digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, janeiro 23, 2011

Há demasiados mortos nesta vida

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Esta notícia faz-me lembrar o azul profundo duma solidão. O momento preciso do desprendimento. O espírito desagarrado do corpo. A morte, se assim se quiser.
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Não há tempo para palavras tristes. Não é preciso ter-se um coração para que este se sinta apertado e minguado. Rezando para que os pés não doam demasiado pelo caminho.
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Se a tristeza não se vai, que nos apartemos nós dela. Abandoná-la onde faz sofrer. Poça de sangue que mais ninguém vê.
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Quando estocas e feres, é o teu sangue que se derrama. Quando matas, morres. Morres-te devagar, aos bocadinhos, com o peso de toda a memória. Ainda que a consciência te alivie. Delinquente inocente.
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Os homens grandes não precisam de monumentos. A verdade é toda e toda exige que se o diga: todos os homens nascem iguais. Preciso de palavras de circunstância no meu velório.
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Os homens grandes não precisam de monumentos. Desejo, em ânsia, os aplausos, as intimidades gloriosas e um tocante discurso de abalada.
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No fim de tudo, só o amor primeiro e o amor maior. Todos os outros não são bem coisa alguma. Inspiração e desejo. O que fica?
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Cuidava que os poetas podiam matar as musas e renasciam fortalecidos no desgosto de não falecerem por elas. Que viviam felizes ou infelizes. Que viviam.
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Cuidava que a musa nunca mataria. Com o feitiço suficiente para o cantor se cortar, desperdiçando-se em letras rubras de odor férreo. Por suicídio ou surpresa por se saber morrer, com um sopro da musa.
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Desamando, ela, com um pranto. Pode viver-se sem um coração, mas não com uma consciência leve. Não com um manto de veludo negro na memória.
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Baixada a cortina sobre o amor prometido em sacrifício de viver infeliz. Tragédia sanguinária em que todos morrem. Quendera uma cova para repousar o corpo. Todos os amores acabam mal, está na lei moderna. Até os que nunca começaram. Está na lei suprema.
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A notícia faz-me lembrar o azul profundo duma solidão. A vida recomeça adiante.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Não sou à prova de água





















Tenho-te, fogo livre. Tens-me, queimando-me preso. Sem artifício no que digo. Não plasmo as promessas, não materializo as palavras. Consumo, até ao momento em que terei devorado tudo. Tudo, sôfrego, nunca satisfeito. Na terra ou no ar, preso ao fogo do teu signo água.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A musa ressuscitada





















Vejo-te, flor. Sinto-te menina e sei-te mulher. Vejo-te imaginando, nua num canapé com uma cidade por trás. As janelas são para se abrirem. Pela tua entra a música das ruas e a luz que o céu permite. Por ela saem os meus olhos, envergonhados por, tão descaradamente, gozarem a tua beleza.
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Vivo-te doentiamente. Invisível a teus olhos. Invisível também para me dissimular no teu quarto para me deliciar quando te despes. Sofro por te ver amada e amante. Vejo-te tão ignorante de mim.
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Não fosse invisível veria as minhas mãos nos teus quadris. Nos teus seios e no teu rosto. Afastando os cabelos suados enquanto mordisco e mordiscas alternadamente com o soar das almas a sair das bocas.
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Em que cidade vives? Nunca saio. Talvez por isso não me leves a sério. Nem me vejas. Ou, pior, não me leves a sério.
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Sou tonto. Acredito no acreditável, menos crível que os zombies baterem à porta doutro defunto. Defunto, sou eu, que escondi o coração em Edimburgo. Eu, que nem vivo, nem sou credível. Tão tonto como inacreditável.
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Se é Lisboa, a janela abre-se às ruas populares. Qualquer outra é desilusão e sofrimento. O meu coração abandonado sente, lá longe em Edimburgo, uma saudade do que não deve, não pode, porque não sabe.
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Sim, flor-menina-mulher… sei-te triste comigo e não por ser invisível ou apaixonado, ainda que inacreditável. Noto-te na voz o cansaço da minha tristeza e pelo ridículo de todos os disparates que digo e escrevo.
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Ainda assim vivo escondido no espelho do teu espelho, donde te vejo desnuda e amante doutro amante. Ciúmes? Não. Tristeza por não me veres. Por não me mostrar e apenas soar.
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Coragem só na voz. No corpo a morte, vagarosa, como poeta, um desespero incontável e ignorância.
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As musas não matam os poetas. Os poetas é que morrem tristes frente às musas.
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Escondido num espelho desconheces-me sabendo-me. Dentro do espelho escondido vejo o reflexo da luz do esconderijo, plano insensível, impronunciável e morto diante da tua beleza e nudez.
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No escuro sei-te. Amante e amada. Desfaleço sem ciúme, mas desesperançado. Os poetas não matam as musas. Deixam-nas cair, quebrando-se. A minha partiu-se e, estupidamente, tento cola-la. Do lado dela a mesma insensibilidade. A mesma falta de crença. Que nunca perca o sorriso que me ata. Que nunca perca de vista a flor-menina-mulher.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

