digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

terça-feira, junho 20, 2006

Carta a uma bailarina desconhecida

O ataque da surpresa às vezes é um sufoco outras um festival de flores sem cheiro. Conheço o sabor das memórias. Tenho medo. Atrás duma doce palavra podem esconder-se adagas cortantes e o ardor da ferida jovem.
Li entre o teus papéis que encontraste um vestido. Já nem te lembravas dele nos dias corridos. Vieram-te os prantos e os gestos e os gracejos de há dez anos quando o reencontraste. Quantas coisas bonitas fizeste com ele e quantos corações destroçaste? Também importa! Quanto tempo passa e de que são feitas as recordações? Não têm a espessura do fumo e na maior parte do tempo nem as sentimos presentes.
Encontraste um vestidos e despiste uma parte de ti à frente de toda a gente. Trocaste emoções por palavras e tocaste-me num nervo pequenino. Tenho saudades de ti, mesmo não te conhecendo.

Afogar o sono

Gostava de nadar no mar todos os dias e não ter este ardor nos olhos. Gostava de não ter sono. Os peixes não dormem. Nunca vi um peixe dormir. Teria sal no corpo, mas também água à volta. Respiraria sem cessar e manobraria rápido sem pensar. Gostava de nadar todos os dias no mar e não ter este tédio nos dias nem a doença da cabeça. Viveria sem perspectiva doutra coisa que não existir sem saber pensar no que é a vida. Gostava de nadar todos os dias sem pensar nos olhos nem no sal nem no tédio. Se fosse como sou hoje seria um peixe pelágico, nadando em profundezas frias não abissais nem muito escuras. Seria talvez um carapau bizarro, porque queria antes um coral de cor e gente de escamas à volta e não um cardume, mas jamais viveria numa toca como uma moreia. Queria ser peixe para não ter sono nem este ardor nos olhos nem a doença da cabeça.

segunda-feira, junho 19, 2006

Correria

Tenho uma correria dentro de mim. Venho de correr. Venho a correr. Sinto-me a correr. Sento-me a correr. Desespero. Desespero-me nas horas que tardam e na tarde que não passa. Tudo passa a correr menos o tempo.
A vida é uma monotonia. A correria um fenómeno abominável que não acelera o tempo nem distrai. Não tenho sangue, tenho agulhas nas veias a picarem-me de dentrom para fora e a impelirem-me a correr. Sufoco do esforço de tanto correr. Não morro, nem assim, nem se me desmaiam ou tropeçam os pés.
A noite de dormida passa a correr. Não devia. Devia ser eterna, definitiva, final e justa. Desespero-me nos dias. Todas as horas são de correr. Não gosto de correr. Não sei viver sem ser a correr. Quem me dera parar. Não sei o que faria se parasse... talvez recomessasse a correr. Hei-de morrer a correr. Só tenho pena se não passar pela vida a correr. Se pudesse ia-me já, a correr.

sábado, junho 17, 2006

Jantar para duas meninas

Ontem fiquei a suar em bica com a ansiedade, a correria pela cozinha e o calor dos fogos. Neste fingimento de Primavera e ameaço de Verão resolvi dar um jantar de espelhos, ou seja enganos às estações, que, além de tudo, andam fugidias. Pois foi de frescos e de quentes, tanto nos bebentes como nos trincantes.
Duas belas e sábias amigas (a Suspinha e a Nanda) vieram cá jantar e sem cerimónia ornamentei a mesa, mas preocupei-me com a ementa, tal é a reputação de suas barrigas e a exigência e a sabedoria dos apetites. Fui às compras sem pressas e atarefei-me nas lides da cozinha, o que sempre me rejuvenesce. Tratadas as tarefas foi tempo de jantar.
Veio primeiro, antes de tudo, um branco Monte da Peceguina 2005 (regional alentejano) para afugentar os calores, distrair os convidados e reanimar o cozinheiro enquanto a comida se aprontava. Estava escorreito o vinho, bem feito, mas continuo a lamentar a sorte dos brancos vindos do Alentejo, por causa do açúcar residual a tapar tudo o resto... enjoam-me.
A estreia à mesa foi um gaspacho a puxar ao vinagre para que maior fosse o refresco, acompanhado com atum, em salada de cebola e ovo para cortar o peixum. Isto serviu-se com um Muros Antigos Alvarinho 2005 (Vinho Verde - sub-região de Monção) que não podia estar mais fresco, seivoso e apetecível.
Depois vieram cogumelos portobello, que são quase tão grandes como meia laranja, recheados com foi-gras e chévre gratinados, justamente acompanhados com Aureus de Sauternes 2003 (Sauternes). Emborna não seja o Sauternes que mais me impressionou, o vinho escoltou muito bem os fungos e fez eleger esta como a combinação gastronómica da noite.
O terceiro prato ligou-se mais à quase invernia dos últimos dias e foi talvez um pouco quente e não fosse estarmos tão saturados e teria sido degustado em maior quantidade. A saber: carne de barrosã em cubinhos frita em azeite com morcela de Trancoso e cogumelos seta fritos em azeite. À parte fritaram-se uns cogumelos (vulgares) laminados com presunto de pato, temperos e colorantes do arroz que acompanhou a carne. Esta confecção foi apresentada com Emergente Crianza 2002 (Navarra), um vinho que não deslumbrando criou vontade de o provar mais vezes e sobretudo de o testar daqui por um par de anos.
Com este vinho com toque de frutos vermelhos avançou-se improvisando para umas cerejas do Fundão. Não sei se alguém reparou, mas este ano as cerejas andam divinais!... A ligação com o vinho foi estupenda.
Quando se julgava não poder mais veio a estocada final, com alguma malvadez. Bombons All Dark Selection da Godiva e H.M. Borges Colheita 1995 Boal (Vinho da Madeira). Este foi o melhor vinho da noite e os chocolates estavam num ponto de pecado que fazem os comensais agora precisar de abstinência, suplício santo e ginásio.

