quarta-feira, novembro 25, 2009

Confissão audiovisual

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Não sei onde escondi os dias felizes, davam-me jeito nestes tempos sem futuro. Existo numa cassete de vê-aga-ésse, perdendo magnetismo e esquecido dos dias além de próximos.
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Não vou em alta definição. Aliás, na melhor das hipóteses, não tenho nada definido. Haja uma réstia de esperança.
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O som sarraunde apenas traz as vozes dum passado que não quero ouvir. Mas, não há uma vidente que me bichane o futuro?
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Além de tudo o mais, a vizinhança estranharia as palavras tão baixas numa casa de televisão com som tão alto. Tantas horas no dia.
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Os meus dias fazem-se de tê-vê. Directamente apontada à cabeça. Directamente injectada nas veias.
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As minhas noites são de costas torcidas, de abandono no sofá, para curtir os efeitos do audiovisual que me entorpece.
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Não leio! Não leio! A pedra dum livro é ligeira e difícil. Mesmo na dureza das palavras, os livros não batem. Só a televisão dá moca.
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Como qualquer dependente, a droga não me sacia. A televisão não me satisfaz nem chega. Nunca farta, fartando a cada minuto que passa.
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Espero, a esperança pouca que me resta, a emissão que me dê esperança. Não que me devolva os dias felizes, mas que me dê alguma utilidade aos que tenho pela frente.

Letra B


terça-feira, novembro 24, 2009

sexta-feira, novembro 20, 2009

quinta-feira, novembro 19, 2009

Dias felizes

A felicidade nos dias tristes. Não deixo de pensar nisso, para que os dias valham as vinte e quatro horas. Parece tão distante quanto o fim do arco-iris. Chamo esperança à vontade de ir vivendo. O dia cinzento se for de tranquilidade será feliz. Mas as insuficiências tremem-me, o medo está e o café não me mantém acordado. Há solidão e tédio. Falta uma vidraça virada para a água. A luz de dentro filtra-se na vegetação, nos ramos dos limoeiros, do jardim. Dentro é ausência de perturbação, só o tique-taque do relógio da sala. Nem o vento de fora faz ruído. Nem a madeira range. Dias felizes?

Letra V


terça-feira, novembro 17, 2009

Marcha

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Gostava de ouvir a marcha fúnebre que tencionam tocar no meu funeral, é que depois de morto será mais complicado pronunciar-me e espero partir já a trautear qualquer coisa em memória destes dias.

Estar lá

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Às vezes lembro-me de Albufeira e das mães de família de classe média muito entornadas, muito inglesas… dos beijos deles, encontrados à pressa na escuridão ou depois dos escaldões da praia. Eles, os outros, os delas, não viam, fingiam ou não estavam. Tudo o resto sempre lá esteve e está.

Letra T


domingo, novembro 15, 2009

Namoro antigo

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Ainda bem que te encontrei. Vamos retomar a conversa onde a deixámos há vinte anos. Está bem. Então, ficas na tua casa ou na minha?

Anonimato

No jardim das margaridas, estás à conversa com o invisível. Vestida como uma criança. Não me reparas, mas digo-te. Sem resposta. Mil passos mais à frente, sentado num banco verde junto ao chafariz, falas-me e não me dizes quem és. Podes ser quem quiseres, acredito. Nas tuas palavras, acredito. Negas-me a identidade. Tenho direito à ilusão de saber o teu nome.

Futuro

O futuro passa por aqui e estou a vê-lo passar.

Quase como Magritte 2





















Harpsichord!

Quase como Magritte 1

Sleeve!

Adolescências

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Os concertos são uma adolescência. Felizes na chegada e no fim, com dor pelo meio. Uma memória de prata, um lugar onde não se pode voltar. Uma vida a passar que só deseja o regresso. Nostalgia no presente e no futuro, quando for passado.

98.99.00 Agosto





















Agosto, triste Agosto. Feliz Agosto. O mais triste dos Agostos. Monotonia de Agostos.

Arte no fim do mundo

No fim do mundo vão restar a arte e os momentos sublimes. Seria um desperdício se assim não fosse. Mas e a beleza do efémero, o que se faz com ela?

Tempo de amor

















Os meus namoros duram cada vez mais tempo. O último chegou a uma hora. Este promete durar até ao pôr-do-sol.

Meu amor

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Perdoo-te todo o mal que te fiz.

Letra R


Letra Q


terça-feira, novembro 10, 2009

Nunca conseguirás





















Há miúdas que são tão miúdas, tão quase louras, tão boas e tão putas, que nunca serão tuas!

Ainda a propósito do dia de ontem














Contra os comunistas. Contra os fascistas. Contra os anti-comunistas. Contra os anti-fascistas. Contra os anti-anti-comunistas. Contra os anti-anti-fascistas. Contra todos os anti. Sou do contra, porque sou contra. Se for a favor quase ninguém pergunta porquê. Sou contra os extremos e o meio também. Voto, porque voto. Porque faz falta votar. Porque é importante votar. Mas não darei os votos a comunistas nem a fascistas. Já todos e a humanidade temos deles que baste.

Rosa-esturro

- Já reparaste que, ultimamente, perto de muitos socialistas cheira a esturro?
- São rosas, senhor!...

Letra N


segunda-feira, novembro 09, 2009

Festa dos vinte anos

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Foi bonita a festa, pá! Triste, só a incapacidade dos comunistas portugueses em assumirem os crimes dos regimes totalitários do Leste. Triste é ainda haver comunismo. de resto, a festa foi e é bonita.

A angústia da dança macabra

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Angústia nocturna. Angústia matutina. Angústia nas horas seguintes que se vivem no dia. Tudo por amor e receio. Tudo por negação e sangria. Como uma faca a espetar-se e a cortar, sem matar.
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Acordar outra vez contigo sem te ter ao lado. Respirar sob o peso dum corpo sobre uma almofada tapando a respiração. Do desejo de viver e o de acordar. Angústia.
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Adormecer outra vez sem te ter ao lado. Saber que vives. Saber-te morta. Saber-te ausente. Saber-te longe. Saber-te viva nos meus sonhos.
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Existes como uma bailarina de dança macabra, como um fantasma. És o amor que se recusa a morrer e rejeita viver. Não te enterro nem te rezo missa de corpo presente. Angústia ao acordar, depois do sonho.
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Angústia depois do sonho. Entre o que se viveu e o se sonha. O desejo e o pesadelo. O sexo ardente e doloroso. A faca que fere e não mata. Um fantasma numa dança macabra. Angústia.

Cromossomas

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Um homem belo tem traços de mulher. Uma mulher bela é muito mais mulher. Tal como é XX e o homem XY. A arte, no masculino, é também sempre feminina. Se um artista precisa duma mulher, uma mulher não precisa de nenhum artista para ser bela.

Letra M


domingo, novembro 08, 2009

Em poucas linhas

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A vida vai toda em poucas palavras. Só por transtorno dizemos demais. Só por vaidade a escrevemos. Só por piedade a poupamos a outros.
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A minha vida contigo é ainda mais curta. Talvez nem valha estas linhas. Tu vales. A nossa vida não.
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Sempre fomos um amor pequenino. Queria-lo em botão. Queria-o como uma conífera. Não foi por isso, mas por um amor novo.
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Um amor novo morto antes da chegada. Não há dia que não me lembre desse amor novo no nosso amor novo.
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Ficámos a meio dum beijo.

