digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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sábado, outubro 31, 2015

X < ꝏ + 1 = 1 – Há lugar para todos?

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O vinho é prazer – assim se deseja, para que uma dependência não se traduza em doença – mas também negócio. Agora vou atirar-me a uma outra chatice e espero que a equação do título esteja correcta… sei fazer contas, mas escrever equações… os 10º e 11º anos estão muito longe, já resolvo tudo com computadores, calculadoras ou cábulas.
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Continhas, assim em diminutivo. Nada que um simples cidadão, com poucos estudos, não consiga entender: quanto se gasta e quanto sobra. Do resultado saem diversas conclusões, todas alicerçadas em vontades e que, sinceramente, penso serem todas legítimas. Penso pela minha cabeça e o blogue é meu, dito.
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Um dia um vitivinicultor perguntou-me:
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– Sabe como se faz uma pequena fortuna no negócio do vinho?
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– Não.
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– Para começar tem de se ter uma grande fortuna…
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Acaba assim de forma sintética uma verdade que dá para tudo. As empresas são para darem lucro aos seus proprietários (seja qual for a forma de constituição), mas têm de pagar a empregados, fornecedores e Estado.
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Aceitando que todo o dinheiro entregue ao Estado é bem aplicado, o que sai da caixa da conta bancária também contribui para a sociedade. As empresas têm uma responsabilidade social para com as famílias de trabalhadores, fornecedores e funcionários dos fornecedores. Por aí fora. Daí que reforce a importância da gestão com lucro, a menos que se queira fazer a tal pequena fortuna.
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Em qualquer negócio se pode retirar prazer, sou optimista; mesmo que se trate de fazer roscas em parafusos ou dobrar clipes. Porém, o vinho tem uma dimensão de amor e/ou paixão, para que contribuem laços afectivos a um bocado de terra, apreciar agricultar, colher, vinificar e beber. Há história, tradição; cultura em largo espectro. Vou tentar criar uma tipologia.
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O casal Carneiro marimba-se para ganhar dinheiro. É só prazer e a conta bancária é confortável. Vender? Não! O vinho é deles e para os amigos.
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Já o casal Santos ganhou um bom dinheiro nas suas actividades profissionais e comprou uma propriedade para os fins-de-semana e velhice. As coisas sempre vão custando a manter, pelo que pensaram que seria bom ter um negócio que sustentasse as despesas. Olharam para os seus prazeres, porque sempre ajuda, e decidiram plantar uma vinha.
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Aqui há vários tons: havia adega ou foi preciso construir, reparar ou modernizar? O vinho é um nano-negócio e os próprios tratam de tudo, porque «conseguem» e vendem à malta da aldeia? É necessário contratar um enólogo, ou para quem é bacalhau gasta? E equipamento de adega? Volta-se atrás: o que se quer fazer, quanto se quer fazer, como se quer fazer, como se paga, em que prazo, a quanto se vende? Distribuição própria ou contratada? Rótulos e design para todas as faces das exigências? Há adrenalina para se querer crescer?
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Uma variante prévia que não anula o parágrafo anterior, que é a terra ser herança ou arrendada.
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Outra ainda, vender à cooperativa… espera-se (novamente) que seja bem gerida, para que pague bem ou, pelo menos, que pague.
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Por sua vez, o doutor Magalhães fartou-se da vida de executivo de topo e quis um negócio seu, e que pode incluir a tal vontade de lazer. Porém, tem a certeza que é para ganhar dimensão. Terá uma boa adega, enólogo residente, técnico de viticultura, enólogo conceituado, distribuidora cara, empresa de comunicação, investimento em publicidade, design de rótulos, embalagens e de mais necessidades entregue a um ateliê com reputação. Joga-se pelo seguro, e contratam-se os profissionais que estão na berra e fazem-se pagar bem.
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Quanto a família Pacheco herdou um negócio, com dimensão e que conheceu melhores dias. Entra a nova geração e investe, porque os equipamentos precisam de reforma ou estão obsoletos, as marcas degradaram-se… Entram aqui vários aspectos da situação anterior.
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Os Taborda estão, mais ou menos, na mesma situação que os anteriores. Só que ninguém se entende e já há na família quem não se fale. Há que vender a companhia.
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Por seu lado, os Peneda gerem um empório, erguido há uma, duas ou três gerações, mais saudável que os anteriores, pelo que as mudanças serão mais focadas em alguns aspectos inventariados e priorizados.