sexta-feira, junho 16, 2006

Trovoada

A trovoada causa tremores e temores. Há quem tenha muito medo dos trovões. Há quem se esqueça dos relâmpagos. Gosto do estardalhaço das borrascas. Gosto de ouvir o céu arrastar móveis. Gosto de ver a luz passear no céu. Gosto de ver as meninas com medo. Gosto de rir dos homens com medo. Gosto de sossegar as minhas gatas e de as ver espantadas. Não gosto que chova em casa de ninguém. Não gosto de castigos. Não gosto de sofrimentos. Gosto do tom grave que vem do alto, do altíssimo, das nuvens escuras, da noite, dos medos, dos segredos e dos enredos da mente. Gosto da luz bonita, do seu aparente deslize sem destino, da sua velocidade, da sua ferocidade, da sua brevidade e da surpresa. Gosto paz, do silêncio e do cheiro no final da tempestade. Gosto dos tremores e dos temores da trovoada. Agora está uma lá fora e tenho vontade de dançar na rua e de me molhar. Nem parece que é quase Verão!... Daqui a pouco já passa... fica um eco na memória e a recordação da luz, ficam os sustos de quem os tem. Gosto de trovoadas. É quase Verão, parece Inverno e apetece-me molhar a roupa a dançar à chuva ao ritmo grave dos trovões.

Nota: Este texto é dedicado à Gisela Amieira.

Uns grandes prazeres

Com os pés enterrados na areia ou com as plantas e os dedos a sentirem a sílica sobre a madeira e as partes restantes do corpo salgadas, não há muitos prazeres como os da carne de tunídeo. Garanto e tenho autoridade maior, por causa da minha intolerância ao peixe.
O atum, para o conseguir tragar, tem de vir em lata e nadando em azeite. As conservas serviam para a comida aguentar longos períodos antes de haver móveis de frio. Hoje, porque há frigorífricos, as conservas são guloseimas, prazeres e tradições, memórias. Por tudo isso só há razões para que o atum venha em azeite e não em óleo de qualquer outro vegetal, e que seja virgem extra, proveniente de azeitonas apanhadas no ponto ideal de maturação e transportadas rapidamente para lagares asseados. Se assim acontecer fica mais rico o peixe. As latas são bonitas, mas como reluziriam as postas se viessem acomodadas em vidro escuro e sempre protegido da luz e dos calores?! Mil cuidados.
O atum, para o conseguir tragar, tem de vir em lata e nadando em azeite. Não pode ser sangacho, porque esse agride-me as goelas com o sabor que tem o cheiro do peixe e revolta-se-me o estômago e reviram-se-me as entranhas e a agonia transforma-se em vómito. O atum, para o conseguir tragar, tem de vir em lata e nadando em azeite e tem de ser claro.
As postas desfazem-se, desfiam-se suavemente, e misturam-se com cebola picadinha e feijão-frade cozido. O azeite da conserva melhora os humores do farináceo e ao tocar o bolbo faz soltar um perfume comovente. Não há maior delícia para se provar com a areia nos pés e com o mar nos olhos. Para desafiar o gosto vai bem um vinho branco sem estágio em madeira, bem fresco e vivo. Aí não imagino muito mais do que um bom Vinho Verde, de preferência da casta alvarinho, nascido na sub-região de Monção.
Agora que sonhei já não preciso de mentir. Lembro-me tão bem da praia de Tavira, fico com saudades do azul da ria Formosa, bem perto de Faro, e lembro-me das tardes da Meia-Praia, em Lagos. Ai, Algarve!...