Casa de luz tão triste


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Casa de luz tão triste. Chuva tão triste lá fora. Corações cinzentos. Duas solidões. A memória dum tempo que se não viveu. Há muitos anos, há muitos anos. Cinquenta anos de vida cinzenta, de nuvens escuras e fotografias sem vento.
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Casa de luz tão triste. Duas vidas numa mesma cidade. Lago de lágrimas contidas na fonte, o coração encharcado. Pensamento em repetição circular. Mãos de desejo. Mãos esquivas.
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Chuva tão triste lá fora. Quarto tão pesado. Luz tão escura. Frio húmido. Solidão tão seca. Memória fúnebre. Amor tão vivo. Amor desolado. Adormecer para enganar a dor. Acordar para matar a ânsia.
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Casa de chuva. Ar pesado. Luz fúnebre. Quarto sem retorno. Passos sem volta. Memória sem avanço. Armazém de tristeza.
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Janela sem vista. Luz tão mole. Coração de subcave. Vida de subcave. Luz de subcave. Amor sepultado vivo. Cadáver sem odor. Desfalecimento interrompido. Amor suicidado.

Letra L


Letra K


quinta-feira, novembro 05, 2009

Letra I

Vinhos capitais





















Uma capital não é o local mais óbvio para se encontrarem vinhedos. Lisboa é talvez a excepção. Há séculos, a capital portuguesa acolhia algumas centenas de milhares de pessoas e os seus arrabaldes de Alcântara e do Lumiar abasteciam-na de vinho. A cidade cresceu ao longo do Tejo, galgou colinas e vales, espalhou-se pela zona saloia, atravessou o rio largo e tornou-se vasta como uma província.
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O século XX trouxe a indústria, a mecanização, o aumento da natalidade e da esperança de vida. Lisboa acenou com uma vida menos dura e melhores rendimentos às populações rurais. A pequena cidade tornou-se numa metrópole, hoje com mais de 2,6 milhões de habitantes. O cimento e o alcatrão engoliram searas, olivais e vinhedos. Na margem Norte da Área Metropolitana resistem ainda três vinhas únicas, com denominação de origem controlada (DOC): Bucelas, Colares e Carcavelos. Além rio, a urbe aproximou os vinhos da península de Setúbal.
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O vinho doce das praias
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A vista azul atraiu moradores e os construtores ergueram subúrbios à beira do mar. O Vinho de Carcavelos foi perdendo viabilidade. Se até ao início da década de 80 do século XX ainda havia diversas quintas em laboração, hoje restam apenas duas, num total de apenas 9,5 hectares de vinha.
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Na linha do Estoril há quem faça vinho de missa, mas quase todas as quintas morreram ou deixaram a vinha sem função. A Quinta dos Pesos, pertença da família Bullosa, é hoje a decana. A esperança de salvação está na Estação Agronómica Nacional (EAN), um departamento do Ministério da Agricultura, que desde 1983/4 produz Vinho de Carcavelos. Hoje conta com seis hectares e no próximo terá oito. Esta exploração tem uma colecção de cepas, destinada a fins científicos e à melhoria da diversidade genética.
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O Carcavelos já foi uma joia nacional. Em 1752, o rei Dom José enviou-o de presente ao imperador da China. O marquês de Pombal era um apreciador e na sua quinta de Oeiras (da qual tinha o título de conde) produzia-o – sendo essa propriedade a mesma onde hoje está instalada a EAN. Sebastião José de Carvalho e Melo é célebre pela protecção que deu aos vinhos do Douro, cuja região foi a primeira do mundo a ser demarcada. O ministro decretou pena de morte a quem introduzisse vinho na região duriense. Apenas uma excepção: o Carcavelos, refere António Mexia, director da EAN.
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A grande divulgação deste vinho foi obra dos ingleses que acorreram a Portugal a quando das invasões francesas. Terão sido os soltados britânicos os incentivadores da fortificação, ou seja a adição de aguardente por forma a prolongar a vida do vinho. Contudo, só em 1911 é que a região foi demarcada. Consta que, em 1917, as tropas bolcheviques encontraram garrafas de Carcavelos nas caves do czar, mas não se sabe que destino terão tido... mas imagina-se.
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Aos vivas da escrita dos «vencidos da vida» oposeram-se três maleitas que quase o fizeram morrer: o oídio (1852), a filoxera (1871) e o míldio (1882). Na década de 1880 a produção passou de 3000 pipas para apenas 13, sublinha o director da EAN.
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O Carcavelos provém de encepamentos com, pelo menos, 75% de castas galego dourado, boal, ratinho, arinto (brancas), periquita e preto martinho (tintas). Contudo, é sempre «branco», uma vez que as variedades tintas são processadas em bica aberta, para as películas não tingirem o mosto. Mas, a EAN tenciona realizar uma experiência de produção de tinto. Tal como acontece com o Vinho do Porto corrente (ruby e tawny), é comum o Carcavelos ser o lote de diferentes anos.
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O francês de Sintra
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Quando Dom afonso III fez a doação do reguengo de Colares impôs o cultivo da vinha, tendo sido plantadas vides vindas de França. Os primeiros registos de exportação datam do século XIV, mas a fama só aconteceu no século XIX com a filoxera, que lhe abriu o mercado. O decreto de reconhecimento aconteceu em 1908. Este é um vinho exigente que precisa de tempo e de sabedoria para ser bebido e sobre o qual disseram ser o mais francês dos vinhos portugueses.
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A filoxera dizimou as vinhas europeias, fazendo com que as vides rejeitassem as próprias raízes. O pulgão, do tamanho da cabeça de um alfinete, parou nas areias e os vinhedos de Colares estão em areais. Aqui as vinhas estão no chamado pé-franco e não, como é comum, enxertadas em vides americanas.
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Nenhum tinto pode conter menos de 80% da casta ramisco (tinto) ou da malvasia (branco) e tem, forçosamente, de vir de cepas enterradas na areia. O tinto exige envelhecimento, sob pena de estar taninoso, adtringente e áspero. O tempo torna-o delicado, suave e ameno como o clima de Colares.
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A região de abrange apenas 22 hectares. A pressão imobiliária e o abandono da agricultura ditaram a decadência. Em 1999, a então presidente da Câmara de Sintra, Edite Estrela, solicitou a Carlos Monjardino que ajudasse a salvar o Colares. A Sociedade das Vinhas da Areia, detida pela Fundação Oriente, tem hoje 8,5 hectares de areia produtiva, estando previsto para o segundo semestre deste ano o lançamento do seu primeiro vinho, com a marca histórica MJC Colares.
