terça-feira, fevereiro 21, 2017

Letra T

.
Não sei se este livro, da autoria de Pavel Klushantsev, está traduzido para português. Traduzindo a partir do Google, o título em russo é «O que disse o telescópio» e em inglês saiu como «All about the telescope» (tudo acerca do telescópio). As ilustrações são de E. Voishvillo, B. Kalaushin e B. Starodubtsev. O grafismo é de Y. Kiselyov.
.
.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Todos os dias

.
Nem todos os dias será hoje nem sempre é para sempre
.
Já se inventou tudo e ainda o vazio que se agarra ao coração-cabeça, tenho-o nas mãos e sem o poderem segurar, e seguram.
.
Já se inventou tudo, infelizmente, e infelizmente não o fim, nem o fim apenas para mim.
.
Sem fim e sem dias, os meus, sem futuro, virão pesados.
.
Não temo a loucura nem receio o abismo dos nervos. Este vómito do coração-cabeça é o oitavo passageiro, a crise de mil-novecentos-e-vinte-e-nove, o monstro de Mary Shelley, o lobisomem do caminho entre a aldeia e a cidade, a cabra velha medieval e os deuses dos castigos.
.
Sei da sua surdez como não ser mudo, as suas orelhas ouvem como se as minhas palavras passassem noutra rua.
.
Cortinas pesadas de veludo teatral espaldam o drama, ocultando a pulsão trágica.
.
O coração-cabeça sorve-me como o mendigo a sopa numa noite de caridade.
.
Se ninguém é recluso, se depois dos muros há uma cidade livre, se vivem próximos, estou de sentido, imóvel como a estátua na praça deserta, no lado de fora.
.
Não, não é tragédia. Não, é o meu drama, comédia para alguém. Visto de longe, sou patético como se bradasse verdades na ágora, vestindo ceroilas e na cabeça o elmo de Quixote.
.
A maior parte de mim é remorso.
.
O remorso é pior do que a saudade e diferente o arrependimento, um alívio. Cada suspiro de remorso é um fantasma num lugar a preto e branco. O remorso é não ter as vítimas para lhes dizer do arrependimento.
.
O sangue do coração-cabeça é a septicémia do coração-cabeça-estômago-fígado-pulmão, é castanho e amarelo, fervendo de frio, a vida acabada no corpo teimoso.
.
Tanto faz diante dos cegos e dos surdos.
.
Sou invisível, sou mudo, sou fantasma, tanto faz que urine contra o vento.
.
Além há um rio de rosas.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Solidão com gato

.
Há muita solidão quando apenas um gato para ser ou dois ou três, como o vidro-martelado, das janelas das traseiras, sob a chuva numa casa sem voz.
.
Não importa se há vista ou saguão, nem mesmo a disposição de abrir as portadas. A solidão é e não as gotas e o tudo-o-mais.
.
Há dias de luz perene, como a árvore, não fenece até ao findamento, sabe-se da sua morte, quase o momento, sente-se e é noite ou tronco oco.
.
O relógio-de-pêndulo repete como o dizer dos velhos e tal é cruamente, o compasso é deixado a levitar.
.
Ah, o gato. Sob coberta quente, os olhos são a nostalgia e o gato quieto caça os fantasmas.
.
.
.
Nota: Este desenho tem por título «Solidão com um gato». Não sendo, assim, uma frase só minha, surgiu-me esta imagem quando pesquisei o complemento para a minha ideia.

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

As gomas

.
Negros são os dias dentro como as gomas pretas quase azedas e de carvão. Fora de mim é escarlate, cobalto e amarelo-verde-citrão, a Primavera da infância, a primeira vez na casa dos espelhos da feira popular e o primeiro sexo. Antes de nascer prometi-me na alegria, acreditei tanto depois de deixar o ventre, sem passado nem futuro vivi esquecido de ontem e amanhã. Pois carrego as ilusões, recusando-me a claridade. Não é sina, estupidez.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Mágoas

.
Não posso atravessar as lágrimas nem entrar pelo espelho nem abraçar toda a gente e tanto acreditava ser amigo de todos, não fossem os meus enganos-maus-tratos, as impaciências intransigentes para as minhas loucuras, e ainda creio, além de nu de amor-próprio.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Chuinga

.
Soprando, a chuinga faz-se balão. Mastiga-se e a saliva faz libertar o sabor químico concentrado que sabe a essência sintética de morango ou a o que se desejar e haja para comprar. Os miúdos vão à escola por alguma razão. Contudo, nada responde com verdade às elementaridades da vida, a essas e às seguintes depois das primordiais e metafísicas, velhas como o céu e o pau incendiado e a roda.
.
Nasceu pobre. Não fez fortuna nem o tentou, quis ser rico por sorte. Viveu amargurado com as contas e os desejos, viu os dias passarem, a vida a gastar-se, perdendo amigos, ganhando tristezas, vencendo coisas pequenas, iludindo-se sem se convencer, mentiu e mentiu-se, envelheceu desvalido, babando-se e comendo papas por não ter dentes. Morreu só e não deixou nada.
.
Em contrapartida, os cães não querem luxos e os gatos fazem o que lhes apetece. As árvores dão fruta e sombra. A Terra sustenta as necessidades.
.
Aqui as pessoas desejam vidas sem vida e noutros lugares tentam sobreviver. As tardes gastam-se em supermercados ou a procurar água. A algibeira não facilita diversões incomuns e outros nem têm do que comer.
.
Do lado ao outro existe uma esfera ou um cubo ou um cone ou uma pirâmide ou uma linha ou um ponto ou ar ou o elemento que se tiver ou inventar ou uma gaveta ou tudo ou nada e a cor ou os tons ou o branco ou o negro ou o infravermelho ou o ultravioleta ou o raio-x ou o nada e o som ou o silêncio ou a mudez ou a surdez ou a vontade de não ouvir ou o vácuo ou o nada e onde se está só ou a dois contando com o próprio a dobrar ou a dois ou a três ou outro número ou nada.
.
Nesse lugar ou povoação ou universo ou estado fica a arte ou que se quiser, superando a vida, eternizando a memória, muito depois dos nomes serem pó, e isso não importa nada.
.
Nada importa nada.

