quinta-feira, Outubro 30, 2014

Dieta, disse-me o doutor

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A um copo de vivo espumante branco da Quinta das Bágeiras junto doces de tomate, chila e abóbora. Derreto-me de sono como o Queijo da Serra de pasta mole e elevo-me com a macieza da carne tenra e branca dum pão a cheirar a forno a lenha, como escorregasse numa cama de lençóis antigos de linho e bem engomados. Para quê dormir, se apenas poderei sonhar? Antes vivo, e alimento a alma.

Para que nunca se esqueça - Aristides de Sousa Mendes


quarta-feira, Outubro 29, 2014

Repousando vou-me

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O sono deve ser a melhor chatice da vida.

Quase trinta anos depois descobri como te chamas e ainda assim nunca quis

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Uma fotografia agarrou-me os olhos e puxou-os como se fosse um buraco-negro. Agarraram-se estes à memória. Fui caindo acelerado, notando que há pessoas que entraram pelas vistas sem chegarem a deixar cair uma pestana no tempo-lembrança. E ainda assim emergem, como um corpo-de-mito duma entranha da natureza, escorrendo água milenar ou rompendo desde as rochas escondidas.
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Nota: O Facebook é… nem sei…

sexta-feira, Outubro 24, 2014

As janelas

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Que tristeza sente um homem pelo aplauso por ter morto outro homem?
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Nota 1: Repare-se na tristeza dos olhos deste soldado, por ter cumprindo a função e violado a alma.
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Nota 2: Notícia da versão online da BBC US & Canada
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Ottawa shooting: The victim and the sergeant-at-arms
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Canada is in shock after a gunman killed a soldier at an Ottawa war memorial and rampaged through Canada's parliament before being shot dead. The BBC profiles the soldier who was killed, and the sergeant-at-arms who stopped the gunman.
The victim: Cpl Nathan Cirillo
Cpl Nathan Cirillo, a soldier guarding the Ottawa war memorial, died from his injuries following the gun attack.
The 25-year-old, who had a six-year-old son, grew up in the Ontario city of Hamilton.
His classmates described him as "a real class clown" who "always wanted to serve his country".
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Cpl Nathan Cirillo was a reservist with the Argyll and Sutherland Highlanders
Friends said he had always wanted to join the military, and became a member of his local reservist regiment, the Argyll and Sutherland Highlanders, while still a student.
Cpl Cirillo was a fitness instructor before he joined the military. He was also an animal lover, posting photos of his dogs on his Instagram account.
"He always had a smile on his face; he was always walking around giving people handshakes," his friend Peter DiBussolo told the Ottawa Citizen.
"He was an outgoing person; he knew how to have fun."
His aunt, who asked not to be named, told the Globe and Mail he was "into being fit. And being a father and son".
She added: "He was a wonderful young man. Not an enemy in the world."
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Kevin Vickers is in charge of parliamentary security and was credited with shooting the attacker
Sergeant-at-Arms Kevin Vickers
Witnesses identified the parliamentary Sergeant-at-Arms, Kevin Vickers, as the man who shot dead the attacker.
Mr Vickers, 58, took up his role in 2006 after 29 years in the Royal Canadian Mounted Police (RCMP) and a year as the head of security at the House of Commons.
His role involves "safeguarding the authority of the Houses of Commons" and "the safety and security of the Parliament buildings and their occupants".
At the time of Mr Vickers' appointment, he was praised for the "loyalty, distinction and honour" he had displayed in his career.
In his previous role with the RCMP he led several high-profile investigations, and was involved in the development of policies reaching out to leaders in Canada's Muslim community.
He also provided security for high-profile guests, including the Queen and Prince Andrew.
He last made headlines in 2011 when he supported the right of Sikhs to wear ceremonial daggers in the House of Commons.
After the gun attack on parliament, politician Glenn Thibeault described Mr Vickers as the "nicest guy you'll ever meet" and "our hero".
Mr Vickers' brother John told BBC Radio 5live's Breakfast: "With that event unfolding, he would be the man you would want to protect you. He's just an exemplary guy and we're very, very proud of him."
In a statement on Thursday, Mr Vickers said he was "very touched" by the attention given to him, but said he had the support of "a remarkable security team".
He said he was proud of the "professionalism and courage" of his colleagues during "extraordinary circumstances".

Zero-infinito

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A conversa não tinha interesse, algo irritante e todo o tempo é perdido. Nem conhecia o adversário, que chateado me mandou ir dar milho aos pombos. Fui, mas não dei milho aos pombos, deixei que me bicassem a alma triste. Porque infelizmente teimo em ser a criança que quer ser amiga de toda a gente.

Capitão-de-mar-em-terra

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Vento e água salgada pela frente, na pele e na boca. Às vezes, de noite num cacilheiro, se pingar ainda melhor, sonho-me marujo – não capitão do mar-oceano, mas solitário grumete que no escuro segura a roda do timão, enquanto o resto da tripulação ressona em camaratas com cheiro a mofo. Não fosse o peixe… nem é verdade, antes disso tenho uma saudade da minha terra ainda antes de partir. Marujo sim, se o barco fosse de pedra cravada na rocha. 

