digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, junho 06, 2019

O caminho das pedras

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Se disserem que tenho pressa, irei à velocidade das lágrimas.
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Numa água de mau-marear, pior do que perder o barco é perder o mar.
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Até a água-chão não tem freio nem impedimento, tão abrupta quanto a torrente-súbita.
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Saltando do leito, o caminho de vai-vem fecha-se como muralha – não há atalho nem rota-mais-longa.
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O caminho atrás de mim não será caminho, nem até queimado.
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As pedras todas feitas inúteis por maldade serão o muro – atrás dele me fecharei do lado de fora.
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Nenhuma rocha será pista, porque apressado não terei espera para as semear.

Cada dia


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A minha vida não dá um sonho.

quarta-feira, junho 05, 2019

Siga em frente e vire na segunda rua à direita


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Não conhecerás a vida do silêncio.
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Nem distinguirás os dias da morte olhando para.
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Digo-te, porque pareces ser uma criança inteligente:
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– As coisas partem-se. A princípio custa um bocadinho perder.
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O jarro de vidro, lindo de esbelto, partiu-se porque uma gata.
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O livro perdeu estória ao molhar-se no banho.
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Sobrevivi, lembro-me e já não me encanto.
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A ti, que pareces ser o que queres parecer ser… digo-te:
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– O fumo mostra.
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Tu, que és de conhecimento de qualquer partícula do muito ou do pouco e até da esperança de não saber…
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Digo-te com o atrevimento de quem pensa pouco no que diz:
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– O Sol, a luz e o dia vencem e perdem.
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Mas se tiver de ser, perdem e perdem como o eclipse, o reflexo lunar, o lusco-fusco, a penumbra, a sombra, a noite e o passado.
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O medo esconde-se na luz e escondemo-nos na noite.
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Como o temor divino do trovão e o espanto da luz calada do Demónio.
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Sem pensar não chegarás ao silêncio mas as tuas perguntas não se ouvem.
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Diz-me o que é o silêncio.
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Não to posso mostrar porque apenas na soberba da modéstia exagerada.
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Fico assim parecendo-te vago ou estúpido.
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Modestamente estúpido.

A novidade


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Novo não será nem foi. Haverá tanta coisas assim perenemente caduca mas não me ocorre nem me apetece o aborrecimento de procurar nem me dá vontade de saborear a vitória ou o sangue da derrota.
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Por isso e porque quero, é. Porque aqui é o meu querer todo dos momentos, da glória ao arrependimento.
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Por isso, tanto me faz.
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Por isso, novo não será nem foi.

terça-feira, junho 04, 2019

Como também se faz o negro


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Se não sabe o escuro não compreende a cor. O negro se faz pelo vermelho e demora a explicar as outras quase quanto a vida e o seu sentido.
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Demorado de contar resume-se a deixa lá, um dia conto.
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Se incompreende, talvez um dia conte.
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Como o espanto do assalto pela bolsa ou a vida, talvez um dia.
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Possa o cego ver e o tolo compreender.
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Que o escarlate furtivo do fazer vida é negro.
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A luz-negra dá à luz a inclaridade e a sombra da sombra.
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Não há verdade que a luz não revele até essa.

domingo, junho 02, 2019

Os estranhos


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Só falo aos estranhos que conheço, incerto de desencanto.
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Estrangeiros, caminham paralelamente afastados à distância duma mão.
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Excepcionais, falam línguas que não conhecem além da boca.
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Extraordinários, juram palavras de bondade, guardando os enganos na boca com que beijam.
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Nem os desastres configuram os rostos desfigurados no leito da água de toda a maneira.
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A água não mente, mas com água se.
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Deitado no leito da água trago e também o intragável.
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A água traz e o barco leva e a água leva.

sábado, junho 01, 2019

Previsão do tempo

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Previsão meteorológica:
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– Céu limpo e calor temperado.
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Quase como aqueles dias todos, de calor desmesurado, onde distante mais distante estive enganado na vida.
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Lá fora como nesses dias, a imprevisão meteorológica:
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– Chuva em cada feixe e congelação na ascensão ao Inferno.
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A previsão meteorológica:
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– Céu limpo e calor desmesurado.
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Longe só à noite o repouso em bem porque foram tempestades da vontade.
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Se veleja ao contrário do mar não há previsão se haverá uma praia para pernoitar seja a que for.
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O tempo é inexacto.