A mão além do corpo aquém

A mão além, do corpo aquém. Respiração visível, como plasma. Não vapor no frio, mas como plasma. Como um fantasma.
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Não tenho dúvidas que flutuo sobre o corpo deitado. Vestido sobre a cama. Olhos abertos de pálpebras em descanso.
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Há um espaço entre as orelhas e os sons da rua. Uma parede de ar.
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Dentro, dia. Fora, noite. Minutos depois, o inverso. Difícil sincronia.
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O corpo ergue-se. Como que se a alma estivesse fora do corpo. Por cima, observa. Visão em três linhas, horizontais e paralelas. Entre cada uma, um espaço sem concreto. Todas límpidas e claras, precisas, bem definidas e inconfundíveis. E sobre o corpo, a observação.
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Três horizontes. Indiferente à temperatura, a mão além projecta-se fora da janela. A dúvida. Entre a vida e a morte. A certeza da vida, a dúvida da vida.
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Por momentos, os olhos outra vez fechados crêem poder alcançar qualquer coisa. A mão além vai, ainda que os olhos se tenham fechado, por insuportável trivisão. Além da observação sobrevoada, consciente do que é e donde está. Acima duma realidade tangível.
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A mão além tenta despertar o corpo que se voltou a deitar. A angústia.
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Afinal quase tudo é angústia. No sono. No sono depois do sono. No sono que se força. No sonho no sono. Do sonho entre sonos. O tempo em que não se dorme. Sempre a angústia.
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É um peso. A mão estrafoga, a angústia. A mão, além, tenta fugir. De matar, e do local do seu crime. A mão além, na dúvida. A alma vigia o corpo deitado.
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Cobardias da mão e da alma. O corpo em angústia, entre viver e o contrário, em dúvida. Triste.
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A mão além recolhe-se num receio. A visão que flutuava escondeu-se atrás da consciência. A respiração desplasmou-se. Os olhos despertaram. O corpo levantou-se. A mesma angústia e a dúvida, de viver e de não viver.
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Até um dia. Um dia novo de certezas. A angústia vai dormir. Enquanto se não dorme, a angústia pausa-se. Tocaram a campainha e a porta abre-se. A angústia foi dormir. A angústia voltará.

