domingo, abril 27, 2014

Uma homenagem à Quinta do Monte d'Oiro e a José Bento dos Santos

Potpourri é uma palavra que me faz sempre sorrir. Não sei porquê. Aqui neste texto tem um significado além do significado o acrescento da simpatia com que fui sempre tratado por José Bento dos Santos e (recentemente) Francisco Bento dos Santos, seu filho e parceiro.
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Conversei presencialmente com José Bento dos Santos não mais do que três vezes, guardando uma imagem de vivacidade e paixão por aquilo que faz. Vendo-o na televisão percebi a mesma simpatia, que diria de franqueza, e alegria. Contei a Francisco alguns defeitos nos programas, mas José Bento dos Santos será sempre um Matateu (sou Belenenses) num programa de gastronomia (no seu sentido verdadeiro, incluindo o vinho).
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Há diferença entre conhecimento e cultura. A afirmação dá para horas de debate, peiperes (papers) universitários, pós-graduações. Não entrarei fundo, resumo: tem conhecimento, experiência e, sobretudo, mundo. O «mundo» ajuda muito.
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Aparte. Contaram-me uma vez que um famoso financeiro (não me recordo do nome) fazia as entrevistas finais aos candidatos a um emprego qualificado. Uma equipa já teria questionado, passado por testes de vária ordem e ficando «licenciados» teriam de ir à oral com o banqueiro.
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Certamente nervosos, do que iriam falar? Do óbvio, cifrões, parcelas, margens, taxas de juro, spreads... ou... música, desporto, gastronomia, ciência, banda desenhada ou outra arte... e era aqui que entrava a decisão. Gente que sabe fazer contas e tem olho para o negócio até abunda, mas quem tem «mundo» tem a vantagem de saber usar microscópios e telescópios, transmitindo esse conhecimento transformado em cultura. Quem tinha «mundo» era quem ficava com o lugar, ainda que tivesse conversado acerca dos lacraus do Saara e o banqueiro disse não soubesse. O financeiro lia os olhos, a expressão da boca, a dança do corpo, a vivacidade, as vistas largas.
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É essa a ideia que transporta José Bento dos Santos. Constou-me, acredito, que faz harmonizações gastronómicas com música. Óbvio? Talvez não – Há mais quem tivesse feito, mas por marquetingue e não por efervescência do produtor.
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Não sei se cultura implica alegria ou só contentamento ou se pode ser macambuzice ou só isso. Para mim, cultura implica paixão e paixão é dor, é explorar o «ser» amado até à alma. É isso que vejo em José Bento dos Santos.
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A primeira vez que convivi com José Bento dos Santos foi numa reportagem que fiz para o programa (agricultura e pescas) «Da terra ao mar», transmitido de 2004 a 2009, na RTP 2. Penso ter uma cultura acima da média e uma inteligência abaixo do meio, mas consigo saber calar-me quando não sei, quando o oponente sabe mais, ou quando o parceiro me fala sobre o «mundo» e me arrebanha a atenção.
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Chegados à Quinta do Monte d’Oiro, José Bento dos Santos tratou de mostrar a sua família vegetal, contando sonhos para fazer, falando de amizades e seus significados.
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E assim continuamos até ao almoço, em que me brindou com um excelente vinho da Borgonha... abriu-me mais uma janela para o «mundo», tão raras são as vezes em que provo vinhos de grande calibre e doutros países. Ainda o tenho na boca da memória.
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Voltando à Quinta do Monte d’Oiro... não gosto do nome da quinta e disse-o, talvez sendo mal-educado com o meu anfitrião. Só há uns meses, conversando com Francisco Bento dos Santos, percebi: Monte d’Oiro por causa da tonalidade dourada que assume no pôr-do-sol. Quinta do Monte d’Oiro é nome bonito e poético... «mundo».
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Obviamente que «conheço» muito pior Francisco Bento dos Santos, mas parece-me herdar do pai o gosto pela vida grande (não é vida em grande).
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José Bento dos Santos tem uma paixão pelos vinhos da Côte du Rhone e pelos de Chapoutier, especialmente – foi a impressão com que fiquei. Na visita pela Quinta do Monte d’Oiro, o meu anfitrião revelou-me dois dos seus sonhos: plantar uma vinha igual a uma velha que existe no Domaine e outra com os três melhores clones dessa vinha ou duma outra muito boa também – não me recordo. Em troca, o amigo francês plantou touriga nacional.
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Se não erro, as vinhas são quase só de syrah e de viognier, casta branca que tempera a tinta – à moda da sua apaixonada região francesa. Mas há ainda petit verdot, touriga nacional e tinta roriz.
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Os syrah (mais viognier) de Bento dos Santos são icónicos. Melhor, pior, igual são injustiças. Não posso dizer que são os melhores syrah portuguesas, mas posso afirmar que se não são, são quase...
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Volto atrás! Corrijo. Francisco Bento dos Santos vai pelo «mundo» do pai. Prova? O vinho feito para a Tasca do Joel, restaurante de Peniche, evocando a prova do campeonato mundial de surf que ali tem decorrido desde 2009. Não me recordo ao ano do campeonato a que se refere nem à colheita. Lembro-me é da festa, do vinho. A diversão começa no rótulo, um chinelo de enfiar no dedo – flip flop, dizem lá fora. O sapato de praia formado por palavras alusivas ao surf e seu ambiente. Não vou comentar o vinho, até porque foi (é) uma brincadeira.
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Neste momento impõe-se um pedido de desculpas a José Bento dos Santos (provavelmente a toda a sua família) por uma crónica que escrevi sobre o vinho que homenageou António Carqueijeiro. O que está escrito e publicado, está escrito e publicado, e o que entra na net nunca mais sai, mesmo que seja «impossível» de encontrar.
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Avaliei o Homenagem a António Carqueijeiro 1999 com nota oito, numa escala decimal. Relembro ou conto, que a minha escala de notação (de prazer) não é óbvia, pois o três já é positivo. Não vejo por que hei-de elaborar uma escala de vinhos «evitáveis» (dois) ou «imbebíveis» (um). Ora, oito significa «fantástico».
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A nota é muito boa, mas o que tem de errado? Trata-se duma homenagem e hoje, com mais pensamento, considero não ter o direito de classificar a oferta que alguém atribui a um amigo, sobretudo se esse amigo já não está na carne. Podem dizer que o vinho estava à venda e que o comprei, pelo que posso dar-lhe uma nota. E não interessa se foi caro ou barato nem a sua relação entre a qualidade e o preço (coisa que me diz zero). Não, nop, nestum... homenagens, não são meras lembranças, não tenho o direito de as classificar.
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Aprendi sozinho, porque foi por me ter posto a matutar. Não sendo estúpido (embora fique abaixo da média) consegui pôr-me no «lugar do outro». Espero não ter ofendido José Bento dos Santos, provavelmente nem leu a crónica (de toda a forma, que significado tem este blogue e que importância tem o seu autor?). De toda a forma peço-lhe desculpa e a todos os que se terão melindrado.
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De modo diferente, poderia escrever acerca do Paisagens por José Avillez 2007 – mas tendo-se tratado duma oferta, e num contexto que não vou explicar, abstenho-me de dizer... o mesmo acontecendo com o Quinta do Monte d’Oiro Reserva 2008 e o Quinta do Monte d’Oiro Madrigal 2012.
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Vendo, percebendo, o mesmo encanto em mim, Francisco Bento dos Santos ofereceu-me uma colecção de DVD do programa televisivo «O sentido do gosto», obra do seu pai.
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Por tudo o que escrevi, percebe-se a minha estima por José Bento dos Santos, apesar de nos termos cruzado poucas vezes. Entrou, pela «janela» muitas vezes em minha casa, por isso tenho o direito a sentir afecto. E por tudo o que escrevi, mesmo sem nota de prova ou de apreciação, os vinhos que citei... nem é preciso pensar.

