sábado, julho 23, 2016

Na direcção

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Por vezes é preciso fugir antes que chegue a coragem, na direcção do arrependimento, que o será sempre.

Quarto

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Há o quarto negro, paredes almofadadas de negro, do chão ao tecto todo negro. Refúgio nas pungências sem luz, chega-se caído num túnel quântico – digo sem saber o que é isso. Vertigem brusca. Depois acorda-se do lado de fora ou num lugar se saltar para esperança se houver coragem para ver a porta.

Voz

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Se não te ouvem, fala mais baixo. Quem não te ouve nunca te ouvirá.

quinta-feira, julho 21, 2016

Sítio

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Dias dormentes no jardim onde não há cidade e campo. É lugar onde tudo pode, letárgico e demorado.
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É calor e vem água do Inverno. No frio, mantas e almofadas até ao chão onde se nada e brinca ao amor às escondidas não fossem risinhos.
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O que importa é aquém do muro e depois dos ciprestes, Éden sem veneno nem pecado. Umas vezes músicas dolentes do amor ou vento, sempre aves, e silêncio. A árvore para o País das Maravilhas.

Alamedas, azinhagas e horizonte, linha férrea sobre pedra, água e mar, apeadeiros de ausência, sombra de pomares e florestas. O céu, maior espectáculo.
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O dia não começa sem acabar nem nascer, Inverno, Primavera, Verão e Outono nos tempos perfeitos, não exigindo mais do que seus carácteres.
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Vinhos surgem sem chegarem, sortilégio que permito e gosto.
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Noite de lobisomem, luar tanto faz, castigo do mar na rocha da gruta, porta sob a casa.
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Na vez de heras, videiras, segredos e fantasmas, tapeçarias de pastrana. A casa de barroco de Greenaway, o espelho espelha-me em Rembrandt, lá fora o céu de Rubens e a luz de Vermeer, da sua janela se vê de Magritte e a noite de Burton.
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Os retratos dos antepassados seguindo, mistério de qualquer coisaO cheiro do pó-de-arroz e talco, baunilha e canela, bebendo chá. Café, tabaco e batota. Alguém viu aberta uma porta fechada há duzentos anos.
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A capela de gótico puro, junto de rococó de impuridade, pedra e soalho, a biblioteca de escada longa, de dormir de abóbada celeste sem cadentes igualmente silêncio na estufa de ferro, vidro e verdes. No corredor veludo e seda, escarlate, lazúli e negro indo ou fiáveis.
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No salão houve bailes, debruçando-se para fogos-de-artifício e, se proíbe se permite, amantes fugindo no labirinto de bucho, dando rosas, roubando beijos, transgredindo nas grutas e secretos, lagos de cisnes sonâmbulos, velas nos caminhos, gargalhadas, choros e desflorares.
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Sítios sempre noite, outros de revelação. Abandonos de granito para a chuva surpreendente.
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Gatos fogem, gatos vêm, gatos ficam, gatos sentam-se no colo. Cães sendo cães sem pressa. Ninguém, sortilégio que me permito e gosto.
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Claro a tristeza, melancolia da solidão, memória que espero criada. Tédio de remorsos e vergonha.
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Sem horas, os dias ligam-se às noites e as estações nos seus tempos perfeitos e carácteres.
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Fazer amor e comer uvas, no refresco do pavilhão dos linhos voando e ribeiro azulejado. Ninguém ouve os risinhos.
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Só para dizer longe.
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quarta-feira, julho 20, 2016

Passo

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Ir em frente. Se surgir um precipício, levá-lo também para a frente.

