digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sábado, março 31, 2007

Cómodo e sombra

A minha casa não tem céu, tem um novelo de braços, uma cúpula como ninho vivo, que me guarda cá em baixo. Não sei de estrelas nem do frio, mas duma bruma quieta, dum sono denso e do perfume das coisas pequenas. A única coisa grande que vi foi o tecto de ramos sobre mim e os troncos a suportar a verde abóbada. A luz límpida vem filtrada e com ela o canto de todas as aves. Não posso querer mais. Não sei melhor. Sou igual aos fungos. Tenho pernas, mas nunca daqui quis sair. Na certeza dos ignorantes sei que não há felicidade além desta floresta.

sexta-feira, março 30, 2007

Dar por perdido

É onde me perco onde mais gosto de estar. É lá que sou uma síntese de mim: Um traço duma só cor.
Na floresta não sei onde estou nem se o avesso é o certo nem se a direito sigo para a frente. Tal como nas dunas ou nas vagas sem mais referências. Tudo o que não pode ser mais nada pode ser mais tudo.
A ausência de linha do horizonte é uma graça com muita piada para quem muito se preocupa com a pontualidade, mas aprecia o lado caricato da vida. Não há pior falta de referência, além de não ver o Sol. Numa noite incerta, numa qualquer floresta, sem pista de pedras para guiar a saída. No ermo onde tudo pode ser qualquer coisa é-se qualquer um. Num instante, imperador ou faminto.

quinta-feira, março 29, 2007

A pedra

Não tenho amor, mas no bolso há uma pedra. Toda a vida tive uma pedra no bolso. Sempre que o amor me surpreendia apertava a mão na pedra e sabia que haveria de sobreviver, porque sei, sempre soube, que o amor é traiçoeiro. O amor atraiçoa sempre. A pedra não me ama. Nunca amei a pedra. Os amores vieram e foram, a pedra ficou. Não há qualquer hipótese de amar a pedra ou dela receber amor: temos uma relação feliz como aquela que se deseja para um casamento.

O outro lado

Como será o mundo do outro lado? Haverá exclamações por cada interrogação deste hemisfério e estarão lá as raízes das árvores de cá?
Encontrei um depósito de trovões. Estavam serenos, recostados em melancolia tépida, esperando pela próxima tempestade. Como são serenos os trovões quando não se lançam sobre a terra!... Nuvens de água muito quente serviram-me de almofada para os dias azuis de toda a felicidade quieta.
O outro mundo não é o outro lado da esfera celeste nem o outro lado da Terra. Não posso jurar que tenha estado na parte de baixo do mundo, mas só na parte imaterial. Sei que não se cai, porque o magneto agarra os pés, mas desconfio da outra parte da Terra. Haverá monstros ainda no mar e répteis na crosta. Demasiadas aventuras para um temeroso imortal.

quarta-feira, março 28, 2007

As duas metades

Num lado da cabeça tenho as emoções e a razão. Noutra tenho a razão de ser. Não distingo a diferença entre a razão de ser e a razão de sentir. Sinto porque penso e penso a sentir. Sou um animal, mas lamento não fazer a fotossíntese só para pensar mais livre e dedicarmente apenas às transcendências da vida.
Em metade do cérebro tenho o amor, a raiva, a ternura, a ejaculação, os apetites todos e de toda a ordem e os afectos. Lá estão também o tino e a certeza, porque se essas coisas existem, logo sou algo mais do que só biológico e pensante. Na outra metade está a minha razão de ser: está Deus e a consciência. Só por causa dessa metade não faço a fotossíntese e sou bípede.
No entanto, não distingo a diferença entre a razão de ser e a razão de sentir. tenho amor aos animais e tento amar toda a vida... em vão. As minhas duas metades forma uma só, e confundo-me nela. Às vezes não sei mesmo se não sou apenas essas duas metades. Não sou. Tampouco sou o corpo todo. Sou espírito. Nem apenas uma essência corpórea, apenas espírito. Todavia, confundo-me nas artimanhas das minhas duas metades e até escrevos os enganos que elas me ditam, pois nenhuma delas é aquilo que escrevi.

