terça-feira, dezembro 06, 2016

Dirás

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Se em ti voam negras em círculo, urrando e uivando, e tombas de morte, uma luz pousará e voz tépida dirá bem, dissipando as aves da escuridão medonha. Deixa-te ouvir a paz e dirás amor ao mundo. Saboreando-o é mais fácil fazê-lo.

Outro sítio

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Às vezes tenho de aceitar a realidade e dizer que sou mais gasoso do que sólido. A verdade interessa-me pouco e tenho medo da matemática, uma manta de aço oxidado. Durmo nesta rua mas vivo no sítio do querer, onde estarei depois de morrer. Ninguém entende por que voo. Ninguém me entende porque voo. Ninguém vê. Sou triste por tudo isso.

Estar quando ser

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A luz é incapaz de ser som e a cor está a que se quer. A quietude diz melancolia e solidão.
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A vida quando vai, fica

Noite

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A noite não tem horas, começa e acaba e antes desfaz-se da luz e depois deixa-se afogar de claridade.
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À noite vê-se o Caminho de Santiago e as sombras mal se vêem mesmo ainda que a Lua.
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A noite é um fundo de cenário quando pelo palco vagueiam snarks.
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No teatro há peixes voando e as florestas são orvalhadas como nas lendas.
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À noite já vazio, o teatro é só noite. Ser só noite é poder ser quase tudo.
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Sob as estrelas há melancolia e pensamento. E a solidão que deixa ver a Via Láctea é um unicórnio triste.
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Letra H


quarta-feira, novembro 30, 2016

As pragas

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Tinham dezasseis anos e namoravam desde os treze. Antes de fazerem dezassete, ela deixou-o. Disse-o baixinho numa folha amarrotada do caderno da escola. Pediu aos professores para mudar de lugar e ele pediu, não sabe a quem, para que conseguisse engolir a vida do choro sem que ninguém notasse.
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Ainda não tinha dezassete anos quando ficou quieto, mexendo as pálpebras, segurando-as por segundos para que os olhos não vertessem. Uma tristeza danada, assobiando por sítios até aí desconhecidos. Noites de insónia e de sono por dormir.
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Uma tristeza absoluta e inexpressável, porque ao primeiro amor veio a incompreensão. Escondeu tudo, porque nem tinha dezassete anos. Quase a esquecera, viu-a sorrindo, montando-se na moto dum rapaz que já tinha feito a tropa.
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Ainda não tinha dezassete anos quando começou a odiar. Pediu ao Demónio para que nunca fossem felizes. Mas foram-no.
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Pediu ao Demónio que as famílias nunca os aceitassem, afinal ele era mais velho e tinha uma moto. Era encantador e cortês e ela simpática e inteligente como dantes.
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Pediu ao Demónio que fossem inférteis. Mas tiveram três meninas e um rapaz.
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Pediu ao Demónio que tivessem um acidente de viação mortal ou que caísse o avião que os levava para férias. Não o satisfez.
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Pediu ao Demónio para que ficassem doentes. Terminais e sofridos, gemendo de arrependimento: ela porque o deixara e ele porque lha roubara. Nem de dor de dentes se queixaram.
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Pediu ao Demónio para que fossem pobres, desempregados, desvalidos, indigentes ou enlouquecessem. Ele chegou a director-geral duma multinacional e ela foi sócia num escritório de advogados, com vista para o Tejo.
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Pediu ao Demónio equívocos judiciais, para que, pelo menos, um fosse preso numa masmorra medieval. O casal era de moralidade superior.
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Odiava desde os dezassete anos e nunca foi capaz de amar nem de assentar nem deixou que a vida lhe. Em desespero, suplicou extremamente ao Diabo:
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– Faz com que morram.
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E morreram. Tantos anos juntos e feneceram com poucos dias de diferença. Ela com noventa e dois e ele com noventa e seis.
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Odiou até desencarnar aos cem. Viveu menos de dezassete.

