quinta-feira, outubro 08, 2015

Sangue frio, sangue quente

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Perguntaram-me:
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– Por que escolhes a imagem dum vampiro para a tua identificação na internet?
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– Bem é simples, mas não óbvio, assim espero, ou não espero. Mas também tenho o Don, a personagem da firma Sandeman, que por mercar em Vinho do Porto e Vinho Xerez adoptou uma figura misteriosa, um vulto, guardado pela batina dos estudantes da Universidade de Coimbra e o típico chapéu andaluz.
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– É diferente. Queres ser duas pessoas?
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– Gostava de ser mais. Não como o Fernando Pessoa, que tinha uma data de gente dentro, segundo alguns, ou escrevia mediunicamente, de acordo com outros.
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– Dupla personalidade, não?
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– Ao que sei, a dupla personalidade é raríssima. Existem muitas mais referências, porque tem algo de mágico, do que casos reais. Soube-o há pouco tempo.
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– Desconhecia…
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– Já me acusaram de ter dupla personalidade. Porém, quem o disse desconhecia que bipolaridade e dupla personalidade são coisas muito distintas. A ciclotimia também não é dupla personalidade. Todavia, não sou bipolar. Contento-me em ser só depressivo – e já basta.
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– É pior? Porquê?
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– Uma vez iniciei uma medicação e fiquei exausto. Passar da euforia à depressão e da tristeza à mania derruba um exército. Aquele comprimido desarranjou-me e tiraram-mo logo quando me queixei.
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– Voltando ao princípio. Porquê vampiro?
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– Haverá algum ser tão triste quanto um vampiro? Dou-me importância, abusando da personagem, para me comparar…
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– … o lobisomem é muito triste.
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– O lobisomem é mais incompreendido do que triste, mas é também um ser sombrio.
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– Quando descobriste que és um vampiro?
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– Não sou vampiro. Em sonhos… porém, reconheço que as pessoas depressivas podem vampirizar as pessoas que estão à sua volta. Não será por mal – algumas talvez – mas desgastam quem os ama. Quer pela carência de atenção, necessidade de cuidados, receio do descontrolo. Acresce a densidade. Os depressivos são densos, agarrados ou presos à dor e ao escuro. Não por prazer, mas porque não conseguem ver outra coisa que não negrum.
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– O livro de Bram Stocker é uma grande obra, mas havia já estórias de vampiros.
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– Sim, todas pessoas tristes, certamente insatisfeitas, entediadas e melancólicas. Mas o livro tem maior importância pela época, pela conjunção de modernidade, dos velozes comboios, com a medievalidade das terras distantes e de difícil acesso. A sociedade era de extremos, nunca deve ter havido tantos duelos… Ao longe, o Drácula é um romance romântico… por isso também, erótico. O sangue é vida, a posse é doença, a paixão é dor.
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– Gostaste de ler o livro? Que idade tinhas?
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– Era adolescente. Não gostei do livro. O romantismo é uma coisa açucarada que se vira para o amargo. A verdade é que nunca gostei de ler ficção. Lia porque devia ler, porque me diziam que era importante, transmitia conhecimento e abria horizontes – fiz o frete de ler… uma namorada da adolescência até me chamava de traça. Hoje acho que tenho o direito de afirmar que não gosto de ler ficção.
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– Como se apodera de ti, o vampiro?
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– Através do cinema. Passei vidas em salas de cinema – hoje falta-me paciência e sobram-me pipocas. Vi tudo, menos os pornográficos. Tenho pena de nunca ter entrado no Animatógrafo do Rossio, o primeiro de Lisboa, no Ódeon ou no Olympia.
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– Bela Lugosi… trincou-te?
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– Não. Se bem que é dos poucos que mereceu encarnar a personagem. Depois, aquelas sequelas todas… foi como o Tarzan. Um sucesso tão estrondoso que até o levaram para Nova Iorque.
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– Murnau?!
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– Murnau! O Nosferatu é um filme de terror. O único filme de terror que é mesmo de terror e nele cabe a essência do romance, o que tem de melhor, de excelente. Tudo ali é novidade, até do ponto de vista técnico, do movimento expressionista.
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– Um filme amaldiçoado.
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– Com a maldição da estória. Nosferatu foi rodado em 1922, ainda o cinema era mudo e a preto-e-branco… os descendentes de Bram Stocker processaram Murnau, por questões de direitos de autor. Talvez tenha sido o primeiro caso…
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– Apesar de ser Nosferatu e não Drácula, o conde Orlock.
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– Mandaram-no destruir, como se disparassem balas de prata ou espetassem um pau afiado ou visse a luz solar.
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– Um milagre ter sobrevivido! Consta que sobraram poucas bobinas, que cinéfilos se recusaram a devolver. Disseram-me que algum material estava guardado em Portugal – é um fim-de-mundo, ninguém sabe onde fica, esqueceram-se ou.
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– A eternidade do vampiro, que sobrevive à maldição. Um final feliz, contrariamente à estória.
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– Contrariamente à estória? O Vampiro morre?
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– Sobrevive. Sobrevive à morte. Duvido que alguém não sinta compaixão pelo vampiro quando fenece fulminado pela luz solar – de Deus.
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– Dizes que detestas o romantismo, mas gostas duma estória que classificas como romântica. Como convives contigo?
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– Sou romântico. O romantismo trucida-me, porque muito me diz respeito. O lado negro, a tentação, o mistério, a mentira, a superstição, a tristeza, a melancolia, a nostalgia, o folclore medieval… são coisas maravilhosas – apesar do suplício para um depressivo. Se bem que sou pobre em nostalgia.
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– No início debatíamos a suprema tristeza do vampiro. Consideras ser superior à do lobisomem… lembrei-me agora: e o zumbi?
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– O zumbi é triste e pobre. O zumbi mete medo. Está sujo da terra que o tapava. Está esfarrapado. Mal consegue andar. É bruto e óbvio. O Drácula é refinado, veste-se bem, é sedutor… pode causar arrepio, alguns podem desconfiar, mas há sempre uma incerteza.
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– Essa do triste e pobre… és cínico? Cruel? Pedante?
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– Queres dizer que sou racista social… não. Reporto-me a factos. Factos que são literários ou fantasiosos, personagens. O zumbi é um servo revoltado. O Drácula é aristocrata e sensual.
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– De novo até ao começo… e o Don? Porquê?
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– Muito devido ao filme publicitário, da década de sessenta, creio. Um homem, possivelmente um polícia, persegue o Don. Mas quando supostamente encurralado… resta o chapéu e a capa e debaixo está uma garrafa de Vinho do Porto.
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– Tens noção que te expões… Esta autoentrevista revela-te perante, nem que seja teoricamente, mais de sete mil milhões de seres humanos ou duzentos milhões de lusófonos. Não receias…?
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– Revela, como? O que é aqui verdade ou mentira ou pardo? Não há segredo mais bem escondido do que aquele que está à vista.
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Nota 1: Drácula só Max Schreck e Bela Lugosi. Klaus Kinsky é bijutaria, um filme de quinquilharia chinesa com marca de luxo.
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Nota 2: O filme de Francis Ford Coppola é um desastre, o pior filme deste grande realizador, é de série B com orçamento gigantesco. Gary Oldman está patético, apalhaçado, como uma mascarada de Carnaval adolescente. O Drácula encarnado por Anthony Hopkins é um velho pederasta. Sexualidade boçal.

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