sábado, março 29, 2014

Doutor, doutor... tenho aqui uma dor


Cheguei à farmácia e o doutor, ou aquele funcionário que faz o mesmo, mas que é só ajudante, perguntou-me:
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– Que remédio deseja?
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– Preciso de dois. Uma para a dívida pública e outro para o défice orçamental.
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Parece que estão esgotados, mas que estamos a tentar mudar de laboratório.

sábado, março 22, 2014

Selfie nua não significa estupidez... corpo de miúda





















Não namoraria com uma mulher banal, porque nenhuma mulher banal me aceitaria a banalidade, ainda que louca, é banal.
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O meu coração é de esferovite!
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Não tenho qualquer conceito que torne este simples verso numa obra de arte ou em parte integrante de criação maior.
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Rimar com infinitivos não é proibido... bem queria a malta do hip hop pra se queixar.
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Na maioria das vezes é só falta de talento.
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Ou tempo a menos nas ruas e esplanadas, de cervejas e charros criam a ilusão de gerar artistas.
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Há os taxistas que fazem poemas complicados, longos e palavrosos, com todas as palavras que conseguiram colher no dicionário.
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Têm mais memória, mas menos música. Ainda que o hip hop, cá da terra, seja todo igualinho, feio como todos os pais que usaram a mesma mãe.
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Não tenho estatuto para bobo nem para maluquinho de aldeia. Para muita gente, algo desinteressante e exótico entre os dois seres.
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Imito. Como todos imitamos, mesmo quando genuinamente criamos. Minto, como todos os que criam.
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Mas para que irei nu para a Segurança Social se alguém já meteu um urinol numa sala de exposições?
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Só a clemência, por causa do frio e da fome, me livrariam da saída apoteótica, ainda que repetida, numa ambulância. Se o fizessem estragavam-me a arte e o propósito: passar à frente de toda a gente.
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Pergunto-me, num monólogo denso que só será lido com muito uísqui, demasiado fumo, apertado em livros de lombadas velhas e de poetas que ninguém quer saber: Devia ter estudado para ministro?
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Que mulher banal me quer? Talvez ébria e por isso não me leve a sério.

