sexta-feira, Novembro 28, 2014

Deixei de mim

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Despedi-me e disse uma das palavras proibidas. Uma carta de despedida com tudo o que deve ter uma carta de despedida. Escrevi tristeza. Não neguei alegrias antigas. Escrevi mágoa. Não escrevi rancor. Sublinhei injustiça. Recusei vingança. Escrevi libertação. Reconheci as saudades. Escrevi suspiro de lágrima. Escrevi suspiro de desafogo. Molhei o papel com lágrimas de alegria e tristeza. Expliquei e disse o que devia dizer. Disse tudo. Não disse tudo como os malucos. Expliquei tudo, até onde se pode ir sem entrar na ofensa. Deixei abraço e votos de felicidades.
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Nota 1: Não é uma despedida duma relação amorosa, não é uma despedida do trabalho, não é uma carta de suicídio.
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Nota 2: Este poema de Sérgio Godinho está na minha arca de invejas.

A inutilidade da poesia

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– Para que serve a poesia?
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– Para nada!
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– Então, por que a escreves?
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– Para a tirar de mim.

Amnésia

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Enquanto dormes, nem sonhas que sonhas comigo.
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Se sabes, não mo disseste.
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Em sonhos estou-me contigo-te.
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Em nós. Encaixados frenéticos e suaves, lentos e intensos.
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No êxtase, a queda.
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Sobressaltamos, acordamos, regressamos para dormir.
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Amnésicos acordamos.
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Em nheengatu nos entendemos

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Hoje fiz um telefone. A telefonista deu-me os bons dias e prosseguiu dizendo qualquer coisa que tanto podia ser ucraniano, mandê, aparai ou basco…
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Português, é que não pareceu. Com as devidas desculpas, pedi-lhe que repetisse.
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Repetiu-me em macuxi, korku, gaélico escocês ou grego antigo…
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Nem sei… avancei dizendo ao que ia, respondeu-me e entendi, entendia-a.
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Era gaga, não cantava nem entoava.
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Com voz doce encantou.
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Quem queria não estava, apontou o recado e desejou-me um bom fim-de-semana…
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Em wororan.
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Nota: Se alguém souber que é o autor ou quais são os autores deste fado, agradeço que mo comunique, para que possa atribuir os créditos.
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Pétala a pétala

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Desnudada, sim. Sem te ter visto, vi-te tantas vezes no desejo, que te conheço a pele e os segredos do prazer.
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Pétala a pétala, farei contigo. Gomo a gomo, nos faremos. Do escuro à luz e da luz ao escuro.
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Saberás dos meus beijos que passam da carne à alma.
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Saberei dos teus.
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Pelas frestas da luz para a escuridão.
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Do vidro do escuro para a luminescência.
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Da nascente ao fogo-de-artifício.

quinta-feira, Novembro 27, 2014

Engenheiro José Sousa Veloso – 1926 – 2014

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Há dias para ir e dias para voltar. Hoje partiu e num amanhã voltará, com outro nome, identidade e novas provas a realizar na vida.
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Num tempo em que, e bem, se deixam cair os títulos académicos dos discursos verbais e escritos, José Sousa Veloso será sempre o ENGENHEIRO SOUSA VELOSO.
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Na morte todos somos bestiais. Aos mortos nega-se-lhes as críticas. O Engenheiro Sousa Veloso não precisou de morrer para ser uma pessoa querida e por quem os portugueses nutriam simpatia e que, depois do fim do seu mítico programa na RTP, perdurou na memória de todos.
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Em quase 24 anos de jornalismo, muitos deles ligados à agricultura, nunca ouvi uma crítica ao Engenheiro Sousa Veloso. Antes pelo contrário, escutei bondades e reconhecimentos.
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Nasci em 1970. Na década de 70, a televisão era a preto e branco e o espaço para as crianças resumia-se a poucos minutos ao sábado de manhã e um pouco mais ao Domingo.
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Quem foi menino no meu tempo de menino lembra-se… o TV Rural ou era a maçada que se tinha de aturar antes dos desenhos animados ou era a chatice que interrompia a bonecada.
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Não me lembro se era antes ou depois do espaço infantil, mas sei que gostava muito de ver o TV Rural e o senhor que falava pelo nariz e se «despedia com amizade até ao próximo programa».
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O Engenheiro Sousa Veloso está agora com Vasco Granja, o seu vizinho de programação, pessoa também muito acarinhada por todos.
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Sou urbanita, sou lisboeta e gostava de ser alentejano ao mesmo tempo. A ruralidade não me passou ao lado, mas sou da cidade. Alentejano do Campo Grande. Esse sítio quase meu – o campo – acabou por me agarrar profissionalmente.
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Depois do TV Rural, julgo que só houve dois programas de agricultura na RTP e uma coisa apalhaçada na SIC e que passava, felizmente, a altas horas. O primeiro magazine foi a Terra e os Homens – se não erro – e era apresentado por Armando Sevinate Pinto e era eu quem fazia as reportagens. O outro foi o Da Terra Ao Mar, em que fui repórter, coordenador e pivô.
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O Terra e os Homens durou os sacramentais 13 programas. O Da Terra Ao Mar durou de (Agosto ou Setembro) de 2004 a (…) de 2009. O TV Rural foi emitido entre 6 de Dezembro de 1960 até 15 de Setembro de 1990, décadas de informação e pedagogia, de simpatia natural.
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No primeiro programa que apresentei – provavelmente não o viu ou soube – fiz-lhe uma respeitosa homenagem no fim do programa:
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– Despeço-me com amizade até ao próximo programa.
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Chegou a hora em que o Engenheiro Sousa Veloso se despediu com amizade desta vida.
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O Alentejo todo deste mundo –