Restaurante Aviz, além de comida de eleição, muita história e estórias


Cláudio Pontes, de 33 anos, é o novo (Novembro)  chefe de cozinha do Hotel Aviz, em Lisboa. É um cargo de grande responsabilidade, por causa de toda a história que o nome do hotel encerra. Além da marca antiga e de prestígio, nele radica um título de responsabilidade: a de herdeiro do chefe João Ribeiro, o cozinheiro de Calouste Gulbenkian. Só dele? Sim, pois a dada altura o milionário arménio tornou-se no único hóspede do estabelecimento.
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Para não esmagar com história Cláudio Pontes, avanço com o motivo da crónica e depois conto o resto. Micaelense, cursou na Escola de Hotelaria e Turismo da Pontinha, em Lisboa. Em 2001, ingressou no Hotel Le Méridien, da capital portuguesa, como primeiro cozinheiro. Depois esteve no Hotel Miragem, em Cascais, onde foi chefe de partida e responsável pelo peixe, até 2006. No ano seguinte, junta-se a Aimé Barroyer no Pestana Palace Hotel como subchefe, acompanhando-o depois até ao Hotel Oitavos e no restaurante Tavares, como subchefe executivo, fazendo parte da equipa que obteve uma Estrela Michelin.
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Se está ao nível do mestre João Ribeiro é algo que poucos poderão contar, devido à lonjura do tempo. Ainda assim, há que notar que no tempo do mítico cozinheiro não havia em Lisboa, nem no país, alguém que pudesse ombrear, ou se havia era caso raro. Portanto, à partida... como no Totobola: 1X2. Aposto no X.
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Há uns dias, uns meses (o tempo passa depressa), fui convidado para participar num almoço de apresentação da cozinha Cláudio Pontes. Obviamente que a lista é mais longa do que aquela experimentada, e é só desta que estou «autorizado» a comentar. Tenho de realçar, que terei de saltar dois pratos, visto serem de peixe (não é alergia, mas quase), julgo que especialidade do senhor. Como houve comes de recurso, não posso ajuizar tudo o que foi para a mesa.
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O Hotel Aviz serve pequenos-almoços das 7h00 às 10:30, almoços das 12h30 às 15:00 e jantares das 19:30 às 22:30. Mas a cozinha não encerra
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O que comi surgiu sempre muito bem casado com os vinhos, ambos Stanley. Convém fazer referência que os Stanley são produzidos pela Fundação Stanley Ho, presidida por Carlos Monjardino, proprietário do Hotel Aviz. As iguarias mais leves foram brindadas com Stanley Branco Chardonnay 2011 e os mais substanciais com Stanley Aragonês 2004.
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Uma nota prévia, um aparte: consta que a lampreia do Hotel Aviz é digna dos mais exigentes. O actual chefe apresenta algumas das emblemáticas receitas do ancestral hotel, como os «filetes de linguado de areia com laranja», «milhos e pleurotus», «bacalhau à Gomes de Sá à Aviz», a trabalhosa e demorada «perdiz à moda do Convento de Alcântara», «salmonete com batata-doce»...
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Primeiro veio uma «terrina de lebre com pistacchios e molho de frutos silvestres». Antes de comentar tenho de puxar as orelhas a quem escreveu pistacchios, pois o vocábulo existe em português: pistáchio. As árvores dos pistáchios são originárias da Ásia Menor, Irão, Iraque, Síria e Palestina. Sendo Calouste Gulbenkian de origem arménia, em tempos parte do Império Otomano, aqui está uma bonita (não sei se propositada) homenagem.
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Assumo-me como apreciador de lembre. Raramente um coelho me satisfaz, mas lebre é diferente. Esta estava gulosíssima, com (para mim) inesperados pistáchios e (mais ainda) molho de frutos silvestres.
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O primeiro prato de peixe foi «corvina do Tejo a mariscar ostras e mexilhões na Foz». Pois! Não comi, mas vir comer. O que vi nos olhos dos outros comensais foi um misto de surpresa, daquela que surpreende mesmo e que ainda assim podia ser óbvia. Como ser escrevente, digo: que designação tão bonita para um prato. Temos cozinheiro poeta.
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A segunda ronda vinda dos mares foi «pampo de Peniche, abafado em jeropiga, castanhas, grelos e “papo de rola”»... conhecem a anedota da família muito pobre em que, um dia, o filho chega a casa e diz:
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– Mãe, pão com queijo é tão bom!
– Comeste, filho?
– Não, mas vi comer.
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Embora tristemente sádica, a anedota ilustra o que vi. Gente a deliciar-se.
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O pampo tem vindo a aparecer nas mesas portuguesas. Sendo coisa aparentemente nova (é-o) ou será importado (não, porque veio de Peniche), ou é aproveitado por ausência das espécies tradicionais, vítimas de sobrepesca, ou imigrado. Numa breve consulta na internet, o pampo, também conhecido por peixe-porco ou peixe-mola, é um animalejo de apetite voraz e que abordou a nossa costa há coisa de 20 anos. Proveniente da costa da América do Sul, será mais um infeliz exemplo do aquecimento global do planeta.
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A seguir veio (finalmente) a vianda: «rabo de boi à “Rossini”» – deveria ser rabo-de-boi, mas vou tentar esquecer a mania, até porque esta é no português «antigo», pré-aborto ortográfico. Impecável! Embora não seja apreciador de rabo-de-boi distingo o bom do mau, e este estava im-pe-cá-vel. Ao que julgo ter ouvido, esta iguaria era uma das favoritas de Calouste Gulbenkian.
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«Soufflé de castanha» chegou depois e catitíssimo. Já que esta nota é curta, dedico-me a um erro de português (meu), que consiste em não mudar de parágrafo quando muda o assunto. Como escrevi antes, não provei os peixes, tendo-me sido servidos «paté maison» e «pato estufado prensado» – excelentes, mas talvez não tão brilhantes quanto poderiam ser (por culpa minha) por ter trocado as voltas ao cozinheiro, ficando, por isso, um pouco mancos na maridagem com o vinho. Mas tudo naice (do inglês «nice»).
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Para finalizar... ai minha mãe santíssima! Já que se falou em Rossini: GRAND FINALE! «Hidromel servido em bloco de gelo». Repeti, não sei se por duas vezes.  E para fechar o primeiro acto nada como uma das mais célebres áreas do compositor e gastrónomo Gioacchino Rossini.
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Se o tempo voltasse atrás e não tivessem destruído o património edificado das chamadas Avenidas Novas, Lisboa teria das mais elegantes vias da Europa. A sua centralidade, a progressão da economia e a vontade de ter sede ou escritórios junto as estradas com prestígio acabaram por tornar essa área de Lisboa numa comum zona citadina, com alguns prédios que só se toleram nos subúrbios.
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As Avenidas Novas faziam-se de «pequenas» casas de pouca altura, em Arte Nova, e alguns edifícios de apartamentos, com traça elegante. As Avenidas Novas são também associadas a edificações com o Prémio Valmor – um reconhecimento anual, por parte da Câmara Municipal Lisboa, de construções de elevada qualidade arquitectónica.
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Instituído, em 1902, por Fausto Queiroz Guedes, quinto visconde de Valmor, nem sempre foi atribuído, por vezes por largo período de tempo. Este troféu dividia-se em partes iguais entre o arquitecto e o dono da obra. Actualmente continua a ser atribuído, mas desconheço se a ele está associado algum valor pecuniário.
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Nessa elegância situava-se o Hotel Aviz, que ocupava o palacete Silva Graça, mandado edificar por José Silva Graça, director do jornal O Século, uma instituição jornalística infelizmente morta.
