sexta-feira, Setembro 19, 2014

Tantas duquesas e só uma rainha

Cada pessoa é única, mas insistem. Por vezes insistem e insistem e depois desistem e inventam e insistem e falharão sempre. Duquesas, sim, mas rainhas, não. Por ordem crescente (embora de cima para baixo), em termos dos números de afirmações e certezas,  num ligeiro e curto esforço, enumero as «novas» Amália Rodrigues.
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7ª – Cuca Roseta – Quem és tu afinal?
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6ª – Mafalda Arnauth – Mar fala de ti.
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5ª – Katia Guerreiro – Fado dos olhos.
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4ª – Ana Moura – Desfado.
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3ª – Cristina Branco – Há palavras que nos beijam.
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1ª ex aequo – Dulce Pontes – Canção do Mar.
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1ª ex aequo – Mariza – Chuva.
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Confira, por favor.
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Amália Rodrigues – Que estranha forma de vida.
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Hermínia, a maior fadista

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Amália Rodrigues foi a Senhora Dona Amália, uma rainha que honrou Portugal e o levou em luz pelo mundo. Nasceu plebeia por engano. Em Portugal, voz como a dela e sabedoria de a usar.
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Mas fadista... fadista foi a Hermínia Silva. Toda a história do fado lhe soprou da garganta, todo o povo nas palavras mal pronunciadas e gestos.
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Lembrança 1: Epá, tás à rasca!
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Lembrança 2: Isso bem picadinho qué prá voz sobressair.
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Lembrança 3: Anda Pacheco – referindo-se ao guitarrista António Pacheco.

Sangue

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Se me ouvirem dizer fado, querendo cantá-lo, é porque cavalgo e as costas não me doem pelo gingar do ginete. Terei na voz o mando das onomatopeias do chamamento do gado bravo na arena e nas mãos as rédeas que domam o oscilar da cabeça do bom amigo que me leva à garupa. Finto e corro com ele. Faz bonitos e ajoelha-se. Se me ouvirem gingão e perceberem o fado em mim, é porque o vinho me abraça.

Pensas nas mil vezes – ou – Estás linda na tua primeira selfie

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Linda como sempre e no ócio aceitando a beleza de si. Aqueles dias de luz em que a pele, os lábios e os olhos, de vaidade decente e justa.
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Fantasias e pensas nas mil como fizeste e nas mil que tens por fazer e nas mil que pensas repetir, das feitas e das de vir.
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Conversas-te e enamoras-te por amante imaginário, pela pessoa proibida, pelo indevido da transgressão e na ordem do cosmos.
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Frente ao espelho desnudas um ombro, sorris, franzes um sobro-lho e olhas-te nos olhos e despes o outro ombro. Pensas no eterno e fotografas-te. Repetes por não te excitar o que pensas que pode pensar o amante se a visse. Guarda-la para ver e ponderar. Nova fotografia.
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Pousas o celular na bancada e despes-te, com a blusa sob o sutiã. Estás um pouco excitada e fotografas-te. Olhas-te nos olhos, franzes um sobrolho, rodas a cabeça várias vezes, com a boca fazendo beicinho e a sobrancelha inquiridora. Fotografas-te e fotografas-te.
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Despes mais e fotografas-te. Tiras finalmente o sutiã e deslumbras-te, como se visses uns seios pela primeira vez, como te visses os seios pela primeira vez, como se percebesses como são belos pela primeira vez. Sorris, quase ris e estás já. Fotografas-te sete vezes – sem atentar que é um número mágico e que a magia tudo pode.
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Lamentas os vincos que a peça te deixou, mas a luz da pele. Pensas nesse amante – que desejo ser eu – e guardas-te sob os lençóis.
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Fantasias e pensas nas mil como fizeste e nas mil que tens por fazer e nas mil que pensas repetir, das feitas e das de vir.
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Reconfortada e ansiosa ponderas. Queres e sabes que será como saltar de muito alto.
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Pensas nesse amante – que desejo ser eu – e envias uma fotografia com o peito desnudo, engoles em seco e quase desmaias. Rezas para que não chegue ou que não a veja. Rezas para que a veja. Rezas para que chegue. Rezas para que não chegue. Rezas que te chegue.
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Feliz e medrosa trincas os lábios, franzes o sobrolho. Reflectes-te e não tens vincos. Fotografas-te e recomeças.
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Queira Deus que seja para mim a fotografia.

