sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Meta-além

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Um calhau vindo da cintura de astróides matou os dinossáurios. A pedra não foi atirada nem por Deus, nem pelo Diabo, nem foi um acaso. Foram alienígenas, para abrirem a porta aos humanos – parece que somos híbridos ou mestiços universais.
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Até a vida na Terra! Porque pode ter surgido num lugar qualquer do infinito ou do grande-para-caraças, nunca aqui.
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Já o nosso conhecimento foi adquirido porque eles… não temos nem mérito nem inteligência. Veio tudo dum saco onde tudo está ligado. No espaço, no tempo e no meta-além.
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Nota 1: Escrevi propositadamente astróides e não asteróides. Não me lembro onde encontrei essa alternativa, em que gramática ou dicionário. Porém, ainda que tenha sido ilusão de óptica ou memória falsa, prefiro-a, porque há astros e não ásteros ou asteros.
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Nota 2: Escolhi as caricaturas de Giorgio Tsoukalos, porque os seus penteados são a prova da presença alienígena ao longo da história. Mas há mais sábios de sabedoria sábia que têm divulgado a verdade acerca da humanidade e da vida no cosmos.
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Nota 3: Imagens provenientes de http://www.galleryoftheabsurd.com/
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Control + Alt + Del... nop!... Format C:

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Sei que me apagaste, e o teu retrato ficou-me vincado.
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Não tenho nada a perdoar. Fui eu quem te deu borracha e errou o traço do auto-retrato.

É isto

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O que é a depressão? É isto.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Pelo menos menos trinta

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Devolvam-me os GNR. Devolvam-me os The Smiths.
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Não é da música, nem do tempo.
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Não é nostalgia, é melancolia.
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É duma nova oportunidade na mesma vida.

Qualquer coisa que não sei dizer

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E de sua boca se projectou um peixe vivo como um demónio exorcizado.
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Fiquei a pensar no tempo e na escuridão, não no tempo da escuridão.
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A figura sombria do Diabo, tão carecido de misericórdia e compreensão – ou vice-versa.
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Depois pensei nas gárgulas e na luz das catedrais.
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Depois pensei no ferro e no carvão e no tempo:
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– Deu-lhe com sua espada sobre o elmo e o rasgou da cabeça até ao peito de modo que seus elmo e arnês era todo de sangue e miolos.
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Li. Li mais da filigrana ingénua, deliciosamente violenta, de brutalidade quotidiana e imponderada.
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As trevas vieram depois, quando as bombas e os gases. Ainda mais frias, com o botão e o manípulo de guiar a morte até um lugar.
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Foi o cinzento-azul do peixe sufocando e o vómito do pobre homem, pardo naquela luz sem recorte nem contraste, a penumbra dos deambulatórios nos dias finando-se – o que me despertou.
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E se fosse comigo? E se na vez de cuspir, engolisse o bicho?
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Meu Deus! Meu Deus! Alguém acenda uma luz, que me afogo nos medos.
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Qual será a cor da minha alma? Do laranja-fogo da loucura ao azul-veludo da taciturnidade ou do vermelho-falso do riso ao negro profundo e absoluto da imemória do sono.
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Aquele peixe voou sem asas como um demónio fugindo da cruz e das palavras – essas negras por imponderadas da ignorância e da falta da caridade.
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Pensei.
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Esse momento horroroso da surpresa sem lágrimas, um castigo qualquer.
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Não, o sono é mais negro quando não é fundo, pois lembro-me.
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Cansado, muito cansado. Faz-de-conta que não lembro de dormir bem.
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Faz-de-conta a cidade inexistente e ninguém.
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Não é diferente. Quem-me-dera-a-luz-da-fé ou a visão da angelitude ou o mosaico do vitral antes do frio e do anoitecer.
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No Paraíso haverá rios e camas para o sono.

O bolso de Cronos

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O meu sonho é não ter um Rolex, mas o tempo.

sábado, fevereiro 06, 2016

Entregaria a alma num instante infinito

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Dava tudo para te ver nua. Agora e já e em instante infinito. Quem dá tudo não dá nada, mas daria a alma.
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Já que entregaria a alma, me fosse concedido o perdão por tocar-te no mamilo e saber da rijeza. Encadeado pela auréola, pequena ou espalhada. Colhendo os seios com a delicadeza certa e me saciasse.
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Já que entregaria a alma, me fosse concedido o perdão por te beijar da boca ao ventre. Enlouquecido e enleado nos cabelos tocados para que não se julgassem abandonados. Colhendo da barriga a suavidade das almofadas escandinavas.
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Já que entregaria a alma, me fosse concedido o perdão por te beijar todos os lábios. Desvairado por me teres também em sabor. Colhendo a droga benigna dos corpos quentes.
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Já que entregaria a alma, me te fosse obrigado a tudo e tu a mim. Colhendo tudo como se houvesse nada. Agora e já e em instante infinito.

