sexta-feira, Abril 18, 2014

Numa noite normal

Como posso dizer a um morto que está morto se também estou.
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Jantar à luz de círios, monólogos curtos e parcos.
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A colher toca na faca quando ia pra encetar a sopa. Sopa de abóbora.
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Acho que é de Bucelas.
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O tinto faz figura de corpo-presente.
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O copo da água é de vidro martelado e o guardanapo bem passado estava à maneira portuguesa antes de o pôr no colo.
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Está mogno. Não há conversa.
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Não faz sentido jantar sem velas. Círios são para mortos.
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Uma alegria seria ridícula.
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Que se festeja?
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Um funeral sem defunto.
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Entorno uma pinga de vinho na toalha branca.
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Felizmente ninguém diz: sinal de alegria.
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Não há pior do que o enfado do que o enfado genuinamente enfadonho.
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Que alegria seria essa? Apressar a lavagem da toalha? No dia seguinte, sem convidados servirá bem. Nas refeições seguintes também.
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É admirável a tristeza como a dum jantar à mesa com um morto sem cadáver.
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A sopa, já disse, é de abóbora.
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Penso: se houvesse peixe, seria pargo. Assado no forno.
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A carne e a Páscoa. Não sei como sobrevivi. Nessas décadas cumpriam-se os preceitos e não comia peixe. Conheço-lhe alguns cheiros.
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Penso na palavra paixão. Coisa estúpida!
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Por que nos alegramos com a dor?
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Ou que chamamos dor a coisa boa?
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Borrego assado com batatinhas, cebolinhas e cenouras.
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Cai mais um pingo na toalha e ninguém mostra ter reparado.
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Foi de tinto, mas podia ser o que se quisesse, tão benfeitinho que está.
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Benfeitinho é normal. É bom ser normal? E se o ser normal, que é bom, for uma porcaria?
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Tive uma faísca de inteligência. Uma fuga da sacristia onde janto.
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Como se consegue ser tão estúpido para jogar pokker com gajos de chapéu e óculos escuros.
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Nunca jogaria pokker com escumalha.
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Há quem veja disso na TV.
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Aliviou-se-me a tensão. Há gente mais estúpida do que eu.
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Volta a luz de círios e caiu uma gota de tinto na água. Não quero saber.
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Nem vinho. Nem mulher. Nem amigos. Nem companhia. Nem ninguém.
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Jantar à luz de círios. Alguém morreu?
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Todos e jantamos sem cadáver à mesa.
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Nota: A V, P e I.

Nas tintas, ainda

Quando tomo banho, arrumo as ideias. Desarrumo-as quando enquanto faço. Esqueço e vou tendo ideias.

Nas tintas

























O meu pensamento rectilíneo não vai recto como não vai nenhuma recta. Nem decidido quanto uma mulher quando muda de penteado. Não vejo o mundo com outros olhos, porque não posso ter outros olhos. Se me apetecer nem abro os olhos. Ou desfoco-os. Ando aos ésses. Vou a olhar para baixo, com um espelho virado pra cima pra ver o tecto. Vou de encontro às coisas. Se não houver tecto vejo o céu. Se cair é o meu destino. Não quero saber. Mas chateia-me que me chateiem.

As crianças


















Se no mundo mandassem as crianças, o mundo seria muito mais violento. Mais poético.

Tar nas tintas


Não me estou nas tintas quanto ao estar nas tintas.

Por tudo

Por um artista colocada, não deitada, num divã. A luz que se aquece nos tons do recolher dos pássaros.
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A três quartos sentado. Tapavas as vergonhas, deixando um seio de fora. Querendo ter certezas:
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– A tua nudez. Brincando-me, fingindo-te distraída, nuvem de passar sem mostrar o que.
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Querendo ver-te plena sem sair do encosto e acreditando no chega para lá. Uma esperança de vem cá.
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As mulheres brincam melhor.
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No último instante de branco na luz, destapas-te e.
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A luz resplandecente das aparições das alturas das divindades celestes. Tudo o que um adolescente quer ver.
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Em mim a vontade de partir e estar em simultâneo
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Em ti a felinitude das mulheres.
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O pé afasta.
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O joelho encolhe, a boca ganha um palmo.
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O pé tranca, a boca beija.
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As pernas abrem-se, e o peito levanta-se.
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Como resistir? Quente e macio, onde a boca se sacia na pureza do branco.
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Um saciar que só o branco quente e macio do pão acabado de sair do forno.
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O peito da ternura diabólica, que acolhe tudo. Tudo.
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Parto para baixo, onde se morre tantas vezes.
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As mãos, as costas. A voz. A palavra imperceptível.
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Uma luta, em que a dor é prazer.
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Num golpe estou sentado.
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Abusas de mim. Abusas de mim. Abusas de mim.
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Abusas de mim e deixas-me morrer em ti.
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Acreditando que morri morrendo contigo.
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Abusas mais um pouco de mim.
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Os suores, os odores, os beijos, que se querem, que se recusam, que se impõem.
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Tudo. Tudo..
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Por tudo voltava àquele instante em que te olhava colocada num divã.