Quatro-mil-quatrocentos-e-oitenta-e-quatro dias de infotocopiável e quatro-mil publicações

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A vinte e quatro de Março completou dez anos e a dezanove de Julho chegou à publicação quatro mil. Disseram-me:
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– Também tu tens um blogue?
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Aqui há flores orvalhadas e outras na luz. Declarações de amor e nunca ódio e ainda tristeza e negrum, que é fundo do que negrume.
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Vinham para ler amor e foram-se outros para ver no espelho as feridas e mais, muito mais, sexo, por causa de imagens e palavras.
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Quatro-mil-quatrocentos-e-oitenta-e-quatro dias de infotocopiável.
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Tanto quanto quatro mil anos. Para a frente, de hoje talvez só a roda. De antes, lembrei-me:
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O Egipto do Império Médio e a Suméria a desfazer-se, rapidamente em traço tosco.
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Misturando os dias como se mergulhasse e quase na areia um golpe de tronco e pernas para a subir e entre o ir e o voltar de olhos abertos ver agricultura e a casa e o inventário para depois poesia e antes ou depois a pecuária, já o lobo era cão e o gato atrevia-se.
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Quatro mil anos são como quatro mil dias são e quatro mil publicações.

terça-feira, julho 19, 2016

De olhos verdes de luz

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Não fosse a felicidade teria sempre um prego. Este amor que me cura e bela. Todas as frases pirosas e os risos. Fizemos sete, o número de maior estrela, dizem e sei que temos.