Quando o acordar ilumina e o coração morre

O tédio e o marasmo. À vez nos dias. Os dias de tempo preciso e igual. Dias de mecânica precisão, desde o acordar desejoso do adormecer e ao deitar angustiado com a manhã que há-de vir.
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A maioria dos suspiros não tem força para rasgar a carne e medrar na liberdade possível duma tristeza. A maioria morre triste e ignorante de que a vida, lá fora, é mais triste. Suspiros com esperança e, porém, tão tristes.
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Os olhos quando se fecham não é para dormir, mas para ver o que dentro se recusa a sair. É como o arfar soluçado num choro que vai longo. Há sempre gotas de água e sal que não chegam à fonte e nunca serão rio.
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Os banhos de corpo mergulhado em câmara sobreaquecida não acalmam os dias de inquieta quietude. Iluminam as dores, para que os dedos da cabeça possam melhor infectar as feridas com o seu escarafunchar.
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Há dias que não olhava para esta vida toda. Há dias em que uma lucidez indesejada vem afirmar o quanto se é infeliz. Não vale a pena sonhar. Há sempre um dia em que o Diabo vem cobrar os momentos de paz concedida.
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Há dias em que se percebe que os amores que julgávamos são mesmo sonhos. Há dias em que percebe que os amores que sonhámos não chegam a ser sonhos. Retratos de casais que só na casa cómica dos espelhos se formam. O que dentro é cómico é na verdade deformação e fora da casa não é mais do que banalidade e triste distância de vontades.
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Talvez ainda seja capaz de amar. Talvez não queira. Talvez seja capaz. Sei, porque sei – não porque tenha percebido, mas porque vivi – que as vidas a dois nunca são uma… e tanto que se desejou, prometeu, garantiu e jurou. E tantas vezes se mentiu e se foi enganado. Não no corpo. Não no amor. Não na convicção. Enganado pela vontade e imagem que se colocaram diante dos olhos.
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Talvez nas relações haja sempre um que goste mais do outro. Por vezes, um doentiamente mais do que outro. Por vezes, um mais cruel do que o outro. Talvez. E quando não há relação? Quando quem se deseja amar não seja amável. Quando a pessoa desejada exista apenas numa vontade ou numa imagem, num desejo filho da solidão e da tristeza.
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Fui mexer na minha caixinha de musas… umas estão preservadas ainda com os aromas das flores que trocámos. Umas desapareceram, esfumadas, porque nunca o foram, apenas exercícios de retórica e massagem de sedução infantil e egoísta da adolescência. Há musas tristes e molhadas das lágrimas. Há musas enternecedoras por toda a ingenuidade. Há musas de loucura com pedidos lancinantes para que largassem o noivo no altar e mergulhassem loucamente num desconhecido desequilibrado. Há musas que não mereceram. Há musas que não mereci. Há musas que nunca o foram, porque nem olhei ou nem percebi ou nem quis. Estão todas guardadas na caixinha das musas. Onde fui remexer.
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Há musas que desejei serem musas. Musas a quem sussurrei palavras que se gritam e declamam em gritos sonoros nas praças. E há musas que tendo tudo isso, levadas em andor, por devoção e esperança, esmagaram, indiferentes, os sentimentos crédulos do amante.
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Há musas que leram as palavras que lhes escreveram, coraram e silenciaram. Há musas que se afastaram zangadas. Há musas que não as leram ou, se as leram, desprezaram toda a energia que há numa semente e faz vingar uma planta, empurrando-a para além do solo em direcção ao Sol.
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Há musas que não são ingratas. São apenas elas próprias. Os poetas vestem as musas. Escovam-lhes o cabelo. Levam-lhes morangos à boca na sua época e descascam-lhes romãs. Aromas frescos de citrinos, vinho generoso e conversas de segredo.
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Há musas que só por engano se cruzaram com o seu poeta. O poeta sabe que não há enganos, porque o artificie de sentimentos sabe da sua matéria-prima, que trabalha com as ferramentas de letras.
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Com efeito. Enganos. Não são desencontros. São cumplicidades deformadas na casa cómica dos espelhos. Lá fora tudo volta a ser o que deve ser. As musas não existem e os poetas continuam poetas.
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Da vistoria à caixinha das musas soube o que sabia antes. Cinco musas de verdade, que nasceram de terramotos e se foram em maremotos. Uma viva. Uma morta. Três arrumadas no quarto do lado. Das cinco, a sexta é a que nunca existiu.
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A sexta de cinco musas nunca quis o seu poeta. Toda a poesia foi prado de papoilas pisadas em danças pueris e inconscientes. A musa não tem culpa, apenas não reparou.
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Nos dias de tédio, que são todos, a Dulcineia era a alegria que levava as lágrimas para fora do rosto. Não se pode apagar o que não existe. Está mais vazio o vazio que habita dentro dum homem triste.
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Se sou capaz de amar? Serei, mas não quero. Deixei o meu coração numa cidade que digo saber qual é. Não me lembro onde, dentro dela, o recolhi. Nem me lembro dele, sei que tive.
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Quando esperei voltar a tê-lo… Os olhos molhados pelo orvalho fresco da musa ficaram lacrimosos e quentes.
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A tristeza escalda. Escalda tanto que o coração, que já não tenho, não sente, numa dormência, numa fuga. A alma contorce-se com a dor, como a que sente um heroinómano na ressaca.
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O que se pode dizer? O que se diz todos os dias, do acordar ao dormir: tédio e marasmo. Dias de infelicidade precisa. Não reconheço a vida. Não reconheço o lugar. Descubro que com quem me cruzo quase não conheço ninguém. Confundo amigos com conhecidos e lamento todo o sentimento de desamor para comigo. Transbordo afectos. Transbordo porque excessivo. Desperdício e desajuste. O mal não está nos outros, está na fonte de lágrimas que tenho para amar.
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Sim, queria ser amado. Sim, mas preferi ser poeta, antes de nascer. O que faço com as musas? Uma está morta e nem fede. Três são memória de odor suave das flores secas. Não mereço cantar a viva. Das cinco, a sexta é a que me dói. Com todos os pregos do acordar para a realidade que sempre se soube e sempre se negou.
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Das cinco, a sexta é a única que nunca mereceu ser cantada. Toda ilusória, que só uma vez não se esqueceu de me dizer baixinho que gostara das palavras saídas das minhas mãos. Os espelhos da casa cómica dos espelhos tornaram-se, de repente, lisos e concretos.
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As luzes suaves da noite estrelada soçobraram na incandescência aflitiva dum holofote. Acordar, que já é noite, meio da noite, e é tempo de sofrer.
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Em sofrimento disse, uma vez, à sexta das cinco musas, que sofria. Esperei e recebi silêncio ou nem isso, mas silêncio de indiferença. Silêncio negligente, talvez egoísta de quem nunca se tocou pela dor. Sim, os poetas devem sofrer. Sem sofrimento não há palavras. Sim, mas sofrer por uma musa que exista!... Pois a sexta de cinco musas nem na verdade o foi, porque nunca se aceitou, nem tampouco me consolou quando lhe disse que sofria. Sofria não de amor, mas de morte. Da morte lenta da alma.
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Em saltos suaves de correria pueril, a sexta de cinco musas pisou-me, o prado verde e de papoilas. Os espelhos da casa cómica não se partiram. A luz dos holofotes revelou a crueldade grotesca do não existente.
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O tédio e o marasmo acalmados pela doce esperança numa não esperança, são agora simples e crus tédio e marasmo. O Diabo cobra sempre os seus silêncios.
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O coração esquecido algures mantém-se na caixa de veludo escarlate que não sei onde guardei. A alma chora-se em auto-comiseração. O corpo? Não me reconheço no espelho. Nem mesmo quando mais gordo me descubro mais magro.
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Mato-me. Mato-me matando. Mato assim, aqui e agora, a musa, que não me matando matou. Que não me amando não me deixou ama-la. A sexta de cinco!

