quinta-feira, setembro 03, 2015

quarta-feira, setembro 02, 2015

O montado de sobro

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No sobreiral, Carlos e Winston fumaram charutos, a que tiraram a cinta, e beberam Porto e Madeira, falaram do mar e da guerra, mas não discutiram política nem inconfidenciaram amores. Frente a frente ou lado a lado ou um aqui e outro ali, cavalete, bancada, tento, pincéis de pelo de marta, petróleo, tela encaixilhada e muitos panos-de-limpar-tinta. Depois de tudo estar arrumado, mostraram e subiram para o landau.
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Nota: Não consegui apurar quem fotografou. Se alguém souber quem foi o autor, por favor informe-me, de modo a poder atribuir a autoria.

Normandie

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Esteve anos atracado numa parede do meu quarto. Tinha tudo: charme e documentários cinematográficos a preto-e-branco, senhoras da primeira classe e seus chapéus, famílias aborrecidas e gajos vestidos com roupa enxovalhada e sapatos estragados. Tinha um comandante distante e autoritário e empregados de mesa vestidos como empregados de mesa. Tinha fumo negro e vapor translúcido, tinha o silvo e o ronco, o vento salgado e os perdigotos do Atlântico. Tinha a bandeira de França e a do país que inventei quando tinha dez anos. Nele viajavam artistas plásticos milionários refeitos das misérias, burlões encantadores, devassas bem casadas com cornudos joguetes das amantes… Qual é a cor da água rasa? A lâmina cria um bigode pequenino e elegante, tão pequenino para tão grande navio.

Colo

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Pela boca, a palavra pai sai cheia. É fértil e de rocha. Não se pronuncia sem ser bem alto, como se diz amigo. Tenho-o longe, por isso sempre perto.
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Sussurro a palavra mãe, para que descanse da vida na vida. Quem me dera ser pequenino e ter o colo. Como dói dar o colo à mãe.

Leia se conduzir

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Dizia-me o instrutor de condução que ter a carta não significa saber conduzir. É verdade! A quantidade de gente com licenciaturas e que não sabe ler é monumental.

A virgindade – As adolescências

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Quantas vezes se pode ser virgem?
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Tantas quantas as pessoas do mundo, deste e do outro. Uma vez na vida e uma em cada regresso. Uma cada em vez...
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Estava uma Lua apagada e da rua vinha uma luz que nos observava. Ébrios do vinho e enleados na tremura do fogo das velas.
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Porquê? O vinho marcava horas escuras e despimo-nos em confidências.
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– Começo eu! A primeira vez:
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– Fui almoçar a casa dos pais, que estavam fora. Éramos quatro e no final levou-me para o quarto e disse-me:
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– Há que tempos queria fazer isto!...
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– Despiu-se, menos a camisa branca, por pudor. Ela em cima e eu em baixo.
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A tua primeira vez:
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– Eu?!
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– Podes ser…
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– Fomos passar o fim-de-semana a casa de amigos e ficámos a dormir na sala, com os sacos-cama fechados um no outro. Entre beijos e afagos, avancei e avancei e foi. Disse-me:
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– Estava à espera que fosse diferente.
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– A tua primeira vez?
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– Estava muito longe. Muito longe, ela desceu do primeiro andar até à cave, onde ficava o meu quarto com porta para o jardim. Entrou na cama e tentei, entre beijos e afagos. Não era o tempo, percebi, e não sei se mo disse. Disse-lhe:
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– Quando quiseres…
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– Quero já!
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– Depois veio o silêncio dum abraço denso e subiu.
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E tu, como foi?
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– A primeira vez:
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– Vi-a impressa e um dia conheci-a sem saber que era ela. Tantas vezes tentámos e eu fugia. À terceira, num Renault 5… nos bancos da frente… metemos a quarta, mas não passei da primeira. Mais tarde, num quarto duma pensão de putas… não tínhamos dinheiro para mais e a cama rangia muito. Muito mais do que os orgasmos. Não sei qual das vezes foi a primeira vez.
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– Então e tu? Como foi?
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– A primeira vez:
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– Conheci-a na noite. Houve aquela magia dos ímanes…
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– És piroso.
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– Posso contar?
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– (…)
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– Uns dias depois… fiquei a dormir em casa dela, porque era muito noite e estávamos muito cansados de falar e com vontade de proximidade. Vinho e nada mais do que proximidade…
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– (…)
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– Mas era muito noite e estávamos muito cansados de falar e com vontade de proximidade. Fingi que adormeci e no maior do desejo maior, acariciei-lhe as nádegas. Era Verão e ambos vestíamos apenas cuecas e uma camisola fina. Por fora, em círculos menores, em círculos maiores.
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– (…)
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– Não reagiu. Desejava um beijo ou um estalo, nem que fosse um escândalo pequenino. Ousei e desci. Mergulhei a mão. Desci e cheguei. Acariciei-lhe e humedeceu. Não acordou…
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– Então?!
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– A manhã seguinte não teve significado. Era uma mentira. Eu castigava-me por dentro pela ousadia do que fiz e por não ter conseguido. À tarde disse-me:
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– Hoje ficamos em tua casa. Dormimos lá.
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– Ok?! Porquê?!
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– Fiquei espantadíssimo. Fiquei como um gato na estrada, na noite e dos pinhais, paralisado pela luz do automóvel imparável. O coração a querer perceber e o cérebro a bater cada vez mais forte. O que queria ela dizer.
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– Não é o que querias?
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– Sentiste?
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– Senti. Não haveria de sentir? Vamos fazer o que não fizemos.
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– Por que não reagiste?
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– Quis saber. Quis dizer-te isto hoje.
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– (…)
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– (…)
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– Faltas tu.
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– A primeira vez:
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– Estava muito bêbado. Não sei quem era e nunca mais a vi.
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– Nunca mais!
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– (…)
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– (…)
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– Mas aconteceu?
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– Aconteceu, mas… não sei se posso garantir se continuei virgem, não me lembro de como nem dela, nem o nome.
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– E a vez seguinte?
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– Não sei se ainda era virgem.
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A rosa e o cardo