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Fugindo da ditadura do governo, fantoche dos nazis, de Vichy, Calouste Gulbenkian, milionário de origem arménia, chegou a Lisboa, em 1942, para embarcar para Nova Iorque. Porém, a simpatia e hospitalidade dos portugueses prenderam-no e daqui não mais saiu. Hospedou-se no Hotel Aviz, que, de alguma forma, lhe lembrava o seu querido Hotel Ritz de Paris, também instalado numa casa apalaçada. O ditador português, António de Oliveira Salazar, não quis deixar voar o passarão e arranjou de tudo o que o pudesse fixar, nomeadamente um sistema fiscal favorável.
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O milionário construíra um império de produção e negociação de petróleo, com uma posição na Iraq Petroleum. Acontece que a Grã-Bretanha lhe confiscou os bens (por ser cidadão de estado inimigo), nomeadamente as acções nessa petrolífera. Mais tarde e já com os seus bens mobiliários devolvidos, e com indemnização, participou nas negociações entre franceses, holandeses, britânicos e norte-americanos para a Turkish Petroleum, cabendo-lhe 5% do capital. Esta percentagem amplificou-lhe a fortuna e foi a base de ter passado a ser conhecido pela alcunha de «senhor 5%».
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Ora, um homem a quem não faltava dinheiro, nem vivência de mundo, não poderia instalar-se noutro lugar que não no carismático Hotel Aviz, que na época talvez só tivesse por rival o Hotel Avenida Palace, começado a erguer-se em 1890, nos Restauradores, «colado» à então principal estação ferroviária lisboeta, a estação do Rossio – aliás é comum na Europa existirem unidades de luxo junto a gares ferroviárias.
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O pequeno Hotel Aviz ganhou fama e qualquer celebridade que desembarcasse em Lisboa era lá que desejava instalar-se. Desde plebeus a reis, quase todos os ricos e famosos, em trânsito por Lisboa, ali pernoitaram: Frank Sinatra, Ava Gardner, Maria Callas, Marcello Mastroianni, Charles Boyer, Josephine Baker, Amália Rodrigues, a Rainha D. Amélia, Eva Perón, o duque de Windsor, o conde de Barcelona (herdeiro do trono de Espanha) ou o exilado Rei Carol da Roménia.
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Há, aliás, um episódio curioso com uma destas celebridades. Durante a Segunda Guerra Mundial, António de Oliveira Salazar ofereceu asilo a Maria Amélia Luísa Helena de Orleães Bragança, mais conhecida por Rainha Dona Amélia, a última de Portugal – o último Rei, seu filho, D. Manuel II, só viria a casar-se em 1913, permanecendo de pé sobre um caixote cheio de terra portuguesa.
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Nascida com cidadania britânica, Dona Amélia de Orleães Bragança foi a primeira pessoa da Casa Real Portuguesa a poder pisar solo nacional, após a Revolução de 5 de Outubro de 1910, que implantou a república (de tão triste sina). Após o casamento do seu filho D. Manuel II, Dona Amélia mudou-se, em 1932, para França, para o Châteaux de Bellevue, em Versalhes, junto a Paris. Julgo que terá sido por essa altura que assumiu cidadania francesa.
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Mostrando grande carácter, marca de grandeza real, Dona Amélia recusou o exílio oferecido pelo ditador português, aceitando as agruras da guerra e da ocupação alemã como qualquer outro seu patriota (dúvida se já era francesa).
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Com a capitulação da Alemanha, cujo tratado foi assinado a 8 de Maio de 1945, a antiga Rainha de Portugal correu para visitar o país que fora forçada a abandonar. Estando os bens reais na posse de organismos da República e não tendo ainda sido devolvidos os bens particulares da Casa de Bragança, o Hotel Aviz pareceu, a Oliveira Salazar, ser o local mais óbvio para instalar Dona Amélia.
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Pois que tal criou um problema... com ciumeira (em parte compreensível) de Calouste Gulbenkian, Oliveira Salazar correu o risco de perder o seu magnata. O séquito de Dona Amélia era vasto e o milionário arménio não queria confusões no seu Hotel Aviz. A solução foi encontrada ao mais alto nível do Estado, com papel activo do ditador. Segundo sei, Calouste Gulbenkian terá ficado temporariamente algures no Estoril, tendo-me também constado que teria sido no Forte de São Julião da Barra, edificação que já na altura servia de retiro de descanso de Salazar.
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Aparte o Hotel Aviz, há acontecimentos colaterais dessa época, que foi rica em novidades. O fim da Segunda Guerra Mundial trouxe a paz entre as duas facções da Casa de Bragança, a «Constitucional», descendente de D. Pedro IV, e a «Absolutista», sucessora de D. Miguel. Embora a 30 de Janeiro de 1912 se tenha assinado o Pacto de Dover, entre as duas facções, a família nunca se reconciliara verdadeiramente.
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Esse tratado entre Braganças estabeleceu que D. Miguel de Bragança reconhecia D. Manuel II como Rei de Portugal, tendo o monarca, seu primo, se comprometido que, caso falecesse sem descendentes, a chefia das Casas Real e de Bragança passaria para D. Duarte Nuno. Esse tratado tem sido contestado ultimamente, argumentando-se com falta de documentação e provas, por parte doutro ramo com ascendência em D. Pedro IV. A figura de proa é o fadista Nuno da Câmara Pereira, que defende o direito legítimo à chefia do duque de Loulé (actualmente D. Pedro de Moura Barreto). Contudo, é uma corrente minoritária entre os monárquicos portugueses. Esta via nem foi considerada a quando do julgamento sobre a posse dos bens da Casa de Bragança, que opôs D. Duarte Nuno a D. Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança (escritora e jornalista), que alegava ser filha ilegítima do Rei Dom Carlos, sendo sua mãe Maria Amélia Laredó e Murça. Assim, argumentava que, com a morte de D. Manuel II, seria ela a legítima herdeira da Coroa de Portugal e dos bens da Casa de Bragança.
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Embora o Tribunal Apostólico Sacra Romana Rota a tenha reconhecido, em 1972, como filha do Rei assassinado, D. Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança nunca venceu na justiça civil republicana. Litigando com D. Duarte Pio (actual duque de Bragança), a fidalga foi vencida, em 1982, no Supremo Tribunal de Justiça. Foi advogado dos actuais titulares o mítico João Camossa, monárquico, anti-fascista (preso e torturado pela PIDE) e um dos fundadores do PPM. Conhecido por andar mal-amanhado (mal-vestido e não apenas esteticamente), foi por muitos alcunhado de «anarquista».
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Recuando no texto e no tempo, foi um pouco antes da visita de D. Amélia de Orleães Bragança que se deu a reconciliação entre «absolutistas» e «constitucionais» (diferendo ainda não aceite por facções monárquicas residuais). O motivo foi o baptismo do filho de D. Duarte Nuno. A antiga rainha aceitou ser madrinha de D. Duarte Pio, nascido em Berna, em 15 de Maio de 1945.
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Com o fim das hostilidades na Europa, o continente refazia-se e Portugal (Lisboa) perdia o seu importante papel estratégico e geopolítico. Porém, as celebridades ainda se passeavam pela capital. Na crista da elite? O Hotel Aviz. Em 1950, a Life reconheceu o restaurante Aviz como sendo o mais sumptuoso do mundo.
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Sic transit gloria mundi... o tempo é cruel e o surto de desenvolvimento da Europa do pós-guerra, que soprou suavemente em Portugal, ameaçou o aristocrático Aviz. Com o surgimento de novas unidades hoteleiras de luxo, o Aviz passou de pequeno e exclusivo a pequeníssimo e exclusivo, mas sem novidade... Em Lisboa queria-se o novo cosmopolitismo, respirar algum novo ar. O Aviz perdeu importância.