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O traço comum é o vil metal. Não é preciso ser-se grande para ganhar dinheiro, como não é preciso ser-se pequeno para o conseguir. O mesmo acontece com os prejuízos.
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Referida subliminarmente, lá para trás no texto, a dimensão conta. Vender 1.500 garrafas ou 1.000.000 não é a mesma coisa. O pequeno vitivinicultor até pode fazer uma zurrapa; a quantidade vende-se, mesmo que o consumidor não repita. O empresário com um barco maior vai ter de criar gamas, provavelmente investir em castas que não aprecia, ter um esforço permanente de olhar a concorrência e ter ideias para a diferenciação. Certamente passará a maior parte do tempo fechado em aviões, ou pagar a alguém para ir em seu lugar, para ir fazer negócios, apresentar-se em feiras, realizar demonstrações, participar em embaixadas económicas ou ndebater com distribuidores.
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Parece simples. Contudo, a questão de colocada em carne-e-osso não é fácil. Ninguém é genial para acordar todas as manhãs com uma ideia bombástica, soprada por um espírito amigo durante o sono. Nem todas as manhãs, nem todos os anos.
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Quando as empresas adquirem alguma dimensão, não sendo necessário chegar ao patamar do milhão, ganham visibilidade, pelo que há negócios que lhe vão parar ao colo. A empresa do engenheiro Gonçalves produz 250.000 garrafas numa região, mais ou menos, «desactualizada», com uma gama de três brancos, cinco tintos e um espumante, além dumas sobras em bag-in-box. Sem saber como, um dia – que por acaso estava na propriedade – bate-lhe à porta um negociante chinês. O asiático cumprimenta-o e explica-lhe quem lhe deu o contacto. Como não o conhece de lado nenhum, o português desculpa-se para arranjar um tempo para fazer telefonemas, apurando a reputação do empresário que ali foi dar. Está tudo bem e sentam-se à mesa.
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– Diga então, o que o traz por cá?
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– Em Cantão ouviram falar nesta região. Vários compradores conheceram-na através duma feira e penso que há mercado para se ganhar dinheiro com vinho daqui.
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(salto para depois da prova de várias garrafas)
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– Sim, senhor. Vamos a isso. O que quer e quanto quer?
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– Nesta primeira fase, preciso de 1.000.000 de garrafas. Começamos com um tinto e, após vermos como vão as coisas, podemos vender mais referências.
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Os túbaros do engenheiro Gonçalves bateram um no outro e vedaram, por efeito dominó, o esófago. Os bolsos a cantarem e a cabeça a matraquilhar:
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– (Porra! Não tenho tanto vinho, nem mesmo com as sobras… e duma só referência, além de tudo).
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Neste momento, Minerva, Mercúrio e Baco conjuram. A cabeça do engenheiro Gonçalves acrescenta a tarefa de tentar parecer que está tudo bem, para que o empresário chinês não se assuste ou descubra as suas cartas no poker.
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Há duas hipóteses:
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Hipótese A: Dizer a verdade e recusar a oportunidade.
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Hipótese B: Inventar uma desculpa credível para ganhar tempo, para que possa juntar a quantidade necessária para satisfazer a encomenda.
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Sublinhe-se que o empresário chinês não foi comprar vinho duma marca ou duma referência existente. Foi procurar quem lhe vendesse 1.000.000 de garrafas de bom vinho, daquela região, para que fizesse negócios em Cantão.
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A hipótese «A» termina com honestidade e sem glória:
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– Muito prazer em conhecê-lo, se um dia voltar venha beber um copo comigo e se um dia for a Cantão irei visita-lo.
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– Com todo o gosto. Muito bom dia.
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A hipótese «B» implica tempo. Com uma desculpa credível despede-se até amanhã, ou até quatro ou cinco dias, porque o empresário vai também a outras regiões à cata de oportunidades. Nesse período, o engenheiro Gonçalves, tendo um caderno de encargos específico quanto a preço e requisitos do produto, telefona a vários produtores da zona, para que consigam juntar aquele 1.000.000 de garrafas e abrir portas a mais negócios. Se consegue, óptimo. Se não consegue, azaruncho.
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Este caso foi real.
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A hipótese «B», se cumprindo os requisitos e o preço pretendido, nada tem de desonesto. Mas a hipótese «A» não tem nada de racional.
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Pequeno é lindo! Cemole ise biutifule!