quinta-feira, Abril 17, 2014

A loucura e a alma

A alma











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A loucura

Sujei a gravata

Será que os tecnocratas, que são os doutores de manga-de-alpaca, conhecem o nome das árvores ou comeram morangos na sua época ou que há muito tempo se escrevia em gótico?
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Qual será o cheiro do Excel e do Pdf?
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Ignorante de dois mundos, aborrecem-me os sisos, e apetece-me sempre que aconteça uma maldade.

Momento contra talento

























Só as catástrofes tornam os políticos em históricos. Os artistas têm o poder de mesmo fazendo merda de se tornarem importantes.
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Nota: Aplica-se a todo a aquele que... e justiça dá memória aos performativos.

Mundo

Tenho pés muito grandes. Tenho pouco mundo para andar.

domingo, Abril 06, 2014

À sombra da Árvore da Ciência do Bem e do Mal

Estou no meu segundo luto, e segundo homicídio.
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Deitado, lado a lado, aguentei o odor das flores quando os dias lhe tolheram os encantos; vivia num jazigo.
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A primeira pessoa que matei...
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Sem mentir ou disfarçar, não sei se matei...
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Não sei se me posso designar por psicopata, mas não me lembro de nada.
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Entre a hora e a noite do crime e o momento em que o coração recebe o embate final.
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Lembro-me de muita coisa, mas não de armas brancas, de fogo ou venenos. Nem verbal.
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Uma multidão, de duas ou três personagens, apontou-me a culpa.
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Nunca disse que era inimputável, mas daí a homicida... e naquele caso em concreto... por que não.
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Não! Revistos os papéis e as palavras. Não matei!
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E se tivesse morto? E se matei?
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A ignorância magoa muito. Provavelmente mais do que os tabefes que os polícias dão aos meliantes e que, apesar de caçados, voltam imunes para a rua, porque as celas estão cheias, porque há demasiados julgamentos, porque os advogados não sei o quê, e porque uma organização dos bonzinhos interveio em nome dos direitos da canalha contra o socialmente favorecido que estava num lugar errado.
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A polícia não me interrogou. Nem me bateu, limitou-se a fazer-me penar com o silêncio e a ignorância da acusação.
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Julgado e sentenciado por um colectivo de juízes dissonante.
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Sentenciado por um júri volátil, oscilante entre o que não sabe e o que desconhece.
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Nas alegações, os autores da queixa, a mulher em lágrimas e o defunto que não me olhava, até me acusaram de ser bipolar.
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Ora eu que tomo comprimidos para rir... para que possa enganar o mundo.
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Transtorno dissociativo de identidade, queriam dizer a vítima e sua partenere. É normal, é um distúrbio tão raro que quase só acontece na literatura.
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Tanto faz! Trata-se de caso de loucura e aos loucos não se dá conversa.
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A justiça fez-se. Uma voz solene leu uma data de palavras, que eu, mesmo licenciado, não entendi.
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Observando as regras solenes da etiqueta jurídica, lembrada suavemente por estreito esgar do advogado, fiquei de pé a ouvir uma novela aborrecida e mal escrita, cujo interesse se limitou às últimas palavras.
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Eu, em pé, sob o olhar, entre o confiante e o desesperado do meu advogado, e o alheamento, fugidio de expressões dos autores...
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Sendo o homicídio um crime público, lá no cimo do estrado, que existe para dar maior importância a alguém que se veste com uma bata preta, estava uma pessoa, não sei se homem ou se mulher, a olhar para mim, com o mesmo interesse que se finge quando se visita o estábulo de vacas leiteiras.
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A memória é selectiva e, embora me dissesse respeito, sentia, ainda antes do festival de argumentações, uma sentença para um acto que...
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Três juízes disseram: Culpado e com pena efectiva, inocente e em liberdade condicionada (leia-se magoada), e culpado com pena suspensa, não se dê o caso de não ter culpa alguma.
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Como a dor era muita e sempre quis saber a verdade, insisti na tentativa de conversar com o defunto.
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Guardei-me num jazigo à espera que passasse ou entrasse. Infantilidades de optimismos...
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Aguentei-me, enjoado com o odor das flores em agonia.
