E assim me viu o meu pai muitas vezes…
digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.
sábado, fevereiro 21, 2015
sexta-feira, fevereiro 20, 2015
Manuel Jorge – 25 de Abril de 1924 – 20 de Fevereiro de 2015
O meu pai contava-me a estória dos «Músicos de Bremen»,
adorava ouvi-lo contar. Tão bom ou melhor do que ir ao cinema.
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Acima de tudo, um tipo muito fixe!
quarta-feira, fevereiro 18, 2015
O terceiro calhau a contar do Sol
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Diz ele que a Terra está parada e é o Sol que gira à sua volta, tal como o universo. Porque se a Terra rodasse os aviões não chegariam ao destino, porque o local da chegada estaria em andamento. Porém, se a Terra girasse em sentido contrário, os aviões não precisariam de voar, bastando-lhe esperar para aterrar.
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Copérnico e Galileu urinaram-se de riso.
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Nota 1: O xeque Bandar al-Khaibari também não acredita que o homem foi à Lua... como lunático, é possível que tenha razão.
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Nota 2: O título é igual ao duma série humorística norte-americana – «3rd Rock from the Sun».
Palavras em novelo
Triste quando me ligaste e
desse lado da linha palavras enleando-me como fios de lã fazendo camisola aqueceram-me
no choro e até ao riso.
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Nota 1: À minha amiga
Cookie.
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Nota 2: Não foi nada
assim, mas foi como se fosse naquela manhã do despertar de 2004.
De Nascente a Poente
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A casa não fica no mundo,
fica no Verão e se chuva*, a chuva é em mim, trovoadas tão negras, mais negras
do que as de água, belas como as de Rubens.
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As janelas para a rua –
que não tem luz que preste – têm as portadas fechadas. O Sol vê-se de Nascente
a Poente.
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Às vezes batem à porta. Quase
não oiço, pairando em transe alguns palmos sobre a vida.
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Há dois jardins. O árabe e
o verde.
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O árabe tem fresco,
pomares de laranjeiras e muitas fruteiras. Azulejos e água sempre correndo. Ninhos
pró amor, vinho e paredes de seda voantes, entre colunas e a toda à volta –
casa seminua, de almofadas, lençóis e flores.
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O outro tem árvores
grandes. Umas dão sombra, outras são ciprestes e melancolias. Muita erva para deitar
a preguiça e o tédio.
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Só chove no verde. No
outro, o frenesim do amor e o ânimo do vinho desconhecem outra coisa além da
vida.
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Nota: utilizei
propositadamente a palavra «chuva» em vez de «chove», porque era incompetente.
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Telefone
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É despida que te vejo, até pelo telefone. Se me ligasses,
não pelo telefone. Que chamadas não faríamos…
Antes
Que seria de ti sem mim, talvez sem mais ninguém para odiar.
Presunçoso, talvez. Pensando que mereço o teu repúdio. Quando a luz se me apaga
por um minuto rezo para que receba ódio e não desprezo.
A minha língua é a minha pátria e a pátria da minha pátria é o mundo
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A minha língua é a
minha pátria e a pátria da minha pátria é o mundo.
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Beijei a estrangeira e
perguntei-lhe:
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– Gostas da minha
língua?
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– Adoro a língua
portuguesa!...
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Que faria eu sem a
minha língua, em que sabor, sal e sabedoria são quase o mesmo?
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Nela, o conforto da
mãe, desde o leite à velhice.
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Quantas vezes me
zanguei e recompus, mais me perdoou e incapaz de mentir, por mim mentiria.
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Da mãe tenho tudo e
tão pouco lhe dou.
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Tanto amor que não me
rouba qualquer amor.
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Nem aqueles da língua
beijo-de-língua.
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A vaca dá-me o leite e
a abelha dá-me o mel. A árvore dá-me a fruta. A língua dá-me o sal e o Sol, a
sombra e a Lua e amo-a como julgo amar um terço de minha mãe.
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Língua velha aqui.
Morrendo triste no sobressalto pelo homicídio de palavras, insegura e frágil na
casa do nascimento e efervescendo adolescente para onde o mar a levou, para além-mares.
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Choro-a quando lhe
matam palavras.
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Choro-a quando lhe
abortam palavras.
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Que os estrangeirismos
venham na paz da necessidade e não embarquem se inúteis.
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Quero e tenho! Dão-me
ou roubo:
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Waldeinsamkeit,
quando tenho a sensação de estar só numa floresta.