sexta-feira, março 21, 2014

Leituras atrasadas

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Nunca poderíamos namorar, pela sua inteligência e a minha maldade. Nunca duas tristezas poderiam dar a alegria de juntar a areia dum lugar com a luz do outro sítio. Há ainda o rio e as casas baixas. São quilómetros de distância entre a sua sabedoria e a minha vida prosaica.
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A menina, a quem raptei o nome numa brincadeira inocente, tem todo o conhecimento, tudo cabe dentro do ovo e sabe o que é. Eu, desbocado e galã, derrotado por muita coisa, sou superficial e actor de conhecimento de artifício.
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O amor pelo que escreve... leu «A paixão de Martin Eden», de Jack London? Quendera ser Martin, ainda que a menina não estivesse no sacrário do amor e, por amor de todos os santinhos, não fosse a desilusão.
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Quando a vida me serrou a cabeça e fundiu memórias deixou-me este livro e enredo. O que eu queria era «O Retrato de Dorian Gray», sem aquelas coisas dos maricas.
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A menina é a sabedoria de Martin Eden e o seu esforço. Sou a futilidade, a arte pela arte, o amor pelo capricho.
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Escrevo-lhe como se fosse um poema – talvez seja. Escrevo-lhe como se fosse um poema .
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Conhecemo-nos? Tivemos blindedates intelectuais, sem malícia ou outra intenção que não fossem letras e artes, e conversas do vamo-nos-conhecer-embora-tenhamos-pouca-coisa-para-dizer – que foram agradáveis.
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A menina é densa e eu pueril. Como um casal da pequena burguesia lisboeta do século dezanove.
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Gosto de ouvir e de dizer que sei ver, ainda que muitas vezes apenas julgue que observo uma pérola, que é pedra à vista da verdade. A menina tem flor, folha, caule, raiz, solo, subsolo, hiberna e dá uvas.
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Não é o mundo que perde uma amante – e desconheço se de momento o tem – são as amizades que lamentam o dia de Fevereiro em que pousou o Belogue. Ao contrário da natureza, as letras e a sabedoria não crescem sem amanho.
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Onde começa a menina e onde acaba? É o Belogue, ou apenas quer retomar esta conversa dentro de vinte anos?
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Tenho direito à ilusão de saber o seu nome.
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Como tive direito ao tu e ao açoite da terceira pessoa.
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Ainda tenho o seu nome. Roubei-o, aproveitei-me dum abandono distraído. Podia tatua-lo, mas não preciso.
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Beluga, disse-me. Falei-lhe em caviar, o que é óbvio, e como um herói pronunciei alto, como os novos-ricos, Champanhe.
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Fresco, notas de folar, pitada de erva-doce. De bolha viva e muito fina.
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Não! A Beluga merece mais do que ser rainha de festa em luz. Nunca será brilho, mas ouro velho. Nunca orgia de riqueza de ouro até vomitar, será pintura, talvez a têmpera, abraçada em madeira vestida de folha de ouro, já castanha pelo valor
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Tem a escuridão duma cave de tonéis muito antigos, onde se guarda arte como nos depósitos dos museus. Não é o que todos vêem, esconde-se. Está onde a quiserem procurar.
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Arte  quase única, para quem sabe e sabe guardar segredo, não por intriga, mas por falta de tempo a perder com quem não distingue uma terra-sena-queimada dum verde nascido da força do azul-prussiano e dum amarelo plebeu.
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Sou um homem que vê coisas e algumas até existem. Porém, o meu nariz engana-se menos, expressa-se pior. Leio: 1855. Se puder... como o teatro, é arte efémera e viva.
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Vejo-a, desesperada tentando salvar da fogueira um El Greco, que gosta tanto que se pudesse o mandaria queimar.
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Nessa paixão por querer ter paixão... não tem desassossego louco para ter paixões. A sagrada sabedoria quere-a acima dum breve tempo de loucura pueril. Tem desassossego como quem usa cilícios – a sua dor é pensamento.
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Amar é outra coisa. Pode amar livros e quadros e não ter quem mereça dormir consigo o sexo justo devido a quem tem mais do que letras, visões de arte, triangulações... e ainda que fosse só isso... arte é arte, e merece-a. Não lhe direi de beleza, mas de mulher.
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Repita comigo, bem soletrado e alto: eu amo. É o amor que lhe deve. O gnomo da cultura e a foda da sabedoria que tem da vida e que, aparentemente, não sabe usar... há gordos e Apolos que a esperam, queira ter a coragem de ler a vida como age no conhecimento.
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Sexo é fácil. Difícil é o amor. Que saudades tenho das suas cartas de amor de sabedoria, que lia todos os dias, se todos os dias tivesse escrito e eu tempo para aprender que o meu conhecimento são farófias...
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Sim, esta pode ser uma carta de amor, já que o tempo e a distância não nos deu tempo para sermos amigos.
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A menina fez-me humilde. Quando a soberba, o cinismo e a hipocrisia me poupam tento ser boa pessoa. A sua sabedoria dava-me humildade. Sentia-me feliz com a minha consciência de farófias... leve e doce.
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Humildade é uma coisa boa, não é aquela sensação que o meu cérebro tem, às vezes... quando sinto ter uma alforreca dentro do crânio.
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Não nos conhecemos: fui um galã e quase filho-de-puta... às vezes fui. Consigo, nunca, e nunca o seria, não tenho arcaboiço para um wrestling que acabaria antes que lhe tentasse dar um beijo! E sempre acreditei que a minha inteligência, cultura, virtuosismo e imaginação me faziam alguém que merece ser conhecido e desejado.
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Quase nada. Tenho uma vida tépida... feita de enganos mornos, arrefecidos por hiperventilação por causa de vulcões egocêntricos.
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Não segui pintura, porque recusei a injustiça de ter de estudar matemática. Disse-me o meu pai que mais valia perder dois anos do que toda a vida.
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Se tivesse conhecido uma sabedoria humilde como a sua talvez tivesse segurado a cruz e hoje pintasse, ainda que medíocre. Na verdade perdi dois anos e a vida toda.
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Já a menina é sabedoria; um ovo. As marés não a comovem, interessa-lhe a água.
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Perdi tempo quando, por uma razão justificada e que não me lembro, desacostei do seu Belogue. Perdi lágrimas por razões maiores, mas encheu-me de tristeza saber que não tem escrito desde Fevereiro.
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Queria continuar seu aluno e não ter de lhe escrever um poema de amor, por não lhe sentir amizade suficiente...
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Escreva. Pense que sou um recluso que ama uma mulher abstracta ou um soldado que se felicita pelo aerograma da madrinha e que sabia que um dia poderia ser sua mulher.
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Escreva, não para me fazer um favor. Mas porque...
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Pelo que quiser.
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Nota 1: À Beluga, que mantém parado o Belogue, o blogue mais interessante que conheci.
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Nota 2: Lembre-se de escrever quando for correr a ouvir estas mocinhas...