quinta-feira, maio 30, 2019


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É a esquina, a paragem para a vista e conhecer que as estradas são rios e o caminho obrigatório não é das marés e das correntes, é do que tem de ser.
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O resto são o beijo da chegada e o abraço da partida. Tanto faz.

quarta-feira, maio 29, 2019

Dela cair


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Bebi do copo na fonte e da boca e deixei-me molhar no tempo dela cair e da geada se formar.
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As pedras cinzentas banais do coração molhado são-me do que quiserem e não as querendo.
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A água é ponte daqui lágrima e dali vida.
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Se a água é parda e o pesar manda por si.

Gatos porque os vi ao Sol


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Um dia voltarias, assim o Verão chegasse no minuto quando entra a primeira brisa levando as cortinas de finura translúcida e o gato a recolher-se como doutra vez igual ou diferente.
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Falavas-me da Lua e dos gatos, das Luanas e da Lua, das Lunas e da Lua e dos gatos da Lua, como todos os gatos.
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Sabes como sei da luz e dos incensos, da magia mística junta a folhas de plantas esquisitas e outras, acolhidas nas caixas de madeira e embutidos de osso, não escondidas e sim recatadas.
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Sabes dos cheiros do que não fumámos.
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Sei desse ímpeto, coisa de bichinho perfurador e hoje sei explicar como sabia e ainda. Recordo-me da minha sombra na areia e do frango junto à estrada da volta.
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Dos gatos tibetanos bebendo nas taças e a luz forçando as cortinas na entrada com o vento nas tardes infinitas até às noites.
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Como breve se foi sem nada ficado como os gatos na luz e no luar. Sem te amar foste e no ficares foste amada. Saíste como chegaste como os gatos do telhado à luz e ao luar e ainda mesmo nas casas.
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Sabia que voltarias sem que te amasse e esquecida me lembrasses dos gatos, da Lua, das Luanas e das Lunas, das taças tibetanas, dos incensos e disso tudo que unidos nos separaram.
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Não por isso e ficamos assim numa sombra na praia, estéreis.
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Estéreis mudos esquecidos por só por lembrar se lembra, estéreis. Se não ficou foi para não ficar, só centelha por causa de ver um gato ao Sol.

terça-feira, maio 07, 2019

No Museu de Santo António


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O meu pai não pintou muito temas religiosos, quase nada. Talvez por ser lisboeta ou por ser do mundo, Santo António ficou bem no coração do mestre e este é um dos raros trabalhos nesta temática.
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Hoje libertei esta pintura a petróleo, que encontrou casa no Museu de Santo António. Situado junto à Sé Patriarcal de Lisboa, é uma reunião pequenina, tratada com rigor e agrado. Quem quiser pode ser rápido ou demorar-se.
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Agradeço a disponibilidade e o acolhimento de Pedro Teutónio Pereira, responsável pelo Museu de Santo António.
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Nota: A fraca qualidade da imagem não se deve ao pintor, mas ao fotógrafo (eu).