Declaração de inaptidão

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A vida é pastosa. Se não fosse importante, não o seria. Como a escola, onde percebi a importância do prazer, por causa da utilidade, e do sofrimento, pelo desnecessário.
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Não é por se ir à escola que se pensa pela própria cabeça. Possivelmente será o oposto. Mais profundamente? A maioria das pessoas não pensa, sobrevive.
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Com sorte, vive-se. Sem tal, sobrevive-se ou até só se existe.
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Nem falo da qualidade do ensino nem dos critérios de avaliação ou da justiça.
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Estudar é um aborrecimento. Aprendi pouco e o que sei ganhei enquanto desenhava ou escrevia, em paralelo ao discurso dos professores.
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Raramente me interrompiam. Só no início. Depressa percebiam que não valia a pena tentar caçar-me, pois afinal estava atento e sabia quase sempre.
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A capacidade de se pensar em paralelos não é um dom, antes uma negligência desatenta ou inexploração e inconsciência. Conseguimos cantar enquanto lavamos a loiça ou conversar enquanto conduzimos ou escrever durante um telefonema.
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Na escola, quando numa aula de disciplina importante, desenhava compulsivamente e escrevia quase tanto.
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Na escola, quando numa aula de disciplina inútil, desenhava compulsivamente e escrevia ainda mais.
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Contudo, nessas desnecessidades, ainda ia sabendo e estudava. Estudava muito, mas os resultados eram péssimos.
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Estudar não tem de ser divertido. Nunca foi o meu objectivo encontrar entretenimento nas utilidades. Contudo, advinha prazer. Mas desenhava e escrevia compulsivamente.
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Na verdade, nunca estudei além das desnecessidades. Dediquei horas às inutilidades.
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A minha média de final de curso é de doze valores. Nada mau para quem só abriu os livros raramente, das disciplinas sem interesse para mim... pré-história, arqueologia, pré-clássicas...
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Quis estudar história da música em Portugal, mas os professores eram duma mediocridade inaceitável. Sabiam muito dos temas dos seus doutoramentos... O resto era um lotaria, onde se tinha de saber datas, locais e personagens... como o responsável pela Capela Real em 1678... E eram tidos António Fernandes, Manuel Henriques, Francisco Lopes, João Esteves..
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Pois, era optativa e substitui uma coisa semestral por uma temática de ano lectivo completo, no domínio da geografia.
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No liceu aconteceu-me ainda melhor do que na história da música. Porque retrocedi dois anos, por mudança de área vocacional, cheguei ao décimo segundo ano com dezanove anos. Um professor baixinho, pessoa baixinha, quis humilhar-me na primeira aula e por isso. No final, dirigi-me a ele e confrontei-o. O cobarde tremeu e não sou nem fui ameaçador, apenas disse a razão de terminar o ensino secundário com vinte anos.
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Nas aulas seguintes, evitava falar-me. Ia humilhando pela sala e olhava-o com a cara fechada. No primeiro teste fui brindado com dois valores e meio. Percebi o recado. Fui imediatamente à secretaria para anular a matrícula e inscrever-me num exame nacional. Nove meses depois, avaliado num conjunto de milhares de alunos, consegui dezasseis. Era um homem pequenino, com síndrome de homem pequenino – não era nem sou um génio.
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O meu pai dizia admirado que eu desenhava como respirava. Valeu-me pouco na escola. Nas disciplinas artísticas, a arte garantia-me boas notas, mas os assuntos desinteressavam-me. Imagino o dilema na avaliação – por culpa minha. Em português e em história era mais centrado, insuficientemente, nunca consegui uma nota máxima.
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Talvez se não desenhasse e escrevesse em paralelo às aulas – dirão. Aí seria pior.
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A culpa é do mundo? Não! É minha. Respondo consciente, porque tenho livre-arbítrio e nunca me molestaram pelos descalabros.
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Aprendi mais na escola primária do que na preparatória ou no liceu… na universidade, não me atrevo. Lembro-me de ser miúdo, na primeira escola, e ouvir a professora comentar, com outras docentes, ou de a minha mãe me dizer, após reunião de encarregados de educação, que eu era distraído e estava noutra, que fazia os mínimos, e optava por outros destinos. Queria desenhar e escrever e o que me davam não era só isso e disso entregavam-me temas instimulantes.
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Não era nem rebelde nem insolente. Queria criar e sabia instintivamente distinguir o útil do desnecessário. Bem, rebelde não fui, mas na universidade fui, embora defensivamente, insolente.
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Repito que estudar serve para pouco e quase nada se traz da escola.
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Não, não é ilusão de óptica! A maioria das pessoas não pensa e muitas outras pensam mal. Têm pensamentos quasi automáticos.
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Sabem do que têm de saber e pensam quasi apenas nisso. Claro, foram à escola e aprenderam.
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Não, não aprenderam quasi nada.
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Antigamente, em jovem adulto, a arrogância era-me abundante e com ela vinha o desprezo. Uma vez humilhei um professor que se armou em parvo – porque me via a desenhar… Fez-me uma pergunta e respondi-lhe. Brutalmente, interveio reactivamente:
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– Onde foi buscar essa teoria abstrusa?
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– Fui busca-la ao livro XYZ, do professor cicrano, da Universidade de Viena (desta lembro-me). Faz parte da bibliografia e se não sabe onde fui buscar a teoria abstrusa é porque não o leu. Aliás, o livro está esgotado, mas tenho uma edição antiga. Quer que lho empreste para tirar fotocópias?
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Obviamente, vingou-se. Tudo bem! Acabei por fazer as suas cadeiras numa outra universidade, pública, e saquei dezasseis nas duas, se não erro – sei que foi mais do que catorze, mas menos de dezoito.
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Uma outra vez, um professor assistente quis impedir-me de fazer uma prova, argumentando que eu faltava a muitas aulas. Tarde demais, pois já tinha o enunciado. Respondi a tudo e entreguei-lhe os papéis no final. Disse-me que não me avaliaria. De facto, não lançou a nota.
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Inscrevi-me para exame de recurso e, mais uma vez, embirrou comigo. Nesse dia não apanhei o enunciado. Saí da sala e apresentei queixa na secretaria. Veio Agosto e telefonou-me o professor catedrático a pedir desculpa pelo procedimento do seu assistente. Entre outras coisas, recordo-me de me dizer.
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– Recordei ao professor fulano que não é qualquer aluno meu que consegue um catorze e que, nem que fosse por isso, poderia proceder como fez.
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Regressando: arrependo-me, constato que a minha inteligência não é muita. Sou quasi estúpido. Talvez iludido, creio que penso, que o faço bem e estou atento além do casulo.
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Mas, para que raio tive de estudar matemática, física e química? Eu ia para a Escola de Belas Artes.
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A professora de geometria descritiva, inteligente e sábia, percebeu-me e criou uma excepção:
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Eu podia desenhar como quisesse, à mão ou com instrumentos, podia rasurar, esborratar e até usar sempre as mesmas minas e as desadequadas desde que, ao lado, indicasse o que seria correcto... Traço fino, com mina 3H...
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Foi-me útil, essa matemática.
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Saber contar e umas operações básicas, ler, escrever e interpretar, e civismo – pouco mais me ocorre com interesse universal.
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Quase nada estudei. Quase nada aproveitei.
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O mundo não tem culpa pelo meu falhanço. Eu é que provavelmente não quero o mundo.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Os gatos têm sete vidas