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Primeiro chegou o Hotel Ritz, em 1952 – sendo um marco assinalável da corrente arquitectónica do seu tempo, com o traço de Porfírio Pardal Monteiro. O Ritz foi incompreendido pela sociedade, por romper com toda a estética conhecida pela pacóvia Lisboa, chegando mesmo a surgir anedotas depreciativas. O segundo golpe foi a pressão imobiliária. Em 1962, o Aviz fechou as portas e a cozinha. O valor da oferta financeira ditou a queda. No seu lugar ergueu-se o Hotel Sheraton, em 1972. Com desenho do arquitecto Fernando Silva, foi durante muito tempo o mais alto do país (hoje é o sétimo). Actualmente emblemáticos, e símbolos das correntes arquitectónicas das épocas das suas construções, esperemos que não venham um dia a ter o azar do Hotel Aviz ou do Hotel Estoril-Sol.
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Não escreverei tristezas, que o que lá vai, lá vai... Parece consensual que Calouste Gulbenkian gostava de João Ribeiro, ou o chefe não permaneceria no Hotel Aviz durante os 13 anos em que o magnata lá esteve instalado. Calouste Gulbenkian tinha uma relação curiosa com o cozinheiro. Admirava-lhe a cozinha, mas apoquentava-o frequentemente. Minudências e teimosias de quem tem muito para gastar e pouco para fazer.
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Uma das estórias que se contam é que o milionário costumava chamar o mestre João Ribeiro para o admoestar sobre... a temperatura do prato. Aquela receita, em particular, tinha de ser servida a uma temperatura específica e o milionário entendia que não estava correcta. Com divergência de opiniões, era chamado o termómetro para decidir. Muitas vezes ganhava Calouste Gulbenkian.
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Calouste Gulbenkian adorava Lisboa, mas por vezes sentia a falta de algum glamour das grandes cidades e capitais, nomeadamente da capital francesa. Com alguma frequência mandava o cozinheiro a Paris aprender clássicos e novidades... o que agora se chama «fazer formação».
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A experiência e conhecimento adquiridos por João Ribeiro e o seu convívio com Calouste Gulbenkian tornaram-no numa referência. Com escrita de José Labaredas e José Quitério, em 1996 foi editado, pela Assírio & Alvim, «O livro de mestre João Ribeiro». Nunca o vi e o que me consta é que se trata dum compêndio para «iniciados», gente da selecta sociedade alquimista da cozinha. Só quem conhece de tachos e deles faz vida, ou dedica largos dias e horas, lhe compreende a leitura, enquanto os mortais se perdem por falta de referências e cultura.
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Directa ou indirectamente, muita da história de Portugal, duma determinada época, passou pelo Hotel Aviz. Com o fecho em 1962, o restaurante Aviz conheceu diferentes localizações, nomeadamente Chiado, Amoreiras e Estoril. A minha memória do Aviz é na rua Serpa Pinto, no prestigiado Chiado.
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Depois de anos de inexistência, o Hotel Aviz ressuscitou em 2005, o ano que assinalou meio século sobre a morte de Calouste Gulbenkian. Hoje é um hotel de quatro estrelas, situado na rua do Duque de Palmela, juntinho à rotunda do Marquês de Pombal.
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Embora não tenha espreitado, mantém uma garrafeira de eleição (disseram-me). Tem mais genes do antigo: peças decorativas, serviço de mesa, como os pratos de porcelana exclusivos, fabricados pela Vista Alegre, e alfaias de mesa em christofle, um mimo raríssimo na hotelaria actual.
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Christofle é estabelecimento francês criado em 1830. A designação deve-se ao joalheiro francês Charles Christofle, que serviu o imperador Napoleão III. Embora a gama seja mais vasta, os faqueiros «em» christofle são os mais conhecidos, dando quase a ideia de que se trata apenas de cutelaria ou dum material. O «material» christofle resulta de processamento da prata (electrólise e galvanização). Com bom peso, tornou-se popular nas casas abastadas, com a vantagem, em relação à prata, no que respeita ao odor.

sexta-feira, abril 25, 2014

Manuel Jorge - 90 anos

Parabéns pai e amigo.

40 anos, valeu a pena, tendo todos razão de queixa? Hoje celebro a democracia e os 90 anos do meu pai - o 25 de Abril é como o Natal

O que é para mim o 25 de Abril? (Talvez sejam os primeiros algarismos que escreva no infotocopiável e hoje, por liberdade, não os escreverei por extenso). É um dado adquirido. É como o pão ou o jornal, a bica e o supermercado.
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O 25 de Abril é acordar ora bem-disposto ora a ralhar com a cedura. É não fazer a barba ou usar fato e gravata quando a isso não estou «obrigado». É andar em cuecas pela casa ou tomar um segundo duche num dia quente. É o que eu quiser, em casa e na rua.
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Não! É mais. Não pensando quase nada sei que não é, mas assim o vivo todo o ano, esquecido do que representa.
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Como muitos portugueses, tenho sangue roxo, mistura do vermelho proletário ao azul abastado. Bisneto de operária tabaqueira e de editor livreiro abastado, de automóvel, no princípio do século XX, e em casa grande no Chiado. Do outro, de gente de lavoura.
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Em 1974 tiraram-me fotografias no Templo de Diana, em Évora, vestia calças à boca-de-sino. Hoje, felizmente não se pode subir ao monumento, a bem do futuro, uma proibição democrática.
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De 25 de Abril 1974 lembro-me o mesmo que do 8 de Janeiro de 1973 ou do 7 de Agosto de 1975. Não sabia, mas vivia numa família de classe média, em que a minha mãe era funcionária pública e o meu pai artista plástico. Nas minhas férias, nas intercalares, ia com o pai para a varanda dizer adeus à minha mãe, já ia atrasada, por minha causa e pelas suas lentidão e teimosia na perfeição.
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Cresci entre discussões políticas. O meu pai, grato pela oposição (por ser a única entidade organizada) dos comunistas ao regime, inscreveu-se no PCP, pouco depois da revolução. Não foi aproveitar a maré. Nunca levantou ondas, mas fizera parte do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática - 1945 a 1948). Não se arrepende de ser comunista e não lhe peço que aos 90 anos, que hoje celebra, comente as mentiras das «democracias populares». Nem aos 90 anos nem aos 70, como infelizmente fiz, ferindo-lhe a dignidade do sonho duma «verdade» que iluminaria a Terra. Uma fé, como qualquer outra.
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Era miúdo, não sei a idade, e inscreveram-me nos Pioneiros, organização de camaradinhas, chefiada por camaradas que doutrinavam a primeira catequese da política. Estava feliz com a boina encarnada e o crachá com um passarinho amarelo com um cravo no bico, se não imagino mais do que era, um cravo.
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Lembro-me duma festa dos Pioneiros em que o camarada animador e cantor nos ensinou como devíamos rir... explico sem ser preciso nos termos; rir «eheheheh» era de oportunista (capitalista e de direita); «ihihih» era de mesquinho, de gente sem escrúpulos (capitalista); «ohohohoh» era o do grande senhor gozando com os seus operários; «uhuhuhuh» de escárnio displicente dum capitalista... restando o «ahahahahah», de amigo e de camaradagem (camaradagem – camarada – camaradinha – crianças de 6, 7, 8, 9, 10 anos). Nas festas havia pinturas murais, obras colectivas com estrelas, foices e martelos... (camaradagem – camarada – camaradinha – crianças de 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 anos).
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Crescendo, aprendi nas sebentas e encontros de camaradagem que a direita era fascista. Leonid Brejnev comandava as forças do bem e do progresso, regia democraticamente a terra dos trabalhadores e onde todos eram iguais. Os fiéis e beatos acreditavam, nele como nos anteriores e posteriores mandantes do Kremlin, como um católico garante que papa diz as verdades que Deus pensa.
