quarta-feira, outubro 14, 2015

Na taberna dos aflitos, um sábio instantâneo escreve poesia

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Porque tenho de escrever algo de piroso. Talvez seja mau escritor, talvez apenas medíocre. Agora quero ser mesmo de palavra fácil, de balão soprado – não voa, mas rabeia no ar como uma bicha tresloucada. Alinhavar uma coisinha – coisinha, alinhavo – vazia, de cor berrante duma fancaria de plástico e inutilidade. Posso não ter talento e alguma ilusão e agora esforço-me para um aforismo gravado a esferográfica na madeira da porta da casa-de-banho duma taberna, sem essa humildade, próxima da estação de Santa Apolónia ou de Campanhã, onde o café custa os mesmos sessenta cêntimos da regra e que mais custa tragar, por rasca, queimado e mal tirado, acomodado no odor dos fritos agarrados aos azulejos disfarçando imundice com cores e baixo-relevos com formas infernais – ao olhar de quem um dia comeu, nem que fosse numa só ocasião, com talheres de christofle –, porque o exaustor é dormente e o óleo fica para que dele não se venham a sentir saudades. Um lugar-comum de filosofia arguta de pensador esporádico, filósofo inspirado pela iliteracia que tanto disserta macroeconomia, geoestratégia, engenharia civil, honradez compatível com chico-espertice, sabedura da universalidade da desonestidade dos políticos e teorias da conspiração enquanto conduz um táxi. Antes de banalizar a escrita, mesmo quando inspirado, há o lamento dos lingrinhas desdentados e dos obesos, de gula morta à paulada com batatas fritas de pacote, pastelaria artificial e chocolates de cacau imitado; todos são uma colecção dos «E» qualquer coisa, que os ingestíveis trazem pintados nos plásticos, para disfarçar impensáveis deglutíveis, assustando incrédulos preguiçosos, certos de que causam cancro ou perda de líbido ou queda do órgão sexual. Sem este lamento, toda a mediocridade é medíocre.
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Proclamo o aforismo:
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– Se não há dinheiro, não há palhaços! Se não há dor, não há poema!
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Já está! Só falta puxar o autoclismo.
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Nota: Detesto palhaços. Este quadro...

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