É no Dia da Primavera que é Dia do Amor – coisa tão verdadeira e estúpida que dá saudades do mau e torna desconfortável o que foi bom

PREÂMBULO
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Entre saber e não saber, a dúvida de que se contarei tudo num longo binómio ou se cansarei em número de postas no blogue. Opto pelo lençol de músicas, conversas verdadeiras, sentimentos sérios. São quarenta e quatro anos de muitos enganos e crimes, em que fui quase sempre o ladrão. Mas sofri também. Não julguem, pensem apenas no começo, da primeira borbulha, até aos cabelos brancos na barba. Quase tudo em português, porque só sei amar em português e percebo mal o que dizem as bocas doutros corações.
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Porque hoje São Valentim estuda a complexidade do amor e Santo António pondera na virtude do casamento.
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Porque hoje começa a Primavera, que é a estação mais estúpida do ano.
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A Primavera é a adolescência. Já se sabia, já tinham dito. E é horrível.
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É da Primavera que me lembro e lembro que era feliz. Afinal a doença já cá estava e ainda assim a sinto feliz, a estúpida da Primavera.
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Engravidar nunca me assustou, pois sabia que nunca seria pai.
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A sida tremia-me. Não parava, mas as adolescentes tinham centímetros de amor dentro delas. Bastaria, pensava eu. Bastaria, pensava certo. Bastaria e continuava.
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Primeiro era tímido. Ela, depois de óbvia, colocou os lábios, encostados aos meus.
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Estúpido, não a beijei. Os miúdos fascinavam-se com os gays e ela perguntou se eu era. Não a mim. Era apenas estúpido.
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Wild one involuntário, digo hoje com ternura. Digo Ocarina. Digo Mila. Digo Iggy Pop – Real wild child.
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Era tímido. Invejava e tinha erecções. Via, via que me viam e nada fazia. Uma dia, num autocarro descapotável, perguntei à miúda se queria namorar comigo.
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Ela quis e demos uns beijinhos. Acho que houve uns dias que desaparecia e sem telemóvel ter sido inventado, nem jeito para lhe fixar o nome.
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Depois, atrás do nada duma surpresa, Tavira, branca e quente, com o Gilão e a esplanada que era a única coisa para fazer.
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Fazia-se mais, mas era conversa. A discoteca não interessava e os bares eram para as pipocas.
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Frente nos olhos convidei-a para sair. Tímido e estúpido, convidei a amiga. Depois foram os outros amigos.
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Num relance de galã, cantei-lhe Elvis, o meu herói... na sua versão cafona do «Oh sole mio» («It's now or never»).
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Beijámo-nos e foram dias a entrar pela janela e sair pela porta.
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Sim, era tudo especial. Para os dois. Demasiado novos para ter filhos e felizes como na ingenuidade dos romances para costureirinhas. The Speacials - «Too much too young».
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Ainda que Tavira continue, os Verões também acabam. Regressei, tímido e mentiroso. Nada se passara comigo. Beijinhos sem canção.
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E foi-se. Aí doeu e quando dói sente-se nascer no peito uns chifres.
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Tanto faz! Saía à noite e dançava. Éramos poucos. Quase todos os rapazes beijaram quase todas as raparigas. Quase todos os rapazes gay beijaram quase todos os rapazes gay. Quase todas as raparigas lésbicas beijaram raparigas lésbicas. Quase todos os rapazes gay beijaram raparigas lésbicas.
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Entre absinto, nem sei quem beijei. Se beijei, esqueci. Nunca beijei um rapaz nem um homem. Mas se o fiz, espero que o beijo tenha sido bom.
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Havia tribos e os que se drogavam. Valia muita coisa e o mundo era tranquilo e feliz. Como na animação para miúdos: dávamo-nos todos bem.
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Era tímido, mas uma coisa líquida, pouca porque era pouco o dinheiro... pouca porque não aguentava... pouca, que nem agonizava ter de andar quarenta minutos até casa.
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Um grupo alemão, da primeira geração que se fartou de arcar com o peso dos erros dos avós, cantava o que ninguém entendia. O ritmo não perdoava e os skinheads, que ouviam Mussolini e Hitler, e numa canção em alemão, festejavam o hino.
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Não percebiam nada. Nem eu. Quase ninguém fala alemão. Mas dançava, toda a gente dançava os DAF – «Tanz den Mussolini».
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Num Verão fui com passear com uns amigos. Não havia adolescente que não se identificasse, ainda que o que houvesse para identificar não lhes fosse permitido perceber. Da barragem ao litoral, horas para ir dum lado ao outro das férias.
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Sim, «Dunas», dos GNR - eram quase tudo e as dunas escondiam os desejos que satisfazíamos onde os adultos não nos descobriam.
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Às vezes a nostalgia e a melancolia visitavam-me. Não tinha lembrança, nem crime, nem alibi, nem nada. Cantava como sentisse que tudo aquilo fosse uma verdade minha. Era só música, mas o coração sentiu.
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No íntimo sabia que em algum dia haveria de ter aquela mágoa. Tive-a, mas quando me chegou já a validade estava cem quilómetros para trás.
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Ná! Sempre tive premonições. Sabia, de facto, que a pessoa que tinha, que iria tendo, que perderia... ou outra qualquer me haveria de deixar a fritar na melancolia.
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Os Sétima Legião eram quase alternativos... quando começaram a surgir os alternativos da roupa... que saíam de milénio em milénio e que hoje dizem ter sido noctívagos e vividos. Raispartam a memória e a adolescência...
