digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

La benzina è mobile

A sabedoria popular também erra. Diz-se que para descer todos os Santos ajudam... dando a entender que subir é mais difícil. Pois bem, na sociedade contemporânea, regida pela ciência e pelo conhecimento, sabe-se que é exactamente ao contrário.
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Primeiro vou fazer um intróito para quem não sabe, não lê jornais ou é distraído. Só explico no fim, pelo que os sabedouros de tudo isto devem saltar para o fim, onde está a explicação.
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Por exemplo: quando as cotações do petróleo sobem, pouco tempo depois agrava-se o valor da gasolina. Quando as cotações descem, a queda dos preços do combustível demora a verificar-se.
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Os peritos em física e metafísica também comprovam a maior facilidade em subir do que a descer. A lei da gravidade, descoberta por Isaac Newton, está errada... também aquilo vem do século dezoito, no mínimo está fora de moda. Quando o petróleo sobe dez, a gasolina sobe quinze. Quando o petróleo desce dez, a gasolina desliza sete.
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Isto já para não referir outro fenómeno, que é o da queda das cotações e subida da gasolina. Isto porque o custo da refinação aumentou. Estas situações são bruscas, acontecem sem aviso prévio. Ontem a refinação custava dez, hoje já são quinze. Ninguém podia prever.
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As gasolineiras, que vivem em apertos, reduzem pessoal, para se prepararem para uma possível crise enfrentarem, reduzem os custos de produção. No entanto, sobem os protestos dos trabalhadores e o clima levanta fervura... ora cá está, levanta... levantam os preços.
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Depois há ainda um outro fenómeno complexo. As cotações do petróleo são feitas em dólares, pelo que a desvalorização da moeda norte-americana leva à subida do preço da gasolina, para compensar a perda cambial. Contudo, quando o dólar sobe é legítimo que as empresas tenham um ganho no câmbio, pois isso faz parte da actividade económica, nas sociedades livres e democráticas, onde vigora a economia de mercado.
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Estes exemplos que dei têm uma explicação racional... os combustíveis são matérias voláteis, pelo que têm tendência para subir... o dinheiro dos cidadãos tem exactamente as mesmas características de volatilidade. Já o aumento dos salários rege-se por uma lei diferente, em que é mais fácil descer ou estagnar, mas trata-se duma situação de particularidade no mundo da racionalidade, podendo também tratar-se da excepção da regra. O que é contra-natura é os preços descerem.
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Assim, é natural que os cidadãos queiram mandar tudo ao ar... simplesmente para ajudar à subida... de qualquer coisa, nem que seja do ânimo.
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Nota: Tem lógica, não tem?!

sexta-feira, julho 25, 2008

O quarto

Era talvez o tempo em que os ossos estão lá fora ao frio e a carne quente na cama. Era talvez o tempo de Inverno calmo, na cama macia e na solidão. Foi talvez nesses instantes de perene paralisação que se pensou pela primeira vez na vida depois. Depois do dia, depois das horas, depois de tudo o que se conhece, depois do que se espera nunca acontecer.
A cama tinha vista para a janela. A janela não tinha vista para mais do que uma triste rua de pedras molhadas. Nem azul nem verde. Não havia rio nem montanhas, mas um sossego incomodativo. Todavia, os olhos não iam além dos lençóis e cobertores. Havia a rádio a passar músicas introspectivas.
Nunca depois da vida. Nunca antes da vida. As palavras todas por dizer. Não havia a quem dizer. Não havia por que dizer. Se houvesse uma pessoa na rua talvez tivesse valido a pena levantar e falar-lhe da janela. O soalho de madeira corrida não conheceu os passos. A mesma inércia.
A mesma inércia por tempo indefinido. Até ao momento, quiçá distante, em que se acordou longe do céu nublado e já com os pés de fora, prontos para pisar. O quarto de tédio chegara ao fim.

