digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quarta-feira, novembro 29, 2017

O Wanli irá para ali – e mais não digo ainda

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Há pessoas com várias vidas numa só e assim os seus lugares. Carlos Fagulha, uma dessas pessoas com existência plural, arrastou-me para a criação do Wanli, na Calçada do Marquês de Abrantes, 82, em Lisboa. As portas abriram-se a 10 de Setembro de 2010.
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Para os transeuntes e clientes de passagem, o local é uma exposição, de caos ordenado, de objectos antigos. Para quem conhece o meu amigo, ali é um repositório das suas existências. Deve o nome Wanli – expoente da porcelana da Dinastia Ming – a um pratinho discreto e parecido – e à proximidade da fabulosa colecção no Palácio do Marquês de Abrantes, hoje Embaixada de França.
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O meu grande amigo Carlos Fagulha sempre resguardou a sua casa, onde só entrou um número muito restrito de pessoas. (Muitíssimo) falador, expansivo, educado e simpático, tornou o Wanli na sua sala de estar.
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Fui breve no Wanli, um sítio de difícil caracterização: não é bar e ainda menos restaurante nem sala de chá ou pastelaria. Todavia, consegui definir o sítio. O Wanli é uma sala de estar com a porta aberta para a rua.
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O Wanli são duas salas e um poço com nascente. A loja esteve vazia durante anos. Quando o Carlos Fagulha e eu passeávamos pela cidade, procurando um lugar para nos estabelecermos, e vimos o espaço fomos concordantes e peremptórios:
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– Vai ser aqui!
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Começámos devagarinho – nem me quero lembrar. O Carlos tinha toda a sua vida, mais uma vez, nas mãos e investiu tudo e todo: coração, cabeça e alma.
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O meu amigo fez do vazio um canto habitável. Muito cedo, o Wanli notou-se e gerou curiosidade. Poucos dias depois de estar aberto, um comerciante, com um restaurante encalhado na mesma rua, começou a imitar a pequena – mas boa – carta da casa. Tempos depois uma outra tentativa de apropriação foi (praticamente) um plágio, que passou pelo roubo duma ementa.
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Só que as imitações não resistem. A falta de autenticidade mata-morre diante do verdadeiro.
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Muito ingénua, mas verdadeira e atrevida, foi a abordagem dum pequeno restaurante, onde tudo é oleoso – até o azeite para temperar é óleo duma coisa qualquer. Perguntou como a casa sobrevivia, pois não via assim tanta clientela.
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O Carlos tem sempre uma resposta pronta, muitas vezes desconcertante.
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–Ah! Não sabe?! O café é só uma fachada para o negócio de tráfico de droga.
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Assunto arrumado.
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O Carlos fez amigos e teve decepções – naturalmente. As tristes arrumam-se num buraco escondido e as de amizade demoram-se sempre.
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Sabendo quem é o Carlos e a sua sentida gratidão, deixo os nomes de quem o apoiou no Wanli. Porque nada se faz sozinho. Por ordem alfabética:
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Andrea Fischer, Andreia Tocha, Catarina Aidos Joana Mello Cabral, Filipa Rodrigues, Francisca, Ina Kooln, Ivone Fernandes, Maria Inês Roque, Maria Servente, Nicole Amaral, Patrícia Maciel, Sara Chéu, Sara Morais e Victor Rosário.
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O Wanli é património que Lisboa vai perder, mas que outra cidade vai ganhar. A sala de estar estará aberta até ao próximo dia 20 de Janeiro. Irá voltar, em Fevereiro, numa rua doutra cidade. Renascerá como o Carlos o fez muitas vezes.
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O Wanli é um património que mudará de sítio e Carlos Fagulha tem agora outra batalha para lutar e, mais uma vez, ganhará.
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Deixo estar sem dizer, não por causa da alma dum negócio, mas porque as surpresas desembrulham-se quando se ordenam as datas.

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