digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, junho 03, 2018

Olhos verdes. Olhos castanhos. Vêem-se


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Disse-te, depois da revelação do teu esplendor:
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– Como é possível a bonança? Não houve guerra nem tempestade.
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Disse-te um segredo. Palavras-engrenagem da macieza do sono depois de fazer amor. O que te disse, eu?
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– Como é possível a tormenta? Se não houve trovoada nem mar alevantado, engolindo todas as palavras de dizer no instante certo.
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Abracei-te como se dissesse alguma coisa acertada. Ouviste-me dizendo qualquer coisa acertada. Falaste:
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– …
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Juntámos os lençóis, ajeitámos as almofadas e encaixámos os corpos. Cada beijo, cada gota dos suores misturados, cada nascente tua, cada erupção minha… todas de ternuras tremendas.
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Castigaste-me com o prazer – aquele sabido e que se esqueceu, sem nunca se ter esquecido. Castiguei-te com o prazer do prazer.
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Passaram-se dez anos. Menos que isso. Passaram-se vinte anos. Passaram-se todos os anos da saudade.
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– Como é possível esquecer? Como – graciosa dádiva – não esquecemos? Ficámos épocas de minutos no desejo que se deseja desejando. Esperámo-nos com todos orgasmos adiados.
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Disseste-me de todos tempos, das horas e dos anos, em que fui um fantasma agarrado ao desconsolo. A minha memória indigesta e o meu desconsolo quase-infinito. A sua memória amarga e o seu desconsolo, quase-infinito, enquanto se perdida numa festa e num choro. E eu estendido prestes-morto.
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Na verdade, não mo disseste. Não precisaste de me dizer amor. Sempre mo deste. Sempre te li os olhos – tanto amor, afago e a paciência de quem espera.
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Os teus olhos espelhando o Sol. O luzir finalmente regressado. Tantos beijos que as bocas contiveram. Deslumbrámo-nos na Lua dos quereres, dos reencontros e dos êxtases.
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– Ainda bem que voltaste.
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– Ainda bem que voltei. Ainda bem que voltaste.
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– Andei bem que voltei.
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– Ainda bem nos viemos.
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Qual a cor do amor? Qual a do desejo? A do bem-querer? A do retardar? Azul? Escarlate?...
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Não importa. As línguas oferecendo-se escondem-se. Os beijos são de.
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Orgasmos de.
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Calámo-nos.
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Assim de tormenta e bonança. Bem-aventurança. 

