Significado primeiro: À mesa pensando na cama.
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Significado segundo: Na cama pensando na mesa.
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Significado terceiro: Sono acabado e sexo adiado nas manhãs úteis.
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
Significado primeiro: À mesa pensando na cama.
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Significado segundo: Na cama pensando na mesa.
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Significado terceiro: Sono acabado e sexo adiado nas manhãs úteis.
Significado primeiro: Sofreguidão.
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Significado segundo: Momento que acontece quanto falta juízo ou quarto.
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Significado segundo: Onde se tem prazer com a língua.
Significado primeiro: Felicidade que dura um dia.
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Significado segundo: Começo do Outono no hemisfério Norte.
Significado primeiro: Aparente erro de ortografia, porque se justifica por ser tarde para se deitar e cedo para se levantar.
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Significado segundo: Pretexto para uma discussão entre dois idiotas, um diz e outro responde.
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Dei várias entrevistas. Não serão muitas, mas para quem tem ganho a vida da fazer perguntas e a ouvir respostas são bastantes – até dizem que o jornalista nunca é notícia. É verdade, desde que.
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A maioria delas foi sobre a depressão e do meu livro de testemunho, mas também acerca do Interrail, da gulodice e do Natal. Possivelmente terá havido outras, a memória não me mostra, pelo menos por agora.
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Essa entrevista acerca do Natal foi, de muito longe, a mais divertida e marcante – antes, durante e depois, indo para lá de quinze anos. Começou logo pelo tema: Pessoas que não gostam do Natal. Há um problema, não tenho nada contra a festa do 25 de Dezembro, nem contra refeições familiares, aparatos, papel colorido rasgado, homilias e meias-noites.
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Quando o jornalista chegou, a minha casa, perguntou-me se não tinha árvore-de-Natal, presépio ou enfeites.
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– Não. Não ligo ao Natal.
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O homem achou estranho – não é retórica nem converseta para alegrar leitores – não haver nada alusivo ao Natal. Prontamente lhe disse que não sou contra o Natal, não desgosto do Natal, mas não me contenta o Natal. Simplesmente, não ligo.
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Durante a entrevista fui lembrando que não sou contra o Natal, mas a conversa ia poisando no mesmo com frequência. Expliquei-lhe que em miúdo gostava, na adolescência desinteressou-me, celebrei-o novamente porque era «obrigado» por uma namorada e que estava novamente abstémio de natalidades, porque esse relacionamento terminara.
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Portanto, acho que houve um erro de escolha do elenco. O homem foi falar não com alguém que não gostava do Natal, mas para quem é indiferente. Perguntou-me dos pratos da consoada e dos doces da época. Finalmente, quis saber se tinha tido algum Natal diferente, do ponto de vista de quem não liga ao Natal.
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Contei-lhe que, dois ou três anos antes, tinha saído na noite a 24 de Dezembro, com um amigo, e que o Bairro Alto estava deserto, porque fechado. Ou quase deserto e quase fechado, um vez que um pequeníssimo bar tinha a porta aberta e algumas poucas pessoas tomavam um copo, conversavam e ouviam música.
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– Falaram sobre o Natal? O que disseram?
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– Não. Não falámos sobre o Natal. Ninguém estava ali por causa do Natal. Éramos pessoas que não celebravam o Natal, nada mais.
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– Não pagaste um copo a alguém?
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– Sou capaz de ter pago um copo ao meu amigo ou ele a mim.
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Pediu-me, terminada a entrevista, para ir à rua ser fotografado com a iluminação natalícia, uma vez que não havia cenário caseiro. Ri, ri mais, ri muito, fiz ar contente e expressão muito feliz.
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A revista saiu na semana seguinte. Boas fotografias – o modelo era bom, só ajudou –, texto bem escrito e.
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E que o texto terminou dizendo que eu tinha pago um copo ao amigo, porque, afinal, sempre era Natal.
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Nota: Celebro o Natal desde 2011. Em mim não mudou nada, mas mudou a minha vida. A Ana gosta do Natal e chegou com um miúdo, de quatro anos, agarrado a ela. O Natal continua neutro, mas sentir a família feliz dá muito prazer.