Continuando a andar


sexta-feira, novembro 25, 2016

O mundo

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Não gosto d pertencer a minorias a ainda menos maiorias. A média agonia-me. Gosto de ser quase.
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Nota: Viena durante o cerco turco, desenho de 1529.

quinta-feira, novembro 24, 2016

Vivendo

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Há muitas pessoas que preferem os cães aos gatos. Eu não. Um cão jamais será capaz de miar e um gato, graças a Deus, não ladra.

quarta-feira, novembro 23, 2016

E envelhecem

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As horas passam sem fim e os anos na luz. O tempo expande-se e incompreendo-o, não em nostalgia, são remorsos dos finais que precipitei, a calvície e a vista cansada.
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Acordei com quarenta e tais anos, já me achara adulto aos trintas e senhor nos vintes, com responsabilidade pesada dos falhanços e da carga agravando-se.
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Não percebi se ganhei ponderação ou perdi paciência. Sei que a vida leva-se, tem de ser, mesmo desesperançando-me. Desejo vidas como nos videojogos, recomeçar num sítio doutros dias, rever os males e aprender dos outros.
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Crescer, envelhecer, é uma tristeza. Não é a luz nem a chuva nem o frio nem a noite nem o escuro nem o soalheiro nem o calor nem o dia nem Outonos nem Primaveras. É um bicho dentro a esgravatar, sem veneno que o mate sem lhe ser solidário no destino.
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Os miúdos estão grandes, não tarda arrependem-se e envelhecem.

segunda-feira, outubro 31, 2016

À meia-noite haverá fogo-de-artifício

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– Tens tempo?
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– Tenho algum.
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 – Tens tempo até amanhã?
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– Como assim?
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– Ou antes ou para lá.
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– Vamos viajar?
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– Sim, é isso.
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– Para onde?
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– Não sairemos daqui, do feudo. Quero mostrar-te os lugares do jardim, aquele das namoradas e aqueles onde ninguém vai.
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– Porquê?
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– Confiança. Sinto o apelo da partilha. Sabes guardar segredo?
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– Sei. Vou.
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– Vamos. Os homens não sabem guardar segredos. Por isso conto contigo, que guardes de todos e transmitas para que o mistério se saiba e não se encontre. As senhoras sabem guardar segredo, nem todas, mas nenhum homem consegue.
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– Excepto nas coisas das infidelidades de cama. Não se perdoam, mas nós, mesmo dos nossos inimigos, nunca abrimos a boca.
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– Somos túmulos e elas vento. Mas, tanto faz, isso não interessa. Partilharás, se o entenderes. De qualquer modo, ninguém conseguirá encontrar o que te vou mostrar.
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– (…)
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– Conheces a gare?
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– Ouvi falar, mas tudo é grande e as pessoas intrigam ou simplesmente mentem. Aqui, tudo pode ser verdade. Quando tudo pode ser verdade é porque há, pelo menos, uma mentira. Diz-se tanta coisa…
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– Sim, existe uma gare.
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– Sabes conduzir uma automotora?
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– Sei. Tanto faz, ela sabe ir sozinha.
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– Onde vamos?
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– Ao princípio e regressamos, onde tudo começa. Vamos ao pavilhão árabe e à ilha dos ciprestes, a ilha do amor, dos entardeceres e das auroras. Onde se faz amor. O lugar onde se transcende o erotismo, onde qualquer mulher é desejada e a posso amar como se fosse Eros, Apolo e Afrodite.
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– Amas muito?
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– Amei demasiado. Demasiadas mulheres, demasiadamente e mais desapontei. Às vezes queria amá-las a todas, ter esse poder.
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– Donde vem esta água? Todos estes cursos vivos ou falsos…
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– Daí. Vêm daí, não sei bem. Nascem aquém das montanhas da fronteira do mundo, a que acrescentei o muro e o medo. Vem, vem conhecer onde waldeinsamkeit.
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– Vamos ao último lugar.
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– Há mais?
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– Há o principal. A verdadeira razão da viagem.
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– Maior?
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– Maior. É um lugar pequeno, se comparares com o que acabaste de ver. Porém, é parte do infinito e os outros locais fazem parte do mundo. É um jardim.
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– Não conheço o teu jardim? Os teus jardins.
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– Só estiveste nos jardins formais. Hoje viste a vida e o amor. Agora verás a melancolia.
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– O que tem a melancolia?
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– Saberás se tiveres uma. Ninguém a conhece, só o peso que lhe diz respeito. É apenas um lugar, com árvores, clareiras e animais.
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– Como um lugar qualquer.
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– É o lugar onde posso ser só. Onde a melancolia, a saudade, o remorso e o medo sentem a segurança para saírem e onde os contemplo, ligado e em ponto-de-fuga.
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– (…)
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– Não entendes nem perceberás. Contenta-te com a minha palavra de que é o lugar mais íntimo. É, de facto, um lugar qualquer, por isso seguro, ninguém desconfia, mas ninguém vê.
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– Belo, todavia.
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– É um lugar como outro, só que meu, inteiramente meu, onde cada sentimento, cada pensamento e cada voz são minhas. Quem pudesse chegar, mesmo carregado de tristeza, não ficaria. Cada qual tem a sua.
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– (…)
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– Repara. Não se ouve nada, nem uma ave.
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– Nem corre vento.
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– Assim o determinei.
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– Julgas-te Deus. Como se tivesses o poder da vida e da morte.
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– E não temos todos? Quando decidimos nascer e agendamos a ida? Ainda que não nos lembremos. Podemos sempre antecipar a morte.
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– Discutível, inquietante e irracional.
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– Tanto faz. Pode ser, não pode?! Repara… não tarda o anoitecer. Preferes uma nuvem de estorninhos em algazarra ou ouvires uma coruja no breu? Basta-me estalar os dedos.
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– Quero as duas coisas, se puder.
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– Seja! Vê.
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– (…)
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– (…)
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– Sem palavras, como um mago.
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– Agora que sabes da melancolia, vem jantar. Hoje será formal e vem gente de toda a parte.
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– Quem?
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– Gente, a maioria espera qualquer coisa. As pessoas esperam sempre qualquer coisa.
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– Como conhecer estes lugares?
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– Se soubessem, certamente. À meia-noite haverá fogo-de-artifício.

