sexta-feira, Outubro 24, 2014

Claudia Schiffer

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Disse:
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– A Claudia Schiffer é linda!
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Disse-me:
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– Não é linda nem bonita. Parece estúpida e alguém que parece estúpido não é bonito.
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Reconheci-lhe razão e contudo.
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Já passaram mais anos do que aqueles que tinha, e ainda.
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Nota: Lembro-me de comprar o jornal e ler que uma jovem modelo de Dusseldorf estava a causar sensação no mundo da moda. A notícia estava ilustrada com uma foto, quase uma vinheta, duma menina doce com vinte e um anos. Eu tinha vinte e um anos e ia para Dusseldorf.
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Não fantasiei nada. Embeveci por uma má fotografia a preto e branco impressa em papel de jornal. Não fantasiei, mas pensei.

A árvore dos rubis

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A maçã é a fruta da Árvore da Ciência do Bem e do Mal – disse um velho sacerdote impotente e infértil de nascença, parco e austero nos comeres.
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As uvas, disse o bêbado. As uvas, repetiu outro bêbado. Nâo!... As uvas, pôs outro bêbado fim à discussão.
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Morangos, exclamou a donzela apaixonada, de peito apertado, mais pela paixão do que pelo espartilho, ainda soluçando do Champanhe que bebera antes de conceder a honra.
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Figos!... nada mais doce do que um figo maduro – garantiu um camponês.
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Para a madama, as bananas. Gargalhando alto, para que se ouvisse em tom de aleivosia.
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Maracujá, para o marujo que nunca saíra da cidade natal e aportara longe, depois das gangrenas, do sal, do vinagre e da urina.
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Desconfio da romã. Difícil de começar, sangrando como a virgindade, tinta que não sairá, doce e lenhosa como a vida a dois, prazer e luta, e dando tanto para nascer.
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O ouro não oxida, o diamante é eterno e a romã é arte.
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Tanto quanto sei, Deus fez tudo menos a arte e o bronze. Porém, criou a romã.
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Nota: Longe de ser um pensamento profundo ou uma fé, este texto é a legenda desta escultura de vidro e bronze.

Conversas do nunca

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Faço de conta que aconteceu e que estive lá, porque era tradutor, lacaio ou mosca.
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António Salazar dificilmente contendo-se para não gargalhar ao ouvir Benito Mussolini, num encontro em Roma.
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Adolf Hitler e Benito Mussolini entusiasmados, cada vez a falarem mais alto, adorando-se ouvir e ignorando o outro. O aluno condescendente para com seu mestre, afinal intelectualmente balofo. Algures na Áustria… Tirol.
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Josef Stalin ouvindo atentamente Adolf Hitler, deixando-o falar. Adolf Hitler deixando falar Josef Stalin. Ambos tentando compreender a outra parte, percebendo que tudo foi um erro, reconhecendo que serem amigos bêbados e à pancada. Algures na Prússia Oriental.
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Josef Stalin a fechar a porta na cara de Francisco Franco. Em Hendaya.
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Josef Stalin a rir às gargalhadas, na cara, dos disparates de Benito Mussolini. Numa breve visita a Roma.
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Benito Mussolini e Francisco Franco sentados horas de quase silêncio, de quartos de conversas de meias frases… nem de futebol, nem de mulheres nem do melhor vinho… apenas entediados a fazerem horas. Numa esplanada algures no Norte de África.
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Josef Stalin a dizer à secretária para transmitir ao doutor Salazar, que ele próprio segurava o auscultador do telefone, que mandava dizer que não estava. Um em Moscovo e outro na casa rural de São Bento, em Lisboa.
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António Salazar impávido a escutar com muita atenção – interiormente estarrecido pela estupidez – Adolf Hitler e seus sonhos grandiosos. Provavelmente na… Suíça.
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Francisco Franco cheio de soberba dissertando, mal escondendo a vontade de tomar Lisboa em cinco dias, e António Salazar pensando que o espanhol não passaria na sua cadeira na Universidade de Coimbra. Numa repartição pública em Badajoz.
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Adolf Hitler queixando-se a Francisco Franco da tortilha estar demasiado oleosa e enjoativa e que não gostara dos camarões da paelha. Em Maiorca, antevendo que a ilha seria o décimo sétimo länder da Alemanha Federal.
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Benito Mussolini desprezando António Salazar, por ser demasiado padreco. António Salazar desprezando Benito Mussolini por ele se considerar tão professor, embora do ensino primário, quanto ela, que ministrava finanças em Coimbra. O italiano falava e o português pensava em mandar comprar milho para dar às galinhas da capoeira da casa de São Bento. Numa esplanada no Estoril.
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Mao Tse Tung amoado por não ter ninguém com quem falar.
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Heroíto aborrecido por ninguém o entender, nem mesmo os seus súbditos.
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Porque sou português, estive mais atento ao ambiente em torno de António Salazar.
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No final, Josef Stalin perguntou a um assessor:
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– Que língua falam em Portugal?
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No fim, Adolf Hitler perguntou a Martin Bormann:
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– Que língua falam em Portugal?
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Após o encontro, Benito Mussolini disse baixinho para ser ouvido:
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– Por que é que estes gajos não falam italiano… ou, pelo menos, espanhol?
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Ensimesmado, Francisco Franco murmurou:
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– Como é que estes gajos ainda não falam espanhol?
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Heroíto lembra-se de lhe terem dito que «arigato» vinha de «obrigado», mas que só podia ser mentira.
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Mao Tse Tung sonhou ansioso com o dia em que a China conseguisse fazer sapatos com a qualidade dos botins de António Salazar.
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De todas as conversas, António Salazar reteve:
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– Pouca escola preserva a pátria.
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O mais estúpido de todos foi sem dúvida o mais inteligente. E o contrário?