terça-feira, janeiro 11, 2011

O fim a chegar

Não tenho dedos para te dar tanta ternura. Mereces que te trate como viola e te dedilhe até cantares prazeres.
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Deitados em lençóis amassados, lado a lado. Deitados e em palavras, em voz densa, mergulhados. Mergulhados num lago de intimidade e afecto.
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Não há horas para tantas palavras. Não há horas para tudo o que se deve fazer na cama. As noites são breves, o resto das horas são sono.
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Não há tempo para as perdas, que os dias correm e amanhecem muito cedo uns anos à frente.
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Mesmo sem o corpo entrar no corpo, o braço estendido sobre o outro afunda-se. Mesmo sem loucura, os cabelos entrançam-se nos dedos da parelha.
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A densa respiração engana. Não é a profundidade do desejo que exala, mas a do sono.
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Horas perdidas. Tempo que se desperdiça e sem pensar.
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Eu sem dedos para te dedilhar. Porque adormecendo. Tu e eles. Só as preocupações despertam. A monotonia é o que resta dum dia, semana, mês de trabalho.
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O fim não tarda.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O escravo da odalisca





















Já te abracei e aqueci os pés. Fiz-te cócegas e rir. Em troca essa mocidade, pueril e inteligente, que invejo e quero perpétua.
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Sonho acordado que sou tuaregue e tu odalisca. Sonho acordado em que a roupa da cama é a nossa tenda no deserto.
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És o meu harém, grupo de desejo de uma só pessoa para uma só pessoa.
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Às escuras. Nunca vi a tatuagem que tens escondida num local discreto. Nem às claras. Só tenho olhos para os teus olhos e boca para te beijar. Mãos para te tocar. Vontade de tocar em tudo. Para que quero eu ver marca superficial cutânea?
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Acordo todas as noites contigo. Só os dois na tenda armada. Eu de tenda armada.
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Quero-te. Não faço parte do teu mundo. Estarás sempre na casa ao lado. Estarei na outra rua.
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Uma vontade muito grande de fusão. Nos meus braços. Nos teus braços. Sem falar. Tu de cabeça para trás em deleite. Eu furioso atleta. Tu por cima, eu por cima. Todos de lado. Até à apoteose.
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Deixasse de sonhar e não seria mais feliz. Se não te posso ter em corpo. Se as almas não se encontram. Sonho-te para que tudo entre nós possa ser diferente do que é.

A casa da chuva

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Que a casa seja casa. A água da chuva fica no vidro. O frio entra mas amansa-se no calor eléctrico. Os gatos descansam do seu descanso, descansando sobre a cama ou num assento.
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A casa é casa. Quando fico sozinho deixo que as coisas sejam além do material. As gavetas guardam memórias. Os pratos evocam. Os objectos dizem-me do amor que já passou.
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Velas acesas e música. A viola da gamba. A sétima corda. A comida com levantamento de aromas e vapor. O vinho. No copo quase às escuras.
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Lembro-me do jantar que não se teve nesta mesa. Do amor que nunca mais se fez. Da última tarde de sexo. Em desengano. Fazia calor e, como sempre, estava bela e muito amante, amada.
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Depois foi-se o Verão. O Natal e o novo ano, entrou. A Primavera levou. Tudo se foi. O tinha e não tinha de ir. Desabrochou uma flor de diferença. Saudade sobre a saudade. Vieram males ao mundo.
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A casa é a casa. Em tantos anos, tem ficado a mesma. Como um mostruário de museu. As dores e os silêncios.
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Na cabeça, todas as conversas. Até as que se desejaram um dia vir a ter. Os sonhos em reconciliação, das visitas nocturnas. As visitas nocturnas a meio dos sonhos. Metassonho.
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Que a casa seja casa. Que seja como quiser, desde que a chuva fique do lado de fora. Já basta a chuva que tenho em mim.
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No frio, na noite, no céu azul os silêncios que chegaram com a partida. A casa ainda é a casa do tempo em que foi casa.
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O calor agora é eléctrico. O dantes era de lábios. Pudesse eu, ia buscar-te ao pôr-do-sol.
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sexta-feira, dezembro 24, 2010

Hoje é Natal





















Preciso-te. Com a boca toda. Preciso-te como se no amanhã pudesse não caber. Como se em toda a tristeza não tivesse onde chorar. Se o Natal não fosse também brilhar de olhos de tristeza…
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Lembro-me naquele dia todo negro me cantares flores, com as tuas mãos ausentes e o teu corpo também. É-me igual que não me ames, o teu amor existe no espaço onde o tempo não passa ou nem existe. Lugar de matemática pura e de física intangível. Tenha ou não luz.
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Possa ter um amor novo. E que os lençóis lavados e imaculados possam ser outro sudário de Turim. Iluminado por afectos e desejo. Um corpo nu e belo de mulher amada em marca-de-água. As noites todas, e uma a uma todas, de ansiedade da promessa.
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Possa ter um amor novo e o teu também. No universo infinito há-de haver um universo, ainda que infinitamente mais pequeno, só para te ter ainda. Não num planeta pequeno, nem numa anã branca. Mas fazendo amor como o pulsar dum quasar.
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Possa ter um amor novo. Digo-o lamentando porque já não tenho o teu. Às vezes nem sei das suas memórias. Arrumadas, lembro-me só que as tenho. E sei o que dizem, por isso quero-as escondidas.
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Quendera não estar ainda e agora a escrever-te saudades de amor. Quendera fosse já um rapagão de amores feitos. Quendera pairar como uma ave sobre o mal e a doença do amor. Quendera, quendera.
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Felizmente a tua ausência e memória fazem-me companhia. Assim tenho com quem passar o Natal, esquecendo-me que não tenho ninguém com quem o passar.

