domingo, novembro 22, 2015

A Lioz e o cão amigo

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Nasceu clarinha, cor da bela pedra de Lisboa. Quatro patinhas. Dois olhos azuis muito grandes, muito abertos, muito espantados. Um bocadinho assustadiça, meiga até ao cancro da alma.
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Morreu porque um dia teria. Morreu saudável, não é nem improvável nem impossível. Estava deitada, sem vómito nem qualquer fluído próximo. Tudo arrumado, nada deslocado nem sangue nem pêlos. Na caixa grande, onde confiava e se deitava tantas vezes. Se ali se pôs é porque estava confortável, se tivesse frio ter-se-ia aninhado em tanto lado, a casa é vasta e generosa para felinos.
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O coração parou e pateticamente, como qualquer mãe transtornada pela surpresa, abracei-a, chorei-a e mimei-a. Deus ma trouxe e tanto meu deu e tirou, trouxe calor e levou dores do âmago do âmago, na fronteira entre a carne e o espírito.
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Embrulhei-a no lençol de banho que já foi um pouco mais claro do que o vinho de Bordéus. Porque na outra casa não resistia em vê-lo pendurado. Para a Lioz o chão era o sítio do trapo. Consolo-me na memória.
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Entreguei-a na sua mortalha e até ao tempo tive-a só para mim, apertada, sentindo-a já desprendida e sabendo do seu casaco macio. Pousei o corpo numa coisa – tanto faz, será a todos, tenha puxadores em ouro ou uma simples caixa de metal sem brilho.
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Quando fui assinar os papéis (ninguém morre anónimo) um cãozão preto, com uma orelha levantada e outra baixa, preguiçava, com a felicidade dum príncipe em repouso. Levantou-se e veio dar-me cabeçadas com um brinquedo na boca. Li-lhe nos olhos o que me leu – é assim mesmo e sempre ou talvez só esteja escorregadio no olhar.
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Insistiu com o seu brinquedo – talvez o faça sempre, mas deu-me essa graça.
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Sem desprimor e sem injustiça, é o funcionário mais competente da Câmara de Lisboa.

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