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«Por quem não esqueci»... hoje são muitas.
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As borbulhas, que nunca tive muitas nem muito chatas, acabam por nos deixar para que possamos ser homens.
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Trabalhava, era importante. E melhor: ainda estava no liceu, num atraso difícil de explicar mas que em resumo:
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A justiça adolescente nunca permitiu que a criatividade sofresse com a matemática, a física e a química... principalmente a primeira.
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Mudou-se a vida. Não foram dois anos perdidos e o meu pai disse-me: antes perder dois anos da vida do que perder a vida inteira.
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Certíssimo, o meu pai, que sempre foi mais amigo do que pai.
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Errado momento em que mudei. Perdi dois anos, ganhei umas letras e sei que perdi a vida. Hoje escreveria a tinta e certamente já não me lembrava da assassina da matemática.
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Adolescentes e seus caprichos. Justos. Era homem e queria mostrá-lo. Era um homem pequenino e comecei a fumar, na idade em que se merece uma tareia por pôr um cigarro na boca.
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A noite era minha e dançava. Tinha dinheiro e já podia aguentar mais. Ainda assim fiz muitas vezes quarenta minutos a pé até casa. No dia seguinte estava às nove horas no sítio combinado. Almoçava à mesa, bebia um copo de vinho, fumava um cigarro e, às vezes, pouquinhas, deixava entrar um líquido tingido de castanho a que chamava uísqui.
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Era eu e mais outros... restam alguns nas cartas que tenho para jogar. Felizes, superiormente intelectuais, até porque bebíamos uísqui, tínhamos o mundo na mão. As canções deprimentes, os males do amor...
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As borbulhas não tinham saído há tanto tempo. Podíamos ser felizes com ares tristes. Mas éramos importantes. Esta, dos Diva, nunca se me soltou da cabeça. «Amor errante», talvez por isso... e eu que me tornei tão quieto mais tarde.
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Um dia acordei num casal. Borboletas, passarinhos, calmaria num prado, tranquilidade de amor. Tempo, o mais raro componente do amor. Tantas coisas, do bom ao excelente, do mau ao desespero. Um casal.
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Deve ter sido bom, foram quase oito anos. Asneiras, pois. Provavelmente mais minhas. Não me lembro e tenho tudo guardado em gavetas e armários do sótão das emoções. Tantas canções.
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Não sei porquê esta... podia ser Marisa Monte, mas esta é um beijo tão raro que penso que a memória, que tenho algures, merece um abraço especial. Sim, porque foi um grande amor...
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Quase oito anos, uma vida de fumo, numa Smoke City... um amor verdadeiro, que vivia submerso... «Underwater love». Um dia afogou-se em lágrimas. O resto já disse.
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Eu que já me habituara a viver sozinho, sempre desde que saí do ninho, tinha recordações a saltar, como bonecos de mola, de todo o lado. Não tinham rosto, tinham arrepios. Não eram sustos, eram tristezas, lembranças de muitos beijos dados numa cama partilhada.
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Depois veio a dor de corno e a dor de corno só quer ouvir dor de corno. Músicas bonitas, que poliam as hastes córneas da cabeça. Esqueçam, que já me esqueci... não das músicas, mas donde deixei os chifres.
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Ah! As borbulhas! Subcutâneas. Noites de loucura e dias de encher de tempo com qualquer coisa, do trabalho à esplanada, do livro ao sossego das horas. Do jantar à festa.
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Tantas e tão pouco medo. Onde ficou a timidez? Pudor? Talvez... Para quê? Respondem os GNR, ilustradores de vida duma geração, que aqui cantam um brasileiro... «Quero que tudo vá pró Inferno».
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Na verdade, os trinta são ridículos. São uma espécie de adolescência sem borbulhas.
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Ah! Já não tenho vinte anos... já posso fumar cachimbo.
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Janta-se fora e fazem-se jantares em casa. A música é mais séria. Inventam-se situações infantis para criar casais, juntar pessoas solitárias que vivem tristes ou que aparentemente vivem tristes, ou que fingem viver tristes ou que se estão apenas...
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Leva-se um vinho que se julga bom e é-se simpático. Sorrisse-se e às vezes trocam-se números de telemóvel. Na maior parte das vezes não se vai ligar. Nas outras... combinam-se idas ao cinema.
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Finge-se ser uma pessoa adulta e madura, quando, na verdade, os solteiros, têm as hormonas aos saltos e não têm paciência para perder tempo, coisa que os adolescentes, curiosamente, têm para estas coisa. Se é prá cueca, é prá cueca...
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Sai-se à noite. É só um cineminha. Podíamos jantar ou comer qualquer coisa. Tomamos um copo? Vamos dançar – e eu que adoro dançar sozinho e para seduzir – dizia que sim. Não queria nada.
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Ou queria largá-la ou queria cueca e se ela não se quisesse largar depressa, depressa saltava da cueca a minha vontade. Dançar? Sim, no Lux, no meu clube para todos os sentimentos.
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A conversa dava ou desandava em minuetos... muita conversa pressupõe horas perdidas em que se podia estar a dar uso aos corpos.
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Olha, vou só ali. Vou ali ao bar buscar uma vodca... três horas depois, uns minutos, ou conversava com o barista ou com a miúda do lado ou com a miúda do lado que infelizmente tinha namorado e resolvera aportar ou encontrava alguém conhecido ou fazia por...
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Canalha alimentado a vinho e vodca regressava, minutos perdidos, depois a conversar sem sentido, a inventar programas recusáveis numa discoteca...