Estrela da Sé, por causa do Santo António


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Comi a melhor musse de chocolate. Quase aos cinquenta, o doce das crianças é-me, sem qualquer memória daquela, qualquer coisa que, não o sendo, é luz, por falta duma banal palavra – acontece falhar um termo no conceito-língua. Como pude esperar. Aguardei porque há o dom da ignorância e do privilégio do conhecimento.
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Não pergunto, sou claro: como pude esperar. Graças – a quem ou quê, na falta doutra coisa-ser – ao dom da ignorância e do privilégio do conhecimento.
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O resto já sabia. É comida do sempre, da Lisboa do meu pai – a minha mãe não é daqui. Dá tanto trabalho explicar, muito mais do que dizer. Vagamente, guardando por pirraça, sedução ou impaciência.
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Se não sabem, leiam a cidade inexistente – ainda antes dos turistas a ocuparem –, passem os olhos pelas ruas fixadas na verdade das fotografias e na infidelidade dos traços.
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Se não sabem é porque foram morrendo, movendo-se para a borda da terra e sem vergonha de perderem a aldeia da foz do Tejo – todas as aldeias definham, assim Lisboa.
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Perto da Sé, só não conhece o milagre da sobrevivência quem não olha para cima nem para baixo, apenasmente para uma coisa qualquer que nos livrinhos e cibernáticos se lêem.
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A Estrela da Sé existe, não está escondida, não foi devassada e é uma verdade, porque não é quem não é. Não finge o passado nem se nega a qualquer vento de feição que possa soprar para a tal-coisa-que-preguiçosamente-se-chamará-luz.
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Há as ceboladas, os bacalhaus, as veganices e a musse de chocolate.
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A musse tem segredo à vista como a casa de pasto. Não se esconde nem se exibe. Só não vê quem.
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A Estrela da Sé é o que é e tenho a certeza de quem ama o que faz – e com a chave da porta da mina de ouro – é fiel, não se vai embora, porque pertence à cidade.
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Só quem não leu a cidade pode incompreender.
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Nota 1: voltei hoje ao Estrela da Sé, por milagre de Santo António, taumaturco com o menino que o meu pai pintou e ficou para o Museu de Santo António – ali juntinho à Sé Patriarcal de Lisboa.
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Nota 2: A qualidade da imagem é péssima, não por culpa do pintor, mas do fotógrafo (eu).
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Espelho

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Se voltasse voltava para não voltar a sentir-me assim como me sinto, volta-não-volta, por me voltarem, à cabeça, dias que estraguei.
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Que vergonha!
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Como me posso vestir sem ver ao espelho? Como me posso ver com a memória? Porque, não há volta a dar. Como me posso vestir sem ver ao espelho. Como me posso ver com a memória.
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Disso tudo, saboreio as canções. Do resto.
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Resta-me saber o bom e entristecer do mal.
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Sinceramente, não se ralam – quase certezo.
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Sei, lembro-me e envergonhado.
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Não há volta a dar.