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Aos 16 anos inscrevi-me na JCP. Não me arrependo desse acto consciente. Tenho de me ver à luz da influência paterna, da idade, do que sabia, do que imaginava, da época. Fui da associação de estudantes, não escondendo que era comunista, mas nunca sendo braço da jota. Participei em campanhas de rua. Em 1987, num autocarro de dois andares, aberto em cima e enfeitado com política, conheci a minha primeira namorada. Era tímido (hoje sou um descaradão) e pouco lhe disse antes de perguntar se queria namorar comigo. Disse que sim e passámos a dar beijinhos. Uma vez até aparecemos, a 14 de Fevereiro, no Telejornal, numa reportagem sobre o Dia de São Valentim, que acabara de ser importado para Portugal. Ainda hoje sou amigo da RV e fui ao seu casamento.
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Em 1989 fiz a aventura, com o VR e o PR, que todos os jovens queriam: o Interrail. Primeiro, uma estafadeira numa desconfortável e feia carruagem de compartimentos da CP. Depois, em Hendauye, transbordo para um luxo igual ao que por cá se chamava Intercidades e tinha portas automáticas, a carruagem da SNCF parecia um Bentley. Paris (Gare de Austerlitz ou Saint Lazare), 30 quilogramas às costas e a cruzar a cidade, que desconhecíamos, até à Gare du Nord. Chegámos tão tarde que a estação estava fechada, tentámos dormir no vão dum WC público, estava frio e era Agosto – às 5h00 mendigos discutiam em português, com todos os palavrões disponíveis.
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De manhã, mesmo sabendo que não havia ferry para a Irlanda, imaginámos a boleia num cargueiro, afinal de contas Le Havre é um porto importante. Éramos adolescentes e cinéfilos. Seguimos para essa cidade portuária, abalados pelas 20 e tal horas de comboio, pela enormidade de passos dados em Paris entre duas estações, pela noite desdormida à porta do WC, mal comidos (poupando os francos e fazendo contas ao que davam em escudos). Em Le Havre pedimos um mapa no turismo, olhámos, tirámos referências físicas, traçámos cálculos e achamos ser viável arriscar uma boleia de cargueiro. Mas a planta estava malfeita, fora de escala... em que os 100 metros da rua da estação eram metade dos 3, 4 ou 5 quilómetros do caminho até aos cais. Le Havre foi o zimbório da estafadeira. No dia seguinte havia ferry, comprámos o extra e procurámos abrigo para noite. Ficámos num hostal com dois beliches por quarto, dormimos tão bem...
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Chegou o dia do ferry e embarcamos no Saint Killian para Rosslare ou Waterford. Dormimos nos sacos-cama sob umas escadas e depois no chão da discoteca. Conhecemos Dublim através da amizade do Patrick, que conheceramos no comboio e nos garantiu quarto num hostal onde uma irlandesa adorava portugueses. Viera cá de férias e apaixonara-se por um algarvio. Ele era ladrão e ela suspirando (ainda) regressara à pátria quando foi preso, nunca deixando o carinho pelo nosso país.
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Vimos a Irlanda e já dávamos indicações em Dublim a outros turistas. O Patrick mostrara-nos tudo. Por isto e por aquilo (não vou agora contar) desconfiava-mos que era do IRA – era mesmo, e importante, ao ponto da sua morte ter sido noticiada em Portugal em «todos» os jornais.
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Depois fomos a Londres onde uma amiga escocesa (conhecera-a em Lisboa, onde dava aulas de inglês) nos deu dormida na casa que dividia com uma amiga. A amiga era uma ex-pop star. Vaidosa e frustrada, certamente por falta de mérito, chocou-se por não conhecermos a sua banda, mostrou-nos o visível: discos de ouro, prata, platina, cartão, sei lá, pendurados nas paredes. Dera-nos um quarto e serventia do WC, cuja banheira mostrava falta de uso e o chuveiro ou não existia ou não funcionava. Podíamos usar o lavatório à vontade. Não disse «só o lavatório», mas percebemos que era «só» o lavatório. Uns dias, poucos, foi-nos dito que tínhamos de sair. Disse-nos desconfortável e de olhos tristes, a Jenny, a minha amiga... nunca mais a vi e soube dela na internet, blá, blá, blá...
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Queríamos ir à Escócia, mas detestaramos tanto Londres (os londrinos) que só a ideia de ter de voltar foi suficiente para seguimos para a Alemanha. Em Colónia, finalmente uma bica... e tantos escudos em tão poucos marcos. Fomos para Wuppertal, onde vivia a minha segunda primeira namorada. Ela não estava... o PR voltou para Lisboa e eu e o VR «dormimos» na sala de espera da estação ferroviária de Dusseldorf (Dusseldórfia – como mandam uns compêndios). A KH lá regressou da Baviera e vivemos dias felizes. Ainda hoje somos amigos, falamos regularmente, estive no seu casamento e só não fui padrinho pelo inconveniente de não me expressar em alemão.
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Num comboio, entre dois lugares que não me lembro, na Alemanha, havia uma grande galhofa, alegria sincera, daquela que só os grandes momentos permitem. Na Alemanha? Aqueles cinzentos? Não era Espanha, nem Itália... era Agosto e a Hungria cortara o arame farpado e abrira a fronteira com a Áustria. De todo o Leste comunista, dentro do qual a circulação de pessoas era relativamente fácil, começaram a fugir «porcos capitalistas» ou «porcos burgueses» ou «lacaios do grande capital»... Nesse comboio, um homem eufórico gritava a sua libertação, entrava e saía dos compartimentos. Entrando no nosso compartimento disse o que, pela alegria, percebemos: East Berlin! East Berlin! E batia com uma mão na outra, e uma voava como um pássaro. Libertara-se no primeiro dia da agonia da tirania comunista. Era o comboio da alegria.
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Já nessa altura questionava algumas coisas acerca da «Luz que iluminará o mundo» e dos «Amanhãs que cantam»... somatório de atitudes e afirmações, de palhaçadas (palhaçadas), vividas nas reuniões democráticas da JCP. A partir daí... digam o que disserem, tornei-me, aos poucos, ateu na religião comunista.
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Todos sabem que o PCP tenta sempre dizer, por meias palavras, que é dono do 25 de Abril. Abandonei a JCP, sem que a JCP me abandonasse... não era chamado para reuniões, mas para pintar muros e colar cartazes. Tentava entregar o cartão e não aceitavam. À força queriam prender-me numa fé que rejeitava e me agoniava... ainda assim tolerava, como um amante ferido e pouco convencido.
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A queda do comunismo foi a minha primeira desilusão. Não por terem caído as pedras, mas pelo milagre da reunião dum país amputado. Fui caindo com o muro, sentindo-me traído. Ano após ano, quase todos os meses, da rua Sousa Martins, número 8, a Picoas, em Lisboa, vinham convites para trabalho proletário, o que não tem mal... o que tem mal é nunca terem percebido que a segregação intelectual, por divergências, maiores ou menores, tidas dentro do colectivo – só lá dentro, no sítio próprio e com camaradas – criara um divórcio.
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Respeitando sempre os velhos comunistas, como os «beatos» e sinceros, ainda participei na Bienal de Artes Plásticas da Festa do Avante de 1991. E volto atrás: ajudei a montar a Festa do Avante por três vezes, encavalitado em tubagens, a carregar o necessário, a pintar, a fazer recados... O meu pai, artista plástico, sempre expôs na Bienal Festa do Avante e, todos os anos, apresentava obras de dimensão considerável. Nesse ano estive com ele... embora ferido de desamor. Camaradas artistas parabenzaram-me o trabalho, inchei de orgulho por os velhos mestres me aceitarem... acabei por nunca seguir pintura, o maior erro da minha vida. O meu pai foi envelhecendo e deixando, aos poucos, de fazer os trabalhos que sempre lhe pediam  Ano após ano, uma, duas, três obras de dimensão lhe pediam. Não davam tintas, davam os painéis. Ano após ano, o meu pai não cobrava, nem o seu trabalho, nem o custo, nem o tempo em que não pintava para ganhar a vida. Com a idade deixou de poder ajudar, nunca um telefonema de «camaradagem» ou preocupação mundana recebeu... se tivesse acontecido, o meu pai teria, num dia que chegará, a bandeira comunista sobre o caixão, mesmo estando eu hoje nos antípodas, faria questão de a deitar sobre a urna.
