sexta-feira, julho 17, 2015

Um mês de trabalho contado no Tarô

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Vinte e dois dias úteis tem o mês, os mesmos se forem inúteis. No final serão trinta ou trinta e mais um, mas há Fevereiro. Todos sabemos que em Fevereiro chove muito em Portugal. Ou chovia, pois desde que mexeram no céu as estações do ano andam esquisitas.
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É assim a vida… mais sete mil milhões de pessoas, quase todas pobres ou muito pobres e pouquíssimas ricas, que podem comprar os sonhos. Sonho com um Learjet, um Bentley Continental descapotável, um conjunto de canetas Mont Blanc, relógios para cada dia do mês, todos mecânicos e complicados, comprar roupa em Milão e Roma, ter uma varanda em Miami, um apartamento na George V, um ninho de amor em Chelsea, dormir nas suites do Waldorf Astoria, de Nova Iorque, fumar charutos de Vuelta Abajo, acompanhados por grandes vinhos ou na preguiça duma rede no iate ao largo de Monte Carlo.
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Acordo abruptamente e sonho mais baixinho. Para não ter de contar os trinta dias do mês, às vezes mais um e menos dois em Fevereiro. Roda o mundo, com mais de sete mil milhões de pessoas.
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Faites vos jeux
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O dia um do mês foi uma segunda-feira e do baralho do Tarô tirei uma carta.
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No dia dois, do baralho tirei uma carta – o melhor pela frente, tudo seria capaz e em tempo.
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Veio o terceiro, o quarto, o quinto e sexto dias, para cada um tirei uma carta e a mesma calhou. Por ser essa, soube que não o haveria de ver nem ouvir – para alívio exclamei para que me ouvisse que não tinha medo dele.
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Dois dias para descansar, com a semana passada na cabeça e a próxima no fígado.
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O dia nove foi segunda-feira. Do baralho tirei uma carta e calei-me sabedor de que reparavam no meu esforço, empenho e competência.
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Já na terça-feira cheguei feliz com o Sol na mão. Nada a relatar, escreveria no diário, se o tivesse.
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Mas no dia seguinte veio-me a Lua, uma dúvida de quatro faces em desinquietação. Pensei que a indisposição psicológica derivava de mal-estar físico, por causa aquelas lulas de caldeirada com picante que jantara. Até me tinha levantado a meio da noite para beber uns sais-de-frutos.
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Que sinal, o que dizer? O que fazer? Lentamente passou o dia num instante. São esses dias que nos fazem velhos.
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Quando na sexta-feira a carta deslizou do conjunto tive a certeza que tudo corria bem, ainda que.
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Dois dias para descansar, com a semana passada na cabeça e a próxima no fígado.
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Na segunda-feira acordei tarde e não tomei duche para não me atrasar mais. A porra das segundas-feiras! Vi a carta de fugida e corri até ao carro com um croissant de plástico na boca. Três minutos antes das nove horas, por um triz. Fui chamado à chefe, que me disse várias coisas que não entendi, nem por si nem em conjunto. A fulana é estranha!
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Levantei-me preguiçoso e ao pequeno-almoço, com os dedos molhados de manteiga quente, que escorrera da torrada, tirei a carta diária e sem perceber a conversa da véspera percebi o dia pela frente. O senhor doutor quis conversar comigo.
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Depois de ter sido chamado ao gabinete do patrão achei que iria ser aumentado. Palavras macias deixam antever mais uns cobres. Na pior das hipóteses seria graxa para trabalhar mais, mais papéis e horas, sem receber mais por isso, mas estrada certa para a promoção. Talvez um bónus no fim do ano. Saí de casa muito saudável e pensando que à hora de almoço poderia comprar um fato novo, de melhor fazenda. Fui ao quiosque e comprei um jornal económico, sentindo-me já quase chefe, e um maço de cigarros, que informava do perigo de morte, lenta e dolorosa. Lembrei-me que não tirara a carta. Veio a mensagem do pacote.
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Acordei cedo, despachei-me depressa e o caminho, contra o trânsito da hora-de-ponta, fez-se sem ultrapassar os cem quilómetros por hora. Tranquilo, entrei talvez dez minutos antes do horário. Do bolso tirei o baralho e pelas costas escolhi uma… parecia bruxedo… a chefe não me dirigiu a palavra.
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Sexta-feira com Sol e disposição de querer conquistar o mundo. Finalmente sexta-feira. Do baralho veio suspiro aliviado. Nada de preocupações, apenas sobressaltos vagos e véspera de vontade livre.