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Perguntei:
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– Faz uma promessa ou dá uma promessa?
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– Vês a minha boca?
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– Os teus lábios estão escuros.
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– Mordi o caule da rosa enquanto beijava.
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– É a paixão.
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– Respondi-te?
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– Não entendo por que me dizes de sofrimento.
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– Fazem-se promessas na paixão e toda a obra se gasta…
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– O que se dá não se pode tirar.
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– Um dia finaremos…
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– Se não dermos amor.
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– O cardo é eterno.

Letra M

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Monocarril é uma palavra cosmopolita.

terça-feira, setembro 01, 2015

Desintoxicação

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Acabou Agosto, psicologicamente acabou o Verão.
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Quando não tinha razões de queixa, Setembro juntava a ansiedade de perder a liberdade e a vontade de regressar às aulas. Muito se diz em queixume, mas a escola começava em Outubro e as turmas tinham mais de trinta alunos.
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O meu calendário é um planisfério, em que os meses têm cores e a duração varia. Agosto é enorme, cansativamente grande. Encarnadão e salgado.
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É Setembro e o vermelho fica logo castanho, a palavra-mês.
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Dois-mil-e-quinze foi mais um em que tive mundo e cidade. Desde dois mil que não sei o que são duas semanas inteiras a tomar banho no Atlântico.
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Lá descansar, descansei… se me esquecer da ansiedade que os bolsos segregam por causa.
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Descansar? Não descansei.
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Agora que veio Setembro, chegam os encontros para a reabilitação, para perder o vício das férias.

Letra F

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Funicular é uma palavra bonita.

segunda-feira, agosto 31, 2015

Casa do gato

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Quando uma casa de gatos conhece um sossego quieto é porque a inquietação se está a fazer.

Açúcar

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A tristeza avalia-se através da Escala de Sacarose. Entre o desmaio e a morte.

