digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

A iminência do rio

O rio está aqui. A água passa sem que se saiba como a apanhar. O suplício da sede.
Um rio de dúvidas. Uma noite de medos e a sombra arrastada até ao céu. Uma sede maior do que o rio.
Numa margem, a ignorância de si. A dúvida e a inconsciência da vida.
Noutra banda, a dúvida e a inconsciência da vida. Meia viagem até à outra margem. O disparo.
A decisão. O disparo. O drama. O alívio. A inconsciência da vida.
Meia viagem até esta margem. O trajecto forçado de volta. As dores: da prepotência e da impotência. Sempre o drama.
O rio está aqui. O rio está sempre aqui. As viagens sempre por fazer. As viagens têm de se fazer. Somos de viajar. Somos de ir e de voltar. Cada meia viagem é uma viagem adiada. Cada meia viagem são lágrimas. Somos de ir e voltar e o rio está sempre aqui.

Nota: Este quadro intitula-se «Man-dog» e não retrata o drama do aborto. Contudo, a sua poética ilustra com imagens as palavras que quis escrever sobre a interrupção voluntária da gravidez.

O sítio das maravilhas

Não há tristeza que me chegue pelo arrastar do arco nas cordas do violoncelo. Chega-me uma luz amarela fraquinha e uma visão do alto, do sítio das maravilhas. Chega-me o sorriso da minha avó, que não me lembro. Chega-me o sorriso do meu pai, que é igual ao dela. Chega-me a memória contaminada por proximidade ou simpatia do Vinho de Carcavelos. Chegam-me muitos tique-taques e muitos tique-taques parados.
No lugar dos livros e do pó havia quadros e uma ou duas armaduras, havia lustres, havia um casarão encaixotado ou abandonado e esquecido. Pelo arrastar do arco nas cordas do violoncelo vem uma memória cinzenta e um tempo parado.
O som do violoncelo da minha memória é mudo, porque no lugar das maravilhas o instrumento jazia fechado no seu sarcófago. O arrastar do arco nas cordas traz-me o sorriso da minha avó e o ar grave do meu avô. Lá dentro: A vista de cima para baixo pela janela de vidrinhos e a luz amarela fraquinha. Lá fora: a luz forte do Sol e a visão de baixo para cima. O telefone antigo e negro, como se fosse feito de carvão. O burburinho de tique-taques e pêndulos, o silêncio doutros relógios.
O sítio das maravilhas: A memória do sorriso da minha avó que não conhecia, a luz amarela fraquinha e o violoncelo em seu sarcófago.

Nota: Para que não se pense, a minha avó não é a senhora representada no retrato. A senhora retratada é a violoncelista portuense Guilhermina Stuggia e o quadro encontra-se na Tate Gallery, de Londres.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Desabafo

Odeio o novo Blogger! Não me deixa pôr vídeos e pior do que isso... APAGOU-ME textos!

Incompreensível luz

Não vou explicar o incompreensível nem esta luz frágil que não via tão cedo nas horas.
Não sei se as memórias são para perdurar ou para se apagarem.
Não vou dizer que te amo, porque não entendes. A vida é pesada. A vida foi pesada para o nosso amor.
Não me entendes que te ame e eu também não te sigo o raciocínio quando me explicas o caminho por onde queres seguir.
A vida foi pesada para o nosso amor. Eu, não sei se sobreviva.

Pentágono de amor

Sonhei que te amava novamente. Não te amava só a ti. Amava sem segredo todas as outras que já amei e todas me retribuiam o afecto sem ciúme.
Se uma me dava o doce da pastelaria, outra servia-me vinho fino. A mais nova arfava-me ao ouvido e a mais velha trazia o odor dos citrinos. A que sobra abraçava-me de olhos abertos.
Sonhei que te amava novamente, sem segredo. Não só a ti, mas a todas as que amei.

