Há dias felizes, como os há tristes. Um dia, um amigo confidenciou-me a sua dor por perder o pai. Mais ou menos a citação, disse-lhe:
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– A morte não existe. Temos uma só vida e várias reencarnações. Neste lado do mundo, feito de matéria, somos espíritos num fato. É quando o despimos que falamos em morte. É apenas o corpo, não o espírito.
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Esse meu amigo – é sábio pensador e disponível para ouvir sem interromper – respondeu-me:
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– O facto de compreendermos a morte não nos tira a dor da sentir.
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Fiquei sem resposta.
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A verdade é que a morte não me causa medo nem receio nem dúvidas. Muito antes de crer na reencarnação, nunca me causou qualquer penar nem nostalgia. Não sendo frio, não a sinto como uma tragédia. Porém, como diz o meu amigo sábio, compreender não é sentir.
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Não chorei a minha avó materna, cujo desencarne foi o primeiro que constatei. Não chorei familiares. Não chorei amigos. Não chorei o meu pai. Não chorei a minha mãe. Não chorei o meu irmão. Não chorei a minha irmã.
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Fiquei triste? Não. Se me comovi? Claro que sim. Sinto saudades? Não. Lembro-me dos meus «mortos»? Sim. Gostava dos ter aqui e agora? Não. Faz parte da vida. Não há como fugir.
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A matéria recicla-se e nós, que somos espírito, vamos para um local onde não precisamos dum corpo. Regressaremos.
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Hoje, a Granita foi para um outro lugar.
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Morreu – digo assim para facilitar – a poucos dias de completar dezassete anos. Estava em sofrimento e até ao «fim» foi meiga.
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Por ignorância minha, tirei-a da mãe demasiadamente cedo – a ela e à mana Lioz, que feneceu em Novembro de 2015. Alimentei-as a biberão. Fui a mãe.
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A Granita era uma gata muitíssimo dócil que, por causa duma brincadeira parva dum amigo, se tornou menos sociável. Estranhos e menos estranhos habilitaram-se a uma patada ou mordidela quando a iam cumprimentar. Comigo, nunca! Sempre fui a sua adorada mãe. A Ana e o Miguel levaram anos até que ela os considerasse como familiares.
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Esperava-me à porta – na velhice deixou de vir sempre saudar a minha chegada. Amuou duas ou três ou quatro vezes, castigando-me pelos sarilhos que ela criara. Os gatos amuam e são engraçados quando despeitados. Dois dias depois já estava tudo bem.
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Dominou a casa quando viveu só com a Lioz e a Paraquedas. Mandou nos bichos todos, desde os que partiram aos que chegaram. Sempre, mesmo quando adoeceu.
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A Manga, uma épagneul breton, foi a única que a desafiou. Ou seja, uma Canis lupus familiaris com quinze ou dezasseis quilos e uma Felis Catus de três ou quatro – no fim da vida com dois ou três. Quando chegou à nossa casa, a cadela, de raça caçadora e habituada a bulhas em asilos, terá citado Gaius Iulius Caesar:
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– Veni, vidi, vici.
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A Granita mostrou-lhe, como os gauleses de Asterix, que não vici.
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Reparámos que a Manga gania quando olhava para a gata. A cadela compreendeu o seu lugar na hierarquia e mostrava respeitinho – aquele respeito com receio – quando se cruzavam ou se aproximavam. Quando se excitava mais, a Granita exercia a sua autoridade.
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Como Rainha e idosa, a Granita foi ganhando caprichos. Manifestava-os, sobretudo, comigo. Desde ter de mudar a tijela de sítio ou exigir um mimo antes de comer. Estas situações causaram-nos gargalhadas, obviamente.
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A Granita, não sendo gigante, foi uma gata grande. Foi gordalhufa e emagreceu. Com o tempo emagreceu e perdeu vitalidade. Por vezes, ficava quase prostrada... é a idade, pensei. Não me apercebi que fosse por estar doente, mas porque os muitos anos simplesmente lhe limitavam o apetite – não tendo sido lenta a perda de peso, não foi repentina.
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Uma noite, por volta do Natal, caiu porque não tinha força nas pernas. Levámo-la ao hospital, onde ficou internada, devido a anemia, decorrente de hipertiroidismo – coisa comum em gatos velhos. Com doença crónica, ficou de tomar diariamente medicação. Sempre com apetite e caprichos gastronómicos: se não gostava duma refeição, não a comia... mesmo faminta!