sexta-feira, junho 01, 2018

Sobreviver


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O meu segredo maior digo-o nas praças das cidades, na imensidão das vistas bravias, no conforto da amizade e ao teu ouvido.
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O luzir ao me teres vale a minha vida. Se tivesse dois corações, amar-te-iam incondicionais.
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És vontade e viagem. És chegada e estada.
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És dois passados e o único futuro. Ave que migra e retorna.
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És romã. Laranja. Pêra. Maçã. És o fruto da paixão.
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És a exaltação da tranquilidade, o amor perene.
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Agora, quase Verão, és mulher-deusa, bacante da minha cama.
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Irás, sei-o, de sensualidade da infracção, para seres a espada que me mata dolorido.
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Mercúrio te levará – pagão e medonho. Tenho medo. Sem uma fé de esperança.
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Rezo a São Cristóvão para que voltes. A Santo António peço milagre.
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És-me tudo. Generosamente de gratidão te agradeço, oferecendo-me no martírio da paixão e no êxtase de calma. No fogo do Inferno.
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O meu sangue, de sacrifício e verdade, alimenta-te. O teu retorno é o regresso do amor.
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Tenho a dizer dos teus lábios. Tenho-te todo o corpo.
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Sem incertezas – és uma verdade, que se colhe e se sabe partirá – do delito.
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Nessa angústia, tenho-te certa. Ainda que no intervalo de dança te perca. Beba tanta dor.
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Só há uma verdade. Depois, os pontos de vista e os equívocos. Silenciam-se nas omissões, criam-se enganos.
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Não há mentira sem verdade – toda ela ilumina tudo.
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Não há só flores. Não és só flor. És a dioneia e a dedaleira-roxa.
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Morro e sobrevives, para te poder morrer novamente.
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Em ti morro, por ti vivo. Se me pudesse ilimitado.
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Sou-te pleno. Não menos espero – iludido na verdade.
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Se eu fosse todo o mar e indivisível, sabes só teu.
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Fosses o meu barco, único de verdade e eternidade e também as ondas.
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Livre e aberta, fechas-me numa tristeza.
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És da natureza, garantes-me. Sou-te a terra e o ar. Bebes nas águas que libertas, desaguando em mares alheios. Incendeias-te ao longe, queimando-me.
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És o folhear, dos castanhos, pelo vento. És o céu barroco do Inverno. És fervor fulgurante da Primavera.
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Choro no Verão. Em todas as horas sobrantes. Quando a minha escuridão é o holofote rompendo-me o sono, devorando a fé e suicidando-me.
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É sempre, sei-o. Assim o será.
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Sempre significa sempre.
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Vives também no longe e morro por te saber vivendo uma vida estrangeira, nos dias doutros lugares, onde a dança que me proíbe – o meu segredo revelando o teu segredo – é me abstenho, libertando-te desapegado, ciente que me faltrás.
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Quando és outra e eu o mesmo.
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Se te peço para não me faltares é porque sei que me faltarás, consumida por outras chamas e saciada e molhada te dás.
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A Terra rodopia. Tonto vou caindo e levantando-me, morrendo e sobrevivendo.
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Na certeza – desejando eu o desacerto da intuição – essa da transgressão.
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Cá estarei calado, esperando da tua boca um beijo e o teu corpo sobrado.
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Que silêncio me cale para não falares o que não quero ouvir, mas sei.
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Não te exaures nem esmoreces, das danças e do repouso que te cansa as vigílias, dos dias sempre seguintes até ao despertar.
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És minha, sabendo que não o és, noutros lugares.
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Dizes-te liberal, mas não te sei se eu o fosse e me desse também.