Claudia Schiffer

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Disse:
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– A Claudia Schiffer é linda!
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Disse-me:
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– Não é linda nem bonita. Parece estúpida e alguém que parece estúpido não é bonito.
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Reconheci-lhe razão e contudo.
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Já passaram mais anos do que aqueles que tinha, e ainda.
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Nota: Lembro-me de comprar o jornal e ler que uma jovem modelo de Dusseldorf estava a causar sensação no mundo da moda. A notícia estava ilustrada com uma foto, quase uma vinheta, duma menina doce com vinte e um anos. Eu tinha vinte e um anos e ia para Dusseldorf.
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Não fantasiei nada. Embeveci por uma má fotografia a preto e branco impressa em papel de jornal. Não fantasiei, mas pensei.

A árvore dos rubis

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A maçã é a fruta da Árvore da Ciência do Bem e do Mal – disse um velho sacerdote impotente e infértil de nascença, parco e austero nos comeres.
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As uvas, disse o bêbado. As uvas, repetiu outro bêbado. Nâo!... As uvas, pôs outro bêbado fim à discussão.
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Morangos, exclamou a donzela apaixonada, de peito apertado, mais pela paixão do que pelo espartilho, ainda soluçando do Champanhe que bebera antes de conceder a honra.
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Figos!... nada mais doce do que um figo maduro – garantiu um camponês.
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Para a madama, as bananas. Gargalhando alto, para que se ouvisse em tom de aleivosia.
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Maracujá, para o marujo que nunca saíra da cidade natal e aportara longe, depois das gangrenas, do sal, do vinagre e da urina.
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Desconfio da romã. Difícil de começar, sangrando como a virgindade, tinta que não sairá, doce e lenhosa como a vida a dois, prazer e luta, e dando tanto para nascer.
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O ouro não oxida, o diamante é eterno e a romã é arte.
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Tanto quanto sei, Deus fez tudo menos a arte e o bronze. Porém, criou a romã.
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Nota: Longe de ser um pensamento profundo ou uma fé, este texto é a legenda desta escultura de vidro e bronze.

Conversas do nunca

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Faço de conta que aconteceu e que estive lá, porque era tradutor, lacaio ou mosca.
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António Salazar dificilmente contendo-se para não gargalhar ao ouvir Benito Mussolini, num encontro em Roma.
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Adolf Hitler e Benito Mussolini entusiasmados, cada vez a falarem mais alto, adorando-se ouvir e ignorando o outro. O aluno condescendente para com seu mestre, afinal intelectualmente balofo. Algures na Áustria… Tirol.
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Josef Stalin ouvindo atentamente Adolf Hitler, deixando-o falar. Adolf Hitler deixando falar Josef Stalin. Ambos tentando compreender a outra parte, percebendo que tudo foi um erro, reconhecendo que serem amigos bêbados e à pancada. Algures na Prússia Oriental.
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Josef Stalin a fechar a porta na cara de Francisco Franco. Em Hendaya.
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Josef Stalin a rir às gargalhadas, na cara, dos disparates de Benito Mussolini. Numa breve visita a Roma.
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Benito Mussolini e Francisco Franco sentados horas de quase silêncio, de quartos de conversas de meias frases… nem de futebol, nem de mulheres nem do melhor vinho… apenas entediados a fazerem horas. Numa esplanada algures no Norte de África.
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Josef Stalin a dizer à secretária para transmitir ao doutor Salazar, que ele próprio segurava o auscultador do telefone, que mandava dizer que não estava. Um em Moscovo e outro na casa rural de São Bento, em Lisboa.
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António Salazar impávido a escutar com muita atenção – interiormente estarrecido pela estupidez – Adolf Hitler e seus sonhos grandiosos. Provavelmente na… Suíça.
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Francisco Franco cheio de soberba dissertando, mal escondendo a vontade de tomar Lisboa em cinco dias, e António Salazar pensando que o espanhol não passaria na sua cadeira na Universidade de Coimbra. Numa repartição pública em Badajoz.
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Adolf Hitler queixando-se a Francisco Franco da tortilha estar demasiado oleosa e enjoativa e que não gostara dos camarões da paelha. Em Maiorca, antevendo que a ilha seria o décimo sétimo länder da Alemanha Federal.
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Benito Mussolini desprezando António Salazar, por ser demasiado padreco. António Salazar desprezando Benito Mussolini por ele se considerar tão professor, embora do ensino primário, quanto ela, que ministrava finanças em Coimbra. O italiano falava e o português pensava em mandar comprar milho para dar às galinhas da capoeira da casa de São Bento. Numa esplanada no Estoril.
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Mao Tse Tung amoado por não ter ninguém com quem falar.
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Heroíto aborrecido por ninguém o entender, nem mesmo os seus súbditos.
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Porque sou português, estive mais atento ao ambiente em torno de António Salazar.
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No final, Josef Stalin perguntou a um assessor:
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– Que língua falam em Portugal?
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No fim, Adolf Hitler perguntou a Martin Bormann:
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– Que língua falam em Portugal?
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Após o encontro, Benito Mussolini disse baixinho para ser ouvido:
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– Por que é que estes gajos não falam italiano… ou, pelo menos, espanhol?
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Ensimesmado, Francisco Franco murmurou:
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– Como é que estes gajos ainda não falam espanhol?
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Heroíto lembra-se de lhe terem dito que «arigato» vinha de «obrigado», mas que só podia ser mentira.
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Mao Tse Tung sonhou ansioso com o dia em que a China conseguisse fazer sapatos com a qualidade dos botins de António Salazar.
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De todas as conversas, António Salazar reteve:
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– Pouca escola preserva a pátria.
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O mais estúpido de todos foi sem dúvida o mais inteligente. E o contrário?