terça-feira, março 27, 2007

O pomar

O pomar é um lugar de aromas verdes, cores doces e sombras liláses. Nas tardes prometidas das Primaveras e nas prolongadas dos Verões, as árvores são encostos para as costas. Os olhos avistam as danças dos insectos e todos os ruídos são um só silêncio. O ruído da água brilha ao Sol, uma alegria maior da natureza. Todas as grandes coisas da vida estão aqui e são pequeninas. Pode viver-se aqui, junto às árvores fruteiras. O pomar é um lugar definido e a fruta defini-se no sabor do gosto. Já a Primavera e o Verão são indefiníveis, são estados de espírito.

segunda-feira, março 26, 2007

A correr a vida

A velocidade da vida é mais rápida do que a dos dias. Mudou a hora e não tarda serão longas as horas. Será outra vez tempo de estender as conversas pelo dia e pelo estio. Não há medo que esmoreça o Verão.
Por enquanto faltam menos de cem passos. As luas hão-de levantar-se e pôr-se muitas vezes, há cigarros para fumar e tristezas para saborear à janela. Um trago de água para matar a sede mil vezes lembrada e os suspiros adiados. A velocidade da vida é mais rápida que a dos dias; não tarda é Outono.

domingo, março 25, 2007

Uma outra hora qualquer

A tarde de domingo, a queda antes do impacto. Uma festa quieta de gente sentada a olhar um vale, um piquenique gordo acabado posto na toalha estendida sobre a melancolia. Um balcão sem parapeito sobre o rio fino de azul nostálgico, esmagado pelo cinzento incompreensivo do céu e o corpo deixado para trás pela alma e pelos olhos.
O desejado impacto da queda durante a vertigem. A pesada quietude dos minutos da gente parada numa melancolia contemplativa dum rio sufocantemente fio. A tarde de domingo é uma corda enlaçada a apertar-se que não mais estrafoga, um sem fim de agonia e ausência no olhar. Quem me dera fosse já uma outra hora qualquer.

sábado, março 24, 2007

Um ano de rendição

Rendi-me há exactamente um ano. Nem mais um minuto para além da data. O Infotocopiável começou sem imagem e depois com vinhos e brasões. O protesto da Rita fez eco e abriram-se espaços, então, para a heráldica (Armorial) e para os bebes e os comes (Os Três à Mesa - projecto já finado -, A Adega e o João à Mesa), deixando este blogue apenas para as prosas e as imagens. Porque andavam a confundir-me a vida com as palavras veio o Caderno, para onde vão retalhos da realidade. Na verdade, quase só tenho um blogue, porque todos nasceram do Infotocopiável, que pode continuar, volta e meia, a ter um brasão a mostrar, porque é belo, ou um vinho para dar de beber, porque há sede.
O Infotocopiável é e será sempre o meu primeiro canal, onde me encontro mais e mais me vêem, apesar de aqui não se ler a minha vida. Mas a vida está sempre nas palavras que se escrevem, como está sempre nas letras que se lêem.
É no Infotocopiável que me encontro com o Paulo, parceiro da Adega e de tantas aventuras, com Calvin e suas palavras sem fim e no blogue e no firmamento, com tantos amigos que só visitam e com outros que têm blogues com pseudónimos. O Infotocopiável deu-me também a conhecer gente que me tem encantado com os seus espaços, como a Alfacinha e sua horta, a Ana Fonseca e sua praia, o Formiga Bargante e sua arte, a Maria e seus tiques de menina bcbg, a Moonlover e sua Lua, a Soukha e suas transcendências, a Tânia e seu ecoponto de almas, a T&V e seus tangos e valsas, ou As Velas Ardem Sempre Até Ao Fim e seu blogue homónimo... Há mais amigos, mais descobertas e mais blogues que gosto, mas não vou pôr aqui mais os restantes, pois estão todos aqui ao lado pendurados, em sinal de reconhecimento, gratidão, afinidade ou sintonia.
A todos aqueles que aqui me encontram e que aqui encontro, mesmo sem saber, agradeço este ano de troca de palavras e de imagens. Porque hoje é um dia de partilha e de evocação deixo uma imagem minha recente, acabada ontem. Espero que mais anos venham e mais águas passem por esta fonte em que nos sentamos a beber e conversar. Há um ano começou assim: rendido.