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Crida, perdeste o autocarro para as cuecas e eu perdi a tesão por ti.
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Sim... tudo começara com um jantar de Cupidos, bem intencionado. Mesa e Rui Reininho... talvez a música não tenha nada a ver com isto, mas a referência ao nono andar lembra-me esses quase blaindedeites... «Luz vaga»... podia ser, mas nem sempre aconteceu.
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Claro que as luzes, a música e a bebida criaram paixões. Marés pequeninas para molhar os pés.
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Ah! Os trinta e as tais borbulhas. Muitas negas, na guerra dá-se e leva-se, e muitas miúdas que já nem apresentavam os novos namorados aos pais... aos irmãos... aos amigos.
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Sem espírito de vingança nem mimetismo... acho que é natural na espécie humana... Eu fazia o mesmo.
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Tudo tão intenso! Como um cigarro. Como o beijo adolescente. Tão consumível e mortal. As borboletas vivem pouco e algumas esfumam-se no calor da luz.
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Como os adolescentes... «Agora e para sempre». O agora dura uns três minutos e o sempre é demasiado sério e doloroso para quem aos trintas começou a aprender a fazer patinagem artística no estilo Bamby...
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Em vez de fofinho, é ridículo. Os «Da Weasel» disseram tanta coisa acertada, tantas vezes de modo tortuoso, mas disseram tão bem, que com os GNR são quem mais sabe da vida duma pessoa. Os cotas sabem-na toda, os chavalos estavam a aprender...
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Não fiquei cínico aos quarenta. Nem fui totalmente imbecil nos trinta. Conheci gente bonita, que, por alguma estrela em retrógrado, nos fez encontrar fora do momento.
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Uma noite sem data numa rua que desce, só sobe quando vamos no sentido contrário. Ela e ela e ele e ele. Eles nos olhos nela e a ousadia dos trinta. Risos e mentiras, genuínas como os poemas desastrados dos analfabetos honestos.
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Acho que acreditei na mais que provável mentira. Passei dias a ver passar os dias. Na praia, contra-conselho, mandei-lhe uma mensagem para o telemóvel.
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O resto não sei. Sei que ousei como nunca ousei e ela, falsa, fingindo que não sentia a minha ousadia. Sei que fui feliz, entre tempestades estúpidas. Nos despojos dos acidentes trágicos de comboio surgia sempre vida.
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Corpo que pedia corpo. Um mesmo corpo garantia a química e a física. Nitroglicerina faz bem aos corações doentes.
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A nitroglicerina explode e mata. E numa noite de explosão deu vida. Num dia de implosão enterrou-se a vida.
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Alquimia e magia, a força das bombas dos discursos trocados. O amor morreu com palavras e sem ver, esquecido que nascera na sinceridade das expressões.
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Flor dum cacto? A amarela, com espinhos. Não era rosa, que detesto nessa cor. Nem tulipas que também não gramo. A botânica deve ter alguma na colecção.
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O coração é coisa comum, vale pouco. Todos os animais têm um coração. E a alma? Quanto vale uma alma e quanto lhe pesa o coração?
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Não respondem, mas dizem. Não foi essa a minha vida, mas é este o seu sabor, palavra donde dizem sai sal e sabedoria. Expensive Soul, como se não bastasse... «O amor é mágico» e nem só os aprendizes se queimam.
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Hoje, pela primeira vez, não tenho uma música para cantar ao amor. Posso dizer, com alguma segurança – talvez um dia afirme que os quarenta são ridículos – que me estou nas tintas.
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Nas tintas para quase tudo menos para o amor. Paixão? Isso é doença!
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Como é feliz a paixão! A paixão é uma merda!
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Ainda que neste amor, neste abraço tão grande, viva uma paixão sossegada, que se respeita e sabe respeitar.
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A paixão não está velha nem cansada. A paixão foi à escola e não se deixa esgotar na correria das borbulhas.
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Não sou cínico, estou apenas surpreso. Há tanto mundo e o vento faz abraçar como dantes fazia a paixão.
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Saudades? Muitas. Vergonhas, apaguei a maioria. Repetia as asneiras? Não mas fazia-as, se soubesse tanto como sabia na altura.
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Quero e o meu quero é grande. Somos sete cá em casa.
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Ao contrário dos egoísmos antigos – repito que um dia talvez pense que os quarenta são inocentes – quero por tudo.
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Se a vida começa, de facto, aos quarenta, venho ao mundo com as alegrias das dores.
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Convencido que nesta coisa do amor perdi o egoísmo... reconheço toda a saudade e ternuras.
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É bom ter quarenta. Sei que tudo o que de melhor me aconteceu foi provavelmente aos quarenta, mas uma borbulha insistente cantam-me novamente os GNR... «Mais vale nunca».
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Como as lágrimas, o tempo não volta. Choro por todas as dores e pela alegria deste ter.
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Nota: Do pouco que sei, da vida e da escrita, embora o diga mais por soberba... dois poetas escreveram o que eu queria ter escrito. Deixaria tudo para os outros, queria que estes fossem meus.
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Stéphane Mallarmé: «Hoje descobri como é bonito o teu nome. Pronunciei-o baixinho muitas vezes e senti que na minha boca crescia um delicioso sabor a ti».
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João Ruiz de Castel-Branco – Cantiga partindo-se:
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Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