sábado, maio 05, 2007

A mulher de Hopper


Nunca percebi Edward Hopper. Percebo agora que não o entendi no seu tempo. Não digo com isto que o entenda. Não! Houve uma época em que cismei como era suíço e não havia maneira de me tirarem da ideia de que as paisagens norte-americanas eram a negação uteriana dos Alpes.
Nunca terei um quadro de Edward Hopper. Não tenho sequer o direito a sonhar com um esboço em papel amarrotado pela sua mão. Não são para mim as luzes entardecidas nem as mulheres pensativas nem os envelheceres esquecidos nem os diálogos silenciados nem os vazios momentâneos. Não são para mim os quotidianos, urbanos ou rurais, quase sonoros, quase zonzos, quase tangíveis.
Nunca terei a mulher dos meus sonhos. Muito provavelmente a pessoa dos sonhos não existe. A flor mais bela está por desabrochar ou abriu-se num século em que não tínhamos os olhos previstos. A mulher por quem percorro o escuro e delinio a penumbra lilás da memória existe, mas não será minha. A flor mais bela tem a cor mais improvável de eu amar.
No meu tempo lamento não ter percebido Edward Hopper nem amado a mulher certa. Quem me dera o tempo em que me iludia. Havia luz no caminho ou, então, um reflexo... talvez só mesmo uma ilusão. Tanto fazia!...

P.S. - Hesito na avaliação: Havia de ter tido o dobro das namoradas ou apenas metade?

sábado, abril 14, 2007

Sábado de infelizes

A televisão ficou ligada toda a noite. Reparo agora que a roupa está arrumada e só o meu corpo ficou a destoar. Dormiu-se sem sem pressas, mas acordou-se em sobressalto. Passaram-se quantos meses? Três? Seis? Seis. Três.
As marcas do sono que fazemos a dormir não são só nossas, são de quem partilhamos a cama. A televisão ficou ligada toda a noite. A garrafa de água de todas as sedes ficou intacta e um velho copo de água amarecele esquecido todos os dias em cima da mesa de cabeceira. O pó volta ao seu lugar.
A solidão repousa nos momentos vagos e nos espaços largos. Não restam luzes de faróis nas noites. Os tempos já não são de evocação e perdeu-se a paciência para esperar e ainda mais para saber contar os dias até ao possível regresso. O pó volta ao seu lugar.
A roupa está arrumada, a água da garrafa toda por beber à espera duma sede que a seque desabrida e o pó assenta nos lugares. O meu corpo faz parte do lugar. Não sei se assim parece a minha alma e os meus olhos, presos a um quadro ou fixos num parapeito duma janela escancarada para dentro. Fecha-se tudo e volta-se a dormir. Ainda hoje será outro dia.
Eric Satie - 1e Gy...

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Promessas

Ainda que fosses sozinha para o café não te tornarias visível a meus olhos. A tua frieza não te tornou sólida, antes esfumou-te. A insensibilidade é a maior estupidez das pessoas. Hoje não deposito margaridas nos teus seios nem te beijo as coxas.
Mas não! Não vais sozinha para o café nem te tornarás invisível a meus olhos. Porém, jamais te verei, porque não te quero ver. A tua frieza gerou a incandescência da minha raiva. A solidez da tua decisão é tão dura quanto a minha e não há espaço para ar pelo meio das duas. A insensibilidade é maior estupidez das pessoas. Não deposito margaridas nos teus seios nem te beijo as coxas.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

A memória do comboio

Não é por ser-se breve que se não é intenso. Nem se é intenso por ser-se breve.
O comboio passou pelo apeadeiro. O lugar abandonado e deserto ficou abandonado e deserto com o ar que tem sempre de lugar abandonado e deserto, sem poeira suspensa no ar, sem vaga impressão do comboio. Era um rápido? Um regional? Um pesado carvoeiro?
Por lento que tivesse passado o comboio, não ficou memória dele na paisagem nem no tempo do apeadeiro. Assim é a vida.