Nota: Sim, confesso que acertei a data no Blogger... até escrevi o texto de véspera... imaginem que me finava ou o mundo acabava antes... havia de ter muita graça!...

sexta-feira, março 23, 2007

Como és bela, apesar de alguém te achar grotesca. Vês-te ao espelho e não te assumes na figura frente a ti. Tampouco os meus olhos te entendem como és de rosto e feições, mas inteligência e afeição.
Sentas-te frente a mim na sala despovoada e ficamos largas horas a jogar paciências sem batotas. Às vezes xadrês. Às vezes damas. Às vezes gamão. Quase sempre cartas. Ao cair da tarde tomas um gin fizz e eu um gin tónico, os criados já sabem a hora. Depois sobes para o teu quarto e eu para o meu para descermos uma hora depois já vestidos para o jantar. Às sete em ponto comemos no silêncio absurdo das casas grandes.
Às sete em ponto comemos no silêncio absurdo das casas grandes. Tomamos um tinto antigo, por vezes um branco da Borgonha sob o olhar severo dos olhares dos antepassados já finados e pelos nossos reflexos nas pratas. Bate o pêndulo do relógio e batem ainda os nossos corações. Como és bela e reluzes nesta sala de fantasmas.
Fora destas salas amplas feitas fechadas pelo peso do escuro e do tempo definhas na luz e julgam-te grotesca. Para mim continuas linda como na juventude. Por que só há-de ser bela a Primavera? Como és bela, mulher!

quinta-feira, março 22, 2007

O eco

O tempo de ecos é de esperas. Espero o teu retorno, mando-te palavras e fico-me com as mesmas evocações. Tento afastar a memória, mas ela volta como o eco das palavras que te lanço para voltares. A espera é uma solidão. O improvável regresso é uma ferida por sarar. Se pudesse lançava-me como as palavras na esperança que não me rejeitasses como o horizonte as recusa. O tino diz-me que o caminho não precisa das minhas pegadas e fico-me com as chatas das memórias que mando fora e regressam como o eco.

quarta-feira, março 21, 2007

O tempo que falta

Para que quero a Primavera? Duas estações no ano bastam-me! Ora frio ora calor. Simples. Um sistema binário como um computador, movido a chuva e a sol ou a azul e cinzento ou ainda a alegria e nostalgia.
Um vendaval soprou nos mercados e as empresas começaram a fundir-se e a comprarem-se. O vento levantou o mar e dele levantou-se uma vaga que molhou tudo. As estações do ano começaram a unir-se para racionalizarem recursos.
Não importa se faz sentido ou se é lógico. Pouco importa onde cabe a poesia. Não interessa se cabem menos árvores num planeta nem se há poetas a sonhar com oito estações no ano. O que se sabe é que hoje o Verão sucede ao Inverno e que num dia está calor e noutro frio.
Já se deu cabo do planeta e ainda há espaço para dormir à sombra de pedras. Ainda há tempo para dormir a sesta! A vida continua. Continua sempre, porque somos de viver. Ainda que haja menos árvores e os pássros cantem baixinho. Para que quero a Primavera? Para nada. Para tudo.

terça-feira, março 20, 2007

Amanhã é Primavera

Os anjos são cinzentos, como o rosa-mármore, e têm brincadeiras infinitas sem maldade nem pureza. Atiram azeitonas, pequenos frutos ou flores em botão. Fingem-se de raparigas, disfarçam-se de rapazes, miram-se e acariciam-se curiosos. Desejam o indesejável e tocam-se no intocável ponto. Sentem-se sem orgasmo, vergonha ou nexo. São cinzentos, os anjos. De pele e alma rosa rubra, quase escarlate.

Um Natal qualquer

Sonhei com um ano próximo e o Natal, ao contrário deste ano, a calhar em Março. Haverá bolo de chocolate e laranjas, sonhei.
Num país próximo haverá destino, descoberta e lembrança: uma queda de água, quartos grandes, cama larga e fofa e uma piscina com vista para a casa.
Era Natal. Sonhei. Egoismo.

segunda-feira, março 19, 2007

Fatalidade

Conheço-te o desejo e o fingimento e é por isso que me embriago quando te vejo quase desfalecida e ouvinte de música.
As tuas pestanas pausadas são as cortinas pesadas dum teatro e ao vê-las assisto ansioso ao passar do tempo. Espero pelo passar dos segundos até que se levantem e revelem os olhos para que me deleite derretido.
Quem me dera ser o teu desejo e razão de fingimento. Pudera haver razão para te embriagares em mim e desfaleceres-te desmaiada para que te segurasse. Infelizmente a vida não me satisfaz os devaneios.

domingo, março 18, 2007

A sonolência anormal

A normalidade é aborrecida como um urso sonolento.