segunda-feira, março 17, 2014

O adultério é algo muito feio

O adultério é uma doença venérea. A medicina não tem remédio, a ervanária sem mezinha e a voz desautorizada dum cura não cura o que não tem cura.
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Nunca fui às putas. Sou um cavalheiro, acho. Para mim, os desportos são amadores e praticam-se em desafio.
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Não amei todas as mulheres que amei. Porque não quiseram. Porque não quis. Porque não pudemos.
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A moral não tutela o meu desejo. Só o frio resguarda o meu corpo.
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O risco faz-me rir ainda que no final possamos ficar apenas a rir.
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O medo fundo não me coíbe, faz-me é vir mais depressa.
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Amo tranquilo e amei como nos filmes. Desejarei ter amado mais.
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Amei ali escondido no anonimato do óbvio. Amei agasalhado num ninho.
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Amei por fora e não sei, finjo, o que me fizeram.
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Amar será muito. Adúltero é não qualquer coisa.
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Adultério soa-me a dissertação em cuecas-de-gola alta. Nem em sonhos é risível, nem com ódio é ridículo.
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No amor, os corpos são lindos... ou pelo menos salvam-se os olhos ou o sorriso.
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O sexo é ciência, em que a química exige que a física comprove uma lei de atracção – digo isto assim, porque sou civil e nada entendo de patentes nem modos de abotoar batas.
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Por vezes é o oposto – ainda que continue a não entender por que umas batas abotoam de lado, outras à frente ao meio, outras atrás, outras tenham cinto, e haja de várias cores, mas menos complexas que as brancas.
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Há umas coisas que não são enganos nem desenganos ou perdas de tempo. São fé: quando dois corpos – chamemos-lhes pessoas, para ser-se prosaico – acreditam que juntos... ou foram os amigos no gozo ou o padre a criar ambiente para um dia que haverá de chegar...
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Antes isso do que adultério. Brincar com uma almofada ou festejar com uma mulher com comportamento de travesseiro é melhor do que se ser adúltero.
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O amor faz-se em qualquer lado e o sexo também.
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O adultério faz-se em qualquer lado, mas não há um único sítio em que soe bem.
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A palavra adultério é mais feia do que puta... e trabalhar não envergonha.
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Nota: Um dia, quem sabe, escreverei tercetos e quadras, odes ou poemas mais complexos. Sou um simples amador.

A nudez duma rapariga vestida numa fotografia

Adrenaliza-te, que a espera não te despe mais, não tenho mais olhos para te ver em desejo nem mãos para os satisfazer.
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Não te dispas. Fica, vejo é o teu nu, bidimensional, tenhas ou não roupa.
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Por ela constato a beleza do corpo, sem grandes ou pequenos os teus peitos. As mulheres têm artimanhas que os homens sabem mas se enganam sempre.
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Os olhos de castanho despíveis. Sorriso que exige lábios proibidos.
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Boca que merece castigo e prazer. Onde me toco, quando te vejo parada no papel de luz, seja alimento do desejo que atormenta.
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 Duma vez por todas, que sejam todas as vezes. Sempre que um nosso corpo queira o outro nu, um espectro de luxúria o satisfaça.
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Adrenaliza-te e despe-te. Não esperes por mim na cama ou noutro campo de batalha, não irei. Chegarei ao mesmo tempo. Tal como aquilo que faremos com o corpo um do outro...

