digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

segunda-feira, fevereiro 05, 2024

Também não me cansei


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Se vivendo numa esfera, ou somente num círculo, a cabeça não rodaria mais.

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Não sendo um rio, as lágrimas desceram e hoje não se diluíram na água dos vinte e cinco metros.

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Braçada e pernada pedem demais para se poder pensar. Num tempo infinito não há outra coisa senão ir e voltar. Hoje, não.

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O infinito quando acaba é como o momento de acordar da sesta. Ainda os problemas, mas as ideias, como fruta madura que tomba da árvore para saciar com açúcar e vitaminas, ficam espertas.

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Hoje braços e pernas não foram fortes e a tristeza nem se cansou.

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Um corpo boiando é melancólico e a melancolia é um corpo boiando na piscina.

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Não deixo. Também não me cansei.

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Soluço cloro.

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Soluço cloro, mas não deixo.


Dançar slows

 

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Bola-de-espelhos no final da noite. Quadradinhos luminosos incansáveis.

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Os sapatos apegados aos despojos da cerveja dizem ressaca e bebedeira em partes iguais.

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Vago olhar, triste e confuso, fixando os olhos imparáveis. Perdi a miúda por causa daquele copo mais. Não sei se por ter ido ao balcão ou.

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Tenho a boca pastosa e não gosto da música que toca aqui.

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Onde está a miúda? Não bebi esse copo, não foi por isso.

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Ainda há pouco a sala estava cheia, agora só os sempre-em-pé, os dos gargalos de cerveja e dos copos com mais gelo derretido do que uísque.

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Estou ao pé, sou um deles, assim perdi a miúda que nunca ganhei, certamente nem me viu.

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Esta música já era velha quando, há muito tempo, eu era novo. Esta música já era feia quando, há muito tempo, eu tinha borbulhas.

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Quando eu era novo havia sítios onde se dançava agarrado.

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Hoje ninguém dança slows, ainda bem.