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Fernweh,
quando sinto saudades de lugares onde não estive.
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A
estrangeira beijou-me e perguntou-me:
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–
Gostas da minha língua?
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–
Adoro a língua alemã.
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Quero
dizer do que gosto. Digo! Se não deixarem, digo. Sozinho ou pensando pra não
acordar.
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Tudo
era sossego na casa. Uma comichão surgiu-me aos ouvidos e cheguei-me à janela,
abria-a e na rua um bruá! Perguntei à vizinha debruçada:
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– Que
se passa?
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– É
uma festa com gente animadada.
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Um
jovem discotecário mexendo no prato mexia com todos.
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Dançava
também, o giradisquista, ou não amasse uma língua universal.
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Tenho
a certeza que burburinho é onomatopeia.
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Gosto
de centopeia e medo-me de louva-a-deus.
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Como
a pista duma danceteria em noite de lua-de-amores, iluminando o azul-negro de
flanela traçada pelas estrelas.
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Desci
as escadas e pelo caminho desobstaculado cheguei-me e chegando cedo lhe cheguei
à fala e sem perguntar a beijei.
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Depois
perguntei-lhe:
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– Gostas
da minha língua?
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– A
tua língua será nossa a língua, como a minha, quando deitados nos fizermos amor.
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Coração-camartelo
na ansiedade indecisa, entre a dança e a cama.
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– Que se foda, não quero saber!
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Que
é como quem diz:
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–
Seja o que Deus quiser!
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Na
cama do amor, ser e o estar não existem na língua.
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Loucos
apanhámos a espaçonave, nessa noite de lua-de-amores.
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Para
onde ninguém saiba, prá Cochinchina ou prós Bijagós.
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Deitados
e amadados, repousando inconseguimos não repetir.
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Por
cima e baixo, de lado, por ali e aqui, desvairados na confundição, fomos a
Xangai e viemos, com a boca a saber o mundo, aquele que nos fez há milénios.
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Voando
nesse zingarelho invisível destememos o Adamastor, até que lhe deu um
tranglomango.
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Caindo
saciados. Da cama fizemos barco e na bagunça encontrámos o lençol para bujarrona.
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Com
fome, da água ganhámos um alabote.
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–
Toma! Come! Precisas, precisamos.
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–
Não como peixe.
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–
Que grande patranha…
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– É
de família, vem de longe.
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Disse-lhe
uma nuvem de palavras justificando-me, dissipada como as verdadeiras plo vento
e chuva e ela sorrindo-me.
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– És
um parlapatão. Não sejas picuinhas e come.
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À
distracção, à traição, joguei-lhe pimentas das Índias e malaguetas doutras
Índias.
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–
Ah! Canalha! Malacueco! Tenho a boca que não posso… uma picareta batendo-me e
batendo chispando e das fagulhas às chamas.
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Sorriu
ralhando-me, pedindo-me que a beijasse.
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–
Não, que sabes a peixe!
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–
Grande cão, pulha e sacana...
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Sorri-lhe
à canalha. Respondi-lhe:
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– O
Grande-Cão imperava na Mongólia, minha linda magnólia.
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–
Que tenhas na língua um panarício.
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–
Pois que te quero novamente e muitas vezes. Sou o pirilau-atómico.
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– E
eu a ti, nesta cama em que semeias e te agasalho e assim agasalhando-me.
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A
mesma língua, a de beijar. A de dizer. A de amar. A de dizer amando, amando e
beijando.
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–
Diz-me uma palavra que gostes duma terra onde não foste para que me disfarce e
desconhecendo-me novamente tenhas em mim novidade para amor se fazer com línguas
beijando-se e só na apoteose me reconheças.
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–
Guatemalteco. Diz tu…
.
–
Monegasca… gibraltina.
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Assim
jogando nos fizemos ao mundo, na cama-barco com suas flâmulas. Deleitados na
rede quase invisível do gurupés, zarpando da pátria.
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Virão
saudades e regresso quando a falta for mátria.
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Na língua
articulamos frátria. Que as línguas façam seus desejos.
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Palavras
que gosto.
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Nota
1: Era gaiato e criei o trocadilho do beijo e do gostar da língua, beijando uma
estrangeira. Um dia, ao ver – julgo – o filme «Pedro, o louco», de Jean-Luc
Godard, percebi que chegara a terra conhecida.