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No final do século XX e início deste assistiram-se a vários processos de concentração empresarial. Em diferentes ramos e de modos vários, desde ofertas públicas de aquisição, troca de participações sociais, fusão ou simples compra.
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Acontece volta e meia e por todo o lado. Não me admiraria que tal viesse a acontecer em Portugal no sector do vinho. Penso ser desejável.
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Ganhar massa-crítica pode ser conseguida de diversos modos e em diferentes profundidades, desde a partilha de espaços de promoção e acções de divulgação conjunta até à constituição de empresas, participadas por várias empresas independentes, ou pelos métodos mais mediáticos e que referi.
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Para ser rigoroso e consequente, dou dois exemplos de associações felizes. Uma que não põe em causa as identidades corporativas e não lhes dá uma gestão conjunta e formal, e outra em que várias firmas são accionistas duma casa-mãe: Douro Boys e Lavradores de Feitoria. Se fugirmos do universo da individualidade, há as cooperativas – e isso é outra coisa.
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Quem faz umas centenas de milhares de garrafas ou uns milhões tem uma pressão constante, que o pequeno não tem. O anão tem umas sobras e inventa umas edições especiais, que por serem raras e bem trabalhadas em termos de comunicação, as garrafas custam trinta vezes o valor merecido. Os grandalhões têm menos flexibilidade.
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Escrevo este texto porque me pergunto insistentemente como não foram já dados passos no sentido das fusões e aquisições, ou parcerias aprofundadas, entre empresas complementares ou que acrescentem oferta idêntica.
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Pode ser o pouco racional individualismo português? Pode. Mas quem tem embarcações grandes tem tudo diferente face às pequenas sociedades. Além de complementaridade há acrescentos: a empresa da quinta duriense do doutor Fagundes junta-se à lisboeta do engenheiro Sousa e à alentejana do doutor Felisberto. Juntos somam 2.200.000 garrafas… e podem crescer.
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E se… duas, três, quatro ou cinco sociedades duma mesma região –fazem vinhos com os mesmos conceitos, têm abordagens idênticas aos mercados, quiçá com propriedades contíguas – cada qual com mais de 1.5000.000 de garrafas se juntassem?
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A união entre pequeninos, pequenos ou médio-pequenos eventualmente pode ser mais ligeira e talvez não traga grandes benefícios. Quando se passa para as centenas de milhares ou milhões de garrafas já os benefícios me parecem óbvios.
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A dimensão pode, inclusivamente, levar ao alargamento do âmbito de actuação, com aquisição de firmas, até mesmo noutros países. A Sogrape, a maior empresa do sector, é uma multinacional (familiar) e não é por isso que deixa de ser portuguesa, de apostar nos vinhos feitos por cá ou deixa de produzir vinhos de grande prestígio.
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Infelizmente para o país, a Sogrape é (verbo ser) sozinha! Quando sete das maiores empresas do sector se juntaram, na associação que ficou conhecida por G7, percebeu-se rapidamente que a multinacional não tinha muito para debater com as outras sociedades: Aveleda, Caves Aliança, Caves Messias, Finagra, José Maria da Fonseca e JP Vinhos.
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Se não erro (reporto o número que me disseram), a facturação da Sogrape é superior à soma das outras seis empresas. Isto traduz o que é o negócio do vinho em Portugal. Poderão os empresários do sector acusar-me:
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– Vem para aqui este doutor da mula ruça botar sentenças sobre negócios, quando não tem um cêntimo investido nem experiência de gestão… nem duma pequena empresa.
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Tenho de me calar. Porém, o pressuposto é verdade: as empresas são para dar lucro e a dimensão conta. De qualquer modo, reconheço que ser-se grande não significa ausência de riscos e de responsabilidades.
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Não há fórmulas mágicas – que saiba, pois se soubesse estaria a aterrar numa pista reservada, no meu jacto particular...
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Para me bronzear numa praia restrita, enquanto suspirava inquieto e puerilmente acerca a importância da estética nas sociedades contemporâneas ocidentais, tendo em conta as obras de Jeff Koons, Gilbert & George, Francis Bacon e Bansky.
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Se uma empresa for só mais uma empresa, é porque é uma empresa a mais. X < ꝏ + 1 = 1
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Jeff Koons.
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Gilbert & George.
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Francis Bacon.
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Bansky.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Acerca da santidade - a propósito da canonização de D. Nuno Álvares Pereira





