quinta-feira, abril 25, 2019

Pai hoje


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O meu pai – nesta vida – faria hoje noventa e cinco anos. Hoje era o melhor dia, não pelo seu aniversário. Era supremo, dizia que esse, o de setenta e quatro, fora mais feliz do que os da luz de qualquer um dos seus três filhos.
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Manuel Jorge afirmava-se comunista – não porque o fosse por absoluta convicção, mas pela gratidão aos tombados contra o Estado Novo. Assumia-se, ainda que, ocasionalmente, vertesse em incontida denúncia de engano.
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A verdade – a sua, generosa e real – corria-lhe íntegra. Como outras coisas, nascia-lhe infantilmente e seguia em curso selvagem. Por essa consciência, nunca quis ser um combatente da ditadura – não se sentiu capaz de ajudar, por isso recusou-se a estragar.
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Escolhera assim ser comunista. Não o sendo, era-o, porque, tal como ele, o pensamento era autoritário. Os pais não são perfeitos, o meu era dogmático, com a violência emocional que tal implica.
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Sei que numa ditadura comunista, Manuel Jorge seria anticomunista, porque amava a liberdade. Para si e para os outros, mesmo sendo tirano em família. O meu pai era uma contradição!
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Tanto era comunista quanto dizia que talvez não o fosse, mas grato, foi com bondade que se ligou ao Partido Comunista Português.
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O meu pai era verdadeiro e íntegro! Já agora o escrevi.
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Como agora, escrevi que se ofereceu ao Partido Comunista Português, repito. Deu-lhe tudo e nada recebeu em troca, nem pediu ou desejou. Como artista plástico – dono do seu tempo, vítima dos ganhos em moeda e da irregularidade do recebimento  – deu-lhe tempo de trabalho, materiais e disponibilidade para tudo o que fosse preciso, fosse como trolha na Festa do Avante ou segurança do recinto.
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Aos setenta e muitos anos, Manuel Jorge estava insensível das mãos e trémulo dos olhos. Foi morto pela natureza, chegou ao fim a arte nos dias. Do Partido Comunista Português não recebeu qualquer homenagem – coisa que não exigia nem gostaria –, louvor ou agradecimento. Foi abandonado, como são abandonados, nas ditaduras, os sinceros e os inúteis. Manuel Jorge era ingénuo, mas inteligente e sábio – teve o infortúnio de ser genuíno e franco.
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Não por vaidade nem por orgulho ofendido – nunca quis a justiça com que deveria ter sido tratado pelo Partido Comunista Português –, Manuel Jorge percebeu que não era comunista e, nos seus últimos anos neste corpo, nesta vida, feneceu sem o dizer – nunca o diria, não por vergonha, só era assim o seu modo.
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Um dia, o cobrador das quotas bateu-lhe à porta para colher o dízimo, a parte da renda do senhor terratenente, e Manuel Jorge falou com o humor de toda a sua vida, a brutalidade da sua franqueza e a ingenuidade dos autênticos.
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A minha mãe disse-me:
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– Não sei o que o teu pai lhe disse.
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O recebedor saiu porta fora, batendo-a incrédulo e ofendido, remoendo qualquer coisa de ódio. Manuel Jorge nunca contou dessa curta conversa, nem mostrou sentimento, nem suavemente.
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Manuel Jorge não deixou de ser comunista por causa do abandono. A arte finou-se em mil novecentos e oitenta e oito e o cobrador resmungou pouco tempo antes de Manuel Jorge ter cumprido a sua vida, em dois mel e quinze.
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Deixou de ser comunista porque era sábio – da sua sabedoria. Possivelmente, deixou de ser ingénuo, continuando franco, directo e frontal.
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Como comunista, ganhou rancor ao Partido Socialista e a Mário Soares, por causa dos anos do Período Revolucionário Em Curso – nunca desejou a morte de ninguém, mas, se pudesse, mandava o político para um sítio em que não o visse nem ouvisse nem pressentisse.
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Com a genuinidade de quem tem uma certeza, afirmava que, se não existisse o Partido Comunista Português, seria do Partido Social Democrata e até tinha simpatia por Francisco Sá Carneiro.
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Já o escrevi outra vez agora, Manuel Jorge era ingénuo. O meu pai acreditava que os fachos estavam no partido do Centro Democrático Social – afastou-se do catolicismo romano por causa do padre da paróquia de Santa Engrácia, que fazia campanha a partir do púlpito. Vertia cólera devido às desavenças dos primeiros dias de liberdade e do terrorismo ideológico – na verdade era cruzado, recíproco.
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Manuel Jorge tinha essa zanga, porque era ingénuo – escrevi novamente agora. O meu pai não percebeu que muitos, talvez quase todos, não apoiavam a ditadura por ideologia, mas por situacionismo – faziam pela vida e a revolução estragou-lhes a existência.
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Esses – não sabia – queriam a fonte no bolso e mudaram-se para os partidos que vencessem nos votos. Para o Partido Socialista e para o Partido Social Democrata, sobretudo para este último.
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Tenho quase a idade que Manuel Jorge tinha no vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro. Não sou mais sábio do que o meu pai – muito longe disso. Viveu muito mais do que eu até esse dia, até depois. Porém, só me falta um ano.
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Apesar de ser também ingénuo e tristemente frontal e verdadeiro – da minha verdade – sou muito menos do que ele, mas já vivi alguma coisa e anos diferentes dos seus, em tempos e idades diversas. Conta-me a existência que os fachos – os reacças falam pejorativamente da revolução como abrilada e do vinte e cinco do barra quatro – estão sobretudo num lugar diferente do que acreditava o meu pai.
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Manuel Jorge faria hoje noventa e cinco anos. Era religioso por ânimo e revoltado com a Igreja Católica por azar – nunca o desdisse. Embora eu sendo cristão espírita, dei-lhe, por respeito – também pela família –, um funeral católico romano. No final da liturgia falei ao padre – depois escrevi-lhe a agradecer – o quanto admirei a homilia, porque fizera do meu pai um homem e não um santo.
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Manuel Jorge, na sua verdade genuína e franca, afirmou tantas vezes que a morte não torna as pessoas boas. O meu pai era ingénuo, mas era sábio.
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Já agora que revelei que foi dogmático e totalitário – o que os íntimos sabem –, nunca me criticou por eu ter deixado precocemente a fé na religião comunista. Também tolerou, com idêntica abertura, eu ser apoiante – quase sempre – do Centro Democrático Social.
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O meu pai era uma contradição. Mas.
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Por tudo o que foi o meu pai – desta vida – faço-lhe, como sempre fiz, uma homenagem, onde cabe um brinde com o melhor vinho que tenho em casa.
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Apesar de todos os muitos seus defeitos, amo muito Manuel Jorge. Das poucas virtudes que tenho, a maioria devo-as ao meu pai.
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Nesse


