sábado, janeiro 31, 2015

Uma noite mais pequena que o seu sonho

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Entre casas onde não vivi ou conheci, que comprei e vendi, arrendei e me enganaram e que me desfiz, de vizinhanças tristes e más de inveja e recalcamento, vivi uma noite, esta noite que passou. Casas que a vizinhança me apoquentou levando-me áreas.
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O grande jardim afinal não era meu. Foi simpática a vizinha que me deixou usar a piscina tapada até meio e protegida por vegetação viçosa, de esconderijo. Pois ainda assim me sobravam divisões e usava-as só para que não mas roubassem.
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Já bastavam as várias portas para as zonas comuns, cujas chaves tinha e mais gente também. Em casa entravam e saiam e eu vivendo devassado. Portas para um átrio pequeno de prédio modesto. Portas para um átrio tão grande como o dum hotel.
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Era um hotel e embora quandrangular se podia percorrer como se fosse um círculo, enorme, era um museu militar, um museu de reis, um museu com mausoléus de santos, de pedra fria, e um padre começou a dizer missa. Doutra seita, vi-me aflito desfeito sem pouso nessa fé e entre os meus, numa sala duma casinha perto, vivia-se uma estranheza que não reconhecia, com rituais e superstições.
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À noite fui… Havia um jardim escuro como um cemitério nocturno. Nele, uma casinha, como aparentando ser porta para metropolitano, um paralelepípedo, bem fechada e com a escuridão que se sabe fechar a luz, deduzindo por ter vidro martelado e gradeamento de ferro.
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Eu e mais alguém desejava entrar. Esperei e vi-os, os eleitos, chegar e consegui entrar numa nesga de sorte e magia inexplicável. Um mundo subterrâneo sem medos, e havia luz, como aquela amarela que ilumina as oficinas silenciosas pelo pouco trabalho.
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Eles podiam ser escurecidos à volta dos olhos e das bocas, com pinturas esborratadas, de negro e falso branco, porém simpáticos. Sem medo e findo o mistério de lá saí e sem certeza de voltar, na certeza que voltaria.
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Por essas alturas viajava por uma terra que do campo se abeirava da cidade. Podia ir, como tantas vezes, subindo num furgão desconfortável e medonho ou num dos funiculares, de vária ordem de feitio e juventude, outras vezes parecendo os trams de Lisboa. Ora encravavam ou descarrilavam ou faziam tudo bem.
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Nesses tempo viajei com frequência para as Américas. Se ia em trabalho, conseguia voo para outro lado, outra cidade, outro país, que escolhera sem saber, onde desembarcava e quase me perdia, para ver alguém, só por ir ou por ter de ir sem saber por que razão. Pelas Américas, várias vezes e sempre os mesmos desvios. Sempre na Continental Airlines, de dentro conseguia ver o avião por fora.
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O balcão de check-in parecia a bilheteira dum grande cinema e era alfândega e tudo jóia. Ficava num centro comercial imenso de que escreverei mais. Se me perdesse, se quase perdesse o avião, tinha esse colosso de lojas e desejos inventados.
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Uma vez cheguei e era muito cedo e por isso o centro comercial era pequenino e fechado. Tinha um minimercado com um MacDonalds dentro e podia-se aviar doutras coisas. Era labiríntico, havendo uma loja com livros raros, livros do Tintim, recantos em corredores com artesãos de incenso aceso e jóias verdadeiras de materiais não nobres e ainda galerias de arte.
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Sei que em casa dos meus pais pintei muito e em muito grande, traços soltíssimos soltos e desentendidos. Usei o facto consumado de os enviar, sem remetente, para a Gulbenkian. Que os apreciassem e deles fizessem o que quisessem. Não sei os que lhes aconteceu, mas o mestre Júlio Pomar gostara do que vira e ainda desconheço como.
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Entrava depois do check-in e o avião, uma vez, tinha um piloto apressado, fugindo ao engarrafamento do taxiway circundou o aeroporto, usou auto-estrada, ruas, ruelas e azinhagas e colocou-se à frente na bicha para a descolagem.
