quinta-feira, março 24, 2016

Oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros

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Na incerteza da vida, se vivo ou se vivo, sobrevivo desistente e incansavelmente fatigado, por causa do tédio, a prova da minha incerteza.
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Se o digo é porque duvido, pois as certezas não precisam de pontos de exclamação e a realidade é mais do que o sentido.
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Quanto vale o um e o dois, se são primeiros não são longe. Distante paga bem e recompensa o valor da ilusão. Quatro anos-luz é aqui ao lado e quatro mil milhões de anos é menos de um terço do tempo todo que a ciência admite.
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Os números são cruéis ou apenas. Apenas, pois vou nos quarenta e seis e sei-me infantil e dez é esperança curta ao nascer. Aonde chegarei dista a paciência para o tédio e as alegrias que escondem a sombra.
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Se pudesse voltar só faria igual se soubesse do fim. A arrogância, o orgulho e a negação ditam palavras gordas e tudo o gordo é estúpido:
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– Faria tudo igual!
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As certezas não precisam de pontos de exclamação nem Deus que seja vingado. Se me doeram as pernas e o desânimo assou a pele, para que faria igual se pudesse voltar?
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Mais ou penos o sentido depois de nadar oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros e quarenta e cinco minutos quando se tem trinta e quatro anos, este amor a quatro. As gatas são, ainda que a Lioz não esteja.
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Mais ou penos o sentido depois de nadar oitenta e duas piscinas de vinte e cinco metros e quarenta e cinco minutos quando se tem trinta e quatro anos, o amor a dois, o desamor a mim e tanta gente devassadora, raptada ou nunca-expulsa.
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Lembrar uma data é prova de vida ou certeza de morte.
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Se evoco é porque morto.
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Mas se vivo, é a ingratidão.
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Quando dói a memória, é vivo ou defunto? A saudade é um remorso.
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Se lembra, vivo. Não telefono a mortos nem amo mais só porque.
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Nota: O infotocopiável faz dez anos e a Granita doze, a Lioz é no sítio dos espíritos.

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