Significado primeiro: Nave que desejamos ser doutro planeta, venha para nos raptar e levar para onde valha a pena viver.
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Significado segundo: Tema de documentário humorístico para a dar utilidade à insónia.
Significado primeiro: Feitiço que torna a banalidade num momento de genialidade.
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Significado segundo: Anedota para enganar crianças.
Significado primeiro: Oposto do comum, do mau e da grande quantidade.
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Significado segundo: Etéreo e pueril.
Significado primeiro: Arte potencialmente maravilhosa para quem lê.
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Significado segundo: Arte potencialmente incómoda, eventualmente doentia, para quem escreve.
Significado primeiro: Vampirismo, praticado por instituição, do mérito alheio.
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Significado segundo: Ficar encandeado consigo próprio.
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Nota: Estátua do cosmonauta Iúri Gagarin.
Significado primeiro: Crime perpetrado um teórico ou cobarde-inteligente-exibicionista.
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Significado segundo: Local onde frequentemente as vítimas e os assassinos vivem em casas fantásticas.
Significado primeiro: Afirmação não-verbal, por parte da mulher, de que se quer mudar de vida.
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Significado segundo: Afirmação não-verbal, por parte da mulher, de que não se está disponível para relação amorosa.
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Significado terceiro: Afirmação não-verbal, por parte do homem, de que não se está mentalmente equilibrado.
Significado primeiro: Capacidade de tudo conseguir fazer excepto não conseguir fazer mais nada.
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Significado segundo: Quando o modesto-extremo afirma de si a certeza sem modéstia.
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Significado terceiro: Incompreensão por o mau ter préstimo e o valoroso não prestar.
É quase, quase, quase, como o vinho.
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Quando era criança não me deixavam. Adolescente, depois de muito tentar, consegui e fiquei feliz por alcançar, mas desiludido, porque não aconteceu nada. Mais tarde passou a ser fácil e até sem custar. Agora acontece de vez em quando e gosto, quase sempre.
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Se não aprecio, não vomito. Se não durmo, chateio-me.
Significado primeiro: Espécie de templo onde se finge recriar a vida sem os humanos.
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Significado segundo: Festa onde se pode ir sem convite.
Significado primeiro: Máquina para determinar a quantidade de beleza.
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Significado segundo: Aparelho para decifrar a pureza da felicidade.
Significado primeiro: Fruto que refresca e aquece.
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Significado segundo: Alguém doce defendendo-se na amargura.
Significado primeiro: Arte de enganar a solidão.
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Significado segundo: Ritual sexual com um vivo-não-vivo.
Significado primeiro: Qualquer coisa bonita mas morta.
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Significado segundo: Objecto contra-feito.
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Significado terceiro: Momento inventado.
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Significado quarto: Capacidade dos indígenas em engatar camones.
Local-momento em que se tem papel e caneta para apontar e não se escreve nada por ausência de interesse e falta de paciência.
Significado primeiro: Habilidade de conformadamente se aceitar a espera e o que é enfadonho.
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Significado segundo: Virtude de estar calado perante a estupidez ou a ignorância-atrevida.
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Significado terceiro: Dom de suportar a fealdade artística.
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Significado quarto: Capacidade de jogar às cartas sozinho sem fazer batota.
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Significado quinto: Castração.
Significado primeiro: Por onde se entra na matéria e se sai do corpo.
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Significado segundo: Porta de discoteca.
Significado primeiro: Desilusão.
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Significado segundo: Pesadelo de chuva na sala.
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Significado terceiro: Agonia mortal.
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Significado quarto: Casa com janelas-de-saltar.
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Significado quinto: Sítio onde se creu no futuro, chove no interior, se idealiza diariamente a morte, o precipício convida e a felicidade partiu por enganada.
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Disse exigindo:
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– Um cão, só se não ladrar.
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Sou gatófilo. Adoro cães, mas criam-me ansiedade – por várias razões. Os animais sentem o nosso estado de espírito e não quero transmitir-lhes intranquilidade. O ladrar incomoda-me bastantíssimo.
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Sinceramente, acreditei que a minha condição não iria ser tida em conta. Não esperava que a Ana procurasse um cão que fosse silencioso. Estudou e descobriu que o épagneul breton não ladra.