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Assim andei rumo à América, nunca ficando no destino, sempre fugindo num pretexto para outra cidade onde não me desviava da avenida central. Ia sempre pela Continental Airlines.
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Andei pela Europa, que fica logo a seguir às montanhas que fecham o país. Ali, no caminho, é escuro, faz-se vinho e dei em doido para o reencontrar, tantas e tantas vezes, quem gerava «aquele» que tanto gostava e deduzia quem era e era simpático.
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Passadas as montanhas subi um rio adentro pela Alemanha, poucas vezes de barco e mais de comboio, depois do avião. Via amigos, mas noutra cidade, talvez na Holanda. Havia prédios altos magnânimes, colossais, não era Paris não era sítio que exista ou talvez fosse. Perdi-me sempre e ainda pouco me afastando da avenida que sabia ser o eixo do caminho e da ordem.
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Por ela andei e sabia que lá do alto, descendo por aquele caminho, o mais fácil e bonito, era sempre assaltado por miúdos, danados, ferozes, inteligentes e impiedosos, protegidos por irmãos maiores, caso fossem vencidos. Nas portas de muitas tascas, mesas, cadeiras e velhos bebendo vinho e desligados do meu dramas, dos dramas de quem passava, era as suas realidade.
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Aí não sabia se era estrangeiro ou estava na minha cidade.
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Já cá em baixo e sempre de noite, a praça larga do Rossio, sua estação e a Praça da Figueira. Indo em direcção ao Tejo, tudo em terra e lama dum cataclismo. No rio os barcos, muitos e grandes. Num deles embarquei e viajei rio acima e abaixo, vendo naufrágios e também caindo desgraçadamente na água.
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Havia naufrágios junto a Santa Apolónia. Do ninho da água, a casa dos pais, via-os naufragar, senti a água de ondas colossais, vi a margem esquerda chegar-se e terra com prédios e vida subir e descer como se fosse natural e maravilha de se ver. No Tejo surgiu um castelo e desapareceu e navios continuavam a afundar-se
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Fora daí mostrava Lisboa e as praças e sabia os atalhos e que devia contornar o morro das crianças ladras, evitar as ruas desconhecidas onde havia a droga e a miséria de zumbis e dormentes. Admirava-me por desconhecimentos meus, tão perto da vida e escondida e passava tantas vezes naquela Avenida Almirante Reis e que era em situação diversa na geografia e morfologia da cidade.
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Desconhecendo a cidade conhecida e mostrava e certo dos caminhos certos, dos atalhos e dos perigoso deslumbrei-me com a longura das muralhas do castelo, decadente e orlado por casas pobres e vazias, bairros de alcoolismo e transgressão.
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As igrejas estavam meio tombadas por causa dum sismo e um político numa varanda arengava sem que as massas se importassem. Estavam ali por causa das vistas e recantos bonitos e que eu conhecia e desconhecia mas queria mostrar.
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Os meus visitados sabiam mais do que eu acerca de muitos dos lugares por onde os levava, dos cafés com vistas, tirados em puxadas às ruas movimentadas como verdadeiros formigueiros, locais antigos feitos novos por esse cataclismo ocorrido certamente enquanto dormia algures nesse dia que era sempre o mesmo.
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Lembro-me que passava um tram por uma rua fechada por tecto e feita de barbearias e que eu e o meu amigo S uma vez cortáramos uma vez o cabelo e tomáramos um chá e que daí seguimos num giro de tram, uma coisa mágica, alucinada e irrepetível. Mais tarde voltei e insisti em cortar o pelo em todas as casas e ainda que me servissem uma bebida simpática não voltei a essa maratona mágica e nocturna que percorri de tram e por ruas sem carris, uma outra dimensão.
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Desiludido e pelo caos fui a um hospital onde já fora doente, lá estivera a mãe, o pai, uma tia, um tio e parentes desconhecidos. Mulheres enjoavam e aquele abrigo não tinha sítio certo, um caos organizado e que desentendia. Ora estava lá eu ou a mãe ou o pai ou ninguém. O pai morrera e arrependera-se e voltara e uma tia a mesma coisa. Sei perceber porquê desejava-os no outro lado.