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Sentei-me e a janela abriu uma chuva tardia mas antiga, que tenho memória sem nostalgia. Essa é caruncho de indeterminada ausência, em mim. Sem arrogância, com sorte ou inconsciência de a ter, não voltaria. Dizia da água na fonte do que venho falar.
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Se pudesse voltar era rio doutro curso e em leitos donde não dormiria – pouparia a pedidos de dor na garganta a quem não encontro.
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Dizia chuva porque no tédio nem sempre vive a morte. Não me lembro de saber da melancolia escondida e muda. Se sempre a tive como mãe-irmã-mulher estou onde não sou.
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Estranhado desconheço-me aqui e incompreendo. Nem assim palpito o pesar-memória-saudade.
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Sem ter o sofrer e só saber-me inostálgico.
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O que faço, então?

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

Gelo como no Verão


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Vivo uma premonição, como o gelo que às vezes o Entrudo.
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Repentinamente lembrei-me e aquela dor ficou onde estivera.
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Foi quando te soube nua. Como tu outra neste agora de antes há uns tempos.
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Agora a dor da nudez que não toco nem sei nem percebo nem consigo querer compreender.
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A pele só pele antes sem pecado e agora de antes há uns tempos na vergonha de sem-vergonha.
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Sim, qualquer coisa, uma sirene chegando e partindo depressa ou a chuva repentina como antigamente.
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Sei há muito tempo sofrer e não me habituei por mais habitual que seja.
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Hoje não sei nem se será como em todos os Verões neste agora de antes há uns tempos.
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Quando Julho ou Agosto ou Setembro uma nudez perdida e achada por alguém.
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Se a minha casa fosse outra e o eu for a do meu corpo.
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Se eu pudesse ser um outro, nem que fosse por desexistir. Mais tarde recriado sem vida antes de.
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Se eu não fosse e as premonições não viessem.
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Quantas tu tenho para contar dessa nudez que não vi noutros lugares.
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É uma premonição, um sono repetido e descubro. Como és bonita quando fazes amor.
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Sinceramente, muito banalmente digo que não sei onde moro nem sei se tenho sonhado que vivo.
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A escuridão voltou ao anoitecer como a manhã fôra de punhal e o dia de torcer de vagas.
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Sinceramente, muito adolescentemente digo que não sei quem sou nem se sou.
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Sinceramente, repito que não sei o que faço aqui nem se neste lugar tenho vivido nem se sonho um pesadelo de ausências, da minha aos tu da minha vida.
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É Julho, Agosto e Setembro no Entrudo quando tu nua me desapareces e surges despida noutro luar.

terça-feira, novembro 27, 2018

Água e estrela


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Sou-te e em ti sou-me. Em ti sou e em mim despejas-te como o rio da vida na direcção de ir ao local certo por nós sabido desde o teu primeiro ver-me e meu tremor.
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Tenho-te caída sobre o peito e igual em ti. Tens-me como sempre no amor incansável da água que transborda e da que falta.
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As noites afastadas não se juntam por dor ou passado. As noites de acolher são de tudo e sempre.
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Não duvides do teu amor nem do meu. Assim do prazer, além do mais em todo – completo a ti de quem não duvido amor, além do mais em todo – não duvides.
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Fogo impensável por ser rio, incansável pela vontade do muito-amar.
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Amar-te é amar-me – os dois de tudo – daí revela-se igual.
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Por tantas viagens é esta agora o destino. Isso diz a luz e a voz da certeza-certa-celestial. Aliás mais.
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A multidão dos abraços furacãoza quem-engano-erro-desamor-olhos-coração-mente sopra as maldades da inveja e da matéria. Como seja ferro, o rio fará ferrugem.
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Nunca desistirei do destino. Tu é igual – sei porque as dores se evaporaram e choveram como alegrias.
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O destino corrige as margens da água enganada no leito. O mar só é mar se rio lhe chegar.
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Ser o destino do outro é o nosso destino. Só precisamos seguir a estrela e a ela chegar.

