sábado, abril 18, 2015

Letra A


A minha cabeça doente, a minha cabeça rebenta

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Nem mas nem meio mas. Como se parte um a ao meio? Desequilibra-se e cai ao chão? Como se escreveria mas com o a deitado? Nem mas nem meio mas.

Branco

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Calei-me desistente pela irreacção do silêncio. Desconhecendo se ouviam ou cuidavam dos gritos, sentei-me no chão e protegi a cabeça entre as pernas e sob os braços. Um embaciamento interno, a fragilidade da frustração e sem lágrimas, as palavras arremessadas sem eco estavam em ricochetes dentro e fora dos órgãos que sentem, peganhentas e leves, batendo com força.
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Para trás, deitei-te. Deitado mostrando submissão pela derrota. Escondi os olhos do azul e da luz macia da manhã. Não tinha sombra nem nada. Não havia nuvens, não tive frio.
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Podem ter sido cinco minutos ou cinco horas o tempo desviado. Queria dormir, o ruído ecoando dentro.
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Saí vazio. Ao menos tivesse ficado afónico.

quinta-feira, abril 16, 2015

A verdade nunca será publicidade

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Esta coisa de ter dentes tem uma grande vantagem: não ter de engolir pedras para moer os alimentos. A desvantagem é que precisam de manutenção e, tal como os automóveis, chega-se a uma fase em que há contínuos problemas. Só que os carros trocamos e uma boca nova não é bem…
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Ou seja, cheguei aos quarenta e quatro anos e comecei a sangrar das gengivas.
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– Doutor, doutor…
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Agora, com quarenta e cinco, não voltei aos vinte anos, apesar de ninguém me dar mais do que treze… em termos de maturidade.
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Guloso – do açúcar ao sal – e geneticamente defeituoso, conheço as cadeiras dos dentistas ainda antes de ter seis anos.
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Já sei que alguém começou a pensar e talvez a murmurar:
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– Não lavas os dentes e depois queixas-te.
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Mas lavo. Sempre lavei e sempre tive o cuidado de comprar a pasta dentífrica mais bonita, azul – desde que deixaram de ser todas brancas.
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Devido a tantas cáries, penso que facilmente convenço um amanuense a deixar-me mudar de nome para Macário.
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A boca – durante anos apresentou-se branca como o chão de ladrilhos num anúncio de detergente doméstico – tornou-se mais escura , mas à custa de brocas e outros instrumentos muito mais feliz.
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No entanto, as cáries não foram a minha única desalegria. Os sisos pesam-me em pesadelos regulares. Seria demorado e chato explicar, só digo que por causa deles chumbei num exame de condução.
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O meu dentista – durante quase trinta anos – era já batido e disse-me:
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– Nunca vi sisos tão grandes… parecem dentes de burro!
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Volta e meia, passados anos, ainda nos ríamos, eu um bocado amarelamente – amareladamente. Garanto que é uma pessoa muito simpática e bem-educada.
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Chegando aos trinta e muitos, comecei a kitar a boca. Como – descobri há pouco tempo o termo do fenómeno – sofro de bruxismo, os acessórios nunca duraram muito.
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Resultado: ando a kitar novamente a boquinha – bem bonita – e vá de me meter numa empreitada semelhante à recuperação de edifícios históricos à beira de ruírem.
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Blá, blá, blá, bruxismo, sangramento das gengivas, tártaro – Céus, nunca tivera e lembra-me sarro de retrete – arranca tártaro, polimento, prótese, venha cá dentro de oito dias, trata, remenda, cose, tira pontos e acho que é basicamente isto. Só falta uma coisa:
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– Lavar os dentes!
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Sim, lavar os dentes. Nos anos setenta e oitenta, quando as crianças brincavam na rua, rasgavam a roupa e estoiravam os ténis a jogar à bola, andavam à pancada e eram os melhores amigos e ai-de-quem-tocasse-no-nosso-melhor-amigo-e-saco-de-pancada-e-causador-dos-nossos-olhos-negros… iam para a escola a pé ou de autocarro e não eram raptados, seduzidos por pedófilos e subtraídos pela luz ofuscante duma nave alienígena… nesses anos, lavar os dentes era simples.
