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Vi-te e vendo-me vi-te vendo-me. Num encanto de olhos li que
querias que te olhasse mais de perto. Mesmo sabendo que a gravidade atrai os
corpos e as bocas acabariam por se beijar, pousei-me a alma em ti e disse que
iria onde fosses, e onde disseste estavas, para que não fosse ao engano
procurar-te, estavas. Vendo-te perto, quis ver-te profundamente. Beber-te e saciar-me na
fonte da vida, a que dá água e luz, bebi e repeti. Fugindo escondi-me
em ti, e tu acolheste-me para me acorrentar e até que te chegasses ao
meu fim, aquele que chega quando te chegas.digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
sábado, agosto 03, 2013
Amor
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Amores desencontrados, amores desamáveis, amores eternos. Amores
de beijos, amores de fazer-amor, amores de dedos, amores-perfeitos, amores de
rosa e de lírios ou de jasmim. Amor só por amor. Riso, às vezes choro. Numa vida,
num instante, num sítio que se queira amar. Amor às vezes, amor sem medo. Amor romântico,
amor de capa-e-espada. E entre a espada e a parede, escolho o beijo que me
espeta, à parede que te equivoca.
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Ou seja, espero-te e espero que me beijes.
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Pessoas iamáveis?
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Pessoas iamáveis?
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Era só o que faltava.
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Quando falta um beijo nem sempre falta o amor. Por vezes, só
a proximidade.
A princesa e o princeso
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Era uma vez uma princesa. Um dia, a princesa teve um pinto,
pelo que se tornou numa mãe-galinha. Mas o pinto era tão esperto e fofo, tão
macio e divertido, que era um leitãozinho. Porquinho lindo, príncipe de sua
mãe-galinha.Nã cômo pêche
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Pela boca morre o peixe e pela boca bebi eu, no fim,
morri-me d’amores por ti, logo eu, que não como peixe, mas como-te a ti, quando deixas.domingo, julho 28, 2013
Möebius - 1938-2012
Aconteceu o destino, nada que
não se esperasse. Um dia teria de ser e descobri-o agora. Um admirado perdeu o
corpo. Está num outro elemento e a essência ficou, neste espaço quadrado. A luz
de Incal ilumina a memória.
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Requiescat in pace Möebius, Jean Giraud. Nesta vida (8 de Maio de 1938 a 10 de Março de 2012)... na próxima, uma
quinta essência.
Éter
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Pode um filho biológico não ser legítimo? E ao contrário.
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Não é a essência. Nem a vida, nem a essência da vida. É tudo e tudo é a mesma coisa.
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Não fomos nem seremos. E sendo coisas diferentes, seremos sempre. Somos.
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Somos muita coisa. Além de matéria, que não somos. Somos espíritos. E antes de sermos isto, estamos vestidos por perispírito.
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À semelhança do Pai. Que podia ser Mãe. Que é além.
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Aton era único e tangível.
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O Dia da Revelação acontece quando? Não será simultâneo, em nome da justiça e da perfeição.
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Será além do segredo e da dimensão. Será além da essência.
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À semelhança do Pai. Que podia ser Mãe.
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Será além do segredo. Será além da dimensão. Será além da essência.
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Seja que número for. Somos filhos de quem? Pais de quem?
Comer
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Alimentar é comer na cozinha, e comer, neste contexto, é por falta de melhor vocábulo. Comer é uma transcendência, tão meta que só se deveria escrever com minúsculas. A pretensão de alimentar, ou, pior, de bem alimentar é que precisa de maiúsculas e justificações. Comer, beber, água, vinho, rir, amar, respirar, ar... tudo com minúsculas. Alimentar é um tédio! Comer na cozinha? Só de castigo. Gosto da solenidade de comer na sala e da fruição pueril da mesa de festa mesmo sem mesa. Abomino o dia-a-dia, o tem de ser, o come-senão-morres. Um milhão de vezes a mesa curta da taberna. Um milhão de vezes a mesa rica do palácio. Mastigar pode ser penoso e não mastigo em vão. Comer na cozinha é como foder de cuecas e com peúgas de turco. E antes a fome do que a monotonia e o tédio.