sábado, julho 16, 2016

Sangue e fala

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Morreram quase todos, menos os filhos da Eva.
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Do regaço, todo o espaço.
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Que voltas deu o mundo.
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Aqui se misturaram e pêlos no corpo, cabelos louros e ruivos, pele clara e narizes grandes.
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Que voltas deu o mundo que falando não nos entendemos.
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Na família à noite notg nui notte nuòch notti notte noche noite nit gnot noapte nit – nogte, diziam os avós – é tempo de cantar chantar chanter cantare chantar cantari cantà cantar cantar cantar cjantâ cânta cante – cantare, diziam os avós – e até ao alvorecer ficamos de pé pe pied piede pè peri pe pié pé péu pît picior piet – pedem, diziam os avós.
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Quase nos entendemos. Mas também fazemos amor.
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Dançar e beijar é o mesmo, em bailes diferentes tal as bocas – fazemos igual.
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Nem sempre azeite, porém pão e vinho.
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Esquece a cor e a voz, que viemos da Eva. Sabe-se lá como dizia ela, mas os avós contavam do mesmo sanguinem – e a language que fique na ostium.
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A Teoria de Eva ou de Eva Mitocondrial assenta no resultado de pesquisa de ADN Mitocondrial, que encontrou o mais recente antepassado comum. Uma vez que reporta a uma fêmea, foi-lhe atribuído simbolicamente o nome de Eva.
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Esta Eva não é o nosso antepassado mais antigo, apenas aquele que mais recentemente surge nos testes genéticos realizados em todo o mundo. Acresce que a variedade genética humana é menor do que quaisquer (ou a grande maioria) outras espécies animais.
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A razão por que tal acontece não é consensual, mas uma corrente defende que a humanidade esteve à beira da extinção, salvando-se um pequeno grupo de hominídeos. O número também é divergente, com cientistas a referirem não ter sido superior 10.000 indivíduos e não inferior a 1.000.
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A causa dessa extinção pode ter sido a erupção do supervulcão do Lago Toba, na Ilha de Sumatra, na actual Indonésia. Esse momento terá ocorrido entre há 70.000 e 80.000 anos. Os efeitos fizeram-se sentir em todo o planeta, reduzindo os alimentos disponíveis necessários à sobrevivência.
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O estudo do ADN Mitocondrial e achados arqueológicos colocam o aparecimento do Homo sapiens na região montanhosa de Kibish, no vale do Rio Omo, na actual Etiópia.
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O chamado Homem de Kibish é um Homo sapiens arcaico, uma subespécie. O Homo sapiens sapiens, o homem moderno, é o único hominídeo e única subespécie que vive actualmente.
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A Eva Mitocondrial terá vivido há 160.000 anos, segundo a pesquisa do Instituto Max Plank de Antrolologia Evolutiva (Max-Plank-Institut für Evolutionäre Anthropologie). A Universidade de Medicina de Stanford (Stanford University School of Medicine) calcula entre há 99.000 e 160.000 anos.
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A migração do Homo sapiens para fora de África poderá ter acontecido há 70.000 anos. O momento de chegada à Europa ocorre entre há 40.000 e 52.000 anos. Esta referência é relevante, pois marca o encontro com outro hominídeo, que desempenhou um papel relevante.
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Não existe consenso quanto à data do encontro entre o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis, até porque a área em que este último viveu também não colhe unanimidade. Alguns estudiosos situam há 35.000 anos. Porém, os neanderthais viveram seguramente no Próximo Oriente, à porta de África, e por isso cedo se terá dado o encontro.
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O Homo neanderthalensis viveu principalmente na Europa e num momento de climatologia bastante fria, mesmo glaciar. Este facto determinou que fosse mais robusto, mais hirsuto, com cabelo mais claro, com nariz grande e pele mais clara.
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Este hominídeo terá surgido há 350.000 anos e extinguiu-se há 27.000 anos. Várias teorias surgiram: dizimados pelo Homo sapiens, perda de fonte alimentar por via da concorrência com a outra espécie humana e as duas razões concertadas.
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Possivelmente verificaram-se essas duas situações, mas ainda o cruzamento entre as espécies. Teoria inicialmente rejeitada e hoje é dada como certa. A primeira prova consistiu no achamento do esqueleto duma criança, aparentando ter quatro anos, com características ósseas mistas e que viveu há 24.500 anos.
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Os detractores da teoria dos híbridos consideravam que se tratavam de anomalias genéticas. Esse primeiro achamento, em 1998, em Lapedo, perto de Leiria, seria depois confirmado por novos vestígios encontrados noutras localizações na Europa.
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O ADN dos caucasianos brancos – note-se que a Oriente, por exemplo na Índia, a população é caucasiana, embora de pele seja mais escura – apresenta variações genéticas face a populações não europeias. Alguns cientistas referem que o ADN neanderthal está presente entre os 4% e os 7%. Há quem especule que o ADN neanderthal pode ser totalmente reconstruído através do que existe nas populações actuais caucasianas.
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Homo sapiens sapiens, o homem moderno, significa que tem conhecimento, que é sábio. Estabelece-se que surgiu há 10.000 com os primeiros assentamentos sedentários e a prática da agricultura.
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A linguagem falada é extremamente antiga, comprovada nomeadamente pelos indicadores da formação óssea – não é exclusiva do Homo sapiens. Aqui importa apenas a relativa à nossa subespécie, que é muitíssimo variada, desde as línguas actuais às mortas.
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Há académicos que se têm debruçado na procura da raiz, da fala primordial dos hominídeos, portanto daquela donde derivam todos os idiomas. Nem certezas nem consensos, resultado das numerosas famílias linguísticas.
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Neste texto refiro o falar dos avós, ilustração do latim. A dos pais serão as derivações em que cabem diferentes línguas, como o galaico-português. Diria bisavós às que radicam na matriz indo-europeia. Seguindo sempre uma lógica metafórica com a genealogia.
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Não gosto de imagens que sejam ilustração e textos que sirvam de legenda – embora assumidamente crie situações em que tal ocorre. Assim, simbolicamente escolhi uma imagem de Adão e Eva, presente na Igreja de Adão e Eva, que terá sido construída entre 700 Depois de Cristo e 1000 Depois de Cristo. O templo situa-se em Wukro, na Etiópia.

Assim pressinto

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A morte na poesia e no amor.
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Amor na morte.
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Morte no amor.
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E a poesia que o não é.