quinta-feira, março 13, 2014

De azul de amor e brancura de infinito

























Não quero que sejas pedra para que nunca te jogue nem me aleijes.
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Não quero que sejas mar para diluir as lágrimas.
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Não quero que sejas ar para que te use e despreze.
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Não quero que sejas fogo para que me queimes como mariposa.
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Quero-te como o sabão, que lavas e acaricias.
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Que no fim possa dizer que nos usámos e desfrutámos até ao fim.
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Que brincámos às bolinhas e nos zangámos, deixando-te cair e tu fugindo escorregadia.
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Lavas-me a alma, e limpo posso amar-te sem pecado.
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Para cada pecado, os sete ou outros desconhecidos, temos um elixir.
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Sabão, é forma de abrir a boca sem alternativa... o que quero é que sejas para sempre a minha mulher...
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E que eu, doente de parvoíce, mereça sempre o teu carinho.
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Que quando da dor, da insónia e do susto possas ser o champô, que não limpando amedronta os temores.
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Que tu doente possa ser o antídoto.
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Este é um momento em que não digo nada e te olho nos olhos, estejam aqui ou noutro lugar.
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Quando chegares a casa dar-te-ei um beijo...
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Espero que não tenhas lavado a boca com sabão.

quarta-feira, março 12, 2014

Se sou um triste? Sempre não sei, mas entristece-me quando se acaba uma garrafa de vinho e ninguém quer abrir outra.


Caído num campo de papoilas, que é flor que não existe. Ensonado, não sei se mereço a sombra fugidia da fronteira das folhas da árvore ou se estremeço pelo passar duma nuvem.
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Se me mandassem, ia. Quase a qualquer lado desde que não fedesse. Tal como a fé, a solidão é íntima, e tantos indivíduos juntos são subtracção de individualidade.
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Não tenho nada contra, mas não gostava de falar com Deus. Os meu problemas, que para mim são grandes, não interessam, e muito menos a Deus. E com Cristo? Dizia-lhe o quê? Ah! Admiro-o. Que mais? Elogios merecidos seriam todavia lisonja, ainda que disso ele não pareça padecer.
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O que comemos... o que bebemos... a arte... merecem conversa. Íntima, porque cozinheiros, enólogos e artistas-visuais (agora diz-se assim) são todos criadores, têm egos grandes ou têm egos pequenos, o que dá mais nas vistas. Quero lá saber do conceito. Quero é ter sentidos e pensar, provavelmente pouco, no trabalho que aquela coisa deu a fazer...
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Se pensar bem, nem o vinho me interessa. Falar de vinho é como descrever uma noite de sexo. Recomendar um vinho é como sugerir uma puta. Citar anos, colheitas, é lembrar a idade da meretriz e disfarçar vidas de merda que se tiveram ou vidas de merda que se têm, porque as boas acabaram.
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Vinho é amor e a bebedeira é o seu orgasmo. Que tântricos, profetas sábios, diletantes de merda digam o que disserem, manterei a jura: o vinho só existe porque é droga. Para mim, bagaceira é heroína e água-pé chamõ (como se escreve esta droga de merda?) que os ciganos vendem na rua Augusta, aos tansos e aos turistas... Rua Augusta é aquela rua de Lisboa que só tem interesse porque liga dois sítios que valem a pena.
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O álcool... o vinho, para simplificar e usar o nome da mais nobre das bebidas depois da água... é mãe e canalha, além de tanta coisa.
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O Neruda escreveu a «Ode ao Pão». Fez bem. É tudo verdade, mas é uma chatice! É tão nobre o propósito que se torna piegas... como quase tudo o que os neo-realistas inventaram. Não desvalorizando, é gosto e dor epidérmica.
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A «Ode ao Pão» são umas ceroilas penduradas na fachada dum prédio que merecia ir abaixo, e que, apesar de virada para a rua, mostra as intimidades.
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E não é por causa das intimidades, mas da vergonha de não ter coragem em andar em pelota na rua, mas ter a vaidade de passear de fato-de-treino numa rua de cidade com estatuto de cidade.
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Gosto de comer e aborrecem-me as longas conversas de fios castanhos a ornamentar pratos, dos banhos-maria e das afirmações ignorantes sobre artes que hoje ninguém sabe ou ouviu falar... ou os foie gras de ganso-patola ou os quinhentos jotas dum presunto que nunca terei dinheiro para comprar, que apenas poderei sonhar, mais babado e triste do que o faminto que apenas pede uns trocos para comer.
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O que é ser-se rico? A pergunta é... e todas as respostas são tão estúpidas quanto as cantorias do bêbado-lerdo que existe em todas as aldeias ou se dilui nas cidades, misturado na indiferença, abaixo do nível do cagalhão do cão.
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Se for rico o que farei... se souber o que é ser rico, se o dinheiro que tiver me satisfizer – uma forma de definir riqueza... compro umas análises e vou embebedar-me para Londres e Paris! E comer nos sítios mais caros e exclusivos, onde metade dos comensais se mostra à outra metade que gostaria de ser reconhecida... sobram dois casais... e os empregados também gostam de se mostrar, de mostrar que sabem, que merecem estar ali...
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Só beberia vinho para milionários... russos, árabes, brasileiros, chineses.... de que serve ter dinheiro para beber do melhor e a única coisa que se tem para dizer é algo como afirmar que se foi para a cama com uma garrafa, puta?
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Ah! Os taninos!... Ah! Os aromas a frutos silvestres! Ah! As notas de couro... ah a puta que o pariu, porque vinho é vinho, felizmente é todo diferente, mesmo o mau, e adjectivar vinho é tão entediante como comparar narizes ou as nuances de azul e verde nos lápis-de-cor.
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Não! Se for rico embebedo-me com o mais caro e quero vomitar todos os diamantes que não existem na bebida.
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Aí tenho uma história... fui para a cama com uma puta, não sei se foi de rua, porque estava bêbado e ela parecia viciada em crack... ou cocaína, porque não me lembro... História é transgredir e no dia seguinte ter susto, viver meses amedrontado, recear fazer análises... não saber se se sobrevive à loucura, que tem de durar até... não saber se sobreviverei, amedrontado, quando sei, desde quase sempre, que um dia irei morrer.
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Sim! Viva o álcool e as bebedeiras, de vinho rasca, curadas à sombra, duma árvore ou do lindo branco duma linda nuvem que estraga o azul do céu.
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Nunca vomitei na cama. Isso enche-me de orgulho... e as outras figuras tristes apagam-se é uma sina, como a de não sofrer de ressacas.
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Com o devido respeito:
ODE AO PÃO - de Pablo Neruda

