digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

domingo, novembro 01, 2015

O dinheiro não traz a felicidade, mas a falta dele também não

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Disse-me, displicentemente, numa arrogância de fancaria:
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– Ser-se pobre é uma chatice.
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– Há coisas piores… como não ter saúde.
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– O dinheiro é indiferente a isso.
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– Os bons médicos… e alguns tratamentos, são caros.
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– Apesar das queixas, temos um bom sistema de saúde.
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– …
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– Ser-se pobre é chato! Não ambiciono fazer parte duma qualquer elite…
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– … mas…
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– A pobreza é uma chatice. A pobreza é feia. Não quero viver no meio dos ricos nem com ricos, só não quero a fealdade.
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– …
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– Uma fealdade orgânica, quase genética. Um pobre obeso é disforme. As sobrancelhas, as papadas, a gordura que invariavelmente transborda dos vincos da roupa interior que sobressai sobre a que usam… isto, elas. Eles têm barrigas e não fecham os botões, caem-lhes as calças…
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– Snobeira!
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– Não é! Incomoda-me a ausência de senso ou de tino. O gordo pobre veste-se como um gordo que é mais gordo.
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– Snobeira.
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– Vestes-te bem. Moras num prédio de apartamentos com bom isolamento sonoro, que fica fora do centro e não tem por perto uma loja. Isso não é vida. Isso é outra pobreza.
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– Tolo!
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– Ser-se rico não é ter dinheiro.
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– E é o quê?!
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– É uma atitude, é uma estética. É uma postura estética. O polimento de saber comer numa taberna sem se deixar de ser…
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– … de ser…
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– … e de igual modo saber conviver na mesa do palácio.
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– O dinheiro compra e és um teso.
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– Errado! Sou um milionário sem dinheiro. Pior do que se ser pobre é conhecer a luz e gostar, mas não a conseguir alcançar. Se não souber o que é trufa branca… se desconhecer o sabor do caranguejo do Alasca…
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– … Não me digas que vais «morrer estúpido».
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– Não vou viver, mas também não sei o que será isso. Conhecer e não conseguir é deprimente.
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– Esforça-te. Faz-te à vida.
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– Essa coisa do trabalho esforçado ser recompensado… é um mito. A tal coisa da meritocracia é quase sempre retórica…
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– Porém, existe…
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– É rara. Mas ser pago, bem pago, pelo trabalho é animador. Mas quem é pobre será sempre pobre!... As palavras absolutas desmentem-se sempre com a realidade… Um azeiteiro, um labrego… será sempre pobre, mesmo que tenha um Ferrari – sobretudo se tiver um Ferrari… ou só tiver um Ferrari e não tiver um carro decente.
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– Um Ferrari… carro decente? Ser rico?! Baralhas-te.
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– Nada! Um Ferrari só é um Ferrari se não for só um Ferrari. Não vais trabalhar de Ferrari… não conduzes um Ferrari nas ruas movimentadas.
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– Se tiveres um Ferrari… conduzes o quê?!
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– Até pode ser um Dois Cavalos. O dinheiro compra o ouro e o seu brilho. Mas não compra a patina nem a sabedoria de escolher os tons discretos. Não sei o que é pior, se um Ferrari escarlate num engarrafamento ou se um Fiat Punto branco… esse ou outro carro branco qualquer.
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– Qual é o problema dos carros brancos?
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– É o mesmo que o das peúgas brancas.
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–  Queres ser rico e és um pobre e um tanso. Julgas-te com valor e desprezas o valor do trabalho e do mérito. Engoles-te!
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– Falha-te um ponto… a estética. E estética quer dizer cultura, consistência de imagem e de se saber estar em todos os ambientes, perceber o que é uma provocação de indumentária e o que são fatos brilhantes, acetinados… saber que não se misturam padrões, que as meias são meias e não soquetes ou peúgas, pretas! Pode-se condescender nos sapatos: preto ou preto ou veludo preto ou veludo castanho… forçando, castanhos.
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– Parece-me uma chatice.