Nem suspeitas que os meus olhos

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Sei de ti o que nem suspeitas. Direi, talvez ainda hoje, talvez já agora. Fica para depois, para que a curiosidade te salive a mente, como faz a comida quente posta diante dum faminto.
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Digo-te que saio de casa e chego à porta donde moras. A minha mão carente de ti ultrapassa a madeira e abre o trinco. Levito, por necessidade, desejo e enamoramento. Nunca me ouviste.
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Sei a cor da luz da tua cozinha e com te estiraças a descansar na sala. Oiço a subtil respiração e os suspiros, de tédio, de conforto, de resignação, de atrevimento e de desejo.
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Por que não te vejo – perguntas-te-me.
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Tão desejoso que quase me volatilizo. Como um fantasma, sigo-te e fico, conforme.
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Quando sobes a camisola, quando abres a camisa, quando descais o vestido...
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As costas.
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As ancas.
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As pernas.
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O cabelo.
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A pele.
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A púbis.
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O peito.
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Deitas-te e delicio-me. Apagas a luz e proíbo-me de suspirar.
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Ou adormeces ou.
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E quando ou, eu. Estremeço do coração à alma.
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Saio leve, voando etéreo, como balão cheio com hélio.
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Quando a casa chego, chego-me pensando que me chego em ti.