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O enólogo Paolo Fiuza Nigra, conhecido pelas suas criações no Ribatejo e Alentejo, é o alquimista de serviço e a sua missão é a de conseguir um vinho com uma qualidade idêntica há de outrora e, ao mesmo tempo, conseguir que se beba com poucos anos de guarda. O enólogo optou por só usar uvas ramisco, por não compensar fazer outros bagos enfrentar um temperamento tão forte quanto o da casta maior.
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A vida moderna não se compadece com a necessidade de repouso do ramisco, tradicionalmente bebido entre os 20 e os 40 anos. O MJC Colares que vai surgir deverá estar bem bebível com quatro anos e promete de longevidade, adianta Paolo Nigra.
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Por enquanto, esta empresa apenas vai produzir tinto, embora preveja para o lançamento de branco. A demora na chegada ao mercado deveu-se a problemas com a disponibilidade de ramisco e com a não satisfação com a qualidade obtida.
João Goulão chefiou as operações no campo e uma revolução na região, pois as vides em vez de rastejarem pela areia (com os cachos tradicionalmente levantados por pauzinhos para que não assem) estão levantadas e conhecem, pela primeira vez, a rega.
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Uma brisa fresca engarrafada
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O Vinho de Bucelas é perfumado e seco. É vivo e fresco e com uma acidez bem equilibrada e agradável. Num país em que o vinho é sinónimo de tinto, Bucelas só o branco tem direito a denominação. Aqui manda o arinto.
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O marquês de Pombal protegeu estas vinhas, pelo que no seu caminho para o exílio pode pernoitar na Quinta da Romeira sem sobressalto, enquanto noutras terras sentia a sua carruagem ser apedrejada.
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O reconhecimento do Bucelas só aconteceu em 1911. Mas já antes tinha destaque. As tropas inglesas que combateram a forças napoleónicas gostaram da sua frescura e levaram-no de volta a casa. O duque de Wellington te-lo-á dado a provar ao futuro rei Jorge III, que muito o apreciou.
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A fortuna do célebre Camilo Alves foi feita com vinho, muito dele de Bucelas. Ainda hoje as Caves Velhas, criadas por esse magnata, produzem bem e bastante nestas terras de Loures.
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O mais pequeno produtor de Bucelas também descende de Camilo Alves e tem inovado por estas bandas. António Paneiro Pinto é responsável pela marca Chão do Prado, que estreou na região o espumante e colheita tardia. Exótico por terras portuguesas, o colheita tardia faz-se com as uvas já quase em passa e com o fungo botritys (podridão nobre), que lhe dá um travo especial muito delicado. O Chão do Prado tem também branco estagiado em madeira, que pode bater-se com comidas mais pesadas e esperar mais tempo para ser bebido, embora perdendo frescura.
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Entre o Tejo e o Sado
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A região vinícola de Terras do Sado abrange todo o distrito de Setúbal, desde a vista do Tejo até aos seus quatro concelhos alentejanos. Nas terras da margem direita do Sado encontram-se as denominações Setúbal e Palmela.
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A produção de vinho na Península de Setúbal remonta ao tempo em que os fenícios escalavam a costa portuguesa, havendo mesmo quem diga que para ali levaram castas da Ásia menor. Outros impulsos foram dados pelos colonizadores romanos e árabes. Dom Dinis também fomentou a vinha nestas landas, mas a delimitação só aconteceu em 1907.
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José Maria da Fonseca é o nome maior dos viticultores sadinos, embora tenha nascido em Nelas. A empresa que criou com o seu nome, em 1834, ainda hoje existe e é uma produtora de grande dimensão. Hexagon é o novo marco da empresa, um topo de gama classificado como vinho regional Terras do Sado, mas o emblema da casa talvez seja o Periquita, que, com mais de 150 anos, é a marca vínica mais antiga do país.
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José Maria da Fonseca foi também o responsável pela introdução da casta simbólica da região: a castelão francês, que trouxe do ribatejo e que nestas paragens adoptou o nome de periquita, por ter sido plantada na Quinta da Cova da Periquita.
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A Quinta da Bacalhôa – Vinhos de Portugal é a outra referência da região. A empresa mudou em Junho de denominação (a antiga JP Vinhos), passando a adoptar a propriedade do seu actual patrão, o empresário Joe Berardo. Quinta da bacalhoa, Palácio da Bacalhoa e Má Partilha são alguns dos mais notáveis citados vinhos desta casa.
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O Setúbal é um vinho generoso, muito fino e elegante. O mais conhecido é o branco, que se deve beber fresco. A sua cor vai do topázio-claro ao âmbar, tem aroma de flores e na boca evoca mel, um pouco de laranja e tâmaras. O tinto é menos conhecido. A prova surpreende, por ultrapassar a promessa deixada pelo aroma.
A sua denominação implica que, pelo menos, 67% dos encepamentos sejam de moscatel de Alexandria (branco) ou de moscatel roxo (tinto). Para ostentar a designação de Moscatel de Setúbal a percentagem mínima destas castas sobe para 85%.
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Quando se pensa em moscatel o topónimo Setúbal não é o único a surgir na mente, pois no Douro fazem-se também vinhos com idêntica menção. Além das diferenças do clima e do solo, a casta branca com que se faz o Moscatel de Setúbal não é a mesma dos seus homónimos do Douro (Alijó e Favaios), onde reina s moscatel galego.
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A fama dos vinhos de Setúbal é antiga e sabe-se que em 1675 foram exportadas 350 barricas. Do século XVI há registos de um banquete em que foi servido o «precioso Setúbal» e dois séculos depois era consumido com alegria na corte russa.
O Setúbal é um vinho fortificado. A fermentação é parada com a adição de aguardente vínica. As peles das uvas permanecem na cuba durante seis meses, o que confere maior complexidade. A Bacalhôa utiliza barricas de madeira usada para envelhecer os seus moscatéis, explica Rita Cabral de Almeida, responsável pelo marketing. Os mais correntes passam três anos em barrica, mas são também produzidos com oito e 20 anos.
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Os vinhos de Palmela são de pasto e menos célebres que os vizinhos de Setúbal. A denominação é recente e resulta de um reajustamento que levou também à extinção da denominação Arrábida. No entanto, a vinha tem sido cultivada no concelho desde há séculos, como se prova na referência da carta de foral, passada em 1185 por Dom Afonso Henriques.
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Em relação a Setúbal, os solos de Palmela são mais pobres, pois são arenosos. O cultivo da vinha nestas areias terá acontecido no século XIX, devido à filoxera. Os vinhos tintos são encorpados, de cor intensa e com aroma a frutos secos e especiarias. O tempo torna-os mais macios. Os brancos não são uma especialidade.