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E se entrasse, nem que por engano, o que lhe diria?
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Estás bom?
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Matei-te?
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Não sabendo, assumindo o mais puro sentimento da verdade, não estive amnésico.
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Julguei ter sido alvo duma bala de cicuta certeira na têmpora. Nesse caso, do que constaria do diploma de óbito? Pensarei noutro dia.
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A espera, nesse que seria o meu primeiro jazigo, o cheiro das flores tornou-se em vómito e o tempo tira vida a tudo, até à paciência.
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Já deslembrado do que nunca soube, continuei. Uma normalidade que só os tolos pensam ser de grande aventura e maluquice. Pequenas extravagâncias entre amigos que partilharam quartos
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Ah! Mas não sou santo! Tenho em mim um vórtice que me puxa. Não inocentemente, pois tenho a vontade de nele cair, viajando como Alice. Parece-me, pelo que leio e julgo entender, que a dietilamida do ácido lisérgico tem efeitos que podem ser idênticos ou comparáveis.
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Esse vórtice, chupa-cores helicoidal, que me fala e chama, teria de vencer, nem que fosse por uma vez, a lógica do afecto, que, como o das mães, se confia e acredita ser eterno.
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Se nesse primeiro crime deitei-me num jazigo – com as flores que acabaram por apodrecer, esperando que o féretro se juntasse naquele leito de mármore, que tem, à entrada, do lado de fora, uma locução de pesar em latim e que acompanha banalmente a aldeia das casinhas para cadáveres – agora embosquei-me na tristeza da culpa.
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Desta vez houve crime verdadeiro, com as minhas mãos transformadas em boca, que estrangularam pedindo ajuda – um pouco como fazem os náufragos àqueles que os vão salvar, desconhecendo as artimanhas da morte, que com amonas e abraços estrangulantes matam por afogamento os salvadores. Assim fiz, com esperança nas palavras.
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O flúor e o iodo fazem bem à saúde, mas são venenos.
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(É neste ponto que todos aqueles que, vendo o corpo jazente da vítima e o meu semblante tardio, me podem, ou devem, apelidar de manipulador – seja para cima ou para baixo – pois o elevador faz os dois caminhos, com o mesmo ranger de metal, o que assusta algumas pessoas).
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Digo tardio, porque o que penso agora tivera tido outra compreensão a quando da sentença, ainda antes de decidida e proferida.
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Dizia: não fugi e entreguei-me, ainda o corpo fumegava de dor – embora no singular, deve ler-se no plural.
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Ostracizado, foi esse o castigo...
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Voltei a escolher passar a pena num jazigo, sendo este maior. Não por acaso ou bondade para com o condenado, mas para que coubessem mais flores e assim me enjoasse mais facilmente.
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Desta vez, o defunto apresentou-se. Ficando em ausência, para que a minha dor fosse aguda e grave, gritando, figuradamente, como um órgão de igreja barroca, fustigando os ouvidos de qualquer pessoa dotada de bom senso auditivo.
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Eu e a vítima, separados por um muro de flores a impossibilitar o vislumbre e filtrando o som que uma boca (a minha) pudesse proferir.
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Exagero: na verdade, o jazigo partilhado com as flores mórbidas e a vítima basta em espaço.
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Interrogo-me, agora marginalmente, onde estão ou estavam os cadáveres proprietários dos jazigos. As flores garantem a existência do convívio doloroso que une partintes e ficantes... Mais tarde pensarei nisso.
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Não falo ao meu homicidiado, porque não me ouve. Quero dizer, não me quer ouvir. Ainda tentei, mas não se arromba uma amizade.
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Não diz nada, mas tenho a certeza que me ouve. Noto um certo remexer da folhagem das coroas ou das pétalas violáceas lá no outro lado da casa.
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E se falássemos, falaríamos do quê?
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Do frio que faz dentro da casa de pedra? Penso que é de mármore... ou do odor enjoativo das flores?
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Do tempo que está lá fora? Chove? Faz frio? Esta semana viu-se pouca gente...
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Falaríamos do homicídio? Disso não, porque foi com palavras que lhe estrangulei a réstia de paciência.
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Pensando... terei matado alguém vivo num ápice ou terei apenas posto demasiadas gotas de tóxico no chá?!
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Li nos jornais que um bandido anda à solta. Começa por impacientar e acaba estrangulando, com manipulações de sentimentos.
