sexta-feira, dezembro 19, 2014

Letra F


Para Nascente

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Deixem-me ir pela vereda, caminho estreito entre muros de hortas. Fruteiras de braços longos oferecem de saciar. Abelhas confirmam, vespas arrepiam, libelinhas dizem água, aranhas comem  as moscas, que chateiam, e louva-a-deus panicam-me – nunca saberei porquê, nem centopeias nem sanguessugas ou bichas rateiras.
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Uma ribeira podia passar por onde vou, mas nem a sombra esconde o calor que a seca, nem o calor aquece uma vida perdida, e a vida perde-se por se não viver.
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Se ficasse estendido… as formigas. Vou até onde for da melancolia à paz e quendera não se acabasse a azinhaga e Deus queira que não desagúe numa estrada, mesmo onde os carros se esquecem.
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A ribeira invisível segue para Norte e o Sol para Poente, a Nascente fica o cemitério, dizendo que nascemos ao morrer, porque somos de lá e não de cá, de espírito e não de carne. Lá no alto, preparando para a ascensão, e a terra fica com o corpo.
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Soube do doce, provei-o. Amargaram-me e nem por repetir uma prece mágica recolhi o sabor da infância, do espanto, da ingenuidade e dos abraços e afagos de afectos.
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Desiludido olhando as frutas falo-lhes C6H12O6,ou abre-te sésamo. Tanto lhes faz, quase choro as lágrimas que o calor secaria. Seria engano, não é o doce que apetito.
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O caminho da calma faz pensar e pensar aleija. Medo só tenho da louva-a-deus.
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Hei-de deitar-me e que me levem para Nascente.

Frutas

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Apetito-te! Esse apetite de não-comida.
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Sob os lençóis as raízes do prazer, da flor da pele à fruta dos lábios, a copa de cabelos e um tronco e braços de trepadeira.
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Quendera fosse a árvore proibida, para ter por certa a maçã para dividirmos.
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Quendera fosse a árvore permitida, para ter por certos os maracujás.
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A árvore da incerteza,
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Quando estás doce sei que és salgada.
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Sede que me sacias.
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Apetito-te! Agora, ontem e amanhã.

Desgolpe

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O coração não é negro, é a minha alma. No fundo do poço, o reflexo dos olhos tristes e do rosto que, se desenhado, se riscou à força de raiva, a esferográfica. Mal se vê, porque a luz, porque a sombra, porque a alma, porque os olhos.
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Afasto-me nos dias tristes e reparo na fragilidade do meu corpo gordo, de ridículo gordo. Pairando descarnado penso em não voltar e deixar o peso na cama e levar o peso comigo, para que ninguém mais saiba ou veja ou sinta ou pressinta ou escute.
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Azul de reis e escarlate de cardeais e vivendo num preto e branco de luz e sombra expressionistas.
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O manto de veludo pesado saciado na sede pelo sangue que a adaga soltou, libertante.
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Contudo, fico, vou ficando, perduro, prolongo. Vida de tédio e despréstimo. Treme-me a decisão, é golpe adiado. Golpe adiado é sobreviver a golpe mal dado.
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Se o cão negro lhe jogasse o dente.

Desejo

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Gostava que a tua roupa fosse tão escorregadia, diante de mim, o quanto és quando te tendo seduzir. 

Sei lá, sei lá

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O que foi melhor?
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Ou o que foi mais simbólico?
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Ou o que devia ter sido e não foi?
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A sua primeira vez?
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A minha primeira vez?
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A nossa primeira vez?
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A minha primeira nega?
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A minha desnecessária timidez?
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Se fosse agora teria perdido a adolescência. 

Descartes reciclado

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Penso, quero desistir.

Medição do amor

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O amor não se mede em metros, nem em quilogramas nem em litros!
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Mede-se em polegadas, pés, braças e palmos.
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E em jardas, se na declaração não houver bujardas.
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Nota: Não conhecia esta versão do «Hemem de Vitrúvio», pelo que não juro se esta é também original de Leonardo Da Vinci.

Metamorfose escultórica

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Gostava de te ter visto nua, para que de derretido ficasse bronze. Em vão, tanto tempo ao ar e ao pó que agora estou rijo, de pedra e esperança.
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Nota: Vive-se um tempo em que o respeito pelo trabalho alheio é descartável. Esta escultura, apesar de surgir em vários locais na internet, parece ser filha de pais anónimos. Se alguém souber que é o escultor, por favor, informe-me, de modo a poder atribuir-lhe os créditos.

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Ai, amor, que me mataste

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Saturado das cenas de ciúmes, cansado das vergonhas dos escândalos, enjoado pela perseguição sinistra do olhar ao meu olhar, enfadado dos modos controladores e de chantagem, agoniado por tantas vezes repetir provas e actos… menti-lhe.
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Disse-lhe:
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– Acabou-se. Amo outra.
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Ferida, mortalmente intoxicada pelo orgulho, cega de desamor, juntou todas juras, canseiras e perdições – que me amarravam – e fez uma arma de guerra. Com ela agrediu-me, cada beijo dado tornou-se numa bala, cada cama um matadouro, cada jura um veneno, todo o futuro sonhado um deplorável engano.
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Fiz beicinho por vingança, fantasma teimoso. Tão felizmente triste, olhei-a com os olhos do boi antes do sacrifício. Fingi engulho, até me engasguei. Confortavelmente calado para nada ter de inventar e deixei que me rebaixasse, de modo a ser varrido como lixo por debaixo da porta.
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Para a história ficou o meu arraso, assim ainda hoje se ensina nas escolas a tragédia do meu desamor.
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Em segredo e sigilo:
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Cá fora, ar tão puro. Bebi vinho e saí pela rua a beijar na boca as mulheres bonitas.
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Que morte tão boa me matou!
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Nota: Esta cena faz parte do filme turco «Karateci kiz» (mulher karateca), rodado em 1973. Na internet vem referenciada como a pior cena de morte do cinema... desconfio que haja muitas outras pérolas esquecidas.