Colecção de advérbios de modo

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Estou abastadamente farto, oficialmente em tédio, generosamente desprendido, inegavelmente falível, obrigatoriamente irrelevante, inesquecivelmente esquecido, inequivocamente abandonado, totalmente tóxico e incansavelmente cobarde para ser determinantemente consequente para finalmente morto.

A menina do espelho

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Só o jardim me importa. Na verdade, há a casa, as passagens secretas para a infância, o vinho e noite e sua luz, os gatos desrespeitando as convenções, até a da gravidade, são-lhes relativas.
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Pelos espelhos passam os antepassados como nas pinturas, vigiando-se e prendendo-me e ao meu ânimo. Mas não há ácido desoxirribonucleico.
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Na casa não há nem pai nem mãe. Só coisas, algumas inagarráveis ainda que alcançáveis. Várias essências de gente e diferentes densidades.
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Abro as portas quando posso atravessar paredes, para normalidade dos outros ali espalhados em liberdade.
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Quando não fujo converso com gente de carne, espíritos e inexistências. Não sei se figuras são personagens dentro da cabeça, chego a duvidar que existo.
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Quando vou no avião sinto saudades do jardim. Quando venho no avião sinto saudades do jardim. Na verdade, da casa. Na verdade, sempre em casa.
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A menina da pintura vive dentro do espelho e no olhar tem a mansura da infância, quando a mãe mima e a avó dá o colo. Chego a pensar que sou e mo quisesse dizer.
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Se for, onde perdi? Para ter chegado sem caminho e não sair ou nunca deixar de voltar.
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Na casa não há nem pai nem mãe. No entanto sou e sendo-o sou aqui sou isto sou todos. Mas duvido que exista.

Rio que correndo me afogaria

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A pele é sempre pele mas a insinuação faz os olhos verem mais e essas visões, caramelizando o tempo e o tino em redor, aquecem o sangue e o coração sobe à garganta. Inquietantemente serena, inexpressiva como o rosto do gato, és publicidade ao Inferno e ao Paraíso.

domingo, outubro 30, 2016

Banda-desenhada

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Ir é levar vento. Ficar é ficar com ele.
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No Inverno é-me sincero.
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Na noite só e melancólica temos longas conversas, enganamos o tempo, esquecemos a demora e o esforço e subitamente adormeço ouvindo-o.