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Dois dias para descansar, com a semana passada na cabeça e a próxima no fígado.
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Quando o despertador tocou, naquela segunda-feira, deitei ao chão as cartas, que estavam, fora da caixa, sobre a mesa-de-cabeceira. Caíram todas de costa para cima, menos a do Sol. Alegria! Bons tempos aí à frente. Tive azar, apanhei um mega-acidente na auto-estrada. Liguei várias vezes à chefe, mas primeiro não me atendia e depois desligou-me mesmo na cara. Quando cheguei à minha secretária, e ia para me sentar, chegou-se e disse-me ralhando que se não lhe estava a atender é porque não podia, que não tinha de insistir, que fui incomodativo e, já agora, disparou-me a acusação de que chegara tarde. Embargado, expliquei-lhe do acidente e que era essa a razão do atraso e da insistência na chamada. Virou-me as costas e mentalmente mandei-a ir à merda… o que me contive!...
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As terças-feiras são o princípio do fim da semana de trabalho, quando se respira antes de mergulhar na quarta e na quinta. Tudo bem, sem stress. Veio-me à mão uma tranquilidade. Era mentira, uma ironia. Todas as questões que coloquei à chefe ficaram sem resposta ou com um lacónico dizer que mais tarde se veria. Lembrei-me de que na véspera a mandara mentalmente à merda e mandei-a mais três vezes, embora com menos veemência no asco.
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Assim se fizeram as coisas. Então o destino mandou-me a Torre. Impercebi quando dois colegas me vieram pedir três processos que tinha entre mãos. Não me pareceu ser ajuda, e em substituição não veio nenhum email com ficheiro Excel para ver e  verificar nem me pediram um Powerpoint com urgência de anteontem. O destino mandou-me a Torre, mandou-me dela abaixo, daquela que já se derribava.
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A quinta-feira foi morna em tudo, do acordar até ao final do dia. Estava sem quase nada para fazer e sem perceber. Pedi trabalho, mas a cabra – nesse momento já baixara na escala da condição de afecto – murmurava enfadada que, de momento, não tinha nada para me dar. Um dos colegas, um dos que ficaram com pastas minhas, veio ter comigo. Puxou uma cadeira e pediu-me que o ajudasse a perceber umas situações. Ali estivemos, talvez meia hora ou quarenta e cinco minutos de secura e indiferença. Outros colegas passavam e olhavam como bovinos ou desviavam os olhos, como fazem as adolescentes quando se cruzam na rua com o miúdo mais bonito da escola. Uma agulha picou-me, comecei a sentir-me corno.
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Cansado tomei o pequeno-almoço no café. Um quarto Vigor, como se a marca atestasse a função da poção de exorcizar, e uma sandes de presunto – da perna para que te quero, que sou carne para canhão. Levei a mão ao bolso e o Zero. Nesse dia fui chamado ao departamento de pessoal, donde me mandaram passar pela tesouraria. Disseram-me que escusava de ir trabalhar na semana seguinte, pois todos os assuntos estavam tratados, as pastas passadas, nada pendente – além de mim, é claro.
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Veio sábado, veio domingo e todos os dias seguintes tiveram a angústia dos domingos das semanas indesejadas e fígados de segunda-feira.
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Dia vinte e oito foi uma segunda-feira e acordei às horas de ir trabalhar, sentei-me cristalizado em frente à televisão, que transmitia as habituais informações de trânsito – pensei que ainda bem que fazia o percurso em sentido contrário ao movimento da hora-de-ponta, suspirei triste. Não tirei nenhuma carta, não fosse dizer coisas tristes.
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Na terça-feira tomei duche, mas não fiz a barba. Decidi deixar de fumar. Com o dinheiro poupado faria um mealheiro, ferramenta para se tivesse o azar de não conseguir emprego até chegar o final do subsídio de desemprego.
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No dia trinta – esse mês mancava um dia – levantei-me como na véspera da inspecção do serviço militar obrigatório. Um duche quase frio, barba feita e perfume suave. Ciente de que iria esperar e esperar e esperar que me chamassem para falar com o técnico do instituto de emprego, comprei um maço de cigarros para devorar nas horas mortas. Fumei mais um e meio. Lá se foi o mealheiro.
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Cinquenta e dois dias tem o ano, tantos quanto as cartas dos arcanos maiores. Dias a fazer paciências para não rebentar de impaciência e a fumar mais, com o olhar nas mamas das miúdas das fotografias que o choninhas lá do trabalho me passou a enviar para me animar... quem diria, que o choninhas gosta de pornografia. Não lhe disse que não gosto de mamalhudas de silicone, ele é tão simpático. Às vezes almoçamos para recordar os nem bons tempos.

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