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Confundia os caminhos daquele hospital, vagueei por corredores asseados e velhos. Num salto quântico – e não sei o que quero dizer com isto – fui apanhado sem perceber com uma arma de fogo e vi-me no caos de Kafka, com perguntas e incertezas, pátios de prisões em luscofusco, logo me livrei, fazendo os amigos possíveis de fazer com polícias.
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Ainda perdido no hospital e sempre noite, perguntei por gente que não me lembro. Lá dentro, o palácio, museu e mausoléu, uma escadaria enorme até a um teatro, como o da escola primária. Representava-se ópera e saia-se e entrava-se. Junto à bilheteira representava-se modernidade inatingível, não entendi e fui vagamente participante.
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Fugindo fui por bastidores de tecto distante e longos no comprido como uma feira industrial, onde se oficiavam muitos ofícios e solidão. Cheguei a um espaço muito grande e industrial, quase esquecido violando proibições de passagem, sendo visto e ignorado. Fora uma fábrica e era vagamente qualquer coisa, havia uma pedreira escavada fundamente e aparentemente sagrada por alguma razão. Desci e subi para a praça industrial e de carris e gigantes mecânicos. Qualquer coisa secreta haveria e jornalistas procurámos saber e furando uma proibição não proferida chegámos a uma nave inespecial por onde passavam seres maquilhados de branco e negro esborratados e nos ignoravam. Não se passava nada e tudo se passava e intimamente sabia que dali haveria de haver passagem escondida para a casa grande que fora da família e que o avô com síndrome de Peter Pan tornaram num labirinto de atalhos e segredos.
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Sabia intimamente e do terraço dessa casa ancestral via-se o Tejo. Por isso e levado em inconsciência ou deslembrança fiquei junto ao rio largoe despojos do cataclismo. Nas ruínas, o espaço da antiga empresa de televisão onde fora feliz. Dali escorraçado como o seu proprietário que tentava com os despojos reerguer a obra usurpada e destruída. Aí nós todos em facções e querendo apenas trabalhar.
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Saí de noite, sempre de noite, desse pátio ribeirinho e sem vista por murado. Fui pela lama e tentei apanhar um táxi e folguei por já conseguir erguer-me e andar um pouco mais desde a última vez, há muito tempo nos sonhos, em que rastejava e pouco conseguia manter-me nas pernas, levantar-me e caminhar.
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Não sei quantos táxis apanhei e nenhum motorista sabia levar-me onde queria. Um perdeu-se e a medo me apeei junto a um bairro velho de ruas de drogados zumbis. Se conseguisse escapar dali… sabia que se subisse para depois descer apanhando caminho conhecido seria novamente atacado pelas crianças ladras.
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Encontrei amigos desconhecedores de Lisboa e que sabendo sabia desconhecer e ainda assim a mostrava. Contava-lhes dos lugares secretos, das passagens negras, dos atalhos por dentro de casas de gente modesta, saltando cancelas, pisgando por tubos à moda das ratazanas até à casa enorme dos meus antepassados, toda com recantos, atalhos improváveis, da subcave ao terraço, das paredes giratórias e buracos estreitos por onde incrivelmente conseguia passar.
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Nesses caminhos havia um pátio de casas velhas e oficina em prédios despelados. Tivera a chave duma oficina partilhada com a amiga I. Ainda tinha e mostrava-a. À saída e virando à direita estava o café que foi meu com o amigo C, mas era noutro o local e ainda o mesmo, este maior, fundo, profundo e servido por desconhecidos. Às vezes ele estava mas quase nunca.
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Não ia há tanto tempo que desconfortei e desejei a minha casa devassada pela vizinhança e a piscina em que me deixavam banhar-me. E lá cheguei sem saber e vi o que além estava: campos largos de lama e ervas, o território do meu liceu, onde agora havia cavalos, que montei às escondidas sem ser visto umas tantas vezes nessa vez.