Amores aos molhos

Faço molhos de pequeninos amores. Os meus beijos são breves saudades e os gestos ténues carícias.
Não vivo só, em minha casa há sempre flores. Cada uma tem um nome, uma evocação.
Os dias são povoados por mil mulheres. Todas breves. Todas lindas. A cada uma, uma flor.
Os dias são de silêncio. Na minha cabeça, as vozes de todas as que amei. Até das que me desamaram e das que destratei. No escuro dos quartos e da minha alma não há memória das traições.
Os dias são de silêncio. Não há dias dias absolutamente felizes nem assumidamente tristes. Só nostalgia.
Os meus amores foram todos frágeis. Os meus amores foram todos pequeninos. E nem por isso foram belos. Faço molhos de pequeninos amores para que juntos pareçam que tive um grande amor.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Hálito fresco: sexo e coentros

A exaustão do fim do sexo e o odor dos coentros bastam-me para me lembrar que vivo num corpo de carne e não faço a fotossíntese.
Depois de teres estado intimamente em mim dás-me um beijo fresco. Escuto o fervilhar do cozinhado enquanto preguiço como todos os machos. Recebo feliz o beijo fresco e o hálito lavado pela menta. Quase que me excito tão repentinamente por ainda trazeres o peito ao léu e esse sorriso magnífico.
Pergunto se queres ajuda. Para quê, perguntas-me. Para quê, pergunto-te. Recebo-te feliz, quase erecto pelo teu peito pequenino estar a saltitar nu à minha frente. A tua pele está luzidia pelo sexo acabado de fazer. Os nossos olhos não o estão menos e os estômagos anseiam pela comida que dá sinal de vida na cozinha. Não há limite de tempo. É uma hora comprida, com princípio e sem fim.
O sexo pretérito é anúncio de que a intimidade e o afecto serão presente e que a hora será só uma, em muitas luzes. Voltas para a cozinha e fico saciado e feliz como todos os machos. Virá a comida antes de novas alegrias corporais.
Quem vê a nossa casa de fora só pressente: estores corridos e o vapor e o fumo a sairem da chaminé... talvez algum odor a sexo e a coentros.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Folhas de papel, folhas de tabaco












































Um amor grande pode não ser absoluto. Romeu amou Julieta como esta o amou a ele, até ao êxtase e à imensidão. O limite foi o fim. Pode morrer-se de amor como de cancro do pulmão. Não consta que nenhum deles tenha fumado charutos.
Sancho Panza amava Don Quixote? Era seu escudeiro, carregava-lhe a vida, aturava-lhe a loucura, sonhava-lhe a fortuna e uma vida melhor. Nunca lhe deu a fumar um charuto.
Amor, desamor, intriga, traição e vingança... houve de tudo na vida de Edmond Dantes, conde de Montecristo. Nas linhas que narram todo o seu sofrimento não consta o do fumador nem o desejo de alguém por um charuto.
Que graça têm as folhas de tabaco enroladas? Tanta quanto um soco bem assente. Será essa a relação entre um murro e um charuto?
Há coisas quase imortais na vida, esquisitas, que gostam de se arrimar. Por interesse? Por genialidade? Tanto faz!

Aguarela perdida

No lago Lucerna perdi-me de amores enquanto mergulhavas com flores a enfeitarem-te o penteado. Saías da água desalinhada e precisada de novos adornos e elogios. Eu aquecia-te a pele fria com uma toalha de algodão macia e ternos beijos. Não havia fraternidade naqueles momentos, mas uma intimidade que culminava sempre connosco enlouquecidos e suados com os desejos, invisíveis a todos os olhos.
No lago Lucerna fizemos amor nos botes, invisíveis a todos os olhos e todo o frio. As flores das margens enfeitaram-te o cabelo ondulados a imitar os corpos, o teu e o do espelho de água. O nosso amor durou uma temporada: cada um foi ao seu destino, esquecido de escrever postais de recordação do amor passageiro.

Nota: A Galeria Tate, de Londres, lançou um movimento para comprar a aquarela The Blue Rigi, de William Turner, e evitar que saia do Reino Unido. É interessante constatar dois aspectos: o apego que os britânicos e as suas instituições têm ao seu património cultural; e a diferente postura que têm face ao património cultural de outros povos, que mantém em seu poder, saqueado no tempo do poder colonial e hoje solicitado pelos Estados ao abrigo do seu direito ao passado, à história e à cultura.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Pianista

