiro e sobra. Não há uma palavra a mais nem nada a menos nas fotos, na de Reinartz e na de Blaufuks.

Quando te despi e fotografei e não o fiz

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Agarrei numas fotografias que estavam num daqueles sacos de papel e vieram-me memórias. Ou foi o oposto, uma lembrança inútil que puxou outra e finalmente acudi àqueles papéis.
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Não fiz de propósito e os acasos inexistem. No topo estavam as ampliações dos nus. De que serve a nudez com vinte anos de atraso? Nem para socorrer aflições. Sei do tempo, vários afectos e, além do mais, és tu – que te despiste sabendo que seria arte e só foi, ainda segredo.
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Esses nus ainda não estão documentos – se o fossem estariam mortos. Continuam arte e pudor. Nem me lembro quanto aqueci ao ver-te entrar pela câmara.
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De tudo o que quis, quase tudo deixei. Dispensava as dores dos afectos, suas cicatrizes, memórias e Narciso em queda.
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Mas sem erros e sem memória não se aprende, não é?!
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Não é! A mesma tendência para o coração partido, fractura exposta, e alma amarfanhada em bafio – noites de insónias em dormências, tanta vergonha e arrependimento. Despojando-me à miséria e tão tarde, sempre tardiamente consciente.
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Por que te deixaste fotografar nua? Tinhas-me. Por que te deixaste fotografar nua? Querias-me. Por que te deixaste fotografar nua? Queria-te. Por que nos fotografamos nus? Por que não te despiste?
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Já reparaste que te escrevo não só. Aliás, esta fotografia nem é tua. Por que te despiste? Por que não te despiste?
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Por que fizemos amor? Por que fizemos sexo? Por que fizemos amizade? Por que fizemos engano? Por que não fizemos nada?
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Cada nu é um espelho onde estamos separados mais pelo tempo do que pela dimensão ou situação.
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Hoje talvez apares a púbis… não penso nisso. Pensei agora. Sim, pensei. Pensei, porque nesses nus és bosque.
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E tu, que te nunca te fotografei nem vi nua, como tinhas, jardim ou natureza?
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Ia perguntar-te como tens, mas… não quero inventar fantasmas nem criar feitiço.
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Por que fizemos amor? Por que não nos saboreámos?
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Sem inventar feitiços nem criar fantasmas, penso cientificamente, na pureza da chatice do pensamento vácuo, no que aconteceria se fosse hoje, agora, neste instante, com todas as pessoas e dias do meio entre nós deixadas à porta.
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Como então, a roupa descendo e o espelho subindo e repousando.
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Tirarias a roupa? Fotografava-te? Faríamos cama?
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Repara, não és tu quem está na foto.

Se passando passasses

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Se uma menina como tu assim passasse igual e diferente fosse nua, haveria de me baixar os olhos na vergonha infantil por confundir o desafio com um convite.
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Mas não. Passas assim, vestida acertadinha, muito bem arrumada e composta. Os meus olhos preocupados seguem-te ao quarto onde nua, para então.
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(…)
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Passaram-se duas horas e a tarde ainda desabitada. Nem dei por aquecer a pedra onde sentado fiz amor distraído.

Oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros

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Na incerteza da vida, se vivo ou se vivo, sobrevivo desistente e incansavelmente fatigado, por causa do tédio, a prova da minha incerteza.
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Se o digo é porque duvido, pois as certezas não precisam de pontos de exclamação e a realidade é mais do que o sentido.
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Quanto vale o um e o dois, se são primeiros não são longe. Distante paga bem e recompensa o valor da ilusão. Quatro anos-luz é aqui ao lado e quatro mil milhões de anos é menos de um terço do tempo todo que a ciência admite.
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Os números são cruéis ou apenas. Apenas, pois vou nos quarenta e seis e sei-me infantil e dez é esperança curta ao nascer. Aonde chegarei dista a paciência para o tédio e as alegrias que escondem a sombra.
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Se pudesse voltar só faria igual se soubesse do fim. A arrogância, o orgulho e a negação ditam palavras gordas e tudo o gordo é estúpido:
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– Faria tudo igual!
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As certezas não precisam de pontos de exclamação nem Deus que seja vingado. Se me doeram as pernas e o desânimo assou a pele, para que faria igual se pudesse voltar?
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Mais ou penos o sentido depois de nadar oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros e quarenta e cinco minutos quando se tem trinta e quatro anos, este amor a quatro. As gatas são, ainda que a Lioz não esteja.
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Mais ou penos o sentido depois de nadar oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros e quarenta e cinco minutos quando se tem trinta e quatro anos, o amor a dois, o desamor a mim e tanta gente devassadora, raptada ou nunca-expulsa.
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Lembrar uma data é prova de vida ou certeza de morte.
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Se evoco é porque morto.
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Mas se vivo, é a ingratidão.
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Quando dói a memória, é vivo ou defunto? A saudade é um remorso.
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Se lembra, vivo. Não telefono a mortos nem amo mais só porque.
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Nota: O infotocopiável faz dez anos e a Granita doze, a Lioz é no sítio dos espíritos.