digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, novembro 25, 2015

O cravo-branco do 25 de Novembro

.
A vinte-e-cinco-de-abril-de-mil-novecentos-e-setenta-e-quatro havia cravos de todas as cores nas ruas libertadas. Os que tentaram apoderar-se de Abril roubaram o vermelho. Do atropelo para uma nova ditadura, contrária à vontade de quase todo o povo, chegou-se à acalmia a vinte-e-cinco-de-novembro-de-mil-novecentos-e-setenta-e-cinco.
.
O país à beira da guerra civil, cortado ao meio, parou e escolheu a reconciliação. Pela apropriação do cravo-vermelho, fica livre o cravo-branco, e que os rosas me perdoem, pois o branco é paz..
.
Obrigado a quem fez a Revolução de Abril. Obrigado a quem fez a paz de Novembro.

Cinzento-difícil

.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Jacek Zentkowski.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
-
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Miguel Hidalgo
.
.
Léon Overkamp.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Su Shengliang.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Pierre Soulages.
.
.
Pierre Soulages.

Letra C


terça-feira, novembro 24, 2015

Invernal Outono

.
Perdi saúde. Perdi trabalho. Perdi um grande amigo, ou nunca o tenha sido. Perdi saúde.
.
Algumas pequenas vitórias naufragaram como pequenas derrotas. Tão rasteiro que me foram grandes as perdas.
.
Não perdi o pai, migrou para um dia. Deixou-me a Lioz, por inesperada rasgou como sílex, mas um dia.
.
Mais um dia e outro à frente, sempre piores do que se vêem ao olhar para trás. E não, não sofro de nostalgia.
.
Tenho melancolia e tédio. Tenho a desesperança pelas perdas, pelos roubos, pelos esquecimentos, pelas leviandades, pelas mentidas, pelas fantasias, pelas traições, pelas novas prioridades, pelos inesperados, pelos equívocos, pelas mudanças de opinião de quem está acima na hierarquia, pelos compassos de tempo que se vão ter de fazer entretanto, pelos não é para já, pelos dei o teu nome, pelos vais ser contactado, pelas pelos amigos que não ajudam por pudores, artifícios atenuantes e analgésicos da consciência. Pelas.
.
A merda que me sinto – não em que me sinto.
.
Sou míope de lógica e incompreendo o mundo; talvez veja bem e incompreenda as razões para o mundo. Talvez seja cego.
.
Não compreendo bem a formulação da palavra invisual. Compreendo perfeitamente a vantagem de se ser invisível.
.
Disse, tenho dito, vou dizendo e provavelmente direi:
.
– O melhor é não pensar nisso. Nessas coisas todas. Não te canses. Não te enerves. Compreende. Tenta compreender. Talvez esteja a avaliar-me mal.
.
Talvez me avalie mal.
.
Há sempre um ópio. Uma esperança estúpida. Um sentimento de que a vida agora é que vai começar.
.
Mas não. Repetindo. Insistindo. Caindo abaixo dos solos.
.
Pelo que disse, pelo que sou de risível, de ridículo, de falhado.
.
Pelo que escrevi acima, venho:
.
Requerer a Vossa Excelência que autorize a cruzar a fronteira para a realidade paralela.
.
Pela merda que me sinto – não em que me sinto; a merda que sou!
.
Sem mais e com os melhores cumprimentos,
.
João Barbosa – falhado sem número atribuído.

Negro-implícito-explícito

.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Gustavo Torner.
.
.
Marc Nagtzaam.
.
.
Olve Sande.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Sam's Myth.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.

Letra E


segunda-feira, novembro 23, 2015

Cinzento-quase-inventado

.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
André Kertész.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Fabrizio Ferri.