Ouvi a respiração do pianista. Julgo que era um pianista, mas como tenho mau ouvido deveria ser uma mulher. Ninguém respira assim! É inconfundível aquele modo de inalar... e de expirar... só um homem respira assim. E como me enganam os meus ouvidos.
Não sei que concerto era. Sei do piano e da respiração do pianista. E da respiração do piano. Música com carne. Não sei se é bom a música ter esta carnação toda. Não gostei do concerto por causa daquele respirar. Tocou-me fundo a humanidade. Não gostei.
Depois, às vezes, surgiam umas cordas... de um violoncelo ou dum contrabaixo. Não sei, o meu ouvido é mau, já o disse. Surgiam umas cordas arrastadas, como um sussurro. Repare-se como a palavra sussurro é uma onomatopeia... Porém, este sussurro não era. Este era um arfar. Doía ouvir aquelas cordas, como magoa escutar alguém com asma.
Hoje ouvi vozes. O que importa o concerto?! O que interessa quem compôs o quê?! Aquilo foi interpretação em grande nível, mesmo que eu não tenha gostado... ainda que eu desconheça quem tocou e respirou.

Nota: Foi entre as 19h10m e as 19h30m de hoje na Antena 2, estava eu no trânsito de Lisboa.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

A espera

Ainda é tarde, quase quando a noite dá a curva. Espero. Espero só por esperar. Tenho o hábito de esperar. Hoje espero por ti ou que telefones.
Um copo de whisky com gelo aquece-me nas mãos. Se soubesse esperar teria escolhido Cognac, para não ter pressa ou ansiedade. O pendulo do relógio bate-me cada vez com mais força na cabeça. O frio entra-me pelo corpo dentro, tal como o escuro que me cerca.
A visão desfoca-se por enamorada pelo whisky. Algum calor permanece, tal como o escuro que me cerca. O telefone não toca nem surge a tua silhueta atrás da bandeira da porta em vidro martelado. Se soubesse esperar estaria com um balão de Cognac na mão em vez deste balde baixo com três pedras de gelo a aquecer-se na minha palma. O pendulo do relógio distancia-se às vezes, mas regressa para me agredir a ansiedade.
Se soubesse esperar não teria à frente uma garrafa de scotch que esvaziarei até às primeiras horas da manhã. Vou adormecer à tua espera ou do teu telefonema. Quando aconteceres estarei a dormir ou ébrio ou duas coisas. Maldita ansiedade... e tu que não vens.

Igual













Sou igual a ti. Onde viras à esquerda, olho para cima, mas nada nos diferencia. Gostas do salgado e eu do doce. Somos iguais! Viemos ao mundo do mesmo modo: Um ventre inchado, muitas dores, um rebentar de águas, sangue e gritos... choro e alegria, aflição. Ainda que a cor da pele e dos olhos possam ser diferentes, somos gémeos. Somos filhos do mesmo calor e suor, da mesma correria do macho até ao óvulo. E antes disso, Deus criou-nos iguais. Somos gémeos!

sábado, janeiro 20, 2007

Segredo

As coisinhas minhas são tão minhas quanto públicas. Que diferença faz se são minhas ou se partilhadas ou expostas?
A minha carne é igual a toda a outra carne e os meus segredos são só meus, mas são feitos do mesmo material de todos os segredos. Apenas mostro o íntimo mostrável e o que não revelo não é mais belo nem mais feio nem diferente daquele que vê a luz do dia ou do de toda a gente.
Esta paisagem diz-me muito. Tem uma lembrança e uma memória. Ainda que contasse o segredo por detrás das árvores ninguém a entenderia, porque só os meus olhos, pulmões, fígado, cabeça, pernas e pénis e tudo o resto que é meu sabem e fazem parte do mesmo conhecimento.
Não há verdadeiramente segredos. Mas há segredos verdadeiros. Os meus estão comigo como os vossos estão convosco. Não é por se exporem que se dissipam na luz. Não é por se calarem que estão escondidos, em absoluto e definitivo.
Fiz amor nesta seara e beijei encostado junto a estas árvores. Pronto, contei. Já não é segredo? Importa dizer o nome dela? Não, não importa. Porque ficará sempre por explicar o sentimento. Não há palavras para os desenharem, nem memória eterna. Contudo, o que teriam de diferente dos gestos feitos noutros quartos com outras amantes? Que diferenças houve dessas tardes face às noites de amor doutros casais?
Posso contar toda a minha vida aqui, nunca se verá a minha intimidade. Todos os meus segredos estão desnudados e invisíveis, mas são palpáveis e banais...