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Apeei-me e voltei à cidade, subindo e descendo a avenida em que supostamente trabalhava, à procura dum grande amor morrido ou de alguém incerto e predestinado. Fazia-o do topo à baixa e nem mesmo os corsos de Carnaval ou a multidão indiferente me desviavam da certeza do querer, coisa nenhuma.
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Sem trabalho e insistentemente acalentava esperanças duma empresa produtora de televisão e de burocracias entediantes, situada já fora da cidade num espaço chique. Lá tinha trabalhado e conseguira voltar e para fazer diferente mas daí a poucos meses saíra e sem saber por que me quisera vir embora.
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Sem trabalho, mas com uma decisão. Haveria de conseguir pela persistência na presença, pelo facto consumado, beneficiando da manifesta falta de mão-de-obra. Sentei-me à secretário do jornal onde comecei a ser jornalista. Por um sortilégio, o periódico voltara à origem e aí comecei a bater notícias à máquina-de-escrever, e não me interessavam nem o trabalho.
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Fiz isso nesse e noutros sítios e em todos me fui sentando pedindo trabalho, que não conseguia que faltava e inventava desculpas. Tinha trabalho e não sabia como o manter. Estava incapaz e assim continuei no medo de ser descoberto pelo que decidi ser repórter especial sem obrigação de apresentar obra.
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Desconhecia onde estava empregado. Sabia que era um jornal, mas mudara. Para onde? Na mesma avenida, mais acima ou do outro lado? Sei que entrei num e dele passei para o outro por corredores estreitos.
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Recebia insistentes telefonemas para um encontro com uma fonte, um empresário importante, que tinha para me dizer qualquer coisa de relevante. Ignorava-o, esquecia-o, negligenciava-o, omitia-me e acabei por ir ter com ele. E esqueci-me e voltei a ir e a esquecer-me e a ir e a esquecer-me até que percebi a importância do contacto e não era nada que importasse.
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Percebi isso na última vez que lá fui e única que importa. O escritório ficava na avenida principal da cidade. O elevador dava acesso ao átrio do hotel, onde estavam portas da minha casa. O elevador deixava a realidade vertical e em queda abissal transformava-se em comboio sem paragens cruzando o campo até à vila donde chegavam e partiam funiculares.
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Consegui regressar ao edifício e subi e desci escadas de serviço sem saber se ali trabalhava ou pertencia. Estava a empresa donde desaparecera. Uns fumavam fora da autorização e numas escadas mais secretas cheguei ao pátio do palácio que era museu e ainda igreja com o grande túmulo de calcário esculpido à moda do século catorze e onde jaziam os ossos dum santo. Depois de descer subi atrapalhado.
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Era ali afinal a tal empresa que por vezes parecia outra ou era mesmo outra e onde havia muitas profissões para desempenhar. Tinha trabalhado ali naquele subúrbio chique, com um hotel chique onde almoçava chique. Era longe e ia e vinha de carro. Aí havia um museu e teatro. Enorme e de arquitectura brutalista como a Gulbenkian. Como um tarado voyeurista quis espreitar e no afã calcando a relva e ignorando que chovera. Excitado como um pré-adolescente a ver revistas de mulheres nuas avancei e cai num lameiro, estava de fato, um bonito fato cinzento claro, da gravata não me lembro. Triste como um gato enxarcado.
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Daí fui à procura do tal produtor do tal vinho e não o encontrava. Sei que parei e estacionei para ir a uma discoteca da moda e já fora de moda tentava ser exclusiva e por isso abria portas para um espaço abaixo e depois fechava para todos irem para cima. Havia amigos e não me senti pertença de ninguém, prometendo regressos que só aconteceram por acaso.
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Saí farto e não encontrei o carro. Rebocaram-mo e fui buscá-lo à área de serviço que ficava no centro comercial e aeroporto, museu, palácio e mausoléu. No hotel estava o átrio e suas portas para a minha casa em que tanta a gente tinha a chave, tanta e desconhecida e eu sem saber quanta.
