terça-feira, Setembro 02, 2014

Palhaço

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– O que se deve fazer quando se está triste, profundamente triste?
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– Faz palhaçadas, para disfarçar e enganar a dor.
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– O problema é que a minha dor é por ter feito papel de palhaço.
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Nota: É a primeira pintura dum palhaço que não me dá volta ao estômago e/ou à alma.

Alguém tem de fazer esta pergunta

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Pode morrer-se só por umas horas?

domingo, Agosto 31, 2014

Blá, blá, blá...

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Muito melhor do que um cocktail de Alka Seltzer e Eno. Assim sou eu, tantas vezes. Alegre. Incompreendido. Alegre e incompreendido. Às vezes gosto. 

Dicionário – Solidão

s. f. Lençol que sufoca. Corpo perfurado pela dúvida em existir sobrevivendo ou desistir para viver. Desejo de desexistir. Canto de sala para onde se está virado sem recurso. Ter a cabeça mais pesada do que ânimo aguenta. Cortar relações. Ser-se culpado. Reconhecer-se culpado sem que queiram ouvir o pedido de perdão. Perder Deus na adversidade. Perder as horas deambulando na ruas ou no campo. Medo da perda. Medo da não aceitação. Solidão. Saudade. Medo. Ansiedade. Desamor.

Desestar

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Sinto que o coração não me pertence e que o corpo não pertence à alma. Nem o coração à cabeça, nem a cabeça ao espírito, nem o espírito ao fígado nem o fígado ao coração. Sou montado de tanta coisa, tralha que sobrepõe e contradiz, que tanto sobra como falta. Da estupidez à arrogância e a estupidez da arrogância, luz breve e acção fraca e incerta. Da fidelidade canina e da estupidez de ser fiel como os cães. Locomotiva desabrida, chocolate ao Sol do Verão. Contradigo, mas quero amor. Dou saltos para a periferia e desejo ser anónimo na multidão. Ora frio, ora temperamental. Alegre, mas taciturno. Feliz? Acredito que fui, provavelmente é memória inventada. Ou até isso não tive ou até isso perdi. Esqueci-me de muita coisa, o que não pedi. Não se me foram outros pensamentos que dispensava. Sem um amigo escureço. No escuro aguento todo o desconcerto que sou.

Nudez invisível

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Apresento-me brutalista e não acreditam na minha nudez. Pratico o desconstrutivismo e não me levam a sério. Pratico o surrealismo e gozam, e eu que queria dadaísmo. Tenho de rir como os palhaços – fingindo que têm razão e que não sou como pareço.

Acreditando que

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Chuva de adormecer e fora há sol.
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Não tenho quem, não desmaio.
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Falta-me um Danoninho para a maioridade que dará liberdade à vontade.
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Não consigo heroinómano, nem mesmo alcoólico.
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Chuva de adormecer. Há amanhecer e acordar por teimosia.
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Arrependo-me de tudo. Por tudo o mais e por isso, numa vergonha que só compreendo.
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Tantos mortos, uns vivos e outros mortos. E eu para outros, o que mata e deixa vivo.
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Teimo e vivo, acreditando que não faltarão muitas léguas para uma luz que.

Carta de despedida duma partida que não acontece

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Nasci há dezasseis mil e trezentos e sete dias, talvez metade de agonia e morte que me secou as lágrimas de água, que dentro correm rios.
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Ninguém me roubou anos nem meses nem dias. Fui despejando sem semear. Matando, ferindo e fenecendo, terra queimada por culpas minhas. Os dias partidos sem demérito foram poucos.
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Procurei baraços fortes e ásperos, um tronco longitudinal e um banco que lhe chegasse. Cheguei atrasado e perdi comboios. Tentei curar-me duma só vez e de todas as vezes continuei doente. Quis ver de perto o chão aproximar-se a velocidade uniformemente acelerada.
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Falhanços por mim somados aos dias falhados que a vida me guardou.
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Sem coragem para ir. Sem coragem para ficar. Tantas as cartas escritas. Amareleceram e rasgaram-se moídas de esperar dentro da carteira.
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A minha mãe não tem força para me segurar a mão escorregadia. As gatas que quis sempre juntas, sem mo pedirem, não permitiram. Os olhos doces de menino acalmam-me. Cedo volta a derrota.
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Perdido na estrada que me indicaram, sem vontade de dela sair. Perdido na estrada que escolhi, sem vontade de dela sair. Perdido na estrada para onde me enxotaram, donde saí esfolado.
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O destino é como Roma. Se o fazemos, quando o tomo nas mãos deixo-o cair e parto-o. Se me sento para pensar, penso em desistir. Exangue, queimo a cabeça ao Sol, encharco o corpo na chuva, suo e tirito.
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Decida o que decidir, irei sempre a cair e a esfolar-me. Nem a gadanha me ceifa nem um anjo me abraça.
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Se tivesse coragem para ter amor-próprio não haveria dezasseis mil trezentos e oito dias, que encorpam tantos anos mortos*.
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E.
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Nota: *a expressão «anos mortos» foi roubada a Boris Vian, no poema da música «Le deserteur».