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Escova lisa – depois apareceram mais macias e mais duras, com relevos para chegar ali, mais tarde outras nervuras para alcançar além – pasta branca de gosto a químico tóxico e lá atrás o movimento era de trás para a frente e de frente para trás, em contínuo. À frente era para a esquerda e para a direita e da direita para a esquerda, repetidamente.
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Um dos primeiros grandes avanços no acto da lavagem surgiu – se não erro – em meados da década de oitenta. Apareceram na televisão, que já era a cores apesar de só existirem dois canais, a explicar que à frente os dentes se deviam escovar de cima para baixo e de baixo para cima.
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Outro grande avanço – certamente fruto da nossa entrada na Comunidade Económica Europeia, em Janeiro de mil novecentos e oitenta e seis – foi o aparecimento do fio dentário, mais higiénico e menos agressivo do que os palitos de madeira. Nessa época, os palitos, nos restaurantes, não estavam em embalagens individuais, mas colocados em frascos, como flores num jarro.
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O meu pai, que nasceu em mil novecentos e vinte e quatro, ensinou-me que nas tascas era melhor nunca pedir os palitos, pois havia alarves medievais que os punham para reutilização e que, sempre, mas sempre, ainda que numa boa casa, partir o pauzinho, não fosse haver, por perto, um sobrevivente do século XIV e da peste negra, com vontade e acção idênticas às do taberneiro.
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Voltando ao novo milénio e à minha recuperação do património edificado… hoje fiz uma formação em lavagem de dentes. Mais curta que a aldrabice das Novas Oportunidades, mas muito mais proveitosa.
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Não sei se – neste tempo de ensino universitário de três anos – a hora que hoje passei na cadeira não dará direito a certificado de pós-graduação…
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Então: há uns escovilhões e faz-se assim, uns géis e faz-se assado, o fio dentário, a pasta desde que tenha fluor. Vim fascinado. Escovilhões? E umas rebarbadoras – como aqueles aguilhões de jacto de água e areia que se usam para limpar as pedras dos edifícios – que arearam, limparam e poliram as dentuças da frente, onde se tinham agarrado umas *£#@&% de manchas… dentadura outrora famosa e apreciada pela sua alvura.
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Fora de brincadeiras, vim encantado. Porque conheci um novo instrumento, novas técnicas, conhecimentos vários e tratado por uma doutora simpática e competente.
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Vertente histórica e antropológica:
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– Na Escócia, a guilda dos produtores de whisky era a mesma que a dos dentistas… toma lá para anestesiar e vá de meter o alicate, a torquês, o escopro e o martelo.
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– Antes do açúcar se tornar acessível a toda a população, as cáries eram problemas dos ricos. As cáries, a gota, doenças coronárias, doenças cardiovasculares, obesidade…
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Há coisa dum ano escrevi aqui acerca de Santa Apolónia. Não é padroeira dos caminhos-de-ferro, porque no século III depois de Cristo não havia intercidades, inter-regional, regional, correio, suburbano, metropolitano ou Alfa Pendular.
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Santa Apolónia é a padroeira dos dentistas e neste momento tenho um altar com velinhas acesas, no pechiché, pedindo a sua bênção.
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O apóstolo Paulo, que passou pela Terra no século primeiro da Era Cristã, teve certamente uma vida regrada e comedida. Acredito que as cáries não fizeram parte das suas agruras… Ainda bem, porque Santa Apolónia estava atrasada uns anos.
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Agora surge um problema… como é que se mistura, neste texto, a bendita Santa Apolónia com o bondoso Paulo de Tarso?
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Fácil!
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– Clínica de São Paulo. Fica no Largo de São Paulo, em Lisboa, junto ao Cais de Sodré. Gosto muito!
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Nota: O trocadilho da cárie e do Macário é retirada duma frase de campanha do Partido Socialista Revolucionário, situado no espectro da Quarta Internacional, quando Macário Correia – homem do centro-direita, do Partido Social Democrata, cuja designação é enganadora, pois não o é – foi candidato à Câmara Municipal de Lisboa, em 1993.
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O lema do PSR foi: «Antes uma cárie do que o Macário».
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Julgo que é bom homem, com um nível de cultura que chega, pelo menos, até Eça de Queiroz… Porquê? Porque, quando lhe perguntaram qual o seu escritor favorito jogou no seguro e revelou ser esse escritor oitocentista. Qual a personagem com quem mais se identifica, na obra queirosiana, perguntou o jornalista. Respondeu que era o Conde de Abranhos… acho que não leu Eça de Queiroz. 