Hoje proponho um exercício acerca da santidade. Peço desde já aos ateus e agnósticos que façam um esforço para ler estas linhas com olhos de crente, não lhes peço que o sejam. Só peço alguma agilidade de raciocínio. Porém, não é nada difícil, pois nem eu sou filósofo nem a questão me parece substancialmente complexa. O exercício poderá ser mais complexo para que acredita em Deus; há várias religiões e muitos credos. As questões podem ser mais ingratas para os católicos apostólicos romanos.
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Isto vem a propósito da canonização ou hipótese de canonização de D. Nuno Álvares Pereira. Sei que a Igreja Católica Apostólica Romana vai fazer uma votação, mas não sei se o resultado não está já tomado. Coisa que, aliás, não seria inédita e que não difere das práticas dos partidos comunistas deste mundo ou, de forma mais dissimulada, como os referendos contínuos de Hugo Chàvez até que dêem o resultado pretendido pelo ditador ou como os referendos acerca da liberalização da morte através do aborto, que também foi votada até dar o resultado que se queria e nunca mais a questão voltará a ser posta, porque esta é a que «interessa». Portanto, em matéria de democracia não devemos aprender muito com a Igreja Católica, mas também não é esta estrutura eclesiástica a única prevaricadora.
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A agência noticiosa Ecclesia informou ontem, 16 de Fevereiro de 2009, que o condestável de D. João I iria subir do patamar de beato para o terraço de santo. Neste sábado que vem (e há-de ir) realiza-se um consistório público para a votação de dez causas de canonização. O senhor Papa vai lá estar. A agência adianta ainda que esta reunião é um acto formal, em que Bento XVI pede a opinião a um conjunto de cardeais (que são aqueles que têm umas roupas lindas de negro e escarlate), que, por acaso, até já responderam se concordam com a canonização.
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Portanto, a santidade não se faz dum conjunto de virtudes morais e espirituais, mas por concordância duma maioria. Não fossem os cardeais, príncipes da Igreja, nomeados, e de forma vitalícia, poderia dizer-se que a canonização reflectia um espírito democrático. Por outro lado, se a decisão já é sabida, para que raio fazem uma reunião? Para mais, pública… não bastaria um comunicado?! O que estão os simples mortais paisanos lá a fazer?!
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Porém, o que me choca não é se o consistório é público ou privado. O que me encanita é a santidade ser fruto da opinião dum punhado de cardeais. Senhores! Acredito que Deus é justo e bom. Que ama todos os seus filhos por igual. Que tem consigo, trabalhando na sua vinha pelo aprimoramento moral e espiritual dos homens, filhos mais evoluídos, que podemos chamar de anjos, santos, etc.
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Se Deus é inteligência suprema e causa primária de todas as coisas, será que precisa que um Papa e uma mancheia de cardeais decida, decrete e torne pública a santidade de alguém?! Pode alguém, honestamente, dizer que sim, que precisa?!
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Será que os católicos apostólicos romanos não pensam nisto ou pensam e baixam as orelhas, porque não têm a coragem de dizer que o Rei vai nu?! É que uma coisa é fazermos parte o rebanho do Senhor, outra é sermos ovelhas por direito… é que os ovinos não se questionam e não devem quase nada à inteligência.
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Esta coisa da popularidade não me parece ser um atributo válido para canonização. Quando João Paulo II desencarnou, gritou-se na praça de São Pedro: Santo subito! Ou seja, já. O homem era muito querido pelos fiéis, pelo que merecia subir de elevador até à santidade, distância que outros tiveram de subir, padecendo, pelas escadas … que devem ser muitas.
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Constou-me que o nosso Santo António de Lisboa foi o quem mais depressa percorreu a estrada para a santidade. Já o nosso D. Nuno Álvares Pereira parece ser um aluno repetente, que vai chumbando todos os anos e que, só agora, vai prestar provas no exame. Ora, depois de séculos a tentar entrar no clube restrito dos santos católicos, o Santo Condestável conseguiu tornar-se beato em 1918. Contudo, os seus apoiantes meteram os papéis (literalmente) para santo em 1940. No entanto, a comissão nacional para a candidatura de Nuno não teve os conhecimentos certos, as cunhas, e / ou não soube mexer os cordelinhos certos, e aquele bom português só agora tem reconhecimento. Quer isto dizer: até 1918, Nuno era um borra-botas, bonzito e tal, mas sem relevância. Mas nesse ano, talvez por causa da participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial (não nos esqueçamos que Nuno era condestável e génio militar), passou a ser «alguém» notavelmente bondoso. Agora é, definitivamente, bom… santo. Quem o disse? Deus? Não! Os homens!
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Sei lá se D. Nuno é santo. Não sei. Não tenho autoridade moral e espiritual para o afirmar. Sou apenas um simples crente em Deus e essa matéria não é da minha competência. Mas não tenho eu e não terão todos, ou a maioria, dos eclesiásticos que o decretaram, ou vão proclamar.
