digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura de Meng Huang. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pintura de Meng Huang. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, outubro 16, 2014

Conversa de surdos

.
Disse-lhe:
.
– Sei que tens seios lindos.
.
– Sei que és parvo.
.
– Apostamos… abre a blusa.
.
– Não querias mais nada?
.
– Sim, que parasses de fumar e fizessemos amor.
.
– …
.
– Que me dizes?
.
– Passa-me aí o isqueiro, por favor.
.
– Vais fumar outro, de seguida? Em que pensas?
.
– Nada. Vejo só o fumo. Vês os efeitos que faz e para onde vai, sem que haja vento.
.
– Preferia ver-te os seios.

Fumo

.
Disse-lhe:
.
– Não sei se reparaste que o cheiro da cinza do cigarro é profunda.
.
– Cheira mal. Não gosto. Não gosto do cheiro dos cigarros acesos e ainda menos o dos cinzeiros sujos.
.
– Não percebes a poesia da espera e da morte, do prazer e seu falecimento, do cadáver repousando à espera da terra, da ansiedade a sossegar-se.
.
– Não tens medo de ter um cancro? Não te preocupa prejudicares os outros, os fumadores passivos?
.
– O meu cansaço pede-me para ir e o tabaco não acelera os minutos para que, à velocidade necessária, chegue onde todos chegaremos.
.
– Isso é uma parvoíce! Sem comentários!
.
– Não! É odor profundo.