Conversa pesada

Se me perguntarem:
- O que fizeste na última vida?
Responderei:
- Tive pesadelos.

A janela das palavras

Os dias tristes não têm de suceder aos felizes e, assim como assim, há dias que não são nem uma coisa nem outra. Há cadernos lisos, de linhas, quadriculados e milimátricos. Em todos eles pode escrever-se o que se quiser: confissões e desbafos, poesia e prosa, política nacional ou internacional, assuntos de sociedade, coisas de menina ou brutalidades de rapaz, fantasias várias e imaginários ricos ou pragmatismos pobres. As palavras podem mostrar-se ou ficar guardadas, publicitadas ou fechadas num grupo restrito de amigos. Há dizeres com traquinices e outros que a tendo não têm maldade. Há blocos ilustrados e outros secos de imagens. Há os que duram longos tempos e outros que vivem muitos anos. Há os que fazem falta e os dispensáveis. Há os que se querem ir e se forem deixam muitas saudades e outros que ninguém dará por eles.
De todos esses há um que se perder vou guardar muita tristeza, o blog de Calvin... São muitas horas de muitas semanas de um ano a lê-lo com ternura. As plavras de Calvin são ilimitadas nos afectos. É uma janela para mais do que palavras.

Primavera

A Primavera é uma promessa! No Verão... logo se vê.
A certeza da Primavera é a sua incerteza: talvez chova, a dúvida do aroma, o vento de força variável.
Depois há o seu oposto, do outro lado do Universo está o Outono. O dia cinzento, o chão castanho, as árvores a despirem-se e a chuva com vontade inversa. O Outono é a certeza de dias mais frios e sombrios.
A Primavera é uma promessa! No Verão logo se vê se haverá a felicidade...

quinta-feira, março 15, 2007

Desmentido

Podes esconder-te, mas não podes fugir. Num momento sairás, porque terás fome e mesmo na toca haverás de dormir e serás vulnerável... conhecerás a doença e a solidão. Não se vive a fugir nem se foge para sempre.

Nota: Poucos aforismos são tão estúpidos quanto o que diz que «podes fugir, mas não te podes esconder».

Ansiedade

Tenho poucos dias para acabar os dias.

quarta-feira, março 14, 2007

Vidas

Onde estou se o sítio onde estou não tem lugar para mim? Espero que seja o Inferno, para um dia ir-me embora sem remorsos.
Na verdade não se tem muita bagagem. Nas horas difíceis só se tem a vida, as memórias e as esperanças para carregar. Na verdade, poucas coisas importam além dos afectos... os bons e os maus.
Temos tudo em nós, até prados e florestas. No desalento bastamo-nos se pudermos e soubermos. Na alergria tudo é fácil e abundante.
A mesa posta, o vinho a correr a rodos, tudo farto e a fome danada que se vai embora porque se sonha até se adormecer. Por que não? Até ao dia do suspiro fulminante ou suavizante. Ponto de intermitência. Espaço de interrupção, mas talvez de persistente canseira. Espaço de interrupção, mas talvez de devida saúde e alfabetização, de desejado desanso.
Haverá um dia de ternos sorrisos e de imensa sabedoria. Haverá um dia de saúde. Haverá vidas do espírito e não do corpo. Desmedida felicidade de conhecimento e amor.