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– O vazio é inexistência ou impresência?
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 – Quando se tem fome, isso não importa.
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– Com fome ou sem fome, a questão não desexiste.
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– Por que pensas nisso?
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– Penso em mim, no que faço, no que devia fazer e até que ponto falhei o alvo ou os alvos – se existe destino, nada a fazer, está escrito. Penso: fazemos o destino ou, pelo menos, guiamo-lo, talvez parcialmente.
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– Por que dizes isso?
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– Porque sou uma dessas palavras, com outra emergente com regularidade imprecisa: desistente.
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Já abalroei. Já quase saltei muitas, muitas, muitas vezes – talvez o devesse ter feito, da janela e da beira da plataforma ferroviária. Já engoli e emendei – fi-lo, num só dia, várias vezes. Já tive lâminas cobiçando-me as veias. Já tive uma seringa com ar e agulha. Já quase consegui comprar o aroma da amêndoa.
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Esmurrei paredes. Esmurrei um prego. Esmurrei vidros. Esmurrei um espelho. Cabeceei a parede – menos dores do que a de engolir um tubo, até disse que não fazia mal, não tinha importância, que não se maçassem e dessem atenção a quem, de facto, precisava. Talvez o corpo soubesse mais do que o pensamento; depois de anestesiado várias vezes consegui tragar a cobra.
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Do tempo antes: fui menino e adolescente, meninices e adolescências. Tive amores, perdi amores, magoei, arrependo-me, envergonha-se-me a consciência, mas nem é importante – provavelmente. Perdi amores e um irmão, com quem não partilhava ácido desoxirribonucleico.
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As gatas prenderam-me. Hoje, o nome dum arcanjo aperta-me a mão. Nem mãe, nem pai, nem mulher, nem amigos me seguram nem aguentam. É triste! É assim! Triste para mim, porque inconsolável. Triste para eles, porque impotentes perante o meu sofrimento.
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Quis ser pintor, mas não fui – por cobardia e incapacidade em lidar com a obrigação dum estudo sem lógica: matemática, física e química.
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Quis ser fotógrafo, mas não fui – por alguma cobardia e por me ter tornado jornalista de escrita. Ainda ganhei uns trocos, uns prémios, uns troféus, dos quais guardo apenas três, nem sei porquê. Ninguém se lembra nem lembrará dessas glórias – das fotografias, não do seu autor.
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Quis ser jornalista, porque aconteceu estar mal de amores e a mãe ter sabido duma oportunidade, através duma pessoa que, desconhecida nessa época e por anos, hoje é muito minha amiga.
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Quis ser jornalista e consegui. Até tinha jeito, era um miúdo com arte e que aprendeu o ofício depressa.
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Era jornalista e tive azares. Azares, mas não crimes. Fui sentenciado a uma quase morte. Fecharam-se portas, porque a casa estava cheia e – mal acabara de agradecer o tempo e atenção que levaram a dizer-me que não – chegaram outros.
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Um gajo porreiro. Porém, portas que se fecharam, algumas magoaram… amigos desaconselharam-me e, contudo, amigos… não se poriam em causa, não se colocariam em situação de julgamento, não infringiram a ética nem a moral num mínimo nepotismo. Como alguém o fizera por eles, numa galáxia distante. Nem meritocracia, nem nepotismo, nem nada. O senhor Cunha ignora-me. E conheço tantos senhores Cunha.
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Após anos de padecimentos, o provável é que não seja o mundo a estar enganado. Talvez não tenha competência… bem enganei tanta gente por tão longo tempo – será então.
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Ainda assim, há quem me queira e julgue bem, em Portugal e fora dos noventa-e-dois-mil-e-não-sei-quantos-quilómetros- quadrados de terra a que chamo pátria.
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O que faço? Aos amigos, peço trabalho. Aos conhecidos, peço trabalho. Não imploro nem esfarrapo porque não resultaria e a dor que tenho é-me bastante e sobejante, dispenso ridículos desnecessários. No entanto, não duvido que há quem me veja patético, néscio, palerma, estúpido, incompetente, insuportável, inculto, arrogante, mendicante, lazarento…
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Queria ser escritor… na verdade, a vontade é de poeta. Digo prosador, escrevi um romance. Pequeno e denso, elogiado por quem se reconhece. No entanto, expulsei-o da gaveta doze anos depois de terminado. Corri com ele, porque o tempo me permitiu perceber que não o avaliava como o amor adolescente, pueril, do inaugural recém-nascido – tantos assim definem, mais palavra, menos palavra, a sua primeira obra, chegando a agradecer as recusas.
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Não! O livro é bom! Pelo menos responde ao que quis que respondesse. Está lá tudo o que era tudo quando esvaí. Se o faria igual? Faria, se regressasse a dois mil e três. Faria, não tenho outra verdade nem sobrou.
