quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Querido Diário (Económico)

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Querido diário,
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hoje escrevo porque acordei triste, emocionalmente cansado e com o sentimento da derrota que sentiria um cavaleiro andante derrubado do cavalo. Por isso, sinto-me também envergonhado.
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O meu coração é – hoje é e não está – papel de jornal amarrotado, que o roçar do maltrato fez esborratar a tinta. Nem tento endireitá-lo, porque hoje é, e não está, tristíssimo.
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Um jornal faz-se de notícias, de cachas, de bombas, mas também de imprecisões, gralhas, crises internas, loucura, festas de Natal e muitas emoções. Um encerramento é sempre doloroso e trágico, emocional, de frases poderosas, lamentos em surdina, lágrimas, risos, euforia ansiosa, perdição – isto é válido para qualquer empresa, hoje e aqui é o Diário Económico.
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O título está legível e nele leio os nomes de quem o tem feito desde Outubro de 1989. Encontro o meu… os de amigos, conhecidos, de quem gosto e até dos potencialmente desagradáveis. Este enunciado é total, do estafeta até ao director de produção, da telefonista ao colunista, do director ao estagiário, de quem tem a responsabilidade do economato até ao centro de documentação.
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Comecei no Diário Económico em Janeiro de 1990 – onde guardo boa recordação do mestre Goulart Machado. É injusto só citar um nome e se mais juntasse continuaria curto. Voltei em 1995, com Nicolau Santos – conheci mais dois mestres, Luís de Barros e João Paulo Guerra.
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Quase 16 anos depois de sair definitivamente, ainda hoje sonho, a dormir, que faço uma chamada e digo que sou jornalista do Diário Económico.
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Estive na Rua de Santa Marta e na Almirante Reis. Frequentei, pelos amigos, as instalações no Carmo. Não sei quem teve a péssima ideia de sentar o jornal em Alcântara.
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Tanto se pode escrever e dizer acerca de tudo o que correu mal e que lançou para a insolvência o Diário Económico. Contudo, não vale a pena. É passado, sem retórica.
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Presente é o meu abraço – com a certeza de que tantos outros camaradas o fazem, como os seus imensos leitores, a todos os que actualmente ali trabalham – acompanhado pelo desejo da esperança e de solução sem dor ou com poucas lágrimas.
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Não é um obituário!
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Ao escrever esta minha crónica, Carlos do Carmo cantou-me mentalmente o «Cacilheiro», com música de Paulo de Carvalho e poema de José Carlos Ary dos Santos. Peço ao leitor que entenda o barco. Escrevo a pungência:
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«Se um dia o cacilheiro for embora,
Fica mais triste o coração da água,
E o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa».
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Nota: referi os meus mestres no Diário Económico, mas quero deixar o nome de outros dois, que não citei por não visarem o caso. Trata-se de Mário Rosendo (O Jornal) e Maurício de Carvalho, que me explicou o que é fazer televisão.

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