terça-feira, março 13, 2007

Arte dois

Gosto do brilho dos teus olhos. Gosto deles ao deslumbrarem-se. Gosto do deslumbramento da arte. Gosto do fiozinho de divindade que tem a arte. Gosto da divindade que têm os teus olhos. Gosto de ver neles a surpresa.
Primeiro procura-se a argila, depois escolhe-se. Na oficina areja-se, batendo-se e massajando-se. Na roda coloca-se na forma, onde será moldada a matéria-prima, enformada e deixada como será quando estiver pronta. Posto isto, o quase-objecto será cozido, antes de pintado e vidrado. Será isto arte ou ofício?
Em que é a cerâmica diferente? Não há ofício sem trabalho. Nem há arte sem ofício. Nem arte sem conceito.
Gosto do brilho dos teus olhos. Gosto deles ao deslumbrarem-se. Gosto do deslumbramento da arte. Gosto do fiozinho de divindade que tem a arte. Gosto da divindade que têm os teus olhos. Gosto de ver neles a surpresa.
Em que é a cerâmica diferente da superfície pintada ou da pedra esculpida ou do papel impressionado? Matéria é matéria e será sempre matéria. O trabalho é trabalho e será sempre trabalho: cada oficina será sempre uma oficina e cada homem um artesão, um ourives, um artífice. A chama divina é o conceito. É nele que está a arte. É ela que faz brilhar os olhos.

Arte

Grunft, um homo sapiens sapiens de idade dificil de calcular, acabara de tingir uma parte da parede de rocha da gruta, onde se abrigara, com grafite e misturas de terras, sangue e saliva. Gronft, um outro homo sapiens sapiens de idade indiferenciada, abeirou-se e exclamou:
- É um bovídeo!
Grunft retorquiu:
- Não! É arte!
A discussão prolongou-se por horas, a noite chegou sem uma conclusão. Grunft continuou a pintar na gruta de Lascaux e Gronft a bradar que eram apenas cavalos, bovinos e outros animais. A discussão manteve-se por dias, semanas, meses, anos, gerações e... dura até ao presente.

Nota: O «Urinol-fonte» fica que nem ginjas a ilustrar este diálogo com cerca de 15 mil anos.

Cabeças livres

Cabeças felizes. Felizes com quê? Ar para respirar e todo o ar para ver. Nada mais diante dos olhos. Não ter nada pela frente. Nada que impeça a vista. É um privilégio não ter tapumes, taipais, prédios, sombras, objectos, lastros ou pessoas. Nada que tape a vista ou prenda ao chão. Cabeças felizes. Adolescências. Sempre Verão. Música de chão e pés. Não incómodo e vento. Sol. A natureza quase toda. Todo o lugar e o lugar todo. Música de chão e pés, cabeças livres. Livres porquê? Ar para respirar e o Sol pela frente e a sombra toda para trás. Cabeças felizes.

Os amores de fogo e cinza

Vulcano também faz amores na sua forja. É por isso que há paixões talvez cruas, pequenas e imperfeitas, mas telúricas como tremores de terra e que deixam marcas no tempo, que se guardam por muito tempo no coração. Os amores de Vulcano são de matérica, feitas de terra, de ferro e de fogo, resistem aos anos com ternura e raiva, mas não à doçura dos dias. Depressa voltam à cinza, mas até a cinza sobrevive, voa e impressiona os olhos. São amores que se temem e se desejam: paixões taçvez cruas, pequenas e imperfeitas, mas telúricas como tremores de terra.

Nota: Retrato do idílio amoroso de Vénus e Vulcano.

domingo, março 11, 2007

A calma depois da vida

Tenho saudades do tempo em que roubava beijos às escondidas, não tenho saudades de roubar beijos às escondidas. É este um sinal da velhice, tão nítido como ter esfumado o contorno das nuvens no céu e negligenciar o perfume da chegada dos dias soalheiros. A velhice começa quando se tem saudade dela mas não se quer viver-lhe os dias.
De Augustina lembro as tardes... de Teresa recordo os entardeceres... de Maria evoco as ceias... de Angelina ainda celebro o leito... Ai, Angelina! Depois vieram mil mulheres. Em seguida tudo acalmou, um casamento, dois casamentos, três casamentos, muitas infidilidades, certamente mútuas e até consentidas... quantas loucuras. Agora é o tempo de recordar quando brincava de baloiço e seduzia para um dia namorar. É o Outono a acabar.