Tokay e provai ... e não quereis outra coisa!

















Até à divulgação do Vinho do Porto, o Tokay foi o grande vinho da realeza. Este néctar branco pode ter sido destronado, mas não perdeu fama nem prestígio. Aliás, há mais do que um rei a reinar na terra!
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Uma garrafa de vinho Tokay gerou uma guerra. Por ele, os turcos invadiram a Europa e cercaram Viena... Isto segundo a versão do aventureiro Barão de Münchausen.
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O Grande Turco geria o seu império em paz, quando recebeu a visita do aristocrata germânico e a quem serviu o seu melhor Tokay. Mas a reacção ficou-se por um «não está mal». O espanto e a raiva do sultão encontraram consolo numa aposta: Uma garrafa dum Tokay superior, no prazo de uma hora, ou a cabeça do barão, em troca todo o tesouro que um só homem pudesse carregar. Münchausen, um James Bond do final do século XVII, tinha por companheiros, entre outros, os homens mais veloz e mais forte do mundo. Adiante: O tesouro foi todo levado, deixando o perdedor na penúria, ofendido na alma e furibundo, instigando-o a perseguir o seu «007», a entrar pela Europa e pondo-a a ferro e fogo, chegando às portas de Viena.
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Este episódio do impagável personagem literário de Rudolph Erich Raspe só aconteceu no cinema, mas traduz a alma do herói fantasioso (que se opõe ao racionalismo do «século das luzes») e a aura mágica e divina de um vinho que nasce diferente... na Hungria e na Eslováquia.
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Verdade e rivalidade
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O Tokay, tal como é hoje conhecido, data de meados do século XVI, já os turcos andavam em patifarias pela Europa. A produção não prosperou durante a ocupação otomana, mas muitas das adegas foram criadas nessa época. Em 1683, o rei João III da Polónia salvou Viena do cerco e daí em diante dá-se o recuo das tropas turcas e a expansão da fama do Tokay.
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Os romanos introduziram a vinha na Panónia e os eslavos deram-lhe continuidade. A invasão dos tártaros deu cabo das vides, mas estas voltaram com os italianos chamados, por Bela IV, a colonizar a região entre os rios Tisa e Bodrog.
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Consta que em 1617 a vindima foi atrasada devido à previsão dum ataque turco, o que levou ao surgimento da botrytis cinerea (podridão nobre), que faz as uvas murchar, a película ficar mais macia e adocica o sabor. Devido a esta lenda, o Tokay reclama ser o mais antigo «colheita tardia», reivindicado também pelo vinho alemão Rheingau (120 anos mais tarde).
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Ainda que a data verídica seja outra, talvez o Tokay seja o primeiro «colheita tardia». O registo mais antigo sobre a elaboração do Tokay data de 1630 e em 1655 surgiu o primeiro decreto a regulamentar a vindima, obrigando a escolha, um a um, dos bagos afectados pela podridão nobre, a que chamam «aszú» .
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Em 1737, um decreto estabeleceu os limites vinhateiros do Tokay e, em 1772, foi divulgada o primeiro sistema de classificação de parcelas do mundo. Ora, isto faz com que hungaros e eslovacos reivindiquem a mais antiga região demarcada do mundo. Isto entra em conflito com a certeza portuguesa. A instituição da Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, por ordem do marquês de Pombal, aconteceu em 1756, traduziu-se no terreno, com marcos a assinalar os limites do Douro vinhateiro, coisa que só muito mais tarde aconteceu na Hungria.
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As convulsões desencadeadas com a Primeira Guerra Mundial conduziram ao divórcio austro-húngaro, ao surgimento de novos Estados e à divisão da região do Tokay em duas, ficando, contudo, quase toda na Hungria.
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A filoxera fez estragos no século XIX e as complicações continuaram na centúria seguinte, com duas guerras mundiais e regimes comunistas na Hungria e Checoslováquia. O Tokay só ressurgiu após o fim da Guerra Fria. Porém, o degelo pôs a nu um problema: o que fazer com um produto valorizado, mas dividido por dois países? A Hungria conseguiu o reconhecimento formal, enquanto a Eslováquia protestava. As negociações de adesão à União Europeia indicaram a solução. Um problema que persiste é o das designações abusivas: França (Tokay da Alsácia), Itália (Tocai), Eslovénia, Austrália e Califórnia.
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A queda dos regimes comunistas atraiu o investimento estrangeiro, estimulou o empenho, recuperou a qualidade, o encanto e o prestígio. Resultado: o preço disparou. Para se ter uma ideia, uma garrafa (meio litro) de boa qualidade («aszú 5 puttonyos») custa em Lisboa (coisa difícil de encontrar) 35 euros... sem especulação face a lojas no estrangeiro.
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Três copitos
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O Tokay faz-se com uvas brancas e tem tonalidades preciosas, entre o ouro e o âmbar. O seu sabor é, por natureza, complexo. Nas produções mais tradicionais, a boca sente maçã caramelizada, caramelo, passas, algum mineral e há quem diga a «alcatrão» (Cruzes! Credo! Haja respeito e pudor!). As novas tecnologias permitem experiências e modas, pelo que os mais audazes conseguem dar a provar tangerina, pêssego, damasco, manga, ananás e notas florais.
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Quem leia estas linhas pode pensar que se trata dum vinho xaroposo e pastoso, mas engana-se! É algo entre o amargo e o doce (como aquela canção de Paulo de Carvalho com poema de Ary dos Santos) e tem boa escorrência. Na mesa vai bem com foi-gras e patês, frutos secos, passas, fruta cristalizada, pastelaria e bolo-rei. Ah! E serve-se frio. Muito frio, entre os quatro e os seis graus.
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Na verdade, existem três tipos de Tokay. O «szamorodni» («tal como vem») não é um «colheita tardia», não tem a mística dos seus irmãos, mas serve-lhes de base. Depois há os «aszú», escalonados em cinco categorias, e o «eszenzia», que entra numa competição à parte.
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Na base está o «aszú 3 puttonyos», que indica que a 80 litros foram adicionadas três cestas de vindimas (20 quilos ou litros) com uvas com fungo, contendo até 9% de açúcar residual. Seguem-se os «aszú 4 puttonyos» (até 12%), «aszú 5 puttonyos» (até 15%), «aszú 6 puttonyos» (até 18%) e o «aszú eszenzia» (mais de 18%).
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A «tal» bebida mágica dos reis designa-se, simplesmente, por «eszenzia» e o açúcar residual pode chegar a 70%. A fermentação alcoólica é lentíssima, a longevidade quase eterna e o sabor... desconhecido por seis mil milhões de pessoas... talvez até mais.
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Aforismos Tokantes
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Húngaros e eslovacos repetem uma pomposa frase sobre o Tokay saída da boca de Luís XIV de França: «é o rei dos vinhos e o vinho dos reis»! Há, aliás, uma forte relação com a realeza. Houve tempos em que os «eszenzia» (a que atribuíram poderes curativos) eram exclusivo dos monarcas magiares e, mais tarde, dos Habsburgos. Pedro I da Rússia violou as suas próprias leis e importou-o, armazenando-o nas caves do seu palácio de Sampetersburgo. Catarina, a Grande, que lhe sucedeu, não prescindiu da especialidade.
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Está provado que alguns dos que saborearam Tokay proferiram algumas das melhores tiradas da humanidade. O mordomo da corte prussiana tranquilizou Frederico II: «Continuai bebendo Tokay, Majestade. As duas primeiras pessoas foram expulsas do Paraíso por comerem, não por beberem».
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Por fim – e porque uma frase em latim dá sempre um toque letrado a quem a escreve e seriedade ao que se lê –, um aforismo do papa Bento XIV quando o provou, oferecido pela imperatriz Maria Teresa de Áustria: «Benedicta sit terra, quae te germinavit. Benedicta sit mulier, quae te misit. Benedictus sum, qui te bibo»! - «Bendita a terra em que germinaste. Bendita a mulher que te trouxe.Bendito sou eu que te bebo»)
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Tocai nos portugueses
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Os «colheita tardia» fazem-se um pouco por todo o mundo e Portugal não é excepção, embora não seja extensa a lista: Casa de Santar Late Harvest (Dão), Chão do Prado Colheita Tardia (Bucelas), Grandjó Late Harvest (Douro), Herdade do Esporão Late Harvest (Alentejo), Quinta dos Carvalhais Colheita Tardia (Dão), Quinta da Lagoalva de Cima Late Harvest (Ribatejo) e Niepoort 2002 Late Harvest (Douro). A vindima de 2005 vai ficar marcada com a estreia do Quinta de Soalheiro (Vinho Verde) e da casta alvarinho. Outras experiências estão a ser feitas na Quinta de Maritávora (Douro) no âmbito do projecto Vinho Meu.