O amor e o sexo


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Há o medo de perder o que não se tem nem se pode ter – o amor.
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O cerco e a reclusão não prendem, nem a liberdade garante.
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Há medo do segredo. Não da luz. De perceber a penumbra e a sombra – uma estufa de sal e orgasmo, do ímpeto pueril.
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Não há palavra de promessa nem de arrependimento – quem não acredita, não respeita e fala duma substância de condição e estrutura.
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Há palavras guardadas, duma claridade quase transparente, de olhos, beijos e abraços.
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Há quem não saiba mentir, apenas calar.
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Assim mente-se, para que não chegue a verdade, da voz do amor enganador.
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Assim se resguarda em mudo e choro, dos dias e das vésperas, do antes ao amanhecer, das tardes longas e das noites infinitas – melancolia e desânimo.
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Há episódios simples, repetidos e pronunciados vazios. Numa lonjura, o mar tapa a areia – dois corpos entregando-se no sexo. Mas à luz, o oceano se acalma e falando de amor se deixa na praia
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A paz da guerra é falso repouso. Nem há breu absoluto nem eterno.
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Quem vai descansa crente da sua invisibilidade. Quem resta sente o embate atrevido do ciúme.
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Não antes, agora. Um bicho irrequieto, acordando e perfurando num qualquer momento, indiferente à vontade do perdedor.
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O ciúme é um rio que, de adormecido na represa do silêncio castigador, se larga, atropelando a memória e crença.
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O ciúme é impronunciável. O rio que sobe as margens, se estende secretamente fora do seu leito, mesmo na bonança é o sossego atropelando o sossego.
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Perdendo-se se prisioneiro. Perdendo-se ausente. Perdendo livre duma corrente. Perdido de confiança
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A fidelidade icorrespondida não será morta, porque é morta e morrida – matando sempre e sempre.
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Não há presente sem passado e a água repete-se nos leito. A sua jura é chuva certa sem tempo de chegar.
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Perdida a crença, não haverá outra barragem de silêncio, todas as pedras caídas serão seixos, ficando correndo-ficando. A fonte será outro rio e o curso a torrente para outra terra.
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Se a natureza dos rios é desaguar, não há muralha nem confiança alterando a sua índole. Quem quer escoar, correrá – um delito de desobediência, indiferente à beira-rio.
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O conhecimento é duma dor. Se pronunciada – sua vergonha, pesar e inutilidade – é o momento de chorar ao brilhar das águas e da multidão despercebida.
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Dói e dolorosamente mata. Confia-se até quando se finge acreditar.
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Os rios desaguam, mesmo dizendo correr apenas por não haver sexo no seu leito – e do amor ser outra coisa.
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A palavra carência, sua distância, é a mentira de quem trai o padecente – se foi, será sempre. Uma qualquer palavra fenecida.
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Nem a detenção nem a soltura – mesmo a promessa uma sem regresso – fidelizam calmaria mansa.
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Assim se cai. Caindo, fica o desperdício, do pretérito e tempo vindouro.
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Nenhuma jura se ressuscita. Caindo se cai.
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O que é a dança? A liberdade e a transgressão. Qualquer ritmo tem os seus corpos. O seu odor não diverge do da cópula.
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A fidelidade afiançada é morta na próxima sensualidade.
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Quem sabe e se cala do corpo infiel – do dizer da cabeça sem traição do batoteiro – não se perde em ilusão, embaraça-se na desilusão.
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Há flores que se abrem repetidamente à Primavera, da volúpia estrangeira – aquela dita vazia.
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Há heras eternas, presas até ao fim da cama do amor. Morrem morrendo na certeza e do ciúme.
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A Hera – da boda – desponta, um dia morrerá estéril pela cama molhada pelos beijos dos forasteiros, duma língua presa noutra língua, da cor dum qualquer país e da sua fala.
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Do amor onde subiu soltar-se-á. O vento será para onde a flor desabrochada numa cama – do suor da lascívia, da fruição e da falsificação – não a encontrará.
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A dor do engano é calada, mesmo oculta, mas grita rasgando o sangue e o espírito – tudo o que se esconde se revela.
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Assim se diz do amor e do sexo.

quinta-feira, janeiro 04, 2018

Os dias

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Lavar lágrimas e não se alumiam os olhos.
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Daqueles momentos falam num túnel da  brancura da tranquilidade.
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Até já o vivi. Agora é a esperança.
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Vou na ausência da sonância e da cor.
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Vai ser sempre assim, dias sem nada que os alumiem.
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Vão ser assim, os dias.

Sítio

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Esta noite sonhei que descia da Lua.
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Acordei na Terra.

domingo, dezembro 31, 2017

Maresias

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Escritas na água e no sal, as palavras não duram.
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Cada onda traz o linguajar dos poetas e dalguns marinheiros que acenderam os cigarros nas velas.
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De cada ninfa vem a escuridão e a febre escarlate do desejo.
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Por cada onda chegam as palavras claras, do clímax escrito em sal.
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Palavras vagas.

Inalcançar

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Sabes muito mais dos vermelhos do que.
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Sei dum desejo e do falecimento do indevido.
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Como mentir se as palavras me desobedecem.
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Se apenas calasse se as letras não teimassem.
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Escrevi e fechei o envelope. Papel de essências e pétalas para enganar.
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Fiz o que devia, contei-te. Não enviei.

Beijo de granito

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Constritora do coração e do sabor mortal.
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Se pudesse seria teu culpado na vez de ser somente condenado.
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Se pudesse morreria na tua boca na vez de intoxicado.
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Flor, sou o teu jardim – só em mim.
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Jardim onde me deixas afastado.

