digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

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quinta-feira, março 19, 2015

Dia de Reis

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O meu pai nunca ligou a datas. Duvido que soubesse a do meu aniversário, tal como a da minha mana. Do meu irmão talvez, por ser a véspera do seu... como não ligava nem ao dele, não juro. O dele era fácil, porque as cerimónias do 25 de Abril lho lembravam – é o que dá afixar um feriado no dia em que se completa mais uma volta em torno do Sol. Quanto ao da minha mãe… idem, idem, aspas, aspas. O do casamento? Nem pensar! Dia do Pai, é o quê? O Natal e o Ano Novo, sim, por causa das mesmas razões do dia dos cravos.
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Tal como ele, marimbo-me para os dias fixos. Sei alguns, porque os fixei sem querer. Porém, chegados é possível que nem me lembre. Hoje é Dia do Pai, se escrevo este texto é porque amanhã faz um mês que o seu espírito se despiu do corpo que usou durante quase 91 anos.
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Prometo, em sua homenagem, que deste ano em diante não me vou lembrar nem do Dia do Pai, nem do 20 de Fevereiro. Quanto ao 25 de Abril não terei escolha, o país encarregar-se-á de mo dizer.
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O Senhor meu pai gostava muito de vinho e em sua honra abrirei hoje qualquer coisa que lhe ilumine o sorriso. Tenho a certeza que, se puder ler este texto, vai apreciar o Modigliani…
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Foi um bom doente, obediente quanto à toma dos remédios. Ainda assim, fora isso, nos últimos tempos, sinal da idade, o seu feitio refinou-se. Só o filho mais novo – eu – o convencia e o punha na ordem:
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– O Rei foi deposto. Agora o Rei sou eu.
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Ria-se e fazia o que lhe dizia.
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Sem ele, não faz sentido ser o Rei. Para lhe iluminar os olhos, deixo-lhe também um Caulfield, que detestaria.
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domingo, agosto 06, 2006

Quotidiano

Não sei o que te diga, mas quando chego a casa estou cansado e não me apetece cozinhar e ainda menos preocupar-me com as contas para pagar e ainda menos ouvir-te nas preocupações do dia-a-dia e menos ainda saber dos problemas dos miúdos na escola e ainda menos ouvi-los a brincar ou a correr ou a gritar ou saber como lhes correu o dia na escola. Não sei o que te diga, mas quando chego a casa não quero ajudar-te em nada nem fazer o trabalho por ti, quero apenas descansar e estar só. Será isso egoismo, será. Não quero saber.
Quero olhar para os meus quadros e ler os livros, ser solteiro, masturbar-me enquanto vejo televisão e ver indiferente, como se fosse um filme, a violência noticiada.
Quando me deito não quero fazer amor, quanto muito quero-te e quererei fazer sexo. Depois terei de dormir para no dia seguinte, pela manhã, poder ser um bom pai e bom marido.