Este é o meu vinho












Para se fazer vinho já não é preciso ter uma quinta nem videiras. Há quem as tenhas. É só ir, aprender, divertir, engarrafar e vir embora.
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O Douro não é feito só de socalcos. A região vinhateira chega ao planalto, arrima-se às terras bravias. No Parque Natural do Douro Internacional o rio serpenteia, faz gargantas e fronteira. As fragas têm azinheiras penduradas. Talvez por isso, ali chamem carrascos a estas árvores mais conhecidas nas campinas do Sul. Aqui e ali vêem-se oliveiras, mesmo nos torrões mais íngremes. No céu reina o britango. Na terra manda o xisto.
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Em Freixo de Espada-à-Cinta já não é tão fácil ver-se o abutre, mas a pedra fatiada, ainda que lavrada, é a mesma de todo o Douro vinhateiro e do parque selvagem. Por ali, naquele concelho escondido a algumas horas de carro de Lisboa e a umas tantas do Porto, há uma quinta com nome de mulher ou talvez de lenda.
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A Quinta de Maritávora está na posse da família de Manuel Gomes Mota desde o século XIX, mas o nome da propriedade é mais antigo e indica que poderá ter pertencido aos Távoras, cujo couto não é assim tão longe, mais a Sul, já na Beira. O que mais impressiona é o solo... ou a falta dele. Talvez seja melhor chamar-lhe chão. Se passassem um rolo compressor para o alisar e o envernizassem, ficava digno de um palácio. Não tem terra, só pedra. Só mesmo pedra! No entanto, ali há videiras que dão uvas e delas faz-se vinho.
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Quase só ar puro
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A vila tem ar puro, algum património histórico, como uma torre de sete lados, foi a terra do poeta Guerra Junqueiro, e pouco mais. O turismo vive, magro, dos caçadores passantes, dos visitantes das amendoeiras em flor e das vindimas. Foi para ajudar a terra que Manuel Gomes Mota teve uma ideia tão simples quanto luminosa para todos aqueles que gostariam de um dia produzir vinho: pôr a quinta, uvas, adega, tecnologia e conhecimento à disposição dos enófilos. Em troca, a vila recebe grupos de turistas, que ali têm de se deslocar duas vezes.
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A ideia de Manuel Gomes Mota surgiu da tradição duriense de declarar «vintage» (colheita em inglês e que se atribui a vindimas em que a qualidade do Vinho do Porto é excepcional) quando nasce um novo membro da família, mesmo que não vá a reconhecimento oficial da entidade certificadora. Todos os lavradores têm na adega o «seu» vinho, que abrem em momentos especiais. É com esta memória e sabedor da paixão dos enófilos e da raridade da terra que Manuel Gomes Mota quer abrir o mundo dos viticultores aos urbanitas.
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O projecto começou em 2005 chama-se VinhoMeu e a descrição faz crescer água na boca a quem é guloso e tem curiosidade pelas artes e ciências do vinho. O primeiro acto consiste num jantar vínico, em que são dados a provar vinhos criados por diferentes métodos e processos. No dia seguinte, escolhem-se as uvas (tintas ou brancas), o modo de pisa (em lagar ou prensa), a fermentação maloláctica (em barrica ou em inox) e o estágio (a duração e a madeira das barricas).
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O fim-de-semana passa depressa e antes que todos os processos estejam concluídos. Os turistas vão-se antes do início da fermentação alcoólica. As questões técnicas ficam a cargo de um nome respeitado no Douro, o enólogo Jorge Serôdio Borges, autor do muito elogiado «Pintas» e antigo braço-direito de Dirk van der Niepoort.
Como uvas frescas só existem uma vez por ano, estes vinhos fazem-se com recurso a frutos congelados, até porque na época das vindimas há menos tempo para oferecer aos turistas e toda atenção tem de ser dada às uvas que servem para fazer os vinhos comercializados pela casa (Maritávora) ou que são vendidas, desde há gerações, à mesma empresa produtora de Vinho do Porto.
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Os testes efectuados com uvas congeladas têm sido muito animadores. De início julgou-se que só resultariam colheitas tardias ou vinhos brancos, mas as uvas tintas têm tido muito bom comportamento, não se notando qualquer prejuízo devido ao facto de terem sofrido uma congelação.
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Uns meses depois, quando o vinho estiver pronto, os autores vinhateiros voltam a Freixo de Espada-à-Cinta para se juntarem em torno de uma pequena linha de engarrafamento para botar o vinho nas garrafas que escolheram e nelas colarem o rótulo que criaram.
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Quem vem lá
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Os grupos de amigos, as famílias e os grupos de empresas são os clientes alvo da VinhoMeu, que podem, em torno do vinho, criar projectos e diversões em conjunto. Os custos são relativos e barato e caro dependem da perspectiva pela qual se olha e do bolso de quem vê. Manuel Gomes Mota refere que cada opção feita na adega tem um custo, pois uma barrica de carvalho francês duma tanoaria portuguesa não custa o mesmo doutro que vem de França. O empresário refere que o modelo económico não põe as contas num patamar astronómico, saindo cada garrafa a perto de cinco euros, valor comparável ao pedido, em adegas da região, por vinhos de qualidade idêntica.

