quinta-feira, abril 02, 2015

Manoel de Olveira - 1908 a 2005

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A morte não redime ninguém, a extrema-unção é usurpação de poder e o dom da graça na morte seria uma hipocrisia de Deus – é o que penso, pela polémica que possa causar digo que lamento se ofendo. Todavia, é de mau gosto explorar os defeitos de quem não está na carne para se poder defender de viva voz, ofendendo familiares e amigos.
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Quando o meu pai desencarnou mandei rezar missa de corpo presente… paguei por um serviço. Será que a falta dos euros desembolsados impediria um pároco de orar pelo defunto? Responderá quem souber. A Igreja Católica Apostólica Romana é enorme e nela cabe todo o tipo de gente, de sacerdotes a devotos.
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Paguei a missa por respeito aos familiares e amigos do meu pai – e meus – que seguem o rito romano. A minha noção de Cristo e de Deus é incompatível com esse, e outros, cerimonial.
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Gostei da homilia. Um padre idoso e simpático – julgo que italiano, pela forma de pronunciar as palavras, e com o português muitíssimo bem articulado. Não despejou palavras, de livro ou de sua lavra. Disse pensando e senti-o sentindo compreensão pela dor daqueles que ali estavam por meu pai.
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No final fui agradecer-lhe. Fui sincero assumindo-me como alguém que tenta ser cristão e que não segue o Papa. Sorriu-me iluminado, deixando-me a vontade de lhe dar um abraço. Disse-lhe:
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– Gostei muito da homilia. Sabe porquê? Porque não tornou o meu pai num santo.
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Sorriu-me abraçando-me com o olhar. Não expliquei mais, ele percebeu – pressenti-o – e tinha de ir dar apoio a uma outra família. Tantas vezes o morto é um poço de virtudes e alegria da família nas palavras dos curas, quase tantas quanto não são verdadeiras.
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Este prelado disse, com a sinceridade tranquila da boa-gente, que o meu pai teria muitos defeitos, falhara às vezes, teria tido problemas talvez tivesse adversários. Mas também amigos, amou familiares, gestos nobres e alegrias.
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Este padre encheu a capela de humanidade e deu-me alegria, coisa improvável num funeral. Uma alegria não alegre, mas de harmonia. Nunca tendo visto o meu pai, falou dele como se o conhecesse… porque falou do homem. Do homem comum e da vida.
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Escrevo este texto não por causa do meu pai, mas para sublinhar uma afirmação do amigo André Serpa Soares. Disse – concordo – que muitos são os que agora choram as partidas de Herberto Hélder e de Manoel de Oliveira, mas nunca leram um poema ou viram um filme destes dois criativos.
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É mais fácil dizer gosto ou não gosto quando se conhece – ainda que não entendendo a obra no todo ou em parte. Herberto Hélder passa mais entre a chuva, mas do centenário cineasta tanto se disse, e muito mal se disse. Sei – porque sei, como o André sabe – que são mais os apedrejadores e as carpideiras do que quem assistiu a filmes seus.
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Não é por a morte ter chegado a Manoel de Oliveira que se torna no maior vulto do cinema português – o que obviamente é discutível. Uma obra tão vasta e uma carreira tão longa têm espaço para tudo.
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Não vi toda a sua obra, mas vi quase toda. Contando confiado na Wikipédia, foram 32 longas-metragens, 16 curtas-metragens e nove documentários. Só pelos números e pela idade, Manoel de Oliveira merece um nome de praça.
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Para quem não viu e gosta de dizer coisas, deixo a minha impressão, brevíssima… dos deploráveis e risíveis «Canibais» ou «Non, ou a vã glória de mandar», aos belíssimos «Vale Abraão», «A caixa» ou «Aniki-bobó».
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Foi e é um homem como todos. Da casta dos criadores. Quem nunca viu, que veja, para que compreenda… e veja do bom até ao invisível.
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Nota: Dedico este texto ao André Serpa Soares que – sem lho ter pedido e sem ele saber – me deu o mote.

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