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Nunca privilegiámos raças e, por
isso, a escolha não seria baseada em pedigree nem, muito menos, compraríamos um
animal. A procura seria feita em associações e com a condição explícita de não
ladrar ou de fazê-lo pouco.
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A condição era essa, tanto fazendo se de raça ou rafeirice. Porém, encontrou uma épagneul breton para adopção. Se achou, cumpri a minha parte: adoptar a bichinha.
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Fomos visitar a UPPA já decididos a trazê-la. Tinha sido abandonada no canil de Sintra, resgatada com sete anos e estava há um para adopção. Quem visitou a associação, antes de nós, dizia que era linda, mas que «ia pensar». O «ir pensar» significa «é velha». Por isso, os voluntários ficaram visivelmente felizes quando a viram no banco traseiro do nosso pequeno carro.
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Saiu da Terrugem chamando-se Manga-Rosa e chegou a Lisboa só com o nome de Manga. Com o tempo passei a chamar-lhe Manga Maria e Mangalética.
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Veio o caminho todo a arfar. Compreendemos, pois não nos conhecia, estava num automóvel – sem sabermos qual a sensação ou memória que isso lhe causava – e entrou numa casa com soalho de madeira – desconhecíamos se já vivera com esse chão.
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Durante uns dias arfava e dormia. O sono é explicável pelo défice de descanso numa colónia de cães, onde o ladrar é constante. Todavia, a respiração deixou-nos apreensivos, mas passou com o tempo.
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Chegou a pensar que iria ficar com o quarto lugar na hierarquia da casa, logo abaixo dos Homo sapiens sapiens, e corria atrás das gatas – o que, uma vez, poderia ter sido fatal para a Valsa. A gata saltou a tempo e o prejuízo foi apenas uma jarra ligeiramente lascada.
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Um dia vimo-la a olhar para a Granita e a ganir. Portanto, a gata alfa deve ter-lhe explicado, com os «garfinhos», que o gato tem estatuto superior ao cão.
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A Manga, de facto, não ladrava – devo tê-la ouvido duas ou três vezes. Fazia, às vezes, um som parecido quando dormia e nada mais.
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A doçura era outra das suas características. Era muito mansa e dócil, gostava de crianças, mas era impiedosa com pombos – assassinou um no jardim da Parada do Alto de São João. Um dia, uma veterinária fez-lhe a patifaria de espetar uma agulha… não mordeu nem rosnou… deu-lhe beijinhos.
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Com o tempo, o meu amor por ela cresceu enormemente e ela retribuiu na mesma quantidade e qualidade. Uma relação que até espantou a treinadora que a ajudou a ultrapassar uns comportamentos indesejáveis. Passei a dizer:
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– Gosto mais de gatos do que de cães. Mas a Manga é a Manga. A Manga não é um gato e também não é um cão. A Manga é a Manga!
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A Ana tirou o Bobi da rua. Não sabíamos se a Manga o iria aceitar ou, no mínimo, criar pequenas disputas. Não podia ter corrido melhor, ficaram os melhores amigos, sem ciúmes ou qualquer azedume.
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Quando o Bobi morreu, em Abril de 2024, a Manga deprimiu e envelheceu, perdendo o interesse em ir passear à rua. Lentamente, foi ficando menos ágil. Neste Verão foi connosco para o campo, melhorou nitidamente o ânimo e passou a andar melhor, embora eu tivesse continuado a ajudá-la a subir escadas. Conclusão:
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– Confirma-se, estava um pouco desajeitada a andar por fazer pouco exercício.
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Errado.
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Numa tarde de final de Agosto começou com espasmos. Dificilmente consegui acalmá-la e levei-a imediatamente à Sociedade Protectora dos Animais. A Manga estava com uma doença neurológica. Resumindo, o mal progrediu rapidamente e hoje.
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Direi sempre:
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– Gosto mais de gatos do que de cães. Mas a Manga é a Manga. A Manga não é um gato e também não é um cão. A Manga é a Manga!
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Nota: Gostava de pôr uma fotografia mais humana do que esta, mas, devido a problema com o computador, não tenho melhor.