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Sempre ouvi dizer «o canto alentejano», «os cantares alentejanos», mas de há uns anos a esta parte que só me chega às orelhas «o cante alentejano».
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Não gosto de «cante alentejano»… é como dizer não «goste», em vez de não «gosto».
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Talvez seja um regionalismo e que alguém de reconhecido mérito e poder de influência tenha ateado e que agora é fogo descontrolado.
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É um bocado como a discussão bizantina acerca do doce típico «sericá» ou «sericaia». Sendo ambas muito comuns, digo que são as duas válidas. Contudo, há gente que não concorda e o manifeste categoricamente. Quase a meter medo.
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Uma vez disseram-me que era «sericá» – estava atento para saber a justificação –, os de Elvas é que dizem «sericaia», por causa do rio Caia, que passa no concelho, e também por causa do acrescento duma ameixa em conserva de açúcar.
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Em Elvas há muitos que dizem que é «sericaia», porque é iguaria natural do concelho – com ameixa. «E não se fala mais nisso»!
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Pois, seja «cante»… sou teimoso direito «canto».
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Hoje o canto alentejano foi reconhecido pela UNESCO como «Património Cultural Imaterial da Humanidade». Saúdo!
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Porém, tenho uma dúvida:
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– Os responsáveis da UNESCO tiveram conhecimento que há mulheres em grupos corais? Os grupos corais, aqueles cantados por homens abraçados e oscilando com vagar, são – ou deviam ser – só de homens.
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Não é uma questão de machismo, mas de tradição. Não há mal de lesa-majestade, mas não deixa de ser uma incorrecção ao costume que se quer preservar e valorizar.
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No Alentejo sempre se cantou muito. Os cantares das ceifeiras, das mondadeiras… basta(va) juntar duas alentejanas e começa(va) logo uma cantoria. Basta(va) juntar dois alentejanos e começa(va) logo uma cantoria.
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Cantava-se nas tabernas, bêbados… as mulheres ali não entravam. Por isso, com eles não cantavam. Cantavam nos tanques comuns a lavar a roupa e nos trabalhos de campo, certamente em casa, à lareira, vizinhas e amigas davam de sua graça.
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Fico muito feliz por o canto alentejano seja agora de todo o mundo. Espero que esteja nem incluído os cantares das mulheres e os cantares dos homens. Espero que se acabe com ou coros mistos.
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E agora, uns amigos da Córsega.
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terça-feira, Novembro 25, 2014

Ceia de Natal Vermelho

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O melhor do Natal são as crianças!… Assim o garantem os comunistas, que não as dispensam nas suas mesas natalícias.
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Nota 1: Politicamente, estou nos antípodas democráticos dos comunistas. Porém, a acusação de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço é do riso mais hilariante e duradouro.
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Nota 2: Se alguém souber quem é o autor da imagem, a gerência agradece ser informada, de modo a atribuir os créditos autorais.

Galeria de retratos dos antepassados – 10

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Anakin Skywalker – em 1604, aos trinta e três anos – Monteiro-Mor.

Galeria de retratos dos antepassados – 9

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Charles Victor Szasz – em 1567, aos vinte e seis anos – Escrivão da Câmara.