Minotauro

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Que vida podes dar? Só ovo e semente. Acredites ou negues Deus, sozinho não tens sopro criativo. Sobre a morte também nada.
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Quanto vale uma vida humana se não a podes inventar? E se for formiga ou urso ou crocodilo ou tamboril ou colibri? Não revertes a morte.
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Dirás que matamos para comer. Direi que sacrificamos, porque nos cede vida.
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Ah, a morte! Morreremos, dirás. Possivelmente até te sentirás imortal.
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Ah, a morte! Fim de ciclo da vida ou duma vida.
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Feres, matas e amas. Leva-lo ao desconhecido, onde assustado pelas luzes, vozes e música.
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Em Espanha picam-no antes do massacre. Mas leva os cornos vivos. Dizes da sua morte honrosa. E se matar o homem?
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Em Portugal é rasgado a cavalo, porta para sofrimento a outro bicho. Tem os chifres fechados. Honra só os forcados, que se vestem de sangue, agarrando de corpo desarmado.
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Às vezes correndo desgovernado para divertimento. Às vezes preso a uma corda, sem a liberdade de quem goza. Às vezes iluminado com fogo preso nos chifres e queimando-se.
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Gostarias que te fizessem? Que não!
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Traje de luzes, dizem. Luz negra de negrume, sombria de dor.
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Ah! Que Deus proteja o bravo homem enfrentando a besta. Pode amar mais um filho do que outro? Acredites ou o negues, não tens sopro criativo. Sobre a morte também nada. Seja! O que for! Não podes! Não podes nada! Um dia morrerás!
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E se disseres que Deus protege o homem, porque homem é homem e tu és homem, e fez do toiro um inimigo? Quando te benzes pensas em Francisco de Assis? Tens-te como melhor santo.
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Se o toiro mata que se mate ainda a mãe. E se fosse contigo? E se fosse a tua mãe? Aquela que possivelmente chamas de santa. E se fossem os teus queridos filhos?
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Pode saltar-se sobre o dorso e desafiando as hastes. Como os minóicos. Mal menor.
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Pensa com coração e consciência. Na justiça e em Deus ou no tangível. Não tens sopro.
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Em branco imaculado, diz-me se não te sentes Minotauro.
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Podia citar as muitas notícias acerca da morte de um toureiro na arena. Daria sempre no mesmo. Uma basta. Fica a do sítio da TVI, de dia 11 de Julho de 2016.
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A progenitora do touro que colheu e matou um toureiro, na praça de touros de Teruel, em Espanha, foi abatida. É o que dita a tradição tauromáquica de Espanha. Esta decisão impulsionou os protestos por parte das associações dos direitos dos animais.
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Victor Barrio foi fatalmente atingido pelos cornos do touro, em frente a centenas de espectadores, incluindo a sua mulher. Este episódio ocorreu no sábado, na província espanhola de Aragão. Barrio tornou-se o primeiro toureiro deste século a ser morto durante uma tourada.
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O animal, chamado Lorenzo, atingiu o toureiro no peito, causando-lhe ferimentos fatais. O touro foi morto logo a seguir ao incidente, mas, agora, chegou a vez de Lorenza, a mãe, também ser abatida para se acabar com a linhagem familiar. Esta não foi uma decisão inédita, pois a tradição espanhola assim a dita: sempre que um touro mata um toureiro, o animal e a sua progenitora devem ser abatidos.
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Os activistas dos direitos dos animais demonstraram grande revolta pelo sucedido, referindo que o animal não deve «pagar» pela morte do toureiro. Muitos usaram o Twitter para mostrar o descontentamento, através da hashtag #SalvemosALorenza e, em poucos minutos, conseguiram o apoio de centenas de pessoas.
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Nota: Até há alguns anos frequentei praças de touros. Garanto que gostava, provavelmente gosto, de touradas. Um dia pensei na dor e se fosse comigo. Não me importa se gosto. A questão é moral. O prazer não pode alimentar-se de sofrimento involuntário. Não me importa se gosto, mas que alguém faça justiça e finde as touradas.
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sexta-feira, julho 15, 2016

Definições do azul

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Da janela como de Vermeer, solidão e silêncio como o cheiro da terra molhada depois da trovoada, a luz que é sal e azeite.
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O azul nunca será triste. Pode a solidão ser azul. A solidão é triste. Mas nunca o azul.
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Magritte pintou azul e silêncio, anónimo como louco, duas dimensões, aliás três, e um sítio metafísico.
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O céu, que é azul, pode ser de qualquer cor, até de inverso.
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Picasso pintou azul. Imagens mansas, às vezes tristes, às vezes melancólicas, às vezes outras coisas.
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O azul do arlequim à mãe que abraça a criança.
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El Greco não pintou azul, mas grotesco.
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E o negro que também é belo.