domingo, outubro 24, 2010

A nudez da morta

Cada pedaço de nudez é um mergulho para dentro do corpo que se vê.
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Ainda hoje não me lembrei de ti. Mas deixei-te um bocadinho de cor nos olhos a preto e branco. Que te lembres tu de mim.
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Imaginei-te perdida em marasmo. Só num nevoeiro. A cor será a luz que me afasta.
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Alguma coisa que não existe deve existir noutro lugar. Por isso tranquilizo-me por não ser amado. Ou engano-me. Num outro lugar terei as mãos apertadas da dor do prazer que se tem quando se tem dor. Dos corpos suados.
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Juntos, no escuro, despenhamos os lábios uns nos outros. Num momento só há beijo e nada mais, e as mãos entrelaçadas ora curiosas do corpo.
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Podiam os lábios ser flor se não fossem planta carnívora, desejada, para me comer. Sorriso pé-de-flor, encadeando-me para o abismo do amor para fazer.
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Ilusões. Não existes, em corpo, perto de mim.
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O silêncio da casa estorva-me o sono. Não estás. Estarás num Jardim celeste, quiçá morta esperando o momento em que me junte. Talvez enganando-me para que mergulhando num vórtice ascendente desapareça. Amas-me? Ainda?
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Escreve-me uma carta para que o amor não morra sozinho. Morra esvaindo-se, escorregando e esparramando-se no tempo.
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Queria morrer. Morrer de morrer. Morrer na morte. Morrer não de corpo, mas de alma. Para que as cinzas não tivessem de existir e a memória se esquecesse. Podia ser imortal ou descomprometido.
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Pior do que morrer é parar a ver o seu próprio funeral. Espectral e frio. Triste como um dia de chuva à tarde.
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A minha vida faz-se de impasses. Doutra forma já voaria sobre ti, voltando a poisar em febril êxtase. Se te amo? Como te posso amar se me sinto morto, alimentado apenas por memórias ou recordações imaginárias.
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Sentado frente à cama onde te deitaste nua, quero fumar olhando-te o corpo e vendo todo o tempo em que estivemos sem o outro.
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Sentado frente à cama onde te deitaste nua sofro e falta-me o ar. Sou capaz de chorar. Estou capaz de chorar. Fecho os olhos para que as lágrimas não vertam.
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Fecho os olhos para que verta e a água me emocione. Como antes me emocionara só de ver o corpo nu vagueando nas considerações acerca do tempo em que estivemos longe.
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Tenho uma tontura. Tenho tremor nas mãos. Como se fosse fazer amor pela primeira vez. Empedrenido e virginal.
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Tudo se pode resumir a um cigarro. Se fumasse deixaria cair a cinza. Enquanto olho para o teu corpo nu deitado.
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É um mergulho no tempo em que transitoriamente não nos conhecemos.
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Ficas a faltar quando dormes.
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Sonhando na penumbra do quarto vejo-me outra vez contigo. Gostaria que me tivesses escrito uma carta. Uma carta qualquer, para que o amor não tivesse morrido sozinho.
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Acordo lavado em lágrimas. Não estás e o silêncio da casa incomoda-me. Não estarás. Continuas morta.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Tempos do verbo amar





















Amaste-me imperfeito. Desejámos mais que perfeito. Amei-te perfeita. Não amo. Amarei? Talvez, mas nunca condicional.

Rosa-lírio

Rosa lírio. Flor azul de céu. Flor rara na sua quietude e espírito vivo, mais que as de mais. Numa seara cortada é azul sobre ouro e nas rochas é alegria grande em caule frágil.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Digo-te redondo e cheio

Quero-me em ti. Quero-te em mim. Quero-nos. Um. Dois. Um. Sabor de pele. Odor de corpo. Beijo de beijo. De mão em mão. De mão na pele. De mão na carne. De mão na boca e de boca em boca. Amor de luz na escuridão. Amor de olhos fechados à luz do dia. Tempo claro, de chuva na vidraça, de Sol nas telhas apontadas ao Tejo. Em qualquer lugar, tu e eu, nós em uníssono chamando um pelo outro. No gemido, na súplica, no desejo de desejar e no desejo de imaginar, no desejo de corresponder. A cor da tua pele só não é encarnada, porque encarnada é a carne que não vejo debaixo da tua pele. O sabor do odor do teu beijo. O odor da tua respiração. A ânsia do meu beijo. O desejo de te querer sempre mais. Para sempre. Para a eternidade. Sempre. Sempre tu. Sempre eu à tua espera ou contigo. Contigo sempre à espera que um dia seja o dia da eternidade. Sonhando a dormir, de sentidos bem abertos acordado, afirmo-te um amo-te, com todas as letras e sonoras sílabas. Amo-te, redondo e cheio. Amo-te suave e afiado, cortando em sangue. Amo-te, porque não podemos outra coisa. Amo-te.