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Não foi colhido um único ramo de eucalipto para produzir folhas que conhecessem a minha tinta. Saiu em formato electrónico, numa plataforma de auto-edição, ao preço absurdo de três euros e noventa e nove cêntimos.
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Publiquei-o há pouco mais de um ano e até Setembro não vendi nada. Esforcei-me, ameacei com o Natal… em vez de o reenviar para editoras – no passado, houve uma casa que o recebeu numa terça-feira e me deu a nega na quinta-feira, agradecendo tê-lo dado a conhecer e que tinha tido a mais atenta leitura – mandei mensagens de correio electrónico.
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Tenho mil trezentos e setenta e seis endereços electrónicos, actualizados. Não mandei para todos, há gente com mais do que um… instituições, empresas… Foram quase quinhentos, quatrocentos e noventa e três – já descontando os desencontrados.
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Promovi-o no infotocopiável. Telefonei a quem não tenho o endereço de correio electrónico ou não tem página no Facebook… No Facebook? Mil oitocentos e sessenta e quatro pessoas, não contando os grupos de que faço parte. Além do Tweeter e do Linkdin.
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Hoje fui espreitar as vendas, previamente amargurado, ciente dum descalabro. Foi pior:
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Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
(…)*
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Fui ver… quinze. Quinze livros vendidos.
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O «Grande Reserva», lançado em Novembro de 2011, felizmente vendeu e vai vendendo. Os ganhos somados dão quase dois ordenados medíocres.
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O infotocopiável dá-me alegrias relativas, as melhores não digo, porque não quero, mas há quem saiba. Somados os dias de existência, não descontando os períodos de suspensão e inacessibilidade, o resultado é três mil seiscentas e duas voltas da Terra em torno do seu eixo. Contadas as visitas, o blogue é lido diariamente por setenta pessoas, porque não há setenta-vírgula-trinta-e-quatro pessoas.
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Quero ser escritor agora e não dentro de uns anos ou décadas ou depois de morto. Nem sei se depois – prefiro não efabular, trincando as crostas e sorvendo-me.
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Quero ser escritor. Quero ser escritor de notícias e de poemas e de prosas poéticas – de romances, não me parece, porque não me apetece. Em tempos acreditavam que tinha queda para a coisa. Agora não tenho sítio para cair.
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Há muitos anos, numa galáxia agora distante, desesperava com a matemática, a física e a química. Estudava. Estudava-as como nunca estudei, nem antes nem depois. Fiz trabalhos de casa, tive explicadores e as notas vinham em linguagem binária: zeros e uns.
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O que fazer? Eu sabia. Estudava… na véspera dos testes, precisamente na véspera, ficava amnésico. Zeros e uns. Numa das vezes respondi como se tratasse duma prova de português. Por extenso e explicando o inexplicável, denunciando todo aquele-não-sentido.
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Se queria ir para a Escola de Belas Artes, por que tinha de saber de matemática, de física e de química?... O número de horas dessas cadeiras era até superior às da temática, das nucleares, das artísticas.
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Dois anos a patinar, a mãe aflita e o pai marimbando-se (também ele falhado) sabia bem o que era de se dizer e disse-o bem, sucintamente como tudo o que é central e importante.
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O meu pai disse-me:
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 – Se vês que não é isso que queres [área educativa e destino dos estudos], muda agora. Mais vale perder dois anos de escola do que ficar a vida toda enganado.
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Parece-me que me enganei quando desisti das artes.
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Ao contar e contemplar as quinze linhas, cada representando um livro vendido, vi toda a vida, acelerada e muito lenta, como daquela vez em que saltei para a piscina da prancha mais alta, era adolescente – instantes intensos onde cabem todos os dias, desde a primeira palmada para respirar.
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Nem me queixo do calote duma pessoa séria – a educação impede-me de confrontar e exigir o devido. Há pendências, mas felizmente trabalho apenas com gente séria nos dinheiros e com frontalidade.
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Hossanas! Hossanas!
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Olho para as tintas, fitam-me como uma puta a gozar o bêbado. Olho para as câmaras fotográficas e suspiro porque são para filme. Olho para o teclado e o espelho ri-se. Riu-me também.
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As gatas hoje não ficariam sós desdestinadas. Mas o nome do arcanjo é um seguro de vida.
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Depois há o azul – sozinho nos meus países inventados.
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– O que vais fazer?
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– Sorrir, pois está tudo bem. Apenas uma dúvida… inexistência ou impresência?
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Nota: Trecho do poema «Balada da Neve», de Augusto Gil.
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Da fome

