digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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terça-feira, dezembro 19, 2017

Gatejar

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Gatejo. Entre o salto e as mantas. O primeiro dá-me vida e cansa-me. Depois usufruo da conquista e repouso até ao fastio me obrigar ao pulo.

quinta-feira, junho 15, 2017

Terra

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Se o fogo queima. Digo ansiando o ruído do fundo da Terra, secretamente conto-te o que falaria ao teu ouvido e expludo como se estivesse em ti. Ansioso por sermos um tempo sem nada.

domingo, junho 11, 2017

Nem ouvi o telefone

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Quando há esforço, não há trabalho que possa, pois tenho as mãos nos bolsos. Se ficarem por fora, finjo-me aleijadinho das ideias, que é preguiça maior do que a surdez. Se ainda não me viram, vou-me embora.

sábado, junho 10, 2017

Nudez

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Fazer amor sob o céu é ser duplamente nu. Se ninguém vir, pode ser o que se quiser. Se for verdade, será maior a natureza.
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Nota: Instalação «Hotel Zero Estrelas».

quarta-feira, junho 07, 2017

Menino

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A infância também é noite tal o escuro e o teatro. Se pudesse retornar à transgressão, cruzar as horas sem dormir para desfalecer à hora de levantar, voltaria à felicidade de tudo ser grande e ganhar o perdido antes de ter. Tento diariamente, na ciência de quando o telefone não toca, e por vezes sou quem quero, mas não consigo menino.

terça-feira, junho 06, 2017

quarta-feira, maio 31, 2017

Nuca


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– Repare-lhe a nuca.
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– Sensual.
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– A quietude torna-a quase morta. Porém, não doentia.
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– Tal não é sensual. Destruiu-lhe a luz.
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– A vida é o que é o que vemos.
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– Vejo sensualidade.
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– Acrescenta-lhe conhecer-lhe o rosto, sabe o quanto é bonita. Mas não lhe alcança a aura.
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– E o que vê?
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– Sinto-lhe desesperança.
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– Atente nas árvores, na luz… não pode ser.
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– Reconheço-lhe escuridão.
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– Penso que não entende o que vê, porque se vê nela e não a ela.
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– Vamos contar o tempo em que vai ficar?
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– …
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– Está simultaneamente entediada e com vontade de se entediar.
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– Ficar calado e imóvel pode ser motivo para que se batam palmas.
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– Os sábios sabem calar-se.
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– E se não se calarem?
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– São sábios e tolos.
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– Isso não é impossível?
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– Penso que não.
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– Explique-se, por favor.
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– Levaria tempo de aborrecimento, para mim e para si, dissesse num segundo ou por várias horas.
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– Está entediado…
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– Entediado e com vontade de me entediar. É a melancolia.
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– É o mesmo?
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– Não sei e pensar nisso enfada-me.
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– …
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– Pode contar o tempo até que o primeiro desista.
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– Ela tem um pardal para se distrair. É bela e tem o dia. O senhor tem a noite.
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– Não lhe desvalorize a vitória nem me elogie a tristeza.
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– …
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– Conte o tempo, entedie-se ou vá.
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– Deseja-a a sós?
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– Como se pudesse…
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– Deseja-a?
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– Não penso nisso, tento não saber. O que faria com tanta beleza? Como a beijaria? Como a teria?
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– Fantasia.
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– Fantasio. Sonâmbulos ou loucos somos o que queremos e temos tudo.
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– Deseja-a.
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– Como o esconder?
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– Acha-a bela.
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– Isso importa?
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– Não importa?
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– Importa, sim. E a ela importa-lhe a melancolia, tal como a mim. Duas melancolias são trágicas.
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– Resiste-lhe à beleza. Tem medo.
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– Medo de a perder antes de a ter. Medo de a ter e não saber o que fazer. Medo de a perder.
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– Pensa que nos ouve?
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– Certamente não nos dá importância ou já a posição teria mudado ou a voz se ouvido.
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– Deseja que vá?
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– Não, fique. Fique, porque a sua presença, neste momento, perturba-me e isso acalma-me o tédio.
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– Se contar o tempo, sem dizer nada, como o poderei afectar?
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– Basta-me saber que está aqui.
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– Tal como ela sabe que falamos dela.
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– Mesmo que aqui não estivéssemos e ou se ficássemos calados… ela sabe.
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– Por que o diz?
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– As mulheres sabem tudo.
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– Dá-se a essa importância.
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– Sonâmbulos ou loucos podemos tudo.
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– Fantasia.
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– Fantasio.
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– Conto o tempo.