domingo, outubro 10, 2010

Até logo à noite

O corpo está emprestado à alma e a alma encostada ao corpo. Quando saio de mim entro em ti ou encontro-me contigo no outro mundo. O meu desejo tem a tua voz e o pensamento não vai muito além de ti. És alma siamesa deslocada. Mar, continuação de rio com sal. Abraço fora do corpo, distância aquém da alma. Na memória o beijo do mundo e os corpos por momentos siameses, em água, desejo e êxtase. Nas bocas as palavras, de tanta coisa que se quis. Os lençóis ainda quentes da noite passada… há tantos anos. Não há beijo que não me venha nem frio que não me tragas. Sabendo eu que não há beijo que não te chegue nem meu calor que não desejes. Fim. Até logo à noite.

Os poetas e as musas

Os poetas são de vidro e as musas de aço. Em nudez sonham-nas despidas.

terça-feira, outubro 05, 2010

Ir, chegar, como se não estivesse

A meio caminho e já estou. Cheguei porque imaginei o salto de baixo até muito acima. Na distracção fiz a pé o que não quis, sem notar o tempo e o esforço. Voar sem levantar voo. Enquanto uns amam as viagens, outros apreciam os locais. Prefiro dormir, só dormir, para não ter de ir a lado nenhum nem estar noutro local que não a minha cama.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Quase ilha

A minha quase ilha de quase névoa. Onde as gaivotas também pousam e o vento traz cinzentos do mar.
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Quase fora do contorno, como se fosse a lápis a paisagem. Quase fora do contorno, com os pés em descanso para que o corpo não caia para lá da quase ilha.
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Está frio, o cinzento. Esta quase ilha de quase sempre Inverno. Quase sempre o mesmo.
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As quase ilhas têm água a toda a volta, como as ilhas.
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São quase, porque delas não se sai. Está-se na quase ilha e pode ser-se num lugar qualquer.
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As quase ilhas são ingovernáveis, por não haver nada para governar. Não são selvagens nem humanizadas. Nem assim-assim.
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São lugares de estar. Estar sempre, ainda que se possa ser em qualquer lugar. Não se explicam. Não há do que se possa explicar.
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A quase ilha tem água fria e pedras de limos e alfaces-do-mar. Tem pedras molhadas e areia salgada.
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No Natal é outro dia. Dia de solidão mais só. Se não há ninguém nas ruas das cidades... Ninguém para avistar no céu. Ninguém à frente até ao horizonte.
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O Natal é outra solidão. Mas há os caranguejos, os mexilhões e tudo. No Natal, tudo fica a preto-e-branco, em contraste suave, no cinzento de quase nada.
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No Natal não há navios a apitar como no Ano Novo. Tirando o dia de Natal é quase sempre Natal na minha quase ilha.
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Lugar de solidão para amarrar os braços às pernas e enfiar a cabeça no buraco do seu conjunto. Cabeça encaixada e ombros encolhidos.
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Tanto faz se a brisa faz voar a melena. Não há ninguém para secar as lágrimas. Nem ninguém para saber se as feridas se lambem.
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Quase névoa e só o mar a bichanar. Como se fosse um chamamento de Deus, que não me quer só.
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Quase não conheço a quase ilha. Na verdade, não consigo sair deste sítio em que a areia se cola aos pés e as pedras os fazem escorregar.
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Não sei o que é a toda a volta. Instintivamente, com o sexto sentido, sei que se cerca de água. Com esse sexto sentido sei que nela não se entra e dela não se sai.
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Mas pode ser-se noutro lugar.
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Habitante único. Pode ser-se outro na minha quase ilha.

domingo, outubro 03, 2010

Mulher-gato

Os gatos não miam assim, são mais subtis. Tal como quando ela não olha para mim. Imagino o calor da boca e do odor da respiração, tão fresco e higiénico. Com patinhas de lã os gatos saltam para cima de quem gostam, como imagino que ela fizesse comigo quando, semi-adormecido, esperasse por ela na cama. Quase sei a temperatura de pele e a forma como se deita. Miau. Sou rato dum gato que não sabe se vai ser caçado, mas que gostaria muito. Gato de cidade não caça, mas gosta de brincar. Basta-me.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Diz-me o que dizes aos amores