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Em 1991, por altura das eleições presidenciais, ainda não estava divorciado (completamente) do comunismo, «partilhava casa como um casal desavindo», recebi uma chamada, salvo o erro, da sede, da Soeiro Pereira Gomes – onde à entrada, cá fora, tem uma belíssima obra artística colectiva onde o meu pai participou, com um homem meditando sobre a vida, pensamento que o levaria ao «socialismo», antecâmara do comunismo. Nessa chamada pediam-me, embora já esquecido há uns tempos, que participasse na campanha do camarada Carlos Carvalhas.
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Ainda não entregara o cartão de militante e já desistira de o tentar fazer... é capaz de andar por aí numa caixa dentro duma gaveta. Com a solenidade e autoridade de quem tem uma missão importante, disse-me um local e hora para que fôssemos em acção de colagem de cartazes. Disse ao cura: votarei em Mário Soares. Disse-o e orgulho-me, que suspiro surdo e de libertação dei naquele momento. Votei Soares e não me orgulho. Era o mal menor. Depois desse telefonema solene, quase de ordem... até hoje... «Adeus Lenine».
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Já agora convém contar por que fui afastado das reuniões do colectivo. Numa saudável tarde, numa sala da rua Sousa Martins, sentámo-nos, uns 20 camaradas, à volta duma mesa quadrada, que «circundava» a sala, para debater uma importância que não me recordo. Cada um foi chamado a falar, a dizer livremente o que pensava e apresentar a solução. Depois discutimos livremente, argumentando, contra-argumentando, tese, antítese, síntese. Uns diziam azul, outros laranja, outros amarelo. Os camaradas que chefiavam a reuniam falaram antes e depois do debate, e, numa votação esquisita de braço no ar, ganhou a tese dos controleiros: não era nem azul, nem laranja, nem amarelo... era verde! Como venceu? O que aconteceu aqui? Estranho! Não me pareceu... Não percebi e não sei se os outros perceberam ou se estavam habituados a calarem-se.
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Entretanto, chegou à sede da JCP o relevante camarada Ângelo Veloso, que fora candidato presidencial em 1986, tendo desistido a favor de Salgado Zenha, um socialista às turras com o seu PS. Era ele o «paizinho» dos camaradas em formação e aprendizagem. O camarada ancião, que só cumprimentou quem quis, foi reunir-se com os chefes do nosso grupo. Pediram-nos que esperassemos. Meia hora depois, sensivelmente, Ângelo Veloso sorridente (com ar cínico), ladeado pelos camaradas mais graduados do grupo – com semblante entre o resignado envergonhado e o «estou-me a cagar, porque quero fazer vida disto» – apadrinhou, com pose de arrogância contida, o anúncio do resultado do tema que estivéramos a discutir e a decidir por votação livre, de braço no ar. Disse o controleiro (um sarjento tarimbeiro que amoxava às ordens do coronel prepotente): «Tal como falámos e aprovámos na reunião de hoje à tarde, a decisão é roxo». Exclamei ingenuamente: mas nem falámos nisso... nunca mais fui convocado para reunir democraticamente. Ângelo Veloso, anjo da boa nova, trouxera a verdade.
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Foi em 1991 que me libertei da igreja comunista. Finalmente livre. Por volta da campanha presidencial tive o meu 25 de Abril. Costumava fazer uns serões em casa duns amigos, que também pairaram sobre o PCP e nos andaimes da Festa do Avante. A minha amiga LB, a mãe, era camarada e ainda queria acreditar, numa assumida dúvida de fé, não estava, tinha ido a uma reunião da sua célula. Quando chegou perguntamos-lhe o que estivera a debater. «Estivemos a debater se o PCP deve ou não apresentar um candidato às presidenciais e, se sim, quem será a melhor pessoa». Demos uma gargalhada: No Telejornal o PCP, (centralismo democrático, debate interno do colectivo), anunciara a candidatura de Carlos Carvalhas. Vi uma pessoa cair, metaforicamente.
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Com asco e vómito de tudo aquilo em que acreditei – hoje perdoo-me pelo contexto. Respeito os velhos antifascistas comunistas, homens do ideal que havia disponível e que acreditaram que o comunismo era o «Amanhã que canta» e a «Luz da Terra». Respeito-os muito. Apesar de baixarem os olhos ao destino que Estaline deu aos combatentes da Guerra Civil Espanhola e do incómodo (ainda sentido) pelo Pacto Molotov-Ribbentrop...
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Nunca reneguei um amigo comunista, ou conhecido, nem nunca o insultei. Nunca ninguém, nem mesmo os priores do comunismo, em encontros fortuitos, me sopraram qualquer alcunha de fascista ou me destratou – reconheço. Os íntimos (os amigos-família) chamam-me «reaças», mas sabem quem sou, e não vou aprofundar. Alguns até dizem que sou de esquerda e que ando iludido (pode ser – não me importa, não me dói a consciência).
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A minha vivência pós-queda do comunismo ensinou-me outras coisas. Uma delas é que existem várias verdades e diversos modos de ver cada uma dessas verdades. Hoje sei que tão importante quanto o 25 de Abril foi o 25 de Novembro. Reconheço que, desde então, o PCP se integrou na vida democrática (não sei se por convicção ou conveniência). Não sei o que aconteceria se tomasse o poder, mas respeito, abominando as ideias.
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No tempo, onde andei às apalpadelas políticas, não tinha ideia feliz do 25 de Novembro. Fazia parte da minha carga. Deambulei politicamente e hoje, desde 2001, que voto, exceptuando nas autárquicas, no CDS. Não sei se mudei ou se apenas estive no local errado para mim, mas sempre me comportei com lealdade, respeito e verdade enquanto estive na JCP.
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Não sou prisioneiro de nenhum partido e duvido que alguma vez venha a aceitar inscrever-me nalgum. Quero a minha liberdade e não me apetece fazer concessões ou favores. É como os casamentos, quem não quer ser fiel, que poupe o parceiro à cerimónia, seus custos e ilusões. Nunca serei de partido nenhum, até porque não lhes quero pedir nada. Se por interesseirismo me guiasse, para tratar da vidinha, teria aceitado 1 dos 3 convites para entrar para a Maçonaria... para mim um avental é para cozinhar e as luvas para segurar os tachos. Penso sempre que os adultos que se juntam em grupos, com códigos, segredos, rituais e vestimentas têm uma adolescência mal resolvida. Maçonaria...
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Admiro pessoas e sei que têm fraquezas. Dos políticos: admiro a inteligência, mas não o cinismo. Admiro o raciocínio bem construído, mesmo discordando. Admiro quem sabe ouvir, porque ouvir é mais difícil do que falar. Admiro carácter e enoja-me a hipocrisia.
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Não quero falar dos vivos que admiro, a um dos quais enviarei por mensagem este meu texto e sem que o conheça sinto essa liberdade. Álvaro Cunhal, porque era sincero, à sua maneira, no seu possível e na coragem (teve-a na luta contra o salazarismo e faltou-lhe entre os seus). Sinto que, em determinada fase da vida, teve de conviver com uma mentira, calando-se por estar encurralado e criticando, pouco convicto, o assumir de responsabilidades e de penar de Santiago Carrillo, homólogo espanhol. Como inteligente, penso que sofreu. Admiro a coragem de Salgueiro Maia e a dignidade de Marcello Caetano.