sexta-feira, março 09, 2007

A carta do dia seguinte

Lisboa, 9 de Março de 2007

Querido(a) leitor(a) escrevo hoje a carta do dia seguinte, porque me pediram para escrevê-la. Pediram-me para escrever sobre a mulher. Pediram-me para escrever sobre a mulher no seu dia. Por que não o fiz no seu próprio dia? Estou assim a responder a uma encomenda? Dirá de sua justiça no final, como é hábito seu. Digo desde já que sou tão irracional e obtuso quanto não sou indomável, que sei dar a mão à palmatória quando o julgo ser necessário tanto quanto sigo os meus princípios.
Não escrevi nem uma linha sobre as mulheres no seu dia, porque não há nada a escrever sobre as mulheres. Escrevo-as quase todos os dias: as reais e as ficcionais, as que amo, as que amei, as que desejo amar, as que amarei e as que julgo odiar.
Não há nada a escrever sobre a mulher no seu dia, porque se o fizesse estaria a considerá-la um só ser. A mulher não é uma flor. A mulher não é um objecto. A mulher ter um dia é assumi-la como um ser inferior ou ter a data como marco comercial como o Dia de São Valentim ou o Dia do Pai ou Dia da Mãe ou o Dia das Bruxas.
A mulher não é um bichinho muito parecido com o homem com o qual se tem sexo e se deixa viver lá em casa. Por que raio há-de ter um dia no calendário? Serve para simbolicamente se criar uma feliz e justa igualdade no recenseamento militar, coisa criticada com aleivosia militante de feminista sindical. Para que raio serve o Dia da Mulher? Serve para uns sindicatos de preguiçosos sairem à rua com as mesmas palavras-de-ordem de todos os outros dias de anhanço laboral a protestar contra todas as políticas de todos os Governos. O Dia da Mulher serve para umas tantas mulheres reivindicarem vitória gloriosa do «sim» no referendo do aborto, esquecendo-se que muitas outras mulheres votaram no «não» e que certamente metade dos 56 por cento de abstencionistas é formado por mulheres.
A mulher não é objecto! A mulher não é adorno! A mulher não é para cuidar do lar sozinha! A mulher pode cuidar sozinha dos filhos! É ridículo andar a oferecer rosas no Dia da Mulher! A menos que se queira oferecer uma rosa apenas por querer oferecer uma rosa... É idiota andar a oferecer gerberas no Dia da Mulher! A menos que se queira oferecer uma gerbera apenas por ser um simples 8 de Março...
Ora, para escrever flores bordadas a palavras não contem comigo a 8 de Março, porque tenho demasiado respeito pelas mulheres. Para fazer claque de feminismo sindical fora de prazo também não. Sou homem e tenho na mulher alguém da mesma espécie com os mesmos direitos e os mesmos deveres que eu... certamente muitos muitos desejos iguais aos meus. É por isso que me marimbo para o Dia da Mulher!

Nota: Esta carta é dedicada à Gisela Amieira que deixou um comentário a queixar-se de que não havia um texto sobre as mulheres no dia 8 de Março. Com todo o respeito que a minha amiga me merece, aqui fica a resposta. O texto é dedicado ainda a quem sentiu igual falta.

quinta-feira, março 08, 2007

Um Inverno por vir

Ainda não caí do Inverno. Ainda sobrevoo o bosque no termo de Solingen e anseio sentir com as mãos a temperatura da lavra.
Ainda estou sentado no jardim a escutar os pássaros e a ver o gato a caçá-los. Há verdes por toda a parte, felizmente diferentes.
Ainda há algumas pessoas nas ruas de chão de cimento. Os autocarros passam a horas certas e as paragens têm os vidros civilizadamente decoradas para que as aves neles não embatam.
Ainda há pouco subi a estrada que vem do centro de Wuppertal. Ainda trago nos ouvidos o ronco ordeiro do schwebebahn. Ainda não caí do Inverno sobre a floresta da periferia de Solingen. Ainda sobrevoo o burgo antigo e a velha ponte em ferro.
Ainda cai uma chuva que não me molha. Tenho vontade de sentir a textura da terra nas mãos e de cumprimentar em alemão o velho lavrador que há pouco me dirigiu a palavra. Tenho vontade de fumar às escondidas e de escrever cartas de amor. Ainda não caí do Inverno.

