sábado, julho 16, 2016

Sangue e fala

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Morreram quase todos, menos os filhos da Eva.
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Do regaço, todo o espaço.
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Que voltas deu o mundo.
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Aqui se misturaram e pêlos no corpo, cabelos louros e ruivos, pele clara e narizes grandes.
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Que voltas deu o mundo que falando não nos entendemos.
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Na família à noite notg nui notte nuòch notti notte noche noite nit gnot noapte nit – nogte, diziam os avós – é tempo de cantar chantar chanter cantare chantar cantari cantà cantar cantar cantar cjantâ cânta cante – cantare, diziam os avós – e até ao alvorecer ficamos de pé pe pied piede pè peri pe pié pé péu pît picior piet – pedem, diziam os avós.
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Quase nos entendemos. Mas também fazemos amor.
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Dançar e beijar é o mesmo, em bailes diferentes tal as bocas – fazemos igual.
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Nem sempre azeite, porém pão e vinho.
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Esquece a cor e a voz, que viemos da Eva. Sabe-se lá como dizia ela, mas os avós contavam do mesmo sanguinem – e a language que fique na ostium.
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A Teoria de Eva ou de Eva Mitocondrial assenta no resultado de pesquisa de ADN Mitocondrial, que encontrou o mais recente antepassado comum. Uma vez que reporta a uma fêmea, foi-lhe atribuído simbolicamente o nome de Eva.
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Esta Eva não é o nosso antepassado mais antigo, apenas aquele que mais recentemente surge nos testes genéticos realizados em todo o mundo. Acresce que a variedade genética humana é menor do que quaisquer (ou a grande maioria) outras espécies animais.
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A razão por que tal acontece não é consensual, mas uma corrente defende que a humanidade esteve à beira da extinção, salvando-se um pequeno grupo de hominídeos. O número também é divergente, com cientistas a referirem não ter sido superior 10.000 indivíduos e não inferior a 1.000.
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A causa dessa extinção pode ter sido a erupção do supervulcão do Lago Toba, na Ilha de Sumatra, na actual Indonésia. Esse momento terá ocorrido entre há 70.000 e 80.000 anos. Os efeitos fizeram-se sentir em todo o planeta, reduzindo os alimentos disponíveis necessários à sobrevivência.
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O estudo do ADN Mitocondrial e achados arqueológicos colocam o aparecimento do Homo sapiens na região montanhosa de Kibish, no vale do Rio Omo, na actual Etiópia.
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O chamado Homem de Kibish é um Homo sapiens arcaico, uma subespécie. O Homo sapiens sapiens, o homem moderno, é o único hominídeo e única subespécie que vive actualmente.
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A Eva Mitocondrial terá vivido há 160.000 anos, segundo a pesquisa do Instituto Max Plank de Antrolologia Evolutiva (Max-Plank-Institut für Evolutionäre Anthropologie). A Universidade de Medicina de Stanford (Stanford University School of Medicine) calcula entre há 99.000 e 160.000 anos.
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A migração do Homo sapiens para fora de África poderá ter acontecido há 70.000 anos. O momento de chegada à Europa ocorre entre há 40.000 e 52.000 anos. Esta referência é relevante, pois marca o encontro com outro hominídeo, que desempenhou um papel relevante.
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Não existe consenso quanto à data do encontro entre o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis, até porque a área em que este último viveu também não colhe unanimidade. Alguns estudiosos situam há 35.000 anos. Porém, os neanderthais viveram seguramente no Próximo Oriente, à porta de África, e por isso cedo se terá dado o encontro.
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O Homo neanderthalensis viveu principalmente na Europa e num momento de climatologia bastante fria, mesmo glaciar. Este facto determinou que fosse mais robusto, mais hirsuto, com cabelo mais claro, com nariz grande e pele mais clara.
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Este hominídeo terá surgido há 350.000 anos e extinguiu-se há 27.000 anos. Várias teorias surgiram: dizimados pelo Homo sapiens, perda de fonte alimentar por via da concorrência com a outra espécie humana e as duas razões concertadas.
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Possivelmente verificaram-se essas duas situações, mas ainda o cruzamento entre as espécies. Teoria inicialmente rejeitada e hoje é dada como certa. A primeira prova consistiu no achamento do esqueleto duma criança, aparentando ter quatro anos, com características ósseas mistas e que viveu há 24.500 anos.
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Os detractores da teoria dos híbridos consideravam que se tratavam de anomalias genéticas. Esse primeiro achamento, em 1998, em Lapedo, perto de Leiria, seria depois confirmado por novos vestígios encontrados noutras localizações na Europa.
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O ADN dos caucasianos brancos – note-se que a Oriente, por exemplo na Índia, a população é caucasiana, embora de pele seja mais escura – apresenta variações genéticas face a populações não europeias. Alguns cientistas referem que o ADN neanderthal está presente entre os 4% e os 7%. Há quem especule que o ADN neanderthal pode ser totalmente reconstruído através do que existe nas populações actuais caucasianas.
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Homo sapiens sapiens, o homem moderno, significa que tem conhecimento, que é sábio. Estabelece-se que surgiu há 10.000 com os primeiros assentamentos sedentários e a prática da agricultura.
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A linguagem falada é extremamente antiga, comprovada nomeadamente pelos indicadores da formação óssea – não é exclusiva do Homo sapiens. Aqui importa apenas a relativa à nossa subespécie, que é muitíssimo variada, desde as línguas actuais às mortas.
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Há académicos que se têm debruçado na procura da raiz, da fala primordial dos hominídeos, portanto daquela donde derivam todos os idiomas. Nem certezas nem consensos, resultado das numerosas famílias linguísticas.
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Neste texto refiro o falar dos avós, ilustração do latim. A dos pais serão as derivações em que cabem diferentes línguas, como o galaico-português. Diria bisavós às que radicam na matriz indo-europeia. Seguindo sempre uma lógica metafórica com a genealogia.
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Não gosto de imagens que sejam ilustração e textos que sirvam de legenda – embora assumidamente crie situações em que tal ocorre. Assim, simbolicamente escolhi uma imagem de Adão e Eva, presente na Igreja de Adão e Eva, que terá sido construída entre 700 Depois de Cristo e 1000 Depois de Cristo. O templo situa-se em Wukro, na Etiópia.

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