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Intervalo

O espaço vazio pede para interromper o silêncio, o escuro e o tempo. Há um mar de palavras a lançar às ausências, questões que terão o eco como resposta. A escuridão desfia um novelo de lágrimas, vertigem sem prazo para secar.
Faltam rostos e sobram fantasmas. Lá fora tudo pode ser. Cá dentro acontece o que está dentro do dentro. Cá dentro espelha-se qualquer coisa parecida com uma alma.
Se não sair acaba-se por ficar encarcerado, como Narciso preso à sua imagem. Há uma teia de pensamentos e um vácuo de realidade. Um mar de questões e uma multidão de fantasmas.

A cadeira da cidade

O vento não me leva as pernas, pelo que continuo cansado de tanto andar. Poderia sentar-me numa pedra ou num parapeito, mas só as cadeiras me satisfazem.
A natureza não é para mim. Não gosto de bicharocos nem de ervas altas ou rasteiras. Não gosto de água ou vento ou céu. Só as vistas da cidade me completam.
Não gosto da chuva nem do vento, porque me despenteiam e desarrumam as esplanadas onde me sento. O vento não me leva as pernas e continuo cansado. Não me sento numa pedra nem num parapeito, nenhum deles tem vista para a cidade.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Lobotomia

Os meus dias de glória terminaram. Agora restam-me tempos vagos e ócios sem importância. Não é a cabeça que me dói, é o cérebro.
À noite sonho com o lago Baikal e com as neves eternas dos Kilimanjaro. Desço o Orinoco e penduro-me nas maravilhas edificadas da Europa. À noite sonho, porque os meus dias de glória terminaram. Dói-me o cérebro.
A vida custa-me e desejo uma nova ou então uma lobotomia. Parece que já não se fazem lobotomias. É lamentável! Há tanta coisa inútil que se faz e muitas mais hediondas que persistem!... Preciso só duma lobotomia ou qualquer coisa que me arranque esta dor ou esta vida.
A parte boa da vida é o sonho: o largo Baikal, as neves eternas, a corrente do Orinoco, o telhado da Catedral de Santo Estêvão, os geisers da Islândia, as árvores gigantes da América, os grandes felinos, as empadas, os vinhos e muitas outras coisas e fantasias.
A mim bastava-me uma lobotomia. Uma pluma, uma brisa...

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Género friorento

Os gatos são pessoas com frio.

Nota: peço desculpa por a fotografia ser pirosa, mas era a única que ilustrava esta verdade insofismável.

Sonho feliz de luar

O sonho feliz não é diferente da noite do nosso casamento ou daquela do baile em que nos conhecemos.
O aroma salgado da tua pele, profunda e misteriosa, cujos segredos e reentrâncias conheço, lembra-me o daquele mar nas noites de Verão, quando dançávamos amorosos e sem limites. Tu és tudo e o todo.
Confundes-te com o Verão e a memória feliz dos dias. Ainda que hoje as feições estejam diferentes, és a mesma menina feliz e sensual que me inquieta o corpo e assalta a respiração.
O sonho feliz tem-te sempre dançante, encostada a mim ou fintando-me, seduzindo-me. Tem-te com esse odor de mar e é sempre noite, é sempre a nossa noite de núpcias e há sempre a promessa de felicidade eterna. A vida não mente: fomos feitos um para o outro e nunca nos desiludimos. Nem mesmo em sonhos.

Cartas de amor

Não tenho a quem escrever cartas de amor, por isso escrevo-as sem destinatário. Não encontro o meu amor no negrume da minha vida.
Tenho olhos que vêem além desta escuridão como se fossem os dum gato e não vislumbram outros amores que não os passados. Tenho cartas vazias prontas a enviar, mas faltam-me destinatárias.
O meu coração está, felizmente, em Edimburgo, imune a desaires e paixões. A minha alma vive em Colónia numa insónia indiferente. Só o meu corpo pode sofrer as amarguras da paixão. Os meus olhos não vêem e nada em mim sente. Tenho cartas vazias e continuo a escrever palavras de amor a mulheres incertas.
Vivo na escuridão e não diferencio os meus dedos do resto do meu corpo, apesar dos meus olhos de gato verem mais do que os de uma pessoa. Não se vê nada no sítio onde estou. Aqui há só negrume e amor nenhum pode medrar aqui. Ainda bem, porque não tenho comigo nem alma nem coração, só tristeza e solidão. Sou mais negro do que o breu que me rodeia.