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– O vazio é inexistência ou impresência?
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 – Quando se tem fome, isso não importa.
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– É quando tenho fome que penso nisso.
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– Cuidas ter um vazio em ti?
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– Não… será um vazio ou o vazio?
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– Como assim?
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– É possível existirem dois vazios?
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– Bem… talvez… como assim?
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– Para existir vazio não será obrigatório que seja infinito?
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– Como o universo?
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– O universo ou um universo? Finito, finitos ou simultaneamente a mesma coisa?
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– Essa do vazio ter ou poder ter de ser infinito, em oposição a um espaço ou tempo limitado, lembrou-me, em imagem na cabeça, um queijo suíço.
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– Percebes agora por que penso no vazio quando tenho fome?
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– (…)
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– (…)
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– Queres comer alguma coisa?
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– Se como penso no Paraíso, no Inferno, Limbo, Purgatório, na vontade do homem, no acto do decreto do homem em nome de Deus, donde vem esse direito e se existe nisso tudo comédia e tragédia, beleza e fealdade.
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– Parece a do ovo e da galinha… ou o sexo dos anjos…
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– Precisamente! São anjos, definição sem género, o que pode ser ou não sexuado, são anjos, no masculino, e só, são anjas, só no feminino, existem anjos e anjas, e pode nessa situação existir sexo…? E se houver sexo, de procriação, socialização ou prazer ou várias conjunções?
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– O ovo e a galinha…
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– O ovo e a galinha não interessam nada!
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– Carraio! Porquê? É uma discussão idêntica.
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– Errado! As galinhas e os ovos existem… já os anjos, nas três hipóteses de género, são de existência discutível… não é a mesma coisa de não existirem, mas de se acreditar universalmente.
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– Acreditas em anjos? Em santos?
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– Acredito na bondade, na perfeição, na inteligência, no belo… em seres, em espírito ou na carne, com essas características, em parte.
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– Porquê em parte?
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– Só Deus é isso tudo e talvez mais.
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– O que é Deus?
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– Deus é a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas.
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– Allan Kardec…
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– Sim, Livro dos Espíritos.
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– E isso não te satisfaz?
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– Faz-me pensar mais?
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– Concretamente em alguma coisa?
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– Vagamente qualquer coisa… assuntos provavelmente importantes, densos e superiores… que a minha pequena cabecinha esfarrapa em conclusões ou caminhos básicos, erráticos ou errados – se é que existem caminhos errados… se existe infinito… se existe vazio…
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– Já reparaste que entrámos numa espaço-nave, duma questão em concreta, embora nebulosa e vaga, e chegámos ao limite da densidade…?
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– Densidade em que não entrámos, não entramos nem entraremos, pois a minha cabeça é pequenina e a tua é pouco maior.
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– Já pensaste em Deus, como figura, como criatura, como…?
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– Descarto a hipótese de ser criatura, tal como respondi com a citação. Como figura… será como os anjos? Conjuga-se no masculino ou no feminino?… Os alemães ainda podem conjugar no neutro. É sexuado? Ah, pois! Mas pode ser masculino ou feminino?... O neutro parece-me mais consensual ou, pelo menos, justo. Acredito que Deus é justo e bom e que bondade e justiça são plenitudes, absolutas.
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– Desculpa, mas pode ser-se bom e justo…
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– Nunca completamente. Em nós há imperfeição. A perfeição é o destino – que queremos, que termos, em que acreditamos, se, se, se… –, a perfeição, como absoluto. Podemos proceder com justiça e bondade sem sermos Deus, mas nem que seja na dúvida, por obrigatória ignorância do tudo, as perfeições, ou perfeição, não nos são ou nos é.
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– Bem, estamos a velejar longe da costa, sem instrumentos nem estrelas… entrámos nos teus pensamentos depois de comer…
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– Comi um pão. Tu é que não viste.
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– Ah!...

