quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Qualquer coisa que não sei dizer

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E de sua boca se projectou um peixe vivo como um demónio exorcizado.
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Fiquei a pensar no tempo e na escuridão, não no tempo da escuridão.
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A figura sombria do Diabo, tão carecido de misericórdia e compreensão – ou vice-versa.
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Depois pensei nas gárgulas e na luz das catedrais.
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Depois pensei no ferro e no carvão e no tempo:
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– Deu-lhe com sua espada sobre o elmo e o rasgou da cabeça até ao peito de modo que seus elmo e arnês era todo de sangue e miolos.
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Li. Li mais da filigrana ingénua, deliciosamente violenta, de brutalidade quotidiana e imponderada.
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As trevas vieram depois, quando as bombas e os gases. Ainda mais frias, com o botão e o manípulo de guiar a morte até um lugar.
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Foi o cinzento-azul do peixe sufocando e o vómito do pobre homem, pardo naquela luz sem recorte nem contraste, a penumbra dos deambulatórios nos dias finando-se – o que me despertou.
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E se fosse comigo? E se na vez de cuspir, engolisse o bicho?
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Meu Deus! Meu Deus! Alguém acenda uma luz, que me afogo nos medos.
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Qual será a cor da minha alma? Do laranja-fogo da loucura ao azul-veludo da taciturnidade ou do vermelho-falso do riso ao negro profundo e absoluto da imemória do sono.
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Aquele peixe voou sem asas como um demónio fugindo da cruz e das palavras – essas negras por imponderadas da ignorância e da falta da caridade.
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Pensei.
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Esse momento horroroso da surpresa sem lágrimas, um castigo qualquer.
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Não, o sono é mais negro quando não é fundo, pois lembro-me.
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Cansado, muito cansado. Faz-de-conta que não lembro de dormir bem.
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Faz-de-conta a cidade inexistente e ninguém.
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Não é diferente. Quem-me-dera-a-luz-da-fé ou a visão da angelitude ou o mosaico do vitral antes do frio e do anoitecer.
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No Paraíso haverá rios e camas para o sono.

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