sábado, fevereiro 20, 2016

Manuel Jorge, ano I

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Escrevo este texto a seis de Fevereiro, para que tenha a liberdade de o poder emendar secretamente, para sair hoje «perfeito». Um ano vale tanto como um dia ou uma semana. Assim as vidas.
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Há anjos que passam sem rasto, assim como demónios. Há quem faça estardalhaço. Há quem vinque grupos pequenos. Há quem tenha muitas vidas numa só. O meu pai teve várias vidas, ou talvez tenha tido vida.
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O que gosto do meu pai é difícil de definir, como será para a generalidade das gentes. Amo-o muito e estou zangado – aprendi e compreendi isso com o tempo. Ainda antes de ter deixado o corpo, porque a psicóloga que há muitos anos me acompanha me deu uma lanterna para vislumbrar.
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Sonhando quase lutei com ele, num dolor pungente e incompreensível. Sei que me perceberá se ler este texto, onde quer que esteja – sei que vivo, pois a morte é só de corpo. Uma guerra de espada e abraço, de ameaça e de lágrimas, de justiça sem vingança, da minha raiva – para mim perfeita e justificada – contra a maldade de quem se ama.
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O meu pai deixou o corpo precisamente há um ano. Não minto se disser que não verti uma lágrima. Não por raiva, zanga, vingança, mesquinhez, insensibilidade… não choro mortos. Chorei a minha avó materna porque tinha onze anos e achei que o devia fazer, que era o correcto. E se amava a minha avó… por ela chamei inconsolável e doente, ao colo da mãe num hospital ou clínica ou gabinete médico. Não pela mãe, mas pela mãe da mãe, que cuidava, por o pai ser ausente e a mãe estar ausente.
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Induzi esse choro e as raríssimas vezes que lacrimejei num funeral foi pelos que continuaram na carne, por condolência pura – mas não pela partida.
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Defeito ou virtude… assim era o meu pai e julgo – não perguntei nem vou perguntar – a minha irmã. O meu mano é diferente.
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Se senti a morte do meu pai? Em que sentido? O meu pai foi morrendo e morreu quando desistiu, foram uns anos. A doença e a progressiva dependência e fragilidade foram-no matando diante dos meus olhos. Nunca deixei de o beijar nem acariciar a cabeça – ele não gostava, mas nestes últimos anos sabia que isso o confortava.
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Dei-lhe a última alegria no corpo, com a franqueza e generosidade que ele gostava. Os olhos verdes e baços voltaram a ser verdes, embora escurecidos, e brilhantes e sorriu-me como um miúdo que ganhou um balão. Essa imagem será certamente uma felicidade para os dias que terei até o retornar a ver.
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 – O pai não foi um bom pai. Mas o pai foi um excelente amigo. Um grande amigo!
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Mais coisa menos coisa. Não valeria a pena mentir, nem era de se derreter. Sabia que só lhe diria verdade e que essa verdade era a que realmente o confortava. Não menti nem fui misericordioso. Tratei-o com a dignidade que merecemos todos. Se não compreendem, não posso fazer, mas funciono, tal como ele, assim.
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O autoritarismo só baixou comigo. Até ao dia em que o espírito deixou a carne, deu ordens e exigiu. O mais novo, mais mimado e talvez mais sofrido filho – algo tão complicado e egocêntrico de se afirmar – o enfrentava.
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– O Rei foi deposto. Agora o Rei sou eu!
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Entre o riso e o sorriso e ainda um ligeiro encolher de ombros. Verdade!
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Quando colocou o pacemaker e teve de mudar de lugar na cama foi uma tormenta para a mãe e funcionárias do apoio domiciliário. Calhou ir a sua casa quando o estavam a convencer – irredutível, ríspido e autoritário.
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– O pai colocou um pacemaker. Os médicos disseram que tem de se apoiar para este lado e tem de mudar de lado na cama. É assim, não tem escolha.
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Assim foi. Algumas vezes, ao telefone, a mãe lhe passou o auscultador, para que eu o fizesse aceitar a evidente necessidade de qualquer coisa.
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Sei que não fui déspota, não me vinguei nem me ocorreu aproveitar a imensa fragilidade dum homem que fora uma força da natureza e chegou aos noventa anos com o peso dum atleta. Quando tive de o alimentar e de ir a casa prestar-lhe apoio não o forcei a comer, não o torturei com uma colher. Se não queria comer, tinha de aceitar um iogurte. Se eu achava que as portadas deviam ficar fechadas e ela as queria abertas, fazia-lhe a vontade.
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Tentei que fosse feliz ou vivesse confortável – no possível.
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A verdade é que não verti uma lágrima… um ano inteiro. Porque não sou de chorar mortes. Sinto saudades, porque o cito muitas vezes, nas graçolas, nas sabedorias, nos ensinamentos de pintura…
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Perguntaram-me tantas vezes:
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– O teu pai não te ensinou a pintar?
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– Foi o teu pai quem te ensinou a desenhar e a pintar?
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Não. O meu pai não me ensinou nada disso. O meu pai falou-me com naturalidade acerca de erros, de situações evitáveis.