Meninos que brincam com as uvas

Há talento à solta no Douro. Há também sabedoria e sangue novo. A amizade e a competição entre enólogos lembram os despiques dos surfistas cariocas. Com o rio ali à frente, chamam-se a si mesmos de “Douro Boys”... Dirk van der Niepoort, Francisco Olazabal, Jorge Moreira e Jorge Serôdio Borges são os nossos “meninos d'ouro”. Excepção aberta para a menina, Sandra Tavares da Silva, uma enóloga num mundo de homens.
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A rapaziada é nova e nenhum deles é, verdadeiramente, rapazola. O mais velho é quem “manda”, porém, num grupo informal e de amigos, não há mandador: Dirk van der Niepoort, um quarentão com aparência tão holandesa quanto o nome, mas de forte sotaque portuense. O mais novo elemento talvez não tivesse 30 anos quando começou a “surfar no vinho” com os outros “meninos do Douro”.
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Os “Douro Boys” são simultaneamente amigos e colegas de profissão. O convívio é restrito aos seus laços, pertence-lhes, são deles os afectos. Juntam-se em jantares formais, de ocasião e informais, provam os vinhos uns dos outros, criticam-se, elogiam-se, testam-se e divertem-se.
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Um dia, quando em reportagem na Quinta do Vale Meão, conversava com Francisco Olazabal (também enólogo na Quinta do Vallado) sobre grandes vinhos do Douro e referi o “Charme” de Dirk Niepoort. “Ah, gosta do “Charme”? Então venha aqui e prove lá este”. O trintão deu-me um tinto muito suave e aveludado, perfumado até inebriar: “Diga-me, é ou não é o “Charme”? É ou não é o “Charme”? Já descobri o que o Dirk faz!”. Olazabal gastou algumas horas a pensar como o amigo elaborava um dos seus topo-de-gama. “Desperdiçou” duas barricas no passatempo fazendo duas experiências e numa delas achou a solução. No jantar seguinte terá levado umas garrafas daquele “Charme” de imitação para impressionar o autor e os demais comensais.
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Dirk Niepoort contara-me uns meses antes, quando o visitara em reportagem na Quinta de Nápoles, um episódio que poderá ter estado na origem deste e que espelha admiração mútua. Num jantar, os dois enólogos debruçaram-se na análise laboral, concluindo que o vinho do outro era melhor que o do próprio: Niepoort teimava que o “Vale Meão” era melhor do que o “Charme” e Olazabal cismava no inverso.
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Quem são eles
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Jorge Serôdio Borges foi por bastante tempo o adjunto de Niepoort, até que chegou o momento em que quis voar sozinho. Hoje dirige a Quinta do Passadouro e é enólogo na Quinta de Maritávora, duas casas com boas referências. Não se sabe bem se os “meninos do rio Douro” formam uma espécie de “Clube do Bolinha”, em que menina não entra. Na verdade não há muitas mulheres a mandar nas uvas do Douro. No entanto, há uma que as põe todas em sentido e sabe bem o que quer delas. Se pertence ao clube não sei, mas tem talento para lá estar. Chama-se Sandra Tavares da Silva e é casada com Jorge Serôdio Borges, com que cria o “Pintas”, um dos mais aplaudidos tintos, e o novíssimo branco “Guru”, muito bem recebido pela crítica. Em termos profissionais, esta enóloga ex-modelo é responsável pela Quinta do Vale de D. Maria, outra casa produtora de especialidades.
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Nas vizinhanças do “Bolinha”, Marta Casanova (Brunheda) e Susana Esteban (Quinta do Crasto) são duas outras jovens que andam a seduzir o mundo enófilo com as suas criações durienses.
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Rui Brito e Cunha também integrou durante algum tempo uma estrutura empresarial até se decidir a correr por conta própria (JBC & ME, Quinta de São José). A elegância é o objectivo deste enólogo, que, contudo, não deixa de querer “meter o Douro dentro das garrafas”, porque essa é uma das vantagens que a velha Europa tem sobre os países produtores do Novo Mundo. A história e o carácter da região têm de lá estar. Ultimamente lançou-se com o pai, Rui Brito e Cunha, homem experimentado na administração de propriedades vinhateiras, no turismo rural na Quinta de São José, cujas casas de xisto foram recuperadas com gosto e onde se pode chegar a partir do rio para ver as uvas crescer.
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Sobre Jorge Moreira sussurram os outros “surfistas vínicos” que se espera muito. É, provavelmente, o elemento mais novo do grupo e quando o conheci ainda não tinha virado a casa dos trinta... talvez ainda não tenha. O que tinha era um rosto de miúdo crescido. Por agora o engenho desenvolve-se a tempo inteiro na Quinta de La Rosa e nas horas vagas ocupa-se com “Poeira”. Este é um tinto teimoso, que insiste em referências elogiosas por parte dos críticos.
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O percurso de vida dos meninos do Douro está muito ligado ao rio. Mas nem todos. Sandra Tavares da Silva veio da moda e do Sul. O habitat dela não é o Douro, mas agora vive encantada com o vale dos socalcos. Muitos vêm de famílias tradicionais e quase nasceram à sombra das vinhas.
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Só para citar alguns com árvores genealógicas com as raízes bem firmadas no solo xistoso do Douro refira-se as de Jorge Serôdio Borges, João Brito e Cunha, João Roseira e Dirk Niepoort. O rio, o vinho e a família estavam ali, desde que eram meninos, a chamar por eles.
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A tradição das famílias tem peso e poder de atracção, mas alguns destes meninos sentiram o palpitar do genes responsável pelo empreendorismo e lançaram-se cumulativamente em projectos pessoais.
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João Roseira parece que não consegue estar quieto, sempre metido em aventuras. Não lhe basta a Quinta do Infantado, a propriedade de família e casa produtora de Vinho do Porto com boas referências. Há uns anos meteu-se no projecto Bago de Touriga para fazer vinho de pasto e para ver nascer um projecto seu de raíz. O negócio, partilhado com Luís Soares Duarte, tem avançado e faz-se notável sobretudo com o Gouvyas. Agora, de há três anos a esta parte, meteu-se na realização do Encontro do Dão e Douro (4 a 14 de Maio em Lisboa), porque considera que os vinhos das duas regiões ligam bem e têm a ganhar se foram mostrados juntos. Esta coisa de pôr um pé no Dão é comum também a Dirk Niepoort que faz com o produtor Álvaro de Castro o Dado, um notável feito com uvas das duas regiões vinhateiras e, por isso, classificado apenas como “vinho de mesa” como se tratasse dum espécimen de pacote.
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O clube, já se disse, é informal e inclui ainda gente como Pedro Correia (Prats & Symington), Cristiano van Zeller (Quinta do Vale de D. Maria), Francisco Ferreira (Quinta do Vallado), Tomás Roquette, Miguel Roquette (ambos da Quinta do Crasto), Rui Madeira, João Matos (ambos da Casa Agrícola Reboredo Madeira).
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Onde surfam os Douro Boys
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Dirk Niepoort, nasceu com um apelido que é uma marca de Vinho do Porto, mas quando entrou no negócio inclinou-se mais para o Vinho do Douro. Desde o início quis experimentar, não se importando de andar em contra-ciclo com a tendência dos produtores, que não deixaram de duvidar e de o aconselhar a corrigir as obras. Os críticos e os consumidores aplaudiram-no e tornou-se numa referência respeitada e criadora de moda. “Não me preocupo com o mercado. Mas não me posso queixar, porque vendo tudo o que produzo”, contou-me.
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Aliás, de falta de comprador para os vinhos é coisa que estes rapazes do Douro não se podem queixar, mesmo que o mercado esteja saturado de produtores e de marcas. A qualidade e a marca são razões para que isso aconteça, mas a quantidade disponível também ajuda. Dizem vozes críticas do sector que “só fazem vinhos de garagem”, pois uma coisa é produzir 3.500 garrafas ou 15.000 outra é andar nas centenas de milhares. É verdade, mas vinhos afinados como são os dos “Douro Boys” mais vale designar por “vinhos de autor”.
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Porém, nem todos os seus vinhos têm produções reduzidas. O “Vale Meão”, por exemplo, tem uma tiragem superior às 30.000 garrafas anuais, mas anda esgotado na distribuição. Isto significa que em muitas garrafeiras já não existe, permitindo a especulação nas restantes e ao escândalo nos restaurantes. Quanto aos outros, os de micro-produções, estavam aqui mesmo agora e já se foram. E com uns preços!...
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João Roseira atribui a moda e o entusiasmo face aos vinhos durienses à “movida” dos “meninos” e assinala que entre 1997/ 1998 e 2001 houve um “fervilhar e fermentar de ideias” muito benéficos para a região. Um ponto de vista partilhado por outros dos membros do “gang”. Agora as coisas podem estar mais calmas, mas o saber adquirido não desaparece. Os convívios mantém-se... Dir-se-ia que as novas grandes aventuras estão a estagiar ou à espera de uma grande onde para surfar.
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Nota: O conceito dos Douro Boys nasceu mais lato, mas organizou-se, estruturou-se e formalizou-se apenas com cinco produtores - Quinta do Vallado, Quinta de Nápoles / Quinta do Carril, Quinta do Crasto, Quinta do Vale Dona Maria e Quinta do Vale Meão.