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Embora muitas vezes estivesse quase letárgica, após começar o tratamento engordou um pouco e o pêlo ficou mais macio. Contudo, há poucos dias emagreceu e perdeu macieza. Ontem, ficou pendurada na roupa da cama, sem força para se erguer ou soltar as garras. A Ana acudiu-a. Depois, peguei-lhe e ronronou diferentemente, como costumam fazer os gatos quando sofrem muito – tal como se chama pela mãe, mesmo quando se tem mais de cem anos.
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Estava novamente com anemia e desidratada, mas sem grande descontrolo da tiróide. Se, desde o Natal, sabíamos que a sua saúde era frágil, não foi propriamente uma novidade quando a veterinária disse que poderia não sobreviver ao tratamento.
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Hoje de manhã, ligaram-me do hospital. A Granita tinha um grande tumor nos intestinos. Poderia ter alta para que pudéssemos despedir-nos. As dores iriam aumentar, em dois ou três dias seriam insuportáveis. Falecer em casa? Não! Deixá-la em padecimento esse tempo, para acabar por ir a correr em emergência?
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Desliguei o telemóvel e pensámos duas ou três frases, trinta ou sessenta segundos – sei lá, foi quase um instante. Que violência! Ela em grande sofrimento e nós a braços com alguém que sabíamos ter horas ou poucos dias.
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Fui ao hospital assinar um documento. Deixaram-me vê-la. Estava enroladinha, voltada de costas para a porta.
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Afaguei-lhe a cabeça e virou-se. Acariciei-a sob o queixo, como tanto gostava. Demorou a ronronar – antes era tão rápida, até antes de lhe tocar, e fazia-o bastante alto –, sem que a ouvisse, sentindo-lhe apenas a vibração. Parou segundos depois.
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O estado de doença agravou-se muito em tão pouco tempo. Em menos de quinze horas, a sua expressão mudara muito, inacreditavelmente muito. Vi-a como se tivesse cem anos.
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Sim, os cães são mais expressivos do que os gatos. Sim, os gatos também expressam sentimentos com o olhar, embora mais subtis. Olhou-me tão triste, com os olhos embaciados pelas cataratas. Baixou a cabeça e enrolou-se, como estava quando ali cheguei.
Não tenho medo da morte. Compreendo-a e aceito-a sem dor. Não acredito na morte. Nunca chorei alguém porque partiu. Ainda que tenha lembranças, não sou nostálgico. Hoje deixei verter algumas lágrimas. Tomei a mais extrema decisão da minha vida.
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Não se pense que – por escrever o que acabei de escrever – gosto mais dos animais do que dos familiares e amigos que partiram para um local não material. Mas porque tive (tivemos) de decidir o momento dessa transição.
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Que estranho poder! Que loucura!
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O que fazer? Aceitar a «morte» no seu momento, conhecendo o sofrimento e o agravamento da sua dor? Tantas perguntas, muitas mais respostas e dúvidas.
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Quando cheguei a casa, a Manga olhou-me tristemente. Não sei quanto tempo me olhou. Os cães sentem e pressentem, lêem-nos as expressões e compreendem-nos. Sentem a vida diferentemente, sabem coisas que não conseguimos ler.
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A Valsa, gata que não me pede atenção, saltou para o meu colo. Mimou-me e ronronou. Lambeu-me a mão, algo que os gatos fazem – nem todos – só a quem consideram merecedor. Hoje, pensou que eu precisava desse consolo.
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Nós tristes e a Manga, magnânima e generosa, mostrou a sua dor pela morte da Alfa. A Valsa, a nova Rainha, apiedou-se de nós.
2 comentários:
A Granita era especial... Obrigada pelo privilégio de poder ter estado com ela e perceber isso muito bem. Vou ter saudades das turrinhas nas pernas, daquele miar alto e dos olhos lindos. Sei do amor que se tinham. E chorei ao ler-te. Não é por compreendermos que ficamos livres da dor de sentir. É isso mesmo. E ao sentir-vos, também me doeu. Deram-lhe a maior prova de amor ao deixá-la partir antes que sofresse mais. Até um dia destes, querida Granita.
Dos meus longínquos tempos de blog (e vão dez? quinze anos?), recordo as visitas ao Infotocopiável para ler os belíssimos textos que o tinham como berço. Fechei o blog e, aos poucos, o hábito de ler outros blogues perdeu-se. Hoje, não sei explicar como, lembrei-me subitamente do Infotocopiável. Visito-o, e percebo com tristeza que as últimas publicações referem perdas recentes. Dirijo-lhe assim os meus votos de que estas perdas possam continuar a ser vividas com coragem e serenidade, e o desejo de que muitas e bonitas conquistas venham a inspirar a prosa que está para nascer.
Susana Afonso
(ex. Incógnita, do Impluvium)
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