digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, maio 18, 2014

Não diga quem não sabe

Os poetas não sabem dizer poesia.
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Os poetas não sabem dizer poesia.
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Repitam todos comigo:
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- Os poetas não sabem dizer poesia.
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Modelos não são actores.
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Os actores nem sempre sabem dizer poesia.
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Poesia é difícil.
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A poesia é difícil de ouvir fora da voz interior.
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A poesia às vezes é difícil de ouvir pelo que diz.
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A poesia às vezes é ainda mais difícil pelo que sugere.
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Os poetas não deviam destruir o que escrevem.
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Os poetas deviam resistir ao apelo do pecado do brilho da voz.
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Os poetas fazem poesia.
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Os sapateiros consertam sapatos.
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Nota 1: Vem isto a propósito das declamações de José Luís Peixoto no sítio do Jornal de Notícias. É clicar aqui para se ouvir. É doloroso. Dá vergonha alheia. Não me pronuncio pela qualidade dos poemas.
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Nota 2: Todas as excepções têm regras, tal como as regras têm excepções. Façam o favor de pôr em marcha o não-vídeo, em que o que talvez seja o maior poeta português vivo pronuncia com toda a alma e conteúdo o seu poema. O bicho-do-mato Herberto Helder, no poema «A minha cabeça estremece», completado com a música de Rodrigo Leão - não é ilustração ou acompanhamento, não é poema musicado, é uma obra de arte feita por dois artistas de ofícios diferentes.
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