Mentir

Apetece-me mentir, porque a mentira parece não ter fundo. Mais profunda é a fantasia. Parecem-se, mas não são a mesma coisa. O poço mais comprido é o do delírio. E sem fim é a realidade. Mas a realidade é chata e quase sempre plana e sem sobressaltos... por isso é que surpreende e ultrapassa a ficção.
Apetece-me mentir sem dó nem piedade nem remorsos. Apetece-me mentir, porque estou triste e ressabiado. Mentir e encostar a cabeça antes de dormir e não ter pesadelos é o meu desejo. Um derradeiro desejo. Um feitiço. Apetece-me mentir, mas estou consciente. Não me engano. Não será fantasia, será, então crueldade. Não me engano. Não será delírio. Apetece-me mentir e se o fizer vou sofrer. Sofre-se sempre quando se mente. Que enjôo! Vou vomitar-me... Estou tão feio! Apetece-me mentir, mas o espelho não deixa. Quem me dera fechar os olhos para não ver, mas vejo-me ainda às escuras e dói-me o coração. Não me engano. Sei que me apetece dormir e mentir. Hoje o dia vai ser longo. Vou partir o espelho e mentir-lhe. Pode ser que resulte.

quinta-feira, junho 15, 2006

O Diabo

Que não se diga mal do Diabo, porque ele aparece logo a correr. Que não se diga mal do Diabo, porque isso fá-lo mais forte. Que nunca se faça a vontade ao Diabo! Que não se diga mal do Diabo, porque é um coitado dum enganado. Um dia vai ver o seu erro e querer voltar atrás. O Diabo vai sofrer e precisar de ajuda. Mais do que ninguém, o Diabo precisa de uma oração e que o amem e lhe estendam a mão para o ajudar.

Zzzzz

Gosto muito das minhas almofadas e quando as gatas me fogem... quando me dão tampa... abraço-me às almofadas. Beijo-as e confesso-me. Durmo e sonho. A noite correu muito bem. Serenamente bem: das 10h da manhã até às 17h. Foi uma boa e descansada noite. O meu dia durou muito mais e agora: Zzzz! Adoro almofadas. A minha relação é tão forte que as gatas não ousam usufrui-las. Agora: Zzzz! Só mais um bocadinho!...

quarta-feira, junho 14, 2006

A martelo

Não sei onde Thor deixou o martelo... se soubesse!... Entre cispas e sem pudor. Ferisse quem ferisse e fulminasse quem fulminasse. Não malho as palavras em bigorna, porque aguentam mais do que o aço e não se vergam nem moldam à custa de calores. Não desisti de lhes dar porradas, mas as palavras não mudam porque se lhes dê com força com o martelo. O som férreo da batida do maço no tais pode ser erótico para mamíferos e répteis susceptíveis... humanos, claro está. Sem jeito nada se faz e há martelos para vários usos. Para as palavras desaconselho-os... não dão resultados. Já nos autores de algumas prosas e versos podem ser úteis, caso os façam deixar de escrever definitivamente. Embora não lhes deseje a morte, mas apenas uma incapacidade física, já que não são dotados de discernimento suficiente para deixarem a escrita antes duma martelada. Hoje não se faz vinho a martelo, porque sai mais caro do que fazer vinho honesto. Ainda bem! Não sei onde Thor deixou o martelo... se soubesse!... Estava capaz de lá ir buscá-lo e de usá-lo como divertimento!...

Dedico este texto ao meu amigo Turco.

Simples

Gosto de coisas simples. Sem ironia! Sei que causo náuseas a quem me quer presentear, porque tenho tudo e sou complicado... dizem até que sou rebuscado. Não sou! E não vou pelo cinismo irónico de Oscar Wilde plagiado por Winston Churchill de que tinha gosto simples e se satisfazia com o melhor. Nada disso: tenho mesmo gostos simples!
Gosto de malmequeres. Gosto de vinho tinto. Gosto de lápis. Gosto de livros de história. Gosto de vinho branco. Gosto de filmes policiais. Gosto de ténis da Adidas. Gosto de poesia. Gosto de vinho rosé. Gosto do cheiro da borracha. Gosto de prosa poética. Gosto de canetas de tinta permanente. Gosto de rosas. Gosto de brasões autocolantes. Gosto de espumante. Gosto de livros temáticos ilustrados. Gosto de sinetes para lacre. Gosto de charutos havanos. Gosto de Vinho do Porto. Gosto de charutos dominicanos. Gosto de papel colorido. Gosto de tulipas. Gosto de Vinho da Madeira. Gosto de filmes para rir. Gosto de tabaco inglês para cachimbo. Gosto de livros de culinária. Gosto de vinhos de colheita tardia. Gosto de presunto. Gosto de guardanapos de papel coloridos.
Depois gosto de coisas complicadas e de formas complexas de amar estas coisas simples...
Simples!

Piranesi

Todos os dias lavo os olhos na obra de Giovanni Battista Piranesi (1770-1778), um artista neo-clássico muito fascinado pelos ambientes decadentes das ruínas e tenebroso das prisões. Marco os meus dias a ver-lhe os traços, a imaginar o Império Romano, Roma e o século XVIII. A imaginação voa nas gravuras a preto e branco... chego a ouvir-lhes ruídos, burburinhos e conversas. Benditos foram os teus olhos e as tuas mãos, Piranesi!

