quarta-feira, setembro 28, 2016

O jardim de Peter Pan

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As madrugadas eram vazias e do jardim, Lisboa no fundo como cinema. O balcão gradeado do lugar adulto, donde nada se via antes da cidade nem além do céu, estava segurando como fronteira.
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Descendo as escadas ao sítio interdito, na ingenuidade do recato, que de dia das crianças findava deixando as suas alegrias, repetindo-se então mudas, escutadas pelos taciturnos e maníacos, ficava um país.
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Sismo ou fogo, naquela varanda larga, de sombras quadruplas ou mais, pelas luzes amarelas, o frio não existia dizendo para além. Voando de hálito do vinho, chovesse ou acontecessem as projecções na gravilha e nos bustos solenes, tínhamos uma felicidade incondicional.
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Éramos outros, éramos nós, como os miúdos. Respirávamos fora do corpo, com o ânimo de regressar às corridas, aos bibes e chapelinhos coloridos.
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Saciados de infância e vinho, devolvíamos o terraço ao vazio, aos fantasmas sós, antes do alvorecer, porque as horas reclamam a carne e o tino. Pela manhã, meninos verdadeiros reconquistavam o que deixáramos em nostalgia.
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Também havia um abrigo, caixa-forte de amor, escuro tal como corpos em transgressão, mas isso era outro país.

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