Do Céu e do Inferno

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Se o Céu é luz, o que é da sombra?
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Se o Inferno é sombra, o que é da luz?
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É luz sem sombra.
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A escuridão é consciência e resignada servidão.
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Deus é, ninguém vê.
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O Diabo não existe.

Pior

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Tenho horror ao feio, mais do que ao ridículo. Um aperto na alma e no coração que ultrapassa a vontade do suicídio. Ferido, porque magoa e ensanguenta, até grito e palavrãozeio.
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Pior? O meu piroso, sempre ridículo!
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Pior? Os cheiros do peixe!

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Luz

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Será assim, vítima feliz. Se ilusão? O desejo é luz, ainda às vezes de engano.
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O que é a fotografia. Escrevo por essa luminescência.
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Sobre, despindo-se. Eu, incontrolando e contendo-me.
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A fera e a jugular, debato-me saciando as mãos nos trinta e oito graus aflitos da pele.
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Todos os lábios beijando-se, a sede das dores deliciosas.
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Vinho sagrado vertendo e ao bebê-lo subir e descer até que.
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Aflitos emornecendo, colados pelas sobras, respirando o perfume e.
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E será diferente, depois na cama desfeita, quase húmida e às vezes molhada.
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Ilusão? É luz e com ela escrevo.
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Todas as fotografias são quase verdadeiras. Por que haveria esta ser só de engano.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Todos os sentidos – a perfeição