Pan,
con harina,
agua
y fuego
te levantas.
espeso y leve,
recostado y redondo,
repites el vientre
de la madre,
equinoccial
germinación
terrestre.
Pan,
qué fácil
y qué profundo eres:
en la bandeja blanca
de la panadería
se alargan tus hileras
como utensilios, platos
o papeles,
y de pronto,
la ola
de la vida,
la conjunción del germen
y del fuego,
creces, creces
de pronto
como
cintura, boca, senos,
colinas de la tierra,
vidas,
sube el calor, te inunda
la plenitud, el viento
de la fecundidad,
y entonces
se inmoviliza tu color de oro,
y cuando se preñaron
tus pequeños vientres,
la cicatriz morena
dejó su quemadura
en todo tu dorado
sistema de hemisferios.
Ahora,
intacto,
eres
acción de hombre,
milagro repetido,
voluntad de la vida.

Oh pan de cada boca,
no
te imploraremos,
los hombres
no somos 
mendigos
de vagos dioses
o de ángeles oscuros:
del mar y de la tierra
haremos pan,
plantaremos de trigo
la tierra y los planetas,
el pan de cada boca,
de cada hombre,
en cada día,
llegará porque fuimos
a sembrarlo
y a hacerlo,
no para un hombre sino
para todos,
el pan, el pan
para todos los pueblos
y con él lo que tiene
forma y sabor de pan
repartiremos:
la tierra,
la belleza,
el amor,
todo eso
tiene sabor de pan,
forma de pan,
germinación de harina,
todo
nació para ser compartido,
para ser entregado,
para multiplicarse.

Por eso, pan,
si huyes
de la casa del hombre,
si te ocultan,
te niegan,
si el avaro
te prostituye,
si el rico
te acapara,
si el trigo
no busca surco y tierra,
pan, 
no rezaremos,
pan,
no mendigaremos,
lucharemos por ti con otros hombres,
con todos los hambrientos,
por todos los ríos y el aire
iremos a buscarte,
toda la tierra la repartiremos
para que tú germines,
y con nosotros
avanzará la tierra:
el agua, el fuego, el hombre
lucharán con nosotros.
iremos coronados
con espigas,
conquistando 
tierra y pan para todos,
y entonces
también la vida
tendrá forma de pan,
será simple y profunda,
innumerable y pura.
Todos los seres 
tendrán derecho
a la tierra y a la vida,
y así será el pan de mañana,
el pan de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será el producto
de la más larga y dura
lucha humana.

No tiene alas
la victoria terrestre:
tiene pan en sus hombros,
y vuela valerosa
liberando la tierra
como una panadera
conducida en el viento.