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Nota
2: Este texto nasceu para ser uma festa de palavras que gosto. Algumas
existiam, outras inventei e há as que conheci por outras bocas – originais ou
não:
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Amadado – Caetano Veloso.
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Animadado – Caetano
Veloso.
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Confundição – desconheço onde a encontrei.
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Desobstaculada
– desconheço onde a encontrei.
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Discotecário – Caetano
Veloso.
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Espaçonave – ouvido a um brasileiro.
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Frátria – Natália Correia.
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Giradisquista –
Caetano Veloso.
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Inconseguir – Assunção Esteves.
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Mátria – Natália Correia.
Arrumação
Há uns anos bagunçaram-me a vida e deixei-me bagunçar,
bagunçando mais. Tanto tempo a deixei bagunçada que agora a bagunça é
arrumação.
terça-feira, fevereiro 17, 2015
terça-feira, fevereiro 03, 2015
O beijinho
– Não gosto de ti!... dá-me um beijinho.
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– Se não gostas de mim, por que hei-de te dar um beijinho?
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…
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– Ficas a gostar de mim, se te der um beijinho?
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– Não. Mas gosto de beijinhos.
segunda-feira, fevereiro 02, 2015
Palavra boca
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– O que é para ti a vagina?
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– É uma palavra feia para designar beleza.
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– Qual palavra seria bonita?
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– Lábios… porque de lábios se trata.
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– Flor será piroso?
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– Lábios, lábios de beijar. Fonte de amor e loucura. Floresta
de cem aromas.
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– Piroso!
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– É difícil…
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– É difícil…
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– É difícil, mas quase tudo é melhor do que vagina… o piroso
fá-las rir ou deliciarem-se ou nem sequer quem saber.
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– E vagina?... Ligam se disser vagina?
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– …
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– Vagina?...
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– …
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– Vagina é correcto.
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– É, mas a palavra é feia. Vagina lembra nome de
medicamento.
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– Como?
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– Tome uma vagina ao deitar – disse o médico. Percebes?
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– Ao deitar é bom!
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– É. E ao levantar também.
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– É sempre bom.
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– Vagina, disse o médico. É um bom remédio, prosseguiu o
médico. Em jejum, ao almoço e ao deitar, sentenciou o doutor.
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– Que sorte!...
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– Ai! (suspirando)
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– Por que não vagina?
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– Porque é feio. Chamar algo de piroso será sempre melhor!
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– Porquê?
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– Porque na loucura, que mulher se importará que digam: vou
beijar-te a flor, vou saciar a sede, linda flor…
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– E importar-se-á se disser «vagina»?
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– Penso que sim… mas se não se importar ela, importo-me eu.
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– Continuo se perceber por que te incomoda chamar vagina à
vagina?
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– Vagina soa-me a fim duma festa murcha. A tristeza do
depois ou, pior, a tristeza do amor mal feito ou, pior ainda, do
inconseguimento.
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– …
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– …
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– E pénis não é também feio?
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– A palavra ou o «coiso»?
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– As duas.
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– Feio! Feio, feio…
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– E não te incomoda?
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– Nadinha, mas… Pénis é feio… e mais feio no depois. É
ridículo. É feio e ridículo. Depois de descobrir o caminho e o Paraíso e lá
chegar… o pénis sai duma vagina.
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– Que horror!
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– Acho que já percebeste…
Da luz e sua paz
Que fazer com este corpo olhado, por mim, para dentro e nele
vendo uma escadaria enegrecendo-se até a um fundo de quase certeza. Se da luz
da morte e sua paz ou se da triste cabeça lutando e sofrendo. O desejo do fim
que antecede o começo, encerrando o tédio no corpo a esfumar-se. Dias sem um
sentido e sem missão ou iluminação para os passos e olhos. Ah! A luz de Deus. A
luz de Deus que não vejo, crença de pouca fé e muita lógica – sentir com o
cérebro é tão danoso quanto pensar com o coração. Cometo dois erros e toda a tentativa de desvio é estrada circular. Olho para mim e vejo a escuridão que tapará. Que farei depois do fim que antecede o começo.
domingo, fevereiro 01, 2015
Um dia
Primeiro os avós, depois
os pais e, num susto repentino, nós. Que nunca nos anteceda
quem veio depois.
De luz
Do teu calor tenho sempre falta e desses olhos de meiguice
eterna e da boca fina dos beijos densos e dos beijos leves e da voz de luz
guiando-me as lágrimas para dentro.
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