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– Não! Chatice é ter de vestir fato para ir trabalhar numa sala grande, entalado entre a cadeira e a secretária, com um portátil que nunca sai do sítio.
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– Mas disseste…
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– Descrevi-te uma hipótese consistente. Fato com corte inglês e nunca italiano, jamais americano e acetinado proibidíssimo. Sapatos ingleses, ao estilo… fazem-se bons sapatos em vários países… estilo. Ou então…
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– Ou então?!...
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– Ser excêntrico. Ou ser isso e também excêntrico. O dono da Playboy anda sempre de pijama…
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– Inegavelmente rico e inegavelmente azeiteiro.
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– Americano!... Os americanos gostam da excentricidade, porque valorizam o selfe-meide-méne… A tal meritocracia que é uma grande treta. O nepotismo é universal e endémico. Pelo menos nas sociedades caucasianas – ocidentais, se preferires.
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– Ainda assim, a Playboy é uma revista que tem coisas para ler.
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– Tem. Mas há mais revistas que têm coisas para ler. A diferença é que a Playboy tem meninas nuas.
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– A americana vai deixar de ter.
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– Deixa de haver a razão para a comprar.
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– Da tua lista e nomeáveis para o estatuto de rico quem tem direito a convite ou lugar cativo?
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– Qualquer pessoa.
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– Uma qualquer?
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– Ser-se rico é uma atitude, e o dinheiro ajuda. O berço ou, para ser execravelmente arrogante, o sangue ajudam.
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– Vivemos em democracia, em república e….
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– … e não tem nada a ver! O nepotismo existe. As cadeias de interesses e de mesquinharia, de desinteresse intelectual… Sabias que em França, aquele país onde decapitaram um Rei e extinguiram a nobreza, há inúmeras famílias que se mantém à frente das administrações comunais há duzentos anos, há duzentos e tal anos, há trezentos e mais anos?... Umas que ascenderam com a revolução e outras que se aguentaram, transitando do antigo regime – a velha nobreza francesa não foi toda decapitada.
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– Desconhecia… E interesse intelectual?! Falávamos de ser-se rico…
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– A educação é fundamental… a cultura ainda mais. Não são precisos colégios famosos ou universidades caríssimas. A educação aprende-se em casa e ensina a aprender. A aprendizagem conduz à cultura. Aí é que os selfe-meide-méne têm um valor que valorizo. É aí que está a fonte do bom-senso, bom-gosto, saber-estar, saber-fazer… saber-dizer…
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– … dizer…
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– Dizer, depende… se queres ser só rico ou também excêntrico.
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– Como se é rico? Se fores remediado e com algum talento podes enganar, emanares o tal brilho baço do ouro antigo.
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– Para se ser rico pode bastar desejar-se menos… Ser-se rico não significa ter dinheiro, ou não apenas isso… acho que ainda não me fiz entender. Se sou duro de ouvido, para que hei-de gastar numa aparelhagem sonora para melómano que só se contentam com as Variações de Goldberg, por Glenn Gold… para quê? Ser-se rico não significa esbanjar. Quem esbanja é quem precisa de algo que não tem.
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– Fica sempre bem… essa é um clichê.
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– É. É essa e a de comprar arte.
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– O que comprarias? Picasso, Renoir, Joana Vasconcelos…
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– Odeio Renoir! Se há coisa pindérica é um quadro de Renoir. Para que quereria ter um picasso? Interessa muito mais uma obra anónima do século quinze do que uma assinatura contemporânea. Não me refiro ao valor em dinheiro, mas em interesse. Não sendo curador de museu e apenas um mero apreciador, compraria pelo prazer estético e aí cabe toda a humanidade.
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– A arte é um investimento seguro. Só muito dificilmente se desvaloriza… e ainda assim irá recuperar.
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– …
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– …
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– Um bom fato dura anos. O corte inglês dá-lhe anos de beleza. Uns sapatos podem durar décadas… Um dia, feito idiota, comprei um fato na Zara.
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– Estou chocado!... Abismado!... Boquiaberto!