Diz-me o que dizes aos amores para que saiba se quero que mo digas.
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Dá-me beijos e não palavras, as mãos, a boca e a pele. Dá-me o abraço que se dá quando se quer abraçar. E o olhar de quem não sabe o que vê.
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Toma-me e descansa-me. Afaga-me a cabeça e adormece-me com conversas que não interessam. A sonhar escutar-te-ei poemando o amor que nunca se chega a fazer.
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Não prometo acordar a tempo de ainda ser dia. Nem noite. Não prometo pérolas nem uma vida sobre o mundo. Não prometo a miséria e o amor eterno e infinito. Juro que serei amante e que te prometerei tudo o que queiras, tudo o que se quiser e até mesmo o que prometi não te prometer.
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Uma guerra de almofadas, um sumo de laranja. A cama entornada de suores. A janela aberta e a porta fechada por engano. Podemos inalar a tarde, onde acordamos, o que acordamos fazer. Quando acordarmos.
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Inspirar e soltar um vendaval.
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Jogar o corpo um contra a pele. Teremos a pele viciada. A boca marcada na barriga, nos seios, nas costas, nas pernas, na boca.
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Quando me dou às cartas de amor por ti, quando sonho que te tenho, quando finjo ser correspondido, juro que te amo e sou amado. Não é ilusão. Amo-te e com todas as juras de amor. As juras duram o tempo duma loucura. Nada de falsidade, apenas o pulsar dum quasar.
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Declaro-me assim. Tenho as mãos trémulas e a voz indecisa na força e no tom. O coração bate angustiado e a cabeça pensa muita coisa só tendo uma coisa em mente:
- Diz-me o que dizes aos amores para que saiba se quero que mo digas.

sábado, setembro 11, 2010

Rever o coração





















Em Edimburgo, há dias, revi o meu coração, mas não o trouxe. Deixei-o estar onde é anónimo e onde não tem olhos para poder amar nem boca para poetar. Que viva feliz para sempre.

Na ponte

A miúda intangível está sentada numa ponte com os pés a levitarem no ar. A brisa desenha-lhe os lábios em posição de sorrir. A paisagem ilumina-lhe os olhos e o rio reflecte-se-lhe no nariz e maçãs. Os cabelos como sempre são indisciplinados, mas não insolentes.
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Não passa duma miúda. Tem na cabeça todo o espaço preciso para uma vida. Por enquanto só guarda felicidades simples e descobertas dos primeiros amores.
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Como um rio, já saiu do leito, mas ainda sem as angústias de dilúvio que um só lenço não chega para saciar. Dores talvez, mas não as tem como quem herda afluentes de tristezas.
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Ainda tem o curso tão curto e sóbrio, que um velho navio não o pode navegar. É rio de cascata. Rio de cama. Rio de desejo, semente dispersa em pele e lençóis.
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A vê-la, cá de baixo como quem venera uma deusa, imagino-me tocando-lhe os pés suspensos no ar. A minha boca voa até onde a roupa já não tapa, percorre-lhe pernas e seios e fonte. A sua boca em êxtase que espere pelos beijos e gema pedindo que a tome.
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Não me vê. Não me sente. Não me quer. E eu, contudo, tão perto imaginando-a minha. Tenho inveja do Sol, do vento, da água e de tudo o que lhe toca. Ela voando e eu aterrado.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Verbo ter, conjugando sem ter

Tenho na pele e nos lábios a sensação de ter tido por uma noite. Uma só noite. Uma só bastou para que saciasse a curiosidade e me enganasse os afectos. Uma festa de carne pode transformar-se numa ilusão.
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Já noutra noite sonhei-te. Completamente nu perante uma rua de gente anónima. Declamava amor em poemas e tu ainda vestida ouvias-me sem corar. Estava envergonhado e contudo indiferente aos terceiros.
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Aflito percorri caminhos-de-ferro a pé, fugi de hordas que me assaltavam. Fugi para chegar ao pé de ti. Embarquei em comboios por terras estrangeiras, contornando curvas de rio e de nível, vi declives com vinhas. Cheguei a ti numa gare escura, de noite, numa cidade desconhecida. Mas cheguei a ti.
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De tanto te querer… desencarnei por minutos e entrei em ti. Tão profundamente em ti que trago nos cabelos o teu cheiro. Nas costas as marcas das tuas mãos suadas. Amei-te corpo e conheci-te íntima.
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O meu peito não tem coração, mas memória. Marcados a ferro, os monogramas de quem amei. Há arranhões de esgrima dos afectos. As cicatrizes ainda doem. Quero-te em desesperança.
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Como pude ter-te por uma noite se não sei amar? Só faço amor amando. Não me fazem sem mo dar. Não o faço de coração cerrado. Tive-te, porém, denso e quente. Pesado e húmido. Animal em ternura.
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Como pude?

sábado, setembro 04, 2010

A nova musa

















Tenho uma musa nova. É pequenina, porque é pequenina. Tenho um amorzinho pequenino como um bonsai. Um dia a árvore será centenária, mas não sei se será ainda bonsai.
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Quando estou só com ela dou-lhe banho. Embrulho-a numa toalha seca e macia e deito-a confortável na cama. Depois, como antes, envolvo-a num desejo cordato no gesto e infernal na alma.
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Toda a força da minha abstinência está concentrada na fogueira do meu novo amor. Os incêndios nascem das chispas. Os meus do luzir inapropriado e inoportuno, do desassossego. Toda a minha abstinência faz amor com a nova musa.
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Sou feiticeiro aprisionado num corpo que não me deixa voar. Como um vampiro preciso de força vital para viver. Esta minha nova musa, tão tenrinha e feliz, é água doce na torreira do desejo. Mas também gasolina em incêndio.
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Não são suspiros que me traz, mas a fantasia dum namoro e cama. Quero-a como cordeiro sacrificial. Sempre que escrevo tenho-a nua querendo-me, de corpo quente e boca húmida.
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É um amor pequenino. Um prado com mimosas. Nele me estico e adormeço, acordo saciado e penso morrer. Queira um dia o consiga, partilhando os mesmos lençóis.