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Uma excepção quanto ao falar de vivos. Citei o herói que de Santarém seguiu para Lisboa, por isso tenho de falar na desilusão terrorista, que hoje se esquece nas notícias, de Otelo Saraiva de Carvalho. Ainda antes das FP 25 de Abril houve as ordens de assassínio de opositores, alguns assinadas em papel em branco. Podia ter sido um herói, mas não quis, desde a «segunda hora» da revolução. Com o nome trágico que Shakespear deu ao seu mouro, o Otelo português, que quis ser actor, é uma personagem trágica. Leia-se e oiça-se as afirmações dos últimos anos e perceber-se-á que sonha, sonha mal, mas é um sonhador, o estratega do 25 de Abril, talvez por isso. Não endoidou, assumiu a personagem que algum público lhe pede.
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Reconheço a António de Oliveira Salazar o mérito de pôr as finanças públicas em ordem. De resto, se houvesse Inferno, que o Diabo o cozinhasse em óleo de travões, em lume forte e por longo tempo.
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Respeito os velhos comunistas na inversa proporção dos fascistas conscientes (ou doutro defensor de totalitarismo). Respeito um velho fascista (idem) que acreditou honesto, na inversa proporção dum hipócrita «democrata», comunista ou qualquer «ista». Respeito as pessoas e tento compreender-lhes pensamentos e opções. Não tenho de aceitar o que defendem.
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O 25 de Abril valeu a pena?
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O 25 de Abril? Um dia entrei num táxi e o motorista gostava de falar, deu na política. Era salazarista e tinha ódio à democracia. Contou-me que nascera numa família pobre e rural e que viera para a cidade procurar uma vida melhor. Questionei-o se não seria um contra-senso. Pois que não era, garantiu-me. Assumi-me de direita e democrata (coisa absolutamente compatível apesar do que diz o PCP e da crença do chauffeur), contei-lhe que a família nunca passou mal e que tinha tido um tio detido durante uma campanha política de apoio ao general Norton de Matos, que até fora suave. Tentei fazer-lhe ver que democracia não é esquerda nem direita, e que tão béra é o fascismo como o comunismo. Questionei-lhe o atraso de país em 1974. Pois que não, era salazarista (e o salazarismo foi muita coisa e teve tempos e modos).
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Chegando ao meu destino disse-me que tinha muito orgulho por ter conseguido que os seus dois filhos se tivessem licenciado. Cinicamente respondi-lhe: «o senhor venceu a discussão! A partir de hoje serei salazarista. Como é possível que filhos dum taxista se tenham formado?» É que ele era povo e eu duma família com alguns pertences. «Não fazia-mos parte do mesmo estrato, não éramos iguais. Lamentável, o 25 de Abril tinha dado hipótese de estudar a filhos dum taxista». Despedi-me e fechei a porta, enquanto o homem abazurdido se engasgava no que queria dizer. Não tenho a certeza se não lhe dei um «viva Salazar».
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O 25 de Abril valeu a pena?
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Conheço um agricultor, de várias entrevistas, que usa o apelido Cunhal. É de Montemor-o-Novo e a família terá, à volta, 2.000 hectares. O seu avô era primo de Álvaro Cunhal, que lhe terá ligado a informar que as herdades seriam ocupadas e para não oferecer resistência.
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Numa promoção a uma reportagem televisiva, surge um agricultor (esse) – o vídeo é curto não diz que carrega Cunhal nos genes nem que é proprietário de vasta terra, que foi ocupada na Reforma Agrária – a quem perguntam: «A terra a quem a trabalha»?... Responde Cunhal Sendim: «A terra a quem a respeita». Pratica agricultura livre de produtos de síntese, inscrita num movimento ecologista mundial chamado de biodinâmica.
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Valeu a pena! A paz deste agricultor é o caminho andado pelo tempo que faz a história. Memória, mas futuro. Indiferente a comunistas e a ressentidos, que lhe criticam a festa, abre ao mundo a Herdade do Freixo do Meio a 25 de Abril. É a celebração da Primavera num dia feriado.
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Para mim, o 25 de Abril não é poder beber Coca-Cola, é poder acender um cigarro com isqueiro sem ter obrigado a possuir licença.
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O 25 de Abril é poder conversar sem ter de olhar em volta.
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O 25 de Abril é sistema universal de saúde, ensino público para todos, segurança social (que começou no marcelismo, reconheça-se), é saneamento básico, direitos de pensamento e de expressão, vias de transporte condignas contra o isolamento, é a erradicação da pobreza.
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O 25 de Abril para mim não é unicidade sindical, não é sindicalismo como profissão de protesto (tantas caras repetidas), porque sim ou porque não. Em que a lei que hoje é má, dentro dos anos será uma conquista que o Governo quer alterar por malefício (sádico ou interesseiro).
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O 25 de Abril para mim é não ter piquetes de greve a impedir de trabalhar quem o quer fazer. Se querem convencer, que o façam, mas que não barrem caminhos.
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O 25 de Abril para mim é poder comprar uma revista pornográfica, mesmo que me chamem machista e abusador da mulher-objecto.
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O 25 de Abril é poder discutir o aborto, concordando ou discordando com a sua criminalização, suave ou pesada, ou sancionatória... e sou contra a legalização do aborto (com umas nuances que não quero agora comentar).
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O 25 de Abril para mim é ter o direito de discutir o direito à vida e o direito à morte, desde que a eutanásia seja conscientemente decidida pelo próprio e que o agente o faça voluntariamente.
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O 25 de Abril é poder dizer que morreu de cancro, e não de «coisa má», «coisa ruim», «doença prolongada», dito baixinho, por causa das vergonhas.
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O 25 de Abril é poder haver suicídios, porque ninguém se suicidava.
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O 25 de Abril é a minha luta pela compreensão das doenças mentais. No caso, escrevo da que sei, da minha. Assumo-me publicamente como doente mental, tentando mostrar uma «normalidade» e explicar o que conheço: bipolaridade não é ter duas personalidades ou dois caracteres e que um depressivo não é um preguiçoso. Explico que os doentes mentais se integram na sociedade, que sabem, querem e conseguem trabalhar como qualquer pessoa saudável. Que há fenómenos passageiros e reactivos e que outros são crónicos e/ou graves, e que há propensão genética, que não passa com o Sol a brilhar nem se agrava com os dias de chuva. Que o suicídio não é uma cobardia (ou acto heróico), mas a última esperança. Que bipolaridade ou unipolaridade são doenças como a diabetes ou alguns tipos de cancro ou...
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O 25 de Abril é poder ser publicada a notícia que um padeiro perdeu um dedo durante o fabrico do pão e que este aparecera dentro duma carcaça – caso real.
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O 25 de Abril é beijar a minha namorada na rua, fazer nudismo, não fazer nudismo, ser gay, ser femeeiro, ser bissexual (coisa que dificilmente entendo), ser abstinente (idem).
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O 25 de Abril é não haver filhos de pais incógnitos.
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O 25 de Abril é ter a liberdade e a consciência de que os outros também a têm.
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O 25 de Abril é poder ser Espírita com a mesma liberdade e naturalidade de ser Católico Apostólico Romano.
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O 25 de Abril é a minha mulher poder sair do país sem precisar da minha autorização.
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O 25 de Abril é não ter de ler nas entrelinhas nem atentar as nuances do falar.
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O 25 de Abril é respeitar a democracia representativa, sem manifestações na casa onde os eleitos, bem ou mal escolhidos, estão na sua função. Da esquerda à direita. É igual!
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E agora, 40 anos depois? Estamos onde? Onde queríamos, onde queremos, onde merecíamos, onde merecemos?
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Há os donos da democracia, como o PCP e o BE. Não compreendo uma coisa: ou o povo é todo estúpido e não lhes dá a governação (e vão 40 anos de liberdade) ou estas forças não são as únicas representantes das «classes trabalhadoras». Havia de haver doutrinação, não era? É por essas que desconfio da lã dalgumas ovelhas.
