digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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domingo, junho 28, 2015

Água

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Se digo, é uma maré de ondas grandes que me transpõe. Se não digo, fico em represa a transbordar. Afogo-me no rebentar irado da partida ou no cansaço de inalcançar uma margem.
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Quando era pequenino tinha colo e festas na cabeça. Agitavam-me devagarinho para que me acalmasse e fechasse os olhos em sonhos de miminhos.
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A vida corria magra entre seixos, fresca, transparente e limpa. Afluentes, os anos e as suas lágrimas encheram o leito, onde à noite me deito e desejo dexistir ou adormecer até chegar o sopro.
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Sinto muito e peço-me desculpa e perdão aos outros. Se uma luz viesse iluminando-me, para que lavasse, levasse em graça e esquecimento.
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Um copo de água fresca amolecendo pela noite do dormir e pela manhã ainda lá estar com pequenas esferas de ar aprisionado e eu longe.

terça-feira, maio 08, 2012

Rio

Como é doce o teu rio, que é teu corpo, estendido a meu lado e calmo como um lago. Teus braços, braços de rio, abraçam-me como se eu fosse uma rocha e os teus cabelos são pássaros pesqueiros alimentando-se na água. Que bom é acordar no sossego da sombra das árvores e franzir os olhos para felicitar a luz. Dou-te um beijo e tu adormecida sussurras qualquer coisa, mais baixo, infimamente mais baixo que um sussurro, com um sorriso, como se tivesse atirado uma pedra à água para a fazer ricochetear antes de mergulhar. Digo: bom dia meu amor e tu sem sobressalto sorris, correndo o sono como a água de brilhantes. Daqui a nada, quando acordares será o começo do teu dia. O meu vai no meio-dia e já o Sol te grita: bom dia meu amor, acordaste finalmente.

sábado, agosto 28, 2010

Vou sair logo à noite

Não me deixo de recordar dos amanheceres de Junho. Não me deixo de recordar dos amanheceres de Janeiro. A luz clarividente e a púrpura. Alguém me dá as manhãs e eu, agradecido, acordo nelas. Mas prefiro deitar-me, depois de esperar o raiar, brindando a vida, mas recebendo depois em troca a sensação de dia perdido, de luz desperdiçada.
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Hoje acordei num momento ambíguo, nem cedo nem tarde. A aquela que já foi miúda acordou-me e desvaneceu-se ao abrir dos olhos. Logo a mim, que tenho uma cama deprimida e solitária.
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A outra rapariga, a que conheci há dias, não me desperta muito, apesar da sua beleza e escultura. Prova de que olhos de negro profundo e sorriso aberto não são sinónimo de fantasia. Não a quero como mulher nem como objecto.
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Neste tempo em que se percebe a despedida do Verão não há já as esperanças do começo do estio. Tudo é já certeza e a juventude dos dias deu lugar à maturidade das horas. Quendera os amanheceres de Junho.
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Ainda não é amanhã que vou à praia. Custa-me ir tão longe para ter prazer ou tão perto para ter cadinhos. O Sol esgota-se desde que nasce e desde que começam os dias. Nasce, morre e renasce antes de voltar a morrer. Lá para Dezembro é fugidiu, em Junho é magnânimo.
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Tenho uma certa inveja da sua vida. Eu que tenho uma plana e deprimida. O Sol quando tem de se queixar desaparece. Eu tenho que aguentar toda a fraqueza à frente do mundo. Ele resplandece e ninguém repara na minha alegria.
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Espero hoje ter a largueza de ver o luar. O Tejo, sempre o Tejo, à vista ou adivinhação. Que a luz da noite prometa tanto quanto as dos amanheceres de Junho e Janeiro. Logo mais saberei.

sexta-feira, julho 30, 2010

Tempo de calor. Calor de tempo.

Nem este calor detém o tempo. As chamas invisíveis do Verão não vão além da pele, mas quendera me consumissem a alma até à existência.
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Os amores antigos já foram verdes e maduros, já caíram no chão, apodreceram e foram hoje seiva nova. Em árvore velha não nascem frutos.
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Queria que o tempo parasse até que fosse tempo de tempo novo. Vida em suspensão, na ânsia de um beijo volátil, com toda a beleza do que é efémero.
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E se só eu parasse, expectante e curioso, suspenso também no ar, a ver a vida em trezentos e sessenta graus, com seus degraus, correrias, arrelias e sorrisos, noites de tudo e dias de nada?
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E se eu parasse, por um instante, inquieto com a não paragem do tempo? Que doces frutos poderia então trincar. Entre o maduro e o verde, vivos de água. Sem culpa, respiraria.

quarta-feira, janeiro 21, 2009