Dor de corno

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Ela fez sexo sem mim. Não lhe perdoo-o e não me perdoo e não lhes perdoo. Juro vingança, elaboro planos – um após outros, anulados por defeitos e riscos. Se o matasse, se fosse capaz, se fosse invisível e silencioso e ubíquo para alibi. A ela não, para que seja minha, embora a perdido.
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O que fazer às horas, aos dias, semanas, meses, anos? A vida não tem futuro e a luz é-me indiferente. A noite é noite, por vezes bebedeira.
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De tanto maquinar revanchas, no tempo longo pelo que abstracto e sem medida, esqueci-me dela e nem me lembro quem é ele.

Indo pela rua

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Podia ser anjo e fazer aos outros tudo aquilo que não me farão.
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Acobardo-me e recolho-me envergonhado e perseguido pelo Grilo Falante.
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Mudar o mundo é pouco mais difícil do que corrigir a índole dum egoísta.

quarta-feira, julho 13, 2016

A cabeça como uma canção em repetida espiral

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Nascer e crescer sem amanhã. Depois os sonhos. Depois as esperanças. Depois vitórias. Depois qualquer coisa. Depois perder. Dias de se ser nada e de até já desejar ser coisa.
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No que me tornei, umas vezes cínico noutras maldando noutras traindo-me falando demais e diante de surdos que me escutam em aflição e indiferentes, incomovíveis e a minha consciência abrindo-me carne e alma.
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A culpa é da mãe. A culpa é do pai. A culpa é dos amigos, das más companhias. A culpa é da vida. Quem me dera não saber que é minha e acreditar.
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Diziam do mercúrio a eterna vida.
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O faqueiro de prata empenhado. O brasão escondido. A loucura revelada. A solidão é fogo posto e não mais do que cinza.
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No que me tornei, mas riu-me patético da desgraça nas vagas etéreas esperanças do pesadelo e da visão do Sol pondo-se ao fundo do mar calmo sem nuvens.
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A solidão é isso mesmo, solidão. Como o escuro é escuro e o sangue calor e a derrota amarga e enraivecente, por certezas de injustiça e crueldade de abandono e incompreensão na desilusão da traição.
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Não me avisaram não ouvi não acreditei, o mundo era meu, o Sol punha-se sem nuvens.
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Matei três ratos, duas cobras e um pombo. Maltratei a Liberdade, a mansa cadela enjeitada que o bairro cuidava por vezes guardava. Castiguei o amigo Gordo a quem revelei as traições m’infligidas e o traí.
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Consolo-me na misericórdia que me permito. Era criança e não havia futuro porque não havia passado, antes dos sonhos, apenas a lonjura dos dias da escola, a ânsia das férias, o Verão não tinha fim.
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No que já me tornara antes de me tornar no que sou.
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Inconsciente no amor leviano. Sem amanhã. Sem sonhos, porque o Sol se punha sem nuvens.
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Então cresci por acaso, fiz amor, um dia perdi e perdido me perdi. Então a loucura, apunhado verti vida depois arrependido e agora arrependido do arrependimento mas cobarde.
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A perdição é isso mesmo, um local em que se está desconhecendo onde se fica não podendo ir nem.
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Não há perdição sem solidão nem solidão sem dor nem dor sem alma-coração-cabeça-pulmão-fígado.
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Diziam do mercúrio a eterna vida.
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Se olhando a libertação pudesse pois desexistir, não é pedido que Deus conceda.
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No que me tornei. Não quero a culpa porque me arrependo mas o gesto não regressa nem esqueço. Afinal não tive o Diabo na mão.
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O pior são as mágoas que deixei, a vergonha de trair o Gordo e a maldição de maltratar a Liberdade, generosa me perdoou como só os cães.
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Não quero a vida eterna mas mercúrio.
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Nota: Como muita coisa do outro lado da Cortina de Ferro, a autoria do desenho deste rádio permanece anónima. Contudo, se por milagre alguém souber, que me diga o nome, para que possa atribuir o crédito da autoria.