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Não estamos onde queríamos e temos o que merecemos. Se os partidos que têm governado o país têm sido os mesmos e estamos mal, que haja mudança, à esquerda (à «verdadeira», o PCP) ou a outra, que é moderna e junta estalinistas a trotskistas e arrependidos do comunismo convencional e desamparados de partido.
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Se o que há não serve e quem está não presta, que se faça outra coisa qualquer, que até pode vir de Marte. Que se faça a IV República (há uns pantomineiros que dizem que a actual é a segunda) ou se volte à Monarquia Constitucional.
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Devemos dinheiro e não pagamos. E como vivemos se precisamos de pedir emprestado para pagar o que temos? Nacionalizem tudo e nem um cêntimo sairá do país. Com a riqueza obtida pagar-se-á tudo e até mais, mas... gastando mais do que se ganha dará um resultado igual ou pior: a bancarrota. Que não se pague aos mercados, essa coisa abstracta (e abjecta)... e depois, quem nos empresta o dinheiro para cobrir o défice? Para quem não sabe, é mera mercearia: há o deve e o haver, sendo que pesa no lado do deve.
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É para não fiar, que se lembre o Gonçalvismo e o seu rasto económico, da indústria à lavoura, seus estragos e retrocessos. Não sei se já se contabilizaram os prejuízos das loucuras do PREC (Período da Revolução Em Curso, não vá um miúdo estar a ler-me e não saber).
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O 25 de Abril é higiene moral, e politicamente escrevendo.
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O 25 de Abril para mim é também não esquecer a herança de José Sócrates, doença envergonhada e que levará tempo a reconhecer e curar no PS.
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O 25 de Abril para mim não é este esmifrar a frio da vida.
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Então, 40 anos depois, valeu a pena?
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Em 1979, tinha eu 9 anos e queria jogar à bola, mesmo não tendo jeito nem para suplente, na Fonte da Telha, à porta de Lisboa, havia crianças a comer sopas-de-cavalo-cansado. O ano 1979 foi anteontem.
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Comecei a trabalhar em 1990, no Diário Económico. Fui conhecendo gentes, vivências, contextos, estórias e história. Não sei em que ano nem onde escrevia, mas sei que estava no começo da profissão... ouvi, pela primeira vez, que houve tempos em que uma sardinha se comia no pão e era dividida, era almoço ou jantar. Que um frango assado dava para duas refeições de quatro pessoas. Comia-se pão. Passava-se fome. E não foi só durante os anos da Segunda Grande Guerra.
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Contei à minha mãe, hoje com 85 anos. Alentejana, de família com lavoura, que adolescente deixou a terrinha para vir estudar para Lisboa. Nunca mais saiu e sempre se recusou a deixar o sotaque (não noto, mas todos mo garantem). Contou-me que os camponeses iam, ao entardecer ou à noitinha, bater à porta de trás, por vergonha, pedir alguma coisa para comer. Pediam uma cebola, umas azeitonas, pão, um fio de azeite. A minha mãe pode estudar, como toda a minha família, que toda somada não é larga em hectares.
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Tínhamos terra e bens suficientes para que a minha avó fosse madrinha de muita gente (para quem não saiba ser-se padrinho não era escolha de amizade, mas por interesse, garantia de sustento se a criança perdesse os pais ou estes não a pudesse sustentar).
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Não havia escola nas aldeias e o meu avô mandou construir uma, onde uma das filhas foi ensinar a escrever, ler e contar.
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O 25 de Abril valeu a pena?
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Foram cravos, porque eram as flores da época. Não só vermelhos. Rosas, brancos, com bordadura, como a vida que se queria. Quis o tempo que se memorizassem os vermelhos.
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São 40 anos e outro dia pareceu-me que não se fez Abril para «aquilo».Por que não podem discursar no Parlamento os militares de Abril? Porque não são parlamentares. Mas por que não podem, se fizeram com que houvesse liberdade? E por que só se lembraram agora? Por que não manifestaram essa vontade de falar nos 10 anos, nos 20, nos 30 anos... nos 22, nos 19, nos 39? E por que não esquecer o protocolo e deixá-los falar? Mas, e não é verdade, reconheçam os que de mim discordam, que o objectivo era somente bater neste governo. Ninguém saiu bem no retrato, declamou-se mal a poesia de Abril.
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O 25 de Abril valeu a pena?
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O 25 de Abril é poder dizer inconseguir. Sou pelo direito à vida, também da vida da língua, seja de quem for. Inconseguir é das palavras melhor inventadas. Que um político tenha o mesmo direito a criar vocábulos como qualquer escritor, artista ou arrivista.
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Não sei nada do 24 de Abril, sei que o meu mano faz anos, 55. Sei mais do 25 de Abril do que o meu pai faz anos – e diz, sem medo nem vergonha, que foi o dia mais feliz da sua vida.
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Acho que inconsegui definir o 25 de Abril (quem conseguirá? Mas melhor haverá), mas consegui contar parte da minha vida, toda ela dita em voz alta ou baixa, conforme o apetite o a «decência». Tenho 44 anos e nunca me calei. Nunca precisei, até quando fui insolente ou arrogante
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Terei inconseguido fazer o balanço (justo, injusto ou ambos) de 40 anos de liberdade, mas despejei confissões da alma.
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Sinceramente, inconseguiu-se muita coisa, mas conseguiram-se muitas mais.
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Nota: Hoje (ontem – o texto foi escrito a 24), na rua cruzei-me com um amigo (amigo vago e do tempo da JCP) que não via... ele sem um cabelo e eu com quase mais 40 quilogramas. Estava, na esquina da Paiva Couceiro com a Morais Soares. Antes que a ele chegasse ou me visse, um sexagenário dirigiu-se querendo dar-me propaganda do PCP. Pedi-lhe desculpa, mas a iria pedir àqueloutro, que conhecia desde o tempo da jota. O senhor fez um sorriso largo, supondo reconhecer em mim um camarada. Aproximei-me e logo sorrimos, exigi-lhe os prospectos e passámos do como estás para o sentido da vida e que destino lhe dar e como o dar. O 25 de Abril, claro... o nosso passado, as nossas opções, sem crítica ou censura. Ele com panfletos para dar e eu com pressa, ficámos uns 20 minutos à conversa, «perdendo» tempo empatando-nos de prazer, de tanta coisa para dizer e ouvir, conversa possível por causa do 25 de Abril. Finalmente desci a rua para tratar dos afazeres e ele ficou pregando o seu ideal. Mais tarde, ao subir a rua, lá estava a mesma banca com o Avante e os militantes dando papéis com palavras. Ao amigo contei uma anedota, daquelas em que a esquerda dá um encontrão à direita, mas com humor inteligente em que todos riem. À despedida saltou da minha boca uma surpresa indesejada e inverdadeira, sem malícia, uma despedida sincera: até um dia destes, camarada. Ficarei triste se ele não se apercebeu...
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Nota 2: Nunca (acho) explico o significado das obras de arte que completam os textos. Não quero e não devo, porque fazem parte duma peça chamada «posta» (post), em que uma parte não vive sem a outra. O texto é o texto e a obra de arte é a obra de arte, no blogue são parte do mesmo, há um conceito e não uma adição, são peças orgânicas. Hoje, porque é 25 de Abril, alterei um pouco as coisas, porque também preciso justificar algumas coisas. Lamento se desiludo por abdicar, de algum modo ou parcialmente, do princípio.
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Nota 3: A primeira imagem é a pintura «Queda de água abstracta», de Trey Speegle. Nela vi o 25 de Abril, o da festa e o da incerteza, o da justiça e a do risco totalitário. Nela, a ordem e a desordem, a liberdade.
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Nota 4: A meio do texto impunha-se a música «Sopa de cavalo cansado» dos Dead Combo. O texto é contexto.
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Nota 5: O segundo quadro, de Levi Wells Prentice, chama-se «Natureza morta, com maçãs e escadote»... porque as maçãs são a fruta da época dos cravos. Maçãs há muitas, como os cravos.