Olhar a rua

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Indo-indo para um lado qualquer por uma coisa ou outra ou por alguém, fugindo ou abraço. As ruas também servem para correr, a luz para enganar e o nariz para respirar.
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Há momentos em que não tenho nada, espero uma coisa, alguém que se me sente. Todos os dias perco na manhã e assim pelas horas vítima e actor até talvez ao entardecer e só pela noite sou exuberante e depois durmo.
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A hora mudou a noite passada. A luz ficou. O vento sempre levando o incómodo, assim o fantasio. Sentado não tenho nada, digo-o por dentro vendo-me fora de mim.
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Inexisto por vocação e na noite, onde o azul se mescla com o preto, dito palavras tóxicas e puras. Nas cores obsessivas saio de mim restando onde sempre sou, desejo-o, para lá da janela.
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Pela escuridão se foge da escuridão para, na escuridão, dela se esconder.
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Desperdiço o amor da mãe, na comoção de me ensurdecer, antecipando o inevitável, digo cansado, já zangado, que a amo.
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Mudou a hora, não choveu e a noite foi escura, mesmo junto aos candeeiros e na preguiça estiraçada recoberta por manta grossa como se fosse gripe.
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Indo com pressa sem caçador, de dentro para fora e inverso. Os dias são noites e suas melancolias sós.
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Inexisto e porque aos outros inexisto pudesse inexistir, não morrer.

sexta-feira, outubro 28, 2016

Mina 9H

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As ruas perderam a noite na multidão. Ia pela calçada molhada confessando-me, ouvindo a linha de lápis nove agá, silêncio do andar educado, como se não estivesse ali e Lisboa conquistada. Ou nossa quando cortando o tempo falávamos pueris ou ponderados. Esta euforia rompe-me a melancolia.
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Nota: Dedicado a JA, SC e VR.

Elazul

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Pernas imperfeitamente imperfeitas, peito esculpido por Eros, olhos infalivelmente ternos, a boca de temperatura certa e dentro, onde dentro é dentro e íntimo, como nunca. Pensamento de luz.
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Liu Hong
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Irmãos Stenberg
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Edward Weston
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Stephanie Peek
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Barbara Cole

Premonição

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A premonição é castigo, uma caixa onde se escondem os desarranjos, o lastro que largaria se pudesse.
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Nunca procurei aventuras, encontraram-me, não fugi porque sou manso. Do que fiz.
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Quase tudo.
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Sou quase nada.

Vida

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Nota: Vinheta do livro «A marca amarela».

quarta-feira, outubro 19, 2016

terça-feira, outubro 18, 2016

O Vórtice de liroá

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Vinte para as duas, quinze e um quarto, foi depois do meio-dia.
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O céu estava um lençol de seda, entendia-se-lhe o azul por trás e a luz morna dum dia de meteorologia indiferente. O príncipe jogado de borco numa toalha de linho e sem inexistentes por perto.
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Todo seu, egoísta e derrubado, desistente das lágrimas e recolhido. Não fosse o tamanho da dor e não seria príncipe.
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Cristalino apesar da tumulto enganava-se e sabendo-o enganava-se mais e sabendo-o mais ainda. Sabia que as mortes estúpidas não são mais infelizes do que as vidas patéticas.
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Só não sabia quem lha tirasse ou se a perdesse se já perdida, é-lhe sobejante.
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Nessa tarde – ali é quase sempre depois do meio-dia – vestia casaca e aprumado no pano branco da soberba não passava dum sapo gordo com um barrote de betão no pensamento.
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Nessa tarde, entremeando o barafundar, reparou nas mimosas e vendo um melro reparou que se esquecia de ouvir o sítio. Procurou um dente-de-leão para o soprar e assim supor a despedida do engulho.
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Tudo ali lhe importava porque irrepetível, desse por onde desse e ali tão longe de hora. Rodou-se pesado fora do pano, o verde agarrando-se à casaca amarrotada, viu um espelho, nele se viu, no céu translúcido, contemplando a idade e as feridas.
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No lodo murmurou que a consciência importa e os remorsos se entregam por telepatia. Sim, a memória desinquietando-o, varrendo-se a preto e branco, na verdade um cinzento pardo e baço, como vento nuclear.
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Aquele sítio não vê nem ouve nem há canavial para as confidências do Barbeiro de Midas nem alcançam fantasmas. É o jardim do príncipe, tão reais e sós.
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O jardim, especialmente aquele sítio do jardim, é tranquilo como o cataclismo quando se desiste e se afoga ou se queima ou o sangue se despede.
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Penso que a tarde ficou fria, ali não se chegam espectros, sentia arrepios. O white tie não esconde vergonhas apenas mostra virtudes e ainda menos sossega o álgido. Tentava consolo protegendo as espaldas e poupando-se à respiração do coração sacrificando-se pelo peso e melancolia.
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Na falta da inexistência compreendeu o medo de ter coragem, efabulando comboios velozes e imparáveis de comprimidos, porque as balas são-lhe falíveis, porque pistola não tem, por medo de se matar. Que má-língua haveria por falhanço se aquele local inconfidenciasse.
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Fechou os olhos morrendo-se no anoitecer e nela toda lhe falaram médicos, anjos e extraterrestres e conversou com doentes e miseráveis, parceiros de impaciência e indecisão.
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Uma noite toda num hospital de campanha vogando centímetros acima da pedra, meditando na descrença dos amigos – nele e nos seus vórtices.
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Não acertou conversas, recapitulou e concluiu reconhecimentos e dívidas, tristezas, enganos, adiamentos e incompaixão, pensando nas desculpas que tinha de remunerar a quem doloreu.
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Essa noite foi toda noite.
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Acordou no mesmo local do jardim e já depois do meio-dia.
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O príncipe desconhece se se engana nos dias ou se lhos enganam, deduz uma noite, um final, onde tudo será lido e sabido.
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No jardim, todo, é outro sítio, onde passeia a vida como a obrigação de passear o cão. Trela curta não faça o devido. Quando solta se mantém estagnada e fiel.
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Desgosta dos silêncios, que incompreende, assim pungentes. Não as tendo, as lágrimas são-lhe inevitáveis.
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Ali costuma ficar vazado de borco sabendo que quando se nada tem para fazer nada se faz e sem vontade não existe vontade e se falha a vida falta a vida.
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Sei-o porque sonhei.
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E para si diz:
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– Não fui ali nem volto já.