Palavra-défice

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O tempo perdido do Verão felizmente não volta. Recluso de angústia e impaciência vivi horas de oito dias e ondas maiores do que.
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Vou reaprender o tempo, vou. Desdenhar-lhe o valor e envelhecer. Que daqui a um ano esteja mais velho e, se Deus assim mo permitir, menos conhecedor.
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A palavra-dor é. Como o medo do passar do tempo ou as nostalgias da adolescência.
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Com todas as dores, as palavras servem. Se penso em défice, sei que superávit.
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Oxalá não chova antes do frio.
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Se reencontrados depois de décadas, estamos – quando como nunca tivéssemos deixados de estar.
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Eu na sala. Eu na mesma. A sala na mesma. Tudo escondido como se arrumado.
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Foi Agosto e ainda. É ainda e ainda.
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Quero envelhecer deitado, com a televisão ligada e muitos copos de gelado e colheres e remorsos.
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Se alguém me pagar as contas. Só essas, só.
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Um acidente vascular cerebral, um enfarte do miocárdio ou diabetes são os anjos que.
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Palavra-défice. Ficou tudo por contar. Coisas do mês de Agosto.

quinta-feira, julho 30, 2015

Sossegadas

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Parem quietas, não vos consigo segurar.

E há uma igreja com a torre no lado errado

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O tanque grande não era piscina, o tractor verde segurava um vespeiro e não havia cavalos na cavalariça. Havia uma igreja que foi decepada. As maiores aranhas que vi, cor da palha do trigo, os louva-a-deus arrepiantes e as melhores laranjas – as pêras, as piores. Está o alpendre e recordações. Saudades da Lupi.
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Fotografias roubadas no blogue http://sai-tedaqui.blogspot.pt/
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Nota: aldeia de Santa Bárbara de Padrões.

Sem horas de voo

Quero quase tudo! Quero Nova Iorque em Lisboa. Deixo Paris, Londres e Roma. Deixo Edimburgo e Colónia. Que sejam isso, quero todas as avenidas e meio país como vizinho. Com Tejo e Bugio.Que retratos se fariam se tivessem a luz que Deus nos deu como privilégio.
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Fotografia de Corbis.
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Fotografia de James Leynse.
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Fotografia de Michel Setboun.
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Fotografia de Yoann Jezequel.

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Lá.
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Eu por cá. Fora da caverna mas com pouca luz. Não é só o Inferno que é fundo.
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Se não bastasse, os aviões passam depressa e os anjos invisíveis.
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Não há corda que chegue e subindo com dor nem esticando os braços num pulo os alcançaria.
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Lá e eu por cá.
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Nota: Irrita-me tanto a falta de respeito de tanta gente para com quem cria e vê além. Várias aparições na internet e ninguém foi capaz de escrever o nome de quem fotografou. Quem souber da autoria, por favor informe-me, de modo a poder colocar os créditos.

Melancolia pacata

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Onde estaria se na melancolia houvesse uma porta? Subindo à altura por degraus inventados e lá nadar sem ter pé. Depois como voador-planador. Não tocar, respirar contidamente e ir, sem me ter de pé. E ir. E ir sem descer.

Letra Q

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Quioto é uma palavra bonita.

O que beber com James Bond

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Depois de se terem conhecido na Praia da Terra Estreita, James Bond e uma enófila portuguesa, cuja identidade estou proibido de revelar, foram jantar a um recanto invisível nos guias de gastronomia.
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O agente britânico ouvira falar do sítio, mas… Acabados de chegar e de se sentarem, antes que alguma coisa viesse para a mesa, ela levantou-se da mesa para segredar ao escanção que servisse um determinado vinho, mas oculto.
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Voltou para a companhia de James Bond e pouco depois chegou o vinho. Provou-o ela e James Bond levantou ligeiramente o sobrolho, subindo um sorriso difícil só no lado direito do rosto – sinal de algum desagrado por não ser ele a sentenciar.
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Com o vinho no copo, perguntou-lhe:
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– Senhor Bond, é capaz de adivinhar que vinho é este?
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– Huumm… belas notas aromáticas, é um branco com evolução. Muito elegante…
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– O que me diz?...
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– Diria mil novecentos e noventa e oito… e esta frescura…
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– (…)
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– Bucellas Garrafeira 1998… certo?!
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– Estou impressionada…
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– Os diamantes são eternos.

