sábado, julho 04, 2015

Zona de exclusão aérea

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Depois de mim a paz e a guerra, como antes de mim, como depois de mim. Pago a irrelevância por ser indiferente. Os meus dias são normais, tão banais pelo que absurdos.
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Houve o tempo do drama, amores e desamores, consequências e coincidências – argumento para telenovelas venezuelanas. Os dias eram absurdos.
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Agorafobia enclausurado. Claustrofobia no mundo. Nem ruas cheias nem casas vazias nem inversos.
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Não sirvo para isto e só disto tenho. Como procurar a paz se não conheço. Basta-me uma floresta para me perderem ou um ribeiro afluente do mar, cortando o mundo em veredas de muros de arbustos e árvores.
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Komorebi dá alegria desde que não se oiça além da floresta infinita… e permita pelo menos waldeinsamkeit, nem que por conforto de ilusão. Podia.
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Podia ser um jardim nas traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fechassem para azinhagas esquecidas e desautomobilizadas. A luz só no pino e a meio, em redor sombras magníficas.
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Num canto um pomar só de limoeiros e laranjeiras-da-baía. Os figos chamam moscas e as macieiras dão fruta aborrecida. Talvez uma romanzeira, duas para terem companhia.
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O jardim não seria secreto. Seria invisível. Os ciprestes dão pouca sombra, mas tapam muito. Que outras árvores? Oliveiras centenárias, azinheiras tortas e sobreiros cabeçudos.
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A que distância dos ciprestes se podem plantar estás árvores? Talvez heras ou videiras se não estrangularem troncos e cones.
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Assaltado por inquietação, pergunto:
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– E a mãe?!
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 Não seria mais fácil sem mãe? Nem morta nem perdida. Sem mãe e o seu colo.
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A mãe não traz a paz ao mundo. Talvez não traga a guerra. Não a evita.
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Sem colo não há saudades. Neste jardim grande das traseiras não há a mãe. É uma dimensão sem mãe.
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A mãe dói. Os dias fazem-na doer e um dia. No jardim das traseiras não há mãe, e não é uma quinta dimensão onde é a quinta-essência. Só a mãe não é. Nem pai.
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O mundo é guardado lá fora, depois dos ciprestes e dos muros altos, muralhas nas azinhagas esquecidas. Só voando se sai e não voo. Nem voando se entra.
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Há gatos, mas não palmeiras. As palmeiras são ervas estranhas. Os gatos podem ser estranhos.
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No jardim há poço? Não há a árvore-espelho, subindo-se de tronco os anos e ramificando tristezas, saudades, lugares sem destino. Nem tampouco alegria, que é como figo chamando as moscas.
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Árvores dessas não se abatem. Não é a do Conhecimento do Bem e do Mal. Só de sombra e poleiro para aves.
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Não é árvore do esquecimento. Para isso tenho o jardim:
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– Se não me esqueço ou não esquecem, ao menos não me encontram.
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Nem se alimenta do ridículo. Para isso tenho o jardim:
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– Se não me esqueço ou não esquecem, ao menos não me encontram.
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Queria ter valor ou se o tendo mo vissem e mo vissem por mim dissessem aos outros que quisessem.
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O jardim nas traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fecham para azinhagas esquecidas. Sombras magníficas.
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Queria ser bom, e sigo no caminho do parvo. Perdido, em círculos, teimoso na vontade e chegada.
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Ridículo! Nenhuma mãe merece ver o filho em tal tristeza. No jardim a mãe não é.
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Dor de corno por saber que não se tem valor, doutra forma alguém. Mais corno se tendo valor e ninguém.
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Ridículo! Nenhuma mãe merece ver o filho em tal tristeza. Pior sabendo que aqueles e nada. No jardim a mãe não é.
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Nenhum filho merece ver a mãe a vê-lo em tal tristeza.
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Agora a mãe não é e amizades não são. Tenho o jardim das traseiras.
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O jardim das traseiras é melhor do que o suicídio. Não precisa despedida nem lágrima nem conversa. No jardim fica-se e o esquecimento floresce nos lugares todos do mundo. Se alguma memória vier, depressa se irá no pensamento:
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– O que será feito?! A ver se lhe ligo.
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Ligará? Não ligará? O telefone não existe e não há campa nem urna para as cinzas. Sem morte não há fantasma. Esquecido fica esquecido, não se fala mais nisso.
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Não preciso que leiam a mão direita. Não preciso que me leiam a mão esquerda. Qualquer adivinhação é certeira e falha. Dizem as estrelas:
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– Sol e Lua em Capricórnio, ascendente em Capricórnio e Saturno na Casa Três. O Sol na Casa Um, em conjugação com o ascendente. A Lua na Casa Um, tal como Vénus, que se conjuga com o ascendente. Saturno na Casa Três.
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Mas há treze signos e têm vidas de tamanhos diferentes e todos se vêem num planisfério inexistente… gosto tanto!
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Assim se explicam os dias absurdos. À noite amena de lua-nova, os brilhares são os vizinhos da frente. Por nada me mudaria.
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No céu não acontecem Komorebi.
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Nem há palavra waldeinsamkeit que troque árvores por estrelas.
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Diferentemente do jardim das traseiras, em que muros altos e paliçadas compactas de ciprestes fecham para azinhagas esquecidas. Sombras magníficas.
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Dele não se voa nem para ele se chega voando. Zona de exclusão aérea.

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