Letra E


domingo, novembro 22, 2015

A Lioz e o cão amigo

.
Nasceu clarinha, cor da bela pedra de Lisboa. Quatro patinhas. Dois olhos azuis muito grandes, muito abertos, muito espantados. Um bocadinho assustadiça, meiga até ao cancro da alma.
.
Morreu porque um dia teria. Morreu saudável, não é nem improvável nem impossível. Estava deitada, sem vómito nem qualquer fluído próximo. Tudo arrumado, nada deslocado nem sangue nem pêlos. Na caixa grande, onde confiava e se deitava tantas vezes. Se ali se pôs é porque estava confortável, se tivesse frio ter-se-ia aninhado em tanto lado, a casa é vasta e generosa para felinos.
.
O coração parou e pateticamente, como qualquer mãe transtornada pela surpresa, abracei-a, chorei-a e mimei-a. Deus ma trouxe e tanto meu deu e tirou, trouxe calor e levou dores do âmago do âmago, na fronteira entre a carne e o espírito.
.
Embrulhei-a no lençol de banho que já foi um pouco mais claro do que o vinho de Bordéus. Porque na outra casa não resistia em vê-lo pendurado. Para a Lioz o chão era o sítio do trapo. Consolo-me na memória.
.
Entreguei-a na sua mortalha e até ao tempo tive-a só para mim, apertada, sentindo-a já desprendida e sabendo do seu casaco macio. Pousei o corpo numa coisa – tanto faz, será a todos, tenha puxadores em ouro ou uma simples caixa de metal sem brilho.
.
Quando fui assinar os papéis (ninguém morre anónimo) um cãozão preto, com uma orelha levantada e outra baixa, preguiçava, com a felicidade dum príncipe em repouso. Levantou-se e veio dar-me cabeçadas com um brinquedo na boca. Li-lhe nos olhos o que me leu – é assim mesmo e sempre ou talvez só esteja escorregadio no olhar.
.
Insistiu com o seu brinquedo – talvez o faça sempre, mas deu-me essa graça.
.
Sem desprimor e sem injustiça, é o funcionário mais competente da Câmara de Lisboa.

Lioz – 24 de Março de 2004 – 21 de Novembro de 2015

.
Não sei se foi ontem ou hoje, mas hoje não está, nem veio, nem quando assobiei. Um abraço frio ao corpo que tanto calor me deu e levou. Deixou-me o corpo, o que não quero. Terei sempre os olhos muito grandes e azuis, muito espantados, a olharem-me sem receio.
.
Confiou-me tudo. Nem com as minhas aselhices se zangou ou amuou.
.
Disse-me:
.
– A Lioz é a tua favorita!
.
Não é. Mas a Lioz é a mais frágil. Saiu muito cedo da mãe, por estupidez minha, e nos primeiros dias amamentei-a à força, por se estranhar longe. Sobreviveu e durante anos, no miminho, mamava-me as cabeças dos dedos da mão.
.
Sempre meiga e dócil. Só duas vezes a vi zangada. Numa para me defender da Granita – coitadinha sofria e soprava por infecção em duas patas – que renhaunhou. A pachorrenta cuidou ver-me necessitado de ajuda. Jogou-se à mana, que protegi como pude. Outra vez, o brincalhão do Chuqui fez um ruído na brincadeira, à Lioz, gorducha e pacata, soou-lhe a maldade; agarrei-a para que não se atirasse ao outro bicho.
.
A Lioz adora a minha mãe. Na minha casa anterior, punha-se sobre o frigorífico quando percebia que estava de saída, enquanto passava dava-lhe festinhas com as patas.
.
Sempre em sobressalto num ansiedade e, contudo, tão doce e cordata. Nunca se arreliou por a ter deixado cair (aleijou-se), não sabia cair como fazem os gatos. Tive de a ensinar a cair. Não me ferrou nem mesmo quando este idiota achou que poderia limpar-lhe um olho com água-oxigenada.
.
Gorda e rápida. Um dia esgueirou-se, numa madrugada, para dentro dum armário. Estava escuro, não vi. Voltei três dias depois e ouvi-a miar aflita. Descobri-a e saltou a correr para ir beber água e comer. Sem que a chamasse veio mimar-me, agradecendo tê-la libertado… eu que a fechara.
.
A Lioz é, mas não terei a sua cabeça para dar e receber marradas nem os longos, longos, longos, muito longos abraços e que ronronava infinitamente. E se dormindo comigo, junto ao peito, fossem que horas fossem que eu abrisse um olho ou despertasse invisível, a Lioz ronronava.
.
E agora, quem vai abrir as gavetas, os armários, o frigorífico (!) ? Quem vai fazer o ninho entre a minha roupa. A «Mãozinhas»... olhava com atenção para o micro-ondas, único cofre que não abriu...
.
«A minha gatinha gorda», sussurrava-lhe nos imensos e longos mimos. A mais brincalhona, sempre menina quando via um cordel a passear, com coisinhas de nada, com amigos invisíveis. Corria de vagar, não gostava e não temia o Chuqui e era tão veloz a caçar qualquer brinquedo.
.
Respondo:
.
– Não é a preferida. É a especial.
.
Salvou-me a vida.
.
.
.
Nota: Saber da morte não é insentir a dor. Saber da chegada não antecipa, mas prepara. Foi como um gato. O meu pai suspirou suave e seguiu para onde se esperava. A Lioz fez-me chorar antes de a encontrar, porque o meu coração de mãe. Sim, existe coração de mãe. O meu coração de mãe deve tê-la ouvido miar no sítio dos gatos.

Cinzento-até-ao-osso

.
Michael Kenna.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Steve Pierce.
.
.
Shane Salzwedel.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Okutani Shuseki.
.
.
Não consegui identificar a autoria.
.
.
Frida Stenmark.