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O que vale a pena na vida. Digo dos olhos e ainda faltando à verdade – a verdade é absoluta.
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Podia dizer de música. Não há ofício tão benquisto, poucas legendas a caligrafia abandona.
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Pelos olhos se apaixona. Incontável maioria de esquecimento de contar o nome do operário
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Há juras de que não se sabe cheirar. Mais não do que de memória de nomes ou locais e momentos. Do seio ao orgasmo, sangue e ansiedade, por raiva da essência animal – adrenalina.
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O tacto é tudo.
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A boca é sagrada. Com ela se sela o casamento ou outro negócio. Quem sabe dos amargo, doce, salgado e ácido. Umami… O picante é exactamente o quê? A boca começa no nariz e termina no estômago.
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A cama: sono, sono-mimo, mimo, sexo, sono-sexo, orgasmo, pesadelo, pesadelo-erótico, heroísmo e pré-morte. Na cama: preocupação, paixão e outros sofreres, desejo e efabulação, orgasmo, amor, impenetração, fidelidade, adultério e conversas acabadas. Bendita é se na quebra não viver violência.
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Pelos olhos se apaixona. Que digo de minha injustiça?
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– O céu de Rubens, a luz de Rembrandt, um anjo de Leonardo e a terra de van Gogh.
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Ainda o azul.

Minha glória – Vanitas

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Definir a cor e ir.
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Inconseguindo, tirando a sorte. Imbatotando por confetis. Inconseguindo porque gregários, viajando nos dedos.
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Inconclusivamente, inconclusivo-me, até roubando a sorte.
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Do infravermelho ao ultravioleta, agarro no escarlate, no azul puríssimo e no negro. Como um príncipe recolhido no quarto de cama desfeita perdendo os passos, ainda que deixassem rasto no chão renascentista – tão igual a outro.
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O cardeal suplicia-se, castigando-se pelos pecados da natureza e pelos açoites ordenados, mas sem remorsos.
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O príncipe tem o corvo ao ombro, bicando-lhe a orelha e dizendo, imprecisando de noite da bruma do luar do cemitério.
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O azul é belo. É! Isso o exclui, isso o impõe.
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Esta vontade triste do sofrimento, de dor amada e reexpulsa – amor adolescente e adultério.
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A alma e o sangue derrubam a beleza inquestionável, provavelmente infinita.
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Escolhi, morto vivente, sem ressuscitação nem campa.
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Escarlate e negro, como um cardeal. Como um príncipe de teatro.

A bem-aventurança

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Como demora a descida para a nudez. Ainda que seja seda ou a porta fechada. O que se vê nesta distância entre o desejo e o desmaio é a pele. Longe irá por mim, durando as horas de nada.
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Há beijos eternos em movimento permanente, de memória dos cometas, e ao passarem desce diante e por mim a nudez do desejo e do desacato.
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A bem-aventurança tépida da pele e dos mamilos, o ventre de aviso e o Inferno. Depois morre-se.
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Até um cometa ou porta de se abrir.
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A queda lenta da seda e primeiro o sol rosáceo dos seios.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Aquela segunda-feira – Enforcado no Sete

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Aquelas segundas-feiras de estômago e coração, saturados e não desistentes de mandar calar a cabeça que também se ordenava ao silêncio.
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Aquelas segundas-feiras depois das férias da Páscoa, quando se voltava a encarar a miúda, a mais gira da escola, por quem se. Quinze dias de sonho de coragem e de imaginação do perfume do seu champô. E que se faria se. Se qualquer coisa que partisse a vitrina e para lhe declarar, no medo suicida, a ingenuidade.
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Aquelas segundas-feiras dos testes de matemática, no último tempo do horário escolar. Semanas de angústia, sexta-feira de desespero, dois dias de suores, a manhã eterna e o sinistro.
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Estas segundas feiras sem fundo, de olhar e não ver o reflexo duma moeda no bolso. Estas segundas-feiras do extracto bancário de igual valor ao que se conseguia nos testes de matemática.

sábado, janeiro 02, 2016

Por lá para lá

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Atravessar a rua, entrar na casa nova e deitar-me esperando, já que esquecido, perdendo-me ainda, avante à retaguarda. Receio o frio, hesito uma vez mais.
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Já que o Diabo não existe, que se desapegue o Anjo e possa ir ter com ele.
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Nota: Fotógrafo não identificado. Quem souber do seu autor, informo-me para que possa atribuir os créditos.

Cinema, filmes da vida

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Quero ver pela primeira vez «As Asas do Desejo» e regressar na contagem de «Europa», deixar «Nosferatu» e.

Vénus em Capricórnio

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Esse sorriso, apenas Vénus. Logo depois, vens e se a Deusa se conjuga com Capricórnio, o desejo sobe até onde nem as montesas trepam.
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Nota: Vénus em Capricórnio é também o título da obra plástica.