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Ingenuamente sei que sou eu. Louco, não paranóico. Ainda assim espero o momento duma acusação nesse âmbito.
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Manchete em vários jornais: Investigações recentes apontam-me como provável serialquiler.
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As palavras matam e falo demasiado.
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As amizades são para a vida! Ok! Quanto dura uma vida?
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Pelo princípio: o que é a vida? E pressupõe reciprocidade ou Deus criou o universo com um só sentido de marcha, estando a faixa do lado com vedame mais à frente.
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Num outro princípio, mas mais avançado... será o jardim de Deus, um labirinto de sebes, que, ao desvendar-se, como um delta de rio, se transforma em largo prado, com todas as flores em bosquetes, e pomar de todas as árvores de fruta, podendo comer-se de todas elas, incluindo as da Árvore da Ciência do Bem e do Mal?
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Porém, ao contrário do primeiro crime, que alegadamente terei cometido, esta sentença perdeu a vida.
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A sentença morreu. Como tudo na vida. Mentira!... ou quase verdade, em inocência... transfigurada pela metamorfose. Esgotada transformou-se no martírio do açoite.
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Como dói a dor que se dá injusta. Como tudo na vida, há um fim.
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Sem clemência nem apelo, a fustigação fez-se normalidade, daí resultando uma indiferença.
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Tanto faz que tenha morto alguém. Tudo na vida morre. Se morrem os corpos dos amigos, jazem também os sentimentos que se prendem às almas?
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Vive quem quer e sobrevive quem pode. E o mesmo dito colocando os verbos querer e poder.
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Tenho as contas saldadas. Os mortos não me matam. Os vivos, os que ainda, com adaga segurada entre dentes ou drone para balear à distância, o podem fazer... fazem-se de moribundos.
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Como as fieis beatas, que com a boca e coração maldizem para se arrependerem, sem arrependimento, ao cura, recebendo um perdão, graça e hóstia. Pobres homens, o que têm de ouvir e aturar.
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Estamos na Páscoa e sempre comi carne. Antes, durante e depois. Fui malcriado. Esta é característica que, em estudo aprofundado, pode levar a obter conclusões interessantes acerca da minha tendência homicida.
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Tenho a dizer, sem cinismo... acredite quem quiser: Quem teme o estrangulador de afectos que durma descansado, tal a fraqueza.
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Ceder à dor da fustigação, a que me prestam em atenção, seria outro massacre de cinto e fivela.
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Não fico mais num jazigo e deixo as flores defuntas para quem, embora morto, queira continuar sem vida.
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Se os amigos morrem?
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Morrem. Fica viva a amizade.
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Os amigos morrem?
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Uma construção de passados e gratidões, memórias, tristezas e alegrias.
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Matam-se os amigos. Levados para campa rasa, forno ou jazigo, terão consigo sentimentos provenientes das alegrias. As tristezas esquecem-se, ainda que na dificuldade houvesse alguém, mais sóbrio e momentaneamente enrijecido, lutasse para que o bom pudesse amparar...
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Coisas que não se fazer por «gosto», mas por amor. dois.
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Lutasse, pensando, de antemão, no momento do beijo da traição. Afecto cínico, como quem cria galinhas em capoeira, que mantenha ânimo às suas futuras vítimas.
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A verdade é maior do que a vida e nada supera o amor, assim quis Deus. Assim penso. Mesmo crendo por lógica e não por fé, reconheço-lhe infinitas bondade e inteligência.
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Quando penso predisposição de me açoitarem, castigando-me navalhados mortalmente e ainda vivendo, morro um pouco, confesso.
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Morro pelo engano. Pela traição, tirada emprestada à minha vítima homicidiada.
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Compreendo. A verdade é maior do que a vida e que esta se faz de memórias. Mesmo não querendo, negando em juras, há afectos maiores do que outros.
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Que seja o sangue ou o partido a tomar a parte. Que não tome o rancor e a justiça que não lhe compete.
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Que saibam que em cada vida só se morre uma vez. Quem quiser a minha bala de cicuta que se coloque defronte ao gatilho e espere... Nunca se sabe se o dedo se cansa e o único projéctil, em sorte de roleta russa, se liberte.
