Quinta-feira, Maio 02, 2013

Normótico

Normose: finalmente tenho uma doença; comum como as pessoas banais, como eu. Logo, grave. Numa crise aguda torno-me português. Logo eu.

Terça-feira, Abril 30, 2013

Vício público

O círculo é sempre vicioso, ao contrário da espiral.

Seguir a luz

A janela do dia, porta de ânimo e sono, entreaberta pela dúvida de sempre: ser ou estar.
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Sem estar não serei. Porém inexisto-me em tanto lugar.
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Com o vinho transbordo-me fora do corpo.
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Sem água minguo-me.
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Palavras pequenas para grandes dias de conversa.
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Serei teu, enquanto estivermos.
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Luz do dia e vontade de dormir.

Terça-feira, Abril 16, 2013

Agonia

Sofrendo deleitado, longas horas de comiséria. Fechar portas e janelas, fechar a luz, que é algo que não se fecha nem compreende.
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Respirar – que é tão bom – é doloroso. Com o peso da força da bala que entra devagarmente na cabeça, quebrando osso e liquefazendo o cérebro.
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A vida tem duas velocidades: parada e em movimento. A primeira é parada, e não existe, e a segunda é de vagar e rápida. Neste momento, toda a vida se resume às três ao mesmo tempo.
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Malcriadar duma só vez é uma ejaculação de desespero. Antes isso do que usar uma serra-eléctrica para cortar presunto ou melancia. Tudo para não rasgar gargantas nem desfazer as veias dum pulso.
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Não é explosão nem implosão. É explosão para dentro. Comer muita terra e escaldar a cabeça no Sol forte. Suar e ter a camisa colada pelo suor e poeira. Querer banho e não ter onde banhar-se. É tudo isso, agora.
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Não é raiva, é miséria.

Quinta-feira, Abril 04, 2013

Vagalume

O vago sorriso das árvores e a sua sombra quieta, vislumbres do Paraíso. Ainda que passem carros e estrondem suas vozes, nada apaga a lembrança melancólica dos dias de Verão passados a sós.
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À noite, vagalumes imaginários confundem-se no céu da cidade. Suspiros da memória dos amores adolescentes... apenas dos descorrespondidos. Amores frágeis, sem confissões nem beijos. Horas de sexo imaginário.
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A noite torna-nos adultos, quando não nos deitamos. Meninos, quando embalados no sono, sorrindo como sorriem as mães.
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O silêncio das casas, os passos perdidos, a inquietude. Gatos-afectos. Gatos-esperança. Gatos-mata-angústia. O que acontece de noite.
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O sorriso dos velhos, linha quebradiça que separa a vida da morte. Sorriso tímidos, duma alegria baça, ternura por qualquer coisa que quem não é velho não sabe entender.
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Luz tímida e ar. Ar e não vento, porque o vento tem temperamento onde o outro tem alma. Tempo de passar, tédio alheado, enquanto cenas da vida se sucedem, para depressa se esquecerem. Passa a vida e resta a esperança de reencontrar quem se perdeu.
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O Verão está a chegar e com ele a opressiva luz da felicidade. A noite quebradiça da solidão é cruel no Verão. No Inverno aconchega-nos sofrida, comiserando-se com as feridas e embebedando a tristeza.
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Melancolia, a noite triste que é memória. A noite dos astronautas.
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Vaga luz, a esperança não tem rosto. Riscos de rasto, luz dispersa para contentar a noite.  Vagalumes.
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Nota: sim, sei que é vaga-lume.

Poesia

























Os poetas dizem umas coisas e os outros sentem-nas.

Segunda-feira, Abril 01, 2013

Agonia

Caminho cruzado com a morte, berma de desejo. O problema moral do desejo e a consciência da solução. Sinto o arrepio do envolvimento e a agonia da vergonha. A tristeza de todos os dias tristes, num repente chegados. A boca amarga, desejando a doçura do limão. Chegados aqui... é voltar para a cama e esperar que os dias passem. Que a vida faça o que tem de fazer. Dormir para que a consciência e a vergonha não doam.

Memória das coisas

A memória estúpida das coisas. Será que toda a memória é estúpida e bom é não lembrar... as coisas estúpidas têm memória longa. A dor prolonga-se em sabor. E as coisas que valem a pena? Passam depressa e são esquecidas. Para que se quer a memória? Rancor, amor e perdão... tudo isso. Mas o que queria mesmo era esquecer. Não ter vivido e talvez não ter nascido.

Sábado, Março 16, 2013

Madrugada

Há uma madrugada no horizonte e cai-se na ressaca de música, julga-se. Está fresco, noutro dia seria frio. Se pudesse adiava o raiar e ficava imóvel, menos nos olhos, perante o mundo finito que a vista concede.
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Não é apocalipse é big bang. Mas não é nascimento, é uma sempre-morte.
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Sim, pode ser Lisboa. Lisboa e suas lágrimas, de noite e água chuvosa, de rio, de brilho lavado e de silêncio moribundo.
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Onde mais, perguntam-se afirmando: Onde mais?

Sábado, Março 02, 2013

Oz

O som do tempo. A luz mágica das terras invisíveis. O vento.
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Todas as palavras que definem cidade e todas as que dizem casa. Todas as palavras que dizem mistério e todas as de luz.
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Nesse sítio de Oz emerge como uma santa, em brilho, paz e música, a musa do doce olhar. Traz a tranquilidade do dia perfeito e a luz do arco-iris. Toda feita de zen e açúcar.
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Vem com cânticos gravados na alma, rejubilando quem a ouve. Espera resposta à sua promessa e a recompensa de abraço.
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O som do tempo. Dois anos menos uns minutos, quase. O relógio nunca se atrasa, por vezes perde-se. Encontram-se as palavras nos olhares e as almas nos abraços.
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No sítio de Oz é sempre amanhecer e a água é doce, fresca de nascente. Passarinhos a piar? Pode ser. Pode ser o que se quiser desde que em paz.
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Trovoada, só na queda livre. Uma mão amparará sempre, porque Deus está em Oz. E Oz fica onde se está de olhos no amor e a boca na boca.
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As falas de jura e enlevo podem ser nuvens claras ou lençóis estendidos no amor. O som do tempo, cantata de anjos.
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Sonha-se com a terra que se vive, uma qualquer paisagem. Zen em Oz, sempre com o amor amado.

Pecado

Sem pecado não há Paraíso.