terça-feira, julho 12, 2016

O voo da orca

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Ir sem voltar, sobrevoar o oceano baixo que salgasse e ver o salto da orca no caminho de Cabral à areia branca e coqueiros.
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A distância só me custa fora da casa. Ainda assim riscar o ar céu sem regresso nem morte nem saudades nem prisões.
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E antes no areal contemplar o sonho como os braços alcançando a margem oposta puxando e comigo as lembranças de ficar deixando mágoas e arrependimentos. Uma vida sem princípio.
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Nunca olhar para a crusta portuguesa e noutra parte esquecer o horizonte.
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A música infinita sem saciar nem indigesta e o corpo de sal e areia. Se eu ficasse além de mim.
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Pormenor da Carta Marina.

Com éne se escreve não

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Não sei onde estive estes anos. Adormeci ou morri ou invisivelei-me, alguma coisa que não sei, o que disse, o que fiz, se fiz ou se disse.
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Num comboio expresso a paisagem não se demora. A janela está molhada dos dois lados.
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Na estação ninguém me espera nem fica, vazia de vida como se sorvida por espaçonave, um canto de ave e nada mais do que as folhas mexendo-se nas árvores. Fechando os olhos, ánimas rodeando-me enlouquecidas. Ainda assim é dia, terrivelmente dia.
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Não sei se dormindo, sei que não, mantenho-me desperto e confuso. Olhando o vazio ou cegando-me temporariamente, na irresistível dor, para inquirir personagens deletérias. Porém é dia.
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Nesta vida não sei e noutras pouco menos. As contas desta e das outras espelhadas na folha do deve e haver escaldando na consciência, lembradas nos urros e ameaças dos espectros. Antes fosse noite para acordar.
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Não, não pode ser. Não posso estar, não posso ser. Atónito e mudo, culpando-me pelo que sei, deduzo e dizem.
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As mais antigas questões da consciência. A janela é molhada.

sexta-feira, julho 08, 2016

Verão em Lisboa

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Gostava de ter coragem para te pedir que levantasses a camisola e me mostrasses o peito. Escandalizada mo mostrasses, beicinho e beijo. O resto já sabe.
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Este calor-céu-Lisboa só não entende quem não sabe. Faríamos amor de janela da água-furtada aberta, um gato, telhados e Tejo.
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A estas horas a música é alta, gin tónico ou sangria de espumante. Beber melancia untados de meloa, não há outro pretexto.
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Talvez se tivesse coragem.

Tens

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Tens leite no frigorífico e pão de ontem no cesto. Tens fiambre, manteiga e chocolate para barrar. Há pizza e hambúrgueres no congelador. Há ovos. Podes fazer massa e salsichas, sabes onde estão. Se ainda tiveres fome, há uma lata de frango com ervilhas.

quinta-feira, julho 07, 2016

Vuuuu

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O quente sopra grosso e o frio espeta agulhas ao redor. Pela frente sou navio que vence as ondas e por trás avião segurando-se na altitude. Parado é sentado. Nem sei nem rocha nem folha nem sei. Faço de Deus numa água presa com barquinhos. Faço de homem na onda salgada e às vezes.

segunda-feira, julho 04, 2016

País das Maravilhas

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Queria Alice e o sonho. Nunca estar atrasado, beber chá e rir e entender os gatos, que a maldade nunca me alcançasse e o livro não terminasse.
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Nota: O livro «Alice no País das Maravilhas» foi publicado a 4 de Julho de 1865.
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Promessa

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Um dia subi à prancha dos dez metros e apontei os olhos à água e recebi o tiro do arrependimento e o som da vergonha e fitei o horizonte e esqueci-me e na queda lembrei-me de tudo e sobrando tempo desejei acabar a viagem e uma paz ansiosa de azul de bolhas translúcidas passando e antes dos azulejos regressei e no alívio prometi nunca saltar e arrependo-me.

