sábado, junho 27, 2015

A máquina-incrível

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Em cada copo de vinho tento esquecer-me de me lembrar dos jantares felizes com gente infeliz ou que infelizmente.
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A memória mata.
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Em cada copo de vinho esqueço-me de me lembrar dos jantares felizes com gente feliz.
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A memória mata.
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Em cada refeição esqueço-me de orar agradecido por ter comida na mesa.
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A memória mata-se quando o desamor. A mesa apaga-se, porque a gula é segregada no cérebro e não no estômago.
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Quando compro roupa percebo que o Diabo conspira contra mim.
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Quando compro roupa esqueço-me de saber que o Diabo não existe.
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Quando compro roupa e tenho o discernimento de lembrar que o Diabo não existe enfado-me e irrito-me por não haver quem para me carregar com as culpas da gula.
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Prestem atenção:
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– O sumo de limão é doce.
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O doce também amarga e para isso basta alinhar, por ordem cronológica, as minhas camisas e calças.
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Canso-me de contar anedotas a mim mesmo.
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enfado-me por as saber todas.
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Desespero quando tento dormir e o Diabo – que se soltou na mente – matraqueia-me com:
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– Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
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Irrito-me por tropeçar sempre que pronuncio, ainda que mentalmente:
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– EBITDA.
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Tenho pesadelos por estar acordado. Ressono, tenho apneia e tesão. O pior são os pesadelos eróticos.
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Gostava de vomitar pela cabeça e de ser a Bela Adormecida rodeada pelas minhas gatas e o cão ao lado e quieto.
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Dormisse por cem anos ou duzentos ou trezentos ou que me encontrassem o corpo mumificado.
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Gostava de ter uma máquina-incrível. Uma máquina para qualquer coisa e que continuasse anónimo.
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Gostava de ser invisível e conhecer a nudez duma data de miúdas.
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Gostava de flutuar e ascender por degraus invisíveis.
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Gostava de ter poderes telepáticos ou uma máquina-incrível para conhecer a nudez duma data de miúdas – caso não conseguisse ser invisível – e que essa máquina me apagasse das câmaras de vigilância e sossegasse os alarmes e distraísse os seguranças.
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Gostava de ser rico. Gostava de ser rico e sem ser pelo trabalho. Ser rico porque sim. Ser rico e sem mérito, pois uma virtude chega-me e fico com a primeira para que outros tenham a segunda.
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Gostava de sair.

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