quinta-feira, Outubro 23, 2014

Rosa, nunca

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Ainda hoje não te disse como és bonita. Se disse, não foi o suficiente.
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Sei da temperatura dos teus lábios e do teu olhar brilhante, no escuro ou vencendo uma ofuscante bola de luz.
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É tão piroso dizer que a pessoa amada é uma rosa. Jamais te direi tal coisa.
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Mimosa quando estás triste, da laranjeira na alegria.
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Por tanta coisa, tanta que não sei explicar por que te amo.
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Fico com o mistério, que me prenderá sempre mais.
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Como explicar?
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Sei que a romanzeira enxerta a laranjeira, mas a laranjeira não enxerta a romanzeira.
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Assim me explico-te. Assim me explico-te-vos.

Mar

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– Viste hoje o mar?
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– Sim, vi o mar. Há bocado.
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– Não viste como estava especial?
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– Não! Estava especial como de costume.

Gatos

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À noite a casa é dos gatos.
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Quando olho para um gato tenho a sensação que me lê o pensamento.
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O cão é óbvio! Percebe tudo e é mais generoso com quem ama do que consigo mesmo.
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O cão sente-se culpado e o gato tanto pode ser o Rei de Copas como o Xá da Pérsia.

quinta-feira, Outubro 16, 2014

Sou translúcido

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Contudo, houve a guerra que queimou a alegria. Apesar do Inferno, sobreviveram o amor e os amantes, ternuras e cantigas. Sem entender um verso, alegro-me e desejo-me suavemente embriagado seduzindo enquanto danço com pouco tino.
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Nota: O título parece ser «Para mim, és translúcido». Porém, a tradução foi feita de iídiche para português e via alemão. De toda a forma, traduz exactamente o sentimento e o momento que escrevi.
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E infantilmente, vinho