quarta-feira, julho 29, 2015

Corneta-acústica

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– A casa é grande, mas a vizinha de baixo é muito surda. Ouve-se aqui a novela.
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– O quê?!
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– Muito surda.
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– Não percebo... o quê?!
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– Muito surda.
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– Ai, estou mesmo surda...
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– Muuuiiito suuurda!
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– Não consigo entender. Diz mais de vagar.
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– MUITO SURDA!
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– Ai, não consigo mesmo…
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– Oh! MUITO SURDA! MUITO SURDA!
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– Não é por gritares que vou ouvir… diz lá devagarinho para ver se entendo.
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– (…)
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– Ai, diz lá...
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– (Deus me dê paciência) (...)
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– Ai, Jesus. Diz lá. Tens de ter paciência comigo.
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– M-u-i-t-o s-u-r-d-a.
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– Quem é que é muito surda? Eu sou muito surda? Pois sou.
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– A minha vizinha de baixo.

Sabat

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Era domingo de manhã e não me esqueço de ter visto cinzas de lenha, algumas pepitas de carvão, tições agonizantes, pingos de sangue, pegadas de galinha e de cabra. Não tive medo, mas as saudades que se sentem antes de ter ou de ir. Quero a infância, troco por tudo o que sei e conheci.
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Nota: Não confundir o sabat das bruxas com o sabat judaico nem com o pagão europeu de génese céltica. Penso que a designação de sabat para assembleia de bruxas com Satanás deriva de prática de propaganda negra, de há séculos, praticada pelo clero católico romano contra a comunidade judaica e populações ainda ligadas ao paganismo. Em paralelo, pela liberdade de culto e de reunião, hoje podem os praticantes de paganismo europeu, de base céltica, realizar os seus sabats, em que assumem a pratica de magia, mas não de missas-negras, recusam qualquer relação com culto ao Diabo e não se vêem como inimigos do cristianismo. Todavia, há cultores do Demónio, cujas reuniões designam também por sabat. Pela acção do tempo, existe esta divergência de conceitos, resultando em três vocábulos homófonos e homógrafos. 

Meia-noite e gin tónico

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A meia-noite de Junho em Lisboa. As horas longas dos dias longos, as paisagens cálidas e o fogo para as sardinhas e os pimentos. A luz, os azuis e os brancos, sempre vento. No Verão os aviões aterram vindos de Sul. Meia-noite sem inveja donde se vêem as estrelas, mas umas saudades – como sentidas antes de chegar ou ter – duma piscina para se fazer o dito e sabido, com música e gin tónico.

Um dia para não falar de amor

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Dá-me um beijinho, estou piroso. Mas hoje não é dia para falar de amor, está calor para nhoqui-nhoqui, e sim desde que no final haja água gelada ou tisana fresca sem açúcar. A cidade vazia e luz por toda a parte – abre-se a janela e deixam-se os estores semifechados. Na sala abandonada ficou um disco de mantras e paus de incenso fumegando. Não se janta, porque é sede.
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Nota: Não sei que tipos são estes, digam-me se souberem, por favor. Por favor… e pelo amor da Santa.

Fazer Nova Iorque

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Não seria capaz de desenhar Nova Iorque recorrendo a outra coisa que não riscos – vi. Corre-se, o céu é riscado e gatafunha-se a relva de Central Park. Uma multidão de riscos atravessa as zebras e a cocaína e também o pudor. Num papel, amontoados e desconexos, bem vincados, os algarismos da sessão de NYSE e os de orgasmo ou impotência do Dow Jones e do NASDAQ 500. No final, o corretor fita melancolicamente os valores, mais velhos e escritos suavemente a encarnado, dos fechos de Londres, Frankfurt, Paris e Milão. Que se lixem – e até amanhã – os mercados asiáticos. Risca-se a lápis, no cartão reciclado da base dos copos dum bar, as cervejas bebidas como massagem. Nas conversas ninguém diz dos jactos que mudaram o mundo. Tudo diferente, até a quinta-feira negra de vinte e nove. Eram de riscos e orgulho. Com três riscos se desenham N e Y.

O que beber com Yanis Varoufakis

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Sentado a meia distância da mesa, escorregado numa cadeira torta, observo o jogo de damas que Yanis Varoufakis disputa consigo, levantando-se e sentando-se à vez, discorrendo dois monólogos como um diálogo. Num lado, fuma e cheira cocaína. No outro bebe compulsivamente absinto só com uma pedra de gelo. Olha-me e chega-se à janela e grita o segredo que me queria contar.