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Se assim, espero ter saudades da caixa de pedra, onde só se conversa com o vazio.
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Não peço dores emprestadas, nem as ofereço em demérito. Ainda que queiram que o faça... e se mo fizerem, não darei o desgosto do rancor.
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Os amigos são um exército pequenino, talvez menos do que um pelotão. Há os que vão e vêm, os que ficam (por qualquer razão), os que nunca foram (sem razão), os que zarpam, e os mais tristes, que saem fechando a porta aos amigos, com as chaves do lado de dentro e ouvidos surtos a chamamentos.
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A esses desejo que nunca seja noite e que dentro do santuário que encontrem haja do que comer e matar a sede.
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E palavras de encontro, boas ou más, mas que reconciliem quem nunca devia ter sido apartado, tendo ido ou ficado.
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Digo isto tardio, evitando desilusão. Quero compreender o homem, que me perdoe e lhe dê graças por, vindo a mim, mesmo sem que os lábios se mexam, diga uma palavra de consolo e reconhecimento.
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Não é pôr em altar de santo. É pedido. Nem mesmo peço para mim desculpa por mágoas que esqueci ou faço por isso. O mesmo no caminho para lá.
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Terei morto dois amigos. Um na inocência e outro num desastre.
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Um, que não me lembro do crime, terei de esperar pelo momento em que nos encontremos no jardim das sebes e uma força, de luz ou vento ou água ou fogo ou quinto elemento, nos faça falar. Ajustando contas malfeitas.
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O segundo tem a porta aberta, ainda que saiba que jamais a vá querer passar.
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Que nas suas intimidades se queixe do mal que lhe fiz, enquanto murmura etilizado o meu perdão.
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O orgulho calá-lo-á para sempre, ainda que as floristas tenham muitas cores e cheiros, e das suas lojas partam banais rosas encarnadas, assustadoras rosas amarelas, principescas margaridas, arranjos simples, acabamentos comuns e desejos especiais. Nas floristas há muito mais, e as ramagens não se aparam com gadanhas.
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Quem me aponta o dedo... não matarei, pois a dor tomada de empréstimo é roubo. Roubar é muito feio e poucos são os que confessam e devolvem. Nunca roubei! Levei, em nome duma festa, uma garrafa de vinho rasca e porque insistiram que tinha ar de menino de coro, que não acende um círio sem que o prior dê licença.
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Se matarei mais alguém?
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Não sei. Entre mim e mim existe tempo e outras coisas que não se perdoam.
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Se matarei mais alguém?
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Amigos há poucos...
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Se matarei mais alguém?
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A resposta honesta é dolorosa.
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Não quero acerto de contas, nem caubois de revólveres nas mãos, um com balas de arsénio e outro de cianeto.
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A vida é mais do que isso.
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Há uma estrada de ir e outra.
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Há o jardim das sebes e das certezas, muito espaço para conversar.
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Se matarei mais alguém?
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Uma memória próxima quase respondeu...
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Não matarás, mas se o fizeres, faz com que todos chorem também a tua desgraça.
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Que os amigos partilhem, ainda que na dor escusada e desastrada, um sentimento. Como antes fora a felicidade.
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O tempo tira vida a tudo, até à paciência.
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O mar reclama o que é seu.
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Sobre tudo, o jardim de todas as benfeitorias.
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Se por acaso, sejas tu o primeiro falecido ou o segundo mandado, não morreste matado por mim...
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Se por acaso não o podes confessar.
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Com dor e sem rancor, angustiado e triste.
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Uma maré trará o momento.
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As sebes abrem-se como os deltas dos rios e o pomar alarga-se como os estuários.
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Sob a árvore do conhecimento, comendo do querer, a verdade irá juntar quem na Terra disparatou.
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Sem verdade não há...
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Não prometo não voltar a matar.
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Nota: a LM, SA, VR, IQ e PR.