domingo, janeiro 14, 2007

Sonâmbulo

Qual é a minha responsabilidade no meu sonambulismo?
Sei sempre os passos que dou vivo. Sei sempre os passos que dou morto. Não sei os passos que dou a dormir.
O meu corpo ganha vida. Tem vontade além da minha vontade e crença. O que posso fazer?
Tremem-me as mãos quando falo disto e envergonho-me do que não me lembro. Será que sou eu no tempo em que não me lembro? Não sei os passos que dou a dormir.

sábado, janeiro 13, 2007

Depois da caça

Chego a casa ébrio. Todos os dias, depois da noite. Depois da noite de caça.
Chego a casa ébrio. Hoje é de vinho, poderia ter sido sangue. Chego a casa depois da caça.
Saio do corpo e vejo-me chegar a casa. Sempre ébrio. Sempre no limite da violência. Depois da caça. Saio do corpo ao deitar-me.
Saio do corpo e vejo-me como fui e sei como me desejei. Todos os dias chego ébrio e saio do corpo. Vejo-me depois da caça, ensanguentado de vinho ou de sangue. Todos os dias, depois da noite.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Vanitas

Ainda vivo, pelo menos julgo-me respirar. Talvez respire. Espero a festa e os convidados. Não sei quando virão. Na verdade nunca se sabe se virão. Ainda vivo. Na verdade, vivo sempre. Quando penso na eternidade duvido da vida. Quando penso na vida tenho a certeza da eternidade. Não tenho certezas, é a minha certeza. Tenho a certeza da vida. Tenho a certeza da vida eterna. Quem me dera ter a certeza da memória eterna, que o meu nome se perpetuasse luminoso para todos e no futuro.
Na verdade, ainda vivo. E espero. Espero pelo baile e pelos convidados. Pelo menos, julgo-me respirar. Tenho a certeza da vida. A minha única certeza, a eternidade.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Pratos de pequeno porte

A partir de hoje já ninguém pode disser que não sei fazer omeletas. Bati ovos, joguei sal, morcela picada e queijo mozarela.
Enrolei tudo numa frigideira quente com pouco azeite, que depressa passou a emitir os aromas transformados.
Tenho prazer com os tachos, mesmo com pratos de pequeno porte. Ainda não sei fazer sopa... fiz só uma e correu bem.
Não sei onde a minha mãe guarda o encanto para fazer sopas tão comestíveis... tão deliciosamente comestíveis. O curioso é que a minha mãe não é dotada de mão de cozinheira... mas faz contentamentos de pequeno porte. A comida da minha mãe deve ter a ternura de todas as comidas de mãe, por isso é tão boa.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Intranquilidade

Os dias da minha intranquilidade são feitos de certezas. Não tenho abrigo para a inquietação.
Só a noite traz uma certa calma, porque o sono deixa-me ir até à morte. Volto pela manhã ao corpo repousado na cama. Adormeço ansioso, desejoso que cada sono seja o último duma vida. Desiludo-me nos despertares e vejo toda a dor em mim. Sou cego de esperança. Não vejo além da parede, limite do desassossego.
Não tenho piedade de mim, tenho pena. Choro-me pela loucura, pela certeza das dores e cegueira de esperança.

Azul tardio

Sinto uma pressão imprópria de azul tardio que me consome o nervo. Tenho um afogamento à vista, um sufoco antecipado, por esta tarde ser tão bela e eu estar ainda distante do horizonte.
Os minutos vão curtos, levados pelo vento de gotícolas salgadas. Os minutos vão dolorosamente curtos, avivando as cores da vida, dizendo-me que vou baixar-me à terra antes do fim da noite.
Ainda ontem fui ao Bugio a pé e já é hoje pelo fim da tarde. O céu limpo é agora uma maravilha autoritária. Todos estes anos voaram leves com o vento e uns tantos mais irão escoar-se céleres. É uma agonia de vida, a vida.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Fotocopiável

Não tenho a culpa de ser parecido, apenas imito o gesto no mesmo local.

























Nota: Pintura de Grant Wood, ilustração de Kris Lo Kascio e instalação de Larry Moss. Este quadro, intitulado «American Gothic», conta com inúmeras reinvenções, desde a substituição das duas figuras (a filha e o pai de Grant Wood) por negros, índios e até animais.



segunda-feira, janeiro 08, 2007

Deuses

E se Febo se disfarçasse de Mercúrio para iludir as mulheres? Não seria por isso menos belo.
Que bens iria mercar? Seria eloquente? Que notícias traria?
E se Mercúrio fosse, assim, tão belo? Quão mais belo seria Febo?

domingo, janeiro 07, 2007

Declaração

A partir deste momento deixo de ser responsável pelos meus actos!