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Percebi isso este ano, há um mês ou dois. Liguei ao mano e contei-lhe e concordou. O pai não nos agarrou na mão, nem corrigiu o traço, só dava opinião no final se o pedíssemos e a meio se pedíssemos muito – não sentenciava nesse momento. Se achava que tinha ficado uma merda dizia:
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– Está uma merda!
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Explicava porquê, ainda que o pedido fosse feito apenas com um imperceptível olhar.
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Um ano vertiginoso, consumido como a mortalha de papel de arroz no lume. Saudades? As mesmas de quando estava na carne – dirão que quando estava vivo. Digo, porque sei, que a morte não existe, fenece o corpo, pois somos espírito e como tal, imortais. Em aprendizagem contínua em encarnações e passamentos sucessivos até a estádios superiores, que nem imagino densidade ou felicidade.
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Falarei do corpo, sintetizando no argumento conveniente da morte. O pai morreu lentamente, decaindo e consciente, sofreu – a força da natureza vergava-se e assim deprimido e desalentado. Desalentado de forma tão absoluta que juro saber o seu verdadeiro significado.
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Para conforto de quem fica e a quem basta parar o coração, foi sem dor e no momento certo – se existe situação incerta… existe, dependendo do nosso livre-arbítrio, o destino não é uma obrigatoriedade, usamos o que nos dão e essa liberdade traz responsabilidade.
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Voltando, parou-se-lhe o coração quando o pacemaker percebeu que não fazia milagres e a biologia ditou o momento. Depois do almoço, depois da primeira colher da sobremesa. Sem um ai nem suspiro.
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Foi quando terminou o contrato que assinou antes de ter reencarnado. Nem que fosse por esta minha certeza, não chorei. Todavia, não chorei porque não sou de chorar mortes.
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Choro, aflijo-me, aleijo-me, morro com o incompreensível. Por duro que me seja uma sentença, ainda que injusta, se a entender, aceito-a. A morte faz parte da vida – mesmo para quem vê a vida como biologia, sem dimensão espiritual ou além duma só vivência.
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Dirão:
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– Só se vive uma vez!
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– Uma de cada vez.
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Esta, o Manuel Jorge viveu intensamente. Foi injusto, foi magnânimo, foi amigo, foi tirano… foi o que foi, espelho do seu patamar de evolução espiritual.
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Não sou católico, mas sou cristão. Sei que deixara o convívio da Igreja Católica Apostólica Romana por divergências pessoais e políticas. Penso que o continuou a ser e que, no final desta encarnação, se apercebeu do logro do comunismo. Não partiu comunista e sei que cristão, provavelmente católico, embora revoltado.
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Por ele e pelos familiares católicos romanos, quis que tivesse serviço religioso – que me abstive de participar, permanecendo sossegado e em observante respeito. O sacerdote, julgo que italiano, já idoso, foi duma humanidade imensa.
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No final, estava ele aflito de tempo, já atrasado para outro acto de obrigação sacerdotal, disse-lhe:
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– Sabe, não sou católico, mas sou cristão e…
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Interrompeu-me com um doce sorriso, dizendo que ser-se cristão é o importante.
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Aqui faço o meu parêntesis: ser-se cristão não é seguir uma religião ou credo, mas tentar ser-se justo para com o semelhante, não exigindo aos outros mais do que a nós mesmos, e tentar progredir… diga-se o que se quiser: moralmente, espiritualmente, em consciência, civilizadamente, solidariamente.
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Depois, escrevi ao senhor agradecendo a breve homilia. Agradeci-lhe por não ter feito do meu pai um santo – tantas vezes os mortos são pessoas fantásticas e fabulosas, imensamente recomendáveis… Agradeci-lhe por o ter descrito como um homem e esperando ter feito mais para o bem, embora sabendo haver quem dele não gostasse.
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E é isto! Um ano após. Não falo com ele, nem o chamo, pois o lugar dele agora é outro e a sua tarefa diferente. Lembro-o e guardo-lhe amor e gratidão, pois apesar de tudo deu sempre mais e melhor do que tirou.
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Nota: Escolhi uma pintura de William Turner pois era grande apreciador da obra.

2 comentários:

Juno disse...

É isso. Um homem é um homem. Ele também o foi. Também o ameie, apesar de muita dor, raiva, revolta, lembro-me da paixão dos meus primeiros anos e a compreensão que tantos anos demorou a aprender. Ser filha dele foi ou é ainda, um teste à nossa introspecção e uma lição de vida.
também não choro, mas foi com certa ironia que as coisas se passaram; fui a todos os funerais da família menos ao dele porque a minha doença o impediu! Ou foi ele que achou que não era preciso? que as coisas entre nós estavam pacíficas? Não choro. prefiro lembrar o dia do aniversário. e quase todos dias me lembro de gestos, ensinamentos e anedotas parvas! Que ele esteja bem onde está.

fatima disse...

Está lindo, João! Adorei e tenho a certeza que o teu pai também...;-)