Alimentar é comer na cozinha, e comer, neste contexto, é por falta de melhor vocábulo. Comer é uma transcendência, tão meta que só se deveria escrever com minúsculas. A pretensão de alimentar, ou, pior, de bem alimentar é que precisa de maiúsculas e justificações. Comer, beber, água, vinho, rir, amar, respirar, ar... tudo com minúsculas. Alimentar é um tédio! Comer na cozinha? Só de castigo. Gosto da solenidade de comer na sala e da fruição pueril da mesa de festa mesmo sem mesa. Abomino o dia-a-dia, o tem de ser, o come-senão-morres. Um milhão de vezes a mesa curta da taberna. Um milhão de vezes a mesa rica do palácio. Mastigar pode ser penoso e não mastigo em vão. Comer na cozinha é como foder de cuecas e com peúgas de turco. E antes a fome do que a monotonia e o tédio.
Alimentar é comer na cozinha, e comer, neste contexto, é por falta de melhor vocábulo. Comer é uma transcendência, tão meta que só se deveria escrever com minúsculas. A pretensão de alimentar, ou, pior, de bem alimentar é que precisa de maiúsculas e justificações. Comer, beber, água, vinho, rir, amar, respirar, ar... tudo com minúsculas. Alimentar é um tédio! Comer na cozinha? Só de castigo. Gosto da solenidade de comer na sala e da fruição pueril da mesa de festa mesmo sem mesa. Abomino o dia-a-dia, o tem de ser, o come-senão-morres. Um milhão de vezes a mesa curta da taberna. Um milhão de vezes a mesa rica do palácio. Mastigar pode ser penoso e não mastigo em vão. Comer na cozinha é como foder de cuecas e com peúgas de turco. E antes a fome do que a monotonia e o tédio.
quarta-feira, julho 17, 2013
Amén
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Dizem que sou engraçadinho, que tenho piada... que sou espirituoso. Não sou espirituoso, sou espiritual, porque as minhas piadas são divinais.
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Nota: Será que não fui bafejado pela virtude da modéstia?
terça-feira, julho 16, 2013
Eis a questão e a resposta
Quando estava para nascer, os meus pais perguntaram-se: «Tobias ou não Tobias, eis a questão»... depois puseram-me João, porque rima.
Bem vestido, dando um ar de sua graça
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Sou uma pessoa feliz... não caibo em mim de contente... por isso é que a roupa quase não me serve...Jornal das novas que se deram neste Reino de Portugal
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Passei o dia fora de casa... o destino não teve sequer a decência de fazer acontecer alguma coisa que me tivesse feito arrepender por não ter ouvido as notícias.As gatas
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Não me deixo dormir. De manhã
não me deixo acordar.
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Até lá, um cão possessivo e
omnipresente, como um polícia político, dorme ao pé de mim. Tenho saudades das
gatas.
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A televisão, confidente e
enfermeira, ligada só porque a tenho, como sempre, todas as noites, até
adormecer, até de manhã.
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Uma gata tem chorado nas
noites, a chamar por mim. Quase todas as noites e outra não se cala quando me
vê. A terceira chama à atenção cagando fora da caixa.
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O cão anda atrás de mim, como
uma mãe zelosa que persegue a virgindade da filha, primorosa e única.
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A gratidão do cão por o levar
à rua é menor do que as saudades que eu e as gatas sentimos. É patético e
consolador. Quendera me desse algum ar. Pobre cão, mulher gato-sapato de bêbado
e putanheiro.
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Não me posso fechar sem o
cão, porque gane e chora, como a mãe que vê o filho emigrar para a estranja. A mãe enlevada no seu filhinho-mais-que-tudo, que não tem mal nem
pecado.
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Um cão é um cão e os gatos
são pessoas. Gosto mais de pessoas quadrúpedes do que de animais. Mas gosto do
cão.