Dois belos vinhos da casa da terra dos gaios

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Há vinhos com história ou que puxam as palavras para a conversa. São os que prefiro, seja a parlação só centrada no elixir ou vá solta por onde se deixar. Os dois que agora comento puseram-me a falar com as palavras.
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Quem só quiser ler sobre o vinho... faça o favor de saltar até onde o parágrafo começa com outra cor.
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Contaram-me que até à década de 70 do século XX o branco das Gaeiras (Quintas das Gaeiras) era especial, um sucesso de contentamento. Lamento, mas como nasci em 1970... lá em casa não havia sopas-de-cavalo-cansado.
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Ainda assim conhecia-o de nome. Mais na memória tenho o tinto. Não por que o tivesse bebido, mas porque consta dos versos do Fado das Caldas. Não sei se se refere ao vinho daquela freguesia de Óbidos ou se é relativo ao da Quinta das Gaeiras.
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Aqui confesso – possivelmente pela enésima vez – que sei que estou contentinho quando ao vinho me apetece juntar o fado e montar um cavalo... marialvismos... Ora, o Fado das Caldas tem aquele picadinho que pede mesmo... portanto, com a garganta molhada, vêm-me à alma as palavras e as notas.
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Uma coisa gira é que há um fado gastronómico que se diferencia desse apenas pelo poema, é o Fado das Iscas. Coincidentemente, quer um quer outro são interpretados por dois dos meus fadistas preferidos: Hermínia Silva e Dom Vicente da Câmara – ela tempera as iscas e ele conduz até às Caldas.
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Quem acredita no destino tem aqui uma estória que o comprova – salvo seja, que nada houve entre quem cito. O fidalgo fadista e a mulher do povo de sangue e alma na voz. Afirmo: Hermínia Silva é a maior fadista portuguesa desde a Severa – mulher da vida, de que não há registo sonoro, e que na História de juntou ao marquês de Valença.
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Baseado no romance «A Severa», de Júlio Dantas, o primeiro filme sonoro português, de 1930, centra-se nesse amor impossível do fidalgo e da rameira. No filme «A Severa, de José Leitão de Barros, as personagens são inspiradas nesse casal de circunstância. Há uma razão lógica, do ponto de vista do argumento, em fazer coincidir o título do fidalgo ao adjectivo de nobre boémio.
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No filme, a actriz Dina Teresa representa uma prostituta cigana, que se envolve amorosamente com o conde de Marialva, representado António Luís Lopes. O realizador contornou os factos, de modo a não juntar os seus contemporâneos marquês de Marialva e conde de Vimioso. No entanto, o título de Marialva foi inicialmente constituído como condado, em 1440, por Dom Afonso V, para agraciar Vasco Fernandes Coutinho. O título foi extinto, em 1534, após a morte de Guiomar Coutinho, quinta condessa de Marialva, que não deixou descendência.
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Hoje, estes cuidados parecem tolos, mas há que contextualizar. A sociedade portuguesa do início do século XX era muito conservadora e fechada, existindo um largo e fundo fosso entre o povo e as elites. Note-se que «A Severa» foi rodado apenas 20 anos após a implantação da República – que não extinguiu os títulos nobiliárquicos, considerando-os como património da nação.
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O primeiro marquês de Marialva foi Dom António Luís de Meneses, que era já o terceiro conde de Cantanhede. A honraria foi-lhe conferida, em 1661, pelo mérito militar na Guerra da Restauração (1640 a 1668), pelo Rei Dom Afonso VI.
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Há homens que marcam uma vida-tempo de tal modo que todos os outros que lhe sucedem ou antecederam deixam de existir; ninguém acredita que houve mais do que o primeiro marquês de Pombal ou que marquês de Marialva foi só o que deu nome ao conceito de homem dos prazeres mundanos, das mulheres, cavalos, toiros e dado ao vinho.
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Ao que parece, o responsável terá sido Dom Pedro José de Alcântara de Menezes Noronha Coutinho, quarto marquês de Marialva, sexto conde de Cantanhede e estribeiro-mor do Rei Dom José, considerado como o melhor cavaleiro e mestre de equitação da sua época.
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Já a Severa – Maria Severa Onofriana – não era de etnia cigana, embora o seu pai o fosse. Chamava-se, pelo primeiro nome, Severo e assim o passou por alcunha à mulher, Ana Gertrudes, e à filha. A mãe da figura histórica era natural de Ovar, talvez tivesse vindo para Lisboa para vender peixe, pois as peixeiras de rua, de canastra à cabeça, eram originárias dessa terra da Beira Litoral – o falar do povo mudou ovarinas para varinas.
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A Severa passou a vida (1820 a 1846) por quase toda a Lisboa popular, da Madragoa onde nasceu até à Mouraria, onde morreu. A mãe era taberneira e prostituta e seguiu-a na vida de cama – morreu jovem, vítima de tuberculose, no bordel que a acolhia.
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Vivia no meio da pobreza, miséria, falta de higiene, doenças, sujidade, certamente violência física, psicológica e verbal, alcoolismo, boçalidade, entre tantas desgraçadas e homens de faca, estivadores, contrabandistas, embarcadiços e gatunos... e ratazanas, percevejos, piolhos e chatos.
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Os testemunhos dão conta que teria uma beleza invulgar e exótica e grandes dotes como cantadeira... além de ter pêlos na cara em quantidade suficiente para ganhar a alcunha de «a Barbuda». Argumentos que terão enfeitiçado Dom Francisco de Paula de Portugal e Castro, segundo marquês de Valença e décimo conde de Vimioso.
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É fado!
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Isto tudo por causa do verso do tinto das Gaeiras... Já agora, o que são gaeiras? Não fazia a mínima ideia. Podia ficar sete anos a mandar bitaites que nunca chegaria lá. De acordo com o «Dicionário Onomástico Etimológico» de José Pedro Machado, é um local onde há muitos gaios.
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Giro!... gaio é um pássaro, não é?! Perguntei-me a medo – é que sou homem do campo... mas do Campo Grande, em Lisboa. Nasci ali, mas não sou dali nem do Sporting Clube de Portugal; sou de Belém, por causa do Clube de Futebol «Os Belenenses», e da Graça ou São Vicente ou Santa Engrácia ou São João ou Penha de França por vivência, e por isso simpatizante do popular Clube Oriental de Lisboa.
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Sim, tinha na ideia, pelas minhas idas ao campo, ao rural, que gaio é ave. Mas também – segundo a Infopédia – «cabo que se fixa na cabeça dos paus de carga dos navios»; gaivota juvenil; alegre; jovial – «Do latim gaudiu – alegre». Já o Priberam informa que é sinónimo de jovial e alegre; «varinha de pau flexível, terminada por laçadas feitas da própria vara»; «nome da gaivota que não tem mais de um ano»; cavalo; e «braço de uma espécie de antena que serve para amarrar à embarcação».