Sou uma garoupa

Tenho as mãos nos bolsos da cabeça e, quando posso, encosto-me às paredes deitado dias a fio. Ando de cá para lá na cama à espera que aconteça o milagre da aparição do que quer que seja para agitar o ar morno dentro de mim e que confundo com aquele que respiro. Sonolento e estiraçado, entre o sonâbulo e o adormecido, sou um peixe a viver fora de água. Sou uma garoupa gorda com uma grade boca aberta e a ameaçar tragar. Sou um enorme trofeu de pesca e uma iguaria. Mas ninguém me pesca, porque o meu mar é fechado e vivo deitado e fora de água. Dói-me a cabeça e a alma e só respirar já é um tédio. O meu quarto está decorado com fastio e tem penduradas lascas de aborrecimento que me prendem a ilusões entorpecentes. Custa-me existir fora da cama e a preguiça e o medo de sair tornam-se num susto. Sou uma garoupa assustada. Não quero ir para o mar, porque temo que a água salgada arranhe as escamas. Este aquário de água limpa, mas com muito tédio e fastio, que é o meu quarto, é um refúgio seguro para viver estúpido. Daqui não saio e se daqui não sair não terei mais desilusões nem desencantamentos. Visto daqui, o mundo e os mares são como os imagino e ficarão como estavam na última vez em que os vi e nadei. Sou uma garoupa amaldiçoada. Ninguém me pesca na minha cama de medos.

Vou cumprindo

Vou. Vou indo. Vou por um caminho curvo... que também pode ser recto... não tenho distanciamento para saber. Penso que sei para onde vou e não penso no caminho, tal a certeza do destino. Contudo, se penso não sei onde estou e duvido para onde vou. Ao certo desconheço o tempo da viagem. Ao certo e em abstracto sei que o fim é só um. Às tantas tenho vontade de me sentar. Posso, mas não quero e não sei se deva. Algumas vezes penso em desistir. Sei que, em abstracto e em definitivo, o fim é só um. Se desistisse voltaria ao princípio. Repetidamente tenho a sensação de estar a repetir os locais por onde passo... talvez já tenha passado ou seja apenas uma parecença ou mesmo uma repetição ou uma premonição realizada. Vou. Vou indo. O caminho é curvo, mas não o noto, porque é longo... tão longo que se torna doloroso... tão longo que os pés ganham calos e já nem doem. Vou. Vou indo. Repito passos. Sei qual o meu destino e julgo saber o caminho. Sei o destino, em abstracto, mas desconheço a sorte e da estrada nada sei. Sei que um dia hei-de chegar.

terça-feira, junho 13, 2006

Protesto em branco

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Quero protestar! Tenho motivos para isso. Não as vou os escrever por não ser este um espaço de desabafos. Que explicação posso dar? Que há enganos na minha cabeça... e outros tantos nas outras... que a dor não conhece idades nem momentos. De resto, está tudo bem, vai tudo andando. Amanhã talvez não me lembre da ingratidão nem do esquecimento. Provavelmente fiz o mesmo. Hoje é dia de Santo António. Estou em Lisboa. O Santo está em toda a parte e também nesta sua cidade, a sua verdadeira cidade e casa. Hoje o mundo vai continuar esquecido com os olhos a perseguir uma bola ou na praia ou a festejar outras conversas. Amanhã, com sorte, já não me lembro das afrontas que me fizeram... e espero que não se lembrem das que fiz. A vida continua amanhã... e sempre. Amanhã e em próximas vidas. A ingratidão e o esquecimento também merecem perdão.

segunda-feira, junho 12, 2006

Santantoninho

Tenho até receio de escrever por causa das minhas aleivosias peremptórias tantas vezes mal-entendidas. Não gosto do Santo António! Não é do Santo, é da noite! Quero dizer, gosto da noite, não gosto é da multidão da noite de Santo António em Lisboa. Gosto do Santo, pois então. Sei quando está para chegar o dia, pois é quando tenho de ligar uma ventoínha no quarto para poder dormir. Não há calor mais sufocante do que este de princípio e meados de Junho... Este ano até nem vai mal, porque veio mais cedo e partiu-se, e agora vai-se estando. Ai, meu Santo Antoninho!... Em Itália e noutros países dizem que és de Pádua, mas só podes ser de Lisboa - ignorantes! Porquê? Porque nasceste aqui, tiveste nome português e só isso basta! Se não fores só de Lisboa és do mundo inteiro, de Pádua é que não és! Logo há marchas na avenida, patuscadas de febras e sardinhas na rua, multidões e bebedeiras. Já todos se esqueceram que o teu dia é amanhã, o que querem é folguedo e bacanal carnavalesco na noite que antecede o feriado. Até nem sabem que o padroeiro de Lisboa é São Vicente e desconhecem que todos os Santos são amigos. Festejam-te os cristãos e os ateus... faz sentido? Faz porque a festa lisboeta é pagã e celebra o solestício de Verão... A Igreja sabe, mas ninguém repara! O que se quer é tosga! E na Igreja, no dia 13, casam-se crentes, descrentes e negligentes... pois há tanta gente que só quer os rituais e as aparências!... acho triste, enfim! No dia de Santo António casam-se muitos, porque o Santo de Lisboa é casamenteiro... e se um dia vier um divórcio não sei a que Santo irão pedir contas... Pronto, já chega! Não escrevo mais. Hoje nem Santo António me vale!