Fogo

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Dizer e persistir, esquecer persistentemente e não ignorar e nos remorsos dizer alto a promessa para que Deus oiça e o coração sossegue.

Terra

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O que se guarda entre dois e insuspeito de falha do óbvio.

Água

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Existirei ou sou um conjunto orgânico de somatório de afirmações – certezas, descrenças e ilusões – e uma confusão de afectos?

Ar

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O outro existe ou devo olhar o universo na solidão desamparada onde tudo é próximo que não se quer tocar?

domingo, julho 26, 2015

A arte e o Soviete Supremo

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Não, é demasiado bom para não ser naïf – um galicismo, por ter tanto de ternurento e tão pouco de ingénuo – que alcança o patético… Engano!
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O que ainda se guarda do academismo, patrioteirismo e serventilismo nos confins da antiga União Soviética. Não consegui encontrar o nome do autor, apenas que esteve entre as finalistas para uma exposição de Centro de Belas Artes da República de Basquíria, situado em Ufa.
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Oportuníssimo, o artista. A obra – não fora pintada a acrílico e ainda estaria em mutação oleosa – mostra ao mundo cinco chefes de Estado no Zen dum amanhã cantor.
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A querida Dilma Rousseff, a brasileira que desconhece e maltrata a língua portuguesa, sorri como nunca… o som das palavras cínico e cinismo lembra-me russo. Conjecturas infundadas.
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Narendra Modi e o ar bondoso de todos os chefes indianos. A calma, a serenidade, a bondade e tranquilidade…
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Um certo racismo na falta de espaço para o sul-africano Jacob Zuma, que sorri mal como numa fotografia de modelo sem fotogenia, acentuado pelo puxar do braço encolhido de Xi Jinping, com o olhar vazio e silencioso dos secretários-gerais do Partido Comunista Chinês.
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Ao centro, puxando pela China e pelo Brasil, deixando o indiano atrás sem espaço nem jeito para colocar as mãos, o russo Vladimir Putin. À frente, com pose de gelo militar e olhar de sedutor esclarecido.
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Pombinhas brancas esvoaçam em paz e alegria, dando vida ao compromisso pela fraternidade e o trabalho... um ícone naïf... 
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O soviético Vladimir Putin. Tudo aqui conta que o gigante euro-asiático tem as feridas quase saradas, não as lambe e lhe apetece afiar as garras.
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Na Ucrânia, nada de novo.
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Pode não ser uma obra-prima e obra de arte até pode ser também um exagero, mas conta muita coisa, como as peças dos grandes mestres.
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Nota 1: Se alguém conhecer o nome do autor desta obra que fará história, por favor informo-me para lhe atribuir o crédito nas referências.
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Nota 2: A exposição foi organizada no âmbito da reunião, de 8 e 9 de Julho, dos BRICS (sigla em inglês do grupo do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Ufa.

De Istambul a Compostela

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Até Istambul sobrevoando as estrelas, por cima, por cima, e as constelações e as luzes da cidade, que reluziu ainda de ouro. Por cima, por cima, como o espírito liberto. Por cima do mundo e finalmente voando, e finalmente em recta, fora do peso, fora do redondo. E por cima.
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Por cima, quembaixo estão as dores das desilusões e só uma chegava. Grito a sorrir e sei que os da liberdade me amam e sem me ouvirem gritam:
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– Por cima! Por cima!
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– Por cima! Por cima!
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 Respondo-lhes como um cometa. Que os da liberdade são e os outros ficam e se deixam.
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Até Istambul, até ao Cairo. De Santiago a Compostela. De Miami a Cantão. De Belém a Lisboa.
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Por cima, por cima.
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– Quem me verá depois?
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– Diremos, mais uma estrela…
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Por cima, por cima. E que tão tarde se parte para onde nunca é cedo para se chegar.

Pior

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A pior forma de morrer é a que não permite morrer.