As musas





















Alimento-me de mulheres. Da pele e da carne. Da voz e do olhar. Das mãos que me amam e do meu desejo. Não escrevo se não tiver uma musa que me entre e me abra ou feche janelas. Sem musa não tenho nem luz nem penumbra nem escuridão. Apenas um vazio, espaço onde o nada consegue existir.
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A musa é alimento. Martiriza-me com desgostos. Anima-me com esperanças. Nada precisa ou pode fazer, basta-lhe estar onde penso que está.
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As musas chegam e também partem. Voltam quando não as espero. Acordam-me de noite. Seduzem-me e desarrumam-me. Doem-me e saciam-me.
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Apaixono-me pelas musas e posso amar mais do que uma. Posso não amar nenhuma. Só querendo as tenho. Não aprisiono, vivem secretamente em mim, mesmo desconhecendo.
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Faço amor com as musas. Desejo-as. E depois de abandonado, pela mulher de carne verdadeira, continuo alimentado por ela. Faço amor com as musas ainda que possa nunca o ter feito com a mulher que traz a inspiração.
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As musas são pessoas importantes. Sem elas não escrevo ou escrevo desinteressadamente. Sem escrever e sem orgasmo não vivo. As musas dão-me tesão. Na escrita e no corpo. São fadas e são fodas. Amo as minhas musas.

A primeira musa

Por ti, densidade, já me apaixonei, amei e desamei tantas vezes que desisti de deixar de te querer. Serás minha para todo o sempre, como em tempos prometemos. Ainda que não me olhes nos olhos, abraças-me todas as noites durante o sono.
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Densidade no olhar e na fala, amor profundo numa fonte. Coração aberto, muito grande, e tantas intimidades. Tantas que se as contasse todas estariam tão secretas como antes.
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Noite a dentro, em vigília, peço a quem pode que nos una. Porque colados andamos nós sem o querermos saber.
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Invento, de vez em quando, artifícios e amores de substituição. Nenhum medra. Morrem de desgosto, morrem de desilusão, morrem de distância, morrem por quase nada.
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O amor vai e vem como as ondas. Mas por ti sinto o mar.

As papoilas

Espero que tenhas gostado destas flores que não te enviei, por saber que a língua das flores fala duas línguas, a de quem manda e a de quem recebe.
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Mandei-as por a paixão inviável mo determinar. Mandei-as sem ter mandado pela certeza de nunca as desembrulhares com o mesmo sentimento de quem as envia.
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As flores não são um espelho da alma, mas o sussurro dum amante que não sabe o que dizer. Se soubesse não mandaria flores, mas escreveria um bilhete.
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Depois há os dândis, que, à falta de cultura, banalizam qualquer coisa e, por não saberem escrever, mandam rosas. Quem diz dândis, diz outra coisa qualquer que signifique o mesmo acerca de quem é embrulho de qualquer coisa sem relevância.
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As flores que não te mandei não têm grande aroma, porque são de estufa. Se ainda o não fossem talvez tas mandasse.
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Prefiro ir um dia contigo mostrar-te as papoilas e, no meio da vegetação, experimentar a origem do mundo.
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Antes e depois um piquenique que retire a animalidade aos animais que se querem. Um arrebatamento de civilização que se pode fazer com um só copo de vinho. Partida e chegada de compostura. Origem de sorrisos e rubores.
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Se me prometeres vir comigo experimentar a suavidade das ervas e os cantares naturais, prometo oferecer-te flores das verdadeiras, das que cheiram bem e mal, apanhadas à beira da cama onde se faz amor.
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Prometo não contar a ninguém que não sabes o que são papoilas. Só direi que conheces rosas.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Estrelas





















Se me acreditasses quando te digo o que penso das estrelas olharias o céu com outros olhos. Não te prometo a abóbada celeste, mas apenas uma nesga de luz distante. Há dias em que o azul-negro do céu tem mais luz do que um dia de Sol. Basta acreditar numa revelação. A palavra certa levanta um véu invisível e toda a luz possível ilumina o que há para dizer. Tudo mais selo com a certeza de que as estrelas não caem do céu.

A namorada





















Preciso duma namorada com quem não tenha de namorar.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Alma de Sol e chuva





















Alma de Sol e chuva. No ribeiro. As pedras também dormem, mas ao olhar fingem. Entre as ervas verdes e o frio. São seixos, dizem. Às vezes aprisionados em casas sem campo, às vezes secas. São como as águias e as lebres, as pedras. Penso, não juro, que as flores não se chegam perto. Pelo menos as papoilas, não me lembro. Sob as árvores descansa-se bem. Dos pés doridos do andar sobre os seixos, no caminho do banho bravio. No Inverno, com certeza também no Outono, até na Primavera e em alguns dias do Verão, as águas, que lhe vêm, vêm também do céu. Por isso, alma de Sol e chuva. As pedras não mentem; quando estão molhadas, estão mesmo molhadas. Os seixos não choram, mesmo quando aprisionados em casas sem campo, quase sempre secas.