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A questão da popularidade também se põe ao contrário. Recentemente, há uns anos, a Igreja Católica Apostólica Romana tirou alguns santos dos altares. Porquê? Porque sentiu dúvidas acerca da sua existência e dos milagres que os tinham promovido. Se os homens os erguem, os homens os derrubam.
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O raciocínio está todo errado. É que milagres não existem! Tudo tem uma explicação lógica e racional. A ciência, a filosofia e o conhecimento, em geral, não conseguem negar a existência de Deus, mas desmontam o que os homens põem na sua boca. E isso a Igreja Católica Apostólica Romana (e outras) não percebeu, não compreendeu com base nas experiências do passado, pelo que confunde os conceitos.
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Se a Igreja Católica Apostólica Romana se assumisse, de facto, como feita por homens, com as suas limitações, e compreendesse que não há milagres, não passaria por vergonhas como as que passou. Hoje, envergonhados com as posições totalitárias e obscurantistas de seus predecessores, os prelados querem tornar plausível o que antes era maravilhoso. Deviam celebrar a bondade, a caridade, a humildade e outros nobres atributos. Não os milagres atarrachados aos homens.
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Isto já para não falar no politeísmo católico. A cada santo o seu pelouro, a quem se reza conforme a especialidade. Até a organização da Igreja Católica Apostólica Romana deriva da utilizada no Império Romano. Nem mais! Além do suborno e tráfico de influências que, supostamente, envolvem os santos… é a velinha e a esmolinha na caixa para que se faça o milagre, é a promessa para que algo seja concedido. Contra isto, esta crendice, nunca ouvi uma palavra ao clero católico.
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Nesta coisa das despromoções de santos criam-se situações incómodas. O que fazer a São Patrício, padroeiro da Irlanda? Se não o fosse poderia ter sido retirado do panteão, tal como Estaline fez com as fotografias dos seus bons camaradas, que foram deixando de o ser. É que entre os milagres de São Patrício está a expulsão das cobras da ilha.
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Um outro exemplo de como os católicos não se interrogam ou não sabem dalgumas maroscas da sua Santa Madre Igreja: Quem foi Santa Isabel? Bem, rainha de Portugal… ou dir-se-ia da Hungria? É que há as duas, aparentadas por sinal, e realizaram os mesmos milagres, incluindo o, tão nosso, das rosas.
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Voltando atrás. Se pensam que o processo de erguer um espírito à categoria de santo terminou, enganam-se. É que o Papa ainda há-de dizer quando é que, exactamente, o homem se torna santo. Não basta os senhores cardeais votarem e revelarem o seu voto colectivo, é necessária uma cerimónia que levantará, por fim, o homem à categoria superior. Deve concluir-se que quem faz os santos não é Deus, mas os homens, reconhecidos pelas suas virtudes… numa determinada conjuntura histórica. Hoje, São Jorge já não mataria o dragão. Pormenores.
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A coisa tem ainda outros contornos. Diz a Igreja Católica Apostólica Romana (tal como os restantes cristãos, judeus e muçulmanos) que Deus é único. Ou seja, de todos. Ainda que não queiram ou saibam, é-o também dos xintuístas, animistas, hinduístas, sikhs, budistas, etc. Então, por que não há santos doutras religiões reconhecidos pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana? Por outro lado, por que a generalidade dos santos é posterior à instalação do rito católico?
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Porque Deus é justo e bom, e universal, é que há homens bons em todas as religiões, em todas as latitudes e longitudes, em todas as épocas. Entre os agnósticos e os ateus. Tenho a certeza que Deus prefere um bom filho ateu do que um facínora rato-de-sacristia.
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No entanto, as diligências dos eclesiásticos católicos não se fica por aqui. Enquanto em Portugal se pondera a divisão do território, através da regionalização, nos vastos territórios da espiritualidade o movimento é inverso, de concentração. Primeiro havia o Céu e o Inferno. Depois, a Igreja Católica criou o Purgatório e, mais tarde, o Limbo. Há poucos anos, o Papa extinguiu o Limbo. Porque tem mais lógica, provavelmente, como antes tivera o inverso. E lá devem andar as alminhas aos tombos dum lado para o outro, numa azáfama à procura do novo lugar a que agora pertencem. Não é Deus quem organiza e reorganiza os mundos espirituais, mas o clero católico.
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Dir-se-á que as decisões do Papa são inspiradas pelo divino… enfim! Quero só recordar que os Papas são escolhidos por cardeais, inspirados pelo divino Espírito Santo - dizem. A avaliar pelas obras e perfis de alguns pontífices, os prelados não distinguiram o corvo agoirento duma alva pomba.
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É por estas e por outras que não compreendo como gente boa e inteligente ainda alinha com a Igreja Católica Apostólica Romana, com o seu clero. Não pensam, nunca pensaram, não querem pensar ou… não conseguem.