O comboio a partir

No tempo depois da partida ainda se avistam as paisagens de trás. Retratos arrastados.
Sentado nas escadinhas da carruagem um homem fuma cigarros de tabaco negro sem filtro. Finge ler versos e repara na paisagem arrastada pela memória. Pousa os olhos numa imagem de Saraswati que anda sempre consigo.
No tempo depois da partida só há passado e só se quer futuro. A paisagem pouco importa. O tempo é de ir. Às vezes a vida é ficar.

Cais de desembarque

Não sei por que se chama de embarque ao cais. Sempre que há sentimentos é de desembarque que se trata: Um amante deixado no cais, um abraço dado na plataforma, os afectos deixados na despedida. Sempre o desembarque.
Deixaram-me um recado nas escadas da estação. Um apelo como uma despedida antecipada. Mais tarde um telefonema, uma surpresa. Sentimentos de sangue largados no espaço.
Deixaram-me um recado nas escadas da estação. A luz toda entra indiferente pela casa toda. Não está ninguém. Mais breve pode não não estar ninguém. A luz toda não é de ninguém.
A memória paira na luz toda. A porta está aberta, mas por ela não entra nada. Saiu tudo. Não entra passado nem futuro. O presente é um instante breve.
Na memória ficou o recado nas escadas da estação e a luz toda a entrar pela porta aberta. Para o futuro fica a questão: por que não se chama de desembarque aos cais?

domingo, abril 09, 2006

Quase mudos

Não temos quase nada para dizer um ao outro. Tu saiste tarde do trabalho mal pago e foste para o teu biscate que te ajuda a pagar a espelunca. Eu fiz horas para te ver. Estive só a fumar cigarros atrás de cigarros. Não gostas que fume e eu não gosto que trabalhes até tão tarde. Dizes que é para pagar a casa, respondo-te que o buraco não vale o preço que pagas. Justificas-te que não tens dinheiro para mais. Argumento que poderíamos viver juntos. Silencias-te.
Acendo outro cigarro, enfadas-te e pedes mais um copo. Não gosto quando bebes. Suspiro, bufo e mando uma fumaça espessa e larga para que te atinja. Tosses e resmungas. Não dizes nada, não queres discutir. Já tanto me faz, estou farto do silêncio e de te ir buscar todas as noites ao antro onde te exploram por meia dúzia de patacos para acabar a noite na mesma leitaria febrilmente iluminada onde nada acontece. Estou farto e tu estás farta. Não sabes o que fazer à vida e não sabes o que fazer comigo.
Ao domingo vamos para a cama e é bom. À sexta estás cansada. Ao sábado queres passear e estás cansada. Ao domingo não tens argumentos para estares cansada. Às vezes tens coisas de mulher e não podes. Às vezes tens coisas de mulher e satisfazes-me. Às vezes sou carinhoso. Ressono sempre que durmo contigo, mas nunca te oiço. Já deixaste de fingir que não reparas que deixei de ouvir. Já não te chateias.
Acabamos todas as noites na mesma leitaria de luzes intensas onde vão sempre as mesmas pessoas atarefadas e com fome, onde de vez em quando entra alguém desconhecido por acaso. Nunca acontece nada, nunca aparecem amigos. Não tenho amigos. Não tens amigos. Não temos amigos. Eu trabalho e espero que acabes de trabalhar para te dar um beijo à pressa antes de ires para o teu biscate, depois espero que saias e tomo uma cerveja ou um copo de leite enquanto tu bebes um copo de leite ou uma cerveja ou um brandy. Eu fumo e tu detestas que fume. Detesto que bebas. Por mim não tinhas o biscate e vivia contigo. Por ti vivias sempre sozinha e ias às compras com amigas que não tens.
Não sei o que faça contigo. Não sabes o que fazer comigo. Está silêncio de vozes na leitaria. Só o ruído das máquinas e das tarefas do empregado. Nem o cliente tuge a ler o jornal ou a mexer os olhos. Não sabemos o que fazer. A conversa está acabada. Estamos acabados e desconhecemos se gostamos um do outro ou se estamos apenas habituados à vida. Não queremos discutir e pensamos nela neste silêncio de luz penetrante.