sábado, novembro 10, 2018

Gente viva

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Há dias em que se morre um bocadinho.
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Esses bocadinhos de morte é que são morte. A outra não existe.
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Há que sobreviva ao amor? Ao perdão? Por aí, por aí.
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Quanto se morre quando se mata. Assim, sem perguntar a resposta, devolvendo questão.
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Das palavras ao ouvido-coração-cabeça e até no movimento do gesto, o jeito de matar e vontade ou fome ou jejum.
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Hoje morri um bocadinho e em mim caíram bocadinhos de mortes.
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Não morreu ninguém. Morremos e morrem-se. Nas-das doenças do cuidar, onde se é frágil e o colo até talvez baste. Ou bruto e o regaço até talvez chegue. Da fealdade do desencanto.
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Vejo mortos diariamente e julgo a certeza de terem vida. Esta e não a do após o corpo desfalecer.
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A morte de que falo des-é corpo e des-é tempo e des-é tudo.
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Os dias da sobrevivência, não pensei o que são, se do corpo se do fluído ou se do plasma ou se.
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Não se pensa para se sentir nem para isso existe o corpo.
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Quando digo morte falo da ausência que se descobre, da perda sem aviso.
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É disso, a morte.
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Porque, de resto, a morte não existe.
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Vemo-nos por aí, daquém e dalém.
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Havemos de ir para voltar e por lá de modo gémeo.
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Vivos, sempre.
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É fácil inconseguir aclarar a mediunidade, nem sei se maior ou menor revelar da morte.

sexta-feira, novembro 09, 2018

Cristal negro – oitenta anos

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De nove para dez de Novembro de 1938.
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Pensa em quem és hoje, ainda que te lembres da última vida.
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Se significar – porque significa – mais do que acomodar a culpa, plasma a consciência e faz, a coisa como conseguires, para o pensamento não manchar igual à memória.
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Se significar – porque significa – mais do que acomodar a dor, plasma a dor-mortal e faz, a coisa como conseguires, para o pensamento, não esquecendo, te apazigue a memória.
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Noite de Cristal é uma expressão poética, cheia de negrume. É antes negrum – aquela ausência da luz, desfazendo o «E».
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É expressão tenebrosa!
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O cinzento das fotografias não mostra o cinzento-verde nem o negro furioso do assalto furioso.
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Nem o amarelo da estrela.
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Pensa no que não queres.
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Que o tido de outrora seja uma arma para pedires perdão.
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Pensa em quem és hoje, ainda que a estrela te esteja pregada.
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Tenta lavrar o teu pedido, em paz, para o perdão.
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Tenta perdoar.
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Um dia serão capazes.
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Talvez ainda por mais uma vida, para.
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Neste momento, faz a paz. Talvez lembrando-te de quem foste.
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A memória inesquecendo – o inesquecível – para outrora não ser a qualquer hora ou mais uma vez.
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Não volte a acontecer.
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quarta-feira, outubro 31, 2018

Flores

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Pétala a pétala a pétala e a pétala. Pétalas-me a pétalas-me a pétalas-me e a pétalas-me.
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Já nus, olhando-nos, cantamos em conto as pequenas folhas de malmequer e bem-me-quer, sabendo da vida o prazer.
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Sabendo, sabor e sabedoria, vamos. Entende-se, onde fomos e iremos sempre que.
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Vendo-te, ui. Vendo-me, ui.
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A vida é assim vai-e-volta.
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Dessa maneira aiando, naquela dor do prazer, do que somos em todo, abraçamo-nos.
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Quando o calor interior arrefece na pele, o beijo-ponto-final. Ainda esperando saciados esperando, o beijo-reticências.
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Etecetera. Etecetera e tal.
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Pétalas-te a pétalas-te a pétalas-te e a pétalas-te. Pétalo-me a pétalo-me a pétalo-me e a pétalo-me.
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A vida vai e volta, daquele antigamente ao iremos até onde, assim também em vai-e-volta.
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Pétalar, cola de unir e consolar.

sexta-feira, outubro 05, 2018

Assim politeísta


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Adoro a Deus.
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Amo-a.
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Adoro batatas fritas.
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Tragam-me maionese e, devotamente, como-as.

