sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Da fome

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– O vazio é inexistência ou impresência?
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 – Quando se tem fome, isso não importa.
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– É quando tenho fome que penso nisso.
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– Cuidas ter um vazio em ti?
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– Não… será um vazio ou o vazio?
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– Como assim?
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– É possível existirem dois vazios?
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– Bem… talvez… como assim?
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– Para existir vazio não será obrigatório que seja infinito?
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– Como o universo?
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– O universo ou um universo? Finito, finitos ou simultaneamente a mesma coisa?
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– Essa do vazio ter ou poder ter de ser infinito, em oposição a um espaço ou tempo limitado, lembrou-me, em imagem na cabeça, um queijo suíço.
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– Percebes agora por que penso no vazio quando tenho fome?
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– (…)
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– (…)
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– Queres comer alguma coisa?
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– Se como penso no Paraíso, no Inferno, Limbo, Purgatório, na vontade do homem, no acto do decreto do homem em nome de Deus, donde vem esse direito e se existe nisso tudo comédia e tragédia, beleza e fealdade.
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– Parece a do ovo e da galinha… ou o sexo dos anjos…
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– Precisamente! São anjos, definição sem género, o que pode ser ou não sexuado, são anjos, no masculino, e só, são anjas, só no feminino, existem anjos e anjas, e pode nessa situação existir sexo…? E se houver sexo, de procriação, socialização ou prazer ou várias conjunções?
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– O ovo e a galinha…
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– O ovo e a galinha não interessam nada!
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– Carraio! Porquê? É uma discussão idêntica.
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– Errado! As galinhas e os ovos existem… já os anjos, nas três hipóteses de género, são de existência discutível… não é a mesma coisa de não existirem, mas de se acreditar universalmente.
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– Acreditas em anjos? Em santos?
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– Acredito na bondade, na perfeição, na inteligência, no belo… em seres, em espírito ou na carne, com essas características, em parte.
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– Porquê em parte?
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– Só Deus é isso tudo e talvez mais.
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– O que é Deus?
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– Deus é a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas.
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– Allan Kardec…
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– Sim, Livro dos Espíritos.
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– E isso não te satisfaz?
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– Faz-me pensar mais?
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– Concretamente em alguma coisa?
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– Vagamente qualquer coisa… assuntos provavelmente importantes, densos e superiores… que a minha pequena cabecinha esfarrapa em conclusões ou caminhos básicos, erráticos ou errados – se é que existem caminhos errados… se existe infinito… se existe vazio…
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– Já reparaste que entrámos numa espaço-nave, duma questão em concreta, embora nebulosa e vaga, e chegámos ao limite da densidade…?
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– Densidade em que não entrámos, não entramos nem entraremos, pois a minha cabeça é pequenina e a tua é pouco maior.
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– Já pensaste em Deus, como figura, como criatura, como…?
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– Descarto a hipótese de ser criatura, tal como respondi com a citação. Como figura… será como os anjos? Conjuga-se no masculino ou no feminino?… Os alemães ainda podem conjugar no neutro. É sexuado? Ah, pois! Mas pode ser masculino ou feminino?... O neutro parece-me mais consensual ou, pelo menos, justo. Acredito que Deus é justo e bom e que bondade e justiça são plenitudes, absolutas.
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– Desculpa, mas pode ser-se bom e justo…
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– Nunca completamente. Em nós há imperfeição. A perfeição é o destino – que queremos, que termos, em que acreditamos, se, se, se… –, a perfeição, como absoluto. Podemos proceder com justiça e bondade sem sermos Deus, mas nem que seja na dúvida, por obrigatória ignorância do tudo, as perfeições, ou perfeição, não nos são ou nos é.
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– Bem, estamos a velejar longe da costa, sem instrumentos nem estrelas… entrámos nos teus pensamentos depois de comer…
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– Comi um pão. Tu é que não viste.
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– Ah!...

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