Dias de noite

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Angústia

Luz
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Existência
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Angústia
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Angustência
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Tédio
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Tendência
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Dor
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Dormência
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Negro
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Incandescência
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Reclusão
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Residência
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Tragédia
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Clarividência

Olhei

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Há dez anos numa noite numa praia num atrevimento numa cama.
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Começo do final abrupto. Da morte e do morrer.
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Da morte se regressa. Da vida se regressa.

Túnel

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Deixo a pele e a carne num corredor comprido de escuro-néon entre dois incómodos, talvez recém-acordado ou em dúvida.
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Corredor de incumprir como nos sonhos. Ou surdo ou cheio ou esquecido. Voando como astronauta nas incertezas.
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Feito e preenchido por mim, do triste aos esquecimentos como se o coração parasse e a cabeça ainda.
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Meio caminho entre os infinitos num tubo de ângulos rectos de luz néon-negra, inalcançável – idem.
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Se acordo ou voo nas estranhezas, ignorando.

Anjo

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Se a angelitude ficasse na transcendência até de carne seria. Passaram-se muitos anos, dores, enganos, remorsos, reconciliação, perdão e amor. Se fosse de ouro nem de carne seria.

quinta-feira, junho 30, 2016

Arcanjo

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Disse o que disse e disse o que quis e só isso é digno de ser dito.
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Não te enganei nem me enganaste mas enganei-me e fiz com que te enganasses.
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O que seria nós se a luz viesse e se perdurasse onde estaríamos e enganos.
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Disse ainda ouviste-calaste em segredo quiseste e morri.
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O que seria nós se a luz viesse.
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Do desencontro viria o encontro com a luz só menos bela que a angelical.

Dissipação

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Desafio sem comparecer nem opositor. As armas são de fogo mudas de espírito. Céu sem importância e o vento e as folhas soam e soubesse de aves saberia. Não se apagam dias nem se matam vergonhas nem amores ressuscitam – ainda bem.
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Sonho muitas vezes que ando a cavalo que rapto e devolvo no segredo de ausência e campos planos, pântanos de receio. É enoitecer é madrugada é escuro mas não noite. Como pode sem estrebuchar, bater cascos, relinchar? Não posso com as costas, monto sem dor.
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O prazer da transgressão termina no desalento de cá dentro revirando-se. Acaba assim. Repito e vergonho-me e arrependo-me e prometo e transgrido. Vezes repetidas – pecado e penitência e castigo.
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Farto da angústia e da vida perdida das desilusões dos desencontros das infantilidades das canalhices. Farto da angústia da grande praça vazia do rio irrelevante. Se o vento se a coragem se a desistência.
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Antes de tudo de tudo-tudo antes de acontecer antes da mãe antes da morte antes da vida para trás sempre para trás ao instante primordial. Se soubesse do futuro. Angústia-tédio só angústia só tédio que nada leva e duvido se existo ou apenas dor.

quarta-feira, junho 29, 2016

Neo-realismo

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Não te apaixones por mim. É como conhecer os prazeres do Inferno ou lá ter de morar.

Antes de tudo o mais

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Bala na câmara, uma vida nova. Um lugar para ir que não seja de inmomentos. Que não repita enganos para a consciência não cortar como lâmina romba e cega e a vergonha.
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Há muitos anos, décadas. Longe e frio, corpo e mente, sangue escuro e para nada, no erro. Não aprendi nada e tudo dói. Não só por esse tempo, tanto por estes dias.
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Pudesse voltar ao ventre, daí para cedo, vida após vida, num vórtice onde leve chegasse ao instante primeiro. A Deus que não.