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Antes de pôr a casa, meditar. Antes de pôr a casa, ter uma natureza. Depois da natureza, ter lavoura. E infantilmente pensar que se é Deus.
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E infantilmente pensar que não morro. E infantilmente pensar haver um fim.
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E infantilmente acreditar em Deus e infantilmente negá-lo.
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Acredito na Lua porque se vê e também nas estrelas cadentes.
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Antes de pôr a casa, deito-me ao relento contemplando o céu – cinema da humanidade.
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E infantilmente não acredito em unicórnios, sereias, gigantes e dragões… e infantilmente também de gnomos e duendes. E infantilmente nego a magia, as fadas e as bruxas.
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Porquê jejuar? Não alegra a ninguém nem faz pensar melhor. Porquê sacrificar um animal? Para que honre quem me dá vida. Porquê a arte? Porquê ser um ser humano?
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Antes de pôr a casa, pôr uma natureza. Bosques, floresta e ribeiras. Toda a espécie de bicheza e viventes.
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Antes de pôr a casa, ter uma montanha, um cone alto e largo, e no chão, toda à volta, uma planície para tudo.
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Pôr salgueiros junto das ribeiras, onde cresce a eruca, o mastruço e o agrião, talvez saramagos.
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O chão de seixos. O chão de areia pingada de sal. O chão de xisto. O chão de granito.
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Antes de pôr a casa, pôr o bosque: amoras, framboesas, groselhas, mirtilos, morangos, medronhos e zimbros. E pôr também kiwis e melancias de casca preta
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Pôr outro bosque, de silvas, esteva, tomilho, cidreira, bela-luísa, alecrim, estragão, hipericão, carqueja, lavanda, hortelã, salsa, coentros, hortelã, orégãos, manjericão, poejo, salva, funcho, verbena, azedas, espargos, urtigas, azedas e papoilas… papoilas para se ir para a floresta.
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Antes de pôr a casa, pôr uma floresta. Sobreiros, acima de todas as lenhas. Azinheiras, castanheiros, nogueiras, avelaneiras, amendoeiras, pinheiros mansos, pinheiros bravos, eucaliptos e alfarrobeiras.
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Antes de pôr a casa, pôr um pomar: romanzeiras, marmeleiros, maçãs de muitas caras, peras de muitas caras, laranjeiras da baía, limeiras, limoeiros, toranjeiras, cerejeiras, ginjeiras, uveiras e figueiras.
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Antes de pôr a casa, uma horta de gaspacho.
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Antes de pôr a casa, pôr a paz, todas as oliveiras que Deus criou ou deixou inventar. Delas tirar azeites doces e picantes e os que mais houver.
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Antes de pôr a casa, pôr vinhas. Cada trepadeira com seu rincão, decidido pela natureza que mais lhe fala a bem e faz amizade.
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Que pôr? Baga e ramisco, juntas em barricas e em garrafas, rezar para que os trinetos já as consigam beber.
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Para ouvir violinos, viosinho, rabigato, encruzado, gouveio, malvasia fina, côdega do larinho, síria, bical, cercial e verdelho.
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E infantilmente, rufete porque rima com clarinete.
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Que mais fazer? Um vinho para acreditar em Deus: touriga francesa, touriga nacional, tinta barroca e tinta roriz.
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Que mais fazer? Um vinho para o Diabo, que não existe, mas que se existisse mataria a sede com veneno de antão vaz e vinhão. Nessas vinhas abraçadas piquenicar – desprezando o medo e a fealdade – e ouvir a música dos arrepios do castelo do Drácula.
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Que mais fazer? Um vinho parvo… bastardo, borrado das moscas, rabo de ovelha, tinto cão e esgana cão.
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Rir muito, deitado a adormecer ao relento de estrelas.
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As duas cores separadas e fazer palheto com a leviandade dos adolescentes.
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Pôr a casa e dentro da casa um claustro, um jardim árabe e sua água corrente pelos azulejos, e ciprestes e tamareiras.
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E lá me deitar numa sombra deleitando-me, comendo pães de searas de trigo e de centeio que o vento agita e a abetarda faz aeroporto.
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Parto os pães com as mãos, porque melhora o seu sabor. Em fartos miolos agasalho os queijos. Côdeas indefesas para trincar e tantas azeitonas.
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E infantilmente pensar ter a árvore da ciência do bem e do mal.
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E infantilmente pensar ser tudo isto possível. E infantilmente pensar que não se dorme.
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Nota: Derivado à limitação do número de caracteres da caixa das etiquetas, escrevo aqui alguns dos créditos referentes às obras incluídas.
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1– Pintura de Roy Hodrien.
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2 – Música de Frédéric Chopin – Nocturne opus 9 número 2 – por Marten Altrov.
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3 – Imagens de cachos e parras retiradas do sítio Wines ofPortugal.
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4 – Tocata e fuga em D menor BWV 565 – pela Royal Philharmonic Orchestra, dirigida por Andrew Litton.
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5 – Pintura de Michelangelo.

David Almeida – 1945 - 2014

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No museu de Deus, no de eternidade, estão todas as obras. Ateus, crentes, agnósticos e descrentes são o que querem. A galeria não tem fundura, vai duma ponta a outra do universo, como se tivesse. A morte não existe.

Conversa de surdos

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Disse-lhe:
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– Sei que tens seios lindos.
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– Sei que és parvo.
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– Apostamos… abre a blusa.
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– Não querias mais nada?
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– Sim, que parasses de fumar e fizessemos amor.
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– …
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– Que me dizes?
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– Passa-me aí o isqueiro, por favor.
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– Vais fumar outro, de seguida? Em que pensas?
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– Nada. Vejo só o fumo. Vês os efeitos que faz e para onde vai, sem que haja vento.
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– Preferia ver-te os seios.