Feitiçaria

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Queria escrever-te um poema que gostasses e fosse de amor.
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Dos teus olhos comovidos e coração calado.
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Não te minto, o meu suspira, é generoso e infiel.
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Digo-te, com verdade, o sabor terno da lembrança da euforia do engano.
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Imagino-te voando, enquanto a ilusão me prende na crença dos impossíveis.
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Feitiço de impossível.

terça-feira, dezembro 26, 2017

Incalma

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Há coisas fora da calma.
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Desconheço se alguém me pode explicar ou se esta febre é única.
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Se fosse sexo ou amor.
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É um calor inexplicável, como se pudesse deitar-me com todas as mulheres.
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Vê-las secretamente.
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Desejosas por intuição.
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Ser-lhes um arrepio de água morna e lábios quase mordendo os lábios.
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Elas sem castigo – eu sem o martírio na tortura – de arrependimento nem de pecado, qualquer coisa da natureza e dos lençóis.
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Por isso, elas querendo-me e eu desobrigado. Ainda assim:
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– Querendo-as sóbrio ou ébrio – sem escolha demais distante do momento.
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Repito: sem sonho ou obrigação:
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– Não sei se na memória ou no esquecimento.
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Não sei clarificar.
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Nem de acalmação.

domingo, dezembro 24, 2017

Segredo de notícias

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Ela escreveu:
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– Traz-me notícias de mim.
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Não pediu, ordenou.
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Eu, como fosse até aí triste e afogueado, amando-a de improviso.
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Disse-lhe num papel:
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– Não sou correspondido, como não o és.
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Pudesse, o Inverno seria outra coisa. Um tempo qualquer, antes e depois da janela.
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Como dar-te notícias de ti? Não tas tenho nem o que suponho que as possa reunir.
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São notícias de segredo.
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Por isso, não as tenho.
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Se as tivesse, quebrar-se-iam os mistérios.
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Em desânimo ou em euforia, terias de inventar novas.
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Possivelmente, eu precisaria doutra dor, para que escrevesse novamente sobre ti

Retribuo quando

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Irritável como um cão de guarda.
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Triste como um gato molhado.
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Só me importa o Natal porque o fazem de importância.
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Porque não o entendo de pai e mãe.
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Basta um dia, único.
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Tombo desamparado em terra dispensada.
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Não tenho autorização para me retirar.
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Ainda menos de esquecer e não ir nem ficar.
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O Pai Natal ganha a vida a rir-se. É tudo o que aceito.
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Retribuo quando.
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Contudo, o Natal é indiferente se, não me obrigarem a festejar

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Tenho um pequeno atlas de locais onde sou

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Em Lisboa quase tudo é luz, do chão ao Tejo. Se pudesse ser outra pessoa, achar-me-ia também nesta cidade.
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A vista da catedral e a ponte ferroviária que se lhe antecipa são um momento de passado e hoje, como uma lembrança num álbum de fotografias com familiares desconhecidos. Do primeiro patamar, olhando verticalmente o templo, imagina-se o que terá sido Babel.
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O meu coração ficou enclausurado, por sortilégio, na escuridão de Edimburgo. Cidade de pedra e céu, de anos sem dias.
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O campo é tão grande que se diz pouco e basta: Alentejo e Escócia. Uma só fotografia.
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Não são os socalcos nem o sangue nem o vento baralhado de qualquer lugar: o Vale do Douro e entremontes e rios em sua roda, como o Rei e sua corte, não são o lar.
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O Douro é um afecto diferente. Lindo, de aprumo e alinhação, mas não o amo de peito nem pelos olhos, mas pelo estômago-vida – isso não é menos.
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A natureza é de odores diferentes, mas parentes. O xisto, a esteva e o azinho. O tomate e a laranja. A oliveira e a vide.
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Amo-o pelo vinho e o azeite, por isso todo como ele é – só à mesa se nos podemos achar, não há vida sem ela.
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Não troco nenhum destes lugares por qualquer outro nem deles prescindo nem opto entre eles. A saudade é uma dádiva, enfim, a ubiquidade seria um milagre para a banalidade.
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O Douro é um assombro, por mágica de alguém.
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terça-feira, dezembro 19, 2017

Escuro

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O escuro de fora não é medonho. O de dentro rói-me em impaciência. Quando vai do fígado ao espírito desassossega-me até ao túnel da viagem.

Gatejar

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Gatejo. Entre o salto e as mantas. O primeiro dá-me vida e cansa-me. Depois usufruo da conquista e repouso até ao fastio me obrigar ao pulo.

sábado, dezembro 16, 2017

Época festiva

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Passo o Natal em Ílhavo, a passagem-do-ano numa indiferença e o aniversário em fogo-de-artifício inverso.