domingo, junho 11, 2006

Época de caça

Abriu a época de caça aos caracóis... pelo menos para mim. Hoje devorei o meu primeiro pratinho. E para provar que há mais de beber no mundo do que água e vinho dei uma oportunidade a essa sub-bebida chamada cerveja. Estava boa, fresquinha. Os caracóis são uma coisa estúpida que não sacia a fome, mas que satisfaz muito e alegra. É uma das poucas alegrias do Verão. A outra é a praia. Beber cerveja até doer a cabeça é outra para algumas pessoas. Amanhã não vou trabalhar! Já decidi que vou estar doente. Pode ser que me arrependa ou não me lembre. Os caracóis estavam tão gostosos! A cerveja era apenas cerveja... um líquido fresco e com gás que conjuga o verbo ir-à-casa-de-banho com grande frequência. Então, até às próximas letras e que os bichinhos se repitam... e como são coisa estúpida e de difícil classificação, que se aproximem com cerveja!

sábado, junho 10, 2006

Camões

Já cá faltava este! Tenho-lhe uma inveja e uma raiva!... É Dez de Junho e só é pena a bandeira ser verde e vermelha e não azul e branca... mesmo sem coroa!... Viva o Camões!

Muñeca

Esta é uma boneca. Muñeca em castelhano - dá jeito em crises de identidade e afins. Princípio: Esta é uma boneca e representa-te. Brinco-te. Olá! Estás bem?
Neste texto não há presente sem passado! Nem futuro sem presente! Nem futuro sem passado! Nem sei se és completamente passado! Sei que o nosso futuro tem presente que é passado!... Mas não o que fazer contigo! Juro que no dia-a-dia não me lembro da tua vida. Não sei se existes, se respiras, se és feliz ou sofres... Não sei de ti, mas lembrei-me passado este tempo...
Muñeca en castellano nas cheganças de quem não quero nem lembrar. Lembrei-me de ti a estas horas tardias em que me podes comprovar e não sei bem nem quero explicar... Lembrei-me e não te quero ouvir justificar.
Sabes, sinto muito a tua falta como sinto a de todos os grandes amigos ausentes. Não fazes sintido «morta» e ainda menos estando viva e próxima de mim. Gosto tanto de ti e só quero abraçar-te e dizer-te o quanto sinto a tua falta... patifória! Amiga!

sexta-feira, junho 09, 2006

O Turco

Tenho um amigo com um coração maior do que ele. Por o coração ser tão grande, as palavras saem-lhe sem filtro pela boca fora. Não tem o coração ao pé da boca... tem é a boca no coração. Diz o que pensa e diz muitas vezes sem pensar. Por isso é muito inconveniente. Mas é verdadeiro e puro, até ingénuo.
Ele é casmurro e rabugento sem ser impertinente. Anda enclausurado no trabalho e sociabiliza pouco, o que o torna ainda mais resmungão. Esta é uma razão por que os amigos lhe chamam Turco... porque inscreve-se no arquétipo das personagens do cinema.
Quando bebe um copo a mais vira-se do avesso e avinagra o vinho: normalmente dá para fornicar o juízo ao irmão. É um divertimento. O melhor de tudo são as opiniões azelhadas sobre tudo: faz diagnósticos precisos sobre os mais diversos temas. É óbvio que estão absolutamente errados, porque parte de pressupostos incorrectos que têm vícios e tendências de raciocínio, mas são divertidíssimos. Isto torna-o muito português, mas ele é tão afirmativo que lembra aqueles turcos nas manifestações a gritar os seus argumentos.
A primeira razão para a gireza dos argumentos do Turco é a inteligência deste meu amigo: é das pessoas mais finas de pensamento que conheço. Ele estrutura bem, manipula o que quer para levar os ouvintes a concordarem com ele. Tem azar, pois ele é o Turco e os amigos lembram-se sempre disso e gostam de o lembrar. As tiradas sábias do Turco são de gritos!... e gargalhadas! Às vezes até de zanga, quando se mete na especialidade de alguém. E o Turco tira grande gozo quando consegue fazer comichões em alguém.
Mas o que tem de melhor o Turco é mesmo o grande coração, que é maior do que ele. É capaz de quase tudo por um amigo. Pode não saber datas de aniversários, pode baldar-se até a alguns acontecimentos importantes, mas no coração do turco cabe tanta coisa!... Mais do que ter bom fundo, não tem fundo, o coração do turco! Gosto mesmo daquele miúdo!

