
No sítio do costume mudam as pessoas, mas as vidas são as
mesmas.
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
A sabedoria popular também erra. Diz-se que para descer todos os Santos ajudam... dando a entender que subir é mais difícil. Pois bem, na sociedade contemporânea, regida pela ciência e pelo conhecimento, sabe-se que é exactamente ao contrário.
Era talvez o tempo em que os ossos estão lá fora ao frio e a carne quente na cama. Era talvez o tempo de Inverno calmo, na cama macia e na solidão. Foi talvez nesses instantes de perene paralisação que se pensou pela primeira vez na vida depois. Depois do dia, depois das horas, depois de tudo o que se conhece, depois do que se espera nunca acontecer.
A televisão ficou ligada toda a noite. Reparo agora que a roupa está arrumada e só o meu corpo ficou a destoar. Dormiu-se sem sem pressas, mas acordou-se em sobressalto. Passaram-se quantos meses? Três? Seis? Seis. Três.| Eric Satie - 1e Gy... |
Ainda que fosses sozinha para o café não te tornarias visível a meus olhos. A tua frieza não te tornou sólida, antes esfumou-te. A insensibilidade é a maior estupidez das pessoas. Hoje não deposito margaridas nos teus seios nem te beijo as coxas.
Não é por ser-se breve que se não é intenso. Nem se é intenso por ser-se breve.
No tempo depois da partida ainda se avistam as paisagens de trás. Retratos arrastados.
Não sei por que se chama de embarque ao cais. Sempre que há sentimentos é de desembarque que se trata: Um amante deixado no cais, um abraço dado na plataforma, os afectos deixados na despedida. Sempre o desembarque.
Não temos quase nada para dizer um ao outro. Tu saiste tarde do trabalho mal pago e foste para o teu biscate que te ajuda a pagar a espelunca. Eu fiz horas para te ver. Estive só a fumar cigarros atrás de cigarros. Não gostas que fume e eu não gosto que trabalhes até tão tarde. Dizes que é para pagar a casa, respondo-te que o buraco não vale o preço que pagas. Justificas-te que não tens dinheiro para mais. Argumento que poderíamos viver juntos. Silencias-te.