quinta-feira, abril 16, 2015

A verdade nunca será publicidade

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Esta coisa de ter dentes tem uma grande vantagem: não ter de engolir pedras para moer os alimentos. A desvantagem é que precisam de manutenção e, tal como os automóveis, chega-se a uma fase em que há contínuos problemas. Só que os carros trocamos e uma boca nova não é bem…
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Ou seja, cheguei aos quarenta e quatro anos e comecei a sangrar das gengivas.
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– Doutor, doutor…
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Agora, com quarenta e cinco, não voltei aos vinte anos, apesar de ninguém me dar mais do que treze… em termos de maturidade.
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Guloso – do açúcar ao sal – e geneticamente defeituoso, conheço as cadeiras dos dentistas ainda antes de ter seis anos.
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Já sei que alguém começou a pensar e talvez a murmurar:
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– Não lavas os dentes e depois queixas-te.
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Mas lavo. Sempre lavei e sempre tive o cuidado de comprar a pasta dentífrica mais bonita, azul – desde que deixaram de ser todas brancas.
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Devido a tantas cáries, penso que facilmente convenço um amanuense a deixar-me mudar de nome para Macário.
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A boca – durante anos apresentou-se branca como o chão de ladrilhos num anúncio de detergente doméstico – tornou-se mais escura , mas à custa de brocas e outros instrumentos muito mais feliz.
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No entanto, as cáries não foram a minha única desalegria. Os sisos pesam-me em pesadelos regulares. Seria demorado e chato explicar, só digo que por causa deles chumbei num exame de condução.
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O meu dentista – durante quase trinta anos – era já batido e disse-me:
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– Nunca vi sisos tão grandes… parecem dentes de burro!
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Volta e meia, passados anos, ainda nos ríamos, eu um bocado amarelamente – amareladamente. Garanto que é uma pessoa muito simpática e bem-educada.
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Chegando aos trinta e muitos, comecei a kitar a boca. Como – descobri há pouco tempo o termo do fenómeno – sofro de bruxismo, os acessórios nunca duraram muito.
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Resultado: ando a kitar novamente a boquinha – bem bonita – e vá de me meter numa empreitada semelhante à recuperação de edifícios históricos à beira de ruírem.
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Blá, blá, blá, bruxismo, sangramento das gengivas, tártaro – Céus, nunca tivera e lembra-me sarro de retrete – arranca tártaro, polimento, prótese, venha cá dentro de oito dias, trata, remenda, cose, tira pontos e acho que é basicamente isto. Só falta uma coisa:
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– Lavar os dentes!
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Sim, lavar os dentes. Nos anos setenta e oitenta, quando as crianças brincavam na rua, rasgavam a roupa e estoiravam os ténis a jogar à bola, andavam à pancada e eram os melhores amigos e ai-de-quem-tocasse-no-nosso-melhor-amigo-e-saco-de-pancada-e-causador-dos-nossos-olhos-negros… iam para a escola a pé ou de autocarro e não eram raptados, seduzidos por pedófilos e subtraídos pela luz ofuscante duma nave alienígena… nesses anos, lavar os dentes era simples.
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Escova lisa – depois apareceram mais macias e mais duras, com relevos para chegar ali, mais tarde outras nervuras para alcançar além – pasta branca de gosto a químico tóxico e lá atrás o movimento era de trás para a frente e de frente para trás, em contínuo. À frente era para a esquerda e para a direita e da direita para a esquerda, repetidamente.
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Um dos primeiros grandes avanços no acto da lavagem surgiu – se não erro – em meados da década de oitenta. Apareceram na televisão, que já era a cores apesar de só existirem dois canais, a explicar que à frente os dentes se deviam escovar de cima para baixo e de baixo para cima.
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Outro grande avanço – certamente fruto da nossa entrada na Comunidade Económica Europeia, em Janeiro de mil novecentos e oitenta e seis – foi o aparecimento do fio dentário, mais higiénico e menos agressivo do que os palitos de madeira. Nessa época, os palitos, nos restaurantes, não estavam em embalagens individuais, mas colocados em frascos, como flores num jarro.
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O meu pai, que nasceu em mil novecentos e vinte e quatro, ensinou-me que nas tascas era melhor nunca pedir os palitos, pois havia alarves medievais que os punham para reutilização e que, sempre, mas sempre, ainda que numa boa casa, partir o pauzinho, não fosse haver, por perto, um sobrevivente do século XIV e da peste negra, com vontade e acção idênticas às do taberneiro.
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Voltando ao novo milénio e à minha recuperação do património edificado… hoje fiz uma formação em lavagem de dentes. Mais curta que a aldrabice das Novas Oportunidades, mas muito mais proveitosa.
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Não sei se – neste tempo de ensino universitário de três anos – a hora que hoje passei na cadeira não dará direito a certificado de pós-graduação…
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Então: há uns escovilhões e faz-se assim, uns géis e faz-se assado, o fio dentário, a pasta desde que tenha fluor. Vim fascinado. Escovilhões? E umas rebarbadoras – como aqueles aguilhões de jacto de água e areia que se usam para limpar as pedras dos edifícios – que arearam, limparam e poliram as dentuças da frente, onde se tinham agarrado umas *£#@&% de manchas… dentadura outrora famosa e apreciada pela sua alvura.
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Fora de brincadeiras, vim encantado. Porque conheci um novo instrumento, novas técnicas, conhecimentos vários e tratado por uma doutora simpática e competente.
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Vertente histórica e antropológica:
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– Na Escócia, a guilda dos produtores de whisky era a mesma que a dos dentistas… toma lá para anestesiar e vá de meter o alicate, a torquês, o escopro e o martelo.
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– Antes do açúcar se tornar acessível a toda a população, as cáries eram problemas dos ricos. As cáries, a gota, doenças coronárias, doenças cardiovasculares, obesidade…
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Há coisa dum ano escrevi aqui acerca de Santa Apolónia. Não é padroeira dos caminhos-de-ferro, porque no século III depois de Cristo não havia intercidades, inter-regional, regional, correio, suburbano, metropolitano ou Alfa Pendular.
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Santa Apolónia é a padroeira dos dentistas e neste momento tenho um altar com velinhas acesas, no pechiché, pedindo a sua bênção.
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O apóstolo Paulo, que passou pela Terra no século primeiro da Era Cristã, teve certamente uma vida regrada e comedida. Acredito que as cáries não fizeram parte das suas agruras… Ainda bem, porque Santa Apolónia estava atrasada uns anos.
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Agora surge um problema… como é que se mistura, neste texto, a bendita Santa Apolónia com o bondoso Paulo de Tarso?
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Fácil!
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– Clínica de São Paulo. Fica no Largo de São Paulo, em Lisboa, junto ao Cais de Sodré. Gosto muito!
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Nota: O trocadilho da cárie e do Macário é retirada duma frase de campanha do Partido Socialista Revolucionário, situado no espectro da Quarta Internacional, quando Macário Correia – homem do centro-direita, do Partido Social Democrata, cuja designação é enganadora, pois não o é – foi candidato à Câmara Municipal de Lisboa, em 1993.
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O lema do PSR foi: «Antes uma cárie do que o Macário».
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Julgo que é bom homem, com um nível de cultura que chega, pelo menos, até Eça de Queiroz… Porquê? Porque, quando lhe perguntaram qual o seu escritor favorito jogou no seguro e revelou ser esse escritor oitocentista. Qual a personagem com quem mais se identifica, na obra queirosiana, perguntou o jornalista. Respondeu que era o Conde de Abranhos… acho que não leu Eça de Queiroz. 

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