Morfina

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Sossega-me as veias e larga-me como se fosses a morte. O reflexo perfeito na água quieta onde flores claras se detiveram. Peço-me pagão para que.
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Esta dor de ser só dor, escarlate-negro das palavras indizíveis.
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Esta dor dos lábios azuis, mordidos até onde chega em carne, da frieza do entardecer invernal.
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Sossega-me as veias como imagino a morfina.
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Ou leva-me para onde me podia levar.

Como em menino

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Encalhei num verbo reflexivo, confundo interrogações com afirmações quando e esqueço-me que as palavras existem no fim das frases.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Redução de carbono

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A ciência é humana, garanto.
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O desânimo sem ânimo adormece-me. Há pudor e agonia agarrando-se à memória. A aversão à derrota é vaga de Inverno.
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As inquietudes – ansiedade, vergonha e medo – não me acalmam plenamente nos açúcares.
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Aparo as unhas, barbeio-me e vou cortar o cabelo.
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Exorcismos para os dias cínicos

Estive a pensar

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Há uma lua de sábado. Estive a pensar.
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A índole não se apazigua no quatro mágico. Há outro quarto, invisível e sentível.
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O sábado é naturalmente ungido.
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O sábado é naturalmente perverso.
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O outro quarto, sem nitidez – nem permissão – a quem não se deixa acreditar.
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Quase terra, para quem se tolera – o labirinto prolífico das palavras na cabeça.
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Nem lua nova nem lua cheia. É outra lua, aquela do avoar das bruxas e do entusiasmo dos bichos recusados.
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Lua sem papel.
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A lua sentível ao pagão e ao sacerdote.
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A lua da extravagância dos gatos.
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A lua de quem baptiza de lua o gato.

domingo, dezembro 10, 2017

A alma das

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Finalmente, é Outono. Inócuo como o Inverno, a Primavera e o Verão. Se houvesse outra estação – como o escondido décimo terceiro signo do zodíaco – haveria outra conversa, entre quem passeia os cães ou se sublima com a lua dos gatos.

Vento

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Como expulsar-se no vento – com garantia de não haver ressurreição nem reencarnação – do desarrumo da casa?
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Agora, do centro para fora. O invés desiludiu-me no sucesso e foi-me insucesso do insucesso.

Colesterol

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A vida­ vida é uma sucessão de vírgulas e de erros de gramática. Nem a rasura nem o apagamento disfarçam ou remedeiam os enganos.
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Quando as orações se confundem entre as vírgulas e a história não faz sentido usa-se o ponto final.
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Vivo a desordem, contenho as vírgulas talqualmente as comidas gordas por sapiência inversa.
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Porque a vida é complicada, irrompa o caos e a desordem da invenção que nos chegaram com a vida.
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A liberdade do ponto-final-parágrafo.