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Procurando o abrigo, entrei enganado em vários quartos estranhos e uma mulher com quem devia ter dormido alguma vez na vida me encontrou. Nada me disse além de desinteressantes circunstancialidades.
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Sabia que passara muito tempo sozinho e estava com amnésia sentimental ou física. Tinha nomes na cabeça a que não conseguia atribuir um rosto e rostos sem nome e sem certezas se eram amantes ou pretendentes ou vagamente alguma coisa ou só sonho ou fantasmas. E quem? A agenda do telefone não me ajudava e sabia de ter estado prometendo amores a várias e em vezes simultâneas. Sem saber se acreditaram e deveria ter vergonha ou se eram levianas como eu. Sem saber se tinha um compromisso apalavrado e a quase certeza que sim e muitas.
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Enfim, haveria de casar e sabia-o e sem saber com quem. A data estava marcada e reservei pernoita num albergue holandês que conhecera há muitos anos e sempre detestara, por todos dormirem ao lado uns dos outros. Dessa vez pernoitei num quarto próprio, desconhecia tal existência. Era lá que deveria passar a noite de núpcias e seguintes mesmo sem saber se com a noiva teria quarto ou partilha de camarata, que podia em última análise formar-se num enorme arrumo de colchões e confusões de mantas, almofadas e agasalhos em que cada um fazia por si e ninguém se levava a parvo. Tudo dependia do humor duma gorda e balofa patroa com ar de ter sido madama de tias.
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Isso passou e com amigos procurei comprar casa e essa era uma camarata estreita, com beliches de quatro pisos. Sem odor era igual a um hospital da Primeira Guerra Mundial e seus frios azulejos brancos. Ficava numa cidade noutro país que tinha um rio, suas esplanadas e poliglotas e vigaristas.
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Não comprámos porque quem nos venderia não compareceu. Em seu lugar chegou o proprietário, quem jamais a alienaria e desagradavelmente nos expulsou. Voltei ao albergue onde deveria estar com quem deveria ser a minha mulher e que amava.
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Por essa cidade, uma avenida enorme, onde o sistema de metro é complexo e onde me perdi em corredores, portas giratórias, direcções das carruagens, contradições, enchentes e vacantes, passageiros simpáticos e outros alemães e eu sem bilhete sabia ter direito à primeira classe porque comprara e o revisor acreditou em mim. Esse metro fazia-se comboio e chegava ao cimo do vilarejo onde desembocavam os funiculares e que noutras vezes chegara no furgão deprimente.
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De comboio voltei passando para cá das montanhas e de carro viajando repetidamente Lisboa e o Alentejo, enganando-me sempre nas entradas e saídas das estradas, perdendo-me subúrbios e terriolas com sinais de trânsito equívocos. Cheguei a um lugar proibido onde a droga e a miséria significavam raça. Grandes complexos de apartamentos sociais e cimento mal tingido de branco, sujo com gatafunhos de spray por adolescentes de calças a caírem pelo cu e horríveis bonés postos com as palas para trás. Não tive medo.
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Fui para o Algarve. O Algarve é uma terra duma só cidade contínua de praia como fronteira. O mar e cidade ou o mar e falésias altas ou a linha do comboio a separar o areal da calçada. Perdido procurando alguém, repetidamente e teimoso, nessa faixa tão comprida de quilómetros, passando de cá para lá na linha, partindo e chegando em comboios incaracterísticos.
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Havia locais com muita gente e crianças a comerem gelados e adultos a existirem em esplanadas, pessoas a atrapalharem outras e pedófilos caçando os miúdos com os sorvetes na mão e deliciados mais frágeis e desprotegidos. Preocupei-me com o filho que não tenho – e tenho – e que brincava num parque infantil, felizmente numa realidade paralela.