O fim da história

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Se não tens nada de inteligente ou interessante para dizer, diz uma coisa estúpida. Diz qualquer coisa, o que passar pela cabeça ou que não passe e saia só pela boca. Podem pensar que és tonto ou imbecil ou um pobre-diabo, talvez te insultem ou ironizem gozando… Porém, tens um momento e quem sabe se serás tema de conversa. Alguém poderá ficar a pensar e se calhar concordar… Entretanto estarás longe e se sentires vergonha, vergonha de ti, será vergonha alheia, porque realmente só disseste e és inimputável e és irrelevante na multidão – não único nem igual. O resto não interessa! Mas se te conhecerem… diz que estavas bêbado, foste sarcástico ou cínico, canalha dando um criptopontapé nos tomates dum presente irrelevado e irrelevante ou inventado. O que importa? Desde que no final engates a miúda… Esquece, a miúda é tua e os outros entretêm-se em tédios de classe média ou dramas pequeno-intelectuais. Farão amor deitados, se fizerem. Tu vais foder de pé e acordar tarde.

terça-feira, abril 14, 2015

Dormes cá?

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Então, foi assim:
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– Ficas cá a dormir?
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– Não. Não fico.
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– Por que não?
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– Porque não quero dormir contigo.
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– Que queres fazer?...
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– Dormir contigo…
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– Jantamos primeiro ou começamos na cozinha e o jantar que se queime?
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– Amanhã, pela manhã, jantamos.

segunda-feira, abril 13, 2015

Pedir boleia e num camião fugir para onde

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Seria mais fácil se tocasse viola ou piano. Quem tange é tangedor e quem escreve. Escritor, tantos se julgam e desavaliando o peso da matéria, poeta é o oposto e ainda mais se pensando segurar a poesia, e ela de hélio.
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Quero ser poeta e não sujar, a pena fazendo-se peso, como o tempo do pai brincando com o filho.
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Tenho medo. Tenho o medo homoerótico dos homofóbicos. Tenho vergonha. Tenho a vergonha do miúdo de catorze anos a comprar pela primeira vez uma revista pornográfica.
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Um dia disse baixinho com a determinação arrojada e de medo do menino a declarar-se e ainda desconhecendo o sabor doutra boca. Uma professora, duas professoras, as professoras todas da escola viram o papelinho em que escrevi insonoro enquanto disse mais alto do que queria que a queria. Olharam-me muito firmes, descobrindo-me a infância e a vontade no sorriso aterrador e certamente gargalhando para dentro e contando a toda a gente.
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Que vergonha. Nunca mais sou grande. Para carregar a pedra do poeta e a mandar ao ar.
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Por que não sou pintor ou toco ferrinhos?
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As palavras adolescentes na boca do corpo gordo. As letras adolescendem-me e por isso a vergonha de ser pequenino e querer ser grande, para meter a língua noutra boca e a mão onde se quis tanto chegar para dizer: sou poeta.
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A estrada faz uma curva depois da estação de serviço e antes que me pensem, apanhar boleia para onde.

Sic transit gloria mundi

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Estamos carne e comemos coisas e somos espírito e comemos coisas da carne. E não percebemos que por isso a roupa de marca e a comida de plástico e os textos de politetrafluoretileno e resta pouco fora disso, desta palavra complicada, mas sempre foi assim e até gozaram com o Camões.
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Por isso o Estado Islâmico e a Arábia Saudita e os Estados Unidos da América e a Rússia e a moralidade europeia que é hipócrita e às vezes engana, além de África e os ditadores do mundo e o Sueste asiático é a mesma coisa, não esquecendo as Américas das contradições, a China, o Japão e a Coreia – que é só boa ou só má. Por isso as palavras voam parecendo livres e apenas por cheias de vazios.
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Por isso os serviços de informações e as polícias políticas e quem assume erros no cinismo e os da voz de Deus que desfazem. Esses – ambos os dois, porque é para rir da estupidez trágica – e os da moralidade de toda a laicidade e toda a religiosidade.
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Ainda assim há gente feliz.

Glória nas alturas

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Sei que há segredo e sei o segredo e quero saber desse segredo sempre único de aroma e pele e carne fazendo do sonho o beijo e depois a luz rebentando nas alturas.

Olhar o céu

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Se o tempo passa depressa, por que passa tão devagar.