domingo, dezembro 03, 2017

Olhava para algum lado

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A professora da primária quase me chumbou na segunda classe, porque olhava para algum lado.
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A professora da primária quase me chumbou na quarta classe, porque olhava para algum lado.
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A professora de Português escreveu que não tenho imaginação e cumpria os mínimos e olhava para algum lado
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A professora de Educação Visual escreveu que não tenho imaginação e cumpria os mínimos e olhava para algum lado.
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Depois, tão longe, a professora de Educação Visual só não me dava a nota máxima, porque estava marimbando-me para a disciplina e porque olhava para algum lado.
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Depois, tão longe, a professora de Geometria Descritiva deixava-me fazer tudo à mão, qualquer mina, lápis sem ponta afiada, sem compasso, sem régua e sem esquadro, desde que definisse o correcto, porque estava marimbando-me para a disciplina. Não me chumbou, porque estava a olhar para algum lado.
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Depois, tão longe, a professora de Português só não me dava nota a máxima, porque olhava para algum lado.
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Depois, tão longe, o professor de Português só não me dava a nota máxima, porque olhava para algum lado.
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Depois mudei-me, a professora de Português só não me dava nota a máxima, porque olhava para algum lado.
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Escrevi poemas inocentes, medíocres e parcialmente plagiados, da adolescência fazendo-se culta, e estava a olhar para algum lado.
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Desenhei alguma coisa, inocente, medíocre e parcialmente plagiada, da adolescência fazendo-se culta, e estava a olhar para algum lado.
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Depois fotografei, porque estava a olhar para algum lado.
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O tempo tem sido-me de tédio e de olhar para algum lado.
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O tempo é-me quase indiferente, esperando quem se atrasa e quem não vem.
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Frequentemente, esqueço-me do amor-próprio, porque quero olhar para o lado e estou a olhar para algum lado.
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Escrevi um romance de cavalaria.
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Escrevi um romance.
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Escrevi um livro de coisas-estórias.
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Escrevi um romance de cavalaria para crianças.
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Não sei respirar sem desenhar.
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Não sei respirar sem escrever.
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Não consigo parar a cabeça, porque está a olhar para algum lado.
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Perco as chaves, quando estão fora do sítio, porque estou a olhar para algum lado.
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Alguém está errado. Possivelmente eu, porque estou sempre a olhar para algum lado. A minoria tem sempre razão, está nos livros de História.
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Esqueci-me que olhava para algum lado quando disseram que não tenho imaginação.
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Quando olhava para algum lado, li as palavras no ciclo preparatório. Confesso que doeu e não consigo olhar para algum lado.
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Magoaram-me, já invisíveis na lembrança. Bastas de ali ter sido. Esquecidas, porque olhei para algum lado.
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Na verdade, vejo-me em dois caminhos – permanente reais e fantasmas – coisas desconhecidas, negações duma imprecisa certeza e inesperada lei, menos da intuição selvagem.
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Olhei para algum lado, não e sim pela janela do palpite.
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Alguém se enganou e isso doeu-me na memória.
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Uma dessorte de olhar para algum lado que não o para onde ou talvez.
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Nota: Tão boquiaberto e triste que o texto vai infantilmente chegado à direita.

sábado, dezembro 02, 2017

Os nados-mortos

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Tantas vezes parti os dentes em lábios que os posso desperdiçar. A derrota não me mete medo, sou eu na minha vida.

Belém

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Há Lisboa, também a cidade onde só vai a luz e o rio se esquece e ainda a espraiada assim-assim como noutros lugares. Tão longe, Belém e sua cama na Ajuda, outra vida.

Belenenses

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O Belenenses não é um clube. É azul. Nada fica acima do azul.

Oração

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Depois de ditas, as palavras deixam-nos, não voltam e, se houver juízo, resta-nos uma oração para a loucura encalhar e afundar-se sem se ouvir nos remorsos e vergonha.
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Se soubesse, dizia o dobro e calaria a metade igual.
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Beberia em glória, em segredo morreria na miséria do bagaço.
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Se soubesse, ficaria de boca na tua boca e além fosse de medo e regressasse com louros.
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Se soubesse, hoje não seria náufrago.
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Seria imaculado, sem arrependimento, e apenas tédio. Sem jardins nem escadarias.
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O que te diria.
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Sem ditas, a palavras nascem mortas.

Estremecimento

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Não seriam traição os minutos sobreviventes ao beijo que desperdicei na nuca, onde me-te sentimos um estremecer. A humidade que te perdi, a minha força naufragada e a loucura, como as noites de longe.
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Antes, um antigamente de amanhecer e a certeza de que a luz chega com a bonança dos lençóis suados.
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De agora imagino todos os teus lábios. De amanhã não sei que lágrimas.
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Cartas e poemas que te entrego e nunca escreverei.
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Dizem os signos. A verdade é o tempo. Dizem os signos.

Memória

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Halguma circunstância foi deixada de herdade que não de Picasso e Duchamp? Perguntho de voz respondida. Todo houtro mérito é hartifício da luz e hafecto. Dito assim não phaz sentido, como cualquer verdade ou ezagero. Poreim é a virgindade de existir sem a crueldade da verdade.