sábado, Abril 05, 2014

quarta-feira, Abril 02, 2014

Sete é um número mágico e três também

Estou além mas antes do lugar donde vim ou para onde fui, consoante chega o eco dos meus sons, como se duma língua impossível.
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O tremor das mãos não é de doença nem de medo. O seu suor não é insegurança nem resquícios de água perfurada. É qualquer coisa que nasce em nascente incerta e vasta, rio que parte e nunca chegará.
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À noite como um rolo de bolachas-maria. Como duas a duas a duas e desgosta-me quando um pacote tem número ímpar. Bebo, a acompanhar, água que tiro da torneira e duma garrafa, cheia até ver, de litro e meio. São em plástico e só me desfaço quando há qualquer coisa petrolácea a vir pelo gargalo.
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Não tenho nada contra a reutilização de objectos, mas chateia-me ter monos em casa. A mulher é prática, o que quer dizer que sonha muito. Acredita que a reciclagem não é um negócio e que a reutilização tem espaço em casa.
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Escrevo coisas. Umas gosto e outras não. O mesmo com os outros. Escrevo, mas é ela quem sonha. Supostamente, sou o poeta e na verdade sou o manga-de-alpaca.
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Enquanto ela vive na Lua, olho para os pés. Ela vê o azul-bonito e o branco do berlinde. Vejo os pés e outras coisas, raramente moedas.
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Com a tralha faz dinheiro, Só não faz mais porque não aceita o que estou disposto a pagar-lhe para tirar de casa os absurdos. Sonha que será em breve a partida de tudo aquilo que não queremos.
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Escrevi antes... faltou o ponto de interrogação, mas como se fosse... fossem várias:
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 – O que faço aqui, donde vim e não bastasse a confusão do para onde vou.
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Não tem a ver com vontade. Ainda que grite, para que oiça e oiçam, o apelo ou o eco, não tenho forma de.
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De.
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De, basta! Diz tanto quanto as questões primordiais.
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Quanto às outras, as filhas dessas? Triste ou com fome? A pobreza e o egoísmo? Valer esperar pela pessoa certa para. Para basta! Esperar que a pessoa certa encontre. Esperar que queira. Esperar que a pessoa certa esteja no momento certo.
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E se um movimento, um qualquer, a torne na pessoa que não é certa. Ou apenas incerta. Por qualquer coisa, nem que seja por um copo de água que se entornou onde.
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De. De basta. Na confusão dos dias, nos das dores ou nos de alegria, podia ter escrito felicidade. Discutir isso? É mais giro e proveitoso enfiar na cabeça a imitação dum capacete viquingue, só para rir ou não rir ou dizer qualquer coisa que.
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Basta amar? Dor de amar? Amar só dói na perda. A paixão dói sempre. A paixão alegra por se perder quando errada, alegra por se perder quando certa. Enquanto dói ao mesmo tempo de qualquer coisa que.
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Pois, aqui. Entre ir e voltar, ficar. Não é a mesma questão? Um destino.
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Ouvir som ou eco. Pode ser vento ou dor, conforme a proximidade ou a distância ou vontade.
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Sonho em ter e escrevo. Sonha com alegrias, felicidade, se quiserem.
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Sou  o manga-de-alpaca, histérica que desmaia, a fragilidade do homem. Ela desaguou todos os elementos e todos foram só um, porque a vida é.
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Do choro ao riso, há-de ter de tudo. Um destino que

sábado, Março 29, 2014

Doutor, doutor... tenho aqui uma dor


Cheguei à farmácia e o doutor, ou aquele funcionário que faz o mesmo, mas que é só ajudante, perguntou-me:
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– Que remédio deseja?
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– Preciso de dois. Uma para a dívida pública e outro para o défice orçamental.
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Parece que estão esgotados, mas que estamos a tentar mudar de laboratório.