Onde se deixa


Alguma vez disse que não te amava.
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Quando não se, é porque.
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O coração é, vindo e daí.
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As pessoas levam a vida demasiado.
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Quem se aborrece por pouco, estará quando for.
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Os esquecimentos do costume.
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Desleixo de leviandade.
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Leviandade do desleixo.
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Tenho não dito.
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Faltando, o é – não sei.
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Talvez no final do mês.
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Um dia para.
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Alguma vez disse que te amava.

Estações

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A árvore do Inverno acolhe-me na ramagem, para o frio ser fora e anteparando-me da água.
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A árvore da Primavera alegra-me pelas cores das flores dizendo promessas e os animais falam.
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A árvore do Verão sacia-me com seus frutos e sob si há a sombra.
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A árvore do Outono concede-me descanso e visto-me como se fosse eu alguma das suas cores.
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As quatro são uma e a sua luz é a claridade dos dias passando e eu ficando junto sem querer ir.
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Sob a sua vida, sou a parte da terra.
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Sou a Terra a que se deseja segurar.
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A árvore é uma luz que chega do céu.
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Que me leva onde.
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O amor não precisa mais.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Angústia


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Na noite de desassossego é noite. Vezes de muitas noites. O tempo não se move e hora a hora se vêem as horas e passou uma hora. Insegurança dita perfurantemente. A noite não acaba. Pela manhã, incomodidade, porque a noite.

terça-feira, setembro 25, 2018

Assim


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Quero escrever eternamente poemas de amor, dos pirosos aos pirosos. Pretendo levar a vida teclando textos com parágrafos de amor, dos pirosos aos pirosos.
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Quero ir do amor rodando os dias. Quero o amor indiferente aos movimentos de rotação e de translação.
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Quero o amor para lá das luzes, das estrelas do longe, das chegadas depoismente da sua morte, doutras quaisquer e do Sol.
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Quero mergulhar no mar todo e lá encontrar amor, do piroso ao piroso. Quero descer ao núcleo e de lá trazer amor, do piroso ao piroso.
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Quero tudo isso. Irei entregá-lo à luz da pirosada que sinto por ti, Flor de Luz.

sexta-feira, setembro 21, 2018

A água quando nasce tem o rio para ir ao mar


fhrei
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Da plataforma número um o trem até à gare da meta.
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Entre uma e outra estação pôde descarrilar, ficando no odor sobre o aço, o óleo, a madeira e a pedra.
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William M. Vander Weyde

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Por caminho de engano.
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Noutro horário saiu da linha número dois o trem destinando-se ao cais da sina.
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Entre uma e outra estação pôde descarrilar, ficando no odor sobre o aço, o óleo, a madeira e a pedra.
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Levy & fils
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Por caminho de engano.
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Noutro horário – cada no seu lugar-nenhum – saíram dos escombros até à plataforma do desacaso.
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Imediatamente os maquinistas-passageiros reconheceram a linha de ir até.
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kerko

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Dos desastres à celebração.
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Os comboios coincidentes chegam sempre à mesma estação.
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Roman Loranc