Sete gerações no vinho





















A segunda maior empresa vínica portuguesa nasceu quase por acaso há 202 anos e desde então tem-se mantido sempre na mesma família, transitando, quase sempre, de pai para filho.
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O apelido Fonseca perdeu-se cedo na sucessão da casa. O destino encarregou a família da mulher de José Maria da Fonseca de gerir as vinhas e as terras. O nome do fundador ficou como marca, mas o mando não mais deixou o nome Soares Franco.
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José Maria da Fonseca nasceu em 1804 em Vilar Seco (Nelas) e jovem desceu a Coimbra para estudar matemática, antes de rumar a Lisboa, onde se estabeleceu na zona do Cais do Sodré para mercar com tabacos.
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Um dia executou a garantia duma propriedade em Azeitão, a Quinta da Cova da Periquita, e traçou o seu destino e o de várias gerações de familiares. Aconteceu por volta de 1834, mas pode ter acontecido antes, quem o diz é António Soares Franco, representante da sexta vindima familiar de responsáveis pelo negócio dos vinhos.
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A Quinta da Cova da Periquita durou pouco tempo na posse de José Maria da Fonseca. Os negócios sucederam-se e nem todos saíam bem, o capital rodava e os activos também. Contudo, ficou o gosto pela lavoura, onde aplicou inovações e os conhecimentos aprendidos no estudo da matemática.
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Entre as inovações e experiências houve uma que ficou célebre: a casta castelão, oriúnda do Ribatejo, foi trazida para Azeitão e ali veio a dar-se com grande sucesso. O êxito foi tal que ainda hoje esta ainda é a variedade dominante na zona, representando mais de 90% dos encepamentos. Outra dimensão do bom resultado é o nome que a casta castelão tomou na zona: periquita, como a quinta onde foi introduzida (hoje o uso do termo está interdito por se tratar duma marca comercial). No entanto, a propriedade saíu do património familiar e hoje já não dá vinho e tem em cima prédios de habitação.
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Conta António Soares Franco que o fundador da casa foi um homem adiantado no tempo, já preocupado com a necessidade de marcas. Em 1850 nasceu o vinho Periquita, a marca de vinho de pasto mais antiga do país. Actualmente, a empresa guarda duas garrafas datadas de 1880, mas Domingos Soares Franco, vice-presidente e enólogo, teve conhecimento dum coleccionador que passou pelas instalações e lhe disse ter um exemplar mais antigo.
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Montado no negócio dos vinhos, cedo os mercados externos se tornam prioritários. Portugal exporta vinho desde a Idade Média, mas é José Maria da Fonseca que pensa nas vantagens de vende-lo em garrafas por forma a preservá-lo e a garantir a sua não adulteração.
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De entre todos os países, o Brasil é um destino especial, com um forte peso nas vendas da casa durante décadas. Porém, após a crise da bolsa de Nova Iorque, em 1929, e as medidas proteccionistas do regime de Getúlio Vargas, este grande mercado vai afectar a saúde financeira da empresa, o que leva à venda de activos, nomeadamente quintas em Colares. A recuperação será lenta, ao longo da década de trinta e de quarenta. Mas a solução será cor de rosa: o rosé Lancers.
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O empresário norte-americano de origem arménia Henry Behar visitou a José Maria da Fonseca e propôs-se lançar, em 1944, um rosé nos Estados Unidos. Queria um vinho despretencioso e fácil de beber, até porque o vinho não tinha grande tradição do outro lado do Atlântico. Queria uma garrafa «very typical», que lembrasse Portugal, e assim se decidiu pelo modelo que imita barro. A marca Lancers foi escolhida por Henry Behar ser um grande apreciador do quadro «las lanzas» de Diego Velasquez. O Lancers tornou-se um grande sucesso nos Estados Unidos e tirou a José Maria da Fonseca da situação financeira complicada em que se encontrava.
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O negócio prosperou com os anos e alargaram-se os interesses. No entanto, os descendentes também aumentaram. Em 1980 havia já muita família a querer mandar nas empresas que se reuniu um concílio familiar que decidiu pela venda dos interesses na distribuição e da, então, JP Vinhos (hoje Bacalhôa Vinhos). O núcleo Soares Franco ficou com a José Maria da Fonseca, embora o ramo Avillez ficasse com uma posição.
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A década de oitenta não estava fácil, com as empresas a pagarem a factura da instabilidade revolucionária. «A sociedade estava numa situação preocupante por causa dos juros, com encargos financeiros brutais». As férias de 1985 foram decisivas. Sobre a mesa duas hipóteses: a abertura do capital ao exterior ou a venda do negócio dos rosés, que eram detidos em 51% pela casa de Azeitão. A segunda opção vendeu e os parceiros norte-americanos da Heublien (actualmente integrada na IDV-UD, a maior empresa mundial de bebidas) tomaram «contrariados» a posição da família Soares Franco. «Com esse dinheiro saneámos financeiramente a casa-mãe, pagámos ao banco, aumentámos o capital, aumentámos o património fundiário, reequipámo-nos e começámos a exportar mais. As coisas começaram a correr bem» – afirma António Soares Franco.
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Um dos primeiros passos foi dado em direcção ao Alentejo, estava ainda para vir a moda dos vinhos desta região, com a compra em 1986 da marca José de Sousa, de Reguengos de Monsaraz.
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Uma tarde em Wimbledon
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Um dia, os antigos sócios do negócio dos rosés convidaram António Soares Franco para assistir a uma partida de ténis em Wimbledon. Porém, além das tacadas com raquetes veio de lá um «drive» com negócio apontado. «Eles sabiam que andávamos à procura de adega e eles queriam sair da produção para se concentrarem apenas no marketing.
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Fiquei de todas as cores. Aquela era a oportunidade de recomprar a bom preço o que venderamos, além de ser a possibilidade de ter a 100 por cento uma marca que nunca fôra nossa totalmente».
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António Soares Franco ligou para Portugal e começaram a acertar-se os contornos do negócio. Em 1996, a Jose Maria da Fonseca Internacional – detentora duma das marcas vínicas portuguesas mais vendidas, a Lancers – passou para controlo português. «Triplicámos o volume e somos a segunda maior empresa privada em Portugal» – afirma orgulhoso o chefe da empresa.
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O alargamento territorial da empresa não está completamente fora de questão, mas António Soares Franco diz ser tempo de «parar para pensar» e de «consolidar o negócio», tendo em vista os «investimentos brutais dos últimos dez anos» e a crise que se verifica em muitos países. «Ainda não temos dimensão. Ainda temos muito que crescer na exportação e nas marcas».
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Um novo negócio? «Só se aparecer uma oportunidade e se se enquadrar no que se faz neste momento». E onde se faria o negócio? António Soares Franco quase exclui a Europa. Primeiro recusa-a, depois admite a Espanha ou a Itália. Propostas sobre a mesa não faltam, mas as repostas têm sido sempre negativas. Novos negócios implicam mais quadros e alavancagem financeira, explica.
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Posto isto é a vez de Domingos Saores Franco (quem é). Em plena entrevista dá-se quase uma mini reunião do conselho com um colorido diálogo.«Eu sou Novo Mundo, estudei no Novo Mundo» – atira Domingos.
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António Maria avança que em Espanha estão a fazer-se vinhos bem à moda dos novos países produtores. «Os espanhóis estão a tornar-se Novo Mundo».
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Mas a jogada é do homem das uvas, delas quem percebe mais é ele: «Sim, mas a Espanha está é inundada de tempranillo [casta que em português se designa por tinta roriz ou aragonês]. Para mim, Novo Mundo é Nova Zelândia e África do Sul».
Num instante revelou-se uma luz na sala com o entusiamo do enólogo, que advertiu para a subida dos preços da terra nos dois países, que no caso africano acrescem riscos políticos. «São esses os países em que investiria. Seria sempre no hemisfério Sul, até para aproveitar a equipa de enologia que faria aqui as vindimas e depois lá».
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A discussão dos três Soares Franco da empresa é viva e correcta. Mas nem sempre foi assim. Os tempos mudam e as posturas também. Cada época tem os seus sinais. Cada responsável imprime a sua marca pessoal e geracional. Quando Fernando Porto Soares Franco mandava nos destinos da casa a convivência era diferente. «Com o pai havia um discurso construtivo. O pai tinha um feitio diferente, ouvia muito e falava no fim. Nós somos mais combativos, metemos a voz em tudo, estamos 25 horas por dia na empresa e às vezes temos de nos mandar para casa. No tempo do pai era diferente» – afirma António Soares Franco.
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António Maria diz que trabalhar com o pai e com o tio Domingos «é giro». «Tenho discussões tanto com um como com outro. É muito divertido». Porém, todos garantem que na empresa não há discussões de família ou discursos de pai para filho. As relações são profissionais. «Desde que sairam de casa que acabaram as regras tipo tropa», diz António Soares Franco. «Damo-nos melhor do que irmãos» – brinca Domingos sobre o irmão António.
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Os três Soares Franco de Azeitão
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Na empresa não há ritual na transição do poder ou na entrada em funções, garante António Soares Franco. Para um Soares Franco trabalhar na José Maria da Fonseca são precisos alguns requisitos: vontade do próprio e interesse da empresa. «Um membro da família é tratado como outra pessoa que não seja».
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António Maria Soares Franco veio da Procter & Gamble; Gamble «não veio com o ferro JMF marcado, mas está cá com um destino mais longo do que outros directores. Ninguém dos Soares Franco é obrigado, só trabalha cá porque quer, porque a empresa precisa e tem de trazer valor-acrescentado», diz o presidente sobre o seu filho e director de marketing.
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António e António Maria são dois executivos. Já Domingos nota-se um ar mais descontraído. Os dois primeiros vêm de fato, embora o mais novo se apresente sem gravata. Já o enólogo está de ganga e com um colete.
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A vida fez diferentes os dois irmãos. Um ficou em Portugal e conheceu os anos difíceis que se seguiram à revolução democrática, o segundo foi estudar para fora. António Soares Franco terminou o Instituto Superior de Economia em 1975, debaixo do recolher obrigatório. Fez exame a 27 de Novembro, apenas dois dias após a vitória das forças democráticas.
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Domingos Soares Franco assume-se diferente. A experiência de vida fê-lo diferente. Estudou enologia em Davis, na Califórnia, para onde partiu em Agosto de 1975, em pleno Verão quente revolucionário. Os horizontes abriram-se nas paisagens americanas e a profissão de enólogo liberta-o da farta de executivo.
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«Dou-me lindamente com o meu irmão como me dei com o meu pai. Fiz o baú para a América a pensar que não ía voltar. Tirei fotografias à quinta, tinha 19 anos. Estive cinco anos sozinho e isso fez-me um pouquinho diferente, como na maneira de vestir, que é mais irreverente. Mas estou sempre em sintonia com o meu irmão, apesar de pequenas diferenças no pensar».
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O que também faz parte da família é a receita da ginjinha, que a empresa comercializa com a marca de Cherry Bom. A perícia e as doses passaram de geração em geração, mas a frieza dos números das vendas é cruel mesmo para uma bebida doce. Quando acabar o stock, acaba este segredo que os Soares Franco partilham com a sociedade.