terça-feira, maio 30, 2017

O poema de Schrödinger

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– Que ar é esse?
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– Nada, não sei bem. Estava a pensar.
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– A pensar? A pensar em quê?
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– Só a pensar.
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– Isso não é nada.
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– Estava a pensar no que vejo.
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– Sempre é alguma coisa. E que coisa é essa?
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– O gato.
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– O que tem o gato?
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– Está à janela.
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– O que tem isso de surpreendente?
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– Repare. Repare bem. Pense-se no lugar do gato… pense-se e verá que se pensa pessoa. Um gato é uma pessoa.
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– …
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– Está ali como estaria qualquer pessoa, do lado de dentro, confortável e quente, a ver o jardim e a chuva, ao luar.
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– Um gato é uma pessoa?!
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– É. Mesmo que não seja, o gato sente-se pessoa.
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– Pensou isso? Pensa isso?
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– Fale menos e veja. O gato está à janela, uma velha janela de guilhotina e com vidrinhos quadrados toscos. É de noite e chove. Intui-se que está frio lá fora…
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– Não entendo?
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– Não entende? Pense numa fotografia. Para ser mais fácil, pense numa fotografia a preto e branco… repare como é fácil ver um poema.
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– Um bocado simples…
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– Simples e até piroso. Repare, se a cena induz a poesia, o preto e branco realça todo o sentimento… é muito mais fácil fazer fotografias a preto e branco.
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– Percebo…
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–  É tudo fácil. Esta fotografia é fácil… A personagem apropria-se do espaço … é um gato, um senhor… por acaso este é uma gata – não importa. A personagem, o cenário e a ambiência são inspiradas, e uma fotografia a preto e branco imortaliza e acrescenta.
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– Porém, pensa que é pirosa.
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– A poesia e o bom-gosto não são sinónimos. Como não são antónimos. E uma fotografia pirosa pode ser poderosa, inspiradora e agradável.
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– Tal como a perfeição e a beleza não são a mesma coisa. Paradigmaticamente podem ser antagónicas.
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– Concordo. Como o fácil não quer dizer mau. E até que ponto nos permitimos julgar e sentenciar o gosto? Até que ponto isso é correcto e honesto?
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– É inevitável.
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– O que é para si? Gosta do que vê? O que mudaria e como?
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– Não sei se concorde com ser poesia. Concordo com o que disse da fotografia a preto e branco… quanto ao resto tenho dúvidas. Aliás, quando aqui cheguei nem reparei que olhava para a gata.
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– E se a poesia for um instante – quando acontece a revelação ou antes que a cena se escangalhe – existe? Ou só se for fixada? Como imagem ou com palavras.
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– O momento. Quando se chega ao debate sobre o momento só há dois caminhos: o do disparate e o da perda de tempo.
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– Deixe-se de coisas, sabe perfeitamente que acabou de escrever isso e sabe que é só um desabafo de enfrentamento.
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– Conhece-me.
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– Um só instante.
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– Dito assim, parece-me que não tenho resposta, nem mesmo uma resposta errada. Mas há tantas formas de fazer as coisas.
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– Falámos da beleza e da perfeição. Todos os factores que se juntem não resolvem o problema, só o confirmam… arte, instinto, ângulo de visão…
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Entende agora o que lhe respondi quando me perguntou que cara era aquela e no que pensava?
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– Escrevia poesia.
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– Não escrevia, a poesia está ali. Tudo aquilo, tudo o que atrai, é poesia, não é preciso fazer nada. E mesmo que a fotografem a preto e branco, esta gata tem cor, como a luz da noite.
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– …
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– Por isso lhe disse que estava a pensar. Quando se pensa simplesmente, pensa-se muito. Temos um poema, não precisamos de o escrever.
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– É como o Gato de Schrödinger. Aquela gata está simultaneamente na poesia e fora dela.
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Nota: Não consegui identificar a autoria da foto. Se alguém souber, peço o favor de me informar, de modo a atribuir os créditos autorais,

terça-feira, maio 23, 2017

Azulmente

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Quem não viu Lisboa pode desconfiar da sua luz. O céu é do azul puro e o seu branco é a espuma do mar. Ir tem voltar e só consigo permanecer. A saudade, sentimento que usurpamos ao mundo, é verdade e sou azulmente lisboeta.