Nota: Como não posso e não quero mostrar a fotografia do Turco... nem revelar o nome para não se descobrir a sua identidade... fica a imagem do Banho Turco de Ingres.

Um exagero numa questão de esferas

O mundo é uma esfera e talvez mais de quatro mil milhões dos seis mil milhões de cabeças do mundo se voltem para as esferas que vão rolar no mundial de futebol. Mesmo que os corpos passem fome, a saúde passe mal e a vida exista com dores na sociedade. Quatro mil milhões ou mesmo cinco mil milhões e tanta gente com fome e doenças e sem tecto. E o que importa? Festa é festa! Haja pão e circo! A humanidade é tão romana como é egoísta e distraída. Que se gastem milhões no festim e na engorda, que se descansem os olhos das fadigas gordas de todos os bem instalados operários e funcionários ocidentais e nortistas. Não importam as misérias do Sul e do Oriente. Nem tampouco as de ao pé de casa, quanto mais as que estão longe da vista. Os ricos que paguem, gritamos todos encolhendo os ombros a olhar para o televisor, nervosos com o jogo e sedentos de cerveja e petiscos que se atiram vorazes ao coração. Esquecemo-nos que a classe média ocidental é rica. Nas outras bandas do mundo, os magros e os famintos seguem esfaimados e doentes as mesmas bolas. Há só uns tantos, talvez menos de mil milhões, que não ligam ao futebol... porque não gostam ou porque estão morrentes de misérias várias. Atrás das esferas distraídos andam cinco mil milhões, talvez mais, mas outros tantos andam com fome, não têm acesso à saúde nem condições de vida condignas para os padrões do século XXI. É hoje que começa a doença das esferas. A minha, a que tenho agarrada ao pescoço, já está farta e de cabelos em pé... mas doença é doença e eu, que nem ligo a futebóis, no domingo vou ver a bola!

quinta-feira, junho 08, 2006

Bago

Eu queria escrever sobre uma coisa, mas fui censurado pela vida... ou pelas oportunidades dela. Houve um tempo em que decidi tornar-me ladrão de imagens e daí não me movo e quase não passa dia em que não roube uma coisita e escreva sobre ela ou que a ponha a ilustrar palavras minhas.
Hoje queria escrever sobre bagos e comparar as letras e as palavras a sementes e desejar que um vento as levasse para que pudessem frutificar algures e emprenhar noutras cabeças algumas ideias. Aí a vida censurou-me: O meu objectivo era vermelho e sumarento. Pensei em bagos e nasceu-me uma romanzeira de lindos frutos difíceis de usufruir. Até na internet são complicados, pois tudo quanto encontrei não me saciou, porque não teve encanto diante dos olhos. Pesquisei nas línguas que sei e, através de maroscas, noutras que desconheço. Paciência, procuraria por bago. Simplesmente por bago.
Hoje queria escrever sobre bagos e compará-los a letras, palavras e ideias. Gostava que além de olhos, dedos, leitores e mirones passassem ventos pelo meu blog e levassem o que para aqui há para outras cabeças e lugares. Poderia ser que frutificassem e emprenhassem ideias que se vissem e dessem debates e mais textos e poesias e prosas e trocas de textos e criações em despique. Gostava. Pesquisei por bago, mas a vida censurou-me novamente. Nada me deu de prazenteiro até que...
Até que me deparei com esta foto de gansos selvagens a voar. O que têm estes gansos a ver com bagos? Comem-nos, provavelmente. E então? Não sei o que escrever sobre eles e já não quero dissertar sobre os bagos nem sobre as ideias nem despiques criativos nem cadáveres-esquisitos entre blogues. O vôo é bonito e basta-me. Se todas as censuras fossem assim!... Devemos procurar sem cessar o que queremos, mas também aceitar com um sorriso aquilo que a vida nos dá. Digo isto de mim para comigo... Digo-o muitas vezes, porque não fui bafejado pelo dom da resignação.

Olhos pra cima

Espantei-me por não conseguir fitá-lo nos olhos. Que bonito animal! Grande e lustroso. Não sei se belga, alemão ou polaco. Os nossos puro-sangue lusitanos são maneirinhos, dóceis, versáteis e inteligentes. Está bem! Mas fiquei espantado com aquele cavalo tão grande. Se fosse para a guerra montado num lusitano não sei se não debandava ao ver o opositor numa montada daquelas!... A menos que o meu lusitano me emprestasse coragem... Era tão belo e grande aquele cavalo! Agora quero ser hussardo e brincar às batalhas montado num ginete maior do que eu...

terça-feira, junho 06, 2006

Sina

Gostava que me lessem a sina. Gostava que o meu destino não fosse só meu, que não dependesse só de mim. Tenho o que escolhi, terei a sombra das árvores onde me abrigar e só comerei os frutos onde quiser. O meu futuro está nas mãos e lá está escrito que serei o que quiser e fizer, e não serei diferente de ninguém.
Gostava que me lessem a sina, pois gosto do mexer nas mãos. Gostava de saber do meu presente, passado e futuro, ainda que inventado. Gostava que mo lessem pelo corpo todo. Gosto que me toquem em todo o lado.
Gostava que o meu corpo fosse de areia para ir a todo o lado soprado pelo vento e que o roçar nos vários objectos me lesse a sina e me desse o prazer do toque. Gostava que me lessem a sina. Tenho o futuro nas mãos.