Nuclear incerteza

A força movimentada do átomo é bela. A luz causa-me alucinações suaves. O respeito quente de quem sabe. Dizer a palavra medo. Dizer as palavras todas. Não saber as palavras todas. O calor da energia fria. A limpeza do medo do desastre mais sujo. Sempre a mesma incerteza. A ignorância na ponta da língua. A preferível ignorância.

quarta-feira, março 07, 2007

As mãos do meu amor

O meu amor fala com as mãos. Não são gestos de gesticular. Não são gestos de auxílio da voz. São movimentos de encantador de serpentes. As palavras saem-lhe da boca como melodias, mas as mãos fiam finos fios de nuvem invisíveis a que os meus olhos se prendem. Se desviar a atenção da dança que faz com os dedos é porque me deixei caçar pela água profunda das duas lagoas que tem nas vistas. As mãos do meu amor bordam o ar e desfiam palavras no vazio. Não há como lhes fugir. No êxtase, julgo mesmo que tem três.

O amor maior

Um grande amor é como um pão volumoso: tudo pode acompanhar e nele quase tudo pode caber.
Um amor novo é pequeno e frágil, sempre cantado. Dele se guardam saudades e remorsos. A ele se comparam as flores e seus perfumes.
O meu amor preferido não foi grande nem frágil. O meu amor saudoso esteve muito longe de ser um amor-perfeito. Foi pequeno, o meu grande amor. Mas foi concentrado. Partiu-se num instante e foi tão sólido enquanto se não quebrou!...
O meu grande amor foi pequeno. O meu delicado amor foi bruto. O meu amor preferido é odioso, porque findou tão abruptamente. O meu amor preferido é já antigo, porque terminou. O meu amor passageiro foi um amor novo. Em tudo novo. Por isso, foi um grande amor.

O hipotético buraco

E se a minha vida tivesse um buraco? Onde o teria? Talvez até o tenha e apenas o desconheça... por hábito. Desconhece-se tanta coisa por hábito!
Se tivesse um buraco na vida, onde o teria? Para onde iria dar? Uma janela aberta para o bem, para um jardim de bem-estar ou uma porta para a estrumeira fétida onde despejo as minhas imundices? Se não tenho um buraco na vida ou se o tenho e não dou por ele talvez não consiga imaginá-lo verdadeiramente.
E se o buraco na vida estivesse agarrado ao meu corpo? Onde o teria? Numa perna? Porquê numa perna? Porquê só numa? O mesmo se dirá para um pé ou braço ou mão. A ter um buraco na vida e a tê-lo agarrado ao corpo tem de estar no tronco ou na cabeça, porque é onde faz sentido. Porque é onde há vísceras. Nos músculos da acção não há razão para se ter um buraco na vida. Quanto muito pode ter-se ausências, mas não buracos.
A ter um buraco na vida agarrado ao corpo seria visível? Só importa se o fosse, porque não sê-lo é ausente de importância. Um buraco invisível seria uma ferida a requerer um acto médico e não uma vergonha esquisita que se ocultasse ou sussurrasse. Um buraco oculto não é digno de nota.
Um buraco na cabeça e pareceria um ciclope... daria por isso, estou certo. Um buraco na vida agarrado ao corpo tem, assim, de estar no tronco e ligar um lado ao outro da pele. Se o tenho? Não o vou confessar. Não sei. Se soubesse seria feliz. Se soubesse, ainda assim, seria ignorante quanto à sua função. Se soubesse teria pudor de o reconhecer...
E se a minha vida tivesse um buraco? De onde a onde? Poderia alguém apertar as mãos dentro de mim?

segunda-feira, março 05, 2007

Ao todo sou uns quatro

Sonho todas as noites. Sonho todas as noites e não distingo a memória, a realidade, a premonição, o subconsciente e o inconsciente. Quantas pessoas habitam em mim?
Dialogo-me. Escuto-me. Não me quero ouvir. Não me suporto. Tenho ânsia de chegar a casa para estar só. Só comigo. Sozinho sou apenas eu. Não me tolero. Preciso de gente à volta para que me possa diluir. Preciso da solidão para que me escute. Tenho um zumbido a atravessar-me a cabeça, serei eu?
Hoje levantei-me e disse-me que não iria trabalhar, que ficaria na cama. Depois vesti-me e fui de passeio até ao escritório. Pedi uma torrada com manteiga e deixei-a pousada sem lhe tocar. Quando acordei vesti-me e fui trabalhar. Fiz tudo como é hábito e comi a torrada, só que sem manteiga.
Sonho todas as noites, mas nem sempre acerto nos dias. Há amanheceres diferentes e ocasiões que nem acordo. Não sei se há culpa em mim ou se sou todo eu feito de culpa. Ao certo não sei quantas pessoas habitam em mim.