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– Então fecha a boca. Era bonito. Tão bom que as calças só se usaram uma vez, desfizeram-se. Ainda bem, porque seis meses depois aquele corte e tecido estavam vinte anos enojados!
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– Possidónio!
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– Duplamente possidónio! Comprei um fato na Zara e ainda o digo abertamente… pelos meus padrões, estou quase impossibilitado de ser rico.
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– A menos que sejas excêntrico… um rico veste-se na Zara, na feira de Carcavelos ou manda fazer fatos…
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– Tens razão. Mas aquele fato foi possidonite, mesmo. Sabia o que estava a fazer… não sabia era o que fazia.
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– Farias uma volta ao mundo num veleiro… Conhecer a Índia, a China e o exotismo do Oriente, nos melhores hotéis onde…
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– … Onde tudo é do melhor e as putas parecem senhoras que parecem putas. Esquece. Não me interessa a China, se pudesse ir ao Japão sem passar por Tóquio seria excelente… a Índia tem moscas e sei que é fedorenta. Não me interessa o Nepal, nem o Tibete, nem a Tailândia… nem África… Não gosto de moscas nem de odores fortes. Sobretudo, odeio multidões e o Oriente está cheio de gente e de moscas. E África está cheia de moscas e não tem cidades nem paisagem que me seduza.
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– Fala-se tanto nas paisagens africanas… lindas, de cortar a respiração.
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– Vi fotos e não me interessa. Só se houver areia branca e água cristalina. Não quero fazer mergulho perto de tubarões nem… não quero.
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– És um bocadinho-nada chato...
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– Não é preciso ser-se rico para ir a esses sítios. Os sítios para ricos desses sítios são pobres, medonhos. Os sítios para pobres desses sítios também não me interessam. Além de que para se ser rico – julgo que já to disse – pode bastar desejar menos.
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– Desejar menos… diz-me, então, o que desejas menos… admitindo que és rico. Que és um dos homens mais ricos do mundo. Comprarias um clube de futebol?... Estou a gozar.
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– Se fosse um dos homens mais ricos do mundo não comprava um clube. Comprava a liga e o Belenenses ganhava sempre.
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– O que querias?...
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– Não teria casas em toda a parte. Não teria um jacto particular. Não queria um barco para nada. Nos voos de curta distância voaria em turística, mas nos de longo curso compraria para a primeira classe. Iria embebedar-me com os amigos. Não iria fazer férias na neve nem safaris em África. Teria uma casa num lado qualquer, desde que fosse grande demais para uma só pessoa, tivesse jardim e garagem… ah! No centro de Lisboa.
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– Isso e caridade… caridadezinha.
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– O que quiseres. Caridadezinha, «festa, canasta e boa comidinha», como canta o José Barata Moura. Não é preciso ser-se rico para praticar a caridade, a solidariedade, o amor-ao-próximo ou outra coisa qualquer que queira dizer o mesmo.
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– … Anestésicos para a consciência, uma espécie de consciência social.
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–Enfim… queres que te responda com educação?
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– Quanto a automóvel… ou automóveis… já que terias uma casa grande, suponho que terias uma garagem com muitos carros… Rolls Royce?!
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– Aí confesso… não ligo muito a carros… mas alguns são tão bonitos que os teria… teria vários.
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– Ferrari, já se percebeu que não…
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– Nem Porsche.
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– Não gostas de carros desportivos, portanto.
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– Não, não gosto. Mas nem é por isso. Para que me serve ter um Lamborghini se é desconfortável de conduzir em cidade e em autoestrada não posso ultrapassar os cento e vinte quilómetros por hora?... E já partindo do princípio de que tenho dedinhos para controlar uma fera dessas.
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– Então…
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– Uma coisa que me chateia muito é o aborrecimento…
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– … blá, blá, blá… retórica e pleonasmos.
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– Os automóveis hoje são feitos de dentro para fora, o que é compreensível. Depois enfiam-se uns números e umas coordenadas nos computadores e imprime-se um mono. Os desenhadores estão castrados e rabiscam, sem ousadia e nunca glória, algo que viram generalizado, embora muito desbastado, em carros conceptuais nas feiras internacionais. Molda-se um coiso em barro, ou algo assim, manda-se-lhe com uma ventania… tudo registado por computadores… os criativos, castrados, alinhavam uns riscos e sai a merda duma obra perfeita.