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O cão é o meu carcereiro e
sofro de síndrome de Estocolmo.
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Quando lhe vejo os olhos, com
a ternura eterna e grata dos cães, e observo o manear de cabeça... meu Deus,
como não amar este ser...
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Porém, as gatas e a saudade.
segunda-feira, julho 15, 2013
Como o achigã. Como o alabote.
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Dizer amor, dizer mentira, dizer mistérios. Dizer dinheiro,
dizer saúde, dizer juventude. Dizer Deus e não dizer Diabo. Dizer razão, dizer
beijo. Dizer tempo, dizer brevidade, dizer eternidade.
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Não tem nada a ver, mas tem vida. Dizia o Eduardo que andava
tudo ligado. Que fazer se somos apenas únicos e cada um não se repete. Dizer
vida.
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Dizer para não dizeres. Que me disseram que disseste, que
era para o meu bem. Que disseste para não me dizer. Que perguntaste, que
perguntei, que perguntei se perguntaste, que perguntaste se perguntei. Não digo
mais nada. É pior, é melhor, é o que Deus quiser, é o que seja, nem que seja
Buda.
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Um abismo, não há palavras. Nem de amor que unam. Nem que
separem. Abismo de cair, de não voltar. Silêncio e uma outra vida.
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A loucura dos beijos, loucura de dias e noites. Acerto de
tudo o que não fez sentido. Uma carta de amor por entregar.
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Não expliquem. Não expliques. Não entenderei, só à luz da
morte e da renascença. Contas por acertar e vidas para justificar. Tristeza que
deu.
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Fiquei de te escrever uma carta de amor. Ficaste de não a
receber. Ficámos sem falar. Antes fosse falar por falar. Qualquer coisa que não
silêncio.
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Disse que não te dissessem. Disseste para não me dizerem. Não
dissemos. A vida ficou a meio e ainda assim continuou.
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A Primavera não tem nada a perdoar. O Inverno perdoa tudo.
Entre o Verão e o Outono tudo acontece. Assim aconteceu. Às vezes acontece. E a
vida mudou. Mudámos, mudamos.
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Esta não é a carta de amor que fiquei de te escrever. É
aquela que prometeste nunca querer receber. No fundo, a vida.
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Como o achigã, não sou daqui. Como o alabote, ninguém sabe.
Só podia ser, então. Porém, há as contas. A certeza dum dia, depois da vida.
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Não é fácil de entender. É fácil, não é?
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quarta-feira, junho 19, 2013
A dada altura
Há amar e amar, há ir sem voltar.
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Nota: com uma certa inspiração em Alexandre O'Neill.
terça-feira, junho 18, 2013
segunda-feira, junho 17, 2013
Duas pessoas, um texto estúpido e duas imagens
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Se te tivesse conhecido noutra vida... fora num tumulto qualquer, com reis guilhotinados. Nesta, sou morto para te amar e tu sempre em comícios.
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O que gosto em ti? Essa raiva de construir, que tem tanto de leite. Se te sonhasse, seria de ternura profunda e acção, como os gatos.
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Não te conheço... o que importa, se és actriz? Tenho o mesmo direito de sonhar.
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És do mundo e engano-me noutro lado qualquer. Gostava de te encontrar entre Vénus e Marte. Se, pelo menos, tivessemos entrecruzado o olhar.
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Sem que nos entrecruzassemos no olhar...
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És uma viúva negra. Querendo ter-te, sabendo-te o perigo, suicidar-me-ia em tesão.
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Quem tem no mundo um caminho, nunca poderá amar quem não quer seguir caminho algum.
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Quem vê passar, pode sempre desejar quem deixou para trás o aroma duma forte vontade.
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Nunca pediria que me amasses, porque nunca se pede e amo paisagens quietas. Mas invejo quem luta e com quem se deleita.
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Vistas de negro, de escarlate, d’ambas, doutra cor qualquer, tens na voz a locução da guerra. Vista-me do que for, terei sempre os olhos submissos.
domingo, junho 09, 2013
Champanhe, meu Deus!