Bica de tinto

O facto é que falhei a «Flauta Mágica» no São Carlos. Para mais tratou-se duma récita especialmente para miúdos, o que daria muito jeito para a minha cabecinha, visto ser comum dizerem-me infantil. Na verdade, há ainda uma hipótese para Maio, mas ainda não meti os pés a caminho duma bilheteira e, conhecendo as práticas do Teatro Nacional, duvido que chegue a tempo de ver o que quer que seja.
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O meu problema agora é que já prometi acompanhar uma amiga. Pior ainda é que conheço a Rainha da Noite e comprometi-me a assistir. A questão é esta: gosto de ópera, adoro Mozart e aprecio bastante a «Flauta Mágica», mas abomino ter de ir comprar bilhetes. Devia haver alguém que mos trouxesse. Eu devia ter privilégios.
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Quando era miúdo, mas já não tanto assim, punha-me a fazer vozes operáticas, cantando o melhor que podia ou conseguia. Era ver os amigos a rir com as minhas palhaçadas cantadas. Uma das óperas que mais parodiava era, exactamente, a «Flauta Mágica», muito provavelmente por ser uma das mais populares e identificáveis.
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Nas minhas extravagantes performances destacavam-se os momentos de alegria pictórica da Rainha da Noite. Esta voz grossa, ou em vias do ficar, a arranhar caminhos reservados às sopranos era de escangalhar a rir pelo ridículo da minha figura. O dueto de papageno e papagena era também alvo dos meus atropelos ao bom gosto.
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Bem, mas voltemos ao presente: O que fiz eu na vez de ter ido ao São Carlos? O mesmo que, provavelmente, vou fazer em Maio: borguei com os amigos. Armei-me em Marialva guloso, coisa comum em mim, e diverti-me com boas comidas e bons vinhos.
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Não sei quais foram os vinhos que me desviaram do teatro, mas por essas alturas experimentei um tinto do Dão que muito me alegrou. O Quinta da Bica Reserva 2004. Trata-se dum vinho com complexidade, que desafia sem ser difícil. Apreciei-lhe os taninos, que deixam antever uma vida pela frente.
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Este tinto do Dão é um vinho de brado, que dou sem os cocorocós que cantava quando miúdo. Canta alto. Felizmente sempre aprendi alguma coisas na vida… como não fazer comédia nem cantar ópera.
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Do que eu não me lembrava
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Há coisas que não têm nada a ver com outras coisas, mas que, porém, acabam por se relacionarem. Nem que seja pelas minhas associações mentais, fruto duma mente perturbada. Vou dar alguns exemplos. Com calma, porque isto não é coisa que se faça de forma automática.
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O que tem a ida ao barbeiro (cabeleireiro, mas prefiro à moda antiga) de Luís Filipe Menezes com a política nacional? Não tem nada a ver, porém está ligado, ou não tivesse sido acompanhado por jornalistas da SIC. Ou até terá… há ideias que não lembram a um careca. Não apenas ao chefe dos social-democratas, mas a todos os políticos… e a todos os que não são políticos… eu incluído.
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Numa das edições da Sábado vi uma fotografia de Barack Obama com os pés levantados e pousados numa mesa. O candidato à presidência dos Estados Unidos calçava uns sapatos com buracos na sola. O que tem esse facto a ver com a política? Aparentemente nada, mas se pensarmos que há promessas que caem em saco roto… que o homem tem uma longa caminhada pela frente até ao final das primárias e eventualmente outra para as presidenciais propriamente ditas…
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A propósito de furos… há garrafas que parecem ter um furo, que se deixam ir como se estivessem rotas. Outro dia aconteceu-me. Há muito que já não bebia um destes. Não é uma extravagância, mas uma boa aposta segura. Pois, trata-se dum vinho que eu injustamente não me lembrava, apesar de ser uma aposta seguríssima para o dia-a-dia: Prazo de Roriz 2006. Deixou-se ir muito bem com um belo entrecosto no forno com batatinhas. Para beber já, a breve prazo.
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E o que tem este tinto do Douro com Luís Filipe Menezes e com os sapatos de Barack Obama? Nada, não fosse estar a escrever esta crónica ao mesmo tempo que leio uma revista. As coisas incríveis que consigo fazer ao mesmo tempo… e sem me rir nem cair da cadeira.Como se comprova, há coisas que não tendo nada a ver acabam por ter ligação. Esta crónica também não lembra a um careca, mas talvez esteja uns furos acima do que para aqui costuma aparecer escrito. É o chamado desconstrutivismo lógico aplicado à escrita de vinhos.