sábado, Março 22, 2014

Selfie nua não significa estupidez... corpo de miúda





















Não namoraria com uma mulher banal, porque nenhuma mulher banal me aceitaria a banalidade, ainda que louca, é banal.
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O meu coração é de esferovite!
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Não tenho qualquer conceito que torne este simples verso numa obra de arte ou em parte integrante de criação maior.
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Rimar com infinitivos não é proibido... bem queria a malta do hip hop pra se queixar.
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Na maioria das vezes é só falta de talento.
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Ou tempo a menos nas ruas e esplanadas, de cervejas e charros criam a ilusão de gerar artistas.
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Há os taxistas que fazem poemas complicados, longos e palavrosos, com todas as palavras que conseguiram colher no dicionário.
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Têm mais memória, mas menos música. Ainda que o hip hop, cá da terra, seja todo igualinho, feio como todos os pais que usaram a mesma mãe.
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Não tenho estatuto para bobo nem para maluquinho de aldeia. Para muita gente, algo desinteressante e exótico entre os dois seres.
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Imito. Como todos imitamos, mesmo quando genuinamente criamos. Minto, como todos os que criam.
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Mas para que irei nu para a Segurança Social se alguém já meteu um urinol numa sala de exposições?
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Só a clemência, por causa do frio e da fome, me livrariam da saída apoteótica, ainda que repetida, numa ambulância. Se o fizessem estragavam-me a arte e o propósito: passar à frente de toda a gente.
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Pergunto-me, num monólogo denso que só será lido com muito uísqui, demasiado fumo, apertado em livros de lombadas velhas e de poetas que ninguém quer saber: Devia ter estudado para ministro?
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Que mulher banal me quer? Talvez ébria e por isso não me leve a sério.