A culpa é sempre dos estúpidos

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Farto de gente estúpida e como a culpa não é de ninguém, que seja minha, pois poupo-me a prolongamentos e – já por previdente estupidez – assumi minha qualquer coisa que ainda. Como nunca basta, estúpido ninguém é, pois fique também. Não por adjectivo, por manifesta substância.
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Ou isso ou pregar pregos de aço na parede com a testa. Dói mais, mas passa-se a maluquinho. Toda a gente sabe que os malucos não têm culpa e o seu problema não é de estupidez.
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É claro que se fosse inteligente saberia que há formas de pregar pregos de aço na parede sem ser com a cabeça. Se fosse inteligente e tivesse literatura.
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E se fosse inteligente, nunca teria culpa. Há sempre um estúpido que salta de trás no borralho, como um coelho tolo, disponível para arcar.
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Se fosse inteligente e tivesse literatura.
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Fico então no dilema entre o ser e o pregar prego de aço com a cabeça.

O leão é o Rei da Selva

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Se as bestas não fossem os humanos e o leão seria o Rei da Selva.

sexta-feira, julho 24, 2015

Letra G

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Nota: Se alguém souber da autoria da fotografia, por favor informe-me. Se alguém souber da autoria da escultura, por favor anuncie-se ao mundo.

quinta-feira, julho 23, 2015

Letra G

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Nota: Se alguém souber da autoria desta fotografia, por favor informe-me. Se alguém souber o nome do gato, por favor anuncie-se ao mundo.

sexta-feira, julho 17, 2015

Escala dos escuros

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Suicídio, morte, ausência, preto, negrum, negro, negrume, desamor, solidão, telefone mudo, escuro, penumbra, lusco-fusco e sombra.

Da esperança à desilusão

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O dia já perdido e digo já porque nem o tentei tornar útil pois a derrota é em mim e as esperanças da infância e as vontades adolescentes e as estrelas da inicial maioridade passaram a fronteira com um sítio de cama-prisão no interior dum cubo de negrum fechado por fora e como já perdido o dia recolho-me aos aposentos donde fingi ter saído porque perdida vai a vida.
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Nota: Se alguém souber da autoria desta fotografia que me informe, de modo a citar a autoria.

Tragam-me vírgulas se quiserem porque como se me fizessem falta mas não pois prefiro a apneia

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Quem quiser vírgulas que as vá buscar que agora não posso respirar e digo tudo até o fôlego me deixar e depois calo-me porque ainda vou tendo pontos finais.

A sonolência da derrota e da desistência e da inteligência indigente e da ilusão e a da tristeza e do erro que me sentencio e que só deitado sei esperar porque o todo já dito

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Estúpido porque não escrevo para estúpidos e os outros são poucos e com pouca paciência e muitas vezes distraídos e muitas vezes míopes e muitas vezes erram e talvez me julgue mal e afinal talvez escreva para estúpidos e só eu me entendo porque uns são estúpidos e outros sabem-me inútil.

Pergunta sem resposta, sem fim

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Como deixar de mim porque em novelo desastrado me tornei e se em novelo desastrado me tornei. 

Na fronteira sem documentos

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Incompleto porque não deixo. Completo na razão e vazio no coração. Quase vazio por birra. Completo e a teimosa dúvida. Incompleto por zanga, pela obrigação da teimosa dívida. Incompleto porque olhos de olhar negro. Completo porque há azul e raro o vejo. Incompleto por imemória e esquecimento. Frio na fé porque a dívida. Vazio na escuridão vai para onde levarem e de negro e se vê o negro. O coração vazio, a índole desilusória, o carácter fraco, a consciência com vergonha, a derrota na boca, a alma transtornada, o pensamento estúpido, a acção depois do cálculo – o pensamento estúpido. O impulso, o salto e o assalto. A alma se livre, no negrum ainda que luz tão perto. Mas incompleto por ausência de calor fora do conceito – frio faço estéril.

Ida-e-volta

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Bilhete-de-ida-e-volta, o tempo passa, nascer, morrer, renascer, morrer e não se sente além da dor. Iguais até ao primeiro pousar no berço. Iguais até à primeira pazada de terra. O tempo passa, tentativa e erro e adiante, que o tempo passa. Porque o tempo passa somos, à vez, corpos diferentes e de vidas inigualáveis. Passa o tempo entre o nascer e o falecer, iguais nas chegadas às duas luzes, a da noite e a do éter. À vez, pessoas diferentes.
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