Penso em coisas estúpidas e adormeço entre o dia e a noite

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Não posso de mim. Chato-me no tédio teimoso, força militar de ocupação. Como tirar esta vida de mim, pergunto-me, esqueço-me e adormeço, sedado pela dor e pelas drogas, mergulhando ora em agonia ora no chapão da pressa.
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As gatas acodem-me no vazio, puxam-me da realidade caminhada uns vinte centímetros sobre a realidade. Sobem buscando-me lá tão alto.
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Trepam até olharem para baixo e param, porque os gatos têm vertigens, quem o nega não sabe. Sobem e ferido e precisado abraço-as amedrontadas e pouso-as onde devíamos estar.
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No tempo do vazio esqueço o tédio. É quando penso melhor e não tendo finalidade nem proveito.
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Penso em coisas estúpidas:
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– O que seria se Eva fosse ruiva?
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Do que penso nem ócio nem negócio. A quem poderei vender as curtas frases de preguiçoso, que me anulam e cansam e não fujo porque não sei nem sei se quero conhecer.
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Penso em coisas estúpidas:
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– O néon é feérico.
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Iluminado pela revelação insisto até o cansaço de repetir como o pingar duma torneira lassa, tortura chinesa, até sentença sábia seja a onda a remolhar a certeza anterior defeituosa.
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Penso em coisas estúpidas:
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– Pelúcia é uma palavra desastrada e a visada por ser pirosa é sã e aconchegante lembrança da infância agarrada ao urso a secar as lágrimas e embalar. Peluche diz-se no movimento dos lábios do beijo da avó.
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Sempre grávido e incapaz de parir muito e aflito dos abortos impossíveis. Dou por mim em locais onde não sei ou lembro o caminho. Matraquilho-me com qualquer coisa nascida atrás dum sítio.
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Lembro-me de coisas estúpidas:
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– Isto só em Portugal! Em Portugal é tudo devagar, devagarinho e parado! Nos outros países é a mesma coisa.
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Respiro ar ondulado e deitado penso em dormir, acordado penso em deitar-me. Mortifico-me com todos os padecimentos que causei. Não me importa a adolescência.
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Penso em coisas estúpidas:
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– Nenhuma vida merece um amor e nenhum amor merece uma vida.
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Aforismo impensado, sentença adolescente e facilidade da preguiça. Espero tenha sido inouvido ou inlido ou esquecido ou perdoado.
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O amor insiste e persiste nas memórias das dores paridas a custo, filhos relembrando actos de falha de amor-próprio.
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Penso em coisas estúpidas:
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– Não me posso lembrar. Não me posso esquecer. Não posso lembrar-me de esquecer.
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Sinto-me único e disfarçado na multidão dos sete mil milhões encarnados e dos muitos mais desencarnados. Ninguém tem este tédio.
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É lagarta pesada de pederneira e faíscas, de pedra articulada sulcando e alimentando-se, agarrada como sanguessuga e soltando sal na ferida.
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Insisto e penso em coisas estúpidas:
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– Penso mal, devia ir à terapia da fala.
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Percebo ter inventado uma metáfora. Foi sem querer. Juro que foi sem querer, falo antes de pensar e tenho a boca à frente da mão.
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Não há remédio para o tédio. Engano-o numa cascata selvagem. A boca escancara asneiras mais caudalosas e brutas do que o débito da água solta pela barragem de Cabora Bassa.
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Memória e arrependimento, inconseguindo soltar o desaparecimento da dor. A felicidade antiga é fogo de soldar. A memória triste é fogo de cortar.
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Repito pensamentos estúpidos mas menos estúpidos, chatos, na Eva ruiva e na púbis feminina.
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Penso qualquer coisa de acertado:
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– Ainda no Paraíso, Eva estava depilada e lisa, de pequenos lábios rosáceos ou bordejados no escuro único do sítio ou negros como o das negras? Teria tufo macio e de que cor, sabendo que era ruiva?
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Milagrosamente ejaculo tédio e penso na musa e digo piroso:
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– Quero ver-te dando-nos.
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Deito-me e adormeço.
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Entre o dia e a noite.

Letra A + Letra E + Letra V



Letra L


sexta-feira, abril 10, 2015

Naquele dia não parei

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Naquele dia não parei. O tempo passou depressa para a pressa que tinha e a fome ficou afónica e descontente.
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Que cansaço! Que fome! Pensei desfalecendo duma e doutra coisa.
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– O que fazer? Cozinhar na pressa sem força nem ânimo?... Quiçá adormecer perigosamente sobre a comida… ou deitar-me esperando que a fome adormecesse?
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Quanto mais indeciso, mais cansado. O peso do corpo e o peso do dia sobre ele deitaram-me.
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Aconteceu aquela estúpida e orgânica excitação que às vezes se cria na exaustão. Um esforço involuntário dum moribundo. E o estômago a despertar, como uma manifestação de gente farta protestando contra a ditadura militar.
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Como um monótono sermão para acalmação, comecei a contar carneiros:
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– Um carneiro, dois carneiros, três carneiros, quatro ensopados de borrego, cinco ensopados de borrego, seis ensopados de borrego…