sexta-feira, Março 21, 2014

Leituras atrasadas

video
Nunca poderíamos namorar, pela sua inteligência e a minha maldade. Nunca duas tristezas poderiam dar a alegria de juntar a areia dum lugar com a luz do outro sítio. Há ainda o rio e as casas baixas. São quilómetros de distância entre a sua sabedoria e a minha vida prosaica.
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A menina, a quem raptei o nome numa brincadeira inocente, tem todo o conhecimento, tudo cabe dentro do ovo e sabe o que é. Eu, desbocado e galã, derrotado por muita coisa, sou superficial e actor de conhecimento de artifício.
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O amor pelo que escreve... leu «A paixão de Martin Eden», de Jack London? Quendera ser Martin, ainda que a menina não estivesse no sacrário do amor e, por amor de todos os santinhos, não fosse a desilusão.
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Quando a vida me serrou a cabeça e fundiu memórias deixou-me este livro e enredo. O que eu queria era «O Retrato de Dorian Gray», sem aquelas coisas dos maricas.
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A menina é a sabedoria de Martin Eden e o seu esforço. Sou a futilidade, a arte pela arte, o amor pelo capricho.
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Escrevo-lhe como se fosse um poema – talvez seja. Escrevo-lhe como se fosse um poema .
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Conhecemo-nos? Tivemos blindedates intelectuais, sem malícia ou outra intenção que não fossem letras e artes, e conversas do vamo-nos-conhecer-embora-tenhamos-pouca-coisa-para-dizer – que foram agradáveis.
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A menina é densa e eu pueril. Como um casal da pequena burguesia lisboeta do século dezanove.
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Gosto de ouvir e de dizer que sei ver, ainda que muitas vezes apenas julgue que observo uma pérola, que é pedra à vista da verdade. A menina tem flor, folha, caule, raiz, solo, subsolo, hiberna e dá uvas.
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Não é o mundo que perde uma amante – e desconheço se de momento o tem – são as amizades que lamentam o dia de Fevereiro em que pousou o Belogue. Ao contrário da natureza, as letras e a sabedoria não crescem sem amanho.
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Onde começa a menina e onde acaba? É o Belogue, ou apenas quer retomar esta conversa dentro de vinte anos?
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Tenho direito à ilusão de saber o seu nome.
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Como tive direito ao tu e ao açoite da terceira pessoa.
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Ainda tenho o seu nome. Roubei-o, aproveitei-me dum abandono distraído. Podia tatua-lo, mas não preciso.
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Beluga, disse-me. Falei-lhe em caviar, o que é óbvio, e como um herói pronunciei alto, como os novos-ricos, Champanhe.
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Fresco, notas de folar, pitada de erva-doce. De bolha viva e muito fina.
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Não! A Beluga merece mais do que ser rainha de festa em luz. Nunca será brilho, mas ouro velho. Nunca orgia de riqueza de ouro até vomitar, será pintura, talvez a têmpera, abraçada em madeira vestida de folha de ouro, já castanha pelo valor
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Tem a escuridão duma cave de tonéis muito antigos, onde se guarda arte como nos depósitos dos museus. Não é o que todos vêem, esconde-se. Está onde a quiserem procurar.
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Arte  quase única, para quem sabe e sabe guardar segredo, não por intriga, mas por falta de tempo a perder com quem não distingue uma terra-sena-queimada dum verde nascido da força do azul-prussiano e dum amarelo plebeu.
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Sou um homem que vê coisas e algumas até existem. Porém, o meu nariz engana-se menos, expressa-se pior. Leio: 1855. Se puder... como o teatro, é arte efémera e viva.
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Vejo-a, desesperada tentando salvar da fogueira um El Greco, que gosta tanto que se pudesse o mandaria queimar.
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Nessa paixão por querer ter paixão... não tem desassossego louco para ter paixões. A sagrada sabedoria quere-a acima dum breve tempo de loucura pueril. Tem desassossego como quem usa cilícios – a sua dor é pensamento.
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Amar é outra coisa. Pode amar livros e quadros e não ter quem mereça dormir consigo o sexo justo devido a quem tem mais do que letras, visões de arte, triangulações... e ainda que fosse só isso... arte é arte, e merece-a. Não lhe direi de beleza, mas de mulher.
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Repita comigo, bem soletrado e alto: eu amo. É o amor que lhe deve. O gnomo da cultura e a foda da sabedoria que tem da vida e que, aparentemente, não sabe usar... há gordos e Apolos que a esperam, queira ter a coragem de ler a vida como age no conhecimento.
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Sexo é fácil. Difícil é o amor. Que saudades tenho das suas cartas de amor de sabedoria, que lia todos os dias, se todos os dias tivesse escrito e eu tempo para aprender que o meu conhecimento são farófias...
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Sim, esta pode ser uma carta de amor, já que o tempo e a distância não nos deu tempo para sermos amigos.
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A menina fez-me humilde. Quando a soberba, o cinismo e a hipocrisia me poupam tento ser boa pessoa. A sua sabedoria dava-me humildade. Sentia-me feliz com a minha consciência de farófias... leve e doce.
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Humildade é uma coisa boa, não é aquela sensação que o meu cérebro tem, às vezes... quando sinto ter uma alforreca dentro do crânio.
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Não nos conhecemos: fui um galã e quase filho-de-puta... às vezes fui. Consigo, nunca, e nunca o seria, não tenho arcaboiço para um wrestling que acabaria antes que lhe tentasse dar um beijo! E sempre acreditei que a minha inteligência, cultura, virtuosismo e imaginação me faziam alguém que merece ser conhecido e desejado.
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Quase nada. Tenho uma vida tépida... feita de enganos mornos, arrefecidos por hiperventilação por causa de vulcões egocêntricos.
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Não segui pintura, porque recusei a injustiça de ter de estudar matemática. Disse-me o meu pai que mais valia perder dois anos do que toda a vida.
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Se tivesse conhecido uma sabedoria humilde como a sua talvez tivesse segurado a cruz e hoje pintasse, ainda que medíocre. Na verdade perdi dois anos e a vida toda.
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Já a menina é sabedoria; um ovo. As marés não a comovem, interessa-lhe a água.
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Perdi tempo quando, por uma razão justificada e que não me lembro, desacostei do seu Belogue. Perdi lágrimas por razões maiores, mas encheu-me de tristeza saber que não tem escrito desde Fevereiro.
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Queria continuar seu aluno e não ter de lhe escrever um poema de amor, por não lhe sentir amizade suficiente...
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Escreva. Pense que sou um recluso que ama uma mulher abstracta ou um soldado que se felicita pelo aerograma da madrinha e que sabia que um dia poderia ser sua mulher.
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Escreva, não para me fazer um favor. Mas porque...
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Pelo que quiser.
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Nota 1: À Beluga, que mantém parado o Belogue, o blogue mais interessante que conheci.
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Nota 2: Lembre-se de escrever quando for correr a ouvir estas mocinhas...