sexta-feira, setembro 21, 2007

quarta-feira, janeiro 31, 2007

A iminência do rio

O rio está aqui. A água passa sem que se saiba como a apanhar. O suplício da sede.
Um rio de dúvidas. Uma noite de medos e a sombra arrastada até ao céu. Uma sede maior do que o rio.
Numa margem, a ignorância de si. A dúvida e a inconsciência da vida.
Noutra banda, a dúvida e a inconsciência da vida. Meia viagem até à outra margem. O disparo.
A decisão. O disparo. O drama. O alívio. A inconsciência da vida.
Meia viagem até esta margem. O trajecto forçado de volta. As dores: da prepotência e da impotência. Sempre o drama.
O rio está aqui. O rio está sempre aqui. As viagens sempre por fazer. As viagens têm de se fazer. Somos de viajar. Somos de ir e de voltar. Cada meia viagem é uma viagem adiada. Cada meia viagem são lágrimas. Somos de ir e voltar e o rio está sempre aqui.

Nota: Este quadro intitula-se «Man-dog» e não retrata o drama do aborto. Contudo, a sua poética ilustra com imagens as palavras que quis escrever sobre a interrupção voluntária da gravidez.

sexta-feira, outubro 27, 2006

O carniceiro e a minha carne num talho

Não sei se os cadáveres me incomodam. Possivelmente perturbam-me mais as carcaças dos animais penduradas num talho. Quando um dia morrer, se isso acontecer um dia, quero ver-me jazendo.
Não sei se gosto de estar vivo ou se a vida vai por mim e estou habituado a estar e respiro, porque os meus órgãos assim mo orbrigam. Contudo, tenho um corpo e ele vibra com os prazeres dos corpos. Gosta de comida, de sexo e do toque.
O meu corpo aprecia tanto o toque que, se pudesse, até poderia doá-lo à ciência ainda em vida, para que fosse dissecado, mexido e analisado, mesmo que retalhado.
Sei que muito provavelmente sou mortal e um dia farei um trato com um notário, um padre exorcista e um carniceiro. Ao primeiro entregarei o meu testamento e aos outros tarefas: Porque ando cansado da vida e tenho incerteza da morte, tentarei ir. Pedirei ao talhante que me retanche e conserve. Saberá o prior, nos seus exorcismos, quando do meu regresso, porque não acredito na morte e teimo na vida. Quando estiverem certos da minha volta, sentem-me a uma mesa e sirvam-me a minha carne da vida anterior. Sei que não demorarei em voltar e, no frio, tudo se conserva por muito tempo. Que sabor terei? Não me comerei todo, e todo eu estarei à venda para gáudio dos curiosos e lucro do carniceiro, padre e notário. É um trato que um dia hei-de fazer.