quinta-feira, setembro 06, 2018

Objecto-corpo desistido

A depressão pode chegar até onde alguém deixa de ter ar e esperança. Peço àqueles que, por uma situação aflitiva duma vontade desesperada, sentiram, de alguma forma, o epílogo da violência desesperada numa derradeira coragem.
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Não encontro imagem-ferramenta que explique. Até será melhor. Quem sabe é quem sabe.
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Não encontro outras palavras. Não li corrigindo nada. Este texto é o que é. De quem compreende o que é.
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Hoje vi-me num corpo-objecto parado.
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Um suicídio é sempre um suicídio, tenha o objecto-corpo terminado ou salvado.
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Não faz diferença, um suicídio é um suicídio. Não é outra coisa.
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É a morte – aquela que diz a maioria.
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Um suicídio não é outra coisa do que um suicídio.
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Resgatado pelas mãos chegadas em afogo-desesperado de quem tem esperança.
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Ainda, aquele objecto-corpo era assim morto.
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Morrendo mais quando for – da morgue-terra ou da morgue-de-perdurada do sol-não-sol.
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O suicídio é do espírito deslargado do corpo-objecto porque.
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Não se sobrevive ao suicídio. Qualquer coisa-tanto-faz.
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É a dor de escolher, na coragem inestimável da solidão.
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O corpo-objecto é não-vida e matar-nos é ser não-vida.
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Seja aquilo vindo ou aquilo ido.
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Recupere o corpo-objecto, na dor inestimável da solidão.
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A dor inestimável da solidão é incompreensível àqueles que não.
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Estar diante das desrespostas não faz sentido quando as desrespostas são a resposta.
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Tanto faz como se chega ao não-lugar.  O não-lugar é único aos olhos-alma.
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Não era o meu corpo-objecto. Eu estava ali morto.
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Fui sobrevivente-morto, tantos tempos. Egocêntrico, eu era aquele corpo-objecto derrubado na solidão que.
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Na calma-quieta do suicídio, eu estava ali à porta do não-lugar, que só se.
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Pela mão da coragem de não ter coragem. Pela mão de não ter coragem de ter coragem.
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Não importa como. O suicídio é sempre instante-prolongado-agoniante. Aloja-se dentro muito tempo e quem não, não pode.
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Só quem, compreende absolutamente.
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De tanto tempo. Por tanto tempo.
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Aquele corpo era o meu – é o meu.
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Não chorei aquela vida-corpo-objecto-suicidado.
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Pensei-tentei-orar e não consegui.
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No meu egocentrismo, aquele corpo-objecto era o meu. Por isso tanto faz.
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Não chorei tal.
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Não choro almas idas ou corpos-objectos derrubados, por vontade ou por contrato.
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Não choro e não me incomodo.
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Tantas vezes me chorei demasiado prendido ao corpo-objecto.
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Contudo, ali.
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Como sempre, não choro.
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Aquele corpo-objecto era o meu e não chorei, porque não o faço por ninguém.
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Diante dos olhos contemplei o meu corpo-objecto e eu que tantas vezes me chorei não me comovi pois aquilo a que a maioria chama morte não me comove.
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Não me senti. Não me sinto. Nunca me senti.
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Apenas quem compreende o que os outros não.
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Assim olhando o corpo-objecto desprendendo-se.
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É duro. Muito duro. Não sei escrever nem.

Coisas que se dizem e podem dizer porque se podem dizer


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Disse-me:
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– Não dizes nada?
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– O que queres que te diga?
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– Não notas nada?
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– …
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– Passei horas no cabeleireiro e não dizes nada?
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– O que queres que te diga?
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– Irritaste-me!
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Que estou linda!
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Deixa estar…
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– Por que te haveria de dizer isso?
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– …
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– Estás sempre linda!
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És linda!
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– Mas arranjei-me.
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Foram horas!...
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– Amor, é impossível seres mais bonita de que sempre és!
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– Então não valeu a pena arranjar-me…
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– Claro que valeu!
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– O quê?!
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Não entendo…
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– Temos um novo motivo de conversa.
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– Parvo!

quinta-feira, agosto 16, 2018

Lábios do mesmo beijo


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Vivo o sonho de ter sonho.
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Dá-me sonho e retribuo-te.
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Adormecendo em ti, deitado em ti.
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Caídos no ardor desejado, a luz. Onde pela luz és tu – só tu toda inteira.
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És-me antes, agora e depois, de tempo sem o ser.
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És em mim como se me desflorasses – eternidade.
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Vivo como num sonho de sermos abraçados-beijados.
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Estou nesse delírio da impávida felicidade de sermos.
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Pairo no devaneio da verdade, bebendo-nos numa febre macia de ternura.
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És do encantamento de. Em nova revelação.
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Seta de Cupido vindo-nos.
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Depois, regresso e volto no país da felicidade.
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No meu sonho, sonhas comigo.
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Não há muitas verdades como esta.
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Nem ninguém como tu.