Primeiro mergulho

Dei o primeiro mergulho. Foi no domingo. A água estava transparente e quase quente, quase fria, mais para o morno... bitola da costa ocidental portuguesa. Não tive medo pois gosto. Estava calmo o mar com vagas redondas e baixas, a rebentar abaixo da cintura. Estava maré vazia. Corria uma brisa na praia e o Sol portou-se bem sem escaldar demasiado. Dediquei o meu primeiro mergulho aos amigos que ainda não se banharam este ano.Foi no domingo. Vim salgado para casa e feliz... levei areia agarrada aos pés.

domingo, junho 04, 2006

Festa à mesa

O Paulo acusa-me e eu acuso-o. Na verdade devemos ser os dois culpamos mais a Nês. Vou tentar contar a minha versão e com sorte pode ser que tudo fique em bem a rimar com todas as opiniões.
Era para acontecer um jantar aqui em casa, mas porque não havia onde deixar o miúdo do Paulo e da Nês passou a cerimónia para a casa destes. Desde então tomaram-me conta do evento, acuso eu. Desde sempre dizem que o repasto foi meu. A verdade é que a união de esforços deu uma coisa memorável de fazer inveja a nós mesmos, pois agora enciumamo-nos por não estarmos a usufruir aquele momento, como se fôssemos hoje outras pessoas, porque há instantes na vida em que o tempo está proibido de passar.
No primeiro acto aconteceu um Quinta dos Cozinheiros Rosé de 2004 (Regional Beiras), líquido seco e austero na fruta, bom para matar a sede. Estava fresco e contrariou o calor daquele fim de tarde. Porém não é o meu vinho rosé nem fez amigos... não angariou adeptos para as falanges dos rosés, embora todos lhe reconhecessem virtudes. Depois, sim, houve muita alegria e contentamento. Veio de Champanhe um rosé divertidíssimo e elegante: Bauget-Jouette. Com este todos festejaram e grandes sorrisos se puseram nos rostos, até dos teimosos que insistem em afirmar e garantir que não gostam de Champanhe nem de rosé.
Acto segundo: queijo camembert, um malcheiroso francês que não fixei o nome, queijo de azeitão, queijo de mistura de cabra e vaca, pasta de fígado de porco, duas variedades de gressinos temperados, cubos de pão com ervas e joaquins fritos. Aqui estava já em estreia líquida o primeiro vinho do jantar: Hexagon 2000 (Regional Terras do Sado), talvez o melhor vinho que se faz a Sul do Tejo ou mesmo do Mondego.
Terceiro acto: gaspacho (à portuguesa e com acompanhamentos vários, incluindo os joaquins sobrantes) com o já referido Hexagon. O vinho é uma maravilha. Julgo que Nostradamus o anteviu nas suas visões e que Leonardo da Vinci fez esboços para a sua criação. E não é que ligou mesmo bem com a sopa fria?
Quarto acto: lombo de porco temperado com massa de pimentão e batata assada no forno, ratatui (cebola, tomate, alho francês, maçã e tomilho) que se regou com Hexagon, enquanto houve, e Quinta do Monte d'Oiro Reserva 2001 (Regional Estremadura). Este segundo tinto é outra maravilha, tem encantos diferentes do parceiro mais sulista, e dança no nariz e na boca com muita elegância.
Findos os dois grandes tintos e antes que se quisessem as sobremesas bebeu-se parcialmente um Vinha da Pala Reserva 2001 (Douro), que é justo e sereno, não levanta ondas, mas tem carácter, não fez sombra aos anteriores, mas todos repararam que lá estava. Só por causa disso irá ser repetido numa jantarada menos exigente.
Após o intervalo da conversa em que os fumantes se intoxicaram, veio uma charlotte de ananás e serviu-se um Vinho do Porto que estava de estalo, embora viesse a estar mais se tivessemos a paciência de esperar mais uns anos: Ferreira 1997 Vintage. Suave e aveludado, complexo no nariz e na boca foi uma delícia de se beber. Na minha opinião ofuscou a sobremesa, pois estava demasiado vaidoso e galante.
Já quando os talheres se tinham retirado e os guerreiros da comezaina queriam apenas repousar e conversar, as gargantas molharam-se com um honesto, mas fracote Tinto da Ânfora 2002 (Regional Alentejano), que o bom Alex trouxe. Lamento, amigo, mas este não teve hipótese, mas foi um vinho amigo para quando já estávamos exaustos... e não só.
De tudo o que mais gostei foi mesmo da amizade. É que amigos destes dizem o que sentem e comem e dão a comer o melhor que têm. Foi um grande festa para festejar coisa nenhuma.