Meditação contemplativa e redonda

A minha vida não é esta! Alguém se enganou e ma levou, deixando-me a sua...

Indecisão insolúvel

Não sei o que hei-de fazer à minha vida... Não sei o que hei-de fazer sem ela...

O desejável naufrágio

O olhar mais bonito é uma amarra que prende o navio ao mar da liberdade. O sorriso é um farol a indicar as vagas. O beijo mais profundo une o casco à água. A cama é a tempestade antes da doce tragédia do náufrago feliz e fortalecido pelo cansaço. Tudo por amor. Tudo pelos olhos e mais luminoso sorriso.

Verdade a ferir

A verdade pode ser uma falsidade. Basta a crença simples num sonho. Nem só a falsidade fere. O ódio é verdadeiro e é sempre um engano. Ainda assim pode odiar-se por engano, porque houve intriga ou má leitura. Quem odeia sempre ama. Há sempre fuga e perseguição no ódio: é um abraço. O ódio é uma verdade falsa. Nem só a verdade fere.

domingo, março 04, 2007

Bons modos

Como está grave o senhor deputado! Mas bem que podia comprar e usar camisas do seu número... sabe, essa está-lhe acanhada. Fica-lhe apertada. O senhor parece obeso dentro dela, parece muito gordo, com uma grande barriga e com um peito volumoso... os botões a esforçarem-se e as casas a abrirem-se... não lhe fica bem!...
Sabe, senhor deputado, o senhor está demasiado vermelho. Não é a cor política... Não lhe critico a preferência partidária, mas a tenho objecções à da pele. O senhor não está saudável... está rubro. Não me diga que é da praia, porque não é tempo dela... nem me argumente que é da neve, porque este Inverno foi temperado e já vai primaveril e, além do mais, essa cor é a de quem abusa do álcool.
Senhor deputado... julgo que faz muito bem em apreciar um bom charuto!... Diria até que faz lindamente em usufruir dos havanos, dos de Vuelta Abajo... mas, por favor, mandam as regras da boa educação, pelo menos na Europa, que se retire a cinta ao dito. E já agora que não se babe a pobre capa de tabaco!
Senhor deputado, com o ordenado que ganha e com os anos que leva de hemiciclo devia já ter aprendido algumas maneiras... essa não é a melhor forma de beber o uísque... Além do mais, se o senhor tiver espelhos em casa e tiver alguma cultura reparará nas papadas sob os olhos. Meu Deus! O Senhor é uma garrafa de vinho numa montra soalheira! Tenha cuidado! E tenha maneiras! Pagamos-lhe (também) para isso!

Nota: O deputado em causa existe. O deputado em causa é do PSD. Definitivamente, o deputado em causa não é BCBG.

quinta-feira, março 01, 2007

Canção de caserna

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Canção de rapazes e de mulher fatal. A juventude explica muita coisa. A juventude deixa sempre saudades. Deixa? As dores do corpo e as da alma. A juventude explica muita coisa. E também as loucuras? A loucura da juventude... A juventude não explica a loucura que não é sua. Uma canção de rapazes e de mulher fatal.

A maçã verde

O aroma das maçãs verdes é fresco. Mais fresco do que as maçãs verdes. Fresco como o Lisbon Hock! Lembrei-me do aroma verde das maçãs quando à minha volta havia mar e o sangue derramado. Cambaleava para contradizer o balanço do navio e das feridas fundas dos sabres-de-abordagem. A dor calou-se no peso dos minutos e com os estampilhos constantes dos mosquetes, pelo esvair perpétuo do sangue sem jorros e no desfalecimento lento dos heróis.
O aroma verde da maçã verde ficou a pairar sobre o mar, enquanto eu ficava preso num naufrágio. Os meus amores entardeceram bordando-se. Cada um sua rosa, cada um seu nome, todos de linho branco. Nos dias soalheiros, perto de Sintra, levava-lhes maçãs.
Os meus amores dão-me suspiros e fazem-me cruzinhas bordadas, porque tenho sepultura no mar. Aquele instante está no mesmo local, o sítio do meu fantasma. Lugar de imperturbável aroma a maçã verde. Momento fresco onde se brinda com Lisbon Hock.