Nota: Quem quiser que tome conta de mim.

sábado, janeiro 06, 2007

Potência

O poder do amor é tamanho que estou exausto. Cansado de ti e de mim.
Estou cansado de amar. Não, não é da rotina do café da manhã ou dos acordares ou das despedidas diárias ou dos reencontros tardios ou dos jantares em silêncio ou das conversas banais ou das confidências ou dos segredos ou das festas ou das cedências ou das partilhas. Estou cansado de amar.
Não deixei de te amar. Amo-te cada vez mais. Sei que tu por mim darias o fígado e os dois rins. O que se passa então? Nada que envergonhe e ofenda... apenas uma sonolência por excesso de amor.
Sempre que fazemos amor disparo um jacto de vida contra ti e tu recebes-me com alegria e tanta ou mais vida. Além de nos conhecermos bem, os nossos corpos conhecem-se bem. Quando fazemos amor, os nossos corpos também fazem amor. É toda essa sintonia de amor que me cansa.
Já não sei se sou tu e se tu és eu. Amo-te como quero a minha própria vida. Sei de ti o mesmo que de mim. O teu sangue corre em mim e o meu no teu. Temos filhos com os nossos sangues e humores. Nada tenho para te dar já nem nada a receber. Só amor. Só ainda e mais amor. Estou muito cansado!

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Amizade

E se por um momento eu ficasse calado com as mãos e me sentasse apenas a ouvir. Será que sei ouvir?Será que sei perdoar os erros dos outros? A amizade é uma coisa bonita e as palavras são para saborear.Se ao menos eu soubesse ficar com as mãos caladas... por uma só vez... e ficasse sentado a ouvir.

Regressos




A minha almofada tem saudades tuas e em casa sobra espaço. Tenho uma memória imensa com vazios e toda uma vida de solidão.Eu também parti e nem me despedi. O sangue chama-me agora aos lugares de sempre. É a alma que chora e os fantasmas que me chamam.
É tempo de voltarmos aos mesmos jardins, a partilhar a nacionalidade e a cama. Os beijos serão os mesmos. Não haverá perguntas nem passado. Só passou um dia nestes anos todos.

Burburinho

O burburinho garante o segredo das palavras do teu afecto. Não digas mais alto não vão silenciar-se de súbito.
Nas minhas bodas só vou faltar eu... tal como no meu funeral. Tanto num como noutro, não faço lá falta, basta que lá esteja o meu corpo.
Agora que dizes o quanto me amas posso deixar de ouvir a música e levar-me pela toada das palavras. Já nada tem sentido, tudo é som. Ninguém se importa com o vinho entornado nem com a cabeça ébrica nem com a voz zombeteira nem com as orações. Nem importa o burburinho. Por mim fico-me com o amor dito pelos teus lábios, abafado pela pequena multidão sentada ao redor da comida e da mesa. Amas-me, é o que importa!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Caminhos divergentes

O que devia juntar, separou. A culpa não é do parafuso, mas das forças que não sonharam a mesma direcção.

Ser e estar

Os meus dias são banais. Os meus pés resfriam-se na terra fértil e sagrada. Deleito-me nas formas retrocidas das árvores.
A banalidade dos meus dias não se faz com os pés enterrados no barro vermelho. Não sei abraçar árvores, nunca repousei o corpo nos seus troncos e não as julgo mães.

Nota: Pintura de Mondrian.

Morte complicada

Já tenho corda e árvore. Sei fazer nós. Falta-me um pescoço para me enforcar.
O suicídio dos meus dias não acontece por impossibilidade corpórea. É triste! Ainda que tivesse pescoço... o que me aconteceria? Morreria? Morre-se quando não se tem coração ou quando este ficou esquecido sob uma pedra ou escondido numa cidade mais a Norte?
Não sei se tenho mais dias à frente do que tenho para trás. Sei que a vida pertence-me, mas não o meu corpo. Não posso estragar nem acabar com ele. Preciso dele no dia-a-dia.
Vou parar de respirar a ver se morro... Das duas uma: ou desmaio e volto a respirar ou passo-me e continuo a viver. Posso cortar-me e esvair-me, tombar-me sem sentidos. Dirão que estou morto, mas continuarei vivo. Porque a maior injustiça da vida é não se poder morrer!