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– Albarda-se a burra à vontade do freguês. Houve estudos de mercados, testaram-se conceitos em grupos de potenciais compradores…
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– … a beleza do meio… mediocridade…
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– O que seja… não há nada por acaso. Há comunicação, marquetingue…
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– E fazem-se merdas perfeitas. Há uns anos, a Renault teve a ideia de lançar um carro que não se parecia com nada: o Twingo. Parece que foi um sucesso. Depois do ovo-de-colombo, vieram responsáveis de «todas» as empresas dizer que carros daqueles todos tinham… só que ninguém se lembrou de ter a coragem de o fazer. A Renault lançou um dos últimos carros com personalidade. E depois... depois? Nada! Voltaram os cinzentos que só pensam no meio dos universos. Se vires os Twingo actuais são tão entediantes… ficou a marca e perdeu-se o conceito e a ousadia. A Fiat autoplagia-se… a Citroën chama DS a uma abóbora com rodas… Tomam-nos por tolos. Dão-se a essa liberdade, porque somos tolos! Somos pobres. Ou é pobre quem acredita estar a comprar uma coisa que não existe… o melhor exemplo é o Mini, que é do tamanho dum Mercedes… Aquela coisa só é mini no nome…
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– Bem… que carros terias na garagem?
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– Um boca-de-sapo seria obrigatório! Sabes, o segundo DS… salvo-erro o primeiro automóvel com faróis direcionais… foi desenhado pelo escultor Flamino Bertoni e pelo engenheiro aeronáutico André Lefèbvre … É uma obra de arte.
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– Há quem não goste e quem deteste.
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– Tudo bem… mas é um carro com carácter. Um carro para um esteta, que o pode ter não por gostar, mas pela sua importância histórica.
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– Além desse?
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– Para ocasiões importantes, um Mercedes-Benz 600 Sedan. Um carro da década de sessenta com a beleza, delicadeza e aura de Audrey Hepburn.
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– Ela teve um carro desses?
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– Não faço a mínima ideia!... Talvez tivesse um Citroën 2 CV ou uma Renault 4L.
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– Sei que gostas da Jaguar e da Aston Martin… e da Bentley… Nenhum?! Pensa que és um dos homens mais ricos do mundo…
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– Gosto desses todos, mas duvido que os quisesse ter…
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– Porquê?
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– Os carros que te disse seriam obrigatórios. Esses que agora referiste seriam excessivos. Sendo que basta ter-se dinheiro para ter um Bentley... até já os pintam de branco. Um bandido russo, um terrorista árabe ou um tosco que sabe jogar à bola tem um Bentley. E até vão para o trabalho neles. Um Bentley é um fraque, não é uma camisola e calças de ganga. Há que ter respeito. E por amor-próprio, não gostaria de ter uma obra de arte que uns novos-ricos compraram em branco. Já os outros são escolhidos pela sua característica irracional para os deslumbradoss: o carácter. que os torna eternamente belos ou eternamente falados, mesmo que desdenhosamente. O ouro baço e escurecido, a eternidade.
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– Todos esses carros, os obrigatórios, chumbam nos testes ambientais. Qual o carro para o dia-a-dia na cidade e para uma viagem mais longa?
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– Para longe, ou comboio ou avião. O comboio chega ao centro das cidades. Nas cidades há táxis.
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– E para o dia-a-dia?
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– Um carro preto-e-verde com umas luzes no tejadilho, com alguém a conduzir… e metropolitano.
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– Uau! Um rico no metro…
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– Sim. Já agora, empresta-me quarenta cêntimos. Só tenho um euro para o bilhete… em Lisboa, se fosse em Paris faltariam mais vinte cêntimos…
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– …
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– Queres melhor exemplo do que é uma cidade dum país rico e dum país pobre, mas novo-rico?
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Filme «Um violino no telhado», de Norman Jewison.

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