Aquela conversa importante


.
– Disseste-lhe?
.
– Disse.
.
– Ouviu?
.
– Ouviu.
.
– O que te respondeu?
.
– Nada.
.
– Como nada?
.
– Não disse nada.
.
– Mas porquê? Não entendo…
.
– Talvez não me tenha ouvido…
.
– Como assim?
.
– Talvez não lhe tenha dito…
.
– Diante dele vacilaste, foi o que foi.
.
– Talvez não diante dele.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Canção-de-água /// e roubei um barco ao Cesariny

.
Num navio-de-espelhos para o horizonte como geringonça de teatro. Só é drama de silêncio. Se olhos invisíveis vêem, calam-se no tempo íntimo.
.
O navio-de-espelhos voga em canção-de-água e vagarosamente corta o chão, enleado na monotonia do coro de sereias. As fábulas inventam-se e são absolutas no tempo sem horas.
.
O navio-de-espelhos parece ir, mas não vai. A água de sal e escuridão é tragédia de teatro, o vento sopra-se numa coisa acornetada.
.
Na escuridão sem velas, nem luz nem viagem, parado esperando ir e qualquer coisa.
.
Quando não me vejo, não estou e se não estou posso não ser. Falo alto e oiço-me, neste chão de madeira e mar. Nada me garante que seja eu.
.
.
.
Nota: «Navio de espelhos» é um poema de Mário Cesariny. Este meu poema não tem qualquer ligação consciente ao de Cesariny. No entanto, a imagem desse navio insistiu em aparecer-me durante toda a escrita.

Aver

.
Era tão pobre que ao seu único haver faltava o agá.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Palavra e silêncio

.
Desde que poupo vírgulas e palavras sou muito mais. Provavelmente também.

Isso dito amor

.
Quem ama consciente ama inconsciente.
.
Quando se abre a porta e não se deixa beijar, por que abrem a porta?
.
Quando acordo e ainda estou, por que não fui?
.
Quando acordo e ainda está, por que não fui?
.
Quando a cama é derrota depois da vitória, é inconsciente quem ama.
.
Por vezes, ir é ficar e também.

Repouso

.
Silêncio por nada se da morte. Da vida por nada também.

Buraco no tronco de árvore

.
Os olhos vêem e quase só vemos o que a certeza vê. Se disto a certeza souber seremos algures vendo o que a criança vê. Se cabeça-coração-fígado-pulmão quiser, o tempo é difícil não ficar.

Premonição posterior

.
Escrevi tanto, quase nada sei das minhas palavras e da vida que jurei conhecer. Houve amor e tragédia, doença e fuga, chegada antes da partida e principalmente eterno no lugar.
.
Não me ouvem porque tanto disse e falei além. Tudo isso somado é a voz frágil do homem-invisível.
.
Não sei o que disse, por memória e pertinência. Uma bola na inclinação, que os velhos não chegam, e o ácido que os miúdos recusam.
.
Maré-cheia e maré-viva, chuva na água.


E não as deixeis cair em tentações

.
Escrevi tantos versos mas com eles não colhi camas, só encanto e ingratidão.
.
As mulheres não querem poetas, têm medo de tapetes voadores.
.
Preferem silêncios estagnados ao vermelhão.
.

A lei da gravidade do momento

.
Saltar não é azar. Azar é cair. Também se cai saltando e aonde é ficar ou mudar. A morte não empurra e consciência muda.

terça-feira, fevereiro 07, 2017

Três perguntas essenciais

.
Se sou fantasma por que não te arrepio? Se não me vês por que não te desnudas? Se não te puder ter por que não te entendo?

Pássaros

.
Se fosse um beija-flor e me segurasse no ar, tirando da corola dos teus seios doces, seria sonhando ser majestade como a águia, ousado como o corvo e manso como o pombo. Se pudesse ainda, seria feliz saltando como o pardal.

Cama

.
Quando se colhe da árvore de fruta é-se fogo. À sua sombra saboreia-se longamente o suco e a polpa. Enfim cansado se adormece.

Luz e chuva

.
Quando se despe a flor perguntando bem-me-quer e malmequer. Quando se mostra a pele respondendo. Há luz e sua sombra, é fim antes do começo indo ao fim.
.
Quando se despe a flor perguntando bem-me-quer e malmequer. Quando se chora. Há só sombra, mesmo que o mundo seja escuro.

O estranho verbo tomilho

.
Eu milho
.
Tomilho
.
Ele milha
.
Nós milhamos
.
Vós milhais
.
Eles milham
.
.
.
Nota: Sim, o verbo é manco dum «S» e trocado de «A» e «O»

Ego

.
Perguntaram-se se não tinha amor-próprio. Fiquei sem resposta por desconhecer. Fui ao dicionário e li espelho.
.

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Estar e levar

.
Posso ver-te nua? Se não me permitires, serei um fantasma no espelho – sem a densidade para fazermos amor, mas sabendo para quando me tiver sozinho.