Cor impossível

Quero uma cor impossível para os meus dias e chorar, porque as ramagens da árvore, sob a qual me abriguei, são tão ralas quanto as de qualquer outra quando chove.
Quero uma noite cor de noite para as minhas noites e um frio ventoso para que me enrole e aninhe. Não há paz nem sossego no estio.
Velo ansioso. Espero sinais luninosos e sonho de olhos abertos ao passar das estrelas candentes. Se ao mesnos as flores da minha árvore desabrochassem de noite... poderia acreditar na vida.
Quero uma cor impossível para os meus dias possíveis, na impaciência e na resignação. Se ao menos as flores da minha árvores desabrochassem diante de mim e os pássaros, felizes ou assustados, debandassem em voo... Se ao menos houvesse uma ventania de esperança em vez das ilusões e das dores... Se ao menos o céu tivesse uma cor impossível...

A cor das azeitonas

Nunca vi uma oliveira em flor. Podia fazer uma antologia das coisas belas que desconheço.
Toda a tua vida futura e todo o amor que farás não será meu. Com sorte terei os teus olhos cor de azeitona, de vez em quando, para me enamorar perdidamente... como sempre. Ainda.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Carta de mar

Daqui a três minutos mando-te água do mar pelo correio... mais coisa, menos coisa... três minutos. Um bocado do Sol que nela se espelha e do calor associado.
Não passo mais de sessenta segundos sem pensar em ti. Não passa um minuto em que o Verão não aporte trazendo lembranças dessas praias e dos frangos comidos depois de nos escaldarmos como lagartos. Por que é Inverno? Por que um Outono interrompeu os beijos? Não há um minuto que não traga o odor do iodo.
Quando terminar de escrever estas linhas terão passados os três minutos... seguirá pelo correio normal a encomenda do meu desejo e a declaração de todo o meu afecto. Não vai registada, para que não a possas recusar quando o carteiro te bater à porta. Vai chegar-te silenciosa à porta, talvez com dias de atraso... mas vai chegar. Sei que abres a caixa a dias espaçados... não tem prazo de validade, a oferta.
Os minutos passaram. A água do mar está no sobrescrito, com alguma areia, muito Sol e todas as memórias e afecto. Dentro de dois ou três dias estará na tua caixa de correio. Um dia abrirás e saberás a verdade. Podes entornar e recolher ou desperdiçar ou mergulhar novamente. A carta já segiu...

Queda

Cair do ano a baixo. Cair da palavra. Cair do tédio. Cair. Cair por cair. Cair, porque caindo sobe-se. O desespero das horas. Toda a natureza em indiferença.
Cair da imaginação. Cair por misericórdia. Cair por decência. Cair na indisposição. Saturação dos dias. Infelicidade na felicidade quotidiana. Todos os tédios.
Cair de lado nenhum. Desconhecer o destino. Amarrotar o corpo. Esquecer a alma. Encontrar os outros, os esquecidos, os partidos, os desejados, os não-lembráveis. Cair, porque sim. Cair por cair.
Cair porque não se voa. Cair para fingir voar. Cair. Sonhar. Urinar nos lençóis. Gritar de voz calada. Cair. Embater no chão. Amarrotar a alma.

Teatro astrológico

Encontrei entre os papéis três horóscopos amarelecidos. São os retratos de duas vidas e o seu cruzamento. Estão ainda actuais. Será que o amor não morre? Têm letras grávidas. Há esperanças derrotadas.
Descobri astros espalhados no papel, trastes desajustados, adereços de teatro. Já se disse que tal é a vida. Não sei quando entrar nem por onde. Hoje acordei:
Manhã cínica de azul intermitente. Preguiça sem capricho. Dor de memória. Terei uma tarde indecisa e uma noite ansiosa.
Todo este peso... toda esta sofreguidão em viver e em sair da vida. Um pesadelo em que não se sabe se acordado ou dormente, se vivo ou se morto.
Está tudo escrito nos três horóscopos amarelecidos. Estava tudo previsto há muito. Sou o bobo da peça da vida.
O odor do palco vicia. O da pele, sacia. Vou ficando por aqui à espera dum final qualquer, duma revelação, agora que um ano acabou e outro está a ser encetado. Os dias não deram por nada. Está tudo escrito nos três horóscopos. A peça da vida.