digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, novembro 14, 2014

Batom esborratado

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Queria ser bela. Sinistramente bela. Hipocritamente bela. Mortalmente bela.
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Queria ter a estupidez dos inteligentes, nunca me reconhecessem préstimo.
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Queria conseguir falar muito, que me julgassem frívola, disfarce de quem está calado.
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Queria ouvir sem ter de olhar e fingir engolir e fingir não entender, sem ter de vomitar.
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A meio da vida só tenho estrada. Para trás não se volta e a frente não é caminho.
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Pudesse mudar o tempo e pudesse acertar.
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Na dúvida, o que se abdica é mais luminoso.
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Queria ter coragem para ficar imóvel e que se a vida quisesse que me mexesse que a empurrasse ela.
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Não sou dono do meu destino, se tiver destino.
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Queria ter medo do escuro e chamar pela mãe ou deitar a cabeça no colo da avó.
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Para que serve a esperança quando o sonho não é de esperar?...
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Não tenho mais do que incertezas e dores na alma. Até as lágrimas estão secas.
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Queria ser bela e saber vender-me. Calar-me quando falei, calar-me quando não falei.
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Destinei-me não ter destino. Não sei se terei de esperar. Não sei se saberei ter de esperar. Não gosto de esperar. Para trás não se volta e para a frente não é caminho.
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Abri as pernas por amor, fecharam-me portas. Se não as tivesse aberto?
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Puta triste, puta dorida, puta parida.
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Só me falta o absinto e o Toulouse-Latrec.

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