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No Algarve houveram ondas tão grandes que subiram acima das falésias molhando de sal. Não era tsunami porque proibi a palavra, nem maremoto porque não. Eram ondas gigantes sem nome. Depois soube que o povo gostara e tratara de criar dentro de portas uma piscina que fabricava ondas gigantes para deleite mas sem perigo, um ócio estúpido como habitualmente acontece nos subúrbios e na província modernaça.
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Dei por mim a surfar agarrado a uma tábua. Tinha jeito, mas saí do tanque e estava no ginásio, donde quis fugir desde a primeira vez que lá entrei. Estava diferente, agora havia uma piscina normal e cheia de chapinhadores e os que nadavam com zelo faziam-no numa banheira de doze metros e meio de comprimento. Havia um cubo de vidro alto e largo, uma piscina bonita de tentação para saltos fundos mas de porta fechada para quase todos.
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Perdi-me nos vastos balneários e ignorando onde eram os dos homens e os das mulheres e os de partilha. Tinha sede e as torneiras abertas para os homens beber estavam no lado das mulheres e o seu oposto. Tinha-se de estar nu para beber e nu fui ao lado saciar-me. Depois ajudei uma moça a matar a sede no lado errado pelas normas do sítio e circunstância. Sem pecado como no lado de baixo do Equador.
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Do ginásio saí e dei por mim no enorme centro comercial que era hotel, museu, palácio, igreja e casa. Saí e fui até à Madredeus, mas não era, de tram madrugador iluminado tristemente a amarelo. De lá custei a voltar e tinha ido à procura de alguém para um favor e que era vagamente ladrão, era um sítio de ladrões. E fui daí à outra ponta da cidade onde ao regressar apanhei táxis cujos motoristas desconheciam caminhos, um dos carros era um Rolls Royce.
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Nesse momento percebi por que me agitava tanto. Tinha assassinado um amor e enterrado o corpo sob uma rua da cidade feita em esquadria romana. Falava com os familiares tristes e enlutados e escondia a autoria do pesar. Sempre em medo, desde então, indo e retornando ao sítio do homicídio e sepulcro.
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À noite, fazia essa procissão de noite como um vampiro. Cansado de esconder-me e incapaz de ficar vi-me novamente no Algarve. Por desentendimento lógico estava no Algarve. Repousando afastei-me do centro dessa cidade una onde, sinal de modernidade, passava um comboio metropolitano que irracionalmente contornava o centro e parava onde houvesse gente para entrar ou sair percorrendo carris encaixilhados em areia acastanhada e certamente salgada. Apeado segui a linha e juntei-me a malta. Fui ao banho num rio sabendo que deveria manter-me seco.
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Uns metros adiante estava um cubo, um edifício em art deco que por dentro se aparenta com uma estação ferroviária. Sem que um comboio possa correr na água apanhei transporte e cheguei ao restaurante chique e se situava no prolongamento da nave gigantesca e industrial por onde fugira à participação na performance artística de vanguarda, através dos longos e aborrecidamente escurecidos bastidores do teatro. Nesse restaurante havia delicadezas e confusão de gentes e baralhações com a comida, bebidas e serventes, entre eles algumas freiras. Reclamações, pedidos de desculpa, juras de nunca mais e certezas de regresso.
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Estava aí porque ia haver uma prova de vinhos e sei que estava e não estava, que havia copos errados e muito maus para uso e numa ânsia frenética procurei o tal vinho, do produtor simpático, cuja quinta se situava nas montanhas num caminho para um país estrangeiro, mas que descendo por uma estrada podia ir-se à vila dos funiculares ou por desvio aparecer no Alentejo. Havia vinhos raros, secretos e falsos e era uma pândega que me desagradava por falta de respeito para com a bebida.
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Estava aí e não estava onde era suposto esse sítio ficar. Tinha de voltar e voltei a Lisboa. Desci e voltei a subir o país demandando aquele vinho que tanto gostara. Simpáticas as gentes, acolhendo-me em casa e nada do tal vinho. Daí das montanhas desci ao Alentejo e havia qualquer coisa com as árvores mas não me lembro. Cheguei à propriedade dos primos e à casa grande. Embora juntos no sítio, desencontrando-me com a família a maior parte do tempo. Entardecia e falava-lhes em plantarem no jardim uma videira para latada, mas não queriam porque o Alentejo não é o Minho ainda que a sombra fosse fresca – diziam que as uvas chamariam moscas e mosquitos – verdade.