Café e cigarros

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No escuro sob os lençóis e invisível a pele é remoinho de cair em cores sem nome e palavras sem semântica. Além do aroma sobejante do cataclismo  e das palavras que a elas faltam e a ele sobejam.
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Que estupidez isso da pele. Qual o tom certo se não existe errado e ainda ao longe um nó meio engolido em silêncio.
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Que estupidez isso dos lábios molhando-se e as línguas trocando salivas.
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Que estupidez ser-se animal.
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Que tristeza não o ser.

domingo, outubro 09, 2016

Casaca

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Importará a forma a quem não deixou razão de pronúncia. Jogar-se desportivo ao rio não justifica um segundo parágrafo. Enfrentar, de casaca e cartola, o comboio terá melhor título. Se falharem notícias ou houver alguém que saiba, ficará por esclarecer o sensacional mistério de por que razão faltou a bengala de bastão ao abandonado.

E o que de mim disseram

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A vida passeia-me por trela curta, não me estrafego porque é indiferente ir, ficar ou voltar. Cão sem dono e dele recebo o destino, como ateu cego, costurando frases de incertezas peremptórias, inditas e indizíveis. Caio cão sem dono na cruz. Ninguém ouve. Ninguém vê. Ninguém diz. Ninguém faz.

sexta-feira, setembro 30, 2016

Caixa de madeira

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No Outono, no meu jardim de Outono, espero ter a ordem do universo, só o sobressalto de Outono sem pólen de Primavera.
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No meu jardim de Outono sou só no mundo e o mundo é outro lugar onde tudo o que importa no mundo importa ao mundo.
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No meu jardim de Outono os pés são nus e mostram a sua natureza no chão irregular. Nenhum pássaro se revela, mas canta a luz descendo.
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O meu jardim de Outono guarda-se numa caixa de madeira com recados antigos do tempo do amor-sorriso e ramos de perfumes atados lembrando quem não me recordo.
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Guardado na caixa, o meu jardim de Outono vê o Inverno chegar e depois a Primavera e depois o Verão e finalmente se liberta alinhado na ordem do universo.
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Nota: O trabalho de Luiza Maciel pode ser conhecido neste sítio http://desenhosluizamaciel.blogspot.pt/

quinta-feira, setembro 29, 2016

Todos os dias tento

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A realidade fica algures, sei-o porque existo numa praça de Chirico, onde a memória é como o vento e a luz, vazia sem sombras, entre o sonho e o desejo. Sou aqui e não saio, mas às vezes vou sem partir, ubíquo e ambíguo, ao sítio dos outros, quando acredito que existem e admito a realidade – um lugar estranho. E não consigo.

Vento

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A preto e branco tudo parece poético como se um candelabro negasse a pornografia. O meu negro é a cores, tão mais belo e tão mais triste.
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Pergunte-se à chuva como prefere dar cheiro à terra. Das abelhas às flores, do risco do avião no céu e dos olhos do amor.
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Mas nunca tinjam o cinzento nem seus extremos.