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De tudo isto retiro duas palavras: alegre e jovial.
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Pois que estamos diante dum local rico em gaios, ave de penas azuis e que não gosta de campo aberto. Prefere as florestas e os bosques, é uma espécie residente e vive em todo o país. Mede entre 33 centímetros e 36 centímetros, não pesa mais de 190 gramas e pode viver até aos 18 anos. Pertence à família dos corvídeos e do assentamento de baptismo consta o nome Garrulus glandarius. Se fosse gente seria artista de variedades, pois é um grande imitador de sons.
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A Quinta das Gaeiras tem uns belos jardins e floresta à volta. Fui lá conhecer os novos vinhos – produzidos em parceria com o Grupo Parras, que detém, entre outras marcas, a Quinta do Gradil – e vim maravilhado.
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Foi dito à mesa que o branco agora apresentado tem a alma desses antigos que tiveram fama. Acredito no elogio que um conviva teceu ao enólogo (António Ventura) e equipa, pois é pessoa de saber e respeito.
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Os antigos Gaeiras brancos eram monovarietais de vital. Queixou-se a equipa técnica do temperamento da casta, que cria dificuldades na vinha e chatices na adega. Muita parra, muito cacho, muita uva, muita sensibilidade ao calor, muita sensibilidade à chuva, excessivamente produtiva – basicamente uma casta com um estado de humor dum agiota com um ataque de gota (esta pertence ao jornalista João Gonçalo Pereira). Porém, capaz de dar do melhor. Ora: bom somado com muito resulta em casta predilecta na sub-região de Óbidos.
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Os agrónomos intervieram podando folhas para criar clareiras que permitissem uma maior insolação dos cachos e assassinando novelos de uvas, para que não fosse tão generosa, a videira. Tudo correu bem com o vinho de 2013 e com o anterior, que não chegou ao mercado.
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É um grande vinho! Naturalmente fresco – prometi nunca falar de pH – pelo grau e pelo temperamento, que ilude para mais frescura. Com uma doçura natural nada óbvia nem enjoativa, que não cansa a boca. Untuoso, envolvente, sedutor e elegante. Cresce no copo com os minutos. Consegue ter feminilidade, pela complexidade de aromas entrelaçados sem domínios, indicando delicadeza. Mas também masculinidade, pelo modo de se comportar na boca.
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Bebi-o alegremente a solo, mas ganha muitíssimo mais se lhe derem comida. É muito perigoso, tem 13 graus de álcool que voam como faixa de seda sobre mármore.
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O tinto é divertidíssimo. É porque com ele se pode conversar e conviver e também acompanhar com comida. Inicialmente austero de aromas, revela-se com arejamento. Se me pedissem para dizer as castas do seu lote, não acertava uma. Nem uma! Todavia, diante dos «olhos».
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Tudo o que se pode esperar da syrah (50%), da touriga nacional (30%) e da touriga franca (20%) está à vista. A soma das três não dá três. As características olfactivas esperadas estão lá, mas o todo pareceu-me outra coisa. Ondulam, escondem-se e revelam-se, evoluem, regressam.
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Mostra-se firme na boca, mas sem brutalidade. Envolve, sacia e pede que o reponham. Fundo ao ir-se, longo no ficar. Na prova oral tem também as características de não revelar o mesmo em todas as vezes que se bebe.
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O tinto é um truque de ilusionismo. Contentíssimo.
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Além da inegável qualidade, são vinhos muito interessantes e didácticos. Cansam-me os vinhos perfeitinhos, com tudo no sítio – como a Barbie e o Ken. Estes são perfeitos (a perfeição só Deus sabe e conhece), mas mais do que filhos da técnica.
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O maestro é António Ventura. Aplaudo de pé!
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Nota 1: Devido à limitação de caracteres da caixa das etiquetas, seguem abaixo as referências às obras publicadas.
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Nota2: Gaio, pelo pintor Nigel John Shaw.
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Nota 3: Vídeo do Fado das Caldas  versos de Arnaldo Forte e música de Raúl Ferrão. Interprete: Dom Vicente da Câmara. Os dados relativos à autoria são nebulosos, havendo referências como sendo de outros criadores. Esta informação foi retirada duma partitura que consta do acervo do Museu do Fado. Porém, a mesma instituição possui partituras em que surgem outros nomes. Contactei um etnomusicólogo, que esteve envolvido no trabalho de candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, que me referiu que é comum, no início do século XX, haver discrepâncias quanto aos autores.
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Nota 4: Diaporama do Fado das Iscas  versos de José Cosme e música de Raúl Ferrão. Interprete: Hermínia Silva. A situação face à autoria mantém-se.
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Nota 5: Exerto do filme «A Severa», de Leitão de Barros, com Dina Teresa (Severa) e António Luís Lopes (conde de Marialva).
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Nota 6: Estátua do quarto marquês de Marialva, do escultor Celestino Alves André.
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Nota 7: Quadro «O Fado», pintado por José Malhoa.
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Nota 8: Diaporama sobre o gaio, realizado Dom Sobreiro e acessível em www.youtube.com, onde consta o contacto do autor.

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terça-feira, Setembro 16, 2014

A caminho da Lua

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Muitas vezes, a minha cabeça tem dentro fogo-de-artifício. Quando penso ensurdeço-me e rebento de dor. Se não penso é por ter deixado de estar, nunca de existir. Se existo dói-me. Inexistindo... que se poria no buraco por mim deixado?... O avanço do esquecimento de todos seria como o fechar da carne. Deixaria cicatriz... Inexistindo, nada de mim.

Velozzzzzzzz

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A coisa nenhuma é mais do que velozzzzzzzz. A coisa nenhuma é mais paradaaaaaaaa. A coisa nenhuma é mais do que lentaaaaaaaa.
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Deus permite uma coisa ser nenhuma? Nenhumaaaaaaaa.
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Deus permite tudoooooooo.
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Tudo tem nenhuma dentroooooooo?
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Velozzzzzzzz.

domingo, Setembro 14, 2014