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Tinha de voltar a Lisboa. Tinha de voltar. Mas onde estavam as minhas gatas? Por que razão estariam no Alentejo e como lá chegaram? Uma dor tão grande de não saber. A Paraquedas sei que está em casa, em Lisboa, porque não saiu ou porque regressou sozinha. Disseram-me que a Granita e a Lioz estavam doentes e podiam morrer ou podiam ter já entregado a alma ao Criador e que as esquecesse e outros falavam em gataria imensa em que nenhuma se distinguia devido a muitas sósias – só gatas. Doente e enjoado de pânico pensei em novas gatas, mas acreditando que perdidas e mesmo doentes a mim voltariam, com as fé e certeza das mães assustadas.
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E se nessa multidão as não as reconhecesse? E se não me quisessem reconhecer? A Granita vem ao chamamento e passou agora uma gata preta grande como um gatão e não podia. Chamei-a e não veio, mas à primeira vez que se aproximou tive-a nas mãos e docilmente deixou que a virasse de papo para cima, privilégio raro que me permitem, e nele topei as manchas brancas sob o pescoço, no peito e na barriga. A Granita!
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Mas e a Lioz? Como a reconhecer se não vem ao nome ou vem quando lhe apetece e é tímida e está camuflada numa ninhada de tantas siamesas. Tal como no princípio, quando não a escolhi e ficou por ser a que sobrava – o que me atormenta o afecto e a culpa. Tão bebé e ainda mais frágil temi que morresse por inanição e saudade do conforto materno. Alimentei-a à força e resgatei-a e inadvertidamente aleijei-a várias vezes – que dor que com ternura me perdoou.
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Reencontrei-a e distingui-a por um sinal no focinho, uma marca que não tem. Coração de mãe, o meu. O coração bateu de certeza ao mergulhar os meus olhos nos seus azuis muito grandes, abertos e espantados. Calor sem suor.
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Prontos para a viagem. Juntos numa carroça cheia de panos, mantas e trapos, cestos e comidas virgens e cheirosas, eu, a Granita e a Lioz – tiradas tão cedo da mãe que nem sei como me perdoaram – numa caixa de cartão larga e tampa furada como se faz para arejar o habitat falso dos bichos da seda. Teimava a família fechasse com outra tampa, mais comprida e estreita. E se fugissem? Infantilmente acreditei que um gato se manteria enclausurado numa caixa de cartão fino sem trinco.
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Chegados se soltaram nas escadas do prédio dos meus pais. Fugiram em direcção a um lugar que o meu íntimo sabia do regresso e em paz.
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Assustado lembrando o pavor pretérito e imaginando outros gatos e outros animais que se adoptariam e morrendo e surgindo e morrendo e surgindo e deixando-me órfão. Sustos que não seriam verdade.
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No regresso ao prédio da infância subi as escadas à frente do J, tão amigo da família, e da mana, que levava muito avanço. L subia as escadas e vinham os seus três novos filhos, ela que deu à luz quatro e um partiu aos dezasseis e estes eram novidade. Filhos? São dois os netos e o outro? A L ia adiante com dois e eu carregava o mais novo.
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O J estava atrás, no lanço anterior ao meu. Falou-me e virei-me. Parei e o bebé soltou-se, esgueirando-se entre os ferros de suporte do corrimão. Das minhas mãos soltou-se macio.
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No preciso instante Deus apagou toda a luz, um longo e breve breu sepulcral. Tentei segurar-lhe e dos três dedos – polegar, indicador e médio – senti a pele virgem deslizar rumo ao fundo. Morri todo e por tudo, em suicídio instantâneo e incorpóreo. Morri!
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Deus acendeu a luz e J agarrara o bebé.

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