O Tigre

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Quero ser comido por um tigre. Um tigre que tire da jaula e tenha o impulso que, por vezes, os gatos têm. Não se jogue à jugular, mas dê a honra de alcançar o coração batente com uma só e completa dentada – como se tivesse as mandíbulas das máquinas que colhem terra. E com essa que me cubram. E nela se espoje saciado e impunido, impunível, ronronando pelo favor e pela injustiça.

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Navio-fantasma

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Enrolado em lã, da macia, porque dia do gato. Tenho muito para fazer quando não tenho nada para fazer. Destapo-me e dispo-me, olho em contrapicado para a fachada da Catedral de Colónia e os olhos quase não chegam. É isso, a construção da casa e das vozes surgentes na cabeça. O início arrasta horas e a desoras noto a inanição e vou já, e já significa uma paragem depois de horas. Bebo água e acalmo-me quando o mar desce e fica a areia na vista, então deixo a nudez. 

Letra J


sábado, dezembro 19, 2015

Coração patinador

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Então:
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– Então, apaixonei-me por ela.
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– Quem? Quem?
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– Uma miúda da minha turma…
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– Como era ela?
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– Não sei bem o porquê… era cool, tinha pinta, popular e boa-onda.
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– Mas, fisicamente…
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– Baixota e… muito bonita.
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– Como bonita?
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– Bonita!
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– O que fizeste?
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– Não fiz nada. Fui tímido até muito tarde. Em contrapartida, sempre fui muito consciente da realidade e que andar de patins era coisa que escusava.
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– Assim é que é não tiveste mesmo hipótese.
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– Nunca teria.
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– O que aconteceu depois? Esqueceste-a? Cortaste os pulsos? Choraste desalmadamente?...
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– Suspirei. Suspirei triste. Na verdade, aos treze anos, não sabia o que era isso de namorar – sabia que tinha de haver uma declaração… e se ela aceitasse, o que fazer?... e se ela me desse uma, mais do que provável nega, o que fazer?... E no dia seguinte?... E os intervalos?...
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– Esqueceste-a?
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– Apaixonei-me por outra.
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– Esqueceste-a depressa, à primeira.
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– Nada! Estava apaixonado pelas duas ao mesmo tempo.
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– Essa segunda miúda como era?
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– Loirinha…
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– Aos treze anos somos muito atraídos por loiras.
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– A primeira também era loira… aloirada… ouro velho.
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– Conta-me mais sobre a segunda.
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– Loira e de olhos azuis… ou seriam verdes?... Penetrantes.
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– O que fizeste?
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– O mesmo que não fiz à primeira.
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– Eram parecidas?
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– Nada. Em nada. A primeira era cool, a segunda era daquelas muito arrumadinhas. A primeira gostava de desporto. A outra preferia ficar à conversa nos intervalos.
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– Essas paixões adolescentes… quanto duraram?
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– O tempo todo em que estive na escola.
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– Bolas! Isso parece uma coisa de Sempre-Noivo ou de Triste-Viuvinha…
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– Nada! Fui apaixonando-me por mais. Mais tarde, aos dezassete anos, é que encontrei uma miúda a quem fui capaz de me declarar.
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– E?...
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– Ela aceitou.
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– Quanto tempo durou?
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– Nem sei. Mas, uma semana depois, fui de férias para o Algarve e comecei a namorar uma alemã.
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– Don Juan...
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– Acho que não.
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– Finalmente esqueceste as outras.
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– Sim. Mas continuei a apaixonar-me sucessivamente, mesmo tendo namorada… tive muitas, mas também ganhei campeonatos de hóquei em patins.
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– O quê?
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– Par de patins.
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– Ah!
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– Só atinei aos vinte e três anos.
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– Quanto tempo?
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– A partir daqui não digo mais nada.
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– Porquê?
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– Não me apetece. Quando esse primeiro amor sério – sérios foram também os outros, no padrão adolescente – terminou voltei a ser namoradeiro e campeão de hóquei no gelo.
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– Mudaste de desporto?
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– Sim… mais fácil de cair, de me manter de pé e de me aleijar.
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– Por isso não contas mais nada a partir de mil novecentos e noventa e três…
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– Não! De dois mil.
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– Sabes delas?
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– Duma, sim. Doutra não.
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– Compreendo.
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– Mas, olha. Dessas duas primeiras namoradas… ainda somos amigos. Falamo-nos, não todos os dias ou semanas ou meses, mas várias vezes por ano.
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– Tá giro, oh patinador.
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– Depois vi a luz.