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O Champanhe é um vinho excepcional! Faz esquecer tudo!... Por exemplo, visitei um grande produtor de Reims e não me lembro qual...
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Nota: Taittinger.
quarta-feira, junho 05, 2013
Livro
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Quando se deseja a primeira edição dum livro é por amor às
letras, para fazer amor com uma virgem.
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A mim não me importa quantas noites dormiram sem mim. As
páginas arrancadas e perdidas são rugas para contar.
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Como o pai se derramou, se entornaram as palavras.
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A vida começa e fenece, os livros arrumam-se na estante.
A miúda perdida
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Lembro-me da temperatura da língua, que tinha a força das
coisas frágeis. Que tinha o tesão da quase inocência.
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Nada que diga faz o tempo voltar. Fiz-lhe amor dormindo ou
acordado no ócio. Esmeralda perdida.
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Não parece que foi ontem. Parece que foi nunca. E nunca foi.
Um ramo de flores sem Outono.
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Morrerei sem voltar aos lábios que me amaram por tão pouco. E
sem nunca lhe ter morrido no leito.
terça-feira, junho 04, 2013
Para os dias tristes
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Para te distrair destes dias tristes, qualquer coisa que não
se tenha de fazer, para fazer o que dará para lembrar. Queres um beijo ou
que te empurre?
Praga e piedade
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A boca é uma nascente. A mais pura não vem de cima, mas do meio,
às vezes do fígado.
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Que chores sempre que te lembres. Que te doa o meio da alma.
Que arranques os cabelos.
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O que te disse de doce será diabetes. O que disse de mal
saberás quando te julgares livre.
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Os beijos chegaram-me ao coração e vivi. Com a ausência,
septicemia.
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O corpo vive fantasma. Depois de passar, penar ainda mais,
até que a eternidade se esqueça.
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Dor de horizonte ao entardecer. O silêncio das rochas no
mar.
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Lágrimas pela piedade da vida que se cala ao entardecer.
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Todo o choro que se tem. Todo o fingimento. Toda a dor que
não tem nada a ver e se vai buscar para chorar mais.
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Despedida e derrota. Dias amarfanhados. Até uma alegria
e outra tristeza. Por diante.
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Despedida de bílis. Faltando o sangue, sonhando a morte.
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Sem insulto, só pena: a minha; e inveja de ti, sempre feliz.
Talibã
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No metro ia um tipo com turbante roxo e barba comprida, mal
enjorcada para os padrões estéticos vigentes. O tipo era escuro e enquanto o via conversava comigo:
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– Duvido que na América o considerem caucasiano... É muito
escuro, mas é caucasiano.
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Fustigo-me por pensar tal coisa... o que importa? Homo sapiens
sapiens; viemos todos de África, temos uma mãe comum, a tal de Eva, que,
parece, existiu mesmo, assim o determina o ADN mitocondrial. Blá, blá, blá, a
globalização...
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Perguntei-me, porque não tinha mais nada para pensar, donde
seria? Índia, Paquistão ou Ceilão? Poderia ser sikh... com turbante e barba? Há
muitos por aí. Um talibã?... viria do Bangladesh? Há talibãs no Bangladesh? E sikhs?
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A ideia do talibã agradou-me, mas a chatice da minha cabeça
convenceu-me de que seria sikh e do Bangladesh.
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O que fará alguém do Bangladesh vir perder-se em Lisboa?
Isto é um fim do mundo, um extremo, uma Europa irrelevante.
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Como se constata ao observar a posição geográfica, ninguém
chega a Portugal por engano; não está em nenhum caminho, é um fim das estradas.
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Que vida estúpida teria no Bangladesh para vir aparvatar-se
aqui? Por que veio perder-se aqui?
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Se fosse um talibã, pelo menos, significaria que Portugal importa alguma coisa para o mundo. Mas o gajo era sikh e do Bangladesh.
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Nota: Se tivesse sido em Badajoz poderia ter sido para
comprar caramelos.
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