Nota: Pintura de William Claesz Heda.

sexta-feira, junho 02, 2006

Esquecimentos

Perco-me entre a cozinha e a casa de banho. Esqueço-me de tudo e largo as coisas por toda a parte. Desleixo-me na memória. Soltei dispersa na vida várias mundanidades que fazem os dias. Não são meras tarefas banais ou corriqueiras ou desprezíveis, mas bocados de vida. Ando a perder vida aos talhões, uns maiores, outros mais pequenos. Esqueço-me da agenda, esqueço-me de a ver, vejo-a e não a olho, olho-a e não a leio, leio-a e não a entendo, entendo e não lhe ligo, ligo e esqueço-me. Perco-me em círculos concêntricos de dias. Perco-me em gráficos circulares desconjuntados. Perco-me em espirais de movimento quieto. Não sei o que faço. Não sei o que faça. Envergonho-me. Ando nu. Fico nu por me perder. Esqueço-me de tudo, só não há maneira de me esquecer que me perco ou de me perder. Sinto-me tão nu e olhado. Não sei o que fazer com a vida.

Ainda as palavras

Tu tens Luas de escrever mais e Luas de escrever menos. Quando a noite te persegue mansa ficas sossegada a deixar fluir as letras... se te deixa quieta és capaz de nenhuma arte... se te morde com dor soltas esgares letrados urdidos com acerto ou desatino... se magoa febril deixas-te cair e letra alguma libertas dos teus dedos bonitos.
Quando é dia passa-se o mesmo: tens Luas! E não há Lua que te defina. Nem como pessoa nem como bicho-da-seda das palavras. Fazes um casulo informe de padrão assimétrico visto de perto... pelos desatentos. Os interessados dão dois passos atrás e vêem a matemática sábia do desenho e percebem o belo inato que existe em ti. Há fogo de artifício e multiplicação de encantos... para entreter os críticos há até coisas a melhorar. Tens tanta coisa para ler e enlevar! Leio-te e volto a ler-te. Todos os dias sem me cansar.
Faço-te dois pedidos: escreve mais e nunca deixes de escrever.

quinta-feira, junho 01, 2006

Nariz

Meto o nariz em tudo. Tenho de cheirocar, é mais forte do que eu!... Mesmo quando não quero, as coisas vêm a mim... bem nem sempre pelo nariz, é certo. Oiço bem, vejo bem, apesar da miopia, e na boca o paladar não me engana. Mas, o que conta agora é o nariz.
Gosto dos aromas do vinho. Infelizmente não tenho memória de todas as coisas que cheirei para associar às essências que posso encontrar num copo. As palavras certas escapam-se-me sob o cérebro e nem se aproximam da língua para que as tente pronunciar. Porém, sinto as presenças, mas a muitas não lhes sei dar um nome.
Às vezes ao longe vem um fiozinho de cheiro de qualquer coisa e topo-a. Pareço arraçado de perdigueiro. O que nem sempre é bom nem é obrigatoriamente mau. Tenho um radar olfactivo na cara e nunca se desliga... contudo, consigo tapá-lo e iludi-lo respirando pela boca. Por exemplo, quando me aproximo dum peixe... se não me prevenir projecto um vómito. Mas é difícil ser surpreendido, pois quando ainda longe já o meu nariz me ordenou que respirasse pelas goelas.
Noutra noite fui ao Casino Lisboa e não joguei. Tomei dois Vintage e cirandei pelas salas. Espreitei mais a roleta, mas o que quis ver foram as mesas das cartas: bacará e black jack. Teria assistido a umas rodadas da sorte não fosse o cheiro dos corpos dos jogadores e dos mirones amontoados. Não há glamour no Casino Lisboa nem higiene naquele gente.
Por essas e por outras digo: preciso dum açaime no nariz.

Eu, MacBarbie

































































Do alto das colinas escocesas desço nas manhãs de bruma ou nevoeiro para as planícies onde me deito embriagado com os aromas das terras bravias e das cultivadas. O mar nunca está longe na Escócia e chega pelo vento e no frio que abraça. Nas noites de pedra e breu canto as lendas das vitórias nas guerras perdidas. Tenho os ossos rijos e não há gelo que vergue um homem. Refresco-me nas nascentes e recomponho-me com água quente, nascida da cevada ou do trigo. Aos domingos orgulho-me com a roupa da minha raça e todo o meu sangue se exibe. Debaixo da lã, nada mais uso a cobrir-me. Até por isso até para a guerra levo a roupa da carne da família, se cair, morre comigo um talhão da minha terra. Não sou soldadinho de chumbo, sou um highlander!